Poucos pequenos pitacos
- A frase da semana: “Peixe morre pelo Boca”.
- Já disse nesse blog que Gisele Bündchen foi uma de minhas musas – até eu descobrir um novo conceito de musa (em 06/04/2003, tá no Túnel do Tempo aí do lado). Contudo, a “cabeça-de-vento com classe” parece estar mudando. Hoje ela disse, diante de uma tiete-repórter, que não tem nada a ver esse negócio dela ser considerada a mulher mais bonita do mundo, que se dá valor demais à aparência, que a badalação em torno dela é exagerada. Ok, em matéria de conteúdo não chega aos pés de Paloma Duarte, mas já melhorou. A prova: Gisele Bündchen esnobou convite de Xuxa pra aparecer em seu programa. Cara, qualquer pessoa que esnobe a Xuxa em público cresce no conceito comigo. Será que Gisele está lendo o Lessog?
- Demorou mas finalmente uma polêmica social nas “Mulheres Apaixonadas”: a personagem Fernanda vai morrer de bala perdida nas ruas do paradisíaco Leblon. A gritaria das empresas de turismo e da rede de hotéis gerou matéria no Globo. Por carta, chegaram a pedir a D. Manoel Carlos que, já que é pra matar a coadjuvante, mata envenenada (sério!). Mas que não piorasse a imagem do Rio. O príncipe-regente da Zona Sul não deu muita bola, reivindicando seu direito de fazer a “denúncia social” como bem entender. Se fosse alguma autoridade reclamando (governador, secretário de turismo etc), tudo bem: são responsáveis para que bala perdida não aconteça e, nesse caso, censurar a novela é tapar o sol com a peneira e tirar da reta. Mas a indústria do turismo vive da imagem e da fama da cidade, em qualquer lugar do mundo. Acho que ELES têm o direito de reclamar. De qualquer forma, daqui a pouco a Susana “Galvão Bueno” Vieira faz um discursinho justificando o beicinho do principezinho...
sábado, 5 de julho de 2003
sábado, 28 de junho de 2003
Varre, vassourinha...
Imagine que você tire uma semana de férias. Ao voltar pra casa, as ruas da cidade e a calçada de sua casa sumiram! Você nao consegue enxerga-las, e para pisar ao chao é preciso coragem e uma greve ao nojo. O lixo cobre cada centimetro do asfalto. Ao se informar, você descobre que os garis fizeram greve exatamente nessa semana que você viajou.
Nao sei quanto a você, mas so ha pouco tempo percebi a importância dos garis para o bem-estar da nossa sociedade. Sao eles que recolhem tudo o que nao queremos mais, limpam diariamente as ruas, convivendo com o mau cheiro caracteristico dos dejetos. Nao fossem eles, seria possivel agüentar a situaçao descrita no primeiro paragrafo?
Além disso tudo, os garis s?o os profissionais mais democraticos e sem preconceito que existem: recolhem o lixo dos bem-educados (que comportam tudo em sacos plasticos à beira da rua) e dos mal-educados (que tratam o espaço publico pior, bem pior que a sua casa. Talvez sabendo que os garis ali estar?o para fazer o trabalho sujo).
A maior das injustiças foi flagrada nessa semana, na cobertura ou nos comentarios sobre as inscriçoes para o emprego de gari no Rio de Janeiro. A tônica das reportagens era abordar o problema do desemprego no pais. Para uma vaga em que o 1o. grau completo bastava, encontrava-se nas filas (imensas!) varios candidatos com ensino superior completo, que nao tinham conseguido emprego em suas areas.
Onde esta a injustiça? O fato das matérias serem pagina inteira, estarem no jornal local ou no nacional refletem um pouco do preconceito em relaçao à profissao que nao tem preconceitos. O choque, respaldado pela entonaçao dos locutores ou pelos depoimentos coletados, nao era por aquela massa de gente estar desempregada. Mas pela massa querer um emprego... de gari?????
Era nitida a reaçao de cada pessoa – de nojo, de nervoso, de preconceito mesmo – em nao aceitar que as pessoas procurassem um emprego “como aquele”. Por quê? Por mexer com lixo? Isso so da mais dignidade à profissao, que coragem a dos garis!
Mas o preconceito trata de querer intimidar os garis. Quem aqui fala, com o mesmo desprendimento, que procura emprego de lixeiro ou que tem um parente nessa profissao? Sempre nos sentimos constrangidos a tal. Ora, que me perdoem os frescos de plantao, mas os garis sao profissionais dos mais essenciais para o bom andamento desse mundo. Alguém discorda?
Portanto, ao avistar um gari na rua, dê um sorriso como se estivesse dizendo: “precisamos de você, soldado. Nao deserte!”. Ele merece o nosso reconhecimento. E façamos a nossa parte no maior exemplo do “façamos a nossa parte”: nao jogue lixo no chao...
Imagine que você tire uma semana de férias. Ao voltar pra casa, as ruas da cidade e a calçada de sua casa sumiram! Você nao consegue enxerga-las, e para pisar ao chao é preciso coragem e uma greve ao nojo. O lixo cobre cada centimetro do asfalto. Ao se informar, você descobre que os garis fizeram greve exatamente nessa semana que você viajou.
Nao sei quanto a você, mas so ha pouco tempo percebi a importância dos garis para o bem-estar da nossa sociedade. Sao eles que recolhem tudo o que nao queremos mais, limpam diariamente as ruas, convivendo com o mau cheiro caracteristico dos dejetos. Nao fossem eles, seria possivel agüentar a situaçao descrita no primeiro paragrafo?
Além disso tudo, os garis s?o os profissionais mais democraticos e sem preconceito que existem: recolhem o lixo dos bem-educados (que comportam tudo em sacos plasticos à beira da rua) e dos mal-educados (que tratam o espaço publico pior, bem pior que a sua casa. Talvez sabendo que os garis ali estar?o para fazer o trabalho sujo).
A maior das injustiças foi flagrada nessa semana, na cobertura ou nos comentarios sobre as inscriçoes para o emprego de gari no Rio de Janeiro. A tônica das reportagens era abordar o problema do desemprego no pais. Para uma vaga em que o 1o. grau completo bastava, encontrava-se nas filas (imensas!) varios candidatos com ensino superior completo, que nao tinham conseguido emprego em suas areas.
Onde esta a injustiça? O fato das matérias serem pagina inteira, estarem no jornal local ou no nacional refletem um pouco do preconceito em relaçao à profissao que nao tem preconceitos. O choque, respaldado pela entonaçao dos locutores ou pelos depoimentos coletados, nao era por aquela massa de gente estar desempregada. Mas pela massa querer um emprego... de gari?????
Era nitida a reaçao de cada pessoa – de nojo, de nervoso, de preconceito mesmo – em nao aceitar que as pessoas procurassem um emprego “como aquele”. Por quê? Por mexer com lixo? Isso so da mais dignidade à profissao, que coragem a dos garis!
Mas o preconceito trata de querer intimidar os garis. Quem aqui fala, com o mesmo desprendimento, que procura emprego de lixeiro ou que tem um parente nessa profissao? Sempre nos sentimos constrangidos a tal. Ora, que me perdoem os frescos de plantao, mas os garis sao profissionais dos mais essenciais para o bom andamento desse mundo. Alguém discorda?
Portanto, ao avistar um gari na rua, dê um sorriso como se estivesse dizendo: “precisamos de você, soldado. Nao deserte!”. Ele merece o nosso reconhecimento. E façamos a nossa parte no maior exemplo do “façamos a nossa parte”: nao jogue lixo no chao...
domingo, 22 de junho de 2003
Cosangüinidade
Minha irmã, em suas recém-completadas 17 primaveras, escreveu um texto que achei demais. Transcrevo aqui, pois vale e muito:
Sonhos...... Difícil!!!
Pra ser ter sonhos, tem q ser ter fé! Fé de que um dia eles poderão se realizar... Pra se ter fé, tem que ter paciência, pra esperar o tempo certo; e esperança, pra não desanimar e sempre esperar q eles aconteçam!!
Sabe o q é mais difícil nisso tudo? Ter convicção de um sonho e ele não ser realizado. Aceitar o fato de que às vezes não é esse sonho q deveria ter sonhado! Ou até que ele pode vir a se realizar no futuro, mas não do jeito que você imaginava, esperava, desejava, almejava... sonhava!
Aceitar isso é muito sinistro! Eu acho que estou indo por um caminho aonde vou, a cada dia, encontrando a paciência para esperar o tempo de Deus e a esperança para crer que um dia ele irá se realizar (graças a Deus). O sinistro é que, no momento, não estou impaciente ou desacreditada, pelo contrário, estou inconformada... Engraçado que, ao mesmo tempo em que estou inconformada, estou conformada... Vamos começar pelo mais fácil (eu acho):
conformada é prova de que estou no caminho da paciência e da esperança. Se não deu certo agora, com certeza Deus tem algo melhor pra mim, no tempo dEle, que é o melhor!!!
Inconformada pelo fato de... sei lá! Tudo aconteceu de uma forma, não aleatória, mas com tanta certeza de cada passo que foi dado e, do nada, não é mais da vontade de Deus!
Eu sei que não deveria estar pensando nisso, mas tem dias que é inevitável... Na maioria dos meus dias eu estou conformada, que bom! Mas tem vezes que...
Quem disse q sonhar não custa nada, não sonhava... Alguns sonhos custam, e muito... Mas quando eles se realizam, acho que vale a pena tudo que foi “pago” por ele, né? Isso que eu chamo de provação! Aceitar a não-realização de um sonho, o qual você tinha convicção, tendo FÉ de que dias melhores virão, e com eles, sonhos melhores virão, e com eles realizações melhores virão, e com eles lições melhores virão, e com eles amadurecimento virá!
Duro ter q passar por isso sem poder ouvir uma palavra de consolo, porque eu já sei tudo que eu poderia ouvir... Mas é bom saber que tem alguém lendo isso... Às vezes um desabafo pra mim, é um consolo pra quem lê... quem sabe?! - Raquel Lessa
Minha irmã, em suas recém-completadas 17 primaveras, escreveu um texto que achei demais. Transcrevo aqui, pois vale e muito:
Sonhos...... Difícil!!!
Pra ser ter sonhos, tem q ser ter fé! Fé de que um dia eles poderão se realizar... Pra se ter fé, tem que ter paciência, pra esperar o tempo certo; e esperança, pra não desanimar e sempre esperar q eles aconteçam!!
Sabe o q é mais difícil nisso tudo? Ter convicção de um sonho e ele não ser realizado. Aceitar o fato de que às vezes não é esse sonho q deveria ter sonhado! Ou até que ele pode vir a se realizar no futuro, mas não do jeito que você imaginava, esperava, desejava, almejava... sonhava!
Aceitar isso é muito sinistro! Eu acho que estou indo por um caminho aonde vou, a cada dia, encontrando a paciência para esperar o tempo de Deus e a esperança para crer que um dia ele irá se realizar (graças a Deus). O sinistro é que, no momento, não estou impaciente ou desacreditada, pelo contrário, estou inconformada... Engraçado que, ao mesmo tempo em que estou inconformada, estou conformada... Vamos começar pelo mais fácil (eu acho):
conformada é prova de que estou no caminho da paciência e da esperança. Se não deu certo agora, com certeza Deus tem algo melhor pra mim, no tempo dEle, que é o melhor!!!
Inconformada pelo fato de... sei lá! Tudo aconteceu de uma forma, não aleatória, mas com tanta certeza de cada passo que foi dado e, do nada, não é mais da vontade de Deus!
Eu sei que não deveria estar pensando nisso, mas tem dias que é inevitável... Na maioria dos meus dias eu estou conformada, que bom! Mas tem vezes que...
Quem disse q sonhar não custa nada, não sonhava... Alguns sonhos custam, e muito... Mas quando eles se realizam, acho que vale a pena tudo que foi “pago” por ele, né? Isso que eu chamo de provação! Aceitar a não-realização de um sonho, o qual você tinha convicção, tendo FÉ de que dias melhores virão, e com eles, sonhos melhores virão, e com eles realizações melhores virão, e com eles lições melhores virão, e com eles amadurecimento virá!
Duro ter q passar por isso sem poder ouvir uma palavra de consolo, porque eu já sei tudo que eu poderia ouvir... Mas é bom saber que tem alguém lendo isso... Às vezes um desabafo pra mim, é um consolo pra quem lê... quem sabe?! - Raquel Lessa
terça-feira, 17 de junho de 2003
Dom Manoel Carlos, Príncipe-Regente da Zona Sul
A emancipação da Zona Sul enfim chegou. Se não deu à força ou por vias democráticas, aconteceu via novela das oito. O Governo do Estado anunciou o programa Tolerância Zero, que vai resolver prioritários problemas da Zona Sul: recolher mendigos e menores e enxotar os camelôs.
A presidente da Associação de Moradores de Copacabana, Myrian de Pinho, comemorou. Afinal, mais um passo foi dado na restauração da Zona Sul como o Rio essencialmente cartão postal, sem realidade de desigualdade social para ofuscar a vista grossa.
De todo modo, a honra ao mérito deve ser apontada. Uma vez que a TV parece ser a única forma de mobilizar os cidadãos (?) para causas sociais, as Mulheres Apaixonadas deram conta do recado. Manoel Carlos, convocado às pressas por seus súditos do Leblon e adjacências, mostrou-se mestre de uma original arte: as mensagens subliminares escancaradas, sem sutileza.
Senão, vejamos: não são poucas as cenas em que um grupo de personagens está reunido (à mesa, à beira da piscina, nas festas), com uma pseudo-bossa nova ao fundo, debatendo assuntos tão relevantes a ponto de não me lembrar de nenhum agora. De súbito, vem à baila a “terrível onda de violência do Rio de Janeiro”, com cada personagem relatando casos e mais casos que aconteceram com algum conhecido, ou que leram no jornal, todos dignos de Linha Direta. Outros encampam discursos moralistas quase-indignados – geralmente Susana Vieira, o Galvão Bueno da teledramaturgia brasileira.
Após o registro público do incômodo privado, os mesmos personagens voltam a suas mesas fartas, carros importados, coquetéis e banquetes de dar inveja e raiva a quem deles nunca pode participar. Para a Zona Sul da novela, exclusão social nada tem a ver com violência urbana. Portanto... Tolerância Zero com os que teimam em ocupar as ruas do feudo carioca!
Feito o escancaramento do que antes era discreto, D. Manoel sorri satisfeito, sendo chamado de gênio e “apaixonando o Brasil”(As mulheres também devem estar satisfeitas com a novela em que marido bate na esposa, homem é amante da patroa e da empregada, um casal de belas lésbicas germina expectativas e uma mulher nega-se e faz de tudo para que o amado demais não fique longe demais. Os homens nem passam perto da TV, acredito).
O Príncipe-Regente prossegue em sua missão de emancipar aquela área do Rio, para que sua harmonia elitizada não sofra maiores dissabores. Abusando do plim-plim, D. Manoel, de forma redundante como sempre, se apropria do hábito de todo brasileiro (assistir à novela das oito) para reforçar o hábito de uns poucos por cento do país: tirar a gentalha do raio da orla. É isso que importa. O resto é o resto. E a Zona Sul apaixonada não tem nada a ver com isso.
A emancipação da Zona Sul enfim chegou. Se não deu à força ou por vias democráticas, aconteceu via novela das oito. O Governo do Estado anunciou o programa Tolerância Zero, que vai resolver prioritários problemas da Zona Sul: recolher mendigos e menores e enxotar os camelôs.
A presidente da Associação de Moradores de Copacabana, Myrian de Pinho, comemorou. Afinal, mais um passo foi dado na restauração da Zona Sul como o Rio essencialmente cartão postal, sem realidade de desigualdade social para ofuscar a vista grossa.
De todo modo, a honra ao mérito deve ser apontada. Uma vez que a TV parece ser a única forma de mobilizar os cidadãos (?) para causas sociais, as Mulheres Apaixonadas deram conta do recado. Manoel Carlos, convocado às pressas por seus súditos do Leblon e adjacências, mostrou-se mestre de uma original arte: as mensagens subliminares escancaradas, sem sutileza.
Senão, vejamos: não são poucas as cenas em que um grupo de personagens está reunido (à mesa, à beira da piscina, nas festas), com uma pseudo-bossa nova ao fundo, debatendo assuntos tão relevantes a ponto de não me lembrar de nenhum agora. De súbito, vem à baila a “terrível onda de violência do Rio de Janeiro”, com cada personagem relatando casos e mais casos que aconteceram com algum conhecido, ou que leram no jornal, todos dignos de Linha Direta. Outros encampam discursos moralistas quase-indignados – geralmente Susana Vieira, o Galvão Bueno da teledramaturgia brasileira.
Após o registro público do incômodo privado, os mesmos personagens voltam a suas mesas fartas, carros importados, coquetéis e banquetes de dar inveja e raiva a quem deles nunca pode participar. Para a Zona Sul da novela, exclusão social nada tem a ver com violência urbana. Portanto... Tolerância Zero com os que teimam em ocupar as ruas do feudo carioca!
Feito o escancaramento do que antes era discreto, D. Manoel sorri satisfeito, sendo chamado de gênio e “apaixonando o Brasil”(As mulheres também devem estar satisfeitas com a novela em que marido bate na esposa, homem é amante da patroa e da empregada, um casal de belas lésbicas germina expectativas e uma mulher nega-se e faz de tudo para que o amado demais não fique longe demais. Os homens nem passam perto da TV, acredito).
O Príncipe-Regente prossegue em sua missão de emancipar aquela área do Rio, para que sua harmonia elitizada não sofra maiores dissabores. Abusando do plim-plim, D. Manoel, de forma redundante como sempre, se apropria do hábito de todo brasileiro (assistir à novela das oito) para reforçar o hábito de uns poucos por cento do país: tirar a gentalha do raio da orla. É isso que importa. O resto é o resto. E a Zona Sul apaixonada não tem nada a ver com isso.
quinta-feira, 12 de junho de 2003
Nostalgiazinha...
Esse é da época em que eu fazia poemas... VELHOS tempos! Porém bons.
Entendimentos – 30/11/98
O que leva as pessoas
A desprezarem o amor?
Como podem
Numa inversão de prioridades,
Cuspir num sentimento
Que compete com a perfeição
E produz carinho e afeição
A todos em redor?
Como podem,
Num brusco momento,
Pegar o amor pela gola da camisa
Jogá-lo na poça de lama
Pisar em sua nuca
Quase afogando-o
Naquele centímetro de espessura
De um lodo nada afetivo?
E pôr em seu lugar
Sentimentos reprovados
Na alfabetização da vida
Sentimentos que nada produzem de bom
Apenas uma boa quantidade
De amargura e azedice
E matérias-primas
Para uma tinta chorosa
E o amor fica lá, sujo
E quem o levanta e insiste
Na sua recuperação absoluta
É absolutamente ferido
Açoitado por uma realidade imposta
Nem aí por ser questionada
Mas que segue empurrando o amor
Ladeira abaixo
O egoísmo, em sua solitária assistência
A vingança, um acerto de contas
A dever sempre
E a cobrar de quem tem ficha limpa
Amor, declare-se vencedor!
A vantagem é sua, não percebe?
Eu percebo
Claramente
Tais sentimentos chafurdam para seu sujo fim
Possuem colaboradores e situações idem
Mas o amor jamais acaba
Mesmo com todos contra ele
(Quase todos)
Ele segue sempre sabendo-se são
O desprezo do amor
É pisar conscientemente em brasa viva.
Esse é da época em que eu fazia poemas... VELHOS tempos! Porém bons.
Entendimentos – 30/11/98
O que leva as pessoas
A desprezarem o amor?
Como podem
Numa inversão de prioridades,
Cuspir num sentimento
Que compete com a perfeição
E produz carinho e afeição
A todos em redor?
Como podem,
Num brusco momento,
Pegar o amor pela gola da camisa
Jogá-lo na poça de lama
Pisar em sua nuca
Quase afogando-o
Naquele centímetro de espessura
De um lodo nada afetivo?
E pôr em seu lugar
Sentimentos reprovados
Na alfabetização da vida
Sentimentos que nada produzem de bom
Apenas uma boa quantidade
De amargura e azedice
E matérias-primas
Para uma tinta chorosa
E o amor fica lá, sujo
E quem o levanta e insiste
Na sua recuperação absoluta
É absolutamente ferido
Açoitado por uma realidade imposta
Nem aí por ser questionada
Mas que segue empurrando o amor
Ladeira abaixo
O egoísmo, em sua solitária assistência
A vingança, um acerto de contas
A dever sempre
E a cobrar de quem tem ficha limpa
Amor, declare-se vencedor!
A vantagem é sua, não percebe?
Eu percebo
Claramente
Tais sentimentos chafurdam para seu sujo fim
Possuem colaboradores e situações idem
Mas o amor jamais acaba
Mesmo com todos contra ele
(Quase todos)
Ele segue sempre sabendo-se são
O desprezo do amor
É pisar conscientemente em brasa viva.
domingo, 8 de junho de 2003
Pra você, que mistérios tem Clarice?
O processo de amadurecimento é um dos mais fascinantes na raça humana. Perceber esse processo em nós é uma experiência enriquecedora, pela qual eu espero sempre passar. Nesse fim de semana lembrei de um precioso texto de Clarice Lispector, ao achar em casa uma agenda de 1999 (onde anotei o texto):
"Quando eu aprendi a ler e a escrever eu DEVORAVA os livros! Eu pensava, olha que coisa! Eu pensava que livro é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas descobri que era um autor. Aí disse: 'Eu também quero'".
Lembro que nesse ano eu começava a levar mais a sério esse negócio de escrever, as crônicas nasciam a torto e a direito... E vem uma das maiores escritoras brasileiras e me diz, humildemente, como foi que ela resolveu ser autora. Foi a minha vez de dizer: eu também quero!!!
E o que tudo isso tem a ver com amadurecimento? O lance é que eu DETESTAVA ler Clarice Lispector. Suas epifanias e profundidades psicológicas enchiam o saco... Meu sentimento era o de não chegar perto de nenhum livro dela. Mas o detalhe é que eu li Clarice pela primeira vez aos 15 anos... Antes mesmo de Machado de Assis, com seu "Dom Casmurro", me despertar de vez pra literatura. Hoje, ler Clarice Lispector é um renovo pra mim. Todas as características de sua literatura que antes eu tanto desprezava agora me completam, me entendem e eu as entendo também.
Gosto não necessariamente muda à medida que amadurecemos. Mas em certos casos, é só o que explica. Eu prefiro fazer como o velho Raul, preferindo ser uma metamorfose sincera do que ter aquela velha opinião formada e soberbamente orgulhosa de continuar na mesma. Quando penso que poderia me encontrar hoje sem aproveitar as delícias que Clarice Lispector me oferece...
De fato, o bom mesmo é reconhecer seu amadurecimento. Olhar pra trás e perceber o que rolou pra que hoje você seja desse jeito, goste dessas coisas, se relacione com essas pessoas. Perceber que nada foi em vão, nem mesmo o que na época tenhamos pensado que fosse em vão. O vão abriu espaço, então tá tranqüilo. Enfim, algo que encontra até mesmo respaldo bíblico, em palavras de Jesus aos discípulos: "o que eu faço, não compreendes agora. Compreendê-lo-ás depois." Em certos casos, ainda bem.
O processo de amadurecimento é um dos mais fascinantes na raça humana. Perceber esse processo em nós é uma experiência enriquecedora, pela qual eu espero sempre passar. Nesse fim de semana lembrei de um precioso texto de Clarice Lispector, ao achar em casa uma agenda de 1999 (onde anotei o texto):
"Quando eu aprendi a ler e a escrever eu DEVORAVA os livros! Eu pensava, olha que coisa! Eu pensava que livro é como árvore, é como bicho: coisa que nasce! Não descobria que era um autor! Lá pelas tantas descobri que era um autor. Aí disse: 'Eu também quero'".
Lembro que nesse ano eu começava a levar mais a sério esse negócio de escrever, as crônicas nasciam a torto e a direito... E vem uma das maiores escritoras brasileiras e me diz, humildemente, como foi que ela resolveu ser autora. Foi a minha vez de dizer: eu também quero!!!
E o que tudo isso tem a ver com amadurecimento? O lance é que eu DETESTAVA ler Clarice Lispector. Suas epifanias e profundidades psicológicas enchiam o saco... Meu sentimento era o de não chegar perto de nenhum livro dela. Mas o detalhe é que eu li Clarice pela primeira vez aos 15 anos... Antes mesmo de Machado de Assis, com seu "Dom Casmurro", me despertar de vez pra literatura. Hoje, ler Clarice Lispector é um renovo pra mim. Todas as características de sua literatura que antes eu tanto desprezava agora me completam, me entendem e eu as entendo também.
Gosto não necessariamente muda à medida que amadurecemos. Mas em certos casos, é só o que explica. Eu prefiro fazer como o velho Raul, preferindo ser uma metamorfose sincera do que ter aquela velha opinião formada e soberbamente orgulhosa de continuar na mesma. Quando penso que poderia me encontrar hoje sem aproveitar as delícias que Clarice Lispector me oferece...
De fato, o bom mesmo é reconhecer seu amadurecimento. Olhar pra trás e perceber o que rolou pra que hoje você seja desse jeito, goste dessas coisas, se relacione com essas pessoas. Perceber que nada foi em vão, nem mesmo o que na época tenhamos pensado que fosse em vão. O vão abriu espaço, então tá tranqüilo. Enfim, algo que encontra até mesmo respaldo bíblico, em palavras de Jesus aos discípulos: "o que eu faço, não compreendes agora. Compreendê-lo-ás depois." Em certos casos, ainda bem.
quinta-feira, 29 de maio de 2003
Outra morte, outro desperdício jornalístico
Morreu Almir Chediak, o autor daqueles songbooks maravilhosos da MPB. Foi ele quem facilitou bastante aos músicos (principiantes ou profissionais) o acesso às obras-primas da nossa cultura em todas as suas cifras e partituras. Uma perda lastimável de um produtor cultural que possivelmente iria acalentar novas gerações de artistas musicais com seu melhor produto.
Os assassinos de Almir confessaram o crime. O plano era assaltar a casa do produtor, roubar o carro e matá-lo, junto com sua namorada (que escapou). Afinal, ambos reconheceram o autor dos disparos, que era o velho caseiro do sítio de Almir.
Eis que o Jornal Nacional noticia a o crime e o funeral de Almir Chediak e, claro, ouve depoimentos de artistas presentes ao enterro. Francis Hime diz: “É uma grande perda para a nossa música. E a pessoa morrer assim... Onde vamos parar?”. João Bosco: “É um absurdo. Como duas pessoas podem matar outra, assim, com essa facilidade? Alguma coisa tem que ser feita”. Lembrando que era uma matéria editada.
Editada e direcionada por completo. Era pra noticiar a morte do produtor cultural carioca e de repente, não mais que de repente, vira um novo parâmetro-protesto classificando o Rio como o mundo maravilhoso da violência, a cidade-pária de nossas mazelas urbanas. Cidade calamitosa, reverberando o Casseta e Planeta.
Aos navegantes de primeiro artigo, esclareço (outra vez) que não sou um insensível que acha que tudo o que falam do Rio é “exagero”. Mas não posso compactuar com uma imprensa que, se já não bastasse ser sensacionalista, também é oportunista. Em vez de respeitar o luto da família e amigos de Chediak e simplesmente noticiar o que aconteceu (que por si só já choca a todos), acaba “aproveitando o ensejo” pra incitar a cultura do medo no carioca e no resto do Brasil em relação ao Rio. E usando das falas de artistas para legitimar essa postura. Sendo que eles eram os menos isentos para isso, uma vez que estavam emocionalmente envolvidos com a questão e eram artistas, não especialistas da área de segurança.
Não é meu intuito banalizar a violência, mas esse tipo de crime só acontece no Rio? Só acontece no Brasil? Acho que não. Também não acredito na imprensa “imparcial, neutra e objetiva” que “apenas noticie” sem qualquer interferência ou partidarismo. Mas e o bom senso, e o respeito à inteligência dos espectadores? Será que João Bosco e Francis Hime opinaram apenas sobre a violência na nossa cidade, justo na morte de um importante personagem da cena cultural brasileira? Quem não enxerga a Globo “forçando a barra” pra ligar o crime isolado ao clima de medo que já vem impondo faz tempo? E não só a Globo, claro.
Uma cidade superpopulosa, com contrastes sociais gritantes dos quais a violência é um de seus frutos. Essa é a descrição de qualquer uma das grandes capitais brasileiras. Por que o Rio tem que ser o “penico violento” do Brasil? E pior, pior: por que espalhar a cultura do medo?
Repito, “tripito”, “quadripito”: os fatos violentos falam por si só. Não é necessário exagerar, nem forçar a barra. Desculpem estar voltando ao tema, mas o sensacionalismo não descansa, por que eu vou descansar?
Morreu Almir Chediak, o autor daqueles songbooks maravilhosos da MPB. Foi ele quem facilitou bastante aos músicos (principiantes ou profissionais) o acesso às obras-primas da nossa cultura em todas as suas cifras e partituras. Uma perda lastimável de um produtor cultural que possivelmente iria acalentar novas gerações de artistas musicais com seu melhor produto.
Os assassinos de Almir confessaram o crime. O plano era assaltar a casa do produtor, roubar o carro e matá-lo, junto com sua namorada (que escapou). Afinal, ambos reconheceram o autor dos disparos, que era o velho caseiro do sítio de Almir.
Eis que o Jornal Nacional noticia a o crime e o funeral de Almir Chediak e, claro, ouve depoimentos de artistas presentes ao enterro. Francis Hime diz: “É uma grande perda para a nossa música. E a pessoa morrer assim... Onde vamos parar?”. João Bosco: “É um absurdo. Como duas pessoas podem matar outra, assim, com essa facilidade? Alguma coisa tem que ser feita”. Lembrando que era uma matéria editada.
Editada e direcionada por completo. Era pra noticiar a morte do produtor cultural carioca e de repente, não mais que de repente, vira um novo parâmetro-protesto classificando o Rio como o mundo maravilhoso da violência, a cidade-pária de nossas mazelas urbanas. Cidade calamitosa, reverberando o Casseta e Planeta.
Aos navegantes de primeiro artigo, esclareço (outra vez) que não sou um insensível que acha que tudo o que falam do Rio é “exagero”. Mas não posso compactuar com uma imprensa que, se já não bastasse ser sensacionalista, também é oportunista. Em vez de respeitar o luto da família e amigos de Chediak e simplesmente noticiar o que aconteceu (que por si só já choca a todos), acaba “aproveitando o ensejo” pra incitar a cultura do medo no carioca e no resto do Brasil em relação ao Rio. E usando das falas de artistas para legitimar essa postura. Sendo que eles eram os menos isentos para isso, uma vez que estavam emocionalmente envolvidos com a questão e eram artistas, não especialistas da área de segurança.
Não é meu intuito banalizar a violência, mas esse tipo de crime só acontece no Rio? Só acontece no Brasil? Acho que não. Também não acredito na imprensa “imparcial, neutra e objetiva” que “apenas noticie” sem qualquer interferência ou partidarismo. Mas e o bom senso, e o respeito à inteligência dos espectadores? Será que João Bosco e Francis Hime opinaram apenas sobre a violência na nossa cidade, justo na morte de um importante personagem da cena cultural brasileira? Quem não enxerga a Globo “forçando a barra” pra ligar o crime isolado ao clima de medo que já vem impondo faz tempo? E não só a Globo, claro.
Uma cidade superpopulosa, com contrastes sociais gritantes dos quais a violência é um de seus frutos. Essa é a descrição de qualquer uma das grandes capitais brasileiras. Por que o Rio tem que ser o “penico violento” do Brasil? E pior, pior: por que espalhar a cultura do medo?
Repito, “tripito”, “quadripito”: os fatos violentos falam por si só. Não é necessário exagerar, nem forçar a barra. Desculpem estar voltando ao tema, mas o sensacionalismo não descansa, por que eu vou descansar?
quinta-feira, 22 de maio de 2003
O cerejão
Frases minhas – semana passada: “eu vou”. Hoje: “eu fui”. Não é Rock in Rio, é a clássica Bienal do Livro 2003. Minha angústia de não poder visitá-la em um fim de semana inteiro (como era meu objetivo) foi suprida por uma ida na quarta-feira mesmo, depois do trabalho. Preparei-me: levei uma roupa mais leve e um tênis pra lá me trocar e aproveitar a feirona do livro mais à vontade.
Assim que cheguei, pensei em dar uma olhada na superlotada Arena Jovem. Desisti. O tema era TV e realidade, com Pedro Bial. Blergh! Guardei os volumes no guarda-volumes e comecei a jornada pelas editoras universitárias. De cara, 2 livros em menos de 10 minutos! Cheguei a me assustar com o que parecia ser um comportamento de comprador compulsivo...
A seguir, o Café Literário, no qual pude apreciar Armando Nogueira palestrando sobre Otto Lara Resende, no tema “Amigos para sempre”. Ótimas histórias, ótimos escritores. Mas um destaque necessário vai para a menina que distribuía as senhas. Ela era linda, linda... Vale a pena ir ao outro lado da face da Terra – o Riocentro – para encontrá-la. Cheguei a inventar uma nova dúvida só pra poder olhar para seu rosto outra vez e ouvir suas belas informações, com muito mais atenção na forma que no conteúdo. Atrasar-me-ei na próxima vez, para ser obrigado a assistir a palestra na TV – que fica ao lado dela...
Mas o meu destaque principal vai mesmo para o stand do Ministério da Educação, que cada vez mais tem a cara do Cristovam Buarque, meu novo super-herói. Como não podia deixar de ser, o tema principal era a campanha para erradicar o analfabetismo em 4 anos (sem pensar em reeleição), capitaneado por um obcecado pela educação de um povo necessitando disso, às vezes sem saber.
Ao lado do stand, uma câmara escura decorada por fora com cartas estilizadas em tamanho gigante. O conteúdo delas era o mesmo: pessoas recém-alfabetizadas escreviam seu primeiro texto na vida, e diziam isso ao destinatário. Comovente, mas há mais. Ao adentrar a câmara escura, um breu e uma narração em voz firme anunciando que, por cinco minutos, viveríamos como 20 milhões de brasileiros. Somos então “levados” a sair de nossa casa, ir até o centro da cidade, procurar emprego e fazer as coisas mais simples do cotidiano, com luzes iluminando fotos de cada ação do tipo. Com a diferença de que todas as indicações (placas, classificados, marcas em geral) estarem escritas ao contrário e adulteradas, impedindo sua leitura. Ao final, somos convidados a deixar nossa assinatura – que não seria outra senão uma impressão digital.
Por cinco minutos fomos levados a perceber que 20 milhões de analfabetos não podem fazer sozinhos coisas simples da vida, como pegar um ônibus ou comprar um remédio. São muito dependentes e, conseqüentemente, explorados. De uma forma ou de outra, humilhados. Ao final recebemos cartilhas e folders sobre o plano para erradicar o analfabetismo no Brasil. Plano que não é apenas para um Governo se virar, tomar os louros pra si e créditos pra eleição. Mas que convoca cada brasileiro leitor, fazendo despertar sua sensibilidade para que a massa de iletrados excluídos possa ao menos ter chance de enxergar um sentido na dura vida que leva. Um sentimento de libertação é urgente para essas pessoas, e cada um de nós é responsável. Não há espaço para desculpas do tipo “nem sabia a que ponto estava”. Como diz o programa do Ministro, são 20 milhões que não sabem ler a própria bandeira (Que Ordem? Que Progresso?).
Por tudo isso, o stand foi o cerejão do bolo da Bienal. E fica a proposta: Cristovam Buarque Ministro da Educação vitalício!
Frases minhas – semana passada: “eu vou”. Hoje: “eu fui”. Não é Rock in Rio, é a clássica Bienal do Livro 2003. Minha angústia de não poder visitá-la em um fim de semana inteiro (como era meu objetivo) foi suprida por uma ida na quarta-feira mesmo, depois do trabalho. Preparei-me: levei uma roupa mais leve e um tênis pra lá me trocar e aproveitar a feirona do livro mais à vontade.
Assim que cheguei, pensei em dar uma olhada na superlotada Arena Jovem. Desisti. O tema era TV e realidade, com Pedro Bial. Blergh! Guardei os volumes no guarda-volumes e comecei a jornada pelas editoras universitárias. De cara, 2 livros em menos de 10 minutos! Cheguei a me assustar com o que parecia ser um comportamento de comprador compulsivo...
A seguir, o Café Literário, no qual pude apreciar Armando Nogueira palestrando sobre Otto Lara Resende, no tema “Amigos para sempre”. Ótimas histórias, ótimos escritores. Mas um destaque necessário vai para a menina que distribuía as senhas. Ela era linda, linda... Vale a pena ir ao outro lado da face da Terra – o Riocentro – para encontrá-la. Cheguei a inventar uma nova dúvida só pra poder olhar para seu rosto outra vez e ouvir suas belas informações, com muito mais atenção na forma que no conteúdo. Atrasar-me-ei na próxima vez, para ser obrigado a assistir a palestra na TV – que fica ao lado dela...
Mas o meu destaque principal vai mesmo para o stand do Ministério da Educação, que cada vez mais tem a cara do Cristovam Buarque, meu novo super-herói. Como não podia deixar de ser, o tema principal era a campanha para erradicar o analfabetismo em 4 anos (sem pensar em reeleição), capitaneado por um obcecado pela educação de um povo necessitando disso, às vezes sem saber.
Ao lado do stand, uma câmara escura decorada por fora com cartas estilizadas em tamanho gigante. O conteúdo delas era o mesmo: pessoas recém-alfabetizadas escreviam seu primeiro texto na vida, e diziam isso ao destinatário. Comovente, mas há mais. Ao adentrar a câmara escura, um breu e uma narração em voz firme anunciando que, por cinco minutos, viveríamos como 20 milhões de brasileiros. Somos então “levados” a sair de nossa casa, ir até o centro da cidade, procurar emprego e fazer as coisas mais simples do cotidiano, com luzes iluminando fotos de cada ação do tipo. Com a diferença de que todas as indicações (placas, classificados, marcas em geral) estarem escritas ao contrário e adulteradas, impedindo sua leitura. Ao final, somos convidados a deixar nossa assinatura – que não seria outra senão uma impressão digital.
Por cinco minutos fomos levados a perceber que 20 milhões de analfabetos não podem fazer sozinhos coisas simples da vida, como pegar um ônibus ou comprar um remédio. São muito dependentes e, conseqüentemente, explorados. De uma forma ou de outra, humilhados. Ao final recebemos cartilhas e folders sobre o plano para erradicar o analfabetismo no Brasil. Plano que não é apenas para um Governo se virar, tomar os louros pra si e créditos pra eleição. Mas que convoca cada brasileiro leitor, fazendo despertar sua sensibilidade para que a massa de iletrados excluídos possa ao menos ter chance de enxergar um sentido na dura vida que leva. Um sentimento de libertação é urgente para essas pessoas, e cada um de nós é responsável. Não há espaço para desculpas do tipo “nem sabia a que ponto estava”. Como diz o programa do Ministro, são 20 milhões que não sabem ler a própria bandeira (Que Ordem? Que Progresso?).
Por tudo isso, o stand foi o cerejão do bolo da Bienal. E fica a proposta: Cristovam Buarque Ministro da Educação vitalício!
sábado, 17 de maio de 2003
Procurando os tiros
Há filmes que não consigo explicar por que, mas afirmo com certeza que precisam ser vistos por cada habitante do planeta. Filmes que, não sei descrever exatamente como, mexem comigo e invocam – às vezes à força – nossa sensibilidade para que saiamos de nosso mundinho pessoal e percebamos que há uma realidade pulsando a nossa volta. E que estar esclarecido sobre essa realidade faz com que desejemos ser melhores seres humanos.
Tiros em Columbine é um filme assim. Para quem ainda não sabe ou não lembra, foi o documentário que ganhou o Oscar no qual o diretor, Michael Moore fez um ousado discurso contra Bush e os senhores da guerra americanos - sejam eles políticos, militares, artistas ou cidadãos.
O tema principal do filme é a mania de armas dos cidadãos norte-americanos, suas possíveis causas e terríveis conseqüências. Mas aborda a questão em diversos níveis, usando do humor. O melhor é ver pessoas cínicas admitindo seu cinismo diante das câmeras, admitindo o mal que fazem para a sociedade da qual são parte: o produtor do programa “Cops”, uma espécie de “Linha Direta” de muito sucesso nos EUA; Charlton Heston, presidente de honra da Associação Nacional do Rifle que discursa, um dia depois, nas cidades onde crianças e adolescentes mataram colegas e professores de escola. Defendendo as armas! E é encurralado por Michael Moore numa entrevista sensacional. Os políticos que promovem a cultura do medo através da mídia totalmente cooptada e sem o menor compromisso com o que noticiam. Um procedimento bem familiar aos cariocas e brasileiros que ouvem as notícias do Rio.
Não dá pra traduzir o que o filme proporciona. Eu vi há 2 horas e ainda não consigo colocar em palavras o impacto que ele causa. Talvez verbalmente, mas não na escrita. O que gostaria de deixar registrado aqui é a necessidade urgente de dizer aos leitores: vejam esse filme. Vejam, façam um grande favor à sensibilidade e à construção da personalidade de vocês, para que percebam no que podemos nos tornar, o quão responsáveis podemos ser pelos monstros que surgem aqui e acolá. O quão maléfico pode ser a preguiça de pensar. Ou o desprezo pelo papel de cada um como cidadão, eleitor, espectador crítico, leitor atento.
Tiros em Columbine não é apenas um filme. Desculpe o artigo aquém do esperado, mas é preciso que você vá ao cinema para eu poder me comunicar melhor.
Há filmes que não consigo explicar por que, mas afirmo com certeza que precisam ser vistos por cada habitante do planeta. Filmes que, não sei descrever exatamente como, mexem comigo e invocam – às vezes à força – nossa sensibilidade para que saiamos de nosso mundinho pessoal e percebamos que há uma realidade pulsando a nossa volta. E que estar esclarecido sobre essa realidade faz com que desejemos ser melhores seres humanos.
Tiros em Columbine é um filme assim. Para quem ainda não sabe ou não lembra, foi o documentário que ganhou o Oscar no qual o diretor, Michael Moore fez um ousado discurso contra Bush e os senhores da guerra americanos - sejam eles políticos, militares, artistas ou cidadãos.
O tema principal do filme é a mania de armas dos cidadãos norte-americanos, suas possíveis causas e terríveis conseqüências. Mas aborda a questão em diversos níveis, usando do humor. O melhor é ver pessoas cínicas admitindo seu cinismo diante das câmeras, admitindo o mal que fazem para a sociedade da qual são parte: o produtor do programa “Cops”, uma espécie de “Linha Direta” de muito sucesso nos EUA; Charlton Heston, presidente de honra da Associação Nacional do Rifle que discursa, um dia depois, nas cidades onde crianças e adolescentes mataram colegas e professores de escola. Defendendo as armas! E é encurralado por Michael Moore numa entrevista sensacional. Os políticos que promovem a cultura do medo através da mídia totalmente cooptada e sem o menor compromisso com o que noticiam. Um procedimento bem familiar aos cariocas e brasileiros que ouvem as notícias do Rio.
Não dá pra traduzir o que o filme proporciona. Eu vi há 2 horas e ainda não consigo colocar em palavras o impacto que ele causa. Talvez verbalmente, mas não na escrita. O que gostaria de deixar registrado aqui é a necessidade urgente de dizer aos leitores: vejam esse filme. Vejam, façam um grande favor à sensibilidade e à construção da personalidade de vocês, para que percebam no que podemos nos tornar, o quão responsáveis podemos ser pelos monstros que surgem aqui e acolá. O quão maléfico pode ser a preguiça de pensar. Ou o desprezo pelo papel de cada um como cidadão, eleitor, espectador crítico, leitor atento.
Tiros em Columbine não é apenas um filme. Desculpe o artigo aquém do esperado, mas é preciso que você vá ao cinema para eu poder me comunicar melhor.
quinta-feira, 15 de maio de 2003
A carapuça que nunca serve
Ok, vivemos no Rio, uma cidade cuja fama violenta propaga-se com velocidade crescente aqui e lá fora. Até aí nada de novo que a mídia não esteja proclamando repetidas vezes. Entretanto uma matéria me chamou a atenção na semana passada. Foi a primeira página do Globo em 09/05: Cultura do medo se espalha no Rio. Logo abaixo, a chamada: Escolas e universidade suspendem atividades; acidente banal gera pânico na Linha Vermelha.
Sim, a violência vem aumentando, fruto de uma desigualdade social cada vez maior e da força do tráfico. Sim, policiais corruptos impedem que a corrupção diminua. Sim, autoridades da área de segurança que se revezam ano após ano não conseguem sequer lidar com o problema. Mas a pergunta que me surgiu é: como uma cultura do medo se espalha?
Lembrei de uma conversa que tive há pouco com meu chefe. Comentava o fato de um amigo não sair de casa à noite com medo da violência. No que ele respondeu ao amigo: “do jeito que as coisas estão, se tomarmos essa atitude a gente não sai de casa pra nada, pra lugar nenhum, em hora nenhuma”. E me toquei que, não importa como esteja o Rio, preciso todos os dias sair de casa, trabalhar, ir pra faculdade e voltar pra casa.
Longe de mim ser frio e insensível dizer que precisamos fingir que a violência não existe no Rio, ou que não sou um “possível alvo”. Mas a paranóia... Como somos induzidos a encarar a questão da violência sempre em um nível maior do que já está? Essa chamada “cultura do medo” é algo a mais, um extra do qual não necessitamos que a imprensa nos forneça. Os fatos por si só já bastam, não é necessário exagerar o exagero.
Mas o sensacionalismo não se contenta com os fatos em si, mesmo quando procura (e acha) os mais terríveis. Precisa “aculturar” o público consumidor das notícias de maneira que o clima seja mantido, mesmo que, no momento, o que menos se precise é de adrenalina além da conta. (Curioso é que em Copa do Mundo e Carnaval nem bala perdida aparece... A violência “acaba” pelo tempo que convém.)
Até que ponto um alarde do tipo “acidente banal na Linha Vermelha” na primeira página pode colaborar para que uma histeria não nos domine? Por que o RJTV precisa colocar, enquanto o apresentador se dirige a nós, um logo vermelho escrito “A NOSSA GUERRA”, assim, em caixa alta e tudo? Até que ponto o vocábulo “guerra” aparecer fácil em conversa de boteco não prejudica a nossa apreensão dos fatos como eles são e a conscientização para que se saiba cobrar soluções para a situação do Rio?
Diante disso tudo, a matéria do Casseta e Planeta (de 1993!) sobre a “Cidade Calamitosa” continua atual e, abusando da ironia, corre o risco de nos fazer pensar melhor sobre a que ponto chegamos. E olha que o slogan deles é “humorismo verdade, jornalismo mentira”...
Ok, vivemos no Rio, uma cidade cuja fama violenta propaga-se com velocidade crescente aqui e lá fora. Até aí nada de novo que a mídia não esteja proclamando repetidas vezes. Entretanto uma matéria me chamou a atenção na semana passada. Foi a primeira página do Globo em 09/05: Cultura do medo se espalha no Rio. Logo abaixo, a chamada: Escolas e universidade suspendem atividades; acidente banal gera pânico na Linha Vermelha.
Sim, a violência vem aumentando, fruto de uma desigualdade social cada vez maior e da força do tráfico. Sim, policiais corruptos impedem que a corrupção diminua. Sim, autoridades da área de segurança que se revezam ano após ano não conseguem sequer lidar com o problema. Mas a pergunta que me surgiu é: como uma cultura do medo se espalha?
Lembrei de uma conversa que tive há pouco com meu chefe. Comentava o fato de um amigo não sair de casa à noite com medo da violência. No que ele respondeu ao amigo: “do jeito que as coisas estão, se tomarmos essa atitude a gente não sai de casa pra nada, pra lugar nenhum, em hora nenhuma”. E me toquei que, não importa como esteja o Rio, preciso todos os dias sair de casa, trabalhar, ir pra faculdade e voltar pra casa.
Longe de mim ser frio e insensível dizer que precisamos fingir que a violência não existe no Rio, ou que não sou um “possível alvo”. Mas a paranóia... Como somos induzidos a encarar a questão da violência sempre em um nível maior do que já está? Essa chamada “cultura do medo” é algo a mais, um extra do qual não necessitamos que a imprensa nos forneça. Os fatos por si só já bastam, não é necessário exagerar o exagero.
Mas o sensacionalismo não se contenta com os fatos em si, mesmo quando procura (e acha) os mais terríveis. Precisa “aculturar” o público consumidor das notícias de maneira que o clima seja mantido, mesmo que, no momento, o que menos se precise é de adrenalina além da conta. (Curioso é que em Copa do Mundo e Carnaval nem bala perdida aparece... A violência “acaba” pelo tempo que convém.)
Até que ponto um alarde do tipo “acidente banal na Linha Vermelha” na primeira página pode colaborar para que uma histeria não nos domine? Por que o RJTV precisa colocar, enquanto o apresentador se dirige a nós, um logo vermelho escrito “A NOSSA GUERRA”, assim, em caixa alta e tudo? Até que ponto o vocábulo “guerra” aparecer fácil em conversa de boteco não prejudica a nossa apreensão dos fatos como eles são e a conscientização para que se saiba cobrar soluções para a situação do Rio?
Diante disso tudo, a matéria do Casseta e Planeta (de 1993!) sobre a “Cidade Calamitosa” continua atual e, abusando da ironia, corre o risco de nos fazer pensar melhor sobre a que ponto chegamos. E olha que o slogan deles é “humorismo verdade, jornalismo mentira”...
sexta-feira, 9 de maio de 2003
E os pimpolhos? - parte 2
Transcrevo abaixo o ótimo comentário da amiga Louise Araujo, formada em jornalismo pela UFF (eu chego lá!) e leitora assídua deste blog:
"Bom, TV nunca educou. A programação era tão ruim antes (com raras exceções) quanto o é hoje (com raras exceções). Mas antes, pela dificuldade de acesso ao aparelho, menos crianças eram deixadas aos cuidados da telinha. Atualmente, quando a banalização da aquisição tornou possível ter uma babá eletrônica em cada cômodo (e ainda equipada com canais mil, cheios de atrativos), tornou-se lógico para muitos pais que aquela caixinha tivesse o discernimento e a pedagogia de um real educador - e largaram o "trabalho sujo" pra ser feito por ela.
Eu lembro que, numa cena de "A próxima vítima" (novela do Sílvio de Abreu) o personagem de Rosamaria Murtinho aparecia morta, boiando numa piscina. Muitos pais podem ter se indignado de ter se veiculado cena tão forte num horário em que as crianças ainda estavam acordadas - mas pelo menos uma mãe discordou deles. Escreveu uma carta (para O Globo? JB? Não lembro....) dizendo que, ao invés de se horrorizar, explicou ao filho o que tinha acontecido, lembrou que aquela era apenas uma cena de novela (e vamos combinar que os contos de fada têm cenas bem mais violentas do que essa) etc etc etc. Enfim, explicou o mundo ao filho, ensinou as coisas da vida a ele. E parabenizava o autor pela boa qualidade da cena.
Que bom seria se todos os pais agissem assim - ou seja, com a consciência de que têm um dever muito importante ao colocarem uma criança no mundo: educá-la. Isso não é uma tarefa fácil nem divertida; mas é a obrigação de quem se sentiu adulto o suficiente para tomar a decisão de trazer um ser humano ao mundo. Até porque, vamos combinar, ninguém prometeu que ele viria com um manual de instruções."
Transcrevo abaixo o ótimo comentário da amiga Louise Araujo, formada em jornalismo pela UFF (eu chego lá!) e leitora assídua deste blog:
"Bom, TV nunca educou. A programação era tão ruim antes (com raras exceções) quanto o é hoje (com raras exceções). Mas antes, pela dificuldade de acesso ao aparelho, menos crianças eram deixadas aos cuidados da telinha. Atualmente, quando a banalização da aquisição tornou possível ter uma babá eletrônica em cada cômodo (e ainda equipada com canais mil, cheios de atrativos), tornou-se lógico para muitos pais que aquela caixinha tivesse o discernimento e a pedagogia de um real educador - e largaram o "trabalho sujo" pra ser feito por ela.
Eu lembro que, numa cena de "A próxima vítima" (novela do Sílvio de Abreu) o personagem de Rosamaria Murtinho aparecia morta, boiando numa piscina. Muitos pais podem ter se indignado de ter se veiculado cena tão forte num horário em que as crianças ainda estavam acordadas - mas pelo menos uma mãe discordou deles. Escreveu uma carta (para O Globo? JB? Não lembro....) dizendo que, ao invés de se horrorizar, explicou ao filho o que tinha acontecido, lembrou que aquela era apenas uma cena de novela (e vamos combinar que os contos de fada têm cenas bem mais violentas do que essa) etc etc etc. Enfim, explicou o mundo ao filho, ensinou as coisas da vida a ele. E parabenizava o autor pela boa qualidade da cena.
Que bom seria se todos os pais agissem assim - ou seja, com a consciência de que têm um dever muito importante ao colocarem uma criança no mundo: educá-la. Isso não é uma tarefa fácil nem divertida; mas é a obrigação de quem se sentiu adulto o suficiente para tomar a decisão de trazer um ser humano ao mundo. Até porque, vamos combinar, ninguém prometeu que ele viria com um manual de instruções."
domingo, 4 de maio de 2003
Sites que recomendo:
www.observatoriodaimprensa.com.br
www.canaldaimprensa.com.br
www.chicobuarque.com.br
www.jobim.com.br
www.comunique-se.com.br
www.observatoriodaimprensa.com.br
www.canaldaimprensa.com.br
www.chicobuarque.com.br
www.jobim.com.br
www.comunique-se.com.br
E os pimpolhos?
A omissão pode ser mais ativa do que se pensa. A passividade, mais destruidora do que se imagina. Pais e filhos parecem sentir isso a cada geração que passa. O pior é que todos sentem, mas não parecem admitir. Principalmente após a TV ter conquistado seu lugar em nosso cotidiano.
Há pouco li no site www.canaldaimprensa.com.br que "uma estatística das Organizações das Nações Unidas, divulgada em 1998, mostra que a TV brasileira exibe 20 crimes por hora de desenho animado. Esse mapeamento da ONU também diz que, nas seis emissoras abertas, detectam-se 1.432 crimes em uma semana de desenhos animados". É matéria-prima em abundância para que os pais fiquem revoltados e se perguntem: os donos das emissoras de TV aberta gostariam que a programação por eles produzida se dirigisse a seus filhos? Será que realmente a assistem com gosto?
O foco deste artigo não é saber se a violência dos desenhos faz efeitos ou não, nem ser ingênuo de não pensar que os donos de emissoras têm interesses muito além do mero entretenimento. O curioso é observar a chiadeira de pais em relação a essas estatísticas, que isso é um absurdo etc e tal. Legítimo, mas ofuscador muitas vezes.
É fato que preferimos escolher coisas que nos dêem o menor trabalho possível, ou menos esforço precisemos empreender. Mas é maduro compreender que certas coisas que dão trabalho assim têm que ser para termos o fruto seguro ao final do processo. Refiro-me, neste instante, à missão dos pais em educar os filhos e acompanhá-los e, sempre que possível, esclarecê-los sobre valores humanos universais que precisam ser mantidos, ainda que uma maravilhosa TV diga o contrário. E isso dá trabalho.
O ofuscamento do qual falei se encontra aí. Não quero generalizar, mas quando vejo muitos pais reclamando que a TV só tem porcaria etc e tal, logo me pergunto: será que estão fazendo sua parte? Será que a aparente revolta não ofusca uma passividade no acompanhar dos filhos? A TV não tem o apelido de "babá eletrônica" à toa...
Por vezes critico a imprensa neste blog, e o faço tentando ser coerente. Sabendo que um dia serei profissional do ramo e não poderei deixar pra trás tudo o que disse. Não posso chafurdar na crítica e deixar de fazer a minha parte. Os pais precisam ter senso crítico sim, e precisam também ser ativos no cuidar de seus filhos, conversar com eles para que possam discernir que nem tudo (ou, infelizmente, muito pouco) do que aquela caixinha colorida transmite atualmente traz algo de bom. Que seus filhos precisam crescer sem se render à alienação que alienígenas como Xuxa Meneghel tentam empreender a cada aparição no monitor (falo isso como sobrevivente do Xou da Xuxa, graças a Deus e a minha mãe).
O lance é que isso dá trabalho, né? Mas se os pais não assumirem esse esforço, que geração seguinte virá? Que fruto virá ao final do processo? É hora de desprezar o imediatismo reinante sabendo que "longo prazo" não é só jargão.
A omissão pode ser mais ativa do que se pensa. A passividade, mais destruidora do que se imagina. Pais e filhos parecem sentir isso a cada geração que passa. O pior é que todos sentem, mas não parecem admitir. Principalmente após a TV ter conquistado seu lugar em nosso cotidiano.
Há pouco li no site www.canaldaimprensa.com.br que "uma estatística das Organizações das Nações Unidas, divulgada em 1998, mostra que a TV brasileira exibe 20 crimes por hora de desenho animado. Esse mapeamento da ONU também diz que, nas seis emissoras abertas, detectam-se 1.432 crimes em uma semana de desenhos animados". É matéria-prima em abundância para que os pais fiquem revoltados e se perguntem: os donos das emissoras de TV aberta gostariam que a programação por eles produzida se dirigisse a seus filhos? Será que realmente a assistem com gosto?
O foco deste artigo não é saber se a violência dos desenhos faz efeitos ou não, nem ser ingênuo de não pensar que os donos de emissoras têm interesses muito além do mero entretenimento. O curioso é observar a chiadeira de pais em relação a essas estatísticas, que isso é um absurdo etc e tal. Legítimo, mas ofuscador muitas vezes.
É fato que preferimos escolher coisas que nos dêem o menor trabalho possível, ou menos esforço precisemos empreender. Mas é maduro compreender que certas coisas que dão trabalho assim têm que ser para termos o fruto seguro ao final do processo. Refiro-me, neste instante, à missão dos pais em educar os filhos e acompanhá-los e, sempre que possível, esclarecê-los sobre valores humanos universais que precisam ser mantidos, ainda que uma maravilhosa TV diga o contrário. E isso dá trabalho.
O ofuscamento do qual falei se encontra aí. Não quero generalizar, mas quando vejo muitos pais reclamando que a TV só tem porcaria etc e tal, logo me pergunto: será que estão fazendo sua parte? Será que a aparente revolta não ofusca uma passividade no acompanhar dos filhos? A TV não tem o apelido de "babá eletrônica" à toa...
Por vezes critico a imprensa neste blog, e o faço tentando ser coerente. Sabendo que um dia serei profissional do ramo e não poderei deixar pra trás tudo o que disse. Não posso chafurdar na crítica e deixar de fazer a minha parte. Os pais precisam ter senso crítico sim, e precisam também ser ativos no cuidar de seus filhos, conversar com eles para que possam discernir que nem tudo (ou, infelizmente, muito pouco) do que aquela caixinha colorida transmite atualmente traz algo de bom. Que seus filhos precisam crescer sem se render à alienação que alienígenas como Xuxa Meneghel tentam empreender a cada aparição no monitor (falo isso como sobrevivente do Xou da Xuxa, graças a Deus e a minha mãe).
O lance é que isso dá trabalho, né? Mas se os pais não assumirem esse esforço, que geração seguinte virá? Que fruto virá ao final do processo? É hora de desprezar o imediatismo reinante sabendo que "longo prazo" não é só jargão.
sábado, 26 de abril de 2003
Pequenas anotações educacionais
Solidarizei-me com o Ministro da Educação Cristovam Buarque ao ler sua entrevista a Míriam Leitão no GLOBO de hoje (26/04). Como todos sabem, o ministro é, por vocação, obcecado pela educação. É dele a idéia metafórica da “segunda abolição” em relação à desigualdade social. Cristovam relembra o contexto da abolição da escravatura, que se deu devido a vários procedimentos históricos, mas algo foi principal: já não era viável para ninguém que a escravidão continuasse. E isso no sentido mais literal da coisa: não era viável social nem economicamente, de modo que a situação chegou a um nível em que não havia outra solução senão libertar os escravos.
Paralelamente, o ministro afirma que a desigualdade social está chegando em níveis parecidos. A escalada da violência, a miséria cada vez mais impossível de se ignorar, o “apartheid” entre os que têm e os que não têm, tudo isso somado à “sensibilidade” da sociedade de consumo, que começa a perceber o quão caro está ficando manter essa desigualdade, gastando rios de dinheiro com a indústria da segurança, por exemplo.
Com esse embasamento, o ministro está lutando para que a educação seja uma prioridade no governo atual. E ninguém em sã consciência pode negar que a erradicação do analfabetismo e um ensino/aprendizado de qualidade no mínimo faz com que os cidadãos se vejam como tal, esclarecendo-se e em maiores condições de diminuir o abismo da desigualdade.
Mas minha solidariedade com o ministro foi quando ele respondia à crítica feita pelo economista José Márcio Camargo ao programa de alfabetização de adultos, dizendo que é preciso concentrar-se nos jovens. Do contrário, em alguns anos haverá 40% de brasileiros (crianças de hoje) que não terão completado o 1º grau. Ao que o ministro respondeu:
“Respeito o economista e acho que está em boa companhia. Meu mestre, Darcy Ribeiro, pensava assim também. Mas eu não quero fazer essa escolha de Sofia. É como chegar em casa e ver sua mãe e seu filho doentes e levar apenas o filho ao médico: quero salvar avó e neto. Sei que, do ponto de vista econômico, este raciocínio de esquecer os velhos faz sentido. Mas não acho que ele faça sentido do ponto de vista ético.”
Aí está o terrível dilema do ministro. Sua última frase é emblemática, em um mundo no qual sabemos mais o que é risco-Brasil e superávit primário do que Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério). O lucro sempre existiu, mas a que ponto se chegou? Faz sentido esquecer os velhos na sociedade de consumo voltada quase que exclusivamente para pessoas de 12 a 30 anos (no caso, eu)? Pior é que faz. Como para muitos faz sentido diminuir o valor da educação, como se esta não fosse em boa parte responsável pela dignidade humana – muito mais do que os cifrões.
Ouço com certo alívio o compartilhar de Cristovam Buarque de não se render ao monetarismo que transforma a ética em mais um item de prateleira. E aí eu dou uma “panfletada” meio sem querer, já que não é este o objetivo do blog. Para os que duvidavam que a esperança venceu o medo, eis um lampejo de que isso ainda é verdade. Pelo menos no Ministério da Educação.
Solidarizei-me com o Ministro da Educação Cristovam Buarque ao ler sua entrevista a Míriam Leitão no GLOBO de hoje (26/04). Como todos sabem, o ministro é, por vocação, obcecado pela educação. É dele a idéia metafórica da “segunda abolição” em relação à desigualdade social. Cristovam relembra o contexto da abolição da escravatura, que se deu devido a vários procedimentos históricos, mas algo foi principal: já não era viável para ninguém que a escravidão continuasse. E isso no sentido mais literal da coisa: não era viável social nem economicamente, de modo que a situação chegou a um nível em que não havia outra solução senão libertar os escravos.
Paralelamente, o ministro afirma que a desigualdade social está chegando em níveis parecidos. A escalada da violência, a miséria cada vez mais impossível de se ignorar, o “apartheid” entre os que têm e os que não têm, tudo isso somado à “sensibilidade” da sociedade de consumo, que começa a perceber o quão caro está ficando manter essa desigualdade, gastando rios de dinheiro com a indústria da segurança, por exemplo.
Com esse embasamento, o ministro está lutando para que a educação seja uma prioridade no governo atual. E ninguém em sã consciência pode negar que a erradicação do analfabetismo e um ensino/aprendizado de qualidade no mínimo faz com que os cidadãos se vejam como tal, esclarecendo-se e em maiores condições de diminuir o abismo da desigualdade.
Mas minha solidariedade com o ministro foi quando ele respondia à crítica feita pelo economista José Márcio Camargo ao programa de alfabetização de adultos, dizendo que é preciso concentrar-se nos jovens. Do contrário, em alguns anos haverá 40% de brasileiros (crianças de hoje) que não terão completado o 1º grau. Ao que o ministro respondeu:
“Respeito o economista e acho que está em boa companhia. Meu mestre, Darcy Ribeiro, pensava assim também. Mas eu não quero fazer essa escolha de Sofia. É como chegar em casa e ver sua mãe e seu filho doentes e levar apenas o filho ao médico: quero salvar avó e neto. Sei que, do ponto de vista econômico, este raciocínio de esquecer os velhos faz sentido. Mas não acho que ele faça sentido do ponto de vista ético.”
Aí está o terrível dilema do ministro. Sua última frase é emblemática, em um mundo no qual sabemos mais o que é risco-Brasil e superávit primário do que Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério). O lucro sempre existiu, mas a que ponto se chegou? Faz sentido esquecer os velhos na sociedade de consumo voltada quase que exclusivamente para pessoas de 12 a 30 anos (no caso, eu)? Pior é que faz. Como para muitos faz sentido diminuir o valor da educação, como se esta não fosse em boa parte responsável pela dignidade humana – muito mais do que os cifrões.
Ouço com certo alívio o compartilhar de Cristovam Buarque de não se render ao monetarismo que transforma a ética em mais um item de prateleira. E aí eu dou uma “panfletada” meio sem querer, já que não é este o objetivo do blog. Para os que duvidavam que a esperança venceu o medo, eis um lampejo de que isso ainda é verdade. Pelo menos no Ministério da Educação.
quinta-feira, 24 de abril de 2003
Você é estúpido, ignorante e burro!
É o que certos órgãos de imprensa parecem nos dizer a cada notícia por eles veiculada. O Jornal da Globo está sendo campeão disso, principalmente com a cada vez mais estrelinha Ana Paula "Podrão", atual capa da revista Nova (!!!). Hoje a matéria que fechava o jornal era sobre as possíveis cirurgias plásticas as quais Saddam Hussein poderia ter se submetido para escapar do cerco do Bush.
O assunto em si já é estapafúrdio, mas eles não se dão por satisfeitos na tarefa de nos tratar como está expresso no título desse artigo. Para isso, fazem uma longa "reportagem", olha só: de acordo com cirurgiões de Houston, Texas (terrinha do Bush, olha q coincidência!!) Saddam PODERIA TER PASSADO por cirurgias de até 9 horas de duração. Enquanto a Podrão narrava, fotos de Saddam, ao lado de suas POSSÍVEIS mudanças no rosto, indicadas com setinhas!
Jornalisticamente, tudo é um desastre. Primeiro: que legitimidade tem uma fonte americana do Texas (a ÚNICA consultada) pra falar sobre o destino de Saddam? (Chega a ser infantil a tentativa de explicar como os poderosos ianques destruíram tudo no Iraque mas deixaram escapar o vilão da história). Fora a nova mania da imprensa: usar o verbo no condicional, eximindo-se da obrigação de checar a veracidade dos fatos. Se PODERIA ser e não é, qual o problema? Eu poderia não ter dito nada disso, mas disse. Que diferença vai fazer? A imprensa nega o que sempre foi a sua principal virtude: investigar com responsabilidade. E como poderia se precisar onde Saddam fez as "mexidas" no rosto, dizendo até a duração da cirurgia? Chutômetro da pior qualidade, eu inventaria melhor.
Mas o pior é veicular isso num dos jornais mais assistidos do país. Na boa, se João Kleber noticiasse o absurdo acima, quem daria crédito? Afinal, é o estilo do cara, concorda? E o Jornal da Globo chegou nesse nível.
O que irrita é tratar os telespectadores como idiotas. Pensar que não vamos achar ridículo fofocas sobre botox que Saddam botou... Francamente, tá me achando com cara de quê? De Bush?
É o que certos órgãos de imprensa parecem nos dizer a cada notícia por eles veiculada. O Jornal da Globo está sendo campeão disso, principalmente com a cada vez mais estrelinha Ana Paula "Podrão", atual capa da revista Nova (!!!). Hoje a matéria que fechava o jornal era sobre as possíveis cirurgias plásticas as quais Saddam Hussein poderia ter se submetido para escapar do cerco do Bush.
O assunto em si já é estapafúrdio, mas eles não se dão por satisfeitos na tarefa de nos tratar como está expresso no título desse artigo. Para isso, fazem uma longa "reportagem", olha só: de acordo com cirurgiões de Houston, Texas (terrinha do Bush, olha q coincidência!!) Saddam PODERIA TER PASSADO por cirurgias de até 9 horas de duração. Enquanto a Podrão narrava, fotos de Saddam, ao lado de suas POSSÍVEIS mudanças no rosto, indicadas com setinhas!
Jornalisticamente, tudo é um desastre. Primeiro: que legitimidade tem uma fonte americana do Texas (a ÚNICA consultada) pra falar sobre o destino de Saddam? (Chega a ser infantil a tentativa de explicar como os poderosos ianques destruíram tudo no Iraque mas deixaram escapar o vilão da história). Fora a nova mania da imprensa: usar o verbo no condicional, eximindo-se da obrigação de checar a veracidade dos fatos. Se PODERIA ser e não é, qual o problema? Eu poderia não ter dito nada disso, mas disse. Que diferença vai fazer? A imprensa nega o que sempre foi a sua principal virtude: investigar com responsabilidade. E como poderia se precisar onde Saddam fez as "mexidas" no rosto, dizendo até a duração da cirurgia? Chutômetro da pior qualidade, eu inventaria melhor.
Mas o pior é veicular isso num dos jornais mais assistidos do país. Na boa, se João Kleber noticiasse o absurdo acima, quem daria crédito? Afinal, é o estilo do cara, concorda? E o Jornal da Globo chegou nesse nível.
O que irrita é tratar os telespectadores como idiotas. Pensar que não vamos achar ridículo fofocas sobre botox que Saddam botou... Francamente, tá me achando com cara de quê? De Bush?
sábado, 19 de abril de 2003
Ai, a realidade...
“De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.” Esse adágio da Lei de Murphy caracteriza perfeitamente os rumos da televisão brasileira, principalmente a aberta. Os exemplos são inúmeros, impossível abordar como gostaria todos eles. Fiquemos com a edificante Guerra do Sono, no programa do magnânimo Luciano Huck.
A idéia, como vigora na maioria dos reality shows, nada tem a ver com humanidade. Proibir a alguém o necessário descanso diário da consciência pareceria insano se viesse dos nazistas, fundamentalistas islâmicos, traficantes... Mas é no sábado à tarde da Globo, então tá tranqüilo.
O esquema do programa é igualzinho aos BBBs, com direito a confessionário e gincanas promovidas pela produção - para que os telespectadores não tenham a chance de se dar conta de como aquilo tudo é muito chato... Afinal, é ver na TV gente grogue e remelenta recusando-se a dormir! O que mais?
De qualquer forma, o que me levou a escrever esse artigo foi observar o programa hoje (19/04). Ouço Luciano Huck anunciando aos insones que eles iriam contar com a presença dos Lusíadas. Não entendi. Mas me atemorizei mesmo quando ouvi a frase do dono do Caldeirão: “Porque Guerra do Sono também é cultura!”. O que seria a cultura promovida por Luciano Huck na Guerra do Sono??? (É curioso que virou bordão a frase “... também é cultura!”. A cultura ficou renegada ao também, ao segundo plano, a algo mais que não o principal, ou essencial. E as coisas mais esdrúxulas possíveis ganham assim a licença de se dizer portadoras de cultura.)
Eis que entra na casa dos insones um senhor desconhecido portando na mão um exemplar de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões. Ele começou a declamar e então percebi que era pra dar sono aos participantes!! O primeiro grande poeta da língua portuguesa ficou reduzido a sonífero de desmiolados!
Para os que acham que estou pegando pesado, o programa se encarregou de falar por mim: clipes com depoimentos dos insones foram mostrados em seguida. O primeiro já falava por todos: “Eu nunca li poesia, mas gosto quando falam (recitam) pra mim”. Outro se dirigia ao que declamava, claramente ansiando por uma negativa: “você vai até o final (do livro)?”. Não havia como negar que ali estava representada uma boa parte do Brasil.
A média de idade dos participantes não deve passar dos 20 anos. Todos frutos vivos de uma geração criada pela “babá eletrônica”, habituados a desprezar as demais faces da cultura - tão necessária como outros direitos humanos básicos, como anuncia este blog. Ou que coloca a leitura e o exercício do pensar como característicos dos “intelectuais” ou dos “nerds-que-não-aproveitam-a-vida-e-não-pegam-ninguém”. E a cultura das celebridades de hoje estimula (e necessita de) gente com essa atitude.
Como eu disse a uma amiga, aos que vêem algum sentido nas linhas aqui proferidas, resta-nos ser os heróis da resistência. Nossa crítica deve ser exercida na medida ideal, sabendo discernir quando querem nos fazer de “videotas” e conseguir compartilhar tais percepções, tão combatidas pela alienação desejada pelos donos do poder.
Há pouco li que o inventor da televisão, pouco antes de morrer, foi abordado por alguém que lhe perguntou qual a melhor coisa de seu tão popular invento. E ele respondeu: “o botão de desligar”.
“De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.” Esse adágio da Lei de Murphy caracteriza perfeitamente os rumos da televisão brasileira, principalmente a aberta. Os exemplos são inúmeros, impossível abordar como gostaria todos eles. Fiquemos com a edificante Guerra do Sono, no programa do magnânimo Luciano Huck.
A idéia, como vigora na maioria dos reality shows, nada tem a ver com humanidade. Proibir a alguém o necessário descanso diário da consciência pareceria insano se viesse dos nazistas, fundamentalistas islâmicos, traficantes... Mas é no sábado à tarde da Globo, então tá tranqüilo.
O esquema do programa é igualzinho aos BBBs, com direito a confessionário e gincanas promovidas pela produção - para que os telespectadores não tenham a chance de se dar conta de como aquilo tudo é muito chato... Afinal, é ver na TV gente grogue e remelenta recusando-se a dormir! O que mais?
De qualquer forma, o que me levou a escrever esse artigo foi observar o programa hoje (19/04). Ouço Luciano Huck anunciando aos insones que eles iriam contar com a presença dos Lusíadas. Não entendi. Mas me atemorizei mesmo quando ouvi a frase do dono do Caldeirão: “Porque Guerra do Sono também é cultura!”. O que seria a cultura promovida por Luciano Huck na Guerra do Sono??? (É curioso que virou bordão a frase “... também é cultura!”. A cultura ficou renegada ao também, ao segundo plano, a algo mais que não o principal, ou essencial. E as coisas mais esdrúxulas possíveis ganham assim a licença de se dizer portadoras de cultura.)
Eis que entra na casa dos insones um senhor desconhecido portando na mão um exemplar de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões. Ele começou a declamar e então percebi que era pra dar sono aos participantes!! O primeiro grande poeta da língua portuguesa ficou reduzido a sonífero de desmiolados!
Para os que acham que estou pegando pesado, o programa se encarregou de falar por mim: clipes com depoimentos dos insones foram mostrados em seguida. O primeiro já falava por todos: “Eu nunca li poesia, mas gosto quando falam (recitam) pra mim”. Outro se dirigia ao que declamava, claramente ansiando por uma negativa: “você vai até o final (do livro)?”. Não havia como negar que ali estava representada uma boa parte do Brasil.
A média de idade dos participantes não deve passar dos 20 anos. Todos frutos vivos de uma geração criada pela “babá eletrônica”, habituados a desprezar as demais faces da cultura - tão necessária como outros direitos humanos básicos, como anuncia este blog. Ou que coloca a leitura e o exercício do pensar como característicos dos “intelectuais” ou dos “nerds-que-não-aproveitam-a-vida-e-não-pegam-ninguém”. E a cultura das celebridades de hoje estimula (e necessita de) gente com essa atitude.
Como eu disse a uma amiga, aos que vêem algum sentido nas linhas aqui proferidas, resta-nos ser os heróis da resistência. Nossa crítica deve ser exercida na medida ideal, sabendo discernir quando querem nos fazer de “videotas” e conseguir compartilhar tais percepções, tão combatidas pela alienação desejada pelos donos do poder.
Há pouco li que o inventor da televisão, pouco antes de morrer, foi abordado por alguém que lhe perguntou qual a melhor coisa de seu tão popular invento. E ele respondeu: “o botão de desligar”.
sábado, 12 de abril de 2003
Os neobobos
Esta semana recebi um e-mail da Marcia, namorada do João Pedro, dois grandes amigos meus. Devidamente autorizado, transcrevo o que ela disse:
“Oi galera,
Hoje, dia 8, foi publicada uma matéria sobre a guerra no Jornal do Commercio em que é mostrada a foto de um menino de 12 anos. Seu nome é Ismaeel. Enquanto dormia, sua casa foi destruída, seus pais e nove parentes morreram e esse menino teve o corpo queimado e perdeu os dois braços. Sei lá, pode parecer bobeira minha, eu sei que os jornais divulgam essas fotos pra comover mesmo, mas eu me senti muito, muito, muito mal por não estar orando como deveria por essa guerra. Estar orando pelas pessoas que estão envolvidas nisso tudo. Eu senti uma tristeza tão grande de ver essa criança que só tem 12 anos e que daqui pra frente vai levar uma vida totalmente diferente. Sei lá, quando eu terminei de ler eu agradeci tanto a Deus por tudo que tenho.”
Parei tudo o que estava fazendo. Sério, parei de analisar as causas e conseqüências da guerra, seus mandantes, o que virá depois. Parei de pensar na política brasileira, nas incertezas da economia. Parei de pensar sobre minhas pendências no trabalho. Minha vida parou por alguns instantes.
Isso porque alguém, com uma simplicidade tremenda, regada, claro, a uma sinceridade inquestionável (o e-mail seguiu para poucas pessoas, sem IBOPE) conseguiu exprimir o que muitos estão sentindo. O que mais me chamou a atenção foi Márcia dizer “Sei que pode parecer bobeira minha...”. No que logo respondi: continue com essa bobeira! Seja sempre boba, então!
Caramba, ficamos constrangidos em nos compadecer publicamente de alguém! O mundo que nos cerca orgulha-se tanto de sua esperteza, maliciosidade e individualismo exacerbado a ponto de fazer com que nossos mais sinceros (e comuns!) sentimentos pareçam o mais ingênuos e inúteis possíveis.
Por que seria bobeira nos sentirmos mal diante de uma guerra? Diante de um menino que teve sua vida completamente alterada enquanto nós estamos aqui, comparativamente, 100% bem? Por que se sentir mal por se sentir mal por alguém?
Se é assim, então tá: de agora em diante, sou um bobo. Ou melhor (aproveitando o termo de uma infeliz declaração de FHC sobre economia): sou um neobobo. Com a diferença que não vou me auto-censurar no momento de expressar essa neobobeira, de mostrar que o ser humano não é feito de concreto – exterior ou interiormente – ao me deparar com cenas ou acontecimentos que afrontam nossa própria natureza.
(Não é à toa que a imprensa sempre foi perseguida, pressionada, cooptada. Seria vantagem para o doutrinário Bush mostrar crianças feridas em uma guerra por eles tão ardorosamente defendida? Seria vantagem para o doutrinário Saddam mostrar cenas de suas tropas cambaleantes e sem chances de resistir ao exército ianque? É do jornalista a responsabilidade de noticiar, desde o repórter que escreve até o fotógrafo e o cinegrafista que mostram. O lidar com tais responsabilidades é o que faz um profissional ético ou não. )
Ver aquela imagem do Ismaeel despertou em minha amiga algo que pode vir a ser uma reação em cadeia. Quem sabe?
Esta semana recebi um e-mail da Marcia, namorada do João Pedro, dois grandes amigos meus. Devidamente autorizado, transcrevo o que ela disse:
“Oi galera,
Hoje, dia 8, foi publicada uma matéria sobre a guerra no Jornal do Commercio em que é mostrada a foto de um menino de 12 anos. Seu nome é Ismaeel. Enquanto dormia, sua casa foi destruída, seus pais e nove parentes morreram e esse menino teve o corpo queimado e perdeu os dois braços. Sei lá, pode parecer bobeira minha, eu sei que os jornais divulgam essas fotos pra comover mesmo, mas eu me senti muito, muito, muito mal por não estar orando como deveria por essa guerra. Estar orando pelas pessoas que estão envolvidas nisso tudo. Eu senti uma tristeza tão grande de ver essa criança que só tem 12 anos e que daqui pra frente vai levar uma vida totalmente diferente. Sei lá, quando eu terminei de ler eu agradeci tanto a Deus por tudo que tenho.”
Parei tudo o que estava fazendo. Sério, parei de analisar as causas e conseqüências da guerra, seus mandantes, o que virá depois. Parei de pensar na política brasileira, nas incertezas da economia. Parei de pensar sobre minhas pendências no trabalho. Minha vida parou por alguns instantes.
Isso porque alguém, com uma simplicidade tremenda, regada, claro, a uma sinceridade inquestionável (o e-mail seguiu para poucas pessoas, sem IBOPE) conseguiu exprimir o que muitos estão sentindo. O que mais me chamou a atenção foi Márcia dizer “Sei que pode parecer bobeira minha...”. No que logo respondi: continue com essa bobeira! Seja sempre boba, então!
Caramba, ficamos constrangidos em nos compadecer publicamente de alguém! O mundo que nos cerca orgulha-se tanto de sua esperteza, maliciosidade e individualismo exacerbado a ponto de fazer com que nossos mais sinceros (e comuns!) sentimentos pareçam o mais ingênuos e inúteis possíveis.
Por que seria bobeira nos sentirmos mal diante de uma guerra? Diante de um menino que teve sua vida completamente alterada enquanto nós estamos aqui, comparativamente, 100% bem? Por que se sentir mal por se sentir mal por alguém?
Se é assim, então tá: de agora em diante, sou um bobo. Ou melhor (aproveitando o termo de uma infeliz declaração de FHC sobre economia): sou um neobobo. Com a diferença que não vou me auto-censurar no momento de expressar essa neobobeira, de mostrar que o ser humano não é feito de concreto – exterior ou interiormente – ao me deparar com cenas ou acontecimentos que afrontam nossa própria natureza.
(Não é à toa que a imprensa sempre foi perseguida, pressionada, cooptada. Seria vantagem para o doutrinário Bush mostrar crianças feridas em uma guerra por eles tão ardorosamente defendida? Seria vantagem para o doutrinário Saddam mostrar cenas de suas tropas cambaleantes e sem chances de resistir ao exército ianque? É do jornalista a responsabilidade de noticiar, desde o repórter que escreve até o fotógrafo e o cinegrafista que mostram. O lidar com tais responsabilidades é o que faz um profissional ético ou não. )
Ver aquela imagem do Ismaeel despertou em minha amiga algo que pode vir a ser uma reação em cadeia. Quem sabe?
terça-feira, 8 de abril de 2003
O muro desconfortável
A tão esperada volta do Casseta e Planeta trouxe na sua pesquisa “ao vivo e se mexendo” mais uma pergunta que não quer calar. “Pra quem você está torcendo nessa guerra: pro babaca do Bush ou pro escroto do Saddam?”.
Seguindo a universal biologia das brincadeiras, essa também tem fundo de verdade. Em dois aspectos: 1) Nosso subconsciente, incentivado pela mídia (particularmente a TV) encara a guerra como uma disputa qualquer; 2) Somos forçados a ficar em cima do muro de forma desconfortável.
Acompanhamos as notícias diárias do front como um jogo de xadrez, em que avaliamos se as estratégias de ataque e defesa estão dando certo ou não. Pelo número de mortos de cada lado, além do avanço geográfico, prestamos bastante atenção se um “time” está em “vantagem”. E a TV muito colabora, na medida em que nos coloca no mesmo lugar em que sempre estamos nas Copas, Olimpíadas etc: torcedores na expectativa, sentados em segurança no sofá. Com a diferença que não sonhamos ver o espetáculo ao vivo e de camarote.
E aí entra o segundo aspecto da questão: torcemos pro babaca do Bush ou pro escroto do Saddam? Nossa índole diz que ninguém merece nossa torcida, mas... Quando você vê o Bush dizendo que a guerra é para desarmar o Iraque, e só por isso, aclamado por uma população doutrinada pela extrema-direita, não dá raiva? Quando você vê o Saddam sendo aclamado por uma população que sofre as agruras de sua ditadura com toques populistas e tem que brigar ridiculamente pro chefe continuar com seus palácios, não dá raiva?
Temos vontade de torcer sim. O ruim é que sempre vamos acabar torcendo pelo vilão. É isso que me incomoda.
E aí somos forçados a ficar em cima do muro. Eu queria torcer contra o ianque ignorante que usa toda a cara-de-pau possível pra dizer que é presidente de uma democracia, que sua imprensa não sofre pressões, que seu exército não erra nunca.... Mas aí eu vou torcer pro bigodudo que fica cada vez mais rico em um país que sofre há 12 anos severas sanções da ONU?
Você nunca torceu pro Bush morrer, se possível com um tiro do Saddam? Você nunca torceu pro Iraque ser um país um pouco mais normal, e o presidente que impede isso fosse morto? Eu já. E freqüentemente me flagro desse modo, por mais que eu abomine matar alguém. Ok, tem gente que parece que pede. Ainda assim, eu não me sinto à vontade torcendo pra vilão.
Cá estou eu, me equilibrando em cima do muro. É desconfortável, eu sei. Mas se um dia eu me acomodar e me acostumar, provavelmente estarei no sofá – e só. Talvez com um balde de pipoca, compondo a mais insensível das cenas de guerra.
A tão esperada volta do Casseta e Planeta trouxe na sua pesquisa “ao vivo e se mexendo” mais uma pergunta que não quer calar. “Pra quem você está torcendo nessa guerra: pro babaca do Bush ou pro escroto do Saddam?”.
Seguindo a universal biologia das brincadeiras, essa também tem fundo de verdade. Em dois aspectos: 1) Nosso subconsciente, incentivado pela mídia (particularmente a TV) encara a guerra como uma disputa qualquer; 2) Somos forçados a ficar em cima do muro de forma desconfortável.
Acompanhamos as notícias diárias do front como um jogo de xadrez, em que avaliamos se as estratégias de ataque e defesa estão dando certo ou não. Pelo número de mortos de cada lado, além do avanço geográfico, prestamos bastante atenção se um “time” está em “vantagem”. E a TV muito colabora, na medida em que nos coloca no mesmo lugar em que sempre estamos nas Copas, Olimpíadas etc: torcedores na expectativa, sentados em segurança no sofá. Com a diferença que não sonhamos ver o espetáculo ao vivo e de camarote.
E aí entra o segundo aspecto da questão: torcemos pro babaca do Bush ou pro escroto do Saddam? Nossa índole diz que ninguém merece nossa torcida, mas... Quando você vê o Bush dizendo que a guerra é para desarmar o Iraque, e só por isso, aclamado por uma população doutrinada pela extrema-direita, não dá raiva? Quando você vê o Saddam sendo aclamado por uma população que sofre as agruras de sua ditadura com toques populistas e tem que brigar ridiculamente pro chefe continuar com seus palácios, não dá raiva?
Temos vontade de torcer sim. O ruim é que sempre vamos acabar torcendo pelo vilão. É isso que me incomoda.
E aí somos forçados a ficar em cima do muro. Eu queria torcer contra o ianque ignorante que usa toda a cara-de-pau possível pra dizer que é presidente de uma democracia, que sua imprensa não sofre pressões, que seu exército não erra nunca.... Mas aí eu vou torcer pro bigodudo que fica cada vez mais rico em um país que sofre há 12 anos severas sanções da ONU?
Você nunca torceu pro Bush morrer, se possível com um tiro do Saddam? Você nunca torceu pro Iraque ser um país um pouco mais normal, e o presidente que impede isso fosse morto? Eu já. E freqüentemente me flagro desse modo, por mais que eu abomine matar alguém. Ok, tem gente que parece que pede. Ainda assim, eu não me sinto à vontade torcendo pra vilão.
Cá estou eu, me equilibrando em cima do muro. É desconfortável, eu sei. Mas se um dia eu me acomodar e me acostumar, provavelmente estarei no sofá – e só. Talvez com um balde de pipoca, compondo a mais insensível das cenas de guerra.
domingo, 6 de abril de 2003
Sem graça pra zoar
Pela primeira vez, não vou achar graça das piadas do Casseta e Planeta sobre o Rubinho "Pé-de-chinelo". O cara tava fazendo uma ótima corrida de recuperação, ultrapassando todos com a ousadia de quem corre em casa, demonstrando melhora no jeito de conduzir, chegou à primeira colocação com mais da metade da corrida realizada... e o carro quebrou.
Em outras épocas, eu diria: "típico do Rubinho, o cara é ruim e pé-frio". Dessa vez, não. A frustração estampada no rosto dele após a parada forçada era do tipo: "dessa vez fiz tudo certo, pq esse castigo?". Como estará sua auto-estima agora? Seria a oportunidade ideal para uma virada na carreira: ganhar bem, no Brasil... Agora, o risco do efeito contrário. É, estou solidário com o Barrichello.
Pela primeira vez, não vou achar graça das piadas do Casseta e Planeta sobre o Rubinho "Pé-de-chinelo". O cara tava fazendo uma ótima corrida de recuperação, ultrapassando todos com a ousadia de quem corre em casa, demonstrando melhora no jeito de conduzir, chegou à primeira colocação com mais da metade da corrida realizada... e o carro quebrou.
Em outras épocas, eu diria: "típico do Rubinho, o cara é ruim e pé-frio". Dessa vez, não. A frustração estampada no rosto dele após a parada forçada era do tipo: "dessa vez fiz tudo certo, pq esse castigo?". Como estará sua auto-estima agora? Seria a oportunidade ideal para uma virada na carreira: ganhar bem, no Brasil... Agora, o risco do efeito contrário. É, estou solidário com o Barrichello.
O conceito de musa mudou
Ao menos para mim. Lembro que a primeira vez em que ouvi a palavra foi antes mesmo de minha adolescência. Era a “musa inspiradora”, de poetas principalmente. Na mesma época ouvia falar também de “amor platônico”. De primeira, logo concluí: os poetas sentem amor platônico pelas musas inspiradoras. Faz sentido até hoje.
Até porque gosto de escrever e tenho minhas musas inspiradoras. Não necessariamente que me levem a uma vida de Álvares de Azevedo, que por elas “morria seguidamente”. Nesse período do Romantismo, ficou marcada a idéia da musa pura e inatingível, e essa distância fazia o poeta sofrer, sofrer e sofrer. Nada saudável.
O que não podemos negar é que temos idealizações. De tudo: futuro, família, possíveis empregos, sonhos em geral. Por que não teríamos de mulher? E esse tipo de idealização materializa-se na musa.
Até pouco tempo, minha musa principal era Gisele Bündchen. Precisei agüentar a oposição implacável dos que a acusavam de magrela, insensível (vide a campanha com casacos de pele) e de “cabeça-de-vento com classe”. Não posso dizer que discordava das opiniões acima, mas ela era minha musa e ponto final. Modelo de beleza que me alcançava etc. Não dá pra ficar conjecturando muito sobre essa preferência. O que não esperava é que o conceito de musa mudasse a partir de três mulheres em especial. Todas elas, de certa forma, minhas musas secundárias até então.
Paloma Duarte me conquistou de vez ao reagir à sórdida campanha terrorista de José Serra nas últimas eleições. Regina Duarte fora ao programa do PSDB dizendo que estava com medo de Lula ganhar, usando de todos os argumentos estreitos e estereotipados para desqualificar o candidato e atemorizar o povo para o que viria pela frente. Paloma, militante da classe artística que acompanhou Lula nas demais eleições, se ofereceu para reagir:
“Eu quero dizer que um candidato que precisa aterrorizar a população brasileira em vez de se calcar às suas próprias virtudes para tentar se eleger não merece meu respeito. Não merece minha confiança, e, no meu entender, não mereceria jamais ser presidente da República”.
Admirei sua atitude e vi que não era uma alienada como tantas outras jovens atrizes brasileiras.
Quando trabalhava na Secretaria das Culturas, ganhei ingressos para a pré-estréia de “Lavoura Arcaica”, em sessão fechada no Espaço Unibanco. Só artista na parada, e lá estava Patrícia Pillar. O que primeiro me chamou a atenção é que ela era mais bonita ao vivo, sem a produção da TV à qual estava acostumado. Isso me marcou, e nesta semana (quase um ano depois de tê-la visto), ouvi suas opiniões a respeito do veículo que a projetou:
“Se a gente espera que a TV hoje mostre um comportamento exemplar, ela é um desastre! Não sou moralista, não acho que televisão tenha que ser só educativa e chata, mas é preciso ter mais cuidado. Sobretudo, sem atropelar as etapas. As crianças estão participando da vida adulta muito mais que deveriam.”
Em outro momento da entrevista, ela diz:
“Procuro, sempre que possível, fazer personagens que tenham o que dizer. Se for para fazer novela ou seriado ou filme que não dizem nada, prefiro ficar em casa e brincar de outras coisas.”
Pra completar, resolveram entrevistar Camila Pitanga também. Em seu rosto podemos flagrar a miscigenação brasileira revelada em beleza. Em suas palavras, a inteligência de quem percebe seu lugar na exposição pública, e sua responsabilidade à frente dos milhões de telespectadores globais. Sempre crítica ao culto às “celebridades”:
“Hoje se privilegia a efemeridade e o instantâneo. Assim, são produzidas também pessoas instantâneas. O sucesso a qualquer custo gera mais euforia que realização. A gente percebe a infelicidade nos olhos dessas pessoas que não se vêem velhas, não se enxergam no tempo. Pensam que é bacana estar in, ser cortejada. E depois, o que sobra?Está faltando qualidade ao desejo.”
Foi a terceira confirmação da mudança do conceito de musa. Não basta apenas ser bonita, a inteligência precisa existir e ter sabedoria para se revelar no momento e nas palavras certas. Isso apenas aumenta o valor da boa aparência e deixa a dona de tal conjunto ainda mais digna de ser chamada de musa.
Hoje meus suspiros têm mais qualidade de vida.
Ao menos para mim. Lembro que a primeira vez em que ouvi a palavra foi antes mesmo de minha adolescência. Era a “musa inspiradora”, de poetas principalmente. Na mesma época ouvia falar também de “amor platônico”. De primeira, logo concluí: os poetas sentem amor platônico pelas musas inspiradoras. Faz sentido até hoje.
Até porque gosto de escrever e tenho minhas musas inspiradoras. Não necessariamente que me levem a uma vida de Álvares de Azevedo, que por elas “morria seguidamente”. Nesse período do Romantismo, ficou marcada a idéia da musa pura e inatingível, e essa distância fazia o poeta sofrer, sofrer e sofrer. Nada saudável.
O que não podemos negar é que temos idealizações. De tudo: futuro, família, possíveis empregos, sonhos em geral. Por que não teríamos de mulher? E esse tipo de idealização materializa-se na musa.
Até pouco tempo, minha musa principal era Gisele Bündchen. Precisei agüentar a oposição implacável dos que a acusavam de magrela, insensível (vide a campanha com casacos de pele) e de “cabeça-de-vento com classe”. Não posso dizer que discordava das opiniões acima, mas ela era minha musa e ponto final. Modelo de beleza que me alcançava etc. Não dá pra ficar conjecturando muito sobre essa preferência. O que não esperava é que o conceito de musa mudasse a partir de três mulheres em especial. Todas elas, de certa forma, minhas musas secundárias até então.
Paloma Duarte me conquistou de vez ao reagir à sórdida campanha terrorista de José Serra nas últimas eleições. Regina Duarte fora ao programa do PSDB dizendo que estava com medo de Lula ganhar, usando de todos os argumentos estreitos e estereotipados para desqualificar o candidato e atemorizar o povo para o que viria pela frente. Paloma, militante da classe artística que acompanhou Lula nas demais eleições, se ofereceu para reagir:
“Eu quero dizer que um candidato que precisa aterrorizar a população brasileira em vez de se calcar às suas próprias virtudes para tentar se eleger não merece meu respeito. Não merece minha confiança, e, no meu entender, não mereceria jamais ser presidente da República”.
Admirei sua atitude e vi que não era uma alienada como tantas outras jovens atrizes brasileiras.
Quando trabalhava na Secretaria das Culturas, ganhei ingressos para a pré-estréia de “Lavoura Arcaica”, em sessão fechada no Espaço Unibanco. Só artista na parada, e lá estava Patrícia Pillar. O que primeiro me chamou a atenção é que ela era mais bonita ao vivo, sem a produção da TV à qual estava acostumado. Isso me marcou, e nesta semana (quase um ano depois de tê-la visto), ouvi suas opiniões a respeito do veículo que a projetou:
“Se a gente espera que a TV hoje mostre um comportamento exemplar, ela é um desastre! Não sou moralista, não acho que televisão tenha que ser só educativa e chata, mas é preciso ter mais cuidado. Sobretudo, sem atropelar as etapas. As crianças estão participando da vida adulta muito mais que deveriam.”
Em outro momento da entrevista, ela diz:
“Procuro, sempre que possível, fazer personagens que tenham o que dizer. Se for para fazer novela ou seriado ou filme que não dizem nada, prefiro ficar em casa e brincar de outras coisas.”
Pra completar, resolveram entrevistar Camila Pitanga também. Em seu rosto podemos flagrar a miscigenação brasileira revelada em beleza. Em suas palavras, a inteligência de quem percebe seu lugar na exposição pública, e sua responsabilidade à frente dos milhões de telespectadores globais. Sempre crítica ao culto às “celebridades”:
“Hoje se privilegia a efemeridade e o instantâneo. Assim, são produzidas também pessoas instantâneas. O sucesso a qualquer custo gera mais euforia que realização. A gente percebe a infelicidade nos olhos dessas pessoas que não se vêem velhas, não se enxergam no tempo. Pensam que é bacana estar in, ser cortejada. E depois, o que sobra?Está faltando qualidade ao desejo.”
Foi a terceira confirmação da mudança do conceito de musa. Não basta apenas ser bonita, a inteligência precisa existir e ter sabedoria para se revelar no momento e nas palavras certas. Isso apenas aumenta o valor da boa aparência e deixa a dona de tal conjunto ainda mais digna de ser chamada de musa.
Hoje meus suspiros têm mais qualidade de vida.
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