Preguiça de pensar: o suicídio da democracia
Acompanho a trajetória política do deputado Chico Alencar desde sua gestão à frente da Secretaria Municipal de Educação, no Rio. De lá pra cá, todos os seus mandatos - como vereador, deputado estadual, e agora federal - caracterizaram-se por algo raro na política brasileira: a constante prestação de contas. Malas diretas, informativos, reuniões semanais, encontros em praça pública... Chico Alencar sempre esteve perto de quem o elegeu, sendo inquirido e cobrado, explicando passo a passo seus atos políticos em nome do povo. Sempre, e não apenas em vésperas de eleição.
Há uma semana, Chico foi hostilizado por "manifestantes dos trabalhadores" no Largo de São José, onde presta contas de seu mandato federal. Não teve sequer a chance de discursar, embora tenha feito questão de que os que protestavam falassem. Eles xingaram, gritaram chavões de ordem dignos do século XV. Conversar, discutir idéias? Nada disso. Foram premeditados e decididos à bagunça anti-cidadã. Exerceram a sua "ditadura pessoal" em cima de quem era o menos indicado para ser alvo disso.
(Aliás, parece que a ditadura deixou saudades mesmo. Adoramos um autoritarismo, é venerável puxar saco de algum chefe, buscar "salvadores da pátria" pra nação e assim ter um "homem-forte" pra responder por nós e a quem culpar, pro individual desencargo de consciência. Já dizia Bussunda em 94: "Nesta eleição, os brasileiros vão eleger aquele de quem vão falar mal nos próximos 4 anos!". A ladoreira de Brasília virou folclore, rimos do que nos violenta, num estranho sadomasoquismo autista.)
Chico Alencar está longe disso. Sempre se esforçou, na sua vocação de professor, em ensinar aos eleitores brasileiros o exercício pleno da cidadania por vias democráticas, o voto consciente, a fiscalização dos eleitos. Exige coerência dos eleitores. Exige que lhe exijam coerência, no que faz com prazer e transparência.
Enquanto isso, os verdadeiros obstáculos da democracia riem, sabendo que eles não são incomodados. Afinal, gasta-se energia jogando pedra em vidraças erradas. E os estilhaços vão atingir cada analfabeto político, cada idiota que não se importa com o destino de seu voto ou com o que os eleitos estão fazendo com o dinheiro público, com os destinos do país. Atingirá cada imbecil que pensa que a política é um joguinho de equações reduzidas, e não o lidar com a miscigenada cultura brasileira.
Abaixo, o texto de Chico Alencar sobre o infeliz episódio:
INTOLERÂNCIA DEZ
Nossa prestação de contas semanal no Buraco do Lume - que será feita até o fim do Mandato - ganhou um tom diferente na última sexta feira (15/08). Dirigentes de sindicatos de servidores e militantes do PSTU fizeram lá um protesto contra as mudanças na Previdência. Até aí tudo bem: sempre fomos muito críticos em relação a essa "Reforma" e, por isso, estamos arcando com as conseqüências políticas e disciplinares da nossa posição. Chico e mais dez deputados petistas não deram seu voto ao projeto do nosso Governo - três NÃO, oito ABSTENÇÕES -, descumprindo decisão partidária (o que é sempre sofrido para nós, do PT).
O que causou espanto e alguma indignação foi a forma agressiva como os manifestantes agiram. Muitos não queriam ouvir, e sim gritar e xingar. Revelando desconhecimento do Regimento da Câmara, insistiam em dizer que o voto de Abstenção é o mesmo que Sim, fingindo ignorar que, em Emenda Constitucional, o que conta são 308 votos favoráveis (3/5 do total), sendo qualquer outra atitude contrária à proposta, como destacou o Presidente Genoíno, tentando nos enquadrar no SIM.
Imaginem se no Lume estivesse, por exemplo, o grande Luís Fernando Veríssimo, que em sua coluna do O GLOBO (17/08) disse que a Reforma da Previdência tem "erros e acertos". Provavelmente seria linchado! Quem não distingue os verdadeiros adversários parece querer fazer disputa política menor: faturar com as reais contradições do PT e desgastar a esquerda partidária, "para tomar suas bases". É inadmissível que pessoas da trajetória de um Milton Temer sejam ofendidas. "Botar no poste os traidores", que são todos os que não votaram exatamente do jeito que alguns determinaram, alardeado como o único correto, no velho estilo do dogmatismo medieval ou do stalinismo, só serve para quem é sectário. Enquanto isso o PFL aplaude, a direita sorri. Tomara que os sindicatos não entrem nessa rota estreita e infantil.
sexta-feira, 22 de agosto de 2003
sábado, 16 de agosto de 2003
Assim eles vivem
Na última quinta-feira pude conferir outra ótima mostra de cinema no CCBB. Era o festival alemão "Assim Vivemos", uma série de documentários, animações e até filmes de ficção sobre o mundo dos portadores de deficiência. Para minha alegria, só documentários foram exibidos nesse dia. Quem assistiu às três produções da tarde saiu de lá enriquecido humanamente.
Criaturas que nascem em segredo é um filme brasileiro sobre nanismo, com vários depoimentos. Um casal de anões no qual a esposa nunca quis namorar um deles, até conhecer o marido - com o qual vive até hoje e teve duas filhas sem a disfunção. Suas falas são hilárias, como a do pai agradecendo a Deus pelas meninas nunca pedirem colo; ou ambos explicando que as filhas, ao crescerem, usavam os móveis e apetrechos dos pais para brincar de casinha. Outros anões contam sua experiência de vida, relatando problemas e preconceitos a serem vencidos até hoje, como: rejeição ou vergonha dos pais (a ponto de, quando crianças, não poderem sair de casa); gozações diárias, a dificuldade em serem aceitos pelo sexo oposto ou no mercado de trabalho. O filme ainda informa que, antigamente, não restava aos anões opções senão o circo ou uma assumida condição de exclusão pública, social, emocional, familiar. Apenas porque nasceram menores que a média.
Minha solidão, sua solidão mostra um dia na vida de um polonês que provavelmente tem paralisia cerebral (isso não é explicado, mas o cara parece o personagem do filme "Meu Pé Esquerdo", com Daniel Day-Lewis). Sempre na cadeira de rodas, membros atrofiados e dificuldade para falar, ele se desloca para o trabalho e demais atividades externas com determinação. Só aceita ajuda em situações que não lhe deixam opção, como ser colocado na cadeira ou vestir-se. No mais, o cara é um jornalista que entrevista as pessoas sabe como? Leva o gravador no colo e uma lista de perguntas para a pessoa. Depois, ouve pausadamente as partes da entrevista e as digita... com o nariz! (Estou digitando essa frase com o meu só pra sentir como é.) E são artigos imensos, a ponto dos editores pedirem para que ele seja mais breve. Ainda são mostradas, quase sem cortes, cenas de suas conversas com uma amiga, sua alimentação e a hora de ir dormir. Um ritmo lento que faz com que nós, espectadores, nos cansemos. Até lembrarmos que o cara enfrenta isso 24 horas por dia...
Minha mãe é uma rainha, graças a Deus, é um documentário. Se fosse ficção, dúvidas iriam pairar sobre sua veracidade, ainda que cravassem o bordão "baseado em fatos reais". Talvez até forjasse maldosas opiniões sobre os escrúpulos do roteirista. É a história de um casal onde a mulher é deficiente física. No que pude perceber, não possui movimentos da cintura pra baixo e tem as mãos atrofiadas. Pois um homem sem nenhum tipo de deficiência se apaixonou por ela, no que foi correspondido. Os dois "abrem o jogo", falando até dos assuntos mais íntimos do casal, como sexo e perguntas sobre a origem dos sentimentos de um pelo outro. Eles têm uma filha, e a mãe deficiente faz desenhos artísticos a lápis... com a boca, que são vendidos para ajudar na renda familiar.
Creio que um dos objetivos de tais filmes é demonstrar que qualquer deficiente, por mais difícil que seja seu problema, pode levar uma vida "normal" (usar essa definição até perde o sentido). É claro que todos eles (à exceção dos anões) possuíam apoio de entidades e condições financeiras para seus equipamentos e estilos de vida. Ainda assim, é deslumbrante acompanhar seus relatos, perceber que eles se aceitam como são. E uma questão à qual estou sendo levado mais uma vez: como preconceitos podem ser tão subjetivos em nós, a ponto de não percebermos que temos opinião formada e tendência comportamental em relação a pessoas que já sofrem por ser diferentes. Isso é cruel.
Ao mesmo tempo, é inevitável sentir-se bem por não ser deficiente. Mas ainda assim, questionar por que somos tão insatisfeitos com o que somos, às vezes inquiridores demais da Providência Divina com os rumos de nossa vida. Ou com a qualidade de nossos contornos em um mundo consumista e descartável, publicista da vaidade como virtude inquestionável, formando adoradores do corpo perfeito nunca atingível, criadores de culpas e terrores emocionais. Assim vivemos.
Na última quinta-feira pude conferir outra ótima mostra de cinema no CCBB. Era o festival alemão "Assim Vivemos", uma série de documentários, animações e até filmes de ficção sobre o mundo dos portadores de deficiência. Para minha alegria, só documentários foram exibidos nesse dia. Quem assistiu às três produções da tarde saiu de lá enriquecido humanamente.
Criaturas que nascem em segredo é um filme brasileiro sobre nanismo, com vários depoimentos. Um casal de anões no qual a esposa nunca quis namorar um deles, até conhecer o marido - com o qual vive até hoje e teve duas filhas sem a disfunção. Suas falas são hilárias, como a do pai agradecendo a Deus pelas meninas nunca pedirem colo; ou ambos explicando que as filhas, ao crescerem, usavam os móveis e apetrechos dos pais para brincar de casinha. Outros anões contam sua experiência de vida, relatando problemas e preconceitos a serem vencidos até hoje, como: rejeição ou vergonha dos pais (a ponto de, quando crianças, não poderem sair de casa); gozações diárias, a dificuldade em serem aceitos pelo sexo oposto ou no mercado de trabalho. O filme ainda informa que, antigamente, não restava aos anões opções senão o circo ou uma assumida condição de exclusão pública, social, emocional, familiar. Apenas porque nasceram menores que a média.
Minha solidão, sua solidão mostra um dia na vida de um polonês que provavelmente tem paralisia cerebral (isso não é explicado, mas o cara parece o personagem do filme "Meu Pé Esquerdo", com Daniel Day-Lewis). Sempre na cadeira de rodas, membros atrofiados e dificuldade para falar, ele se desloca para o trabalho e demais atividades externas com determinação. Só aceita ajuda em situações que não lhe deixam opção, como ser colocado na cadeira ou vestir-se. No mais, o cara é um jornalista que entrevista as pessoas sabe como? Leva o gravador no colo e uma lista de perguntas para a pessoa. Depois, ouve pausadamente as partes da entrevista e as digita... com o nariz! (Estou digitando essa frase com o meu só pra sentir como é.) E são artigos imensos, a ponto dos editores pedirem para que ele seja mais breve. Ainda são mostradas, quase sem cortes, cenas de suas conversas com uma amiga, sua alimentação e a hora de ir dormir. Um ritmo lento que faz com que nós, espectadores, nos cansemos. Até lembrarmos que o cara enfrenta isso 24 horas por dia...
Minha mãe é uma rainha, graças a Deus, é um documentário. Se fosse ficção, dúvidas iriam pairar sobre sua veracidade, ainda que cravassem o bordão "baseado em fatos reais". Talvez até forjasse maldosas opiniões sobre os escrúpulos do roteirista. É a história de um casal onde a mulher é deficiente física. No que pude perceber, não possui movimentos da cintura pra baixo e tem as mãos atrofiadas. Pois um homem sem nenhum tipo de deficiência se apaixonou por ela, no que foi correspondido. Os dois "abrem o jogo", falando até dos assuntos mais íntimos do casal, como sexo e perguntas sobre a origem dos sentimentos de um pelo outro. Eles têm uma filha, e a mãe deficiente faz desenhos artísticos a lápis... com a boca, que são vendidos para ajudar na renda familiar.
Creio que um dos objetivos de tais filmes é demonstrar que qualquer deficiente, por mais difícil que seja seu problema, pode levar uma vida "normal" (usar essa definição até perde o sentido). É claro que todos eles (à exceção dos anões) possuíam apoio de entidades e condições financeiras para seus equipamentos e estilos de vida. Ainda assim, é deslumbrante acompanhar seus relatos, perceber que eles se aceitam como são. E uma questão à qual estou sendo levado mais uma vez: como preconceitos podem ser tão subjetivos em nós, a ponto de não percebermos que temos opinião formada e tendência comportamental em relação a pessoas que já sofrem por ser diferentes. Isso é cruel.
Ao mesmo tempo, é inevitável sentir-se bem por não ser deficiente. Mas ainda assim, questionar por que somos tão insatisfeitos com o que somos, às vezes inquiridores demais da Providência Divina com os rumos de nossa vida. Ou com a qualidade de nossos contornos em um mundo consumista e descartável, publicista da vaidade como virtude inquestionável, formando adoradores do corpo perfeito nunca atingível, criadores de culpas e terrores emocionais. Assim vivemos.
terça-feira, 12 de agosto de 2003
Não sabe brincar... não brinca?
Mais um acontecimento ridículo a ganhar primeira página, manchete garrafal e ampla cobertura de nossa mídia: Estudante joga galinha preta em Marta Suplicy. Ela discursava no Centro Acadêmico XI de agosto, na faculdade de direito da USP - um santuário das manifestações democráticas estudantis desde o Estado Novo. Em meio ao discurso, a fêmea galinácea foi aos pés da mãe do Supla.
A prefeita permitiu que o "atirador" fizesse seu protesto ali do palanque, como que dizendo que democracia era o que ela fazia, não ele. Uma moça (provavelmente sua assessora) arrancou o microfone do rapaz depois de algumas palavras e virou-se com ar sério para Marta, como se dissesse: "Assim já e demais, né, chefe?". Os detalhes da cena eu não li, assisti no Jornal da Band.
Mais um acontecimento ridículo que traz sérias observações sobre nossa democracia e senso de cidadania.
Tanto da parte do jovem como da experiente política Marta Suplicy foi demonstrado que nós, brasileiros (e os políticos que elegemos), ainda não sabemos lidar com preciosidades como democracia e liberdade de expressão. E por não sabermos lidar, não temos paciência pra aprender. Acabamos achando que o erro está nas preciosidades, não nos seus manuseadores pseudo-garimpeiros.
Não sei qual era a real intenção do rapaz, mas quem iria levar a sério aquele protesto? Quando que atirar uma galinha contra a prefeita pode ser encarado como "oposição construtiva"? O que ele quis dizer, afinal? O próprio fez questão de nos esclarecer: "A Marta é um caso que se resolve só com despacho". Puxa, que resposta original! Que sacada genial! Além disso, que mais? Mais nada. Só um "faz-me rir" pro pão e circo cotidiano-midiático.
E Marta Suplicy? Que necessidade havia de dar voz, audiência e visibilidade a um protesto digno do Programa do Ratinho? E ainda ficar ali do lado, agüentando (e fazendo os demais presentes agüentarem junto) as "propostas" do atirador de aves? A ponto de uma assessora ter que cortar o clima constrangedor e, pelo que a TV mostrou, passar um pito na prefeita.
A liberdade de expressão é uma faca de dois gumes que requer técnica apurada para utilizá-la, se quisermos utilizá-la de maneira a contribuir para a democracia. O jovem desperdiçou a oportunidade do protesto, tacou a galinha e ficou surpreso ao ser recompensado por isso. Marta desperdiçou a oportunidade de valorizar protestos legítimos e feitos por gente que leva esse direito a sério - que não era o caso do jovem.
E a mídia dá destaque, a gente acha ridículo (com razão, embora mais ridículo seja o destaque da mídia) e acha que política é isso aí: um bando de malucos tentando sempre garantir o seu, com o bom senso mandando lembrança. Eu vou lá me importar com isso? Eu vou lá me importar com voto, eleição, fiscalização dos eleitos? Pra ver prefeita x galinha? E tem mais: pra mim, liberdade de expressão, só pra ver mulher pelada na telinha!
E aí não nos preocupamos com a qualidade da cobertura dos jornais, com a responsabilidade dos políticos, com as sutis manipulações da opinião pública. Ou pior: chegamos a nos preocupar, mas não estamos nem aí pra mudar a situação, pra perceber no que somos responsáveis (a começar pelo voto). Deixa rolar, não é comigo mesmo. Ô individualismo anestésico e suicida...
Se não tivermos disposição em nos aperfeiçoarmos no exercício democrático e no devido uso da liberdade de expressão - sendo críticos na avaliação dos meios de comunicação e da classe política - vale o ditado: não sabe brincar, não brinca. Mas e se brincarem pela gente?
Mais um acontecimento ridículo a ganhar primeira página, manchete garrafal e ampla cobertura de nossa mídia: Estudante joga galinha preta em Marta Suplicy. Ela discursava no Centro Acadêmico XI de agosto, na faculdade de direito da USP - um santuário das manifestações democráticas estudantis desde o Estado Novo. Em meio ao discurso, a fêmea galinácea foi aos pés da mãe do Supla.
A prefeita permitiu que o "atirador" fizesse seu protesto ali do palanque, como que dizendo que democracia era o que ela fazia, não ele. Uma moça (provavelmente sua assessora) arrancou o microfone do rapaz depois de algumas palavras e virou-se com ar sério para Marta, como se dissesse: "Assim já e demais, né, chefe?". Os detalhes da cena eu não li, assisti no Jornal da Band.
Mais um acontecimento ridículo que traz sérias observações sobre nossa democracia e senso de cidadania.
Tanto da parte do jovem como da experiente política Marta Suplicy foi demonstrado que nós, brasileiros (e os políticos que elegemos), ainda não sabemos lidar com preciosidades como democracia e liberdade de expressão. E por não sabermos lidar, não temos paciência pra aprender. Acabamos achando que o erro está nas preciosidades, não nos seus manuseadores pseudo-garimpeiros.
Não sei qual era a real intenção do rapaz, mas quem iria levar a sério aquele protesto? Quando que atirar uma galinha contra a prefeita pode ser encarado como "oposição construtiva"? O que ele quis dizer, afinal? O próprio fez questão de nos esclarecer: "A Marta é um caso que se resolve só com despacho". Puxa, que resposta original! Que sacada genial! Além disso, que mais? Mais nada. Só um "faz-me rir" pro pão e circo cotidiano-midiático.
E Marta Suplicy? Que necessidade havia de dar voz, audiência e visibilidade a um protesto digno do Programa do Ratinho? E ainda ficar ali do lado, agüentando (e fazendo os demais presentes agüentarem junto) as "propostas" do atirador de aves? A ponto de uma assessora ter que cortar o clima constrangedor e, pelo que a TV mostrou, passar um pito na prefeita.
A liberdade de expressão é uma faca de dois gumes que requer técnica apurada para utilizá-la, se quisermos utilizá-la de maneira a contribuir para a democracia. O jovem desperdiçou a oportunidade do protesto, tacou a galinha e ficou surpreso ao ser recompensado por isso. Marta desperdiçou a oportunidade de valorizar protestos legítimos e feitos por gente que leva esse direito a sério - que não era o caso do jovem.
E a mídia dá destaque, a gente acha ridículo (com razão, embora mais ridículo seja o destaque da mídia) e acha que política é isso aí: um bando de malucos tentando sempre garantir o seu, com o bom senso mandando lembrança. Eu vou lá me importar com isso? Eu vou lá me importar com voto, eleição, fiscalização dos eleitos? Pra ver prefeita x galinha? E tem mais: pra mim, liberdade de expressão, só pra ver mulher pelada na telinha!
E aí não nos preocupamos com a qualidade da cobertura dos jornais, com a responsabilidade dos políticos, com as sutis manipulações da opinião pública. Ou pior: chegamos a nos preocupar, mas não estamos nem aí pra mudar a situação, pra perceber no que somos responsáveis (a começar pelo voto). Deixa rolar, não é comigo mesmo. Ô individualismo anestésico e suicida...
Se não tivermos disposição em nos aperfeiçoarmos no exercício democrático e no devido uso da liberdade de expressão - sendo críticos na avaliação dos meios de comunicação e da classe política - vale o ditado: não sabe brincar, não brinca. Mas e se brincarem pela gente?
domingo, 10 de agosto de 2003
A morte absolve
Vão me chamar de insensível ou de politicamente incorreto por abordar este assunto logo após a morte de Roberto Marinho. Mas como este blog será um dos poucos (senão o único) veículos de comunicação a falar disso, vou em frente. Impressiona a capacidade da morte em absolver as pessoas, ou ao menos atenuar seu histórico.
O patriarca das Organizações Globo é tratado como jornalista, não empresário; como alguém que apostou no Brasil, que amou o país; alguém que sempre valorizou a cultura; que achava que o jornal deveria tomar posições políticas; etc e tal. E isso não apenas nas palavras de seu conglomerado, mas de concorrentes históricos e até mesmo de desafetos correntes (Brizola chamando Marinho de "adversário cortês" é um insulto a minha inteligência).
As homenagens a Roberto Marinho são capitalizadas ao extremo pela Globo (talvez saia do ameaçador abismo do "vermelho" em suas contas por um tempo). E, com a competência de sempre, inculcam nas mentes de milhões de brasileiros a magnânima figura do patriarca. Parece um herói que conta apenas com virtudes, que colaborou apenas para o bom serviço do país.
Será apagada da nossa memória a conivência da Globo com a ditadura; a teimosia em não cobrir o movimento "Diretas Já", até o povo gritar nas imagens de outros canais "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo". Também esqueceremos da edição do debate final entre Collor e Lula, decisivo para as urnas (mais a edição que o debate) para isso, aceitaremos a desculpa de Dr. Roberto, dizendo que "se equivocou" ao apoiar Jânio e Collor. Pequenos equívocos daquele que pouco poder possuía, do tipo que recebia candidatos a presidência em época de eleições para "conversas amenas".
Esqueceremos do monopólio da Rede Globo (99% do território nacional em transmissão), suprimindo as produções regionais e praticando "canibalismo" com os demais canais, tirando seus expoentes para "domesticá-los" no Jardim Botânico. Esqueceremos da censura ao documentário Muito Além do Cidadão Kane, da BBC de Londres, que tratava dos escândalos escondidos da Globo, bem como seus prejuízos para a sociedade. Um vídeo que contribuiria para o esclarecimento dos cidadãos, um princípio sempre apregoado pela ilibada carreira do Dr. Roberto.
O que vai ficar é o lema da Fundação Roberto Marinho: Educação é tudo. A mesma fonte que professa tal lema é a que nos traz loiras alienantes de crianças; que produz o raso e sempre tendencioso jornalismo na hora do jantar; que pela teledramaturgia explorou a situação difícil em que artistas perseguidos pela ditadura se encontravam na década de 70 (sem emprego) para dali sedimentar sua ideologia, sutilmente manipuladora de consciências. (Boni diz que a TV não tem a capacidade de mudar comportamentos. Outro insulto a minha inteligência)
A história, em nossa "Idade Mídia", como diz Ramonet, será contada com a cômoda comoção que a morte proporciona para tal objetivo. É preciso respeito ao luto, à família, ao protocolo, à memória. Agora não é hora para questionamentos sobre o legado. Nunca vai ser a hora para pensar se Dr. Roberto apostou tanto ou amou tanto o país como se diz. Se não amou mais seu poder consolidado em influenciar os destinos desse país em questão.
O luto oficial é de três dias. O luto de se enxergar os meios de comunicação como espaços democráticos e transparentes, esse, paradoxalmente, está mais vivo do que nunca. Parabéns, Dr. Roberto.
Vão me chamar de insensível ou de politicamente incorreto por abordar este assunto logo após a morte de Roberto Marinho. Mas como este blog será um dos poucos (senão o único) veículos de comunicação a falar disso, vou em frente. Impressiona a capacidade da morte em absolver as pessoas, ou ao menos atenuar seu histórico.
O patriarca das Organizações Globo é tratado como jornalista, não empresário; como alguém que apostou no Brasil, que amou o país; alguém que sempre valorizou a cultura; que achava que o jornal deveria tomar posições políticas; etc e tal. E isso não apenas nas palavras de seu conglomerado, mas de concorrentes históricos e até mesmo de desafetos correntes (Brizola chamando Marinho de "adversário cortês" é um insulto a minha inteligência).
As homenagens a Roberto Marinho são capitalizadas ao extremo pela Globo (talvez saia do ameaçador abismo do "vermelho" em suas contas por um tempo). E, com a competência de sempre, inculcam nas mentes de milhões de brasileiros a magnânima figura do patriarca. Parece um herói que conta apenas com virtudes, que colaborou apenas para o bom serviço do país.
Será apagada da nossa memória a conivência da Globo com a ditadura; a teimosia em não cobrir o movimento "Diretas Já", até o povo gritar nas imagens de outros canais "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo". Também esqueceremos da edição do debate final entre Collor e Lula, decisivo para as urnas (mais a edição que o debate) para isso, aceitaremos a desculpa de Dr. Roberto, dizendo que "se equivocou" ao apoiar Jânio e Collor. Pequenos equívocos daquele que pouco poder possuía, do tipo que recebia candidatos a presidência em época de eleições para "conversas amenas".
Esqueceremos do monopólio da Rede Globo (99% do território nacional em transmissão), suprimindo as produções regionais e praticando "canibalismo" com os demais canais, tirando seus expoentes para "domesticá-los" no Jardim Botânico. Esqueceremos da censura ao documentário Muito Além do Cidadão Kane, da BBC de Londres, que tratava dos escândalos escondidos da Globo, bem como seus prejuízos para a sociedade. Um vídeo que contribuiria para o esclarecimento dos cidadãos, um princípio sempre apregoado pela ilibada carreira do Dr. Roberto.
O que vai ficar é o lema da Fundação Roberto Marinho: Educação é tudo. A mesma fonte que professa tal lema é a que nos traz loiras alienantes de crianças; que produz o raso e sempre tendencioso jornalismo na hora do jantar; que pela teledramaturgia explorou a situação difícil em que artistas perseguidos pela ditadura se encontravam na década de 70 (sem emprego) para dali sedimentar sua ideologia, sutilmente manipuladora de consciências. (Boni diz que a TV não tem a capacidade de mudar comportamentos. Outro insulto a minha inteligência)
A história, em nossa "Idade Mídia", como diz Ramonet, será contada com a cômoda comoção que a morte proporciona para tal objetivo. É preciso respeito ao luto, à família, ao protocolo, à memória. Agora não é hora para questionamentos sobre o legado. Nunca vai ser a hora para pensar se Dr. Roberto apostou tanto ou amou tanto o país como se diz. Se não amou mais seu poder consolidado em influenciar os destinos desse país em questão.
O luto oficial é de três dias. O luto de se enxergar os meios de comunicação como espaços democráticos e transparentes, esse, paradoxalmente, está mais vivo do que nunca. Parabéns, Dr. Roberto.
quinta-feira, 7 de agosto de 2003
Um justo reconhecimento
É hora de falar de alguns links que coloquei aí do lado... A começar pelos mais importantes: MEUS AMIGOS BLOGUEIROS. Se você nunca se aventurou pelo mundo deles, talvez mude de idéia depois das opiniões abaixo:
INFINITAMENTE MAIOR QUE EU é o blog da minha queridíssima amiga Isabelle, futura formanda de jornalismo e cinema na UFF. A PoetIsa é escritora por vocação e sempre publica ali seus poemas e/ou crônicas. Mas o que gosto mesmo é a capacidade da autora em descrever seu dia e demais situações vividas em textos que não se enquadram em nenhum estilo literário - saindo-se originais - e cheios de sensibilidade, metáforas sobre a vida e o sinuoso caminho do escritor. Em breve, Isa vai publicar trechos de seu romance no blog. É isso mesmo: ela já escreveu um romance! Além de tudo, é precoce.
LANCHES é um blog que já agrada pelo diferente nome e pelo visual: uma clássica toalha de mesa quadriculada (como nas cantinas italianas, ou: a que parece a camisa da seleção da Croácia), um cardápio com demais opções blogueiras logo ao lado e criatividade nos posts e demais gráficos. Feito por Ivan Franklin e Adriano, que é meu colega de UFF e filho do Robertinho do Recife! O cara tem cultura no sangue. Pode estar certo que assuntos do dia ou da semana serão "cozinhados" por eles. E você pode "cozinhar" também!
ACROSS MY UNIVERSE é feito por uma boa parcela da inteligência brasileira: Louise Araújo. Eclética e polivalente, ela aborda com ótimas sacadas todo tipo de assunto, sempre linkando seus posts para que a fonte das discussões seja consultada. (Exemplo: se vai falar a partir de uma matéria ou notícia, no próprio post podemos ler a tal matéria ou notícia) Acho ótimo, é formadora de opinião que ajuda a formar formadores de opinião. Mérito da beatlemaníaca!
(IN)TENSO é o blog de um marcante amigo, Henrique Blecher. Outro escritor por vocação, que só agora descobriu que o blog é um "jardim" ideal para desabafar, publicar e compartilhar seu talento literário e suas idéias e ideais. Sente-se à vontade na poesia, deixando os leitores com a mesma sensação. E ainda comenta o que vem lendo e assistindo, o cinéfilo. Externamente e internamente, só alta qualidade produzida diariamente. Imperdível!
Que qui tu tá esperando?????
É hora de falar de alguns links que coloquei aí do lado... A começar pelos mais importantes: MEUS AMIGOS BLOGUEIROS. Se você nunca se aventurou pelo mundo deles, talvez mude de idéia depois das opiniões abaixo:
INFINITAMENTE MAIOR QUE EU é o blog da minha queridíssima amiga Isabelle, futura formanda de jornalismo e cinema na UFF. A PoetIsa é escritora por vocação e sempre publica ali seus poemas e/ou crônicas. Mas o que gosto mesmo é a capacidade da autora em descrever seu dia e demais situações vividas em textos que não se enquadram em nenhum estilo literário - saindo-se originais - e cheios de sensibilidade, metáforas sobre a vida e o sinuoso caminho do escritor. Em breve, Isa vai publicar trechos de seu romance no blog. É isso mesmo: ela já escreveu um romance! Além de tudo, é precoce.
LANCHES é um blog que já agrada pelo diferente nome e pelo visual: uma clássica toalha de mesa quadriculada (como nas cantinas italianas, ou: a que parece a camisa da seleção da Croácia), um cardápio com demais opções blogueiras logo ao lado e criatividade nos posts e demais gráficos. Feito por Ivan Franklin e Adriano, que é meu colega de UFF e filho do Robertinho do Recife! O cara tem cultura no sangue. Pode estar certo que assuntos do dia ou da semana serão "cozinhados" por eles. E você pode "cozinhar" também!
ACROSS MY UNIVERSE é feito por uma boa parcela da inteligência brasileira: Louise Araújo. Eclética e polivalente, ela aborda com ótimas sacadas todo tipo de assunto, sempre linkando seus posts para que a fonte das discussões seja consultada. (Exemplo: se vai falar a partir de uma matéria ou notícia, no próprio post podemos ler a tal matéria ou notícia) Acho ótimo, é formadora de opinião que ajuda a formar formadores de opinião. Mérito da beatlemaníaca!
(IN)TENSO é o blog de um marcante amigo, Henrique Blecher. Outro escritor por vocação, que só agora descobriu que o blog é um "jardim" ideal para desabafar, publicar e compartilhar seu talento literário e suas idéias e ideais. Sente-se à vontade na poesia, deixando os leitores com a mesma sensação. E ainda comenta o que vem lendo e assistindo, o cinéfilo. Externamente e internamente, só alta qualidade produzida diariamente. Imperdível!
Que qui tu tá esperando?????
domingo, 3 de agosto de 2003
A esperança morre se não tiver boca-a-boca da iniciativa
Chegou. Olhou. Criou expectativa. Com ela, a esperança. O processo de mudança interna pelo qual passava parecia dar seus primeiros frutos. Tomar a iniciativa parecia ser uma tarefa mais fácil, mesmo que fosse apenas por um olhar. Para sua surpresa, um olhar que encontrou reciprocidade, amabilidade. Uma boa noite à vista.
O lugar enchendo de gente e a direção do olhar garantida entre ele e ela. Os amigos à volta de cada um, mesas diferentes. Os risos, as piadas, os parabéns, a boa noite enriquecendo sua promessa. Outro olhar, dessa vez mais longo. Contudo, ele sem saber direito o que fazer, por um motivo terrível: medo.
Medo de que alguém perceba o flerte à distância e atrapalhe seus discretos planos. Primeiro esse contato visual, depois puxar assunto. Mas o medo da audiência o petrificava. Após um terceiro olhar, não sabia mais o que fazer. Até sabia, poderia chegar mais perto, mas tinha medo. Medo de o "zoarem", medo da opinião dos outros.
Sentia-se ridículo por perceber que se importava tanto com o que os outros poderiam dizer ou fazer a respeito. Parecia não ter personalidade para ignorar os que nada tinham a ver com isso e ir direto à resposta de seus anseios naquela noite. Tal inércia o fazia sentir-se ainda pior.
O tempo foi passando e as expectativas se resumiram a um contato posterior, mascarado talvez pela capa da internet - o que com certeza lhe daria mais segurança nas palavras, no agir. E o melhor: sem audiência.
As mesas esvaziaram-se, chegou mais perto, sentou em frente. Ela virada de costas, falando com alguém. Inexplicavelmente, todo o seu jeito extrovertido, seu amplo vocabulário e sua habilidade com as palavras o boicotavam. Completamente mudo, sabendo que precisava (e podia) dizer alguma coisa. Qualquer coisa! Fale! Fale!
Nada. Medo.
Sentiu vergonha de ter medo.
(A internet. Ali é mais fácil. O pouco contato pessoal aprofundado pela rede. É isso. Só isso. Tem que ser isso.)
Outro chegou e sentou junto. Ela imediatamente virou-se. O outro era tudo o que ele tinha que ser até então. Mas agora era tarde. Foi-se a chance, dissiparam-se os olhares. A boa noite havia acabado sem ter nascido. Aborto espontâneo.
De sobra, o martírio de presenciar a chance perdida, as expectativas agonizando sofregamente, a esperança morrendo. A internet não conseguiria dar conta de tantos reveses.
Sentiu-se derrotado. Fracassado. Perdeu feio pro medo, perdeu feio pra si mesmo. A iniciativa não aparecera conforme tudo levava a crer. Perdeu, momentaneamente, a capacidade de crer.
Ao final, um "tchau" simples, seco, sóbrio. Nada a ver com os primeiros olhares.
É difícil levantar a cabeça após o quase.
Chegou. Olhou. Criou expectativa. Com ela, a esperança. O processo de mudança interna pelo qual passava parecia dar seus primeiros frutos. Tomar a iniciativa parecia ser uma tarefa mais fácil, mesmo que fosse apenas por um olhar. Para sua surpresa, um olhar que encontrou reciprocidade, amabilidade. Uma boa noite à vista.
O lugar enchendo de gente e a direção do olhar garantida entre ele e ela. Os amigos à volta de cada um, mesas diferentes. Os risos, as piadas, os parabéns, a boa noite enriquecendo sua promessa. Outro olhar, dessa vez mais longo. Contudo, ele sem saber direito o que fazer, por um motivo terrível: medo.
Medo de que alguém perceba o flerte à distância e atrapalhe seus discretos planos. Primeiro esse contato visual, depois puxar assunto. Mas o medo da audiência o petrificava. Após um terceiro olhar, não sabia mais o que fazer. Até sabia, poderia chegar mais perto, mas tinha medo. Medo de o "zoarem", medo da opinião dos outros.
Sentia-se ridículo por perceber que se importava tanto com o que os outros poderiam dizer ou fazer a respeito. Parecia não ter personalidade para ignorar os que nada tinham a ver com isso e ir direto à resposta de seus anseios naquela noite. Tal inércia o fazia sentir-se ainda pior.
O tempo foi passando e as expectativas se resumiram a um contato posterior, mascarado talvez pela capa da internet - o que com certeza lhe daria mais segurança nas palavras, no agir. E o melhor: sem audiência.
As mesas esvaziaram-se, chegou mais perto, sentou em frente. Ela virada de costas, falando com alguém. Inexplicavelmente, todo o seu jeito extrovertido, seu amplo vocabulário e sua habilidade com as palavras o boicotavam. Completamente mudo, sabendo que precisava (e podia) dizer alguma coisa. Qualquer coisa! Fale! Fale!
Nada. Medo.
Sentiu vergonha de ter medo.
(A internet. Ali é mais fácil. O pouco contato pessoal aprofundado pela rede. É isso. Só isso. Tem que ser isso.)
Outro chegou e sentou junto. Ela imediatamente virou-se. O outro era tudo o que ele tinha que ser até então. Mas agora era tarde. Foi-se a chance, dissiparam-se os olhares. A boa noite havia acabado sem ter nascido. Aborto espontâneo.
De sobra, o martírio de presenciar a chance perdida, as expectativas agonizando sofregamente, a esperança morrendo. A internet não conseguiria dar conta de tantos reveses.
Sentiu-se derrotado. Fracassado. Perdeu feio pro medo, perdeu feio pra si mesmo. A iniciativa não aparecera conforme tudo levava a crer. Perdeu, momentaneamente, a capacidade de crer.
Ao final, um "tchau" simples, seco, sóbrio. Nada a ver com os primeiros olhares.
É difícil levantar a cabeça após o quase.
quinta-feira, 31 de julho de 2003
Ô raça branca!
Que é o porta-voz? Alguém escolhido previamente por determinada figura ou instituição pública para que manifeste publicamente a opinião da pessoa ou órgão. Principalmente para serem jogados às feras da imprensa em entrevistas coletivas. O porta-voz não emite a própria opinião, mas é de se esperar que tenha o pensamento parecido com o de seus chefes. Assim, a fidelidade e credibilidade da informação apresentada são mais garantidas.
Uma das grandes surpresas da atualidade é que os porta-vozes estão se tornando uma classe cada vez mais independente, mas sem perceberem. Ao terem oportunidade pública de manifestarem determinada opinião de determinado estrato social/cultural etc, estão mais desprendidos para essa missão. Mesmo que não sejam porta-vozes oficiais, escalados para tal.
Exemplo: hoje um desses programas de fofoca da tarde (não, eu não vejo, mas minha avó estava vendo e eu prestei atenção em um trecho. Pode zoar, dizendo que é conversa fiada, que eu critico mas assisto. Sei que minha consciência está tranqüila!) informava que a bala perdida que matará a personagem da novela das oito virá de um assalto. E que os atores escolhidos para interpretarem os marginais são os mesmos de "Cidade de Deus". No que ASTRID FONTENELLE (faço questão de dizer quem é) dispara:
"Mas tinha que ser mesmo! Não vai ser o playboy branquinho que vai atirar bala perdida, mas aqueles pretos da favela!"
Astrid enterrou de vez sua carreira. De promissora VJ dos embriões da MTV, ex-apresentadora de um ótimo programa de entrevistas ("Pé na Cozinha", na emissora musical mesmo), ela assume o que de fato é: porta-voz informal. A cretina entonação de sua voz era a mesma de quando respondemos a uma pergunta imbecil. Manoel Carlos agradece, boa parte da Zona Sul cercada de morros agradece, todos os que concordam plenamente com a tresloucada Astrid agradecem a prestação de seu serviço. Preto favelado é marginal. Playboy branquinho não é.
Sim, você pode pensar que a maioria dos marginais (ou seja, que estão à margem da cidadania, da sociedade, dos direitos) são de cor negra, e que poderia ficar inverossímil para o público de massa de "Mulheres Apaixonadas" algo diferente. Mas a ação dos porta-vozes é eficaz, não se iludam. O cientista político Hélio Santos afirma: "Ninguém nasce racista". E como difundir o racismo? Em doses certeiras que despertam o (in)consciente coletivo, que torce baixinho para que um porta-voz apareça de vez em quando para estereotipar, descer a lenha na auto-estima de quem já passou por 350 anos de escravidão e até hoje sofre as conseqüências disso.
Os frutos dessas irresponsabilidades não-assumidas (ou responsabilizadas como devem ser)? Obstáculos para o negro ter a chance de se afirmar, de vencer preconceitos e barreiras veladas apenas porque é de cor diferente. APENAS PORQUE É DE COR DIFERENTE! DE PELE DIFERENTE, DE SUPERFÍCIE DIFERENTE! Todo mundo sabe que acontece, e todo mundo se cala! Quem tem amigos negros: pense neles. Pense no que passam e no que você e eu, brancos, nunca vamos passar. Além disso tudo, ter que ouvir porta-vozes escrotos reforçando a violência e a raiva da qual tanto se protegem.
Emocionalmente, acabei gastando linhas com esse descarado desserviço de um lixo cultural da pior qualidade. Mas as sutilezas são mais nocivas. Tanto que eu e você, que concorda com o descrito neste artigo, podemos estar encampando sem saber. Afinal, a Cidade de Deus é o lugar mais perigoso do Rio, não é? Aquele neguinho do outro lado da rua é o favorito para bater nossa carteira, não é? Ação afirmativa é dizer sim ao negro quando o emprego é de jogador de futebol, porteiro, empregada doméstica, zelador, faxineiro, não é? Ainda que sejam todas profissões dignas. Você as acha dignas, não é?
Somos todos criação de Deus, componentes da raça humana.
Que é o porta-voz? Alguém escolhido previamente por determinada figura ou instituição pública para que manifeste publicamente a opinião da pessoa ou órgão. Principalmente para serem jogados às feras da imprensa em entrevistas coletivas. O porta-voz não emite a própria opinião, mas é de se esperar que tenha o pensamento parecido com o de seus chefes. Assim, a fidelidade e credibilidade da informação apresentada são mais garantidas.
Uma das grandes surpresas da atualidade é que os porta-vozes estão se tornando uma classe cada vez mais independente, mas sem perceberem. Ao terem oportunidade pública de manifestarem determinada opinião de determinado estrato social/cultural etc, estão mais desprendidos para essa missão. Mesmo que não sejam porta-vozes oficiais, escalados para tal.
Exemplo: hoje um desses programas de fofoca da tarde (não, eu não vejo, mas minha avó estava vendo e eu prestei atenção em um trecho. Pode zoar, dizendo que é conversa fiada, que eu critico mas assisto. Sei que minha consciência está tranqüila!) informava que a bala perdida que matará a personagem da novela das oito virá de um assalto. E que os atores escolhidos para interpretarem os marginais são os mesmos de "Cidade de Deus". No que ASTRID FONTENELLE (faço questão de dizer quem é) dispara:
"Mas tinha que ser mesmo! Não vai ser o playboy branquinho que vai atirar bala perdida, mas aqueles pretos da favela!"
Astrid enterrou de vez sua carreira. De promissora VJ dos embriões da MTV, ex-apresentadora de um ótimo programa de entrevistas ("Pé na Cozinha", na emissora musical mesmo), ela assume o que de fato é: porta-voz informal. A cretina entonação de sua voz era a mesma de quando respondemos a uma pergunta imbecil. Manoel Carlos agradece, boa parte da Zona Sul cercada de morros agradece, todos os que concordam plenamente com a tresloucada Astrid agradecem a prestação de seu serviço. Preto favelado é marginal. Playboy branquinho não é.
Sim, você pode pensar que a maioria dos marginais (ou seja, que estão à margem da cidadania, da sociedade, dos direitos) são de cor negra, e que poderia ficar inverossímil para o público de massa de "Mulheres Apaixonadas" algo diferente. Mas a ação dos porta-vozes é eficaz, não se iludam. O cientista político Hélio Santos afirma: "Ninguém nasce racista". E como difundir o racismo? Em doses certeiras que despertam o (in)consciente coletivo, que torce baixinho para que um porta-voz apareça de vez em quando para estereotipar, descer a lenha na auto-estima de quem já passou por 350 anos de escravidão e até hoje sofre as conseqüências disso.
Os frutos dessas irresponsabilidades não-assumidas (ou responsabilizadas como devem ser)? Obstáculos para o negro ter a chance de se afirmar, de vencer preconceitos e barreiras veladas apenas porque é de cor diferente. APENAS PORQUE É DE COR DIFERENTE! DE PELE DIFERENTE, DE SUPERFÍCIE DIFERENTE! Todo mundo sabe que acontece, e todo mundo se cala! Quem tem amigos negros: pense neles. Pense no que passam e no que você e eu, brancos, nunca vamos passar. Além disso tudo, ter que ouvir porta-vozes escrotos reforçando a violência e a raiva da qual tanto se protegem.
Emocionalmente, acabei gastando linhas com esse descarado desserviço de um lixo cultural da pior qualidade. Mas as sutilezas são mais nocivas. Tanto que eu e você, que concorda com o descrito neste artigo, podemos estar encampando sem saber. Afinal, a Cidade de Deus é o lugar mais perigoso do Rio, não é? Aquele neguinho do outro lado da rua é o favorito para bater nossa carteira, não é? Ação afirmativa é dizer sim ao negro quando o emprego é de jogador de futebol, porteiro, empregada doméstica, zelador, faxineiro, não é? Ainda que sejam todas profissões dignas. Você as acha dignas, não é?
Somos todos criação de Deus, componentes da raça humana.
segunda-feira, 28 de julho de 2003
ADIANTA?
No Globo de hoje uma notícia curiosa: "Justiça dirá se filhos de fiscal mudam de nome". Sabe do que se trata? Os filhos do Silveirinha estão sendo tão zoados na escola que só lhes restou trocar de sobrenome. Detalhe: trata-se de um guri de 8 anos e dois gêmeos de 4 anos. O pedido para a troca do sobrenome veio do pai. Uma coluninha espremida ao lado do Ancelmo Gois que diz muito.
Primeiro, é que eu tento me colocar no lugar das crianças. Será que entendem o que está acontecendo? Entendem por que seu pai causa tanto desaforo e é fonte para que sejam insultados e zoados todos os dias? Ao ver a foto do pai nos jornais, acompanhado da polícia e percebendo que agora ele mora na prisão, como se sentem?
Segundo, o que se passa na cabeça de Silveirinha diante disso? Talvez ele estivesse preparado para suportar a pressão pública, os depoimentos, o processo (o Super-Sahione pensou em tudo, até no "pingo-borrachinha"), o "não sabia de nada" do ex-chefe e da atual chefa, quem sabe até a prisão. Mas ele teria previsto a humilhação de seus filhos devido ao que praticou nesses anos todos? Ao especular sobre uma possível descoberta de seus atos, pensou no legado que deixaria a seus herdeiros?
Terceiro, teria Silveirinha pensado que a única solução à vista seria trocar a identidade de seus filhos? Ele, que os fez e criou, pensou que poderia ter que apagar parte da história das crianças por algo feito exclusivamente por ele próprio? É claro que, se entrevistado, dirá que a imprensa fomenta essas reações etc... Mas o que se passa na sua cabeça, de fato, a gente não sabe. A culpa teria chegado com o prejuízo dos filhos? Através do sofrimento deles, Silveirinha poderia perceber o mal que fez à sociedade, ao Rio, à política, ao serviço público?
Quarto, os filhos de Silveirinha são insultados na escola. Presumo que esses insultos venham de colegas de turma. Crianças de 8 e 4 anos insultando outras em virtude dos acontecimentos políticos do Estado? Elas acompanham o noticiário da corrupção para associar colegas de escola como igualmente corruptos em relação ao pai??? Tem algo estranho aí. Podem me chamar de cruel, mas até que ponto os pais estão ingerindo nisso? Um pai que seja funcionário do estado, que ficou sem o 13º e descobre que seu filho estuda com os filhos do Silveirinha... Continuo acreditando que crianças podem ser mais ingênuas do que maldosas.
Quinto e último, a moral da história: você pode ter uma vida limpa e ficar com o nome sujo; ou uma vida suja recém-transparente no qual o nome é o primeiro a cair de podre.
No Globo de hoje uma notícia curiosa: "Justiça dirá se filhos de fiscal mudam de nome". Sabe do que se trata? Os filhos do Silveirinha estão sendo tão zoados na escola que só lhes restou trocar de sobrenome. Detalhe: trata-se de um guri de 8 anos e dois gêmeos de 4 anos. O pedido para a troca do sobrenome veio do pai. Uma coluninha espremida ao lado do Ancelmo Gois que diz muito.
Primeiro, é que eu tento me colocar no lugar das crianças. Será que entendem o que está acontecendo? Entendem por que seu pai causa tanto desaforo e é fonte para que sejam insultados e zoados todos os dias? Ao ver a foto do pai nos jornais, acompanhado da polícia e percebendo que agora ele mora na prisão, como se sentem?
Segundo, o que se passa na cabeça de Silveirinha diante disso? Talvez ele estivesse preparado para suportar a pressão pública, os depoimentos, o processo (o Super-Sahione pensou em tudo, até no "pingo-borrachinha"), o "não sabia de nada" do ex-chefe e da atual chefa, quem sabe até a prisão. Mas ele teria previsto a humilhação de seus filhos devido ao que praticou nesses anos todos? Ao especular sobre uma possível descoberta de seus atos, pensou no legado que deixaria a seus herdeiros?
Terceiro, teria Silveirinha pensado que a única solução à vista seria trocar a identidade de seus filhos? Ele, que os fez e criou, pensou que poderia ter que apagar parte da história das crianças por algo feito exclusivamente por ele próprio? É claro que, se entrevistado, dirá que a imprensa fomenta essas reações etc... Mas o que se passa na sua cabeça, de fato, a gente não sabe. A culpa teria chegado com o prejuízo dos filhos? Através do sofrimento deles, Silveirinha poderia perceber o mal que fez à sociedade, ao Rio, à política, ao serviço público?
Quarto, os filhos de Silveirinha são insultados na escola. Presumo que esses insultos venham de colegas de turma. Crianças de 8 e 4 anos insultando outras em virtude dos acontecimentos políticos do Estado? Elas acompanham o noticiário da corrupção para associar colegas de escola como igualmente corruptos em relação ao pai??? Tem algo estranho aí. Podem me chamar de cruel, mas até que ponto os pais estão ingerindo nisso? Um pai que seja funcionário do estado, que ficou sem o 13º e descobre que seu filho estuda com os filhos do Silveirinha... Continuo acreditando que crianças podem ser mais ingênuas do que maldosas.
Quinto e último, a moral da história: você pode ter uma vida limpa e ficar com o nome sujo; ou uma vida suja recém-transparente no qual o nome é o primeiro a cair de podre.
quinta-feira, 17 de julho de 2003
Marta Suplicy 2012 manda no jornalismo carioca
AH, SOU CARIOCA! Como é bom dar esse grito agora que o Rio foi escolhido pra ser a sede das Olimpíadas 2012! Perdão, ele é candidato a candidato ainda. É que com essa cobertura da mídia, eu me empolguei... Mas comemoremos! O melhor de tudo é que, num passe de mágica, de uma hora pra outra, por um fenômeno sociológico ainda não detectado e devidamente estudado, a “onda de violência” 2003 quebrou nas praias da orla olímpica.
Onde está a “Guerra do Rio” que o GLOBO alardeava em primeira página? E a taxativa “Guerra Perdida” que o JB teimava em botar em caixa alta? Acabou, acreditem. O crime no Rio reduziu tanto que só ocupa a primeira metade da penúltima página do primeiro caderno. Quem lê a primeira metade da penúltima página do primeiro caderno??
Em compensação, o Rio tornou-se a cidade ideal para os Jogos Olímpicos. A capital de um estado quase falido, por meio do “gênio do mal” Cesar Maia, possui verbas, verbas e mais verbas para construir estádios, reformar complexos esportivos. De onde sai tanto dinheiro? Como há tanto dinheiro? E olha que o povinho “desculturado” do Rio esnobou o Guggenheim...
Segue o processo de elitizar ainda mais a Barra. Afinal, lá vai ser a Vila Olímpica, por ali as favelas não ameaçam tanto, e todo o reforço de segurança vai pra lá – tudo pelas Olimpíadas! É o apartheid social agravado, dessa vez de forma oficial, escancarada e utilitarista – tudo pelas Olimpíadas!
Mas o que eu estou abismado é que a violência no Rio diminuiu tanto... Agora eu já posso ir ao cinema à noite, já posso passar pela Av. Brasil sem medo. Medo? Isso é coisa que colocaram na nossa cabeça, pelo visto. Pelos mesmos órgãos de imprensa que hoje dizem o contrário, mesmo que para isso não precisem dizer nada – é só tirar das primeiras páginas, deixar de associar crimes isolados com uma “onda” tão ocasional e previsível nas coberturas de mídia quanto a SP Fashion Week.
Esse flagrante de mídia deve ser creditado a quem de direito: Marta Suplicy. Foi ela que, num desespero em defender a candidatura de Sampa 2012, disse que o Rio era mais violento. Foi o suficiente para que o bairrismo da mídia carioca vencesse a necessidade de atemorizar os leitores além da conta. Hoje, ao lado da matéria de página inteira do Globo com o prefeito e a pseudo-governadora unindo esforços para 2012, uma comparação de que Ipanema teria um índice de desenvolvimento humano (IDH) maior que a Noruega. E um bairro rico da Noruega, também perderia pra vizinha do Leblon?
Enquanto isso, vou ficar torcendo pro Rio pois, como disse o Casseta e Planeta (o campeão de citações desse blog), “conquistamos o direito de sonhar com uma possibilidade de, talvez, um dia, quem sabe, ter uma chance de sediar os Jogos Olímpicos de 2012”. Ah, também vou procurar uma imprensa alternativa.
AH, SOU CARIOCA! Como é bom dar esse grito agora que o Rio foi escolhido pra ser a sede das Olimpíadas 2012! Perdão, ele é candidato a candidato ainda. É que com essa cobertura da mídia, eu me empolguei... Mas comemoremos! O melhor de tudo é que, num passe de mágica, de uma hora pra outra, por um fenômeno sociológico ainda não detectado e devidamente estudado, a “onda de violência” 2003 quebrou nas praias da orla olímpica.
Onde está a “Guerra do Rio” que o GLOBO alardeava em primeira página? E a taxativa “Guerra Perdida” que o JB teimava em botar em caixa alta? Acabou, acreditem. O crime no Rio reduziu tanto que só ocupa a primeira metade da penúltima página do primeiro caderno. Quem lê a primeira metade da penúltima página do primeiro caderno??
Em compensação, o Rio tornou-se a cidade ideal para os Jogos Olímpicos. A capital de um estado quase falido, por meio do “gênio do mal” Cesar Maia, possui verbas, verbas e mais verbas para construir estádios, reformar complexos esportivos. De onde sai tanto dinheiro? Como há tanto dinheiro? E olha que o povinho “desculturado” do Rio esnobou o Guggenheim...
Segue o processo de elitizar ainda mais a Barra. Afinal, lá vai ser a Vila Olímpica, por ali as favelas não ameaçam tanto, e todo o reforço de segurança vai pra lá – tudo pelas Olimpíadas! É o apartheid social agravado, dessa vez de forma oficial, escancarada e utilitarista – tudo pelas Olimpíadas!
Mas o que eu estou abismado é que a violência no Rio diminuiu tanto... Agora eu já posso ir ao cinema à noite, já posso passar pela Av. Brasil sem medo. Medo? Isso é coisa que colocaram na nossa cabeça, pelo visto. Pelos mesmos órgãos de imprensa que hoje dizem o contrário, mesmo que para isso não precisem dizer nada – é só tirar das primeiras páginas, deixar de associar crimes isolados com uma “onda” tão ocasional e previsível nas coberturas de mídia quanto a SP Fashion Week.
Esse flagrante de mídia deve ser creditado a quem de direito: Marta Suplicy. Foi ela que, num desespero em defender a candidatura de Sampa 2012, disse que o Rio era mais violento. Foi o suficiente para que o bairrismo da mídia carioca vencesse a necessidade de atemorizar os leitores além da conta. Hoje, ao lado da matéria de página inteira do Globo com o prefeito e a pseudo-governadora unindo esforços para 2012, uma comparação de que Ipanema teria um índice de desenvolvimento humano (IDH) maior que a Noruega. E um bairro rico da Noruega, também perderia pra vizinha do Leblon?
Enquanto isso, vou ficar torcendo pro Rio pois, como disse o Casseta e Planeta (o campeão de citações desse blog), “conquistamos o direito de sonhar com uma possibilidade de, talvez, um dia, quem sabe, ter uma chance de sediar os Jogos Olímpicos de 2012”. Ah, também vou procurar uma imprensa alternativa.
quinta-feira, 10 de julho de 2003
Legitimando o (meu) discurso
Transcrevo aqui um texto do site www.caiofabio.com que tem a ver com o artigo da semana passada sobre o preconceito para com os garis. Ainda tinha uma entrevista com o sociólogo, mas aí esse post ia ficar muito grande.
Afinal somos rótulos, objetos, funções sociais, papéis na sociedade, papéis na organização ou seres humanos em nossa plenitude?
"Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da "INVISIBILIDADE PÚBLICA". Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a FUNÇÃO SOCIAL do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social. O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são "seres invisíveis, sem nome".
Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da "invisibilidade pública", ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida: "Descobri que um SIMPLES BOM DIA, que nunca recebi como gari, pode significar um SOPRO DE VIDA, um sinal da própria existência", explica o pesquisador.
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um OBJETO e não como um SER HUMANO. "Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado-se em um poste, ou em um orelhão", diz. Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações diárias, segundo o psicólogo são acolhedores com quem os enxerga. E encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora.
Transcrevo aqui um texto do site www.caiofabio.com que tem a ver com o artigo da semana passada sobre o preconceito para com os garis. Ainda tinha uma entrevista com o sociólogo, mas aí esse post ia ficar muito grande.
Afinal somos rótulos, objetos, funções sociais, papéis na sociedade, papéis na organização ou seres humanos em nossa plenitude?
"Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da "INVISIBILIDADE PÚBLICA". Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a FUNÇÃO SOCIAL do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social. O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são "seres invisíveis, sem nome".
Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da "invisibilidade pública", ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida: "Descobri que um SIMPLES BOM DIA, que nunca recebi como gari, pode significar um SOPRO DE VIDA, um sinal da própria existência", explica o pesquisador.
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um OBJETO e não como um SER HUMANO. "Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado-se em um poste, ou em um orelhão", diz. Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações diárias, segundo o psicólogo são acolhedores com quem os enxerga. E encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora.
terça-feira, 8 de julho de 2003
Mais Jovens Poetas
Dessa vez é um colaborador amigo que preferiu assinar com pseudônimo...
Ratimbum de coniforme som
Ratimbum de coniforme som
de vida sem tom, se não tiver saudades.
De vida sem cor se não existir amor,
mesmo o amor dos que são traídos.
Mesmo o amor dos escravos,
dos escárnios, dos que trabalham e não têm tempo para nada.
Dos santos, que choram por não servirem melhor ao seu senhor.
santos homens e mulheres e crianças e avós...
Santa humanidade, que de tanta passividade dá desejo de surrá-la.
De vida sem cor se não tiver verdade,
nem que seja as rasas, aquelas que nos confundem,
que nos aliviam ou maltrata-nos até nos arrancar uma lágrima...
Essas verdades que nos contam os senhores,
os latifundiários da informação, da ação do mal e do engano.
De vida sem cor se não existir o pão,
dos pobres e miseráveis,
dos ricos e intragáveis,
de nós... Pobres vertentes da incompreensão mais tola,
incompreensão vista no olhar do outro irmão... O que morre de fome.
de vida sem cor se não existir as matizes,
as matrizes da mistura, das raças, dos credos,
dos sexos, da arte, dos movimentos populares...
Dos bois nos pastos, dos homens castos,
dos filhos da repressão e dos herdeiros da liberdade enganosa.
De vida sem cor se não existir Deus...
Deus para criar, para inovar,
salvar as baleias, mas também o ser-humano que não mais quer sê-lo,
os escravos da senhoria consciência,
os pecadores entorpecidos pela certeza e pela razão."
(Fidel Filho)
Dessa vez é um colaborador amigo que preferiu assinar com pseudônimo...
Ratimbum de coniforme som
Ratimbum de coniforme som
de vida sem tom, se não tiver saudades.
De vida sem cor se não existir amor,
mesmo o amor dos que são traídos.
Mesmo o amor dos escravos,
dos escárnios, dos que trabalham e não têm tempo para nada.
Dos santos, que choram por não servirem melhor ao seu senhor.
santos homens e mulheres e crianças e avós...
Santa humanidade, que de tanta passividade dá desejo de surrá-la.
De vida sem cor se não tiver verdade,
nem que seja as rasas, aquelas que nos confundem,
que nos aliviam ou maltrata-nos até nos arrancar uma lágrima...
Essas verdades que nos contam os senhores,
os latifundiários da informação, da ação do mal e do engano.
De vida sem cor se não existir o pão,
dos pobres e miseráveis,
dos ricos e intragáveis,
de nós... Pobres vertentes da incompreensão mais tola,
incompreensão vista no olhar do outro irmão... O que morre de fome.
de vida sem cor se não existir as matizes,
as matrizes da mistura, das raças, dos credos,
dos sexos, da arte, dos movimentos populares...
Dos bois nos pastos, dos homens castos,
dos filhos da repressão e dos herdeiros da liberdade enganosa.
De vida sem cor se não existir Deus...
Deus para criar, para inovar,
salvar as baleias, mas também o ser-humano que não mais quer sê-lo,
os escravos da senhoria consciência,
os pecadores entorpecidos pela certeza e pela razão."
(Fidel Filho)
sábado, 5 de julho de 2003
Poucos pequenos pitacos
- A frase da semana: “Peixe morre pelo Boca”.
- Já disse nesse blog que Gisele Bündchen foi uma de minhas musas – até eu descobrir um novo conceito de musa (em 06/04/2003, tá no Túnel do Tempo aí do lado). Contudo, a “cabeça-de-vento com classe” parece estar mudando. Hoje ela disse, diante de uma tiete-repórter, que não tem nada a ver esse negócio dela ser considerada a mulher mais bonita do mundo, que se dá valor demais à aparência, que a badalação em torno dela é exagerada. Ok, em matéria de conteúdo não chega aos pés de Paloma Duarte, mas já melhorou. A prova: Gisele Bündchen esnobou convite de Xuxa pra aparecer em seu programa. Cara, qualquer pessoa que esnobe a Xuxa em público cresce no conceito comigo. Será que Gisele está lendo o Lessog?
- Demorou mas finalmente uma polêmica social nas “Mulheres Apaixonadas”: a personagem Fernanda vai morrer de bala perdida nas ruas do paradisíaco Leblon. A gritaria das empresas de turismo e da rede de hotéis gerou matéria no Globo. Por carta, chegaram a pedir a D. Manoel Carlos que, já que é pra matar a coadjuvante, mata envenenada (sério!). Mas que não piorasse a imagem do Rio. O príncipe-regente da Zona Sul não deu muita bola, reivindicando seu direito de fazer a “denúncia social” como bem entender. Se fosse alguma autoridade reclamando (governador, secretário de turismo etc), tudo bem: são responsáveis para que bala perdida não aconteça e, nesse caso, censurar a novela é tapar o sol com a peneira e tirar da reta. Mas a indústria do turismo vive da imagem e da fama da cidade, em qualquer lugar do mundo. Acho que ELES têm o direito de reclamar. De qualquer forma, daqui a pouco a Susana “Galvão Bueno” Vieira faz um discursinho justificando o beicinho do principezinho...
- A frase da semana: “Peixe morre pelo Boca”.
- Já disse nesse blog que Gisele Bündchen foi uma de minhas musas – até eu descobrir um novo conceito de musa (em 06/04/2003, tá no Túnel do Tempo aí do lado). Contudo, a “cabeça-de-vento com classe” parece estar mudando. Hoje ela disse, diante de uma tiete-repórter, que não tem nada a ver esse negócio dela ser considerada a mulher mais bonita do mundo, que se dá valor demais à aparência, que a badalação em torno dela é exagerada. Ok, em matéria de conteúdo não chega aos pés de Paloma Duarte, mas já melhorou. A prova: Gisele Bündchen esnobou convite de Xuxa pra aparecer em seu programa. Cara, qualquer pessoa que esnobe a Xuxa em público cresce no conceito comigo. Será que Gisele está lendo o Lessog?
- Demorou mas finalmente uma polêmica social nas “Mulheres Apaixonadas”: a personagem Fernanda vai morrer de bala perdida nas ruas do paradisíaco Leblon. A gritaria das empresas de turismo e da rede de hotéis gerou matéria no Globo. Por carta, chegaram a pedir a D. Manoel Carlos que, já que é pra matar a coadjuvante, mata envenenada (sério!). Mas que não piorasse a imagem do Rio. O príncipe-regente da Zona Sul não deu muita bola, reivindicando seu direito de fazer a “denúncia social” como bem entender. Se fosse alguma autoridade reclamando (governador, secretário de turismo etc), tudo bem: são responsáveis para que bala perdida não aconteça e, nesse caso, censurar a novela é tapar o sol com a peneira e tirar da reta. Mas a indústria do turismo vive da imagem e da fama da cidade, em qualquer lugar do mundo. Acho que ELES têm o direito de reclamar. De qualquer forma, daqui a pouco a Susana “Galvão Bueno” Vieira faz um discursinho justificando o beicinho do principezinho...
sábado, 28 de junho de 2003
Varre, vassourinha...
Imagine que você tire uma semana de férias. Ao voltar pra casa, as ruas da cidade e a calçada de sua casa sumiram! Você nao consegue enxerga-las, e para pisar ao chao é preciso coragem e uma greve ao nojo. O lixo cobre cada centimetro do asfalto. Ao se informar, você descobre que os garis fizeram greve exatamente nessa semana que você viajou.
Nao sei quanto a você, mas so ha pouco tempo percebi a importância dos garis para o bem-estar da nossa sociedade. Sao eles que recolhem tudo o que nao queremos mais, limpam diariamente as ruas, convivendo com o mau cheiro caracteristico dos dejetos. Nao fossem eles, seria possivel agüentar a situaçao descrita no primeiro paragrafo?
Além disso tudo, os garis s?o os profissionais mais democraticos e sem preconceito que existem: recolhem o lixo dos bem-educados (que comportam tudo em sacos plasticos à beira da rua) e dos mal-educados (que tratam o espaço publico pior, bem pior que a sua casa. Talvez sabendo que os garis ali estar?o para fazer o trabalho sujo).
A maior das injustiças foi flagrada nessa semana, na cobertura ou nos comentarios sobre as inscriçoes para o emprego de gari no Rio de Janeiro. A tônica das reportagens era abordar o problema do desemprego no pais. Para uma vaga em que o 1o. grau completo bastava, encontrava-se nas filas (imensas!) varios candidatos com ensino superior completo, que nao tinham conseguido emprego em suas areas.
Onde esta a injustiça? O fato das matérias serem pagina inteira, estarem no jornal local ou no nacional refletem um pouco do preconceito em relaçao à profissao que nao tem preconceitos. O choque, respaldado pela entonaçao dos locutores ou pelos depoimentos coletados, nao era por aquela massa de gente estar desempregada. Mas pela massa querer um emprego... de gari?????
Era nitida a reaçao de cada pessoa – de nojo, de nervoso, de preconceito mesmo – em nao aceitar que as pessoas procurassem um emprego “como aquele”. Por quê? Por mexer com lixo? Isso so da mais dignidade à profissao, que coragem a dos garis!
Mas o preconceito trata de querer intimidar os garis. Quem aqui fala, com o mesmo desprendimento, que procura emprego de lixeiro ou que tem um parente nessa profissao? Sempre nos sentimos constrangidos a tal. Ora, que me perdoem os frescos de plantao, mas os garis sao profissionais dos mais essenciais para o bom andamento desse mundo. Alguém discorda?
Portanto, ao avistar um gari na rua, dê um sorriso como se estivesse dizendo: “precisamos de você, soldado. Nao deserte!”. Ele merece o nosso reconhecimento. E façamos a nossa parte no maior exemplo do “façamos a nossa parte”: nao jogue lixo no chao...
Imagine que você tire uma semana de férias. Ao voltar pra casa, as ruas da cidade e a calçada de sua casa sumiram! Você nao consegue enxerga-las, e para pisar ao chao é preciso coragem e uma greve ao nojo. O lixo cobre cada centimetro do asfalto. Ao se informar, você descobre que os garis fizeram greve exatamente nessa semana que você viajou.
Nao sei quanto a você, mas so ha pouco tempo percebi a importância dos garis para o bem-estar da nossa sociedade. Sao eles que recolhem tudo o que nao queremos mais, limpam diariamente as ruas, convivendo com o mau cheiro caracteristico dos dejetos. Nao fossem eles, seria possivel agüentar a situaçao descrita no primeiro paragrafo?
Além disso tudo, os garis s?o os profissionais mais democraticos e sem preconceito que existem: recolhem o lixo dos bem-educados (que comportam tudo em sacos plasticos à beira da rua) e dos mal-educados (que tratam o espaço publico pior, bem pior que a sua casa. Talvez sabendo que os garis ali estar?o para fazer o trabalho sujo).
A maior das injustiças foi flagrada nessa semana, na cobertura ou nos comentarios sobre as inscriçoes para o emprego de gari no Rio de Janeiro. A tônica das reportagens era abordar o problema do desemprego no pais. Para uma vaga em que o 1o. grau completo bastava, encontrava-se nas filas (imensas!) varios candidatos com ensino superior completo, que nao tinham conseguido emprego em suas areas.
Onde esta a injustiça? O fato das matérias serem pagina inteira, estarem no jornal local ou no nacional refletem um pouco do preconceito em relaçao à profissao que nao tem preconceitos. O choque, respaldado pela entonaçao dos locutores ou pelos depoimentos coletados, nao era por aquela massa de gente estar desempregada. Mas pela massa querer um emprego... de gari?????
Era nitida a reaçao de cada pessoa – de nojo, de nervoso, de preconceito mesmo – em nao aceitar que as pessoas procurassem um emprego “como aquele”. Por quê? Por mexer com lixo? Isso so da mais dignidade à profissao, que coragem a dos garis!
Mas o preconceito trata de querer intimidar os garis. Quem aqui fala, com o mesmo desprendimento, que procura emprego de lixeiro ou que tem um parente nessa profissao? Sempre nos sentimos constrangidos a tal. Ora, que me perdoem os frescos de plantao, mas os garis sao profissionais dos mais essenciais para o bom andamento desse mundo. Alguém discorda?
Portanto, ao avistar um gari na rua, dê um sorriso como se estivesse dizendo: “precisamos de você, soldado. Nao deserte!”. Ele merece o nosso reconhecimento. E façamos a nossa parte no maior exemplo do “façamos a nossa parte”: nao jogue lixo no chao...
domingo, 22 de junho de 2003
Cosangüinidade
Minha irmã, em suas recém-completadas 17 primaveras, escreveu um texto que achei demais. Transcrevo aqui, pois vale e muito:
Sonhos...... Difícil!!!
Pra ser ter sonhos, tem q ser ter fé! Fé de que um dia eles poderão se realizar... Pra se ter fé, tem que ter paciência, pra esperar o tempo certo; e esperança, pra não desanimar e sempre esperar q eles aconteçam!!
Sabe o q é mais difícil nisso tudo? Ter convicção de um sonho e ele não ser realizado. Aceitar o fato de que às vezes não é esse sonho q deveria ter sonhado! Ou até que ele pode vir a se realizar no futuro, mas não do jeito que você imaginava, esperava, desejava, almejava... sonhava!
Aceitar isso é muito sinistro! Eu acho que estou indo por um caminho aonde vou, a cada dia, encontrando a paciência para esperar o tempo de Deus e a esperança para crer que um dia ele irá se realizar (graças a Deus). O sinistro é que, no momento, não estou impaciente ou desacreditada, pelo contrário, estou inconformada... Engraçado que, ao mesmo tempo em que estou inconformada, estou conformada... Vamos começar pelo mais fácil (eu acho):
conformada é prova de que estou no caminho da paciência e da esperança. Se não deu certo agora, com certeza Deus tem algo melhor pra mim, no tempo dEle, que é o melhor!!!
Inconformada pelo fato de... sei lá! Tudo aconteceu de uma forma, não aleatória, mas com tanta certeza de cada passo que foi dado e, do nada, não é mais da vontade de Deus!
Eu sei que não deveria estar pensando nisso, mas tem dias que é inevitável... Na maioria dos meus dias eu estou conformada, que bom! Mas tem vezes que...
Quem disse q sonhar não custa nada, não sonhava... Alguns sonhos custam, e muito... Mas quando eles se realizam, acho que vale a pena tudo que foi “pago” por ele, né? Isso que eu chamo de provação! Aceitar a não-realização de um sonho, o qual você tinha convicção, tendo FÉ de que dias melhores virão, e com eles, sonhos melhores virão, e com eles realizações melhores virão, e com eles lições melhores virão, e com eles amadurecimento virá!
Duro ter q passar por isso sem poder ouvir uma palavra de consolo, porque eu já sei tudo que eu poderia ouvir... Mas é bom saber que tem alguém lendo isso... Às vezes um desabafo pra mim, é um consolo pra quem lê... quem sabe?! - Raquel Lessa
Minha irmã, em suas recém-completadas 17 primaveras, escreveu um texto que achei demais. Transcrevo aqui, pois vale e muito:
Sonhos...... Difícil!!!
Pra ser ter sonhos, tem q ser ter fé! Fé de que um dia eles poderão se realizar... Pra se ter fé, tem que ter paciência, pra esperar o tempo certo; e esperança, pra não desanimar e sempre esperar q eles aconteçam!!
Sabe o q é mais difícil nisso tudo? Ter convicção de um sonho e ele não ser realizado. Aceitar o fato de que às vezes não é esse sonho q deveria ter sonhado! Ou até que ele pode vir a se realizar no futuro, mas não do jeito que você imaginava, esperava, desejava, almejava... sonhava!
Aceitar isso é muito sinistro! Eu acho que estou indo por um caminho aonde vou, a cada dia, encontrando a paciência para esperar o tempo de Deus e a esperança para crer que um dia ele irá se realizar (graças a Deus). O sinistro é que, no momento, não estou impaciente ou desacreditada, pelo contrário, estou inconformada... Engraçado que, ao mesmo tempo em que estou inconformada, estou conformada... Vamos começar pelo mais fácil (eu acho):
conformada é prova de que estou no caminho da paciência e da esperança. Se não deu certo agora, com certeza Deus tem algo melhor pra mim, no tempo dEle, que é o melhor!!!
Inconformada pelo fato de... sei lá! Tudo aconteceu de uma forma, não aleatória, mas com tanta certeza de cada passo que foi dado e, do nada, não é mais da vontade de Deus!
Eu sei que não deveria estar pensando nisso, mas tem dias que é inevitável... Na maioria dos meus dias eu estou conformada, que bom! Mas tem vezes que...
Quem disse q sonhar não custa nada, não sonhava... Alguns sonhos custam, e muito... Mas quando eles se realizam, acho que vale a pena tudo que foi “pago” por ele, né? Isso que eu chamo de provação! Aceitar a não-realização de um sonho, o qual você tinha convicção, tendo FÉ de que dias melhores virão, e com eles, sonhos melhores virão, e com eles realizações melhores virão, e com eles lições melhores virão, e com eles amadurecimento virá!
Duro ter q passar por isso sem poder ouvir uma palavra de consolo, porque eu já sei tudo que eu poderia ouvir... Mas é bom saber que tem alguém lendo isso... Às vezes um desabafo pra mim, é um consolo pra quem lê... quem sabe?! - Raquel Lessa
terça-feira, 17 de junho de 2003
Dom Manoel Carlos, Príncipe-Regente da Zona Sul
A emancipação da Zona Sul enfim chegou. Se não deu à força ou por vias democráticas, aconteceu via novela das oito. O Governo do Estado anunciou o programa Tolerância Zero, que vai resolver prioritários problemas da Zona Sul: recolher mendigos e menores e enxotar os camelôs.
A presidente da Associação de Moradores de Copacabana, Myrian de Pinho, comemorou. Afinal, mais um passo foi dado na restauração da Zona Sul como o Rio essencialmente cartão postal, sem realidade de desigualdade social para ofuscar a vista grossa.
De todo modo, a honra ao mérito deve ser apontada. Uma vez que a TV parece ser a única forma de mobilizar os cidadãos (?) para causas sociais, as Mulheres Apaixonadas deram conta do recado. Manoel Carlos, convocado às pressas por seus súditos do Leblon e adjacências, mostrou-se mestre de uma original arte: as mensagens subliminares escancaradas, sem sutileza.
Senão, vejamos: não são poucas as cenas em que um grupo de personagens está reunido (à mesa, à beira da piscina, nas festas), com uma pseudo-bossa nova ao fundo, debatendo assuntos tão relevantes a ponto de não me lembrar de nenhum agora. De súbito, vem à baila a “terrível onda de violência do Rio de Janeiro”, com cada personagem relatando casos e mais casos que aconteceram com algum conhecido, ou que leram no jornal, todos dignos de Linha Direta. Outros encampam discursos moralistas quase-indignados – geralmente Susana Vieira, o Galvão Bueno da teledramaturgia brasileira.
Após o registro público do incômodo privado, os mesmos personagens voltam a suas mesas fartas, carros importados, coquetéis e banquetes de dar inveja e raiva a quem deles nunca pode participar. Para a Zona Sul da novela, exclusão social nada tem a ver com violência urbana. Portanto... Tolerância Zero com os que teimam em ocupar as ruas do feudo carioca!
Feito o escancaramento do que antes era discreto, D. Manoel sorri satisfeito, sendo chamado de gênio e “apaixonando o Brasil”(As mulheres também devem estar satisfeitas com a novela em que marido bate na esposa, homem é amante da patroa e da empregada, um casal de belas lésbicas germina expectativas e uma mulher nega-se e faz de tudo para que o amado demais não fique longe demais. Os homens nem passam perto da TV, acredito).
O Príncipe-Regente prossegue em sua missão de emancipar aquela área do Rio, para que sua harmonia elitizada não sofra maiores dissabores. Abusando do plim-plim, D. Manoel, de forma redundante como sempre, se apropria do hábito de todo brasileiro (assistir à novela das oito) para reforçar o hábito de uns poucos por cento do país: tirar a gentalha do raio da orla. É isso que importa. O resto é o resto. E a Zona Sul apaixonada não tem nada a ver com isso.
A emancipação da Zona Sul enfim chegou. Se não deu à força ou por vias democráticas, aconteceu via novela das oito. O Governo do Estado anunciou o programa Tolerância Zero, que vai resolver prioritários problemas da Zona Sul: recolher mendigos e menores e enxotar os camelôs.
A presidente da Associação de Moradores de Copacabana, Myrian de Pinho, comemorou. Afinal, mais um passo foi dado na restauração da Zona Sul como o Rio essencialmente cartão postal, sem realidade de desigualdade social para ofuscar a vista grossa.
De todo modo, a honra ao mérito deve ser apontada. Uma vez que a TV parece ser a única forma de mobilizar os cidadãos (?) para causas sociais, as Mulheres Apaixonadas deram conta do recado. Manoel Carlos, convocado às pressas por seus súditos do Leblon e adjacências, mostrou-se mestre de uma original arte: as mensagens subliminares escancaradas, sem sutileza.
Senão, vejamos: não são poucas as cenas em que um grupo de personagens está reunido (à mesa, à beira da piscina, nas festas), com uma pseudo-bossa nova ao fundo, debatendo assuntos tão relevantes a ponto de não me lembrar de nenhum agora. De súbito, vem à baila a “terrível onda de violência do Rio de Janeiro”, com cada personagem relatando casos e mais casos que aconteceram com algum conhecido, ou que leram no jornal, todos dignos de Linha Direta. Outros encampam discursos moralistas quase-indignados – geralmente Susana Vieira, o Galvão Bueno da teledramaturgia brasileira.
Após o registro público do incômodo privado, os mesmos personagens voltam a suas mesas fartas, carros importados, coquetéis e banquetes de dar inveja e raiva a quem deles nunca pode participar. Para a Zona Sul da novela, exclusão social nada tem a ver com violência urbana. Portanto... Tolerância Zero com os que teimam em ocupar as ruas do feudo carioca!
Feito o escancaramento do que antes era discreto, D. Manoel sorri satisfeito, sendo chamado de gênio e “apaixonando o Brasil”(As mulheres também devem estar satisfeitas com a novela em que marido bate na esposa, homem é amante da patroa e da empregada, um casal de belas lésbicas germina expectativas e uma mulher nega-se e faz de tudo para que o amado demais não fique longe demais. Os homens nem passam perto da TV, acredito).
O Príncipe-Regente prossegue em sua missão de emancipar aquela área do Rio, para que sua harmonia elitizada não sofra maiores dissabores. Abusando do plim-plim, D. Manoel, de forma redundante como sempre, se apropria do hábito de todo brasileiro (assistir à novela das oito) para reforçar o hábito de uns poucos por cento do país: tirar a gentalha do raio da orla. É isso que importa. O resto é o resto. E a Zona Sul apaixonada não tem nada a ver com isso.
quinta-feira, 12 de junho de 2003
Nostalgiazinha...
Esse é da época em que eu fazia poemas... VELHOS tempos! Porém bons.
Entendimentos – 30/11/98
O que leva as pessoas
A desprezarem o amor?
Como podem
Numa inversão de prioridades,
Cuspir num sentimento
Que compete com a perfeição
E produz carinho e afeição
A todos em redor?
Como podem,
Num brusco momento,
Pegar o amor pela gola da camisa
Jogá-lo na poça de lama
Pisar em sua nuca
Quase afogando-o
Naquele centímetro de espessura
De um lodo nada afetivo?
E pôr em seu lugar
Sentimentos reprovados
Na alfabetização da vida
Sentimentos que nada produzem de bom
Apenas uma boa quantidade
De amargura e azedice
E matérias-primas
Para uma tinta chorosa
E o amor fica lá, sujo
E quem o levanta e insiste
Na sua recuperação absoluta
É absolutamente ferido
Açoitado por uma realidade imposta
Nem aí por ser questionada
Mas que segue empurrando o amor
Ladeira abaixo
O egoísmo, em sua solitária assistência
A vingança, um acerto de contas
A dever sempre
E a cobrar de quem tem ficha limpa
Amor, declare-se vencedor!
A vantagem é sua, não percebe?
Eu percebo
Claramente
Tais sentimentos chafurdam para seu sujo fim
Possuem colaboradores e situações idem
Mas o amor jamais acaba
Mesmo com todos contra ele
(Quase todos)
Ele segue sempre sabendo-se são
O desprezo do amor
É pisar conscientemente em brasa viva.
Esse é da época em que eu fazia poemas... VELHOS tempos! Porém bons.
Entendimentos – 30/11/98
O que leva as pessoas
A desprezarem o amor?
Como podem
Numa inversão de prioridades,
Cuspir num sentimento
Que compete com a perfeição
E produz carinho e afeição
A todos em redor?
Como podem,
Num brusco momento,
Pegar o amor pela gola da camisa
Jogá-lo na poça de lama
Pisar em sua nuca
Quase afogando-o
Naquele centímetro de espessura
De um lodo nada afetivo?
E pôr em seu lugar
Sentimentos reprovados
Na alfabetização da vida
Sentimentos que nada produzem de bom
Apenas uma boa quantidade
De amargura e azedice
E matérias-primas
Para uma tinta chorosa
E o amor fica lá, sujo
E quem o levanta e insiste
Na sua recuperação absoluta
É absolutamente ferido
Açoitado por uma realidade imposta
Nem aí por ser questionada
Mas que segue empurrando o amor
Ladeira abaixo
O egoísmo, em sua solitária assistência
A vingança, um acerto de contas
A dever sempre
E a cobrar de quem tem ficha limpa
Amor, declare-se vencedor!
A vantagem é sua, não percebe?
Eu percebo
Claramente
Tais sentimentos chafurdam para seu sujo fim
Possuem colaboradores e situações idem
Mas o amor jamais acaba
Mesmo com todos contra ele
(Quase todos)
Ele segue sempre sabendo-se são
O desprezo do amor
É pisar conscientemente em brasa viva.
domingo, 8 de junho de 2003
Pra você, que mistérios tem Clarice?
O processo de amadurecimento é um dos mais fascinantes na raça humana. Perceber esse processo em nós é uma experiência enriquecedora, pela qual eu espero sempre passar. Nesse fim de semana lembrei de um precioso texto de Clarice Lispector, ao achar em casa uma agenda de 1999 (onde anotei o texto):
"Quando eu aprendi a ler e a escrever eu DEVORAVA os livros! Eu pensava, olha que coisa! Eu pensava que livro é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas descobri que era um autor. Aí disse: 'Eu também quero'".
Lembro que nesse ano eu começava a levar mais a sério esse negócio de escrever, as crônicas nasciam a torto e a direito... E vem uma das maiores escritoras brasileiras e me diz, humildemente, como foi que ela resolveu ser autora. Foi a minha vez de dizer: eu também quero!!!
E o que tudo isso tem a ver com amadurecimento? O lance é que eu DETESTAVA ler Clarice Lispector. Suas epifanias e profundidades psicológicas enchiam o saco... Meu sentimento era o de não chegar perto de nenhum livro dela. Mas o detalhe é que eu li Clarice pela primeira vez aos 15 anos... Antes mesmo de Machado de Assis, com seu "Dom Casmurro", me despertar de vez pra literatura. Hoje, ler Clarice Lispector é um renovo pra mim. Todas as características de sua literatura que antes eu tanto desprezava agora me completam, me entendem e eu as entendo também.
Gosto não necessariamente muda à medida que amadurecemos. Mas em certos casos, é só o que explica. Eu prefiro fazer como o velho Raul, preferindo ser uma metamorfose sincera do que ter aquela velha opinião formada e soberbamente orgulhosa de continuar na mesma. Quando penso que poderia me encontrar hoje sem aproveitar as delícias que Clarice Lispector me oferece...
De fato, o bom mesmo é reconhecer seu amadurecimento. Olhar pra trás e perceber o que rolou pra que hoje você seja desse jeito, goste dessas coisas, se relacione com essas pessoas. Perceber que nada foi em vão, nem mesmo o que na época tenhamos pensado que fosse em vão. O vão abriu espaço, então tá tranqüilo. Enfim, algo que encontra até mesmo respaldo bíblico, em palavras de Jesus aos discípulos: "o que eu faço, não compreendes agora. Compreendê-lo-ás depois." Em certos casos, ainda bem.
O processo de amadurecimento é um dos mais fascinantes na raça humana. Perceber esse processo em nós é uma experiência enriquecedora, pela qual eu espero sempre passar. Nesse fim de semana lembrei de um precioso texto de Clarice Lispector, ao achar em casa uma agenda de 1999 (onde anotei o texto):
"Quando eu aprendi a ler e a escrever eu DEVORAVA os livros! Eu pensava, olha que coisa! Eu pensava que livro é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas descobri que era um autor. Aí disse: 'Eu também quero'".
Lembro que nesse ano eu começava a levar mais a sério esse negócio de escrever, as crônicas nasciam a torto e a direito... E vem uma das maiores escritoras brasileiras e me diz, humildemente, como foi que ela resolveu ser autora. Foi a minha vez de dizer: eu também quero!!!
E o que tudo isso tem a ver com amadurecimento? O lance é que eu DETESTAVA ler Clarice Lispector. Suas epifanias e profundidades psicológicas enchiam o saco... Meu sentimento era o de não chegar perto de nenhum livro dela. Mas o detalhe é que eu li Clarice pela primeira vez aos 15 anos... Antes mesmo de Machado de Assis, com seu "Dom Casmurro", me despertar de vez pra literatura. Hoje, ler Clarice Lispector é um renovo pra mim. Todas as características de sua literatura que antes eu tanto desprezava agora me completam, me entendem e eu as entendo também.
Gosto não necessariamente muda à medida que amadurecemos. Mas em certos casos, é só o que explica. Eu prefiro fazer como o velho Raul, preferindo ser uma metamorfose sincera do que ter aquela velha opinião formada e soberbamente orgulhosa de continuar na mesma. Quando penso que poderia me encontrar hoje sem aproveitar as delícias que Clarice Lispector me oferece...
De fato, o bom mesmo é reconhecer seu amadurecimento. Olhar pra trás e perceber o que rolou pra que hoje você seja desse jeito, goste dessas coisas, se relacione com essas pessoas. Perceber que nada foi em vão, nem mesmo o que na época tenhamos pensado que fosse em vão. O vão abriu espaço, então tá tranqüilo. Enfim, algo que encontra até mesmo respaldo bíblico, em palavras de Jesus aos discípulos: "o que eu faço, não compreendes agora. Compreendê-lo-ás depois." Em certos casos, ainda bem.
quinta-feira, 29 de maio de 2003
Outra morte, outro desperdício jornalístico
Morreu Almir Chediak, o autor daqueles songbooks maravilhosos da MPB. Foi ele quem facilitou bastante aos músicos (principiantes ou profissionais) o acesso às obras-primas da nossa cultura em todas as suas cifras e partituras. Uma perda lastimável de um produtor cultural que possivelmente iria acalentar novas gerações de artistas musicais com seu melhor produto.
Os assassinos de Almir confessaram o crime. O plano era assaltar a casa do produtor, roubar o carro e matá-lo, junto com sua namorada (que escapou). Afinal, ambos reconheceram o autor dos disparos, que era o velho caseiro do sítio de Almir.
Eis que o Jornal Nacional noticia a o crime e o funeral de Almir Chediak e, claro, ouve depoimentos de artistas presentes ao enterro. Francis Hime diz: “É uma grande perda para a nossa música. E a pessoa morrer assim... Onde vamos parar?”. João Bosco: “É um absurdo. Como duas pessoas podem matar outra, assim, com essa facilidade? Alguma coisa tem que ser feita”. Lembrando que era uma matéria editada.
Editada e direcionada por completo. Era pra noticiar a morte do produtor cultural carioca e de repente, não mais que de repente, vira um novo parâmetro-protesto classificando o Rio como o mundo maravilhoso da violência, a cidade-pária de nossas mazelas urbanas. Cidade calamitosa, reverberando o Casseta e Planeta.
Aos navegantes de primeiro artigo, esclareço (outra vez) que não sou um insensível que acha que tudo o que falam do Rio é “exagero”. Mas não posso compactuar com uma imprensa que, se já não bastasse ser sensacionalista, também é oportunista. Em vez de respeitar o luto da família e amigos de Chediak e simplesmente noticiar o que aconteceu (que por si só já choca a todos), acaba “aproveitando o ensejo” pra incitar a cultura do medo no carioca e no resto do Brasil em relação ao Rio. E usando das falas de artistas para legitimar essa postura. Sendo que eles eram os menos isentos para isso, uma vez que estavam emocionalmente envolvidos com a questão e eram artistas, não especialistas da área de segurança.
Não é meu intuito banalizar a violência, mas esse tipo de crime só acontece no Rio? Só acontece no Brasil? Acho que não. Também não acredito na imprensa “imparcial, neutra e objetiva” que “apenas noticie” sem qualquer interferência ou partidarismo. Mas e o bom senso, e o respeito à inteligência dos espectadores? Será que João Bosco e Francis Hime opinaram apenas sobre a violência na nossa cidade, justo na morte de um importante personagem da cena cultural brasileira? Quem não enxerga a Globo “forçando a barra” pra ligar o crime isolado ao clima de medo que já vem impondo faz tempo? E não só a Globo, claro.
Uma cidade superpopulosa, com contrastes sociais gritantes dos quais a violência é um de seus frutos. Essa é a descrição de qualquer uma das grandes capitais brasileiras. Por que o Rio tem que ser o “penico violento” do Brasil? E pior, pior: por que espalhar a cultura do medo?
Repito, “tripito”, “quadripito”: os fatos violentos falam por si só. Não é necessário exagerar, nem forçar a barra. Desculpem estar voltando ao tema, mas o sensacionalismo não descansa, por que eu vou descansar?
Morreu Almir Chediak, o autor daqueles songbooks maravilhosos da MPB. Foi ele quem facilitou bastante aos músicos (principiantes ou profissionais) o acesso às obras-primas da nossa cultura em todas as suas cifras e partituras. Uma perda lastimável de um produtor cultural que possivelmente iria acalentar novas gerações de artistas musicais com seu melhor produto.
Os assassinos de Almir confessaram o crime. O plano era assaltar a casa do produtor, roubar o carro e matá-lo, junto com sua namorada (que escapou). Afinal, ambos reconheceram o autor dos disparos, que era o velho caseiro do sítio de Almir.
Eis que o Jornal Nacional noticia a o crime e o funeral de Almir Chediak e, claro, ouve depoimentos de artistas presentes ao enterro. Francis Hime diz: “É uma grande perda para a nossa música. E a pessoa morrer assim... Onde vamos parar?”. João Bosco: “É um absurdo. Como duas pessoas podem matar outra, assim, com essa facilidade? Alguma coisa tem que ser feita”. Lembrando que era uma matéria editada.
Editada e direcionada por completo. Era pra noticiar a morte do produtor cultural carioca e de repente, não mais que de repente, vira um novo parâmetro-protesto classificando o Rio como o mundo maravilhoso da violência, a cidade-pária de nossas mazelas urbanas. Cidade calamitosa, reverberando o Casseta e Planeta.
Aos navegantes de primeiro artigo, esclareço (outra vez) que não sou um insensível que acha que tudo o que falam do Rio é “exagero”. Mas não posso compactuar com uma imprensa que, se já não bastasse ser sensacionalista, também é oportunista. Em vez de respeitar o luto da família e amigos de Chediak e simplesmente noticiar o que aconteceu (que por si só já choca a todos), acaba “aproveitando o ensejo” pra incitar a cultura do medo no carioca e no resto do Brasil em relação ao Rio. E usando das falas de artistas para legitimar essa postura. Sendo que eles eram os menos isentos para isso, uma vez que estavam emocionalmente envolvidos com a questão e eram artistas, não especialistas da área de segurança.
Não é meu intuito banalizar a violência, mas esse tipo de crime só acontece no Rio? Só acontece no Brasil? Acho que não. Também não acredito na imprensa “imparcial, neutra e objetiva” que “apenas noticie” sem qualquer interferência ou partidarismo. Mas e o bom senso, e o respeito à inteligência dos espectadores? Será que João Bosco e Francis Hime opinaram apenas sobre a violência na nossa cidade, justo na morte de um importante personagem da cena cultural brasileira? Quem não enxerga a Globo “forçando a barra” pra ligar o crime isolado ao clima de medo que já vem impondo faz tempo? E não só a Globo, claro.
Uma cidade superpopulosa, com contrastes sociais gritantes dos quais a violência é um de seus frutos. Essa é a descrição de qualquer uma das grandes capitais brasileiras. Por que o Rio tem que ser o “penico violento” do Brasil? E pior, pior: por que espalhar a cultura do medo?
Repito, “tripito”, “quadripito”: os fatos violentos falam por si só. Não é necessário exagerar, nem forçar a barra. Desculpem estar voltando ao tema, mas o sensacionalismo não descansa, por que eu vou descansar?
quinta-feira, 22 de maio de 2003
O cerejão
Frases minhas – semana passada: “eu vou”. Hoje: “eu fui”. Não é Rock in Rio, é a clássica Bienal do Livro 2003. Minha angústia de não poder visitá-la em um fim de semana inteiro (como era meu objetivo) foi suprida por uma ida na quarta-feira mesmo, depois do trabalho. Preparei-me: levei uma roupa mais leve e um tênis pra lá me trocar e aproveitar a feirona do livro mais à vontade.
Assim que cheguei, pensei em dar uma olhada na superlotada Arena Jovem. Desisti. O tema era TV e realidade, com Pedro Bial. Blergh! Guardei os volumes no guarda-volumes e comecei a jornada pelas editoras universitárias. De cara, 2 livros em menos de 10 minutos! Cheguei a me assustar com o que parecia ser um comportamento de comprador compulsivo...
A seguir, o Café Literário, no qual pude apreciar Armando Nogueira palestrando sobre Otto Lara Resende, no tema “Amigos para sempre”. Ótimas histórias, ótimos escritores. Mas um destaque necessário vai para a menina que distribuía as senhas. Ela era linda, linda... Vale a pena ir ao outro lado da face da Terra – o Riocentro – para encontrá-la. Cheguei a inventar uma nova dúvida só pra poder olhar para seu rosto outra vez e ouvir suas belas informações, com muito mais atenção na forma que no conteúdo. Atrasar-me-ei na próxima vez, para ser obrigado a assistir a palestra na TV – que fica ao lado dela...
Mas o meu destaque principal vai mesmo para o stand do Ministério da Educação, que cada vez mais tem a cara do Cristovam Buarque, meu novo super-herói. Como não podia deixar de ser, o tema principal era a campanha para erradicar o analfabetismo em 4 anos (sem pensar em reeleição), capitaneado por um obcecado pela educação de um povo necessitando disso, às vezes sem saber.
Ao lado do stand, uma câmara escura decorada por fora com cartas estilizadas em tamanho gigante. O conteúdo delas era o mesmo: pessoas recém-alfabetizadas escreviam seu primeiro texto na vida, e diziam isso ao destinatário. Comovente, mas há mais. Ao adentrar a câmara escura, um breu e uma narração em voz firme anunciando que, por cinco minutos, viveríamos como 20 milhões de brasileiros. Somos então “levados” a sair de nossa casa, ir até o centro da cidade, procurar emprego e fazer as coisas mais simples do cotidiano, com luzes iluminando fotos de cada ação do tipo. Com a diferença de que todas as indicações (placas, classificados, marcas em geral) estarem escritas ao contrário e adulteradas, impedindo sua leitura. Ao final, somos convidados a deixar nossa assinatura – que não seria outra senão uma impressão digital.
Por cinco minutos fomos levados a perceber que 20 milhões de analfabetos não podem fazer sozinhos coisas simples da vida, como pegar um ônibus ou comprar um remédio. São muito dependentes e, conseqüentemente, explorados. De uma forma ou de outra, humilhados. Ao final recebemos cartilhas e folders sobre o plano para erradicar o analfabetismo no Brasil. Plano que não é apenas para um Governo se virar, tomar os louros pra si e créditos pra eleição. Mas que convoca cada brasileiro leitor, fazendo despertar sua sensibilidade para que a massa de iletrados excluídos possa ao menos ter chance de enxergar um sentido na dura vida que leva. Um sentimento de libertação é urgente para essas pessoas, e cada um de nós é responsável. Não há espaço para desculpas do tipo “nem sabia a que ponto estava”. Como diz o programa do Ministro, são 20 milhões que não sabem ler a própria bandeira (Que Ordem? Que Progresso?).
Por tudo isso, o stand foi o cerejão do bolo da Bienal. E fica a proposta: Cristovam Buarque Ministro da Educação vitalício!
Frases minhas – semana passada: “eu vou”. Hoje: “eu fui”. Não é Rock in Rio, é a clássica Bienal do Livro 2003. Minha angústia de não poder visitá-la em um fim de semana inteiro (como era meu objetivo) foi suprida por uma ida na quarta-feira mesmo, depois do trabalho. Preparei-me: levei uma roupa mais leve e um tênis pra lá me trocar e aproveitar a feirona do livro mais à vontade.
Assim que cheguei, pensei em dar uma olhada na superlotada Arena Jovem. Desisti. O tema era TV e realidade, com Pedro Bial. Blergh! Guardei os volumes no guarda-volumes e comecei a jornada pelas editoras universitárias. De cara, 2 livros em menos de 10 minutos! Cheguei a me assustar com o que parecia ser um comportamento de comprador compulsivo...
A seguir, o Café Literário, no qual pude apreciar Armando Nogueira palestrando sobre Otto Lara Resende, no tema “Amigos para sempre”. Ótimas histórias, ótimos escritores. Mas um destaque necessário vai para a menina que distribuía as senhas. Ela era linda, linda... Vale a pena ir ao outro lado da face da Terra – o Riocentro – para encontrá-la. Cheguei a inventar uma nova dúvida só pra poder olhar para seu rosto outra vez e ouvir suas belas informações, com muito mais atenção na forma que no conteúdo. Atrasar-me-ei na próxima vez, para ser obrigado a assistir a palestra na TV – que fica ao lado dela...
Mas o meu destaque principal vai mesmo para o stand do Ministério da Educação, que cada vez mais tem a cara do Cristovam Buarque, meu novo super-herói. Como não podia deixar de ser, o tema principal era a campanha para erradicar o analfabetismo em 4 anos (sem pensar em reeleição), capitaneado por um obcecado pela educação de um povo necessitando disso, às vezes sem saber.
Ao lado do stand, uma câmara escura decorada por fora com cartas estilizadas em tamanho gigante. O conteúdo delas era o mesmo: pessoas recém-alfabetizadas escreviam seu primeiro texto na vida, e diziam isso ao destinatário. Comovente, mas há mais. Ao adentrar a câmara escura, um breu e uma narração em voz firme anunciando que, por cinco minutos, viveríamos como 20 milhões de brasileiros. Somos então “levados” a sair de nossa casa, ir até o centro da cidade, procurar emprego e fazer as coisas mais simples do cotidiano, com luzes iluminando fotos de cada ação do tipo. Com a diferença de que todas as indicações (placas, classificados, marcas em geral) estarem escritas ao contrário e adulteradas, impedindo sua leitura. Ao final, somos convidados a deixar nossa assinatura – que não seria outra senão uma impressão digital.
Por cinco minutos fomos levados a perceber que 20 milhões de analfabetos não podem fazer sozinhos coisas simples da vida, como pegar um ônibus ou comprar um remédio. São muito dependentes e, conseqüentemente, explorados. De uma forma ou de outra, humilhados. Ao final recebemos cartilhas e folders sobre o plano para erradicar o analfabetismo no Brasil. Plano que não é apenas para um Governo se virar, tomar os louros pra si e créditos pra eleição. Mas que convoca cada brasileiro leitor, fazendo despertar sua sensibilidade para que a massa de iletrados excluídos possa ao menos ter chance de enxergar um sentido na dura vida que leva. Um sentimento de libertação é urgente para essas pessoas, e cada um de nós é responsável. Não há espaço para desculpas do tipo “nem sabia a que ponto estava”. Como diz o programa do Ministro, são 20 milhões que não sabem ler a própria bandeira (Que Ordem? Que Progresso?).
Por tudo isso, o stand foi o cerejão do bolo da Bienal. E fica a proposta: Cristovam Buarque Ministro da Educação vitalício!
sábado, 17 de maio de 2003
Procurando os tiros
Há filmes que não consigo explicar por que, mas afirmo com certeza que precisam ser vistos por cada habitante do planeta. Filmes que, não sei descrever exatamente como, mexem comigo e invocam – às vezes à força – nossa sensibilidade para que saiamos de nosso mundinho pessoal e percebamos que há uma realidade pulsando a nossa volta. E que estar esclarecido sobre essa realidade faz com que desejemos ser melhores seres humanos.
Tiros em Columbine é um filme assim. Para quem ainda não sabe ou não lembra, foi o documentário que ganhou o Oscar no qual o diretor, Michael Moore fez um ousado discurso contra Bush e os senhores da guerra americanos - sejam eles políticos, militares, artistas ou cidadãos.
O tema principal do filme é a mania de armas dos cidadãos norte-americanos, suas possíveis causas e terríveis conseqüências. Mas aborda a questão em diversos níveis, usando do humor. O melhor é ver pessoas cínicas admitindo seu cinismo diante das câmeras, admitindo o mal que fazem para a sociedade da qual são parte: o produtor do programa “Cops”, uma espécie de “Linha Direta” de muito sucesso nos EUA; Charlton Heston, presidente de honra da Associação Nacional do Rifle que discursa, um dia depois, nas cidades onde crianças e adolescentes mataram colegas e professores de escola. Defendendo as armas! E é encurralado por Michael Moore numa entrevista sensacional. Os políticos que promovem a cultura do medo através da mídia totalmente cooptada e sem o menor compromisso com o que noticiam. Um procedimento bem familiar aos cariocas e brasileiros que ouvem as notícias do Rio.
Não dá pra traduzir o que o filme proporciona. Eu vi há 2 horas e ainda não consigo colocar em palavras o impacto que ele causa. Talvez verbalmente, mas não na escrita. O que gostaria de deixar registrado aqui é a necessidade urgente de dizer aos leitores: vejam esse filme. Vejam, façam um grande favor à sensibilidade e à construção da personalidade de vocês, para que percebam no que podemos nos tornar, o quão responsáveis podemos ser pelos monstros que surgem aqui e acolá. O quão maléfico pode ser a preguiça de pensar. Ou o desprezo pelo papel de cada um como cidadão, eleitor, espectador crítico, leitor atento.
Tiros em Columbine não é apenas um filme. Desculpe o artigo aquém do esperado, mas é preciso que você vá ao cinema para eu poder me comunicar melhor.
Há filmes que não consigo explicar por que, mas afirmo com certeza que precisam ser vistos por cada habitante do planeta. Filmes que, não sei descrever exatamente como, mexem comigo e invocam – às vezes à força – nossa sensibilidade para que saiamos de nosso mundinho pessoal e percebamos que há uma realidade pulsando a nossa volta. E que estar esclarecido sobre essa realidade faz com que desejemos ser melhores seres humanos.
Tiros em Columbine é um filme assim. Para quem ainda não sabe ou não lembra, foi o documentário que ganhou o Oscar no qual o diretor, Michael Moore fez um ousado discurso contra Bush e os senhores da guerra americanos - sejam eles políticos, militares, artistas ou cidadãos.
O tema principal do filme é a mania de armas dos cidadãos norte-americanos, suas possíveis causas e terríveis conseqüências. Mas aborda a questão em diversos níveis, usando do humor. O melhor é ver pessoas cínicas admitindo seu cinismo diante das câmeras, admitindo o mal que fazem para a sociedade da qual são parte: o produtor do programa “Cops”, uma espécie de “Linha Direta” de muito sucesso nos EUA; Charlton Heston, presidente de honra da Associação Nacional do Rifle que discursa, um dia depois, nas cidades onde crianças e adolescentes mataram colegas e professores de escola. Defendendo as armas! E é encurralado por Michael Moore numa entrevista sensacional. Os políticos que promovem a cultura do medo através da mídia totalmente cooptada e sem o menor compromisso com o que noticiam. Um procedimento bem familiar aos cariocas e brasileiros que ouvem as notícias do Rio.
Não dá pra traduzir o que o filme proporciona. Eu vi há 2 horas e ainda não consigo colocar em palavras o impacto que ele causa. Talvez verbalmente, mas não na escrita. O que gostaria de deixar registrado aqui é a necessidade urgente de dizer aos leitores: vejam esse filme. Vejam, façam um grande favor à sensibilidade e à construção da personalidade de vocês, para que percebam no que podemos nos tornar, o quão responsáveis podemos ser pelos monstros que surgem aqui e acolá. O quão maléfico pode ser a preguiça de pensar. Ou o desprezo pelo papel de cada um como cidadão, eleitor, espectador crítico, leitor atento.
Tiros em Columbine não é apenas um filme. Desculpe o artigo aquém do esperado, mas é preciso que você vá ao cinema para eu poder me comunicar melhor.
quinta-feira, 15 de maio de 2003
A carapuça que nunca serve
Ok, vivemos no Rio, uma cidade cuja fama violenta propaga-se com velocidade crescente aqui e lá fora. Até aí nada de novo que a mídia não esteja proclamando repetidas vezes. Entretanto uma matéria me chamou a atenção na semana passada. Foi a primeira página do Globo em 09/05: Cultura do medo se espalha no Rio. Logo abaixo, a chamada: Escolas e universidade suspendem atividades; acidente banal gera pânico na Linha Vermelha.
Sim, a violência vem aumentando, fruto de uma desigualdade social cada vez maior e da força do tráfico. Sim, policiais corruptos impedem que a corrupção diminua. Sim, autoridades da área de segurança que se revezam ano após ano não conseguem sequer lidar com o problema. Mas a pergunta que me surgiu é: como uma cultura do medo se espalha?
Lembrei de uma conversa que tive há pouco com meu chefe. Comentava o fato de um amigo não sair de casa à noite com medo da violência. No que ele respondeu ao amigo: “do jeito que as coisas estão, se tomarmos essa atitude a gente não sai de casa pra nada, pra lugar nenhum, em hora nenhuma”. E me toquei que, não importa como esteja o Rio, preciso todos os dias sair de casa, trabalhar, ir pra faculdade e voltar pra casa.
Longe de mim ser frio e insensível dizer que precisamos fingir que a violência não existe no Rio, ou que não sou um “possível alvo”. Mas a paranóia... Como somos induzidos a encarar a questão da violência sempre em um nível maior do que já está? Essa chamada “cultura do medo” é algo a mais, um extra do qual não necessitamos que a imprensa nos forneça. Os fatos por si só já bastam, não é necessário exagerar o exagero.
Mas o sensacionalismo não se contenta com os fatos em si, mesmo quando procura (e acha) os mais terríveis. Precisa “aculturar” o público consumidor das notícias de maneira que o clima seja mantido, mesmo que, no momento, o que menos se precise é de adrenalina além da conta. (Curioso é que em Copa do Mundo e Carnaval nem bala perdida aparece... A violência “acaba” pelo tempo que convém.)
Até que ponto um alarde do tipo “acidente banal na Linha Vermelha” na primeira página pode colaborar para que uma histeria não nos domine? Por que o RJTV precisa colocar, enquanto o apresentador se dirige a nós, um logo vermelho escrito “A NOSSA GUERRA”, assim, em caixa alta e tudo? Até que ponto o vocábulo “guerra” aparecer fácil em conversa de boteco não prejudica a nossa apreensão dos fatos como eles são e a conscientização para que se saiba cobrar soluções para a situação do Rio?
Diante disso tudo, a matéria do Casseta e Planeta (de 1993!) sobre a “Cidade Calamitosa” continua atual e, abusando da ironia, corre o risco de nos fazer pensar melhor sobre a que ponto chegamos. E olha que o slogan deles é “humorismo verdade, jornalismo mentira”...
Ok, vivemos no Rio, uma cidade cuja fama violenta propaga-se com velocidade crescente aqui e lá fora. Até aí nada de novo que a mídia não esteja proclamando repetidas vezes. Entretanto uma matéria me chamou a atenção na semana passada. Foi a primeira página do Globo em 09/05: Cultura do medo se espalha no Rio. Logo abaixo, a chamada: Escolas e universidade suspendem atividades; acidente banal gera pânico na Linha Vermelha.
Sim, a violência vem aumentando, fruto de uma desigualdade social cada vez maior e da força do tráfico. Sim, policiais corruptos impedem que a corrupção diminua. Sim, autoridades da área de segurança que se revezam ano após ano não conseguem sequer lidar com o problema. Mas a pergunta que me surgiu é: como uma cultura do medo se espalha?
Lembrei de uma conversa que tive há pouco com meu chefe. Comentava o fato de um amigo não sair de casa à noite com medo da violência. No que ele respondeu ao amigo: “do jeito que as coisas estão, se tomarmos essa atitude a gente não sai de casa pra nada, pra lugar nenhum, em hora nenhuma”. E me toquei que, não importa como esteja o Rio, preciso todos os dias sair de casa, trabalhar, ir pra faculdade e voltar pra casa.
Longe de mim ser frio e insensível dizer que precisamos fingir que a violência não existe no Rio, ou que não sou um “possível alvo”. Mas a paranóia... Como somos induzidos a encarar a questão da violência sempre em um nível maior do que já está? Essa chamada “cultura do medo” é algo a mais, um extra do qual não necessitamos que a imprensa nos forneça. Os fatos por si só já bastam, não é necessário exagerar o exagero.
Mas o sensacionalismo não se contenta com os fatos em si, mesmo quando procura (e acha) os mais terríveis. Precisa “aculturar” o público consumidor das notícias de maneira que o clima seja mantido, mesmo que, no momento, o que menos se precise é de adrenalina além da conta. (Curioso é que em Copa do Mundo e Carnaval nem bala perdida aparece... A violência “acaba” pelo tempo que convém.)
Até que ponto um alarde do tipo “acidente banal na Linha Vermelha” na primeira página pode colaborar para que uma histeria não nos domine? Por que o RJTV precisa colocar, enquanto o apresentador se dirige a nós, um logo vermelho escrito “A NOSSA GUERRA”, assim, em caixa alta e tudo? Até que ponto o vocábulo “guerra” aparecer fácil em conversa de boteco não prejudica a nossa apreensão dos fatos como eles são e a conscientização para que se saiba cobrar soluções para a situação do Rio?
Diante disso tudo, a matéria do Casseta e Planeta (de 1993!) sobre a “Cidade Calamitosa” continua atual e, abusando da ironia, corre o risco de nos fazer pensar melhor sobre a que ponto chegamos. E olha que o slogan deles é “humorismo verdade, jornalismo mentira”...
sexta-feira, 9 de maio de 2003
E os pimpolhos? - parte 2
Transcrevo abaixo o ótimo comentário da amiga Louise Araujo, formada em jornalismo pela UFF (eu chego lá!) e leitora assídua deste blog:
"Bom, TV nunca educou. A programação era tão ruim antes (com raras exceções) quanto o é hoje (com raras exceções). Mas antes, pela dificuldade de acesso ao aparelho, menos crianças eram deixadas aos cuidados da telinha. Atualmente, quando a banalização da aquisição tornou possível ter uma babá eletrônica em cada cômodo (e ainda equipada com canais mil, cheios de atrativos), tornou-se lógico para muitos pais que aquela caixinha tivesse o discernimento e a pedagogia de um real educador - e largaram o "trabalho sujo" pra ser feito por ela.
Eu lembro que, numa cena de "A próxima vítima" (novela do Sílvio de Abreu) o personagem de Rosamaria Murtinho aparecia morta, boiando numa piscina. Muitos pais podem ter se indignado de ter se veiculado cena tão forte num horário em que as crianças ainda estavam acordadas - mas pelo menos uma mãe discordou deles. Escreveu uma carta (para O Globo? JB? Não lembro....) dizendo que, ao invés de se horrorizar, explicou ao filho o que tinha acontecido, lembrou que aquela era apenas uma cena de novela (e vamos combinar que os contos de fada têm cenas bem mais violentas do que essa) etc etc etc. Enfim, explicou o mundo ao filho, ensinou as coisas da vida a ele. E parabenizava o autor pela boa qualidade da cena.
Que bom seria se todos os pais agissem assim - ou seja, com a consciência de que têm um dever muito importante ao colocarem uma criança no mundo: educá-la. Isso não é uma tarefa fácil nem divertida; mas é a obrigação de quem se sentiu adulto o suficiente para tomar a decisão de trazer um ser humano ao mundo. Até porque, vamos combinar, ninguém prometeu que ele viria com um manual de instruções."
Transcrevo abaixo o ótimo comentário da amiga Louise Araujo, formada em jornalismo pela UFF (eu chego lá!) e leitora assídua deste blog:
"Bom, TV nunca educou. A programação era tão ruim antes (com raras exceções) quanto o é hoje (com raras exceções). Mas antes, pela dificuldade de acesso ao aparelho, menos crianças eram deixadas aos cuidados da telinha. Atualmente, quando a banalização da aquisição tornou possível ter uma babá eletrônica em cada cômodo (e ainda equipada com canais mil, cheios de atrativos), tornou-se lógico para muitos pais que aquela caixinha tivesse o discernimento e a pedagogia de um real educador - e largaram o "trabalho sujo" pra ser feito por ela.
Eu lembro que, numa cena de "A próxima vítima" (novela do Sílvio de Abreu) o personagem de Rosamaria Murtinho aparecia morta, boiando numa piscina. Muitos pais podem ter se indignado de ter se veiculado cena tão forte num horário em que as crianças ainda estavam acordadas - mas pelo menos uma mãe discordou deles. Escreveu uma carta (para O Globo? JB? Não lembro....) dizendo que, ao invés de se horrorizar, explicou ao filho o que tinha acontecido, lembrou que aquela era apenas uma cena de novela (e vamos combinar que os contos de fada têm cenas bem mais violentas do que essa) etc etc etc. Enfim, explicou o mundo ao filho, ensinou as coisas da vida a ele. E parabenizava o autor pela boa qualidade da cena.
Que bom seria se todos os pais agissem assim - ou seja, com a consciência de que têm um dever muito importante ao colocarem uma criança no mundo: educá-la. Isso não é uma tarefa fácil nem divertida; mas é a obrigação de quem se sentiu adulto o suficiente para tomar a decisão de trazer um ser humano ao mundo. Até porque, vamos combinar, ninguém prometeu que ele viria com um manual de instruções."
domingo, 4 de maio de 2003
Sites que recomendo:
www.observatoriodaimprensa.com.br
www.canaldaimprensa.com.br
www.chicobuarque.com.br
www.jobim.com.br
www.comunique-se.com.br
www.observatoriodaimprensa.com.br
www.canaldaimprensa.com.br
www.chicobuarque.com.br
www.jobim.com.br
www.comunique-se.com.br
E os pimpolhos?
A omissão pode ser mais ativa do que se pensa. A passividade, mais destruidora do que se imagina. Pais e filhos parecem sentir isso a cada geração que passa. O pior é que todos sentem, mas não parecem admitir. Principalmente após a TV ter conquistado seu lugar em nosso cotidiano.
Há pouco li no site www.canaldaimprensa.com.br que "uma estatística das Organizações das Nações Unidas, divulgada em 1998, mostra que a TV brasileira exibe 20 crimes por hora de desenho animado. Esse mapeamento da ONU também diz que, nas seis emissoras abertas, detectam-se 1.432 crimes em uma semana de desenhos animados". É matéria-prima em abundância para que os pais fiquem revoltados e se perguntem: os donos das emissoras de TV aberta gostariam que a programação por eles produzida se dirigisse a seus filhos? Será que realmente a assistem com gosto?
O foco deste artigo não é saber se a violência dos desenhos faz efeitos ou não, nem ser ingênuo de não pensar que os donos de emissoras têm interesses muito além do mero entretenimento. O curioso é observar a chiadeira de pais em relação a essas estatísticas, que isso é um absurdo etc e tal. Legítimo, mas ofuscador muitas vezes.
É fato que preferimos escolher coisas que nos dêem o menor trabalho possível, ou menos esforço precisemos empreender. Mas é maduro compreender que certas coisas que dão trabalho assim têm que ser para termos o fruto seguro ao final do processo. Refiro-me, neste instante, à missão dos pais em educar os filhos e acompanhá-los e, sempre que possível, esclarecê-los sobre valores humanos universais que precisam ser mantidos, ainda que uma maravilhosa TV diga o contrário. E isso dá trabalho.
O ofuscamento do qual falei se encontra aí. Não quero generalizar, mas quando vejo muitos pais reclamando que a TV só tem porcaria etc e tal, logo me pergunto: será que estão fazendo sua parte? Será que a aparente revolta não ofusca uma passividade no acompanhar dos filhos? A TV não tem o apelido de "babá eletrônica" à toa...
Por vezes critico a imprensa neste blog, e o faço tentando ser coerente. Sabendo que um dia serei profissional do ramo e não poderei deixar pra trás tudo o que disse. Não posso chafurdar na crítica e deixar de fazer a minha parte. Os pais precisam ter senso crítico sim, e precisam também ser ativos no cuidar de seus filhos, conversar com eles para que possam discernir que nem tudo (ou, infelizmente, muito pouco) do que aquela caixinha colorida transmite atualmente traz algo de bom. Que seus filhos precisam crescer sem se render à alienação que alienígenas como Xuxa Meneghel tentam empreender a cada aparição no monitor (falo isso como sobrevivente do Xou da Xuxa, graças a Deus e a minha mãe).
O lance é que isso dá trabalho, né? Mas se os pais não assumirem esse esforço, que geração seguinte virá? Que fruto virá ao final do processo? É hora de desprezar o imediatismo reinante sabendo que "longo prazo" não é só jargão.
A omissão pode ser mais ativa do que se pensa. A passividade, mais destruidora do que se imagina. Pais e filhos parecem sentir isso a cada geração que passa. O pior é que todos sentem, mas não parecem admitir. Principalmente após a TV ter conquistado seu lugar em nosso cotidiano.
Há pouco li no site www.canaldaimprensa.com.br que "uma estatística das Organizações das Nações Unidas, divulgada em 1998, mostra que a TV brasileira exibe 20 crimes por hora de desenho animado. Esse mapeamento da ONU também diz que, nas seis emissoras abertas, detectam-se 1.432 crimes em uma semana de desenhos animados". É matéria-prima em abundância para que os pais fiquem revoltados e se perguntem: os donos das emissoras de TV aberta gostariam que a programação por eles produzida se dirigisse a seus filhos? Será que realmente a assistem com gosto?
O foco deste artigo não é saber se a violência dos desenhos faz efeitos ou não, nem ser ingênuo de não pensar que os donos de emissoras têm interesses muito além do mero entretenimento. O curioso é observar a chiadeira de pais em relação a essas estatísticas, que isso é um absurdo etc e tal. Legítimo, mas ofuscador muitas vezes.
É fato que preferimos escolher coisas que nos dêem o menor trabalho possível, ou menos esforço precisemos empreender. Mas é maduro compreender que certas coisas que dão trabalho assim têm que ser para termos o fruto seguro ao final do processo. Refiro-me, neste instante, à missão dos pais em educar os filhos e acompanhá-los e, sempre que possível, esclarecê-los sobre valores humanos universais que precisam ser mantidos, ainda que uma maravilhosa TV diga o contrário. E isso dá trabalho.
O ofuscamento do qual falei se encontra aí. Não quero generalizar, mas quando vejo muitos pais reclamando que a TV só tem porcaria etc e tal, logo me pergunto: será que estão fazendo sua parte? Será que a aparente revolta não ofusca uma passividade no acompanhar dos filhos? A TV não tem o apelido de "babá eletrônica" à toa...
Por vezes critico a imprensa neste blog, e o faço tentando ser coerente. Sabendo que um dia serei profissional do ramo e não poderei deixar pra trás tudo o que disse. Não posso chafurdar na crítica e deixar de fazer a minha parte. Os pais precisam ter senso crítico sim, e precisam também ser ativos no cuidar de seus filhos, conversar com eles para que possam discernir que nem tudo (ou, infelizmente, muito pouco) do que aquela caixinha colorida transmite atualmente traz algo de bom. Que seus filhos precisam crescer sem se render à alienação que alienígenas como Xuxa Meneghel tentam empreender a cada aparição no monitor (falo isso como sobrevivente do Xou da Xuxa, graças a Deus e a minha mãe).
O lance é que isso dá trabalho, né? Mas se os pais não assumirem esse esforço, que geração seguinte virá? Que fruto virá ao final do processo? É hora de desprezar o imediatismo reinante sabendo que "longo prazo" não é só jargão.
sábado, 26 de abril de 2003
Pequenas anotações educacionais
Solidarizei-me com o Ministro da Educação Cristovam Buarque ao ler sua entrevista a Míriam Leitão no GLOBO de hoje (26/04). Como todos sabem, o ministro é, por vocação, obcecado pela educação. É dele a idéia metafórica da “segunda abolição” em relação à desigualdade social. Cristovam relembra o contexto da abolição da escravatura, que se deu devido a vários procedimentos históricos, mas algo foi principal: já não era viável para ninguém que a escravidão continuasse. E isso no sentido mais literal da coisa: não era viável social nem economicamente, de modo que a situação chegou a um nível em que não havia outra solução senão libertar os escravos.
Paralelamente, o ministro afirma que a desigualdade social está chegando em níveis parecidos. A escalada da violência, a miséria cada vez mais impossível de se ignorar, o “apartheid” entre os que têm e os que não têm, tudo isso somado à “sensibilidade” da sociedade de consumo, que começa a perceber o quão caro está ficando manter essa desigualdade, gastando rios de dinheiro com a indústria da segurança, por exemplo.
Com esse embasamento, o ministro está lutando para que a educação seja uma prioridade no governo atual. E ninguém em sã consciência pode negar que a erradicação do analfabetismo e um ensino/aprendizado de qualidade no mínimo faz com que os cidadãos se vejam como tal, esclarecendo-se e em maiores condições de diminuir o abismo da desigualdade.
Mas minha solidariedade com o ministro foi quando ele respondia à crítica feita pelo economista José Márcio Camargo ao programa de alfabetização de adultos, dizendo que é preciso concentrar-se nos jovens. Do contrário, em alguns anos haverá 40% de brasileiros (crianças de hoje) que não terão completado o 1º grau. Ao que o ministro respondeu:
“Respeito o economista e acho que está em boa companhia. Meu mestre, Darcy Ribeiro, pensava assim também. Mas eu não quero fazer essa escolha de Sofia. É como chegar em casa e ver sua mãe e seu filho doentes e levar apenas o filho ao médico: quero salvar avó e neto. Sei que, do ponto de vista econômico, este raciocínio de esquecer os velhos faz sentido. Mas não acho que ele faça sentido do ponto de vista ético.”
Aí está o terrível dilema do ministro. Sua última frase é emblemática, em um mundo no qual sabemos mais o que é risco-Brasil e superávit primário do que Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério). O lucro sempre existiu, mas a que ponto se chegou? Faz sentido esquecer os velhos na sociedade de consumo voltada quase que exclusivamente para pessoas de 12 a 30 anos (no caso, eu)? Pior é que faz. Como para muitos faz sentido diminuir o valor da educação, como se esta não fosse em boa parte responsável pela dignidade humana – muito mais do que os cifrões.
Ouço com certo alívio o compartilhar de Cristovam Buarque de não se render ao monetarismo que transforma a ética em mais um item de prateleira. E aí eu dou uma “panfletada” meio sem querer, já que não é este o objetivo do blog. Para os que duvidavam que a esperança venceu o medo, eis um lampejo de que isso ainda é verdade. Pelo menos no Ministério da Educação.
Solidarizei-me com o Ministro da Educação Cristovam Buarque ao ler sua entrevista a Míriam Leitão no GLOBO de hoje (26/04). Como todos sabem, o ministro é, por vocação, obcecado pela educação. É dele a idéia metafórica da “segunda abolição” em relação à desigualdade social. Cristovam relembra o contexto da abolição da escravatura, que se deu devido a vários procedimentos históricos, mas algo foi principal: já não era viável para ninguém que a escravidão continuasse. E isso no sentido mais literal da coisa: não era viável social nem economicamente, de modo que a situação chegou a um nível em que não havia outra solução senão libertar os escravos.
Paralelamente, o ministro afirma que a desigualdade social está chegando em níveis parecidos. A escalada da violência, a miséria cada vez mais impossível de se ignorar, o “apartheid” entre os que têm e os que não têm, tudo isso somado à “sensibilidade” da sociedade de consumo, que começa a perceber o quão caro está ficando manter essa desigualdade, gastando rios de dinheiro com a indústria da segurança, por exemplo.
Com esse embasamento, o ministro está lutando para que a educação seja uma prioridade no governo atual. E ninguém em sã consciência pode negar que a erradicação do analfabetismo e um ensino/aprendizado de qualidade no mínimo faz com que os cidadãos se vejam como tal, esclarecendo-se e em maiores condições de diminuir o abismo da desigualdade.
Mas minha solidariedade com o ministro foi quando ele respondia à crítica feita pelo economista José Márcio Camargo ao programa de alfabetização de adultos, dizendo que é preciso concentrar-se nos jovens. Do contrário, em alguns anos haverá 40% de brasileiros (crianças de hoje) que não terão completado o 1º grau. Ao que o ministro respondeu:
“Respeito o economista e acho que está em boa companhia. Meu mestre, Darcy Ribeiro, pensava assim também. Mas eu não quero fazer essa escolha de Sofia. É como chegar em casa e ver sua mãe e seu filho doentes e levar apenas o filho ao médico: quero salvar avó e neto. Sei que, do ponto de vista econômico, este raciocínio de esquecer os velhos faz sentido. Mas não acho que ele faça sentido do ponto de vista ético.”
Aí está o terrível dilema do ministro. Sua última frase é emblemática, em um mundo no qual sabemos mais o que é risco-Brasil e superávit primário do que Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério). O lucro sempre existiu, mas a que ponto se chegou? Faz sentido esquecer os velhos na sociedade de consumo voltada quase que exclusivamente para pessoas de 12 a 30 anos (no caso, eu)? Pior é que faz. Como para muitos faz sentido diminuir o valor da educação, como se esta não fosse em boa parte responsável pela dignidade humana – muito mais do que os cifrões.
Ouço com certo alívio o compartilhar de Cristovam Buarque de não se render ao monetarismo que transforma a ética em mais um item de prateleira. E aí eu dou uma “panfletada” meio sem querer, já que não é este o objetivo do blog. Para os que duvidavam que a esperança venceu o medo, eis um lampejo de que isso ainda é verdade. Pelo menos no Ministério da Educação.
quinta-feira, 24 de abril de 2003
Você é estúpido, ignorante e burro!
É o que certos órgãos de imprensa parecem nos dizer a cada notícia por eles veiculada. O Jornal da Globo está sendo campeão disso, principalmente com a cada vez mais estrelinha Ana Paula "Podrão", atual capa da revista Nova (!!!). Hoje a matéria que fechava o jornal era sobre as possíveis cirurgias plásticas as quais Saddam Hussein poderia ter se submetido para escapar do cerco do Bush.
O assunto em si já é estapafúrdio, mas eles não se dão por satisfeitos na tarefa de nos tratar como está expresso no título desse artigo. Para isso, fazem uma longa "reportagem", olha só: de acordo com cirurgiões de Houston, Texas (terrinha do Bush, olha q coincidência!!) Saddam PODERIA TER PASSADO por cirurgias de até 9 horas de duração. Enquanto a Podrão narrava, fotos de Saddam, ao lado de suas POSSÍVEIS mudanças no rosto, indicadas com setinhas!
Jornalisticamente, tudo é um desastre. Primeiro: que legitimidade tem uma fonte americana do Texas (a ÚNICA consultada) pra falar sobre o destino de Saddam? (Chega a ser infantil a tentativa de explicar como os poderosos ianques destruíram tudo no Iraque mas deixaram escapar o vilão da história). Fora a nova mania da imprensa: usar o verbo no condicional, eximindo-se da obrigação de checar a veracidade dos fatos. Se PODERIA ser e não é, qual o problema? Eu poderia não ter dito nada disso, mas disse. Que diferença vai fazer? A imprensa nega o que sempre foi a sua principal virtude: investigar com responsabilidade. E como poderia se precisar onde Saddam fez as "mexidas" no rosto, dizendo até a duração da cirurgia? Chutômetro da pior qualidade, eu inventaria melhor.
Mas o pior é veicular isso num dos jornais mais assistidos do país. Na boa, se João Kleber noticiasse o absurdo acima, quem daria crédito? Afinal, é o estilo do cara, concorda? E o Jornal da Globo chegou nesse nível.
O que irrita é tratar os telespectadores como idiotas. Pensar que não vamos achar ridículo fofocas sobre botox que Saddam botou... Francamente, tá me achando com cara de quê? De Bush?
É o que certos órgãos de imprensa parecem nos dizer a cada notícia por eles veiculada. O Jornal da Globo está sendo campeão disso, principalmente com a cada vez mais estrelinha Ana Paula "Podrão", atual capa da revista Nova (!!!). Hoje a matéria que fechava o jornal era sobre as possíveis cirurgias plásticas as quais Saddam Hussein poderia ter se submetido para escapar do cerco do Bush.
O assunto em si já é estapafúrdio, mas eles não se dão por satisfeitos na tarefa de nos tratar como está expresso no título desse artigo. Para isso, fazem uma longa "reportagem", olha só: de acordo com cirurgiões de Houston, Texas (terrinha do Bush, olha q coincidência!!) Saddam PODERIA TER PASSADO por cirurgias de até 9 horas de duração. Enquanto a Podrão narrava, fotos de Saddam, ao lado de suas POSSÍVEIS mudanças no rosto, indicadas com setinhas!
Jornalisticamente, tudo é um desastre. Primeiro: que legitimidade tem uma fonte americana do Texas (a ÚNICA consultada) pra falar sobre o destino de Saddam? (Chega a ser infantil a tentativa de explicar como os poderosos ianques destruíram tudo no Iraque mas deixaram escapar o vilão da história). Fora a nova mania da imprensa: usar o verbo no condicional, eximindo-se da obrigação de checar a veracidade dos fatos. Se PODERIA ser e não é, qual o problema? Eu poderia não ter dito nada disso, mas disse. Que diferença vai fazer? A imprensa nega o que sempre foi a sua principal virtude: investigar com responsabilidade. E como poderia se precisar onde Saddam fez as "mexidas" no rosto, dizendo até a duração da cirurgia? Chutômetro da pior qualidade, eu inventaria melhor.
Mas o pior é veicular isso num dos jornais mais assistidos do país. Na boa, se João Kleber noticiasse o absurdo acima, quem daria crédito? Afinal, é o estilo do cara, concorda? E o Jornal da Globo chegou nesse nível.
O que irrita é tratar os telespectadores como idiotas. Pensar que não vamos achar ridículo fofocas sobre botox que Saddam botou... Francamente, tá me achando com cara de quê? De Bush?
sábado, 19 de abril de 2003
Ai, a realidade...
“De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.” Esse adágio da Lei de Murphy caracteriza perfeitamente os rumos da televisão brasileira, principalmente a aberta. Os exemplos são inúmeros, impossível abordar como gostaria todos eles. Fiquemos com a edificante Guerra do Sono, no programa do magnânimo Luciano Huck.
A idéia, como vigora na maioria dos reality shows, nada tem a ver com humanidade. Proibir a alguém o necessário descanso diário da consciência pareceria insano se viesse dos nazistas, fundamentalistas islâmicos, traficantes... Mas é no sábado à tarde da Globo, então tá tranqüilo.
O esquema do programa é igualzinho aos BBBs, com direito a confessionário e gincanas promovidas pela produção - para que os telespectadores não tenham a chance de se dar conta de como aquilo tudo é muito chato... Afinal, é ver na TV gente grogue e remelenta recusando-se a dormir! O que mais?
De qualquer forma, o que me levou a escrever esse artigo foi observar o programa hoje (19/04). Ouço Luciano Huck anunciando aos insones que eles iriam contar com a presença dos Lusíadas. Não entendi. Mas me atemorizei mesmo quando ouvi a frase do dono do Caldeirão: “Porque Guerra do Sono também é cultura!”. O que seria a cultura promovida por Luciano Huck na Guerra do Sono??? (É curioso que virou bordão a frase “... também é cultura!”. A cultura ficou renegada ao também, ao segundo plano, a algo mais que não o principal, ou essencial. E as coisas mais esdrúxulas possíveis ganham assim a licença de se dizer portadoras de cultura.)
Eis que entra na casa dos insones um senhor desconhecido portando na mão um exemplar de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões. Ele começou a declamar e então percebi que era pra dar sono aos participantes!! O primeiro grande poeta da língua portuguesa ficou reduzido a sonífero de desmiolados!
Para os que acham que estou pegando pesado, o programa se encarregou de falar por mim: clipes com depoimentos dos insones foram mostrados em seguida. O primeiro já falava por todos: “Eu nunca li poesia, mas gosto quando falam (recitam) pra mim”. Outro se dirigia ao que declamava, claramente ansiando por uma negativa: “você vai até o final (do livro)?”. Não havia como negar que ali estava representada uma boa parte do Brasil.
A média de idade dos participantes não deve passar dos 20 anos. Todos frutos vivos de uma geração criada pela “babá eletrônica”, habituados a desprezar as demais faces da cultura - tão necessária como outros direitos humanos básicos, como anuncia este blog. Ou que coloca a leitura e o exercício do pensar como característicos dos “intelectuais” ou dos “nerds-que-não-aproveitam-a-vida-e-não-pegam-ninguém”. E a cultura das celebridades de hoje estimula (e necessita de) gente com essa atitude.
Como eu disse a uma amiga, aos que vêem algum sentido nas linhas aqui proferidas, resta-nos ser os heróis da resistência. Nossa crítica deve ser exercida na medida ideal, sabendo discernir quando querem nos fazer de “videotas” e conseguir compartilhar tais percepções, tão combatidas pela alienação desejada pelos donos do poder.
Há pouco li que o inventor da televisão, pouco antes de morrer, foi abordado por alguém que lhe perguntou qual a melhor coisa de seu tão popular invento. E ele respondeu: “o botão de desligar”.
“De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.” Esse adágio da Lei de Murphy caracteriza perfeitamente os rumos da televisão brasileira, principalmente a aberta. Os exemplos são inúmeros, impossível abordar como gostaria todos eles. Fiquemos com a edificante Guerra do Sono, no programa do magnânimo Luciano Huck.
A idéia, como vigora na maioria dos reality shows, nada tem a ver com humanidade. Proibir a alguém o necessário descanso diário da consciência pareceria insano se viesse dos nazistas, fundamentalistas islâmicos, traficantes... Mas é no sábado à tarde da Globo, então tá tranqüilo.
O esquema do programa é igualzinho aos BBBs, com direito a confessionário e gincanas promovidas pela produção - para que os telespectadores não tenham a chance de se dar conta de como aquilo tudo é muito chato... Afinal, é ver na TV gente grogue e remelenta recusando-se a dormir! O que mais?
De qualquer forma, o que me levou a escrever esse artigo foi observar o programa hoje (19/04). Ouço Luciano Huck anunciando aos insones que eles iriam contar com a presença dos Lusíadas. Não entendi. Mas me atemorizei mesmo quando ouvi a frase do dono do Caldeirão: “Porque Guerra do Sono também é cultura!”. O que seria a cultura promovida por Luciano Huck na Guerra do Sono??? (É curioso que virou bordão a frase “... também é cultura!”. A cultura ficou renegada ao também, ao segundo plano, a algo mais que não o principal, ou essencial. E as coisas mais esdrúxulas possíveis ganham assim a licença de se dizer portadoras de cultura.)
Eis que entra na casa dos insones um senhor desconhecido portando na mão um exemplar de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões. Ele começou a declamar e então percebi que era pra dar sono aos participantes!! O primeiro grande poeta da língua portuguesa ficou reduzido a sonífero de desmiolados!
Para os que acham que estou pegando pesado, o programa se encarregou de falar por mim: clipes com depoimentos dos insones foram mostrados em seguida. O primeiro já falava por todos: “Eu nunca li poesia, mas gosto quando falam (recitam) pra mim”. Outro se dirigia ao que declamava, claramente ansiando por uma negativa: “você vai até o final (do livro)?”. Não havia como negar que ali estava representada uma boa parte do Brasil.
A média de idade dos participantes não deve passar dos 20 anos. Todos frutos vivos de uma geração criada pela “babá eletrônica”, habituados a desprezar as demais faces da cultura - tão necessária como outros direitos humanos básicos, como anuncia este blog. Ou que coloca a leitura e o exercício do pensar como característicos dos “intelectuais” ou dos “nerds-que-não-aproveitam-a-vida-e-não-pegam-ninguém”. E a cultura das celebridades de hoje estimula (e necessita de) gente com essa atitude.
Como eu disse a uma amiga, aos que vêem algum sentido nas linhas aqui proferidas, resta-nos ser os heróis da resistência. Nossa crítica deve ser exercida na medida ideal, sabendo discernir quando querem nos fazer de “videotas” e conseguir compartilhar tais percepções, tão combatidas pela alienação desejada pelos donos do poder.
Há pouco li que o inventor da televisão, pouco antes de morrer, foi abordado por alguém que lhe perguntou qual a melhor coisa de seu tão popular invento. E ele respondeu: “o botão de desligar”.
sábado, 12 de abril de 2003
Os neobobos
Esta semana recebi um e-mail da Marcia, namorada do João Pedro, dois grandes amigos meus. Devidamente autorizado, transcrevo o que ela disse:
“Oi galera,
Hoje, dia 8, foi publicada uma matéria sobre a guerra no Jornal do Commercio em que é mostrada a foto de um menino de 12 anos. Seu nome é Ismaeel. Enquanto dormia, sua casa foi destruída, seus pais e nove parentes morreram e esse menino teve o corpo queimado e perdeu os dois braços. Sei lá, pode parecer bobeira minha, eu sei que os jornais divulgam essas fotos pra comover mesmo, mas eu me senti muito, muito, muito mal por não estar orando como deveria por essa guerra. Estar orando pelas pessoas que estão envolvidas nisso tudo. Eu senti uma tristeza tão grande de ver essa criança que só tem 12 anos e que daqui pra frente vai levar uma vida totalmente diferente. Sei lá, quando eu terminei de ler eu agradeci tanto a Deus por tudo que tenho.”
Parei tudo o que estava fazendo. Sério, parei de analisar as causas e conseqüências da guerra, seus mandantes, o que virá depois. Parei de pensar na política brasileira, nas incertezas da economia. Parei de pensar sobre minhas pendências no trabalho. Minha vida parou por alguns instantes.
Isso porque alguém, com uma simplicidade tremenda, regada, claro, a uma sinceridade inquestionável (o e-mail seguiu para poucas pessoas, sem IBOPE) conseguiu exprimir o que muitos estão sentindo. O que mais me chamou a atenção foi Márcia dizer “Sei que pode parecer bobeira minha...”. No que logo respondi: continue com essa bobeira! Seja sempre boba, então!
Caramba, ficamos constrangidos em nos compadecer publicamente de alguém! O mundo que nos cerca orgulha-se tanto de sua esperteza, maliciosidade e individualismo exacerbado a ponto de fazer com que nossos mais sinceros (e comuns!) sentimentos pareçam o mais ingênuos e inúteis possíveis.
Por que seria bobeira nos sentirmos mal diante de uma guerra? Diante de um menino que teve sua vida completamente alterada enquanto nós estamos aqui, comparativamente, 100% bem? Por que se sentir mal por se sentir mal por alguém?
Se é assim, então tá: de agora em diante, sou um bobo. Ou melhor (aproveitando o termo de uma infeliz declaração de FHC sobre economia): sou um neobobo. Com a diferença que não vou me auto-censurar no momento de expressar essa neobobeira, de mostrar que o ser humano não é feito de concreto – exterior ou interiormente – ao me deparar com cenas ou acontecimentos que afrontam nossa própria natureza.
(Não é à toa que a imprensa sempre foi perseguida, pressionada, cooptada. Seria vantagem para o doutrinário Bush mostrar crianças feridas em uma guerra por eles tão ardorosamente defendida? Seria vantagem para o doutrinário Saddam mostrar cenas de suas tropas cambaleantes e sem chances de resistir ao exército ianque? É do jornalista a responsabilidade de noticiar, desde o repórter que escreve até o fotógrafo e o cinegrafista que mostram. O lidar com tais responsabilidades é o que faz um profissional ético ou não. )
Ver aquela imagem do Ismaeel despertou em minha amiga algo que pode vir a ser uma reação em cadeia. Quem sabe?
Esta semana recebi um e-mail da Marcia, namorada do João Pedro, dois grandes amigos meus. Devidamente autorizado, transcrevo o que ela disse:
“Oi galera,
Hoje, dia 8, foi publicada uma matéria sobre a guerra no Jornal do Commercio em que é mostrada a foto de um menino de 12 anos. Seu nome é Ismaeel. Enquanto dormia, sua casa foi destruída, seus pais e nove parentes morreram e esse menino teve o corpo queimado e perdeu os dois braços. Sei lá, pode parecer bobeira minha, eu sei que os jornais divulgam essas fotos pra comover mesmo, mas eu me senti muito, muito, muito mal por não estar orando como deveria por essa guerra. Estar orando pelas pessoas que estão envolvidas nisso tudo. Eu senti uma tristeza tão grande de ver essa criança que só tem 12 anos e que daqui pra frente vai levar uma vida totalmente diferente. Sei lá, quando eu terminei de ler eu agradeci tanto a Deus por tudo que tenho.”
Parei tudo o que estava fazendo. Sério, parei de analisar as causas e conseqüências da guerra, seus mandantes, o que virá depois. Parei de pensar na política brasileira, nas incertezas da economia. Parei de pensar sobre minhas pendências no trabalho. Minha vida parou por alguns instantes.
Isso porque alguém, com uma simplicidade tremenda, regada, claro, a uma sinceridade inquestionável (o e-mail seguiu para poucas pessoas, sem IBOPE) conseguiu exprimir o que muitos estão sentindo. O que mais me chamou a atenção foi Márcia dizer “Sei que pode parecer bobeira minha...”. No que logo respondi: continue com essa bobeira! Seja sempre boba, então!
Caramba, ficamos constrangidos em nos compadecer publicamente de alguém! O mundo que nos cerca orgulha-se tanto de sua esperteza, maliciosidade e individualismo exacerbado a ponto de fazer com que nossos mais sinceros (e comuns!) sentimentos pareçam o mais ingênuos e inúteis possíveis.
Por que seria bobeira nos sentirmos mal diante de uma guerra? Diante de um menino que teve sua vida completamente alterada enquanto nós estamos aqui, comparativamente, 100% bem? Por que se sentir mal por se sentir mal por alguém?
Se é assim, então tá: de agora em diante, sou um bobo. Ou melhor (aproveitando o termo de uma infeliz declaração de FHC sobre economia): sou um neobobo. Com a diferença que não vou me auto-censurar no momento de expressar essa neobobeira, de mostrar que o ser humano não é feito de concreto – exterior ou interiormente – ao me deparar com cenas ou acontecimentos que afrontam nossa própria natureza.
(Não é à toa que a imprensa sempre foi perseguida, pressionada, cooptada. Seria vantagem para o doutrinário Bush mostrar crianças feridas em uma guerra por eles tão ardorosamente defendida? Seria vantagem para o doutrinário Saddam mostrar cenas de suas tropas cambaleantes e sem chances de resistir ao exército ianque? É do jornalista a responsabilidade de noticiar, desde o repórter que escreve até o fotógrafo e o cinegrafista que mostram. O lidar com tais responsabilidades é o que faz um profissional ético ou não. )
Ver aquela imagem do Ismaeel despertou em minha amiga algo que pode vir a ser uma reação em cadeia. Quem sabe?
terça-feira, 8 de abril de 2003
O muro desconfortável
A tão esperada volta do Casseta e Planeta trouxe na sua pesquisa “ao vivo e se mexendo” mais uma pergunta que não quer calar. “Pra quem você está torcendo nessa guerra: pro babaca do Bush ou pro escroto do Saddam?”.
Seguindo a universal biologia das brincadeiras, essa também tem fundo de verdade. Em dois aspectos: 1) Nosso subconsciente, incentivado pela mídia (particularmente a TV) encara a guerra como uma disputa qualquer; 2) Somos forçados a ficar em cima do muro de forma desconfortável.
Acompanhamos as notícias diárias do front como um jogo de xadrez, em que avaliamos se as estratégias de ataque e defesa estão dando certo ou não. Pelo número de mortos de cada lado, além do avanço geográfico, prestamos bastante atenção se um “time” está em “vantagem”. E a TV muito colabora, na medida em que nos coloca no mesmo lugar em que sempre estamos nas Copas, Olimpíadas etc: torcedores na expectativa, sentados em segurança no sofá. Com a diferença que não sonhamos ver o espetáculo ao vivo e de camarote.
E aí entra o segundo aspecto da questão: torcemos pro babaca do Bush ou pro escroto do Saddam? Nossa índole diz que ninguém merece nossa torcida, mas... Quando você vê o Bush dizendo que a guerra é para desarmar o Iraque, e só por isso, aclamado por uma população doutrinada pela extrema-direita, não dá raiva? Quando você vê o Saddam sendo aclamado por uma população que sofre as agruras de sua ditadura com toques populistas e tem que brigar ridiculamente pro chefe continuar com seus palácios, não dá raiva?
Temos vontade de torcer sim. O ruim é que sempre vamos acabar torcendo pelo vilão. É isso que me incomoda.
E aí somos forçados a ficar em cima do muro. Eu queria torcer contra o ianque ignorante que usa toda a cara-de-pau possível pra dizer que é presidente de uma democracia, que sua imprensa não sofre pressões, que seu exército não erra nunca.... Mas aí eu vou torcer pro bigodudo que fica cada vez mais rico em um país que sofre há 12 anos severas sanções da ONU?
Você nunca torceu pro Bush morrer, se possível com um tiro do Saddam? Você nunca torceu pro Iraque ser um país um pouco mais normal, e o presidente que impede isso fosse morto? Eu já. E freqüentemente me flagro desse modo, por mais que eu abomine matar alguém. Ok, tem gente que parece que pede. Ainda assim, eu não me sinto à vontade torcendo pra vilão.
Cá estou eu, me equilibrando em cima do muro. É desconfortável, eu sei. Mas se um dia eu me acomodar e me acostumar, provavelmente estarei no sofá – e só. Talvez com um balde de pipoca, compondo a mais insensível das cenas de guerra.
A tão esperada volta do Casseta e Planeta trouxe na sua pesquisa “ao vivo e se mexendo” mais uma pergunta que não quer calar. “Pra quem você está torcendo nessa guerra: pro babaca do Bush ou pro escroto do Saddam?”.
Seguindo a universal biologia das brincadeiras, essa também tem fundo de verdade. Em dois aspectos: 1) Nosso subconsciente, incentivado pela mídia (particularmente a TV) encara a guerra como uma disputa qualquer; 2) Somos forçados a ficar em cima do muro de forma desconfortável.
Acompanhamos as notícias diárias do front como um jogo de xadrez, em que avaliamos se as estratégias de ataque e defesa estão dando certo ou não. Pelo número de mortos de cada lado, além do avanço geográfico, prestamos bastante atenção se um “time” está em “vantagem”. E a TV muito colabora, na medida em que nos coloca no mesmo lugar em que sempre estamos nas Copas, Olimpíadas etc: torcedores na expectativa, sentados em segurança no sofá. Com a diferença que não sonhamos ver o espetáculo ao vivo e de camarote.
E aí entra o segundo aspecto da questão: torcemos pro babaca do Bush ou pro escroto do Saddam? Nossa índole diz que ninguém merece nossa torcida, mas... Quando você vê o Bush dizendo que a guerra é para desarmar o Iraque, e só por isso, aclamado por uma população doutrinada pela extrema-direita, não dá raiva? Quando você vê o Saddam sendo aclamado por uma população que sofre as agruras de sua ditadura com toques populistas e tem que brigar ridiculamente pro chefe continuar com seus palácios, não dá raiva?
Temos vontade de torcer sim. O ruim é que sempre vamos acabar torcendo pelo vilão. É isso que me incomoda.
E aí somos forçados a ficar em cima do muro. Eu queria torcer contra o ianque ignorante que usa toda a cara-de-pau possível pra dizer que é presidente de uma democracia, que sua imprensa não sofre pressões, que seu exército não erra nunca.... Mas aí eu vou torcer pro bigodudo que fica cada vez mais rico em um país que sofre há 12 anos severas sanções da ONU?
Você nunca torceu pro Bush morrer, se possível com um tiro do Saddam? Você nunca torceu pro Iraque ser um país um pouco mais normal, e o presidente que impede isso fosse morto? Eu já. E freqüentemente me flagro desse modo, por mais que eu abomine matar alguém. Ok, tem gente que parece que pede. Ainda assim, eu não me sinto à vontade torcendo pra vilão.
Cá estou eu, me equilibrando em cima do muro. É desconfortável, eu sei. Mas se um dia eu me acomodar e me acostumar, provavelmente estarei no sofá – e só. Talvez com um balde de pipoca, compondo a mais insensível das cenas de guerra.
domingo, 6 de abril de 2003
Sem graça pra zoar
Pela primeira vez, não vou achar graça das piadas do Casseta e Planeta sobre o Rubinho "Pé-de-chinelo". O cara tava fazendo uma ótima corrida de recuperação, ultrapassando todos com a ousadia de quem corre em casa, demonstrando melhora no jeito de conduzir, chegou à primeira colocação com mais da metade da corrida realizada... e o carro quebrou.
Em outras épocas, eu diria: "típico do Rubinho, o cara é ruim e pé-frio". Dessa vez, não. A frustração estampada no rosto dele após a parada forçada era do tipo: "dessa vez fiz tudo certo, pq esse castigo?". Como estará sua auto-estima agora? Seria a oportunidade ideal para uma virada na carreira: ganhar bem, no Brasil... Agora, o risco do efeito contrário. É, estou solidário com o Barrichello.
Pela primeira vez, não vou achar graça das piadas do Casseta e Planeta sobre o Rubinho "Pé-de-chinelo". O cara tava fazendo uma ótima corrida de recuperação, ultrapassando todos com a ousadia de quem corre em casa, demonstrando melhora no jeito de conduzir, chegou à primeira colocação com mais da metade da corrida realizada... e o carro quebrou.
Em outras épocas, eu diria: "típico do Rubinho, o cara é ruim e pé-frio". Dessa vez, não. A frustração estampada no rosto dele após a parada forçada era do tipo: "dessa vez fiz tudo certo, pq esse castigo?". Como estará sua auto-estima agora? Seria a oportunidade ideal para uma virada na carreira: ganhar bem, no Brasil... Agora, o risco do efeito contrário. É, estou solidário com o Barrichello.
O conceito de musa mudou
Ao menos para mim. Lembro que a primeira vez em que ouvi a palavra foi antes mesmo de minha adolescência. Era a “musa inspiradora”, de poetas principalmente. Na mesma época ouvia falar também de “amor platônico”. De primeira, logo concluí: os poetas sentem amor platônico pelas musas inspiradoras. Faz sentido até hoje.
Até porque gosto de escrever e tenho minhas musas inspiradoras. Não necessariamente que me levem a uma vida de Álvares de Azevedo, que por elas “morria seguidamente”. Nesse período do Romantismo, ficou marcada a idéia da musa pura e inatingível, e essa distância fazia o poeta sofrer, sofrer e sofrer. Nada saudável.
O que não podemos negar é que temos idealizações. De tudo: futuro, família, possíveis empregos, sonhos em geral. Por que não teríamos de mulher? E esse tipo de idealização materializa-se na musa.
Até pouco tempo, minha musa principal era Gisele Bündchen. Precisei agüentar a oposição implacável dos que a acusavam de magrela, insensível (vide a campanha com casacos de pele) e de “cabeça-de-vento com classe”. Não posso dizer que discordava das opiniões acima, mas ela era minha musa e ponto final. Modelo de beleza que me alcançava etc. Não dá pra ficar conjecturando muito sobre essa preferência. O que não esperava é que o conceito de musa mudasse a partir de três mulheres em especial. Todas elas, de certa forma, minhas musas secundárias até então.
Paloma Duarte me conquistou de vez ao reagir à sórdida campanha terrorista de José Serra nas últimas eleições. Regina Duarte fora ao programa do PSDB dizendo que estava com medo de Lula ganhar, usando de todos os argumentos estreitos e estereotipados para desqualificar o candidato e atemorizar o povo para o que viria pela frente. Paloma, militante da classe artística que acompanhou Lula nas demais eleições, se ofereceu para reagir:
“Eu quero dizer que um candidato que precisa aterrorizar a população brasileira em vez de se calcar às suas próprias virtudes para tentar se eleger não merece meu respeito. Não merece minha confiança, e, no meu entender, não mereceria jamais ser presidente da República”.
Admirei sua atitude e vi que não era uma alienada como tantas outras jovens atrizes brasileiras.
Quando trabalhava na Secretaria das Culturas, ganhei ingressos para a pré-estréia de “Lavoura Arcaica”, em sessão fechada no Espaço Unibanco. Só artista na parada, e lá estava Patrícia Pillar. O que primeiro me chamou a atenção é que ela era mais bonita ao vivo, sem a produção da TV à qual estava acostumado. Isso me marcou, e nesta semana (quase um ano depois de tê-la visto), ouvi suas opiniões a respeito do veículo que a projetou:
“Se a gente espera que a TV hoje mostre um comportamento exemplar, ela é um desastre! Não sou moralista, não acho que televisão tenha que ser só educativa e chata, mas é preciso ter mais cuidado. Sobretudo, sem atropelar as etapas. As crianças estão participando da vida adulta muito mais que deveriam.”
Em outro momento da entrevista, ela diz:
“Procuro, sempre que possível, fazer personagens que tenham o que dizer. Se for para fazer novela ou seriado ou filme que não dizem nada, prefiro ficar em casa e brincar de outras coisas.”
Pra completar, resolveram entrevistar Camila Pitanga também. Em seu rosto podemos flagrar a miscigenação brasileira revelada em beleza. Em suas palavras, a inteligência de quem percebe seu lugar na exposição pública, e sua responsabilidade à frente dos milhões de telespectadores globais. Sempre crítica ao culto às “celebridades”:
“Hoje se privilegia a efemeridade e o instantâneo. Assim, são produzidas também pessoas instantâneas. O sucesso a qualquer custo gera mais euforia que realização. A gente percebe a infelicidade nos olhos dessas pessoas que não se vêem velhas, não se enxergam no tempo. Pensam que é bacana estar in, ser cortejada. E depois, o que sobra?Está faltando qualidade ao desejo.”
Foi a terceira confirmação da mudança do conceito de musa. Não basta apenas ser bonita, a inteligência precisa existir e ter sabedoria para se revelar no momento e nas palavras certas. Isso apenas aumenta o valor da boa aparência e deixa a dona de tal conjunto ainda mais digna de ser chamada de musa.
Hoje meus suspiros têm mais qualidade de vida.
Ao menos para mim. Lembro que a primeira vez em que ouvi a palavra foi antes mesmo de minha adolescência. Era a “musa inspiradora”, de poetas principalmente. Na mesma época ouvia falar também de “amor platônico”. De primeira, logo concluí: os poetas sentem amor platônico pelas musas inspiradoras. Faz sentido até hoje.
Até porque gosto de escrever e tenho minhas musas inspiradoras. Não necessariamente que me levem a uma vida de Álvares de Azevedo, que por elas “morria seguidamente”. Nesse período do Romantismo, ficou marcada a idéia da musa pura e inatingível, e essa distância fazia o poeta sofrer, sofrer e sofrer. Nada saudável.
O que não podemos negar é que temos idealizações. De tudo: futuro, família, possíveis empregos, sonhos em geral. Por que não teríamos de mulher? E esse tipo de idealização materializa-se na musa.
Até pouco tempo, minha musa principal era Gisele Bündchen. Precisei agüentar a oposição implacável dos que a acusavam de magrela, insensível (vide a campanha com casacos de pele) e de “cabeça-de-vento com classe”. Não posso dizer que discordava das opiniões acima, mas ela era minha musa e ponto final. Modelo de beleza que me alcançava etc. Não dá pra ficar conjecturando muito sobre essa preferência. O que não esperava é que o conceito de musa mudasse a partir de três mulheres em especial. Todas elas, de certa forma, minhas musas secundárias até então.
Paloma Duarte me conquistou de vez ao reagir à sórdida campanha terrorista de José Serra nas últimas eleições. Regina Duarte fora ao programa do PSDB dizendo que estava com medo de Lula ganhar, usando de todos os argumentos estreitos e estereotipados para desqualificar o candidato e atemorizar o povo para o que viria pela frente. Paloma, militante da classe artística que acompanhou Lula nas demais eleições, se ofereceu para reagir:
“Eu quero dizer que um candidato que precisa aterrorizar a população brasileira em vez de se calcar às suas próprias virtudes para tentar se eleger não merece meu respeito. Não merece minha confiança, e, no meu entender, não mereceria jamais ser presidente da República”.
Admirei sua atitude e vi que não era uma alienada como tantas outras jovens atrizes brasileiras.
Quando trabalhava na Secretaria das Culturas, ganhei ingressos para a pré-estréia de “Lavoura Arcaica”, em sessão fechada no Espaço Unibanco. Só artista na parada, e lá estava Patrícia Pillar. O que primeiro me chamou a atenção é que ela era mais bonita ao vivo, sem a produção da TV à qual estava acostumado. Isso me marcou, e nesta semana (quase um ano depois de tê-la visto), ouvi suas opiniões a respeito do veículo que a projetou:
“Se a gente espera que a TV hoje mostre um comportamento exemplar, ela é um desastre! Não sou moralista, não acho que televisão tenha que ser só educativa e chata, mas é preciso ter mais cuidado. Sobretudo, sem atropelar as etapas. As crianças estão participando da vida adulta muito mais que deveriam.”
Em outro momento da entrevista, ela diz:
“Procuro, sempre que possível, fazer personagens que tenham o que dizer. Se for para fazer novela ou seriado ou filme que não dizem nada, prefiro ficar em casa e brincar de outras coisas.”
Pra completar, resolveram entrevistar Camila Pitanga também. Em seu rosto podemos flagrar a miscigenação brasileira revelada em beleza. Em suas palavras, a inteligência de quem percebe seu lugar na exposição pública, e sua responsabilidade à frente dos milhões de telespectadores globais. Sempre crítica ao culto às “celebridades”:
“Hoje se privilegia a efemeridade e o instantâneo. Assim, são produzidas também pessoas instantâneas. O sucesso a qualquer custo gera mais euforia que realização. A gente percebe a infelicidade nos olhos dessas pessoas que não se vêem velhas, não se enxergam no tempo. Pensam que é bacana estar in, ser cortejada. E depois, o que sobra?Está faltando qualidade ao desejo.”
Foi a terceira confirmação da mudança do conceito de musa. Não basta apenas ser bonita, a inteligência precisa existir e ter sabedoria para se revelar no momento e nas palavras certas. Isso apenas aumenta o valor da boa aparência e deixa a dona de tal conjunto ainda mais digna de ser chamada de musa.
Hoje meus suspiros têm mais qualidade de vida.
segunda-feira, 24 de março de 2003
Surpresa no Oscar, se é que isso é possível. O documentário Tiros em Columbine, do cineasta Michael Moore, ganhou o prêmio. O tema é indigesto em tempos de Bush: uma crítica ácida à indústria armamentista e ao pensamento de que tudo se resolve com uma arma para cada cidadão. Ainda mais pq Moore escreveu um livro detonando o governo de W.C.Bush (que virou best-seller) e é considerado o inimigo nº 1 do presidente americano.
Mas o melhor foi sua atitude e seu discurso ao ganhar o Oscar. Chamou todos os indicados para irem ao palco junto com ele e discursou: "Meus amigos, também indicados, estão sendo solidários comigo agora. Todos nós filmamos não-ficção, e isso num país onde eleições fictícias elegem um presidente fictício que cria uma guerra com razões fictícias." Ao fundo, ouviam-se aplausos e vaias, refletindo o sentimento dividido do povo americano. Não preciso nem dizer que espero ansiosamente a estréia de Tiros em Columbine, né?
Mas o melhor foi sua atitude e seu discurso ao ganhar o Oscar. Chamou todos os indicados para irem ao palco junto com ele e discursou: "Meus amigos, também indicados, estão sendo solidários comigo agora. Todos nós filmamos não-ficção, e isso num país onde eleições fictícias elegem um presidente fictício que cria uma guerra com razões fictícias." Ao fundo, ouviam-se aplausos e vaias, refletindo o sentimento dividido do povo americano. Não preciso nem dizer que espero ansiosamente a estréia de Tiros em Columbine, né?
quinta-feira, 20 de março de 2003
A GUERRA É SHOW!!!
Na sociedade do espetáculo em que vivemos, seremos maridos de Ana Paula Padrão durante um tempinho... Mas não se animem, rapazes! Ela estará ao nosso lado na hora de dormir só pra nos servir Bushada de Bode Expiatório, irá a todo momento nos dizer quando, onde e quantas bombas atingiram o Iraque, e só irá sumir de nossa frente se for pra mostrar imagens ao vivo de Bagdá. Nem dança do ventre vai ter, pra nos alegrar homenageando o mais novo World Trade Center.
Vasco e Fluminense decidindo a final? A toda hora o locutor nos lembra que, a qualquer momento, quando menos esperarmos, num susto ou num gritinho de "Surpresa!", mais notícias sobre a iminente guerra no Iraque. Iminente, eminente, Eminem, eminência parda e minoria belicista defecando na maioria pacifista. O Alto Comando com o olho grande besuntado de petróleo, e que opções para nosso entretenimento? Futebol, Ana Maria Braga, guerra, João Kleber... É só trocar de canal e... escolher?. Na CNN, a cara-de-pau oficializada e justificada (ô Max Lucado...); nas demais, um repeteco de macaquinhos de imitação com a cara da Padrão (menos mal). Ela anuncia, interrompendo os 5 minutos finais da eletrizante final carioca: "O Iraque PODE ESTAR sendo bombardeado nesse momento". Pode estar? E isso lá é notícia? É, pode ser.
A mídia é a grande personagem dessa e das demais guerras que virão. O instrumento preferido para lavagem cerebral sutil, jogando todo pensamento alternativo na vala dos anti-patrióticos, utópicos, sonhadores, malucos etc e tal. Ah, pra que cocaína, maconha, crack e tudo o mais? Eu tô dopadão pela TV, pela desinformação, pela única versão de uma guerra de um homem burro pra cacete mas que usa a pouca inteligência que lhe resta pra manipular o necessário, ou seja, aqueles que traduzem à sociedade o que com ela acontece: os intermediários, a inter-mídia, e o povo americano achando que o Ungido é do Texas, assim como nossa versão tupiniquim... deixa pra lá.
Agora a gente marca o cinema pra depois do Big Brother Bagdá: todos os dias, na sua telinha, quer vc queira ou não.
Na sociedade do espetáculo em que vivemos, seremos maridos de Ana Paula Padrão durante um tempinho... Mas não se animem, rapazes! Ela estará ao nosso lado na hora de dormir só pra nos servir Bushada de Bode Expiatório, irá a todo momento nos dizer quando, onde e quantas bombas atingiram o Iraque, e só irá sumir de nossa frente se for pra mostrar imagens ao vivo de Bagdá. Nem dança do ventre vai ter, pra nos alegrar homenageando o mais novo World Trade Center.
Vasco e Fluminense decidindo a final? A toda hora o locutor nos lembra que, a qualquer momento, quando menos esperarmos, num susto ou num gritinho de "Surpresa!", mais notícias sobre a iminente guerra no Iraque. Iminente, eminente, Eminem, eminência parda e minoria belicista defecando na maioria pacifista. O Alto Comando com o olho grande besuntado de petróleo, e que opções para nosso entretenimento? Futebol, Ana Maria Braga, guerra, João Kleber... É só trocar de canal e... escolher?. Na CNN, a cara-de-pau oficializada e justificada (ô Max Lucado...); nas demais, um repeteco de macaquinhos de imitação com a cara da Padrão (menos mal). Ela anuncia, interrompendo os 5 minutos finais da eletrizante final carioca: "O Iraque PODE ESTAR sendo bombardeado nesse momento". Pode estar? E isso lá é notícia? É, pode ser.
A mídia é a grande personagem dessa e das demais guerras que virão. O instrumento preferido para lavagem cerebral sutil, jogando todo pensamento alternativo na vala dos anti-patrióticos, utópicos, sonhadores, malucos etc e tal. Ah, pra que cocaína, maconha, crack e tudo o mais? Eu tô dopadão pela TV, pela desinformação, pela única versão de uma guerra de um homem burro pra cacete mas que usa a pouca inteligência que lhe resta pra manipular o necessário, ou seja, aqueles que traduzem à sociedade o que com ela acontece: os intermediários, a inter-mídia, e o povo americano achando que o Ungido é do Texas, assim como nossa versão tupiniquim... deixa pra lá.
Agora a gente marca o cinema pra depois do Big Brother Bagdá: todos os dias, na sua telinha, quer vc queira ou não.
domingo, 9 de março de 2003
OS IRMÃOS SALLES ARREBENTAM!
Se vc acha que as únicas realizações de Walter Salles Jr. são "Central do Brasil" e "Abril Despedaçado", precisa ver o que ele e o irmão (João Moreira Salles) já fizeram em forma de documentário... Ontem vi dois filmes (do João, com edição do Walter), na sala de vídeo do CCBB, que valem muito conferir!
Futebol 3 é um documentário cujo tema principal é a vida de um ex-jogador de futebol. Como acontece essa mudança? O cara sempre jogou e de repente tem que começar tudo de novo, uma nova carreira. A fama já não está com ele, como é o dia-a-dia de uma ex-celebridade da bola? O filme conta com depoimentos de Bellini, Nilton Santos, Zico, PelÉdson Arantes, Dadá Maravilha. Mas o barato mesmo é que a equipe de filmagem passou uma semana com Paulo César Caju, polêmico ex-jogador que é uma figuraça!!!!! É meio reality show, mas com uma contribuição à sociedade bem elevada a dos Big Brothers da vida...
Em Santa Cruz, João Salles acompanha por 9 meses o cotidiano de uma igreja evangélica minúscula no bairro da Zona Oeste do Rio, numa comunidade bem pobre. Mas ver a simplicidade da fé, a comunhão genuína, testemunhos e louvores na vida de quem tinha tudo pra maldizer sua sorte, é espetacular. Emocionante em cada minuto, lágrimas garantidas.
Se vc acha que as únicas realizações de Walter Salles Jr. são "Central do Brasil" e "Abril Despedaçado", precisa ver o que ele e o irmão (João Moreira Salles) já fizeram em forma de documentário... Ontem vi dois filmes (do João, com edição do Walter), na sala de vídeo do CCBB, que valem muito conferir!
Futebol 3 é um documentário cujo tema principal é a vida de um ex-jogador de futebol. Como acontece essa mudança? O cara sempre jogou e de repente tem que começar tudo de novo, uma nova carreira. A fama já não está com ele, como é o dia-a-dia de uma ex-celebridade da bola? O filme conta com depoimentos de Bellini, Nilton Santos, Zico, PelÉdson Arantes, Dadá Maravilha. Mas o barato mesmo é que a equipe de filmagem passou uma semana com Paulo César Caju, polêmico ex-jogador que é uma figuraça!!!!! É meio reality show, mas com uma contribuição à sociedade bem elevada a dos Big Brothers da vida...
Em Santa Cruz, João Salles acompanha por 9 meses o cotidiano de uma igreja evangélica minúscula no bairro da Zona Oeste do Rio, numa comunidade bem pobre. Mas ver a simplicidade da fé, a comunhão genuína, testemunhos e louvores na vida de quem tinha tudo pra maldizer sua sorte, é espetacular. Emocionante em cada minuto, lágrimas garantidas.
domingo, 16 de fevereiro de 2003
Instintos
Tenho percebido que preciso sempre seguir meus "instintos culturais". Por exemplo: no último sábado, dei uma olhada nos filmes e peças em cartaz, nada interessante. Se ainda assim eu insistisse em ir, seria uma droga de programa. Contudo estava a fim de pegar uns filmes no vídeo, segui esse meu "instinto" e acabei trazendo duas preciosidades para casa.
Amores é um filme de Domingos de Oliveira, que está estourando nos cinemas com Separações. O estilo é o mesmo, roteiro baseado no cotidiano amoroso de todos nós, com qualidade idêntica a de seu mais recente filme. Comédia e drama se revezam sem cansar o espectador, boas interpretações com destaque para a do próprio Domingos. Amores não teve tanta repercussão (talvez por ele malhar a Globo e mexer com outros tabus), mas é um ótimo divertimento em alto nível.
O jornal é um filme que trata da correria do fechamento de matérias, ética na profissão, dia-a-dia na redação, a vida pessoal do repórter afetada por seu trabalho... Confesso que é um filme que os jornalistas e estudantes de comunicação vão gostar mais do que outros de diferentes áreas. Bom filme, roteiro diversificado e bem construído, a ponto de poder tratar dos diversos assuntos que relacionei acima. É incrível como Hollywood consegue fazer ótimos filmes sobre os desvios de conduta da mídia, muitas vezes protagonizados por eles próprios: O quarto poder, Show de Truman, Mera Coincidência etc.
E agora é aguardar os indicados ao Oscar...
Tenho percebido que preciso sempre seguir meus "instintos culturais". Por exemplo: no último sábado, dei uma olhada nos filmes e peças em cartaz, nada interessante. Se ainda assim eu insistisse em ir, seria uma droga de programa. Contudo estava a fim de pegar uns filmes no vídeo, segui esse meu "instinto" e acabei trazendo duas preciosidades para casa.
Amores é um filme de Domingos de Oliveira, que está estourando nos cinemas com Separações. O estilo é o mesmo, roteiro baseado no cotidiano amoroso de todos nós, com qualidade idêntica a de seu mais recente filme. Comédia e drama se revezam sem cansar o espectador, boas interpretações com destaque para a do próprio Domingos. Amores não teve tanta repercussão (talvez por ele malhar a Globo e mexer com outros tabus), mas é um ótimo divertimento em alto nível.
O jornal é um filme que trata da correria do fechamento de matérias, ética na profissão, dia-a-dia na redação, a vida pessoal do repórter afetada por seu trabalho... Confesso que é um filme que os jornalistas e estudantes de comunicação vão gostar mais do que outros de diferentes áreas. Bom filme, roteiro diversificado e bem construído, a ponto de poder tratar dos diversos assuntos que relacionei acima. É incrível como Hollywood consegue fazer ótimos filmes sobre os desvios de conduta da mídia, muitas vezes protagonizados por eles próprios: O quarto poder, Show de Truman, Mera Coincidência etc.
E agora é aguardar os indicados ao Oscar...
domingo, 9 de fevereiro de 2003
Bons filmes brasileiros...
Ah, como é bom saciar-se com a retomada do cinema brasileiro, que tem produzido uma obra-prima atrás da outra, com criatividade. Ontem fui ver 2 filmes no cinema, os dois nacionais.
Separações, que eu já havia comentado aqui, é sensacional. O roteiro de Domingos de Oliveira (que também dirige e escreve) é algo de outro planeta! Mas isso é só força de expressão mesmo, já que todo o argumento é baseado nas idas e vindas de relacionamentos e nosso cotidiano, e as cenas se passam aqui no Rio, em lugares conhecidos, como o Baixo Gávea, Leblon etc. Não há como não lembrar dos filmes do gênero que Woody Allen faz tão bem. Contudo Separações não é uma cópia barata do judeu novaiorquino. Cada diálogo (e a hilária interpretação de Domingos) fogem por completo dos clichês e da obviedade, fazendo com que a platéia só abra a boca na hora de dar gargalhadas. Cada fala é preciosa, e um filme de 2 horas só de conversas e mais conversas torna-se acessível aos mais variados tipos de público.
Deus é brasileiro também é muito legal, especialmente por um coadjuvante que rouba a cena: Wagner Moura. Ele "engole" as interpretações de Antônio Fagundes (que está legal) e de Paloma Duarte (que está fraquinha) e dá o tom de humor que sustenta o filme do começo ao fim. Lembra muito Matheus Natchergale no "Auto da compadecida". As piadas de duplo sentido envolvendo Deus também são boas, e as paisagens do nosso Brasil coroam mais um "filme de estrada" de Cacá Diegues. Heresias à parte, o fime dá discussão e, claro, divertimento garantido.
Ah, como é bom saciar-se com a retomada do cinema brasileiro, que tem produzido uma obra-prima atrás da outra, com criatividade. Ontem fui ver 2 filmes no cinema, os dois nacionais.
Separações, que eu já havia comentado aqui, é sensacional. O roteiro de Domingos de Oliveira (que também dirige e escreve) é algo de outro planeta! Mas isso é só força de expressão mesmo, já que todo o argumento é baseado nas idas e vindas de relacionamentos e nosso cotidiano, e as cenas se passam aqui no Rio, em lugares conhecidos, como o Baixo Gávea, Leblon etc. Não há como não lembrar dos filmes do gênero que Woody Allen faz tão bem. Contudo Separações não é uma cópia barata do judeu novaiorquino. Cada diálogo (e a hilária interpretação de Domingos) fogem por completo dos clichês e da obviedade, fazendo com que a platéia só abra a boca na hora de dar gargalhadas. Cada fala é preciosa, e um filme de 2 horas só de conversas e mais conversas torna-se acessível aos mais variados tipos de público.
Deus é brasileiro também é muito legal, especialmente por um coadjuvante que rouba a cena: Wagner Moura. Ele "engole" as interpretações de Antônio Fagundes (que está legal) e de Paloma Duarte (que está fraquinha) e dá o tom de humor que sustenta o filme do começo ao fim. Lembra muito Matheus Natchergale no "Auto da compadecida". As piadas de duplo sentido envolvendo Deus também são boas, e as paisagens do nosso Brasil coroam mais um "filme de estrada" de Cacá Diegues. Heresias à parte, o fime dá discussão e, claro, divertimento garantido.
sábado, 8 de fevereiro de 2003
MULHERES APAIXONADAS? Não pela novela...
Vocês já viram as chamadas pra nova novela das oito? A Globo deve estar chamando os telespectadores de pinguços, porque depois de Esperança aí vem outro "porre". E de Manoel Carlos, um dos piores dramaturgos que já pintou na TV. Lembra de "Por Amor", "Laços de Família"...? É tudo dele, e com a mesma (chata) fórmula: histórias ditas românticas que não passam de clichês (de novo, é só olhar as chamadas para a próxima novela). Estou me ocupando tanto desse assunto porque Manoel Carlos é incensado como grande autor, e é só assisitr a qualquer produção dele que se percebe a mentira! Texto pobre, e principalmente, clichês, clichês! Tanta obviedade sendo tratada como obra-prima irrita qualquer um...
Vocês já viram as chamadas pra nova novela das oito? A Globo deve estar chamando os telespectadores de pinguços, porque depois de Esperança aí vem outro "porre". E de Manoel Carlos, um dos piores dramaturgos que já pintou na TV. Lembra de "Por Amor", "Laços de Família"...? É tudo dele, e com a mesma (chata) fórmula: histórias ditas românticas que não passam de clichês (de novo, é só olhar as chamadas para a próxima novela). Estou me ocupando tanto desse assunto porque Manoel Carlos é incensado como grande autor, e é só assisitr a qualquer produção dele que se percebe a mentira! Texto pobre, e principalmente, clichês, clichês! Tanta obviedade sendo tratada como obra-prima irrita qualquer um...
sábado, 1 de fevereiro de 2003
Fui fazer um desses testes e olha o que deu:

Faça você também Que
gênio-louco é você? Uma criação de O Mundo Insano da Abyssinia
Faça você também Que
gênio-louco é você? Uma criação de O Mundo Insano da Abyssinia
Estou lendo (na medida do possível, já que o tempo sempre é curto) um livro que fez 100 anos em dezembro último: Os Sertões, de Euclides da Cunha. Tudo começa com uma certa identificação: ele era jornalista, e foi cobrir os avanços militares republicanos na região de Canudos. O jornal era "A Província de São Paulo", o nosso hoje famoso "O Estado de São Paulo". O livro é composto por três partes: "A terra", "O homem" e "A luta". Li apenas a primeira, e é impressionante o conhecimento de geologia e biologia de Euclides da Cunha para descrever como era o local das expedições. Você consegue visualizar com facilidade. Só pra se ter uma idéia, Euclides apresenta uma solução... para a seca!
É uma leitura difícil, embora muito bem construída. Dizem que a última parte é a melhor, até para se ler. De qualquer forma, é um clássico da literatura brasileira que se mantém atemporal - e essa é uma característica universal das grandes obras.
É uma leitura difícil, embora muito bem construída. Dizem que a última parte é a melhor, até para se ler. De qualquer forma, é um clássico da literatura brasileira que se mantém atemporal - e essa é uma característica universal das grandes obras.
domingo, 26 de janeiro de 2003
Mudando hoje a cara deste blog... Gostaram? Ainda estou tentando colocar a caixa de comentários. Eu chego lá...
Não pude conferir nada de novo na última semana. Continuo compartilhando minhas expectativas de assistir algo. Estreou na última sexta, no Teatro Villa-Lobos, a peça Nada de pânico, vinda da Broadway cuja história é a montagem de uma peça onde a platéia assiste a encenação e os bastidores, de uma maneira peculiar: o cenário gigantesco vira ao contrário. E é uma casa de 2 andares, dá pra imaginar o visual! Pra completar, a peça é produzida por Guel Arraes e Marco Nanini...
Homem-Objetoé uma peça que está levando bastante gente ao Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea. O texto é do Verissimo, e só isso já me estimula a assisti-la. Os atores até q são conhecidos: Lúcio Mauro Filho (o Tuco da Grande Família), Bruno Garcia (de vez em quando ele aparece em alguns programas de humor, infelizmente em papéis secundários. O cara é demais) e Aramis Trindade, que fez o "Cabo 70" no Auto da Compadecida. Agora, o brabo é o ingresso ser 35 reais no sábado... Mesmo aceitando carteira de estudante, é caro. Injustiça.
Não pude conferir nada de novo na última semana. Continuo compartilhando minhas expectativas de assistir algo. Estreou na última sexta, no Teatro Villa-Lobos, a peça Nada de pânico, vinda da Broadway cuja história é a montagem de uma peça onde a platéia assiste a encenação e os bastidores, de uma maneira peculiar: o cenário gigantesco vira ao contrário. E é uma casa de 2 andares, dá pra imaginar o visual! Pra completar, a peça é produzida por Guel Arraes e Marco Nanini...
Homem-Objetoé uma peça que está levando bastante gente ao Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea. O texto é do Verissimo, e só isso já me estimula a assisti-la. Os atores até q são conhecidos: Lúcio Mauro Filho (o Tuco da Grande Família), Bruno Garcia (de vez em quando ele aparece em alguns programas de humor, infelizmente em papéis secundários. O cara é demais) e Aramis Trindade, que fez o "Cabo 70" no Auto da Compadecida. Agora, o brabo é o ingresso ser 35 reais no sábado... Mesmo aceitando carteira de estudante, é caro. Injustiça.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2003
ÔNIBUS 174
Filmaço, filmaço. Aula de conscientização de toda a sociedade sobre que rumo estamos tomando no caos urbano de hoje. O diretor José Padilha conseguiu imagens inéditas do seqüestro e rastreou toda a vida de Sandro do Nascimento, que sobreviveu ao Massacre da Candelária para ser personagem ao vivo em rede nacional de um drama que justifica o slogan do filme: "a realidade supera a ficção". O filme é um documentário, mas na verdade é uma reportagem perfeita, que ouve todos os lados da questão, fazendo-nos refletir sobre a violência urbana de uma forma mais prática e menos teórica. Forte, chocante mais pelos conceitos que pelas imagens apresentadas. Demais. Demais. A construção da cidadania agradece ao cinema, e os espectadores anseiam que os políticos também o vejam e sejam igualmente impactados.
Filmaço, filmaço. Aula de conscientização de toda a sociedade sobre que rumo estamos tomando no caos urbano de hoje. O diretor José Padilha conseguiu imagens inéditas do seqüestro e rastreou toda a vida de Sandro do Nascimento, que sobreviveu ao Massacre da Candelária para ser personagem ao vivo em rede nacional de um drama que justifica o slogan do filme: "a realidade supera a ficção". O filme é um documentário, mas na verdade é uma reportagem perfeita, que ouve todos os lados da questão, fazendo-nos refletir sobre a violência urbana de uma forma mais prática e menos teórica. Forte, chocante mais pelos conceitos que pelas imagens apresentadas. Demais. Demais. A construção da cidadania agradece ao cinema, e os espectadores anseiam que os políticos também o vejam e sejam igualmente impactados.
terça-feira, 14 de janeiro de 2003
Pelo visto, um dos filmes mais cotados deste início de ano é Separações, de Domingos Oliveira. Os que assistiram e vieram comentar comigo classificam a película no estilo das melhores de Woody Allen, já que a temática é a mesma: relacionamentos e seus desencontros. E com o tom de comédia que marca tanto o diretor americano como o brasileiro. Domingos estrela o filme com sua mulher e muitas cenas foram gravadas na sua própria casa. Esse tom intimista traz identificação com a platéia antes mesmo de assistir. Está na minha lista-pipoca.
Para aqueles que não conseguem alternativas para os altos ingressos dos cinemas ou à inflação que também acontece nas locadoras, uma dica imperdível. o Centro Cultural Banco do Brasil oferece o Cinepasse: vc paga 8 reais (estudante, meia) e vale por um mês. Nesse período, vc vai a quantos filmes quiser no cinema do CCBB e ainda pode aproveitar a sala de vídeo, que dá pra 3 pessoas, tem fone de ouvido, ar condicionado e um extenso catálogo de filmes. E funciona de terça a domingo! As idas à sala de vídeo também são ilimitadas enquanto valer o Cinepasse. Legal, né? E em tempos de orçamento apertado...
E os servidores estaduais da Suíça, hein??????
Para aqueles que não conseguem alternativas para os altos ingressos dos cinemas ou à inflação que também acontece nas locadoras, uma dica imperdível. o Centro Cultural Banco do Brasil oferece o Cinepasse: vc paga 8 reais (estudante, meia) e vale por um mês. Nesse período, vc vai a quantos filmes quiser no cinema do CCBB e ainda pode aproveitar a sala de vídeo, que dá pra 3 pessoas, tem fone de ouvido, ar condicionado e um extenso catálogo de filmes. E funciona de terça a domingo! As idas à sala de vídeo também são ilimitadas enquanto valer o Cinepasse. Legal, né? E em tempos de orçamento apertado...
E os servidores estaduais da Suíça, hein??????
sábado, 4 de janeiro de 2003
Novidade musical: ganhei de amigo oculto o CD Duetos, de Chico Buarque. O nome já é auto-explicativo, né? A diferença é que apenas um dueto é novo, infelizmente com a baranga da Elza Soares (que eu não aguento ouvir cantar tb). É logo a primeira música, que eu pulo pra ouvir o resto. Tudo já saiu em discos mais antigos. As faixas com Nara Leão e outros que eu nem conhecia - como Sergio Endrigo, Pablo Milanes e João do Vale - são muito boas. Mas acho que é um CD pra quem já é fã do Chico.
Sendo mais universal, embora óbvio: Os Simpsons continuam com o humor refinado que não perdoa ninguém. Nem vou falar muito, confira vc mesmo: na FOX, de segunda a sexta, 20h30; no SBT, segunda a sexta, por volta de 13h, e sábados, 19h.
Sendo mais universal, embora óbvio: Os Simpsons continuam com o humor refinado que não perdoa ninguém. Nem vou falar muito, confira vc mesmo: na FOX, de segunda a sexta, 20h30; no SBT, segunda a sexta, por volta de 13h, e sábados, 19h.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2003
CARAMBA! 2003!
Ano novo, presidente idem. Nenhum político merece tanto a honra de ser o servidor público nº 1 como Lula, que conhece todas as realidades do Brasil por experiência própria, e que perseverou por 4 vezes até poder liderar o país que tanto ama. Ele não é um messias (afinal, só houve Um em toda a História), precisa da participação de cada um de nós exercendo cidadania, conscientes dos direitos e deveres cotidianos para que a nação brasileira seja digna do seu povo, e vice-versa. Com Lula fica mais fácil até desejar feliz ano novo. Mais 4 anos com ele!
Já no Rio... A molecagem continua, agora tingida de rosa. A frase do dia é da governadora eleita, lançada em meio a seu discurso "tudo-de-ruim-no-Rio-é-culpa-do-mini-governo-que-passou-Nada-a-ver-conosco", lançando mais uma pérola alienante: "Escolhemos mal a sua vice, Garotinho". Ela esquece que o PT e o PDT estavam aliados nacionalmente, e por isso a aliança deveria se repetir no Rio. Eles não escolheram nada. Por sinal, sem Benedita dificilmente teriam sido eleitos, já que o Mini-Governador já tinha perdido uma outra eleição sozinho, pra Marcello Alencar. Mas para os velhos-novos ocupantes do Palácio Guanabara, o que interessa é fazer uma boa administração apenas, nunca colaborar para a o esclarecimento democrático da população. Com eles fica mais difícil dizer feliz ano novo. Mais 4 anos disso...
Ano novo, presidente idem. Nenhum político merece tanto a honra de ser o servidor público nº 1 como Lula, que conhece todas as realidades do Brasil por experiência própria, e que perseverou por 4 vezes até poder liderar o país que tanto ama. Ele não é um messias (afinal, só houve Um em toda a História), precisa da participação de cada um de nós exercendo cidadania, conscientes dos direitos e deveres cotidianos para que a nação brasileira seja digna do seu povo, e vice-versa. Com Lula fica mais fácil até desejar feliz ano novo. Mais 4 anos com ele!
Já no Rio... A molecagem continua, agora tingida de rosa. A frase do dia é da governadora eleita, lançada em meio a seu discurso "tudo-de-ruim-no-Rio-é-culpa-do-mini-governo-que-passou-Nada-a-ver-conosco", lançando mais uma pérola alienante: "Escolhemos mal a sua vice, Garotinho". Ela esquece que o PT e o PDT estavam aliados nacionalmente, e por isso a aliança deveria se repetir no Rio. Eles não escolheram nada. Por sinal, sem Benedita dificilmente teriam sido eleitos, já que o Mini-Governador já tinha perdido uma outra eleição sozinho, pra Marcello Alencar. Mas para os velhos-novos ocupantes do Palácio Guanabara, o que interessa é fazer uma boa administração apenas, nunca colaborar para a o esclarecimento democrático da população. Com eles fica mais difícil dizer feliz ano novo. Mais 4 anos disso...
Assinar:
Postagens (Atom)