quinta-feira, 16 de novembro de 2006


Cafuné nevrálgico

- Barra ou ponto?

Nunca tinha pensado seriamente na questão. Barra ou ponto? Alguma diferença iconográfica que refletisse a essência do compromisso? Ah, eu não pensei nisso. Pensei no preço, no melhor momento de comprar e de anunciar a toda a família, nos arranhões, nos cuidados, na sua durabilidade.

- Barra ou ponto?

Olhei para ela, depois olhei para Carolina e perguntei, hesitante:

- Ponto, né? O que você acha...?

- Ponto.

Pronto. Ponto. E ponto.

Seria "Carolina - 26.10.03" na minha e "Marcos - 26.10.03" na dela. Dia do começo do namoro. Agora, barra ou ponto? Isso é pergunta que se faça? Não por ser indiscreta ou algo do tipo, mas eu pensaria se na aliança a data seria 26/10/03 (com barra) ou 26.10.03 (com ponto)?

Não existe assunto tão torpedeado hoje quanto o casamento. No entanto, as pessoas seguem se casando. Seja tradicionalmente, seja "juntando", seja de qualquer outra forma (e agora até de gênero), as pessoas continuam criando a expectativa do casamento, com que cara ele tenha. Permanecem na ansiedade de, um dia, terem alguém por mais tempo ao seu lado, um compromisso. Sim, as pessoas querem compromisso. É só ver que quase ninguém suporta uma traição, apesar do folclore em torno do assunto. Não raro, paga-se uma traição com outra, pra fazer o "canalha" ou a "vaca" sentirem o mesmo (ou, no mínimo, deseja-se isso). Ou seja, nada de sublimação, é vingança com a mesma moeda devastadora de emoções.

Também não colam muito os discursos galináceos de que esse papo de compromisso e ter alguém a seu lado não é comigo, eu quero aproveitar a vida e ser feliz! Sim, vai fazer isso, mas um dia, num muxoxo para si próprio, a fim de não passar vergonha diante dos demais, olhará para o seu dedo e para sua cama de solteiro e reconhecerá que, sim, seria ótimo um cafuné no pescoço. E não qualquer cafuné: aquele de quem sabe o ponto nevrálgico da satisfação que um cafuné pode proporcionar, tão somente porque te conhece do avesso e sabe do que e como você gosta. Fruto de convivência, compromisso, aliança (com barra ou ponto, ou figurativamente).

Os discursos ressaltando que "não nascemos para a monogamia, veja só os animais!" (nossa, hoje nos orgulhamos de ser comparados com animais!) ainda se perpetuarão. Mas como todo bem elaborado discurso, terá a provação da realidade para tentar se sustentar e seguir orientando vidas. Continuará nesse propósito, até encontrar o caminho da humildade e reconhecer: "meu pescoço por um cafuné no próprio".

Há os pesares, as crises que surgem durante os relacionamentos, as complexidades que sabemos que existem e que não merecem ser tratadas superficialmente aqui. Ainda assim, essa raça humana continua querendo casar, ter compromisso. Por que, já que há sempre um "perrengue" de plantão pra azedar o clima e depois ainda ter que dividir o mesmo cobertor à noite? Ora, eu não me dispus a explicar o fenômeno, mas a constatar. Só tenha absoluta certeza de que o cafuné nevrálgico é intraduzível.

Quando você perceber que "barra ou ponto?"- uma pergunta superficial que se refere a uma inscrição literalmente superficial numa jóia - consegue ter a profundidade de te deixar hesitante e gestor de todos esses devaneios, é capaz de você concordar comigo. E potencialmente próximo da satisfação de estar a dois.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006



Não é outro

Você caminha pelo centro da cidade do Rio de Janeiro e olha pra cima. Como em toda grande metrópole, lá estão os altos prédios, na avassaladora maioria locais de trabalho. Você volta o seu olhar para o horizonte e, qualquer que seja a sua altura, ali estão pessoas e mais pessoas indo e vindo, na avassaladora maioria em busca de comida, isto é, almoço (você olha ao meio-dia, ok?).

Você sai mais cedo, às 11:45, também em busca de comida - fresca, quentinha - e de um ambiente necessário para uma paz gastronômica - sem estar abarrotado, para não haver engarrafamento de pratos e Visa Electron no serve-te a ti mesmo (self-service).

Você normalmente andaria rápido, com reflexos acurados para desviar de um possível encontrão ou morte enquanto atravessa a larga rua apinhada. Mas você resolve fazer diferente: já saiu mais cedo mesmo, resolve andar como gente normal (na sua avassaladora maioria, pessoas que trabalham no centro e almoçam todas na mesma hora não parecem normais). Para os demais, você anda devagar e é obstáculo aos esfomeados. Para você, é um rompante da rotina que muitas vezes você teve vontade de viver e, sem saber direito por que cargas culturais d'água, você nunca conseguiu.

Aliás, se assim não fosse, você não olharia como olhou no primeiro parágrafo.

Você come e estranha a calmaria de sua hora de almoço. Você termina, estranha que terminou e que ainda tem meia hora antes de voltar ao seu alto prédio. Você se dá o direito de ter uma sobremesa entre livros na Travessa do Ouvidor, sentir o aroma dos papéis e de um perfume que aquele estabelecimento coloca (talvez numa estratégia de deixar cada visitante à vontade até correr sério risco de virar clientela).

Você olha novamente para cima, para o horizonte, para as pessoas, para o mundo corriqueiro de cada hora de almoço e se espanta. A surpresa vem pelo fato de que, quando você olha pra tudo isso, inevitavelmente você se vê olhando pra si. Olha pra você. Olha pra isso! Olha pra esse, ou pra essa. Pra ti.

Olha como você deixa de ser você se você se enreda pelo ritmo imposto. Pelas imposições que não se justificam e sequer se explicam. Você se olha e não se reconhece. Você precisa parar com isso. Você precisa parar. Você precisa de você de volta.

Você precisa estar novamente - e tão somente - a vossa mercê.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Nas passadas



Eu gosto de correr.

Então me vi correndo numa pista, dessas que circundam o gramado central dos estádios olímpicos. Não era corrida rasa, eu parecia correr numa velocidade constante e prudente para preservar meu fôlego até o fim. Na verdade, parecia que eu estava num de meus treinos diários, para manter meu condicionamento físico. Não havia mais ninguém no estádio: nem nas arquibancadas, nem na pista. Era apenas eu e um dia ensolarado, correndo e suando, diligentemente.

De repente comecei a reparar num vulto à minha frente, na pista. Minha curiosidade me fez acelerar, deixando um pouco de lado a disciplina do treino. A imagem ficava mais nítida, e eu já podia perceber que era uma pessoa branca, de camiseta e meias idem, e calção preto, correndo. Achei estranho, pois não tinha visto ninguém entrar no estádio ou na pista. Sozinho por ali, seria difícil alguém passar desapercebido por mim.

A silhueta me é familiar, mas de costas você não tem certeza absoluta se conhece ou não qualquer pessoa. Não tinha outra escolha senão correr mais, e eu já percebia que o ritmo daquele desconhecido era mais forte que o meu, e também mais firme e constante. Fui chegando, chegando e de curioso passei a intrigado: eu conheço esse cara. Mas de onde? Por coincidência, sua roupa era exatamente igual à minha. Eu suava bem mais do que quando o avistei, e agora meu objetivo era emparelhar com ele. Objetivo é eufemismo, tinha virado obssessão. Quem é esse cara?

Então eu consegui, fiquei bem ao lado dele, fazendo um esforço extra, concentrado no momento em que ia matar minha curiosidade. Saber quem era aquele estranho, aquele intruso do meu treino, aquele "copião" dos meus trajes, aquele que corria mais rápido (e melhor) do que eu.

Tive que controlar o susto. O corredor era eu. Talvez fosse um clone, um sósia, uma brincadeira de mau gosto. Mas tinha certeza que não. Era eu, de alguma maneira em outra dimensão da vida, em outro momento. Correndo mais e melhor do que eu. Ele (eu?) não se abalava, permanecia na sua velocidade, sequer se virou para me olhar também. Depois de uma súbita parada devido ao susto, fiquei em desvantagem, eu (ele?) já estava de novo lá na frente. Percebi que eu não conseguia mais acompanhá-lo. Por mais forças que empenhasse, ficava entre nós aquela distância na pista. Eu corria mais do que eu mesmo.

A dificuldade de processar as mudanças que acontecem em nossa vida, sejam elas boas ou más, quando ocorridas em curto espaço de tempo. Os sintomas daquela "avalanche" surgindo e a gente sem saber de onde vêm, um descontrole de emoções não-identificáveis na sua totalidade. O medo do novo, do desconhecido. Por incrível que pareça, o medo de ser feliz e "cair dentro" do propósito de felicidade há tempos anunciado e para o qual nos preparávamos. A própria preparação surpreendida pelos fatos que andaram mais rápido que qualquer planejamento sóbrio.

Resta-me voltar à pista e me dar conta de que tenho corrido mais do que eu mesmo. Volto a meu ritmo, sabendo da necessidade do treino e da disciplina. Porém me lembro de algo muito importante. Algo mais importante do que todo o plano de treinamento, o melhor tênis ou as roupas mais leves para melhorar meu desempenho. Mais especial até do que passar pela inesquecível experiência de me ver correndo contra mim numa pista - isso seria um desespero se não tivesse me lembrado do que lembrei então.

Eu lembrei que gosto de correr.

Sem essa constatação, nunca me verei entrelaçando os braços comigo mesmo numa pista, correndo no mesmo ritmo, até me ultrapassar, ganhar confiança e terreno. E olhar pra trás, percebendo que desapareci, que estava sozinho novamente. Mas que não seria pela última vez.

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Considerações sobre o silêncio



Hesitei por alguns instantes ao começar este artigo, talvez pelo próprio assunto e seu efeito em mim. Tenho olhado (ouvido?) o silêncio de uma maneira inédita em minha vida.

Para mim, o silêncio era, quase automaticamente, o mesmo que omissão. "Lavar as mãos", não fazer minha parte na realidade que estava ao meu alcance. Silenciar sempre significou deixar outros decidirem por mim, escolher o caminho mais fácil. Praticamente uma covardia.

Considerando que sou jornalista, isto é, profissional de Comunicação; considerando que sou uma pessoa comunicativa e desenvolvi razoável oratória e argumentação; considerando que desde os tempos de Colégio Pedro II considero-me politizado e com vontade de intervir nos contextos em meu redor... Como considerar o silêncio?

(Hesito, em silêncio, mais alguns instantes antes de continuar a escrever.)

Tenho percebido que o silêncio pode nos preservar. Pode nos oxigenar perante o bombardeio de ruídos de comunicação e o excesso de vozes e informações. Ele permite que possamos nos ouvir, ainda que estejamos em silêncio.

Passar pela experiência de opinar e sequer ser considerado pelo outro que pensa em direção contrária: isso é marcante. Perceber quando você apresenta argumentos sinceros, em busca de um consenso, e nada caminha para o que você propôs... Não seria hora de silenciar um pouco?

Silenciar facilita também nossa autocrítica. Diante da ansiedade constante em opinar, argumentar, marcar pública posição, dificilmente refletimos de onde vem tanta certeza. Se ela possui fundamento ou é apenas soberba "enlatada". No silêncio esses questionamentos surgem espontaneamente, acredite.

E convenhamos: ficar em silêncio é árduo. Raramente é nossa primeira opção. O silêncio, na maioria das vezes, é o que nos resta, quase nunca é uma decisão. É render-se à derrota de seus argumentos, é quando "nossa inteligência foi desprezada" - assim pensamos. Cônscios ou forçosamente, o silêncio é um exercício de humildade.

Óbvio que não estou renunciando ao debate ou ao diálogo. Afinal de contas, escrevi e publiquei este artigo. E a caixa de comentários abaixo não ficará desativada. Mas recomendo a prática do silêncio escolhido, tanto quanto a do debate franco e de questionamentos assumidos. Faz bem.

Somos seres complexos, e reconhecer essa condição é rumar ao simples, que sempre é genial e confortador. Não subestime o silêncio nesse processo.

domingo, 20 de agosto de 2006

A vida é curta


A vida é curta. Por enquanto, apenas 8 meses, dependurados na barriga em simbiose maternal. Aguarda o momento enquanto é segurado firme, a mãe segurando firme na barra do metrô para não cair. Os lugares, todos ocupados, incluindo os já a ela reservados.

A insensibilidade geral é larga. Bancos verdes, laranjas, sem preconceito de cor em honra à indiferença. A mãe se segura e os demais acomodam-se cegos, ou num fingimento cuja habilidade quase admiro.

O olhar da mãe é curto. Não almeja grandes conquistas, apenas um lugar naquele vagão. Um descanso exigido por lei natural e legitimado no direito, degolado na atitude ilegítima dos sentados. O olhar da mãe é curto e me corta. É comigo agora. Meu desespero em checar se realmente ninguém dos bancos reservados vai levantar é estimulante do meu erguer-me. Ela parece ter compreendido meu próprio olhar antes de mim: começava a deslocar-se em minha direção. Era hora de algo mudar.

A distância entre nós encurtou-se. Um homem no banco em frente a mim quase levita em marcha acelerada para preservar a vida curta e sua mãe, que senta à minha frente. Vejo seu rabo-de-cavalo a um palmo. Os sentados nos reservados poderiam hospedar-se num museu de cera. Estáticos gélidos de alma.

A viagem é curta e eu salto. Daqui a um mês ele vem à luz e me pergunto: em que lado se postará? Dos profissionais da frieza ou dos revoltados incomodados? Não saberá, por certo, que sua mãe participou do circo humano da dissimulação. Nem poderei relatar-lhe meu testemunho. "O mundo te espera, e cruel", eu diria.

domingo, 13 de agosto de 2006

PCC, mestre em Comunicação Social


Seqüestraram um repórter. UM repórter. Após centenas de ataques, outra centena de mortos, toques de recolher, paspalhices políticas e terror generalizado, o PCC resolve seqüestrar um repórter, funcionário do maior monopólio de comunicação do país. Após esse feito, seu vídeo de reivindicações, que fala da situação carcerária insustentável, é veiculado na íntegra, do contrário a pena de morte do repórter estaria assinalada.

É incrível que, até então, o noticiário só conseguia cobrir os momentos de pânico, influenciar ou relatar a repressão policial maior ainda, mostrar os chefões do PCC etc etc. Mas pouquíssimas vezes fizeram matérias sobre a situação carcerária do país, as condições para que ladrões de galinha ou de lojas de shopping se tornem monstros e que monstros nunca dêem meia-volta na sua vocação criminosa.

Mas no momento em que UM repórter da Globo é seqüestrado, todo o país é obrigado a ver o que os jornais teimam em não mostrar: as causas do problema.

Não discutirei aqui as origens de um criminoso, qual a melhor solução para a violência e a desigualdade social, ou coisa do tipo. Vou me ater ao fato da vez: como os principais representantes do PCC reiteraram sempre (incluindo Marcola na CPI do Tráfico), os ataques se repetem porque a situação carcerária é desumana, uma fábrica de bombas-relógio como a que estamos assistindo agora.

"Mas eles são desumanos também! Olha o que estão fazendo com cidadãos de bem! E eles não estão presos à toa!". Não estou negando isso.

No entanto, o sistema prisional brasileiro especializa-se dia após dia a piorar o que já está ruim. Imagine você juntar num cubículo para 12 pessoas cerca de 50 indivíduos com antecedentes criminais, de variados níveis e índoles. Além disso, trate-os como animais, abuse de sua autoridade diante deles. Há como conter essa panela de pressão por tempo indeterminado?

Esse é o tipo de cobrança que a sociedade também deve exercer sobre os governantes. Segurança pública não é apenas manter os marginais longe de nossas belas casas - é proporcionar condições para que os mesmos, se não forem ressocializados, ao menos não apresentem perigo iminente. E que não tenham motivação ou condições para isso. Prender e manter nas condições já referidas é fortalecer rebeliões futuras, quando a fúria será maior e mais organizada. É o que vemos em São Paulo.

Pois dessa parte da história a imprensa passa longe. Também não são abordados os casos (milhares de casos) de ladrões de pequenos furtos que já deveriam estar soltos e permanecem lá, pois não são Suzane von Richtofen para terem advogados acompanhando passo a passo os direitos de liberdade condicional etc que possuem. Ficam lá, sem esperança, e cujas únicas opções são a morte ou sobreviver por meio de facções como o PCC. Pioram, graças ao sistema prisional, que deveria nos dar segurança.

A imprensa encarna o espírito de classe média/média-alta que nos acomete hoje: bandido bom é bandido morto ou esculachado dia após dia. Não se percebe que esse tipo de postura, estendida aos governantes e suas administrações penitenciárias, é a pólvora perfeita para incendiar o Morumbi intocável. É muita ignorância.

Assim, qual é a maneira de mostrar à sociedade as causas de problemas tão graves de nosso sistema de segurança pública? Seqüestrando um repórter da Globo. Bin Laden faz escola, e a imprensa não aprende.

Como jornalista, fico temeroso em perceber que os canais de intermediação - a mídia -são cada vez mais desprezados para que conheçamos nosso contexto. E por pura incompetência e cegueira de seus donos, fingindo que vivem num mundo diferente por terem mais dinheiro. Ilusão que o PCC tem se especializado em desfazer.

Oro para que o repórter não pague com sua vida pela teimosia de governantes e donos de jornais.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Geraldo Lopes, jornalista


Talvez você não o conheça. Mas se você me conhece, recomendo o artigo que segue.

Repórter policial por mais de 30 anos, Geraldo passou por jornais como a Última Hora, O Globo, revista Manchete e foi editor de um marcante programa de TV: o Documento Especial, com reportagens urbanas e qualidade cinematográfica.

Eu, que desde minha 8a. série já queria ser jornalista, pude conhecer Geraldo quando trabalhei na Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Cultura do Rio. Ele já tinha mais de 50 anos e como tantos outros de sua geração, não conseguia mais emprego nas redações. A tal lógica burra do capitalismo: manda embora os mais velhos por terem maiores salários, e assim cortar custos. Desprezam a experiência e o conhecimento que os então demitidos acumularam e ainda tentam manter a qualidade do produto. Impossível.

Geraldo foi um instrumento de Deus para confirmar minha vocação jornalística. Ouvindo suas histórias (também falava em tom de reportagem) e lendo seus livros (era especialista em sistema prisional, ganhou o prêmio Jabuti em 2001) fui conhecendo-o melhor. E me conhecendo também. Ao conversarmos e ao ouvi-lo, vi que era aquele espírito de repórter que eu também possuía. Mesmo que nunca trabalhasse numa redação, eu seria jornalista sempre. Assim como Geraldo era, independente de seu momento.

Também foi um pai para mim, um orientador, alguém a me inspirar, que investia em minha carreira jornalística com conselhos e estímulos. "Pô, Lessa, você vai fazer 22 anos mas tem estrada de 40!", disse-me Geraldo há 4 anos.

Deixamos de nos ver por mais de 2 anos, e ao nos reencontrarmos ele descobriu que tinha câncer de estômago. Tentou os tratamentos tradicionais e um alternativo em Cuba. Não resistiu, falecendo em 20 de junho passado.

Há pouco soube que em algum país do Oriente (Japão ou China, não lembro), quando alguém morre, é feito um desfile em praça pública. Todos os familiares e amigos se vestem com as melhores roupas, dançam e cantam as músicas mais alegres, chamam a atenção dos passantes. Depois dos mais animados que abrem o desfile, vem o caixão. E após ele mais gente cantando e dançando. Em vez de lamentarem a morte recém-chegada, celebram a vida do que partiu. E que deixou saudade, marcas que serão para sempre lembradas.

Meu artigo celebra a vida de Geraldo Lopes. Permitindo-me um pouco de surrealismo, me multiplico em dez, cem, mil iguais a mim cantando e dançando na Av. Presidente Vargas, carregando o féretro. Paro o trânsito, os trabalhadores dos prédios olham e percebem que a celebração deve ser de alguém importante, num tempo em que a fama teima em ser inversamente proporcional ao diferencial das pessoas em nós.

As matérias de Geraldo são projetadas no céu, e todos suspiram nostalgicamente por um jornalismo que escrevia pensando em gente, e não em números. É um sentimento natural, uma vez que Geraldo não foi mais um. Foi um. E não foi pouco.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

O fato

A necessidade de se mostrar nas letras. O incômodo de olhar a folha em branco, a caneta em punho, o coração pulsando por tantos motivos e apenas uma certeza: escrever.

Mas escrever o quê? Não sei, o que também me parece absurdo. Tenho uma lista de histórias para contar, mas não agora, não sei por quê. É mais transpiração e atendimento ao chamado de macular o papel branco. Como pode, um papel branco, branquinho, sem nada... escrito? É quase uma ofensa, uma insinuação insolente, desafiando aquele que não vive sem escrever, ainda que não escreva para viver. E ofendidos nós caímos na provocação, e não deixamos aquele marrento papel em branco em paz. Vêm os rabiscos organizados que lapidam a auto-estima do escritor.

E o impressionante é que se consegue escrever sem abordar nenhum assunto diretamente, apenas descrever o exercício metalingüístico da escrita pela escrita. Porque é isso que "mexe" com a gente, o ato de produzir as letras que urgem, a despeito de nosso momento ou contexto, se eles permitem ou não que escrevamos. E quando somos vencidos pela impossibilidade, a angústia reina em dobro: pelo fato de não podermos escrever e pelo desespero de que a inspiração/transpiração passe, erradicando a idéia, até então, digna de ser escrita.

Terror!

Pode ser pior, acredite. Podemos ter uma tendinite já aos 20 e poucos anos e ela doer tanto ao teclado ou à caneta, trazendo uma interrogação para possibilidades futuras de escrever (a não ser que ainda hoje se resolva o agravante da doença). Um obstáculo paradoxalmente benéfico, pois quando confrontados é que sabemos do que somos feitos, sabemos qual é a nossa busca. E a inconveniente tendinite me leva ao encontro da vocação inescapável, assunto que já mencionei por aqui tantas vezes. O espinho me traz a glória, e é impossível não sorrir diante desse fato, apesar do braço dolorido.

Assim prossegue a dança entre os sonhos e as possibilidades, revelada aqui nesse microcosmo de alguém com sua caneta e seu papel. Meus tendões e a lógica louca pós-moderna, que faz do excesso de tudo uma virtude inconseqüente e da qualidade de vida antes, durante e depois do pão de cada dia, um crime hediondo e nada lucrativo. Eu não pertenço a esse mundo, eu só pertenço a mim mesmo.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Ao atravessarmos a rua

Ao atravessarmos a rua, todo cuidado é pouco. É preciso olhar o sinal (ou farol, ou semáforo), aguardar os veículos pararem e seguir pela faixa de pedestres até o seu objetivo: o outro lado da rua. Uma tarefa simples e totalmente cotidiana, crucial para seguirmos em vida.

Agora imagine que, enquanto você está no meio da rua, alguém grita o seu nome. Você não sabe de onde vem a voz, tampouco quem está falando. Informações fundamentais para você decidir o que faz. Continua atravessando? Ignora a voz? Dependendo de quem for, você presta atenção e pode voltar à calçada. Ou atravessar mais rápido. Enfim, saber quem fala e de onde fala é que dá credibilidade à informação, permitindo assim que você tome a melhor decisão para seguir em vida.

Pois eu penso que os cidadãos brasileiros encontram-se na mesma situação diante da imprensa atual.

Muito se tem gritado daqui e dali, vozes elevadas querendo ostentar moral ou indignação, denúncias, pizzas de novo, culpados, absolvidos, interesses permeando a atmosfera. Você pode concluir que sempre foi assim e que, dependendo das conveniências e do nível de "rabo preso", não muda muita coisa.

Ainda assim, quero lembrar um exemplo que considero significativo na história recente da imprensa brasileira. Em 2002, a revista Carta Capital declarou abertamente o voto em Lula, e por meio de seus editoriais e artigos apoiava o candidato do PT. Enquanto isso, continuava cobrindo a campanha, como todos os veículos de comunicação.

Considero que a postura da revista foi a mais honesta, uma vez que nos ajuda a "atravessar a rua", até hoje. Quando lemos em suas páginas matérias sobre o Governo Federal e demais acontecimentos da atual cena política, sabemos qual a posição do veículo sobre seus sujeitos e objetos de análise e cobertura. Sabemos quem fala o quê, e de onde está falando. Isso se chama transparência.

Por outro lado, os principais jornais e emissoras do país teimam em nos dizer que são "imparciais" e "isentos", e que buscam o equilíbrio na hora de cobrir os acontecimentos. Diante do que temos presenciado nas páginas de jornais e blocos de TV, isso se chama estelionato. E com a audiência do cidadão brasileiro, o seu bem mais precioso (eu diria que a credibilidade é o bem mais precioso, mas não sei se tais veículos ainda se preocupam com isso).

Como distinguir as versões elaboradas dos fatos reais, uma vez que ninguém admite de onde está falando? E ainda flertam dia após dia com as aspas, aproveitando as falas de políticos daqui e dali, uma vez que os próprios veículos não têm coragem de assumir o DNA do que transmitem. Talvez por estarem com tanto "rabo preso" quanto aqueles que denunciam...

Seria muito mais benéfico para a democracia e para o Estado brasileiro se a imprensa compartilhasse com seu público uma informação tão importante quanto seus "furos": o lugar de onde se emite a mensagem. Isso daria mais elementos ao cidadão para decidir não somente seu voto, como também tantas outras decisões importantes para sua autonomia pessoal e conscientização nacional. Assim como desejamos dos parlamentares o voto aberto nas sessões, queremos a "apuração aberta" da imprensa no que diz respeito às intenções de suas pautas.

Ou sou só eu que preciso de um jornalismo responsável?

terça-feira, 4 de abril de 2006

O homem na corda bamba (*)

Está tenso. Tensiona os músculos e o espírito, e controla sua ansiedade para dar o passo seguinte. Ao mesmo tempo, preocupa-se em manter o equilíbrio. Qualquer passo em falso, verdadeira queda, derradeira morte. Não há rede de segurança, e ele precisa ignorar o abismo e lembrar-se dele, ao mesmo tempo. Avista o outro lado, quer chegar, mas precisa manter o ritmo.

Ao chegar perto, pensa em se apressar. Depois de tanta espera e suor, agora falta muito pouco. A tentação de se apressar é cada vez mais forte, mas ele sabe que se jogar pro alto toda a tensão administrada, atira-se abaixo. A ansiedade o envolve de tal forma que fica na dúvida se era mesmo pra ter seguido aquele caminho. " Era!" , ouve a confirmação em seu espírito.

O homem na corda bamba, personagem tão conhecido de quem já foi ao circo, volta a minhas memórias ao escrever esse editorial. Tentei observar o que ele agüenta lá em cima e fechando os olhos por um minuto, ao abrir me vi na corda. Meu medo de altura por companhia, pra deixar a situação mais dramática. Corda metafórica, sentimentos semelhantes ao de tantas fases de nossa vida.

Não sei que vozes o homem na corda bamba consegue ouvir durante sua exibição. Se o barulho da platéia o atrapalha, se pensa que nunca devia ter sido o que é. Mas ouvir " esse é o caminho, andai por ele" , na voz inconfundível do Espírito Santo, é tudo o que busco na minha corda. Quer dizer, vida. Acho que dá no mesmo.
(*) Originalmente publicado em 15/05/2005 no boletim dominical da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Por trás das lentes dos meus óculos

Por trás das lentes dos meus óculos existe alguém ambicioso. Alguém que busca, minuto a minuto, algo que não há como saber se é cobiçado pela maioria dos seres humanos. Se é, tal procura não parece ser assumida publicamente. Uma ambição, como já disse, e não há outra maneira de descrever a perseguição desse objetivo, cujo caminho é cheio de armadilhas e auto-empecilhos. Por trás das lentes dos meus óculos existe alguém que não quer outra coisa que não a simplicidade.

É a rotina de acordar, lavar o rosto, tomar o banho que desperta, portar os óculos e me postar para a retomada diária da busca. É reassumir sem desespero as complexidades que nossa vida nos reserva, sabendo que isso faz parte da motivação para a busca. É ter sede de conhecimento, na vazão da leitura plural e sem preconceitos, nos contatos assimilados e mantidos, empreendendo os cinco sentidos no espocar das mídias e de suas informações.

Ao mesmo tempo, é sentir dor. Por mais que eu me esmere em buscar a simplicidade em todos os meus atos e palavras, construindo comunhão com quem está ao meu redor, sem ares de superioridade, ainda assim posso ser classificado como "superior". Ou intelectual, ou coisa parecida. E esse é um momento de angústia. De sentir na pele, na boca e na mente o gosto de distância, de ainda estar longe da tal simplicidade, uma vez que ainda sou assim classificado. De me sentir segregado enquanto remo com toda força contra essa maré.

E ao flagrar aqueles que pouco se importam em serem assim classificados, ou melhor, que se esbaldam em serem "especiais" e a quilômetros dos "seres humanos comuns", mantendo as barreiras que eu tento transpor - os "auto-empecilhos" - me vem a sensação de abandono. Abandonado entre os que sentem prazer em ser "elite", ao não comungar dos seus paladares; e abandonado por aqueles a quem tento me ladear no contato pessoal com a simplicidade, e que no entanto não detectam essa minha vontade, essa minha busca. Sinto-me só e incompreendido.

Por trás das lentes dos meus óculos existe alguém assim. E se existe alguém assim à frente das lentes dos meus óculos, que um dia a mim se manifeste. Vai ser um alívio renovador. Para ambos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Não!

Quem sabe dizer não? Você sabe? Eu sei? Não sei não. E por que não? Como saber? Apenas três letras, sempre imperiosas e imperativas por si só, por que não? Qual é a dificuldade? Por que tanto vício no aceite, no concordar sem questionar, no "engolir" e só depois perceber que desde o início a resposta devia ser "não"? E agora agüentar as conseqüências, nesse sentimento de vergonha secreta, em que só nós e o espelho nos torturamos mutuamente enquanto os beneficiados por nossa covardia se deleitam?

A comunidade do Orkut "Preciso aprender a dizer NÃO!" já conta com quase 80 mil pessoas! Nada comparado a 6 bilhões de habitantes do planeta. Ainda assim, 80 mil seres como eu que ainda não aprenderam a dizer a palavrinha em tantas situações, para o nosso próprio bem. Eu me pergunto: por que, tendo consciência desse problema, ainda é tão difícil dizer NÃO?

Encontro um fiapo de resposta no shopping.

A opressão do consumo rodeia a nossa vida desde o nascimento. As roupas e lojas de bebês são variadas, e não me venha com o papo de que haver concorrência baixa os preços e ponto final. Pois as vendas e a publicidade deixaram de existir a fim de proporcionar a subsistência de uma vida digna do básico, para exortar com capa de profeta a opulência necessária (a quem?). Precisamos todos consumir, embora quase nunca precisemos consumir tanto. A ideologia do consumo além do necessário, como estilo e proposta de vida, tem levado muitos a suicídios de personalidade por meio do superficial.

Consumir é dizer sim. "Sim, vou levar"; "sim, eu compro"; "sim, eu aceito"; "sim, por que não?". Suspeito que temos tanta dificuldade em dizer não pela extrema lavagem cerebral, corporal e intelectual do consumo, que só existe a partir do nosso "sim". Sem sim não há compra nem venda. Logo, é preciso um pouco de "sim" para não morrermos pelo caminho. Mas viciar em "sim", fazendo da crítica uma herege em cleros capitalistas, é morte em vida.

"Ô garoto 'vermelhinho'! Aposto que não despreza uma Coca-Cola ou um tênis novo!". Estão certos. Não desprezo. Assim como não desprezo o equilíbrio. Dizer sim a todo instante é gangorra enterrada de um lado só, sem movimento nem diversão, tampouco qualidade de vida. E o drama para dizer não (mesmo tendo a consciência total de que é aquilo que preciso dizer naquele momento) é o sintoma dessa situação doente na qual me vejo inserido. Quem ambiciona continuar doente?

Preciso aprender a dizer não. Preciso dizer não. Sem grosseria, mas com firmeza. Sem estupidez, mas com coerência. Sem intolerância, mas com amor. Sim, eu preciso dizer não. Pra mim e por mim.

Enquanto produzia mais essas linhas, o maldito Word recém instalado me perguntava, a cada palavra digitada: "A Auto Correção não está instalada. Deseja instalar agora?". Para continuar a escrever, era preciso clicar infinitamente: não! Refestelo-me na ironia...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Chico, Tom e Vinicius

Pode parecer escapismo, mas não é. Assim como, diante das torrentes que tentam nos submergir e é preciso vir à tona, tomar fôlego e renovar as energias para prosseguir, é alento para um coração brasileiro assistir ao especial sobre Chico Buarque e Tom Jobim, exibido pela Bandeirantes no fim do último domingo. Da mesma maneira o documentário "Vinicius", ainda em cartaz nos cinemas, sobre um dos principais parceiros de Tom, o poeta Vinicius de Moraes.

Sim, nosso país está em meio a mais uma crise, não podemos sequer por um minuto descolar os olhos dos políticos, somos assolados por violência explícita e implícita, e não sou eu quem vai incentivar aos leitores deste blog a esquecerem a realidade. Mas para enfrentar os desafios de nosso tempo é preciso memória. É preciso história, principalmente do que vale lembrar, do que tem valor, do que também é Brasil.

Chico, Tom e Vinicius são Brasil. São brasileiros como eu, e isso me enche de um orgulho maior do que a vergonha pelos desalinhos sociais. Não excluo nem o orgulho nem a vergonha, mas é hora de sublinhar o que já é fato: sou feliz por ter como expoentes de minha cultura nacional Chico, Tom e Vinicius.

O especial foi fantástico, ainda que simples: tão somente clipes de alguns bastidores e shows, intercalados com depoimentos recentes de Chico. E bendita seja a mídia, eu que tanto a critico: seus aparatos permitem imortalizar quase ao vivo a vida de quem já se foi e não era pra ter ido. Posso ver Tom cantando, compondo e falando sobre música e até mesmo bobagens, demonstrando que de mito nada teve, era gente como eu e você. E explorem mesmo o "filão" Chico Buarque (no intervalo do especial, os anúncios dos novos DVDs sobre Chico, com o mercado sempre tirando uma casquinha), registrem, vamos falar pra sempre do que é bom pra caramba.

Há gosto pra tudo e você já percebeu que gosto de Chico, Tom e Vinicius. Não vou aqui discutir o que é música popular hoje, o que está sendo esquecido pela galera mais jovem. Vou apenas ressaltar pela milésima vez que devemos agradecer a Deus por ter nos dado Chico, Tom e Vinicius. Por sua poesia, inteligência, música e também sensibilidade social.

Ainda não vi o filme "Vinicius", mas uma reportagem narrou que os espectadores mais velhos têm saudade daquele Rio de Janeiro da época. Não sei ao certo em que sentido falaram (não li a reportagem inteira), mas ao menos no inconsciente coletivo haverá a saudade de um Rio menos violento e mais harmonioso. Não adianta negar, carioca. E "Vinicius" tem evocado essa nostalgia maravilhosa.

Porém eu, sem ter vivido naquele tempo, acrescento ter saudade da classe média de então. Vinicius de Moraes, diplomata, virou nome de rua em Ipanema, por justa causa; Tom Jobim, vizinho e famoso mundialmente; Chico Buarque, filho do autor de um dos livros indispensáveis para se entender nosso país, também morador da Zona Sul, olhos verdes de garoto rico. Pois em todos eles a música - por meio do samba, em todas as suas variantes e manifestações culturais - foi a ponte integradora entre Chico, Tom e Vinicius e os não tão privilegiados.

"O morro não tem vez/E o que ele fez já foi demais/Mas olhem bem vocês/Quando derem vez ao morro toda a cidade vai cantar" - Tom/Vinicius; "Já mandei subir o piano pra Mangueira/A minha música não é de levantar poeira/Mas pode entrar no barracão" - Chico/Tom. Exemplos de como esses expoentes de nossa música relacionavam-se com nossas favelas. Não eram sociólogos, governantes, secretários de Estado ou policiais. Eram músicos, e na parte que lhe cabiam, executavam a necessidade de integração - e não de apartação - das classes altas com as classes baixas. Chico, Tom e Vinicius subiam o morro, e eles desciam ao encontro de Chico, Tom e Vinicius, metafórica e literalmente. Dessa comunhão surgiu parte considerável do DNA de nosso orgulho atual, já mencionado.

Que querem os moradores de Leblon e Ipanema, de uns tempos pra cá? Distância daquela gente. Remoção, desaparecimento, invisibilidade, praias limpas. Precisam de seus BMWs, ainda que a custa de salários de fome dos empregados/escravos. Não querem saber de integração, quando muito de alguma açãozinha social pra conseguir dormir à noite em seus travesseiros com pena de pavão.

(Não sejamos infantis: "moradores de Leblon e Ipanema" é um termo para classe média. Assim como "favela" para classe pobre. Tenho pouco espaço e você pouca paciência para ler na tela do computador, então preciso ser o mais sucinto possível na linguagem).

A questão é: agindo, pensando e fazendo com que seus herdeiros pensem de igual forma, a classe média de hoje desonra seus antepassados, contemporâneos dos personagens reais de "Vinicius". Podem pagar o tributo devido indo aos cinemas e vendo especiais na TV, mas na hora da prática de sensibilidade social integral (e não só pontual), sujam o nome e a obra de Chico, Tom e Vinicius. E ainda dão escândalos nas primeiras páginas quando a violência se acentua, como se a mesma surgisse "do nada", como se não fosse correspondente à exclusão social que avista os incluídos da janela do barraco. Por favor... Se for o caso, fiquem quietos. Ou cantarolem uma bossa nova.

Chega de saudade. A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza. É só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Arestas do referendo

Como você, eu não agüento mais. Não agüento mais os exaltados defensores do NÃO, nem os artistas globais defensores do SIM. Não agüento mais ter que desconfiar de tudo e de todos para tentar perceber o que está por trás do referendo, quais as reais intenções e as possíveis conseqüências de meu voto... Não falo aqui de alienação, mas de uma saturação que não gostaria de estar sentindo, mas sinto.

Os políticos não quiseram assumir esse ônus para seus mandatos e mandaram o povo escolher e também arcar com as conseqüências. Não quiseram esse desgaste das responsabilidades a assumir antes, durante e depois do referendo, e de repente resolveram exaltar a democracia. Nossos impostos públicos também pagam as milhares de vantagens e assessores descabidos, e nem por isso somos levados a decidir diretamente os destinos de tais verbas...

É o que o referendo está mostrando a todos nós, na verdade: a questão central não é o fato de andarem armados ou desarmados, se a violência vai aumentar ou diminuir, quem é conservador ou liberal. O que a experiência do referendo revela, antes mesmo do escrutínio, é a nossa adolescência democrática. Estamos na puberdade cidadã.

Nossa Constituição faz 18 anos, as primeiras eleições diretas, 17. Por mais precoce que um jovem possa ser, ele passa pelas crises de identidade, responsabilidade e maturidade. O fim da infância, embora ainda não tenha chegado à fase adulta. Dificuldade na hora de tomar decisões que trazem frutos para o resto da vida, terror ao começar a se dar conta de que fazer escolhas significa antes de tudo abrir mão de outras. A inabilidade inicial com as ferramentas que dispõe também é característico da idade.

E cá está o referendo, um instrumento de democracia direta (sem mediação de eleitos) em meio à nossa democracia representativa (com mediação de eleitos). Por que não usá-lo mais vezes? Por que tanta divisão - e desinformação muitas vezes - na hora de discutir e decidir? Como um adolescente que ainda não entende como funciona seus hormônios e ali estão eles, fazendo parte de seu corpo, somos nós com nossa democracia recente e exigindo que demos conta dela.

Levando-se em conta a baixa credibilidade de nossos representantes no Congresso e o desgosto de muitos pela política (agravado pela pasteurização moral do único partido que ainda apresentava-se como alternativa), a democracia teria direito de sobrevida? Chegando só agora à maioridade, estaria ela apta para lidar consigo mesma e com as conseqüências de suas ações?

É esse o contexto de nosso referendo. Nas eleições corriqueiras, muitos votam para em seguida esquecer em quem votaram, como se tivessem repassado rápido uma chata responsabilidade para uns poucos em Brasília. Tal e qual um inconstante adolescente, ficamos indignados quando os eleitos são flagrados nos deslizes de ética etc., a despeito de nossa irresponsabilidade ao votar.

Agora, para decidir se o comércio de armas continua ou não, discutimos uns com os outros sem perceber que o referendo é a melhor maneira de muitos políticos lavarem as mãos em público, para o público e fazendo o público sorrir pensando que conseguiram uma grande vitória. Tal e qual um adolescente, após essa empolgação toda podemos nos frustrar como ao levar o "fora" de um grande amor.

Afinal, o artigo divaga sobre democracia e referendo para chegar aonde? Não sei. Não é meu objetivo recomendar o voto no SIM ou no NÃO, embora ache que o leitor tem o direito de saber de onde me dirijo: voto SIM, por várias razões elencadas pela Frente Brasil Sem Armas. Mas a minha maior preocupação é que o referendo se tornou a nossa maior preocupação, e que ano que vem corre-se o risco de não termos a menor preocupação diante dos que não têm a menor preocupação com o sentido e a responsabilidade de um cargo público.

E teremos gastado toda a nossa energia e desejo de qualificar o debate e depurar nossa crítica somente quanto às armas. E seguiremos desarmados politicamente e prorrogando nossa adolescência democrática para que nossos supostos tutores em Brasília nos confundam ainda mais em nossa identidade como nação.

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Severino Cavalcanti, homem do povo

Ah, Severino... Você pensou que o conto de fadas duraria para sempre? Pois é... Imagino que sua cabeça esteja dando voltas, sem entender direito esse episódio de seus 40 anos de vida pública. Como espectador atento tentarei te esclarecer despretensiosamente, apenas pela consideração com o homem público que você (por enquanto) é.

Lembra, Severino, que em governos anteriores você sempre se candidatava à presidência da Câmara dos Deputados? Chegou a ser primeiro-secretário, mas quando a eleição era para o terceiro homem da República você chegava sempre em quarto, quinto lugar. O chamado "baixo clero" sempre te acompanhou, mas não era suficiente. E a imprensa te dava uma linha nas páginas para depois esquecê-lo com gosto (saudade desses tempos, Severino?).

No entanto, em 2005 a coisa mudou: a base aliada ao Governo estava dividida (algum dia esteve coesa?), o mesmo partido lançou dois candidatos à presidência da Câmara, os oportunistas de sempre alojavam-se em quem convinha melhor. O resultado era imprevisível, mas não tanto quanto foi de fato. Na antevéspera da eleição muita gente mudou seu voto pré-declarado e pronto: você, Severino, era o novo presidente, depois da milésima tentativa.

Você não estranhou que a imprensa sequer mencionou seu nome nessa antevéspera derradeira? Que nunca foi cogitada a possibilidade de você emplacar, Severino? Talvez você não estranhasse o silêncio da apuração jornalística quanto à sua candidatura, mas hoje eu estranho... Enfim: você e o baixo clero mal podiam acreditar que estavam no poder, finalmente. Nem vocês nem o resto do Brasil, boquiaberto.

E você foi um político coerente como há muito não víamos: quis colocar em voga tudo o que pregava antes, a começar pelo aumento constante dos vencimentos dos parlamentares. Você não entendia quando muitos dos que te elegeram se mostraram receosos com decisões assim. Mas não foi pra isso que te elegeram? Acho que não, Severino...

Por que tanta perseguição a você agora, Severino? Por que todos de dedo em riste quanto a sua trajetória política, que não mudou após ganhar a eleição? Por que essa indignação tardia? Será que ela sempre existiu de fato, Severino? Respire, reconheço que é difícil de entender.

Fato é, Severino, que você já cumpriu sua missão. E foi descartado no momento que convinha. Para tirar por impeachment quem foi eleito (presidente e vice), ia sobrar pro terceiro homem da República assumir essa joça. Quando viram que essa oportunidade esbarraria em você, Severino, aí eles viram que foram longe demais.

E tome cheque surgindo (logo agora?), denúncia de propina (logo agora?), acusação de corrupção quando você era primeiro-secretário (logo agora?)... E olha que incrível: a imprensa que nunca te deu bola não saía mais do seu pé. Chegaram a anunciar sua renúncia em capas de revista, como que decretando sua decisão posterior. Premonição ou pressão? A primeira é difícil dizer de onde costuma vir, já a segunda...

E você ainda tentou alertá-los, Severino... Aquele umbigo de fora ao comemorar sua eleição já dizia tudo, e eu fiquei fascinado com sua sutil crítica via jogada de marketing. Você dizia a todos que os parlamentares só olhavam para seus próprios umbigos elegendo alguém como você, que o Brasil era pretexto para a farra de Brasília. Ninguém reparou nisso, né, Severino?

Ninguém reparou também que cassar umas dezenas de envolvidos é inútil. Adianta matar o mosquito da dengue e deixar os focos, as possibilidades de novas investidas? Não, qualquer dona de casa sabe que não adianta.

Aqui estamos nós, Severino, você bem pertinho da gente - o que eu achei valoroso de sua parte ao renunciar. Agora você está condenado ao desprezo, esquecido em seus interesses, enganado quanto às promessas a você feitas. Exatamente como os eleitores de nosso país. Isso é que é político com "cheiro de povo".

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

Sandy estava num outdoor

Sandy estava num outdoor, chamando a atenção para uma propaganda, como sua fama a guia. Pulava sobre um automóvel, e eu da janela de meu ônibus (na condição de passageiro e não de proprietário, obviamente) reparei pela primeira vez em seu sorriso. Não vi se era bonito ou sincero, somente reparei. O ônibus fez a curva e meu raciocínio seguiu junto.

Sandy saiu daquele outdoor e foi pra casa. Foi ver TV, ouvir música, ler alguma revista, tirar uma soneca depois do almoço. É uma Sandy diferente da Sandy da propaganda? Vai saber... Mas ela não pode colocar os pés fora de casa. Nada de ataque de fãs, nada disso. Sandy sai de casa, porém condicionada. Sandy é uma máquina.

Sandy não pode acordar de mau-humor e assim sair de casa, ou triste por algum outro motivo pessoal. As capas não dormirão no ponto, e estamparão o diagnóstico: "Sandy em depressão". Sandy não pode brigar com o namorado (não poderia sequer namorar, ao menos como a Sandy de dentro de casa), pois as capas exortarão: "Sandy e Fulano: será o fim?". Sandy não pode falar palavrão, não pode desabafar diante da possibilidade de uma câmera. Sandy precisa sorrir pra pular no automóvel.

Sandy faz shows, sessão de fotos, vai cumprir o contrato global e surgir alguns minutos na telinha, Sandy convocada para a telona, Sandy suspeita de silicone, Sandy Lolita quase nua, Sandy talvez na carreira independente, Sandy címbalo sexual-midiático, Sandy a boa filha, Sandy a inspiração, Sandy e a Melissinha, Sandy e as crianças, os adolescentes, os adultos.

Sandy volta pra casa. Extenuada? Vai saber... Sandy deve adorar colocar os pés em casa e ser a Sandy que sempre sonhou, que ironicamente é a Sandy real, a Sandy que nunca estaria nas capas. Não por ser má pessoa, mas por não ser a máquina que todos precisam e almejam encontrar a cada 15 minutos de fama, renováveis. Sandy olha no espelho e vê espinhas, olheiras e a maquiagem desfeita. Sandy deve sorrir um sorriso diferente do outdoor e deitar na cama que, por enquanto, não possui uma câmera à espreita. Sandy no Big Brother? "Interessante, ainda não havíamos pensado nisso...".

Sandy, a máquina, violenta todo dia a Sandy normal, com o consentimento de seus pais, seu irmão (máquina, idem), sua conta bancária, seus luxos e sua obrigação em se dizer feliz, para alegria do mercado editorial mais rentável. Sandy normal é... normal demais, mito de menos. Sobreviva o mito, tripudiando da humanidade. Sandy humana perde feio, deve doer, mas segura o sorriso até chegar em casa.

Pela primeira vez reparei no sorriso de Sandy. Não julguei nada, sequer sei dizer se era bonito, feio ou oportuno. Mas reparei. Sandy sorrindo é triste, pois não oculta a máquina. Sandy não está sozinha nesse mundo canino que se quer de fadas, o que é um consolo para a Sandy de dentro de casa. Migalha de consolo.

segunda-feira, 4 de julho de 2005

A janela de Roberto Jefferson

Eu tentei fugir, mas ficou extremamente difícil. Cheio de compromissos acadêmicos de fim de curso, deadline para textos em outras publicações, meu blog e meu espaço no site Opinião Pública (link ao lado) relegados a último plano... Mas não teve jeito: contra todas as exortações da prudência e atendendo a anseios que vêm à tona, preciso ser mais um a falar dos (recentes) escândalos de Brasília.

O que mais me chamou a atenção nessa longa jornada em que o Governo atola-se há um mês não foram as denúncias (graves, sem dúvida) nem a decepção com certas práticas que julgava estarem muito distantes do PT, mesmo no poder. A imagem que me saltou aos olhos foi a da janela de Roberto Jefferson.

É incrível como o deputado, acusado de comandar esquemas de propina, recluso com seus advogados e não dando entrevistas, mantinha sua janela aberta ao público. E aos jornalistas, claro: sempre saindo nas primeiras páginas. O dúbio parlamentar fazia questão de manter sua privacidade... com o janelão aberto?

A janela era profética. Nós é que ainda não havíamos entendido.

Desde seu primeiro depoimento na CPI, Jefferson transformou-se na ironia encarnada: convocado como réu, portou-se como promotor de justiça; encaminhado ao curral dos bodes expiatórios, por meio de uma sinceridade profunda e cínica nivelou-se por baixo arrastando todos os seus pares, até então à vontade com as pedras em riste; sem apresentar prova alguma, praticou retórica e balançou a estrutura do poder: já não se conta nos dedos de apenas uma mão quem saiu do Governo ou, no mínimo, foi envolvido nas acusações de Jefferson.

Réu confesso, antes de tudo. No entanto, a amplitude de suas denúncias, o lugar de onde as projetava - o olho do furacão dos governantes da vez, como sempre marchou desde que entrou no Congresso - não deixava dúvidas: enlameado, porém não sozinho. De quem sempre se esperou tais práticas surgem as inesperadas metralhadoras contra aqueles de quem nunca se esperava manchas tão significativas.

A partir daí, roda, roda e avisa: CPI aqui e ali, indignação súbita, moral em alta na baixaria inconsciente etc etc etc. E o que Jefferson ganha com isso tudo? Outra entrevista na Folha de São Paulo; entrevista no Roda Viva; entrevista no Jô Soares. Falamos de Ronaldinho, Roberto Carlos (o cantor), ou de algum outro ícone propício aos palanques acima? De um balcão da Comissão de Ética, passando pela CPI que o acusava (também), Jefferson é convidado a torto e a direito para lugares que emprestam sua credibilidade a um suspeito-mais-que-suspeito.

Os jornais alardeiam: já temos um novo PC, os novos traidores da pátria, mar de lama again. É preciso cobrir tudo isso, claro. Mas os mesmos órgãos de imprensa que nos trazem o Apocalipse atual tentam acalmar: a economia não se abalou, o presidente não está envolvido, o Brasil segue caminhando, apesar de tudo. Agora fiquei na dúvida: é mesmo a maior crise dos últimos tempos? Ou não é? Hein?

Roberto Jefferson colhe, com gosto, o que plantou no seu apartamento: pensávamos que era ele a bola da vez, que ele estava encurralado, vigiado 24 horas por dia pela opinião pública via mídia, mas todos esquecemos do principal: quem abriu a janela foi ele. Jefferson poderia ter fechado a janela, mas não o fez. Ele sabia que ali fora estariam câmeras, fotógrafos e tudo o mais caindo na sua infantil armadilha.

E isso se repetiu depois. Sabe-se lá por que, todo o país e seus porta-vozes entraram pela janela de Roberto Jefferson sempre que ele permitiu. Homeopaticamente, foi lançando suas versões - muitas vezes contraditórias, mas quem lembra desses detalhes no meio do fogo ardente? - ameaçando ter mais munição, espertamente inocentando o mandatário-chefe, porque Jefferson não é bobo. Nem da corte, embora pareça.

Que investigação existe? Que questionamentos aos delatores? O que há é uma janela aberta por alguém, e toda vez que essa janela se fecha, é preciso chamar Vossa Excelência a abrir de novo. Uma janelinha na TV Cultura, outra (repetida) na Folha, mais uma - dessa vez mais informal e divertida - na Globo. Nas sérias CPIs, todos se debruçam na janela retórica de Jefferson, que sai rindo de todas as sessões, sabemos sim porquê. É o gozo da vitória, é o orgasmo de quem tem todo um país na mão.

Foi só abrir a janela.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Agora

Três anos, em março. Uma parte definitiva de vida que operou pelo contraste do que sou e do que estou, do que faço e do que aspiro. Por três anos provações foram minha sobremesa diária após o expediente - ou durante, sendo mais fiel aos fatos reais. O ofício ao mesmo tempo escolhido e descartado: um concurso feito antes do vestibular, a certeza de um dia sair, em busca da vocação encontrada.

Em busca da vocação encontrada. Repito por conseqüência da teimosa revelação que me cercou por três anos, sem trégua ou acomodação. Enquanto as finanças prosperavam e o prestígio/reconhecimento em vida profissional se mantinham na ascendência, o dissabor do sabor interno de realização era amargo. Ali estava, com a certeza tantas vezes confirmada de que não era para ali estar, de que era preciso aspirar sem apenas suspirar. Correr.

E chegaria a estas linhas de outra forma? Sem a provação, como já disse, do praguejar pragmático contra a poesia possível (por que não?), chegaria até a retrospectiva dos três anos com tanta maturidade? Não. Não olharia pra trás com orgulho do aprendizado e das cicatrizes, marcas de expressão pra me relembrar que preciso me expressar. A mim mesmo antes de a qualquer outro, a fim de completar os ciclos, sair do que o concurso me proporcionou, que não era a busca da vocação encontrada.

Encontrada e fiel, não posso agir diferente. A coerência é um chamado, e eu aqui respondo, me publicando contra a minha racionalidade. Se pensasse bem, anotaria num bloquinho pessoal essas conclusões pessoalíssimas sobre profissão e chamado de vida. Mas faço parte do público: estou na primeira fila, aguardando mais do que ninguém o início do espetáculo há tanto anunciado. Ainda que comece timidamente, não remunerado, irregular. Que comece logo a existir, pra que não nasça abortado.

Por soberana ironia, o ofício me levou à enfermidade do tendão, o mal do século eletrônico. E o que já se revelara um obstáculo por meio de suas bondades - sua estabilidade, seu vil metal em boa hora, suas promessas de encarreiramento invejado - ainda atravancava a busca da vocação, agora encontrada. A pseudo-impossibilidade de não teclar, de não expressar, de não vazar, de não parir (abortar?), de não publicar. Rasgava-me sem direção: uma pausa para melhor trabalhar no que não era eu? A cura que nunca vem, maneiremos no uso do PC. Como maneirar o que transborda na gente?

A coerência é um chamado e eu aqui respondo, com umas pontadas acima do punho e no meio do antebraço, prestes a pegar o diploma, na expectativa de largar abismo abaixo o saco de bondades para subir ao cume da vocação encontrada. Três anos se passaram e bem mais que vinte e quatro podem vir, mas hão de vir ao lado da vocação encontrada, que vem na hora boa, a do horizonte permeável à construção do que se quer, do que se almeja, do que se romantiza sem alienação. E que se concretiza, pela graça de Deus.

terça-feira, 8 de março de 2005

Nadar é preciso. Ou precisamente nada?

"Se eu pudesse contar..." é o título de uma música meio antiga, que são minhas palavras hoje. Se eu pudesse contar o que é ter aula de natação após um longo período sedentário, eu contaria. Mas não tenho fôlego, as pernas cansam logo e pior: o molequinho de metade do meu tamanho me vence no crawl.

Já achava péssimo diagnosticar tendinite e escoliose de uma só vez (será que estou em vias de me aposentar, carregando comigo ites e oses?), e configurando-se em cura vem a natação, o pior remédio. É aquele gosto ruim, de uma só talagada, mas sem o qual não melhoro. É só nisso que penso quando paro no meio da piscina, pedindo pelamordedeus que acabe rápido. Professor, que horas são? Na verdade, não tenho coragem de perguntar. Na verdade mesmo, estou cansado demais, e com água no nariz.

Percebi que a aula foi um soco na minha auto-estima. "Você não sabe nadar, não sabe respirar, não se exercita regularmente, agora sofra as conseqüências!". Como muitos relatos dos que escaparam da morte numa fração de segundo, minha vida passa diante de mim e eu me recrimino pelos desprezos atléticos de outrora. Chego à outra margem, olho onde penso que estão os olhos do professor - ele está de óculos de sol - e penso que ele comanda minhas penitências, vestindo a capa de incentivador só pra ser politicamente correto. Neurose minha? Pode ser, entrou muita água no ouvido...

Vamos ouvir o outro lado, como manda o bom jornalismo. O disseminado culto ao corpo nos atrapalha na busca da saúde ideal. Não temos noção se queremos apenas manter um organismo saudável ou ser esbeltos pra não fazer feio - literalmente. Por trás da multiplicação das academias está a tão famosa ditadura da beleza, que desestimula aqueles que sabem que nunca irão consegui-la. Assim sendo, pra que se manter saudável? Pra ter uma aula de natação que me derrube emocionalmente? As batatas fritas, o sofá e a TV me dão mais alegria e (aparente) recompensa.

Quero passar longe do melodrama, mas deixar os leitores próximos de minha tragédia grega nas águas. As "barrigas de tanque" saíram do campo doméstico para a confissão de fé das baladas e "pegações", desnorteando quem tenta sobreviver em meio à lógica do consumo exacerbado - de coisas e pessoas. Estou no meio disso tudo, sem poder fugir da raia. Talvez aquele molequinho me ajude.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

Reencontro outra vez

"Não sou rico, não sei jogar bola, não sou bom de porrada. Estudar é a minha maneira de chamar atenção." (*)

A frase me atingiu como uma flecha impiedosa. Cai na armadilha da identificação, que adora nos surpreender com o que já somos. Das linhas sai o impacto do se ver naquela descrição. Não adiantava olhar pro lado e disfarçar. Era comigo, era interno, restava-me suspirar e admitir que a frase me despiu.

Daquele jeito foi boa parte da minha vida escolar: sem muito luxo, mas com o suficiente para ir à aula em dignidade. Sempre renegado nas peladas do recreio, o menorzinho que olhava o corre-corre dos grandões, craques que nunca se cansavam. Eu corria, mas das brigas antes delas começarem. Tinha noção de minha fragilidade física, não arrumava nenhuma encrenca e por vezes tentando apaziguar algum desacordo para comigo me sentia meio otário. De repente, um soco de repente faria um bem tremendo pra mim! Mas e a advertência, a suspensão, a reputação, o futuro? Pra mim, a ameaça era séria e fazia meu sangue estancar.

Restava-me sentar na frente, copiar do quadro com rapidez, (tentar) ser um dos melhores alunos. O azul do boletim compensava tudo na minha auto-estima. Nunca tive paranóia de notas altas, mas terminar a prova rápido, naturalmente, sem me apressar, e ser o primeiro a sair de sala dava-me um ar de superioridade em relação aos demais, principalmente a todos que me espancavam emocionalmente.

Se queria também chamar a atenção, não sei dizer. Também nunca aspirei a intelectualidade, embora muitos me encarem assim. E o pior é quando encaram uma superioridade que não existe, intimidatória. Não sou mais criança, e não quero a distancia que precisei obter na escola. Ninguém é melhor ou pior por ser estudioso, craque, zelador ou papa de qualquer coisa. Apenas encontrei meu canto, regado ainda na infância: em meio aos livros, quem sabe um dia parindo um deles.

Mais do que estudar, escrever foi o movimento compensatório definitivo, que me encurralou desde a pouca idade. Movido por lembranças e esperanças, a ponta da caneta fica tonta e as linhas me chamam. Sinto-me mais à vontade do que em qualquer ambiente familiar, percebo que fui gerado pra assim ser e agir: escrevendo, Tirem-me isso e estarão me despedaçando. Estarão me seqüestrando de volta aos recreios intermináveis nos quais eu era preterido, às fases de minha infância que tento apagar traçando letras. Ou reescrever, no melhor propósito do verbo, olhando com olhos mais maduros o que aconteceu em minha imaturidade que fornece para meus 24 anos temas-chaves de vivência. Inegáveis.

Tenho cérebro, coração, mão e necessidade. Minha sede enorme riscando papéis com gosto, sem pretensões. Já quis ser escritor-prodigio, produzir textos aos 16 que se universalizassem e me conduzissem a qualquer tipo de ABL, com ego inflacionado. Hoje descubro que isso é babaquice, que a única coisa vital é me expressar sem ressalvas. É vão negociar com o espaço-tempo vigente a prioridade que o ato tradutório de escrever deve significar para mim. É levar flecha e ainda moribundo lançar outras de volta, mirando apenas no espelho, nada mais. É reler e ser flechado de novo.

Que ninguém encare como uma definição que aspira ser definitiva: mas escrever é ser persistente consigo mesmo. E ai de mim se me negar essa chance.

(*) Trecho do livro "Chove sobre minha infância", de Miguel Sanches Neto.

sábado, 27 de novembro de 2004

Nossos rumos em nossas entrelinhas

Pra lá. Pra cá. Upa, quase que ela cai! Sai do balanço, corre pra jogar a bola, o pai sempre perto, pra brincar junto e dar segurança. Riso fácil e farto, naquela espontaneidade de quem acorda e é sempre feriado. Pés descalços, pois ali é lugar santo, fase santa da vida chamada infância. Recompensa da vida chamada paternidade.

Tirai da minha frente os estereótipos míticos desse tema. Quero ter a percepção pura e simples, pro resto da vida, do que é curtir o filho (ou a filha). Estou sentado lendo algo distante de tudo isso, rascunhava outras linhas igualmente remotas, quando fui capturado pela cena. Um balanço, uma bola atirada pra lá e pra cá, nenhuma fala. Apenas satisfação legendada subjetivamente.

Vez por outra eles me olham, e preciso disfarçar. Volto a escrever sobre o que os dois me proporcionam, mas a tinta do coração vai secando e preciso olhar de novo. Paro, olho em volta, ouço o forró da Feira de São Cristóvão, o pagode de turistas gaúchos do outro lado da rua, encaro o dominó de uns caras mal-encarados. E retorno à paternidade expressa em viva vida.

A mãe chega e vira figurante do espetáculo promovido por pai e filha. Quase espectadora, sorri, como eu faço por dentro. Resolve também participar das brincadeiras e aí está, idilicamente, o exemplo de família feliz. Óbvio que não os conheço nem sei seus problemas, particularidades, defeitos, frustrações e demais chamados realísticos. Mas sou grato por me permitirem esses caprichos da imaginação em perspectiva.

Eles vão embora, cansados de tanta plenitude. Aproveitaram o feriado, e eu também. Fui acolhido temporariamente por aquela família, principalmente pela filha e seu pai, que me encorajaram a um dia fazer o mesmo. Nesse 15 de novembro proclamei a República Hereditária em meus sonhos. Pegando em armas genéticas, quimicamente misturadas em amor, projetando meu futuro que já começou naqueles instantes.

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

A cruz da questão

- Evangélica, eu? Deus me livre!

O que não faz muito tempo seria uma curiosa contradição, nas palavras da cobradora do ônibus parecia lógico. Ainda mais diante dos exemplos de "gente de Deus" conhecidos publicamente. O evangélico Bush, reeleito para seguir com seus genocídios a bel-prazer. A evangélica família Garotinho, cometendo todos os possíveis e prováveis crimes eleitorais. Os evangélicos bispos-parlamentares envolvidos em corrupções sacrílegas para a nação. A bancada evangélica no Congresso, insípido sal, verdadeira mesma farinha. Desse jeito...

Desse jeito sinto-me deslocado sabendo que estou onde devo estar. Que a despeito dos exemplos na mídia, carregados de má fama, faço parte desse grupo. O IBGE me classifica sem meio-termo: evangélico. Sou e me espanto com o quadro acima, incluindo a ofendida resposta da cobradora. Sinto-me estranho, por perceber que pertenço a um grupo que parece cada vez mais distante de sua origem, o Evangelho. E tremendamente constrangido quando figuras do tipo dizem que falam em meu nome.

Cientistas sociais, antropólogos, teólogos, pesquisadores de religião. Todos eles, vez por outra, surgem para explicar o "fenômeno evangélico brasileiro". Um crescimento populacional que já chega a 30% dos 180 milhões. Estou vendo de perto, estou lá dentro. O assunto não sai da moda, pois viramos nicho de mercado, peso político, massa de manobra.

Mas o incômodo surge porque, de fato, não tenho voz, vez, representação, nada. Nem eu nem boa parte de meus companheiros de jornada, pois fugimos do rótulo de "religiosos" como o diabo da cruz. Muitos de nós (que não aparecem na mídia) não se identificam nem um pouco com esses ditos representantes. Somos críticos, discordamos da práxis e percebemos, melhor do que quaisquer outros, o oportunismo flagrante a respeito de coisas tão sérias e profundas como a palavra de Deus.

Pior: flagra-se a distância de Cristo. Se tento, junto a meus irmãos de caminhada, buscar um compromisso fiel com Aquele que um dia nos alcançou nas entranhas, sem convencimento argumentativo ou propostas de prosperidade, não é nos públicos pseudo-expoentes da fé cristã que encontro exemplos a seguir. É preciso que isso seja dito. Eles estão sozinhos, ainda que com uma cega multidão os elegendo aqui e ali. Estão todos sozinhos, sem perceber. Sem perceber que, quando se fez homem, o próprio Jesus fez diferença (pra melhor), e que nunca coadunou com os poderosos de seu tempo em troca de benesses para sua causa, nunca se alienou de seu contexto social. Nunca.

É esse Jesus que eu e muitos amigos seguimos, e que fique bem claro, bem público, bem conhecido aos que me lêem. Que é o genuíno Jesus, que não negociava valores do reino de Deus por nada desse mundo, que é motivado por amor para transformar os corações, que deixou sua Palavra - a Bíblia - para ser instrumento de cura e não de lei implacável. Que seria crucificado novamente por Bush e cia.

Não serei conivente com esses auto-proclamantes evangélicos. Não dá pra ficar calado, consentindo. E não me orgulho de ser religioso, protestante, evangélico, crente ou qualquer outro carimbo socio-ideológico onde queiram me enquadrar. Sou cidadão do mundo, antenado na vida, pés no chão, olhando para o Alto, procurando compartilhar a todos, por todos os meios possíveis, o que preenche nossa existência com significado pessoal e ad eternum. Sabendo de minhas limitações, mas certo de quem é, de fato, o Todo-Poderoso de Todos os Tempos. E que Ele se achega de maneira mais simples do que podemos imaginar.

domingo, 24 de outubro de 2004

Exílio

Minha casa está em obras, e dela não posso sair. Desejava morar num "abrigo temporário" até que a poeira baixasse de maneira literal, mas não dá. Preciso habitar no canteiro enquanto as metamorfoses do concreto avassalam. Enquanto isso, me teletransporto para depois do AI-5 e sinto todos os paladares do exílio. Em meu próprio quarto.

O quarto foi o primeiro na ordem artificial das coisas. Quebra-quebra, pintura, crescimento demográfico e reorganização social (volto a dividi-lo com minha irmã), novos componentes móveis, novo quarto. Meses se foram e agora me deleito no melhor momento de qualquer obra: quando ela já acabou.

Acontece que obra é coelho insaciável, já procria naturalmente e ainda recebe "Viagra" dos patrocinadores. Findos a sala, o outro quarto e a cozinha, é hora de brotar uma suíte e um escritório, lápides do quarto de empregada (que Deus o tenha, porque empregada mesmo nunca tivemos). Evoque-se Tim Maia, o que eu quero é sossego. Vá embora, não me amola, boa obra. Mas ela não vai. A furadeira na trincheira, o seguidor martelo e barulho, muito barulho. Poeira, muita poeira. Amargor, muito amargor.

Meu quarto é meu refúgio. Quase tudo o que preciso para minha sobrevivência cultural está lá. Tento interagir com a sala e a TV, com sofrer chego ao banheiro e à cozinha. É difícil. Por toda a casa, apenas o idioma da desordem (que precede o tal deleite que já falei, me chantageando sem piedade) e da poeira. Muita poeira.

É demais pra minha alergia. As portas do meu quarto são fechadas com força. À força. Lacro-me de todo o resto da casa e ao trazer o prato do almoço para a escrivaninha dos meus papéis, percebo o óbvio terrível: estou exilado. Em meu próprio quarto, em minha própria casa, em meio a minha família. Exílio irônico, que só podia acontecer comigo, refém predileto da mordaz ironia.

Quase choro de saudades da minha terra, que vai se transformando - e ainda que me permita testemunhar sua mutação, isso não me satisfaz. Estou preso a ela, paradoxalmente quero ir embora e não posso. Meu exílio é tão imóvel quanto minha casa. E tão destruidor quanto os de 40 anos atrás. Quero voltar, mas nem fui! Nesse momento estou numa biblioteca a quilômetros do meu bairro, e me sinto mais à vontade do que em meu quarto.

Quero minha casa - meu campo. Onde eu possa rever a mim mesmo, meus livros, meus discos e tudo o mais. Anistia, ainda que tardia!

domingo, 17 de outubro de 2004

Fernando Sabino, tudo a declarar

"Não se escreve impunemente, seja qual for o assunto, pelo menos quando se trata de escrever sobre o que não sabemos, justamente para ficar sabendo e nos conhecermos melhor, como acontece comigo. (Fernando Sabino, "Com a graça de Deus")

Como acontece comigo.

Recebi a notícia mais triste de 2004 sem saber como recebê-la, o que me causou uma anestesia inicial involuntária. Escrevia uma bem-humorada esquete teatral e me preparava para o feriado de 12 de outubro. Não sabia que seria aniversário de Fernando Sabino. Seria.

Não me choquei, não me entristeci demais, não chorei, não fiquei indiferente. Apenas não sabia como ficar. Não sabia o que sentir. Não estava pronto para não estar pronto. O dia seguinte foi escolhido para devorar os obituários, relembrar tudo o que eu já sabia sobre meu "pai nas letras" e lamentar uma perda irreparável não só para a literatura brasileira como para mim. E vida que segue. Faz parte.

Dia 13 de outubro, caça em sebos. Seis livros clássicos de Sabino numa média de cinco reais cada, ótimo negócio. Não me senti mal por essa gana de completar minha coleção após sua morte. Só não queria correr o risco de perder a oportunidade para demais órfãos em busca do espólio intencionalmente deixado por Sabino. "Se não foi publicado então não presta", dizia ele, ao explicar porque desengavetava tudo quanto é manuscrito até os últimos momentos em vida.

Pensava eu que estava tudo nos conformes. Agora era só gravar a entrevista que ele deu a Roberto d'Ávila há sete anos (e que seria repetida oportunamente nessa semana) e pronto: meu trabalho como fã de carteirinha estava completo. Mas eu era muito mais que isso, e ele era muito mais que um ídolo ou um escritor a se admirar. Só que eu não sabia da profundidade de todas essas coisas até ler o trecho em epígrafe neste artigo.

Em meio à adolescência, ler Fernando Sabino mexia comigo em dois aspectos. O primeiro: com que simplicidade ele escreve sobre coisas simples, sem ser simplista! O segundo, e derradeiro encurralamento vocacional pro resto da vida: será que eu também consigo...? Não foi nenhum espírito pretensioso que se apossou de mim para fazer tal raciocínio. Nunca desejei suplantar Sabino em sua genialidade de cronista. Era apenas uma janela da alma, escancarada, que me permitia avistar a expressão que já vinha. Posso eu, como Sabino, narrar as curiosidades simples de meu cotidiano por meio da crônica, correndo até o risco de ficar bom? Era como se ele respondesse com outra pergunta: "por que você não tenta?".

E assim começava o meu diálogo filial com Sabino, sem nunca termos nos conhecido pessoalmente. Seus porta-vozes eram diretos (as crônicas que tiravam as palavras de minha boca, deixando-me estupefato) e indiretos, principalmente nas aulas de redação. A ponto de, após conseguir o grau máximo numa prova de até 30 linhas, receber ao lado da nota o lembrete: "Não precisa escrever igual a Fernando Sabino!". Era ele me lapidando, dizendo que até então eu não tinha criado nada: o cotidiano simplesmente acontecia e minha narrativa copiava a dele. "Seja escritor, garoto! Ao menos, tente com mais coragem!".

Então surge o luto. Enquanto escrevia sobre Fernando Sabino compreendi melhor o que aconteceu. Aconteceu que ele não está mais vivo, aconteceu que estou órfão, aconteceu que doeu. Como na epígrafe, agora me conheço melhor.

A identificação que havia entre eu e Fernando permite agora que eu o chame pelo primeiro nome. Como eu, parecia não censurar a si mesmo nas crônicas. Ele estava nelas, seja em primeira pessoa ou pessoa escondida, mas era ele. Era tudo dele, tudo ele. Eu também, Fernando. Que negócio é esse que se apodera da gente e não sossega enquanto não transformamos em escrita? Que nos convoca à personificação temperando com emoção vivida as letras frias no papel? Que espírito, que chamado, que coisa!

Mas Fernando, te ler agora é como receber seu seguro de vida. Uma grana que veio em boa hora, mas a que custo? A custo de seu desaparecimento? De seus livros terem agora somente reedições? De não poder mais conversar contigo por meio das suas crônicas e de meus artigos? Seguem em mim, Fernando Sabino, as marcas de seu exemplo, talento, capacidade de se desnudar literariamente a desconhecidos de todo o país, de seu recolhimento para que a obra fale mais alto, e pela gente. Não queremos ter cara, apenas veia aberta no papel.

Fernando, sem você e Drummond, não tenho mais isso. Mas o outro mineiro faleceu quando eu tinha apenas sete anos, bem antes de começar a escrever. E nunca fui muito de poesia, só me arrisquei nas crônicas. Como você. E você, Fernando, me acompanhou desde o início, sem saber. Agora me sinto sozinho, meio desamparado, tendo que seguir sem meu tutor no inescapável caminho das letras. Agora a ficha caiu, cinco dias após sua morte.

Você não está mais aqui, Fernando, então por que me dirijo a você? Talvez porque eu não conheça outra maneira de tornar pública a nossa cumplicidade privada, a não ser por essas palavras dolorosas, francas e desabafantes. Talvez por não ter buscado te dizer isso em vida - meu Deus, que dor.

Nunca houve (nem há) em mim a intenção de ser escritor ou de galgar condecorações humanas. Apenas o transitar da mente para o papel, via coração, vida elaborada, encontrando assim um dos significados de minha existência terrena. E foi Fernando Sabino quem me ensinou. A gratidão é eterna. O luto é denso. A saudade, permanente como uma estátua a homenageá-lo. A motivação para prosseguir escrevendo, tão vigorosa e sincera como minhas lágrimas de agora. A alegria de ser seu filho, renovadora como encontro marcado.

Fernando Sabino, predestinado a me predestinar para a escrita.



quinta-feira, 7 de outubro de 2004

Impopularidade autêntica e assumida

Meu mau humor me encoraja. É ele quem (com o perdão da expressão chula) me dá os "colhões" a mais que me permitem enfrentar com veemência e sem tanta reserva o que me incomoda. Só de ter escrito uma expressão dessas logo na segunda linha demonstra o que quero dizer.

Minha alergia me guia ao mau humor. A paciência se esgota na proporção do nível de poeira, da multiplicidade de espirros (que sugam minha energia) e nas inconvenientes e reincidentes corizas. Nenhum remédio parece fazer efeito, os lenços acabam antes do necessário. Sou tolhido de minhas necessidades básicas e importunado em relação a outras - concentração para ler, disposição para escrever - me levando de maneira inevitável ao mau humor.

De mau humor não admito que me atendam mal na lanchonete, e dou as costas para não pagar por um mau serviço. De mau humor não aceito o santinho de um político crápula, e se ele ali estivesse, diria na sua cara: "clientelista!". De mau humor, estar sozinho é estar mal acompanhado; acompanhado, é pessimamente acompanhado. De mau humor, o murmúrio é o idioma oficial, e reivindico involuntariamente um exílio justificável.

De mau humor não há mascaras, sejam as hipócritas ou as necessárias para um cotidiano bem educado. De mau humor minha cara se auto-define, e passem ao largo os discordantes. Assumir sem rodeios o que está sentindo no momento, numa "autenticidade em neón" com o risco de machucar. Essa é a encarnação da coragem que o mau humor me proporciona. Colhões.

De mau humor enumero meus inimigos mentalmente e da mesma forma realizo crueldades com eles. Normalmente eles merecem, mas meu senso piedoso sempre dá um jeito. A menos que eu esteja de mau humor. Imagino-me humilhando cada um deles com irrefutáveis argumentos, desconstruindo seus defeitos em público, e nem me passa pela cabeça que façam o mesmo comigo. O mau humor é insuportável para seu portador, por isso ele não vê outra escolha senão pseudo-atravancar os que pseudo-atravancam seu caminho. É democraticamente insensato, suicida e psicologicamente demolidor.

De mau humor eu não me agüento, e me agüentaria menos se não escrevesse sobre isso. De mau humor faço um texto mau-humorado como esse, sem me preocupar tanto com possíveis leitores. É preciso dormir e deixar o estopim alérgico arrefecer, para retornar de cara lisa com o diplomático teatro nosso de cada dia.

quinta-feira, 30 de setembro de 2004

Palavra!

"Há coisas que a palavra não alcança". A frase, dita por um professor da faculdade, não trazia uma idéia inédita para mim. Ainda assim, me impactou. Novamente. Ele falava de uma experiência física que viveu (foi lenhador por um dia!) e da dificuldade em traduzi-la para a linguagem, seja verbal ou escrita. Consegui captar o sentido daquela afirmação, e me incomodei.

Alguns amigos mais próximos conhecem minha estreita e intensa relação com as letras. Meus olhos as consomem democraticamente, minha curiosidade voraz suplanta qualquer preconceito. Leio tudo ou, ao menos, começo a ler.

Já minha relação com a escrita se dá de maneira mais sensorial, quase fisiológica. Pode parecer chavão, mas é verdade que nunca planejei escrever. Em certa hora da adolescência, o "hormônio da expressão" emergiu e demandou o compartilhar de meus processos interiores. O que fervilhava em minha mente, coração, enfim, em meu corpo, precisava se tornar público. Está aqui ratificado que o que falei não é chavão. Conheça-me: eu, em minha personalidade reservada e meio tímida, nunca pensaria em publicar algo. Mas foi o preço a ser pago, e até hoje recebo troco...

Tudo isso foi para se ter uma idéia de como a afirmação de meu professor me desconcertou. Se há coisas que a palavra não alcança, por um momento me senti descartável, sem função no mundo. E condenado à "morte". Se é pela escrita que consigo traduzir o que minha vocação pessoal exige, que fim me espera?

Bom, a aula era de Linguagens Não-Verbais, então não era tão catastrófico assim. De qualquer forma, chegaremos a um ponto em que a palavra não alcança? Sim. Em relação ao amor.

Lembro de uma cena do filme "Melhor é impossível" em que o personagem de Jack Nicholson (um escritor) está num fluxo de criação defronte ao computador, com a inspiração sendo cristalizada na tela do Word e um êxtase percorrendo toda a sua magnífica interpretação (não foi à toa que ganhou o Oscar). Ele vai concluir o parágrafo iluminado com a definição do amor: "O amor é..." TOC! TOC! TOC! Ele tenta ignorar as batidas na porta e prosseguir: "O amor é..." TOC! TOC! TOC! TOC! TOC! TOC! Exasperado, ele se levanta e já abre a porta "espinafrando" o personagem que cometera sacrilégio contra o ser escritor, berrando que aquele é o trabalho dele, que ele não pode ser interrompido assim etc e tal. Depois da briga, ele tenta retomar o êxtase, mas é tarde. Coito interrompido, iluminação apagada. Foi-se a definição do amor.

É isso. É impossível definir o amor. Adoramos as letras de Chico Buarque, Vinícius de Moraes e tantos outros poetas, mas o que admiramos mesmo é a maneira genial com que eles falam do amor e do que ele proporciona. Nenhum deles se atreve a dizer "o amor é...". Nem as figurinhas do "Amar é..." se atreviam: davam exemplos práticos da (suposta) expressão do amor. Mas nada que configurasse a definição do amor.

O amor é adjetivado, vivido, comparado em diversas fases dos relacionamentos, mas nunca definido. "Amor é isso, e ponto". Ponto, uma vírgula! Vá você ter a pretensão de definir o amor, pensando engavetá-lo para que lhe seja mais previsível e não saia da sua caixa de Pandora. O amor é. Aí sim, ponto. Ponto inicial. O reconhecimento dessa incapacidade de se definir o amor é o renovo supremo. São menos dores de cabeça, menos ilusões, menos frustrações, mais realidade e gozo.

Há coisas que a palavra não alcança. Lá está o amor, soberano, rindo de maneira nobre dos plebeus que insistem no empacotamento cognitivo/sensorial de sua essência. A própria Escritura diz que "Deus é amor", e não o contrário. O fato é que estamos com o foco errado. Em vez de nos maravilharmos com os imensos limites humanos, singulares toda vida, queremos surrupiar os mistérios eternos. Assim é a dança do amor, na qual pisamos no pé do parceiro freqüentemente. Com masoquismo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

"Você está aqui!"

A opressão do consumo simbolizada pelo shopping me dava boas-vindas, com sorriso irônico. Que os funcionários não fiquem com a consciência pesada, mas é a cultura do lugar. Para que serve um shopping? Para compra e venda, nada além disso. Diversão? As pessoas se divertem comprando, outras ficam felizes vendendo. Cinemas (que vendem ingressos) são secundários, e o pretexto de encontrar amigos também está permeado pelo espírito consumista. Muitas críticas e apologias já foram feitas nesse aspecto, mas o objetivo aqui é constatar.

Ou melhor: contextualizar. Não vou analisar mentalidades, comportamentos, filosofias de vida. Fato é que estava no shopping, como tantas vezes estive (tanto que nem lembro o que eu fui fazer lá dessa vez. Talvez compras!). Precisei achar uma loja que não sabia onde ficava, e apelei para um objeto típico de shopping: o mapa do piso. Aquele em que as lojas viram centenas de quadradinhos coloridos, e que as portas, escadas rolantes, extintores e demais elementos do lugar viram desenhos achatados. Afinal, é um mapa!

Esses mapas são cada vez mais modernos, com animações em flash e design publicitário, pra ficarmos babando. Encarnam a tendência tecnológica de trazer para a ponta de nossos dedos o que era cinema de ficção científica até ano passado. Não sabia se brincava um pouco ou via logo onde era a loja. Lazer ou pragmatismo? Subjetividade ou objetividade? Estavam ali, piscando e languidamente se oferecendo a mim em forma de mapa de piso de shopping, questões com as quais nos deparamos todo dia.

Mas de tanta informação sobre a intimidade do shopping, qual seria a mais importante? Não só para aquele meu momento, mas de maneira atemporal? Nem pensei muito: era aquele pontinho vermelho com a histórica frase "Você está aqui".

É a informação mais importante de nossas vidas. De nada adianta o performático mapa se aquele pontinho vermelho e sua legenda não estiverem destacados. Se eu não sei onde estou, que referências adiantam? Que adianta saber aonde ir, seguir conselhos e direções, ouvir os mais experientes, conhecer os caminhos? Preciso saber onde estou.

E se me arrancam aquele pontinho? Um mapa flutuante judiando de meu desespero "desinformativo". Estou num limbo. Não quero isso, quero sentido (se possível, direção), quero significado ainda que seja impossível de percebê-lo em primeiro plano. Quero saber onde estou, é um direito tão elementar quanto o de ir e vir. Aliás, sem o primeiro não há o último.

Minha digitadora pessoal e secretária quando há negociação (minha irmã) quase capitulou ao perceber que um pontinho de mapa de shopping vira crônica. "Só você mesmo". Só eu mesmo? Só mesmo o pontinho. A exclamação que não me deixa perdido e me metaforiza todo, ela é a culpada. Exclamação universal, desconcertante de leitores-passantes-comprantes. Suprema ironia do shopping: nenhum dinheiro do mundo substitui a informação vital daquele pontinho. Rendamo-nos à simplicidade que ele insiste em nos ensinar.

terça-feira, 24 de agosto de 2004

A contribuição do leitor

Transcrevo aqui, com a devida autorização, os comentários da Louise sobre o artigo "O melhor do Brasil é a propaganda" que você pode ler rolando a tela. Jornalista e leitora assídua desse blog, ela mantém lá em cima o nível da formação de opinião que acontece por aqui. Acompanhe só:

"Sei não... Acho a discussão muito importante sim, porque precisamos sempre levantar questões e debater a realidade. Mas acho que esse ponto que vc pegou não deixa de ser uma crítica fácil. "Fácil" porque é a primeira coisa que nos vem à cabeça, a questão de os dois serem exemplos extra-ordinários. Só que:

1- Existem, sim, outros filmetes com histórias mais próximas do cidadão comum. Vi dois outro dia, em algum programa da Band, e são lindos. Só não sei porque ainda não estão sendo veiculados (aqui no Rio pelo menos);

2- Não vou cair na esparrela de desestimular a luta. A impressão que tive, quando li seu anti-penúltimo parágrafo, é a de que a gente tem mais é que querer que tudo se exploda. Que, porque existe tanta coisa errada à nossa volta, devemos desistir, porque nada vai mudar. Eu te conheço o suficiente para acreditar que não foi isso o que você quis dizer, mas pelo menos foi a sensação que tive quando li as bem-traçadas linhas. Ao mesmo tempo, acredito, profundamente, que sem exemplos ninguém tem estímulo para lutar, para melhorar. Ou será que teríamos tantos jovens revolucionários sem o Che altivo que hoje estampa camisetas? E esse é só um caso entre tantos, para o bem e para o mal (Gandhi, Hitler, John Lennon, Vargas...).

'Ah, mas esses comerciais não dizem nada disso'. Reconheço que os heróis que citei transformaram profundamente a sociedade, e que levaram a uma movimentação popular intensa, cada um a sua maneira. Mas, honestamente, não acho que comerciais se prestem a esse tipo de coisa. Cada veículo, cada mídia, tem o seu apelo e o seu propósito - e o da propaganda, que eu me lembre, é justamente te vender um produto. No caso, a idéia de que vale a pena correr atrás, mesmo quando tudo parece perdido. Nesse aspecto, o anúncio é irretocável. No entanto, esperar que ele abra um espaço para discussão, que estimule as pessoas a fazerem passeatas e piquetes por um salário mais justo... infelizmente não é a função do marketing (tanto quanto não é a função das faculdades ou da TVE estimular a futilidade do Big Brother).

Por isso tudo, concordo que uma parte da batalha diária dos brasileiros foi ignorada em detrimento do drama dos famosos (e nem vou entrar no mérito da discussão de se um famoso tem mais apelo - e impacto - perante à massa do que um desconhecido), mas não dá pra ignorar todo esse contexto na hora de analisar o comercial... E, por favor, tudo o que eu escrevi aqui é na melhor das intenções. Não quero brigar com você não, moço! :)"


Sei que não, Louise. Mas é muito bom alguém discordar com civilidade e na intenção de esclarecer sem interesses espúrios ou ressentimentos. Coisa tão em falta no nosso jornalismo atual.

terça-feira, 17 de agosto de 2004

Do verbete "forçação"

Escrevo esse artigo ao terceiro dia de Olimpíadas, ainda sem saber quando irei publicá-lo. Portanto, até o presente o momento, o Brasil não ganhou nenhuma medalha. Mas o que dizer das manchetes abaixo, todas de primeira página?

"Brasil bate recorde em Atenas - basquete feminino e natação alcançam marcas históricas nos Jogos"

"Brasil é tri na ginástica"

Para três dias de disputa, são feitos e tanto! Ávido pela chamada em letras grandes logo de cara, corro pra ver quantas medalhas nossos atletas já abocanharam. Começo a estranhar. Cada o texto que fala disso? Será que estou no caderno certo? Estou. Zero medalha. Mas do que falavam as manchetes, então?

O recorde do basquete: o maior número de pontos marcado no torneio feminino olímpico (128) e igualando a maior diferença entre duas equipes (o Japão fez apenas 62 pontos). O recorde da natação: Joanna Maranhão conseguiu o quinto lugar nos 400m medley e tornou-se a primeira brasileira a estar entre as oito melhores do mundo desde 1936. O "tri da ginástica" é o mais curioso: na verdade, são três atletas classificadas para a final do solo.

Empolgante...

Que os referidos atletas não me leiam para que não pensem que desqualifico todo o seu esforço. Mas pra que tanto alarde se o mais importante a se conquistar numa olimpíada - as medalhas - não foi alcançado ainda? Por que tanta euforia com tão pouco?

Bom, é preciso que compremos a idéia das Olimpíadas, em todos os sentidos. E como bem apontou Mino Carta na edição nº 303 de Carta Capital, fica bem escondida a humilhante situação brasileira na política esportiva. Um país com riquezas como as nossas e talentos em tudo quanto é modalidade, com mais de 180 milhões de habitantes... conseguir só 12 medalhas nos Jogos de Sidney-2000, por exemplo? Onde está o erro?

Provavelmente nos investimentos aquém do esperado no esporte brasileiro, que além de nos elevar à potência mundial nesse aspecto, ainda ajudariam a reduzir a desigualdade social com a inclusão profissional de milhares de jovens. Nossos atletas são os melhores do mundo, pois mesmo com os obtusos dirigentes e os obstáculos amadores e sócio-econômicos, conseguem levar o combalido Brasil aos lugares mais altos da competição. Não é por sobra de incentivo que isso acontece.

E os leitores são desinformados ao tentarem acompanhar o desempenho de nossa delegação. Afinal, as manchetes de primeira página criam uma grande expectativa, que é frustrada nas primeiras linhas da matéria. As suadas vitórias de nossos atletas começam então a ser banalizadas por menores resultados, eficazes apenas para que a cobertura diária das Olimpíadas pareça mais interessante do que não é.

O pior acontece: a imprensa esportiva do "oba-oba" (como tão bem classificou Fernando Calazans) diz sempre que o Brasil é um grande favorito para os Jogos; e os parcos resultados ao fim dos quinze dias de competição faz com que tenhamos raiva ou, no mínimo, desprezo por nossos atletas.

Vale então a cruel lógica que vigora por aqui: se não é campeão, de nada valeu, não interessa. Ora, quem é uma das maiores responsáveis para que essa lógica se perpetue de quatro em quatro anos? Aquela que a divulga de maneira incorreta, a tal imprensa do "oba-oba". Que obtém maiores sucessos na editoria onde a paixão fala mais alto que a razão, encarnada na universal figura do torcedor.

Esse tipo de cobertura é o que eu chamo de "forçação de barra". Verbete inexistente, contudo mais preciso e fiel que grande parte da cobertura esportiva brasileira.

quinta-feira, 12 de agosto de 2004

O melhor do Brasil é a propaganda

Quando o presidente da república disse que o povo estava carente de heróis, surfando na onda da campanha "O melhor do Brasil é o brasileiro", da Associação Brasileira de Anunciantes, foi aquela grita. Críticas e apologias invadiram os jornais. Cada colunista sentiu-se instigado com vara curta a replicar. Eu idem, mas a enxurrada de opiniões foi tamanha que me deixou inibido. Contudo é indiscutível o talento dos anunciantes tupiniquins: conseguiram que o líder da nação fosse seu garoto-propaganda, e de graça!!

Os colunistas em geral refletiram sobre a necessidade de se ter heróis, até que ponto isso é benéfico para a conscientização do povo, para a cidadania. E que tipo de herói? O assunto rendeu por vários dias. Mas só agora pude assistir na TV os filmes publicitários que narram a vida de Ronaldinho e Herbert Vianna como exemplos de brasileiros que não desistem. Como espectador e já distante da polêmica à época do lançamento da campanha, uma pulga despertou e ainda está lá, no cantinho da minha orelha.

Nos anúncios a trilha "Tente outra vez", de Raul Seixas, encaixa-se perfeitamente com as histórias dos heróis brasileiros. Elas são contadas por meio de manchetes de jornal e pequenos filmes mostrando o calvário do cantor e do jogador, até o fim apoteótico de sua recuperação e conseguinte vitória. Fechando, o slogan: "Eu sou brasileiro e não desisto nunca".

Não quero cair na insensibilidade cretina de relativizar o drama de Ronaldo e Herbert. Eles e suas famílias (muito mais que os fãs, muito mais que a imprensa) é que sabem da dor sofrida. Mas o slogan acaba tornando-se quase ofensivo para a grande massa de brasileiros que pretende alcançar. A questão aqui é a diferença de realidades.

E se Herbert Vianna, após socorrido do acidente, fosse levado a um hospital público? Se pegasse aquela longa fila onde só os baleados pela violência (em geral das áreas mais pobres) têm prioridade? Durante o período de reabilitação, Herbert ficou sem gravar ou fazer shows. Ou seja, parou de trabalhar, ficou desempregado. Ainda bem que tinha família, dinheiro investido, direitos autorais rendendo etc. E, claro, ficou com hospital e fisioterapeuta particulares.

E se Ronaldinho não fosse "o" Ronaldinho? Se ainda estivesse iniciando sua promissora carreira no São Cristóvão ou no Cruzeiro (seus primeiros times) e sofresse a grave contusão no joelho que o deixou dois anos parado? Também temporariamente desempregado. O clube arcaria com tudo? E sua família, que dele também dependia, seria assistida pelos responsáveis cartolas de nosso futebol brasileiro? Será que, após marcar aquela consulta no SUS, daria tempo de Ronaldinho começar a fazer fisioterapia e se recuperar, pro bem da seleção?

Para Ronaldinho e Herbert, com os recursos materiais que possuíam à época de seus terríveis problemas, fica fácil abrir aspas e dizer que é brasileiro e não desiste nunca. Aí está a ofensa: se a grande massa da população não tem como obter os mínimos direitos humanos básicos como saúde, educação e renda digna, a opção mais fácil sempre é desistir. Mesmo assim, ele prossegue. E vem uma campanha dessa e larga a palavra de ordem, quase uma bronca: se você é brasileiro, não desista, nunca. Disso ele já sabe...

Nas entrelinhas: não desista, apesar de seus governantes. Não desista, apesar da corrupção que suga o dinheiro público. Não desista, apesar dos inúmeros recursos que a justiça permite aos "peixões", ao contrário do preto-pobre-miserável-ladrão-tem-mais-é-que-morrer. Não desista, apesar de viver em condições sub-humanas, apesar de seu trabalho escravo, de seu salário-mínimo, de sua absoluta falta de opções para sobreviver a não ser resignar-se em ser explorado.

Uma campanha para levantar a auto-estima do brasileiro? Não da maioria. Da minoria, talvez? Então é um mimo, no final das contas. Um mimo para quem já tem o que precisa, é isso. Que ainda consome bastante, e esse não pode pensar em desistir, em deixar de gastar seu dinheiro em muita coisa vã. Afinal, é uma campanha da Associação Brasileira de Anunciantes!

É uma pena (mais uma!!!) que o presidente que mais conhece a realidade popular tenha protagonizado essa ofensa em cadeia nacional.