2012: fala sério!
O Rio perdeu as Olimpíadas. Serei o único carioca a dizer: "Bem feito!"? Não, não curto ser "do contra", nem dos "já sabia" - essa galera é irritante! Mas quando que se pôde levar a sério os Jogos Olímpicos acontecerem aqui? Ainda custo a acreditar que ganhamos o Pan...
Se algum leitor injuriado já me enquadrou entre os conservadores com opinião de que "o que é de fora", ou seja, o que é estrangeiro é que presta, que brasileiro é uma raça inferior, desista. O problema é que nós, acostumados a muito confete e serpentina - para alegria de muitos políticos - não conseguimos ser realistas quando necessário.
Os jornais republicaram fatos e fotos que todos os cariocas conhecem na pele: violência, polícia que causa desconfiança, caos no transporte, poluição de todo o tipo... Precisava o Comitê Olímpico Internacional (COI) dar nota baixa nesses quesitos pra cairmos na real?
O pior é que não conta apenas a situação de hoje. Isto é, o Rio não foi digno de confiança no sentido de reverter esses quadros até 2012. Alguma novidade? Você acredita que quem governa o Rio hoje está sinceramente empenhado em reabilitar a cidade a longo prazo, ou seja, para além de seus mandatos? Logo, não penso em outra coisa pra dizer senão "Bem feito!". A incompetência e o descompromisso não podem ser recompensados jamais. Principalmente quando usam como mero pretexto a expectativa dos que torciam pelos Jogos.
E o mais angustiante é perceber que determinadas ações de governo só acontecem quando há uma imposição de força maior. Foi só o Rio ser anunciado como sede do Pan 2007 para que a Prefeitura logo iniciasse/anunciasse obras de saneamento, melhoria dos transportes, da segurança. E agora não dá pra voltar atrás, pois já foi feita a escolha da cidade (ao contrário do longínquo 2012). Quer dizer, atribuições que deveriam ser efetivadas por compromisso politico-eleitoral só o são porque há um evento internacional em jogo e não podemos dar vexame. Só isso já é um vexame. (Ou algum político vai dizer pro COI que não há verbas para atender às necessidades? Deixam essa desculpa para os cariocas otários...)
No fundo, creio que a grande torcida pela Rio 2012 foi essa: seria a única maneira de fazer com que compromissos de campanha virassem realidade. Mas parece que o COI alcançou uma maturidade política realista antes dos cariocas. E sem domicílio eleitoral aqui.
quinta-feira, 20 de maio de 2004
segunda-feira, 10 de maio de 2004
Infinitude da Comunicação X Finitude do Desejo
O título acima é de um artigo do filósofo italiano Toni Negri. Não vou me aventurar a comentar ou resenhar o tal artigo, mas o título me chamou a atenção. Conseguiu ser meu sintético porta-voz, vindo no "timing" certinho de meu momento pessoal e profissional, abarcando também minha concepção do universo comunicativo.
Porque assim me sinto em relação às possibilidades da comunicação: infinitas, porém produzidas por personagens finitos. No caso, finito Lessa. Tenho lido bastante a respeito da história dos meios de comunicação, não apenas textos analíticos como também relatos pessoais de marcos da imprensa brasileira. O título de Toni Negri caberia também para o "Minha razão de viver", de Samuel Wainer.
Wainer foi ninguém menos que o criador do jornal "Última Hora", e seu livro é uma coletânea de 53 fitas cassete de depoimento. O mais fascinante é que sua história é História. Ao contar sua trajetória, Wainer é obrigado a narrar períodos políticos do Brasil e do mundo. Ele é o homem que, dentre outras façanhas, "ressuscitou" Getúlio Vargas numa entrevista inédita até então, e foi o único jornalista brasileiro a cobrir o julgamento de Nuremberg - o único do mundo a entrevistar os réus. Pra quem pensa que Wainer valorizou soberbamente sua biografia, é só consultar na Biblioteca Nacional suas reportagens.
Ler as memórias do repórter Samuel Wainer, que era de uma época pré-TV e internet, é adentrar outro mundo, em meus simplórios 23 anos. Porém o livro é um relato auto-crítico em que Wainer ressalta quando estava errado e o que aprendeu com seus sucessos e falhas. Em suma, possuía qualidades atemporais necessárias a qualquer jornalista. Em nosso contexto de hoje, diria urgentes.
Wainer personifica minha percepção atual: as infinitas possibilidades que são inerentes à comunicação e seus meios nas mãos de pessoas finitas e sujeitas a falhas clamorosas. É um poder, sem dúvida. Mas estariam os aspirantes ao jornalismo cientes desse poder - não no sentido ganancioso, mas no potencial que a profissão carrega em sua essência?
Não apenas mitos podem ser construídos e destruídos num piscar de olhos pela imprensa. Vidas também. Literalmente. O estudante de jornalismo de hoje sabe da responsabilidade que possui? E os leitores? Em vez de praguejar contra a "raça dos jornalistas" quando os dissabores acima citados acontecem, sabem distingüir essa responsabilidade para cobrar, em forma de crítica, a presença essencial de jornalistas vocacionados?
Vocação. Essa é a palavra. Isso era Samuel Wainer. E hoje? Há jornalistas vocacionados ocupando as carteiras da universidade? A faculdade de jornalismo "virar moda" é um bom negócio para a sociedade? Ou apenas um bom negócio, sabe-se lá pra quem? Não estranhe a expressão "virar moda". Estranhe que um medíocre ator de Malhação, uma capa de Playboy e a Miss Brasil 2003 queiram ter curso superior em jornalismo. Para quê? Sabem aonde estão se metendo?
Quando Wainer contou sua história, não conseguiu falar de nada além de jornalismo. Estava na veia, o tempo todo. Possuía vida pessoal, mas não pairava dúvidas sobre sua vocação. E suas renomadas reportagens confirmavam isso - "pelos seus frutos os conhecereis". Que frutos os jornalistas não-vocacionados oferecem para o Brasil? Ainda há outro detalhe: vocação é apaixonante, você quer que aquilo dê certo porque, do contrário, sua própria essência estará sendo violentada. Que frutos os jornalistas não-vocacionados oferecerão para o Brasil?
É claro que essa reflexão se aplica a todas as profissões. Mas neste território blogueiro não, meu caro. Senhor Wainer, gostaria que me ouvisse de onde estiver: nasci pra ser jornalista.
O título acima é de um artigo do filósofo italiano Toni Negri. Não vou me aventurar a comentar ou resenhar o tal artigo, mas o título me chamou a atenção. Conseguiu ser meu sintético porta-voz, vindo no "timing" certinho de meu momento pessoal e profissional, abarcando também minha concepção do universo comunicativo.
Porque assim me sinto em relação às possibilidades da comunicação: infinitas, porém produzidas por personagens finitos. No caso, finito Lessa. Tenho lido bastante a respeito da história dos meios de comunicação, não apenas textos analíticos como também relatos pessoais de marcos da imprensa brasileira. O título de Toni Negri caberia também para o "Minha razão de viver", de Samuel Wainer.
Wainer foi ninguém menos que o criador do jornal "Última Hora", e seu livro é uma coletânea de 53 fitas cassete de depoimento. O mais fascinante é que sua história é História. Ao contar sua trajetória, Wainer é obrigado a narrar períodos políticos do Brasil e do mundo. Ele é o homem que, dentre outras façanhas, "ressuscitou" Getúlio Vargas numa entrevista inédita até então, e foi o único jornalista brasileiro a cobrir o julgamento de Nuremberg - o único do mundo a entrevistar os réus. Pra quem pensa que Wainer valorizou soberbamente sua biografia, é só consultar na Biblioteca Nacional suas reportagens.
Ler as memórias do repórter Samuel Wainer, que era de uma época pré-TV e internet, é adentrar outro mundo, em meus simplórios 23 anos. Porém o livro é um relato auto-crítico em que Wainer ressalta quando estava errado e o que aprendeu com seus sucessos e falhas. Em suma, possuía qualidades atemporais necessárias a qualquer jornalista. Em nosso contexto de hoje, diria urgentes.
Wainer personifica minha percepção atual: as infinitas possibilidades que são inerentes à comunicação e seus meios nas mãos de pessoas finitas e sujeitas a falhas clamorosas. É um poder, sem dúvida. Mas estariam os aspirantes ao jornalismo cientes desse poder - não no sentido ganancioso, mas no potencial que a profissão carrega em sua essência?
Não apenas mitos podem ser construídos e destruídos num piscar de olhos pela imprensa. Vidas também. Literalmente. O estudante de jornalismo de hoje sabe da responsabilidade que possui? E os leitores? Em vez de praguejar contra a "raça dos jornalistas" quando os dissabores acima citados acontecem, sabem distingüir essa responsabilidade para cobrar, em forma de crítica, a presença essencial de jornalistas vocacionados?
Vocação. Essa é a palavra. Isso era Samuel Wainer. E hoje? Há jornalistas vocacionados ocupando as carteiras da universidade? A faculdade de jornalismo "virar moda" é um bom negócio para a sociedade? Ou apenas um bom negócio, sabe-se lá pra quem? Não estranhe a expressão "virar moda". Estranhe que um medíocre ator de Malhação, uma capa de Playboy e a Miss Brasil 2003 queiram ter curso superior em jornalismo. Para quê? Sabem aonde estão se metendo?
Quando Wainer contou sua história, não conseguiu falar de nada além de jornalismo. Estava na veia, o tempo todo. Possuía vida pessoal, mas não pairava dúvidas sobre sua vocação. E suas renomadas reportagens confirmavam isso - "pelos seus frutos os conhecereis". Que frutos os jornalistas não-vocacionados oferecem para o Brasil? Ainda há outro detalhe: vocação é apaixonante, você quer que aquilo dê certo porque, do contrário, sua própria essência estará sendo violentada. Que frutos os jornalistas não-vocacionados oferecerão para o Brasil?
É claro que essa reflexão se aplica a todas as profissões. Mas neste território blogueiro não, meu caro. Senhor Wainer, gostaria que me ouvisse de onde estiver: nasci pra ser jornalista.
segunda-feira, 19 de abril de 2004
É lamentável, porém previsível
Pode-se comentar a última final do Campeonato Carioca sem falar muito de futebol? Sim. Ingredientes: lógica de folhetim, falta de assunto e de criatividade, uma direcionada edição e um árbitro fraco. Tirando esse último item, foi dessa maneira - sem falar da arte e sim do que estragaria o espetáculo - que a imprensa esportiva carioca se comportou na semana que antecedeu o clássico. E foi ela a responsável direta pela violência dentro de campo.
E por quê? Tudo começa quando a Globo filma o treino do Vasco com a famosa câmera escondida e flagra a ordem do técnico cruzmaltino: "Se ficar parado, pega o tornozelo dele!". Parecia combinado. Não é que o craque do campeonato, Felipe do Fla, acabava de torcer o tornozelo num treino? Havia garantido que jogava, mas respondeu aos ávidos repórteres que "eu sei que ele estava se referindo a mim". Pra completar, a Globo pegou um jogo em que o mesmo técnico, então no Corinthians, mandava o jogador "pegar"o adversário. Em seguida, o tal jogador era expulso. Mas foi mesmo em seguida? Mistérios da edição. Lona armada, faltava o circo.
Foi esse o fato criado pela imprensa que se arrastou até o fim do jogo. Uma frase comum a muitos técnicos mas que criou o vilão da vez, que queria acabar com a alegria do herói do campeonato - a tal lógica de folhetim. Uma louvável iniciativa - combater os que incitam a violência em campo - foi utilizada para um fim menor: colocar um "tempero" para os jornais que não tinham o que dizer até domingo.
O incrível é que o Globo, no domingo mesmo, fez uma ótima matéria com Neguinho da Beija-Flor e Martinho da Vila, falando das origens de cada time etc. O tipo de matéria que daria para encher as páginas esportivas das vésperas da decisão, sem precisar apelar para o maniqueísmo de sempre.
Deu no que deu: era só Felipe pegar na bola para as torcidas ficarem em suspenso, todos mirando o fraco juiz, os jogadores nervosos com o clima criado. 6 expulsões, brigas a todo momento, desde o início do jogo... Quem assistiu a partida percebeu que, não fosse o exagero da cobertura do desvio do técnico do Vasco, o jogo seria tenso porém mais limpo. Para não pensarem que estou sendo parcial, aviso logo que sou flamenguista e jornalista...
Mas o pior foi ouvir o pior lamentando. Galvão Bueno, péssimo, só dizia que estava profundamente abalado com as cenas de violência, que era lamentável tudo aquilo, no que o comparsa Sérgio Noronha só concordava. Como se não tivessem responsabilidade. Agora, os profissionais de campo é que são os vilões, né? Não teve premeditação nem nada? Não teve climinha criado? Faça-me o favor. Quer dizer que os jogadores, seres cada vez mais alienados e joguetes nas mãos dos "repórteres esportivos" jabazeiros, é que são os únicos protagonistas do ambiente nervosinho dentro de campo? É chamar cada torcedor de burro.
Agora, alguém levantou esse aspecto nas mesas redondas? Claro que não... O corporativismo e o "puxa-saquismo" falam mais alto. Não é à toa que Ricardo Teixeira, Caixa d'Água e Eurico Miranda reinam a tanto tempo no futebol. Quando convém à imprensa, os fatos não são relatados, nem mesmo criados. São aumentados à máxima potência, lucre o que lucrar.
Pode-se comentar a última final do Campeonato Carioca sem falar muito de futebol? Sim. Ingredientes: lógica de folhetim, falta de assunto e de criatividade, uma direcionada edição e um árbitro fraco. Tirando esse último item, foi dessa maneira - sem falar da arte e sim do que estragaria o espetáculo - que a imprensa esportiva carioca se comportou na semana que antecedeu o clássico. E foi ela a responsável direta pela violência dentro de campo.
E por quê? Tudo começa quando a Globo filma o treino do Vasco com a famosa câmera escondida e flagra a ordem do técnico cruzmaltino: "Se ficar parado, pega o tornozelo dele!". Parecia combinado. Não é que o craque do campeonato, Felipe do Fla, acabava de torcer o tornozelo num treino? Havia garantido que jogava, mas respondeu aos ávidos repórteres que "eu sei que ele estava se referindo a mim". Pra completar, a Globo pegou um jogo em que o mesmo técnico, então no Corinthians, mandava o jogador "pegar"o adversário. Em seguida, o tal jogador era expulso. Mas foi mesmo em seguida? Mistérios da edição. Lona armada, faltava o circo.
Foi esse o fato criado pela imprensa que se arrastou até o fim do jogo. Uma frase comum a muitos técnicos mas que criou o vilão da vez, que queria acabar com a alegria do herói do campeonato - a tal lógica de folhetim. Uma louvável iniciativa - combater os que incitam a violência em campo - foi utilizada para um fim menor: colocar um "tempero" para os jornais que não tinham o que dizer até domingo.
O incrível é que o Globo, no domingo mesmo, fez uma ótima matéria com Neguinho da Beija-Flor e Martinho da Vila, falando das origens de cada time etc. O tipo de matéria que daria para encher as páginas esportivas das vésperas da decisão, sem precisar apelar para o maniqueísmo de sempre.
Deu no que deu: era só Felipe pegar na bola para as torcidas ficarem em suspenso, todos mirando o fraco juiz, os jogadores nervosos com o clima criado. 6 expulsões, brigas a todo momento, desde o início do jogo... Quem assistiu a partida percebeu que, não fosse o exagero da cobertura do desvio do técnico do Vasco, o jogo seria tenso porém mais limpo. Para não pensarem que estou sendo parcial, aviso logo que sou flamenguista e jornalista...
Mas o pior foi ouvir o pior lamentando. Galvão Bueno, péssimo, só dizia que estava profundamente abalado com as cenas de violência, que era lamentável tudo aquilo, no que o comparsa Sérgio Noronha só concordava. Como se não tivessem responsabilidade. Agora, os profissionais de campo é que são os vilões, né? Não teve premeditação nem nada? Não teve climinha criado? Faça-me o favor. Quer dizer que os jogadores, seres cada vez mais alienados e joguetes nas mãos dos "repórteres esportivos" jabazeiros, é que são os únicos protagonistas do ambiente nervosinho dentro de campo? É chamar cada torcedor de burro.
Agora, alguém levantou esse aspecto nas mesas redondas? Claro que não... O corporativismo e o "puxa-saquismo" falam mais alto. Não é à toa que Ricardo Teixeira, Caixa d'Água e Eurico Miranda reinam a tanto tempo no futebol. Quando convém à imprensa, os fatos não são relatados, nem mesmo criados. São aumentados à máxima potência, lucre o que lucrar.
segunda-feira, 12 de abril de 2004
Pedro Bial, meu ídolo
Eu nem imaginava fazer Jornalismo no dia em que o muro de Berlim caiu. Sendo sincero, eu nem entendia o que significava tanta gente tão feliz em martelar um muro que dividia dois países que sempre foram um e agora voltavam a ser - a Alemanha. O que eu me lembro é que eu tinha 9 anos e um correspondente internacional da Globo estava ao vivo no local dando a notícia.
Com o tempo eu percebi que ele era um correspondente respeitado, havia estado em vários momentos importantes da história do mundo para trazer tudo à minha telinha. Passou um pouquinho mais de tempo e eu fui conhecendo melhor a trajetória dele por meio de um livro muito legal: "Crônicas de repórter". Além dos relatos, o cara escrevia bem! Eram crônicas, de fato.
Aí eu descobri que esse mesmo repórter era um literário convicto. Imaginem: em seus 20 e poucos anos ia para o Largo da Carioca, no Rio, recitar poemas para os transeuntes! Não satisfeito, já repórter consagrado, continuou com a mania, dessa vez em saraus culturais por toda a cidade, com outros jovens poetas. Pra completar, revelou-se um fã de ninguém menos que Guimarães Rosa, um dos decanos de nossa literatura. De um livro do mestre fez um filme - "Outras estórias" - e a ousadia está em querer transportar para as telas a inigualável literatura do escritor sertanejo, que quase criou um idioma puramente brasileiro.
Esse repórter com alta bagagem cultural e senso crítico continuou em outras frentes, como o programa "Espaço Aberto", da Globonews. Um talk show com temas variados, com um apresentador característico para cada tema. O dele, claro, era literatura. No centenário de Drummond, por exemplo, fez uma ótima entrevista com Silviano Santiago, especialista da obra do poeta de sete faces. Todas as entrevistas eram do mesmo nível.
Meu ídolo!
"Adorar só a Deus", já dizia mamãe desde minha infância. E o Todo-Poderoso, dessa vez, não teve piedade. Castigou-me com uma situação que hoje desafia as leis da lógica, da física, deixando-me incrédulo com seu desfecho.
Pois o tal repórter virou a principal atração de um show de realidade onde a cultura sempre passou longe. Ele se tornou o mestre de cerimônias de pessoas não apenas emburrecidas como mega-exploradas - como carniça, são expostas ao Brasilzão em nome de preciosos pontos na audiência. O repórter colocou em xeque toda a credibilidade construída jornalisticamente, culturalmente. E acho que foi xeque-mate.
Por que se sujeitar a tal ofício? É tanto dinheiro assim? A fama ele já tinha, a realização na carreira também parecia conquistada. Entediou-se de fazer algo tão normal e sem Ibope como boas reportagens? Seja o que for, até hoje não entendo como ele seguiu por esse caminho. Se fosse alguém que nunca teve possibilidade de construir a bagagem cultural que ele tem... É mais fácil adaptar-se à prosperidade após uma vida de miséria do que o contrário. Como se explica então?
Sei que, de uma raiva por promover um programa que não traz benefício algum à humanidade, passei a sentir pena dele. Não aquela pena arrogante, mas pena por testemunhar um desperdício deliberado de talento e, como já disse, de credibilidade. Além disso, ele, que servia como um referencial para mim, conseguiu uma façanha. Fez uma guinada de 180º e continuou sendo referencial: em vez de exemplo profissional, um desconstruidor de cidadania.
Descanse em paz, Pedro Bial. Prefiro lembrar de seu falecido porém honrado passado do que ligar a TV e contemplar seu putrefeito fim anunciado, morto-vivo. Como as mentes "famosísticas" dos condenados a participar de um BBB.
Eu nem imaginava fazer Jornalismo no dia em que o muro de Berlim caiu. Sendo sincero, eu nem entendia o que significava tanta gente tão feliz em martelar um muro que dividia dois países que sempre foram um e agora voltavam a ser - a Alemanha. O que eu me lembro é que eu tinha 9 anos e um correspondente internacional da Globo estava ao vivo no local dando a notícia.
Com o tempo eu percebi que ele era um correspondente respeitado, havia estado em vários momentos importantes da história do mundo para trazer tudo à minha telinha. Passou um pouquinho mais de tempo e eu fui conhecendo melhor a trajetória dele por meio de um livro muito legal: "Crônicas de repórter". Além dos relatos, o cara escrevia bem! Eram crônicas, de fato.
Aí eu descobri que esse mesmo repórter era um literário convicto. Imaginem: em seus 20 e poucos anos ia para o Largo da Carioca, no Rio, recitar poemas para os transeuntes! Não satisfeito, já repórter consagrado, continuou com a mania, dessa vez em saraus culturais por toda a cidade, com outros jovens poetas. Pra completar, revelou-se um fã de ninguém menos que Guimarães Rosa, um dos decanos de nossa literatura. De um livro do mestre fez um filme - "Outras estórias" - e a ousadia está em querer transportar para as telas a inigualável literatura do escritor sertanejo, que quase criou um idioma puramente brasileiro.
Esse repórter com alta bagagem cultural e senso crítico continuou em outras frentes, como o programa "Espaço Aberto", da Globonews. Um talk show com temas variados, com um apresentador característico para cada tema. O dele, claro, era literatura. No centenário de Drummond, por exemplo, fez uma ótima entrevista com Silviano Santiago, especialista da obra do poeta de sete faces. Todas as entrevistas eram do mesmo nível.
Meu ídolo!
"Adorar só a Deus", já dizia mamãe desde minha infância. E o Todo-Poderoso, dessa vez, não teve piedade. Castigou-me com uma situação que hoje desafia as leis da lógica, da física, deixando-me incrédulo com seu desfecho.
Pois o tal repórter virou a principal atração de um show de realidade onde a cultura sempre passou longe. Ele se tornou o mestre de cerimônias de pessoas não apenas emburrecidas como mega-exploradas - como carniça, são expostas ao Brasilzão em nome de preciosos pontos na audiência. O repórter colocou em xeque toda a credibilidade construída jornalisticamente, culturalmente. E acho que foi xeque-mate.
Por que se sujeitar a tal ofício? É tanto dinheiro assim? A fama ele já tinha, a realização na carreira também parecia conquistada. Entediou-se de fazer algo tão normal e sem Ibope como boas reportagens? Seja o que for, até hoje não entendo como ele seguiu por esse caminho. Se fosse alguém que nunca teve possibilidade de construir a bagagem cultural que ele tem... É mais fácil adaptar-se à prosperidade após uma vida de miséria do que o contrário. Como se explica então?
Sei que, de uma raiva por promover um programa que não traz benefício algum à humanidade, passei a sentir pena dele. Não aquela pena arrogante, mas pena por testemunhar um desperdício deliberado de talento e, como já disse, de credibilidade. Além disso, ele, que servia como um referencial para mim, conseguiu uma façanha. Fez uma guinada de 180º e continuou sendo referencial: em vez de exemplo profissional, um desconstruidor de cidadania.
Descanse em paz, Pedro Bial. Prefiro lembrar de seu falecido porém honrado passado do que ligar a TV e contemplar seu putrefeito fim anunciado, morto-vivo. Como as mentes "famosísticas" dos condenados a participar de um BBB.
sexta-feira, 2 de abril de 2004
As paixões da Paixão
Caramba, meio mundo já escreveu ou falou da "Paixão de Cristo". Agora é a minha vez!
O incrível é que, antes de ver o filme, quase fiquei sem vontade de assistí-lo. Porque, segundo a mídia em geral, era uma ofensa aos judeus (grandes heróis do século XX) e sangue até dar nojo. Anti-semitismo e violência davam o tom de um filme sobre Jesus Cristo? Tô fora.
Aí comecei a ler nas entrelinhas. E nas "foralinhas" também: a grita era geral contra as cenas fortes do filme, que nos EUA era classificado como R ("restricted" - restrito) e aqui só pra maiores de 14 anos. Mel Gibson mostra com detalhes os romanos castigando as costas de Jesus, ossos à mostra, a via crúcis e a crucificação em si. Um espetáculo mórbido demais para um blockbuster.
Pulga atrás da orelha 1: Gladiador, Coração Valente, O Patriota (estes 2 últimos, ambos de Gibson) possuem cenas de fechar os olhos. Por que não houve na época a mesma campanha midiatico-moralista contra uma exagero na dose? E o Xuazinégue, que a cada verão faz a alegria dos qua adoram ver uma degola, um braço explicitamente quebrado, sangue jorrando em meio à muita ação? Onde estão as pedras pra tacar nesses filmes abertamente violentos?
(Pior foi ver o Globo trazendo na chamada de capa que o filme era uma festa pros sadomasoquistas, pelas chicotadas no corpo seminu de Jesus. Convenhamos... bom senso manda lembranças e souvenires!)
Pulga atrás da orelha 2: de onde surgiu a discussão sobre "quem matou Jesus"? Fica mais do que claro que foi a elite política daquele período histórico, que não admitia perder popularidade e poder para um zé ninguém bem-intencionado, manipulando o povão de acordo com seus interesses pessoais. Para isso, flertam com o poder constituído - ainda que este seja uma afronta a tudo o que dizem crer - para os fins justificarem os meios. Alguma semelhança com os dias atuais??????
Aquela elite judaica não representa todos os judeus, assim como o sanguinário Ariel Sharon também não os representa nos dias de hoje. Assim como Bin Laden não representa todos os muçulmanos, assim como Edir Macedo não representa todos os evangélicos, assim como ACM não representa todos os políticos, assim como os neo-nazistas não representam todos os alemães... É impossível sair do filme tendo motivos para odiar os judeus. Aquele foi um período histórico representado.
(Em tempo: Steven Spielberg, só de raiva, fará um filme sobre a Inquisição. Ótimo, Sr. Spielberg. Mostre ao mundo o que não é ser cristão. Mostre o que é usar a fé dos fiéis para interesses terrenos, mesquinhos e pessoais. Assim como Mel Gibson fez ao mostrar os judeus do Sinédrio que condenou Jesus. Aliás, ninguém comenta a cena em que, quando Jesus está sendo acusado por testemunhas contraditórias, dois membros daquela elite tentam defendê-lo. Judeus defendendo Jesus. Que, por sinal, era judeu de nascença: Belém da Judéia).
E quanto à violência: segundo os Evangelhos, Jesus sofreu tudo aquilo, daquele jeito. Só que até hoje nenhum filme tinha enfatizado ou mostrado esse aspecto. Não quero aqui dizer que o filme é perfeito, que Gibson é profeta ou coisa do tipo. Mas somos bem grandinhos pra não cairmos em mais uma maniqueísmo imbecilizante. Ou não somos?
Ademais, transcrevo aqui uma entrevista de Jim Caviezel (que faz Jesus) à Newsweek que não mereceu sequer uma linha nessa polêmica toda. Mas era uma fonte indispensável para a mídia trabalhar com mais responsabilidade no servir ao público. E sobre o que realmente importa na história que dividiu a História:
Você é católico. Fazer o papel de Cristo aprofundou sua fé?
Eu O amo mais do que eu pensava que era possível. Eu O amo mais do que minha esposa, minha família. Houve momentos em que eu estava lá em cima (na cruz) e eu mal conseguia falar. Uma contínua hipotermia estava me torturando. Eu me conectei a um lugar onde eu nunca tinha ido. Eu não quero que as pessoas me vejam. Tudo o que quero é que elas vejam Jesus Cristo.
Mel Gibson te disse por que ele quis fazer esse filme?
Ele me disse que passou por um período muito difícil de sua vida, e que ele redescobriu os Evangelhos há 12 anos. Ele começou a meditar na paixão e morte de Jesus. Então disse que as feridas de Cristo curaram as feridas dele. E eu acho que o filme expressa isso.
Toda a polêmica em volta do filme – e o fato de Gibson ser acusado de anti-semitismo – surpreendeu você?
Foi a coisa mais frustrante de se ver. Posso te dizer com certeza, Mel não é anti-Semita. Maia Morgenstern (que faz a Virgem Maria) é uma linda atriz romana judia cujos pais estiveram no Holocausto. Todo dia Mel perguntava a ela: “Maia, fale sobre suas tradições. Isso está OK para ser encenado?”. Ele quis fazer esse filme bem semítico. Em vez de exibir um Jesus ariano, de olhos azuis, Mel quis mostrar um Jesus judeu. Nossa fé é baseada na tradição judaica. Viemos da Casa de Abraão, então não podemos odiar a nós mesmos. A multidão diante de Pilatos que pedia a cabeça de Jesus de nenhuma maneira pode condenar toda uma raça pela morte dele. Assim como as ações de Mussolini não condenam todos os italianos, ou as maldades de Stalin não condenam todos os russos. Todos nós somos culpados pela morte de Cristo. Meus pecados O colocaram lá (na cruz). Os seus também. Esse é o enredo do filme.
Foi difícil ficar quieto quando os líderes judeus esbravejaram contra o filme?
Eles têm o direito de defender sua fé. Mas eu creio que quando meus irmãos judeus assistirem esse filme, vão perceber que o roteiro não é sobre “de quem é a culpa”. É sobre amor. É sobre sacrifício. Sobre perdão e esperança.
Caramba, meio mundo já escreveu ou falou da "Paixão de Cristo". Agora é a minha vez!
O incrível é que, antes de ver o filme, quase fiquei sem vontade de assistí-lo. Porque, segundo a mídia em geral, era uma ofensa aos judeus (grandes heróis do século XX) e sangue até dar nojo. Anti-semitismo e violência davam o tom de um filme sobre Jesus Cristo? Tô fora.
Aí comecei a ler nas entrelinhas. E nas "foralinhas" também: a grita era geral contra as cenas fortes do filme, que nos EUA era classificado como R ("restricted" - restrito) e aqui só pra maiores de 14 anos. Mel Gibson mostra com detalhes os romanos castigando as costas de Jesus, ossos à mostra, a via crúcis e a crucificação em si. Um espetáculo mórbido demais para um blockbuster.
Pulga atrás da orelha 1: Gladiador, Coração Valente, O Patriota (estes 2 últimos, ambos de Gibson) possuem cenas de fechar os olhos. Por que não houve na época a mesma campanha midiatico-moralista contra uma exagero na dose? E o Xuazinégue, que a cada verão faz a alegria dos qua adoram ver uma degola, um braço explicitamente quebrado, sangue jorrando em meio à muita ação? Onde estão as pedras pra tacar nesses filmes abertamente violentos?
(Pior foi ver o Globo trazendo na chamada de capa que o filme era uma festa pros sadomasoquistas, pelas chicotadas no corpo seminu de Jesus. Convenhamos... bom senso manda lembranças e souvenires!)
Pulga atrás da orelha 2: de onde surgiu a discussão sobre "quem matou Jesus"? Fica mais do que claro que foi a elite política daquele período histórico, que não admitia perder popularidade e poder para um zé ninguém bem-intencionado, manipulando o povão de acordo com seus interesses pessoais. Para isso, flertam com o poder constituído - ainda que este seja uma afronta a tudo o que dizem crer - para os fins justificarem os meios. Alguma semelhança com os dias atuais??????
Aquela elite judaica não representa todos os judeus, assim como o sanguinário Ariel Sharon também não os representa nos dias de hoje. Assim como Bin Laden não representa todos os muçulmanos, assim como Edir Macedo não representa todos os evangélicos, assim como ACM não representa todos os políticos, assim como os neo-nazistas não representam todos os alemães... É impossível sair do filme tendo motivos para odiar os judeus. Aquele foi um período histórico representado.
(Em tempo: Steven Spielberg, só de raiva, fará um filme sobre a Inquisição. Ótimo, Sr. Spielberg. Mostre ao mundo o que não é ser cristão. Mostre o que é usar a fé dos fiéis para interesses terrenos, mesquinhos e pessoais. Assim como Mel Gibson fez ao mostrar os judeus do Sinédrio que condenou Jesus. Aliás, ninguém comenta a cena em que, quando Jesus está sendo acusado por testemunhas contraditórias, dois membros daquela elite tentam defendê-lo. Judeus defendendo Jesus. Que, por sinal, era judeu de nascença: Belém da Judéia).
E quanto à violência: segundo os Evangelhos, Jesus sofreu tudo aquilo, daquele jeito. Só que até hoje nenhum filme tinha enfatizado ou mostrado esse aspecto. Não quero aqui dizer que o filme é perfeito, que Gibson é profeta ou coisa do tipo. Mas somos bem grandinhos pra não cairmos em mais uma maniqueísmo imbecilizante. Ou não somos?
Ademais, transcrevo aqui uma entrevista de Jim Caviezel (que faz Jesus) à Newsweek que não mereceu sequer uma linha nessa polêmica toda. Mas era uma fonte indispensável para a mídia trabalhar com mais responsabilidade no servir ao público. E sobre o que realmente importa na história que dividiu a História:
Você é católico. Fazer o papel de Cristo aprofundou sua fé?
Eu O amo mais do que eu pensava que era possível. Eu O amo mais do que minha esposa, minha família. Houve momentos em que eu estava lá em cima (na cruz) e eu mal conseguia falar. Uma contínua hipotermia estava me torturando. Eu me conectei a um lugar onde eu nunca tinha ido. Eu não quero que as pessoas me vejam. Tudo o que quero é que elas vejam Jesus Cristo.
Mel Gibson te disse por que ele quis fazer esse filme?
Ele me disse que passou por um período muito difícil de sua vida, e que ele redescobriu os Evangelhos há 12 anos. Ele começou a meditar na paixão e morte de Jesus. Então disse que as feridas de Cristo curaram as feridas dele. E eu acho que o filme expressa isso.
Toda a polêmica em volta do filme – e o fato de Gibson ser acusado de anti-semitismo – surpreendeu você?
Foi a coisa mais frustrante de se ver. Posso te dizer com certeza, Mel não é anti-Semita. Maia Morgenstern (que faz a Virgem Maria) é uma linda atriz romana judia cujos pais estiveram no Holocausto. Todo dia Mel perguntava a ela: “Maia, fale sobre suas tradições. Isso está OK para ser encenado?”. Ele quis fazer esse filme bem semítico. Em vez de exibir um Jesus ariano, de olhos azuis, Mel quis mostrar um Jesus judeu. Nossa fé é baseada na tradição judaica. Viemos da Casa de Abraão, então não podemos odiar a nós mesmos. A multidão diante de Pilatos que pedia a cabeça de Jesus de nenhuma maneira pode condenar toda uma raça pela morte dele. Assim como as ações de Mussolini não condenam todos os italianos, ou as maldades de Stalin não condenam todos os russos. Todos nós somos culpados pela morte de Cristo. Meus pecados O colocaram lá (na cruz). Os seus também. Esse é o enredo do filme.
Foi difícil ficar quieto quando os líderes judeus esbravejaram contra o filme?
Eles têm o direito de defender sua fé. Mas eu creio que quando meus irmãos judeus assistirem esse filme, vão perceber que o roteiro não é sobre “de quem é a culpa”. É sobre amor. É sobre sacrifício. Sobre perdão e esperança.
terça-feira, 16 de março de 2004
Espanha, nossa aspiração!
Foi incrível o que aconteceu na Espanha semana passada. Um fato que envolveu a população do país e chamou a atenção do mundo para o que estava acontecendo naquela nação, que não é muito protagonista no cenário mundial.
E olha que não estou falando do atentado!
Fantástico foi ver a maturidade democrática dos espanhóis. Breve resumo: o partido do governo, favorito à reeleição de sua maioria parlamentar, atribuiu ao grupo separatista ETA a autoria do atentado no trem de Madri. Hipótese que prosseguiu sendo defendida mesmo depois do próprio ETA negar (coisa que nunca faz, pois orgulha-se de suas manifestações de terror) e da polícia averiguar que as características desse atentado não eram as típicas do ETA. Por exemplo, a alta travessia de civis no local.
Pois bem, a pergunta que ficou no ar após as bombas foi: qual a razão para um país "bonzinho" como a Espanha ser alvo de algo tão cruel? Quando começaram a surgir os indícios da Al-Quaeda (foi dia 11, dentre outros), outra pergunta surgiu, dessa vez com a resposta embutida: quem apoiou EUA e Inglaterra na invasão do Iraque??? Diante de tudo isso, o partido do governo ignorou tais informações - então de domínio público - teimou que era o ETA e assim fez até o dia da eleição. Analistas políticos afirmaram que, após a vitória assegurada, admitiriam a autoria real dos atentados. Assim, quando a revolta popular responsabilizasse o governo que levou o país à guerra (que, por retaliação árabe, transformou a Espanha em alvo), já era tarde, e a reeleição estaria consumada.
Acontece que o povo espanhol é "escolado". Um cartaz com os dizeres "ANTES DE VOTAR, A VERDADE" destacava-se, revelando o espírito crítico dos abalados cidadãos. Resultado: o partido do governo perdeu. Os socialistas que em 1996 foram tirados do poder após acusações de corrupção, venciam os que tentavam corromper informações e enganar milhões.
Portanto, brasileiras e brasileiros, aspiremos à Espanha. Seja esse o destino final e permanente de nossa democracia. Eles não complicaram: enganou e roubou, a gente derruba no voto. Não cederam à emoção, embora esta revelou-se de vital importância para dizerem que não se usa os sentimentos de um povo para interesses particulares. Quem sonega informações tentando manipular as massas merece o esquecimento, ensinam os espanhóis. Algum político brasileiro está sendo lembrado nesse momento?
A maturidade espanhola na hora de dizer NÃO aos cínicos do poder valoriza ainda mais a democracia. Pois, como devia ser sempre, o personagem principal dos fatos que pararam o mundo foi ele, o povo. Nada é mais notícia do que isso. Quem tem ouvidos para ouvir, perceba logo. Ou mude-se para a terra de Dom Quixote e lá serás como ele: isolado sonhador, pensando que votar é obrigação chata ou brincadeira fora de hora.
Foi incrível o que aconteceu na Espanha semana passada. Um fato que envolveu a população do país e chamou a atenção do mundo para o que estava acontecendo naquela nação, que não é muito protagonista no cenário mundial.
E olha que não estou falando do atentado!
Fantástico foi ver a maturidade democrática dos espanhóis. Breve resumo: o partido do governo, favorito à reeleição de sua maioria parlamentar, atribuiu ao grupo separatista ETA a autoria do atentado no trem de Madri. Hipótese que prosseguiu sendo defendida mesmo depois do próprio ETA negar (coisa que nunca faz, pois orgulha-se de suas manifestações de terror) e da polícia averiguar que as características desse atentado não eram as típicas do ETA. Por exemplo, a alta travessia de civis no local.
Pois bem, a pergunta que ficou no ar após as bombas foi: qual a razão para um país "bonzinho" como a Espanha ser alvo de algo tão cruel? Quando começaram a surgir os indícios da Al-Quaeda (foi dia 11, dentre outros), outra pergunta surgiu, dessa vez com a resposta embutida: quem apoiou EUA e Inglaterra na invasão do Iraque??? Diante de tudo isso, o partido do governo ignorou tais informações - então de domínio público - teimou que era o ETA e assim fez até o dia da eleição. Analistas políticos afirmaram que, após a vitória assegurada, admitiriam a autoria real dos atentados. Assim, quando a revolta popular responsabilizasse o governo que levou o país à guerra (que, por retaliação árabe, transformou a Espanha em alvo), já era tarde, e a reeleição estaria consumada.
Acontece que o povo espanhol é "escolado". Um cartaz com os dizeres "ANTES DE VOTAR, A VERDADE" destacava-se, revelando o espírito crítico dos abalados cidadãos. Resultado: o partido do governo perdeu. Os socialistas que em 1996 foram tirados do poder após acusações de corrupção, venciam os que tentavam corromper informações e enganar milhões.
Portanto, brasileiras e brasileiros, aspiremos à Espanha. Seja esse o destino final e permanente de nossa democracia. Eles não complicaram: enganou e roubou, a gente derruba no voto. Não cederam à emoção, embora esta revelou-se de vital importância para dizerem que não se usa os sentimentos de um povo para interesses particulares. Quem sonega informações tentando manipular as massas merece o esquecimento, ensinam os espanhóis. Algum político brasileiro está sendo lembrado nesse momento?
A maturidade espanhola na hora de dizer NÃO aos cínicos do poder valoriza ainda mais a democracia. Pois, como devia ser sempre, o personagem principal dos fatos que pararam o mundo foi ele, o povo. Nada é mais notícia do que isso. Quem tem ouvidos para ouvir, perceba logo. Ou mude-se para a terra de Dom Quixote e lá serás como ele: isolado sonhador, pensando que votar é obrigação chata ou brincadeira fora de hora.
quarta-feira, 10 de março de 2004
O avião, a feira, a viagem
Quando foi a primeira vez que viajei de avião?
1999.
Tinha meus 18 anos e ganharia as alturas como nunca antes, sozinho. No aeroporto, minha família se despedia de mim aos prantos, como se estivesse indo à guerra. Só 4 dias, pôxa! Destino: nordeste brasileiro. Visitei Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.
1989.
Dez anos antes de minha primeira jornada proporcionada por Santos-Dumont, mudei-me para São Cristóvão. Mais precisamente, no Campo de São Cristóvão. Mais precisamente ainda, pertinho da famosa feira dos nordestinos, feira dos paraíbas, feira de São Cristóvão. Dormia com aquelas musiquinhas de forró ao fundo, o triângulo batendo solto, a sanfona insone. E escola no dia seguinte!
Odeio as comidas nordestinas, odiava a música nordestina. Se duvidar, tinha péssimos olhos para aquela gente de cabeça chata, sotaque quase caricato, dança cafona. Povinho ignorante, pensava eu. E eliminava do meu Brasil aqueles brasileiros, honrando o preconceito em nome de minhas preferências pessoais.
2004.
Embarco em outra viagem, promovida por outro Dumont. José Dumont, ator que já havia encarnado a "Morte e vida severina" na TV e que voltava no tempo para me apresentar "O homem que virou suco", filme da época da ditadura. Filme que descreve a realidade do povo nordestino em êxodo rural e seu sofrer em São Paulo. Gente que sai de suas raízes para ser "espremido" pela miséria, subemprego/desemprego, preconceito, injustiça, desilusão até virar suco de laranja, como diz o próprio Dumont numa das cenas do filme.
E os que conseguiram vencer de alguma maneira, ou ao menos sobreviver com um mínimo de dignidade, ainda tinham que se superar, superar a saudade da terra tão querida, das origens incomparáveis, insubstituíveis. O carioca aqui, que só foi viajar quilômetros porque quis, com tudo pago e de avião bem confortável - para o Nordeste, vejam só - sentia-se invadido em suas terras por aquela gente esquisita.
Todos são esquisitos até que conheçamos sua história.
E conhecer a história desse povo é perceber que a feira que atrapalhava meu sono classe média era o lugar da lembrança da terra natal. O reencontro com sua cultura, em todas as suas manifestações, ainda que por apenas um fim de semana. Um fim de semana que valia o esforço da vida até então. Valia o preconceito sofrido desde o momento em que era forçado a render-se à urbanização e seus falsos progressos.
(Progresso em concreto é sepulcro caiado. Está lá o nosso interior assassinando quem não se enquadra em nosso contexto social. Cidade partida, país partido, coração idem.)
Estão aí os porteiros, pedreiros, mão-de-obra desqualificada de toda sorte, repentistas, balconistas e outras mais, clamando com sotaque arretado por reconhecimento. Reconhecimento digno, pois dignos são seus empregos, por mais que os MBAs nos façam pensar o contrário. Dignidade não se compra.
O sertanejo é, antes de tudo um forte, dizia Euclides da Cunha. Referia-se à histórica resistência de Canudos. Parece genético. Hoje, eles matam um exército republicano por dia. E ainda "batem coxa" no fim de semana, valorizando a cultura brasileira, a sua cultura, valorizando-se. Coisa que nosso orgulho metropolitano progressista nunca nos proporcionou.
Suco ácido. Revigorante. O povo nordestino parece mais brasileiro que o Brasil.
Quando foi a primeira vez que viajei de avião?
1999.
Tinha meus 18 anos e ganharia as alturas como nunca antes, sozinho. No aeroporto, minha família se despedia de mim aos prantos, como se estivesse indo à guerra. Só 4 dias, pôxa! Destino: nordeste brasileiro. Visitei Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.
1989.
Dez anos antes de minha primeira jornada proporcionada por Santos-Dumont, mudei-me para São Cristóvão. Mais precisamente, no Campo de São Cristóvão. Mais precisamente ainda, pertinho da famosa feira dos nordestinos, feira dos paraíbas, feira de São Cristóvão. Dormia com aquelas musiquinhas de forró ao fundo, o triângulo batendo solto, a sanfona insone. E escola no dia seguinte!
Odeio as comidas nordestinas, odiava a música nordestina. Se duvidar, tinha péssimos olhos para aquela gente de cabeça chata, sotaque quase caricato, dança cafona. Povinho ignorante, pensava eu. E eliminava do meu Brasil aqueles brasileiros, honrando o preconceito em nome de minhas preferências pessoais.
2004.
Embarco em outra viagem, promovida por outro Dumont. José Dumont, ator que já havia encarnado a "Morte e vida severina" na TV e que voltava no tempo para me apresentar "O homem que virou suco", filme da época da ditadura. Filme que descreve a realidade do povo nordestino em êxodo rural e seu sofrer em São Paulo. Gente que sai de suas raízes para ser "espremido" pela miséria, subemprego/desemprego, preconceito, injustiça, desilusão até virar suco de laranja, como diz o próprio Dumont numa das cenas do filme.
E os que conseguiram vencer de alguma maneira, ou ao menos sobreviver com um mínimo de dignidade, ainda tinham que se superar, superar a saudade da terra tão querida, das origens incomparáveis, insubstituíveis. O carioca aqui, que só foi viajar quilômetros porque quis, com tudo pago e de avião bem confortável - para o Nordeste, vejam só - sentia-se invadido em suas terras por aquela gente esquisita.
Todos são esquisitos até que conheçamos sua história.
E conhecer a história desse povo é perceber que a feira que atrapalhava meu sono classe média era o lugar da lembrança da terra natal. O reencontro com sua cultura, em todas as suas manifestações, ainda que por apenas um fim de semana. Um fim de semana que valia o esforço da vida até então. Valia o preconceito sofrido desde o momento em que era forçado a render-se à urbanização e seus falsos progressos.
(Progresso em concreto é sepulcro caiado. Está lá o nosso interior assassinando quem não se enquadra em nosso contexto social. Cidade partida, país partido, coração idem.)
Estão aí os porteiros, pedreiros, mão-de-obra desqualificada de toda sorte, repentistas, balconistas e outras mais, clamando com sotaque arretado por reconhecimento. Reconhecimento digno, pois dignos são seus empregos, por mais que os MBAs nos façam pensar o contrário. Dignidade não se compra.
O sertanejo é, antes de tudo um forte, dizia Euclides da Cunha. Referia-se à histórica resistência de Canudos. Parece genético. Hoje, eles matam um exército republicano por dia. E ainda "batem coxa" no fim de semana, valorizando a cultura brasileira, a sua cultura, valorizando-se. Coisa que nosso orgulho metropolitano progressista nunca nos proporcionou.
Suco ácido. Revigorante. O povo nordestino parece mais brasileiro que o Brasil.
domingo, 29 de fevereiro de 2004
Da decepção
Déjà vu surge a torto e a direito, a ponto de já presenciarmos o déjà vu do déjà vu. Com a política brasileira, tal fenômeno voltou a voltar a ocorrer nas últimas semanas. A tal "pureza ética" do PT, por mais que essa expressão soe idílica demais, era uma impressão real. Ou não daria tanto barulho ao ser arranhada. Mesmo contrariados, opositores eram obrigados a aceitar isso, tendo em vista a escassez de estatísticas de corrupção nos quadros do Partido dos Trabalhadores.
Todavia, não é que eles também tinham o seu PC?
Se Dirceu estava envolvido ou não, se sabia ou não, se o Governo foi conivente ou não... Tudo isso se resume às disputas de cargos em Brasília, essa ilha em alta terra, tão distante da população quanto à época da Independência. O turbilhão no centro do poder, usando uma expressão de Aristides Lobo, está sendo assistido por um povo "bestializado", meramente espectador dos acontecimentos. Ou não?
Por isso, transponho as notícias do Planalto a uma realidade superior aos joguinhos de poder tão comuns ao ser humano. Como fica nossa cidadania perante tudo isso?
Uma vez que o PT representava, no imaginário coletivo, o último "bastião ético da política" (bonito esse jargão, né? Mais uma pérola da repetitiva imprensa brasileira), que motivação para seguir acreditando? Que estímulo, que incentivo à participação política por meio do voto, uma vez que a corrupção parece ser o grande proprietário dos destinos da nação, desde 1500?
Só essa questão me interessa. O resto é em Brasília, esse distante país, essa tragédia que JK ajudou a construir. Ah, como diz Herbert Vianna, se essa palhaçada fosse na Cinelândia, ia ter muita gente pra juntar na saída, pra fazer justiça uma vez na vida.
Brasília é a concretização de um sonho comum aos íntegros e aos corruptos. A materialização da plenitude da arquitetura e do ideal de progresso; a marcação cerrada de uma distância do povo, esse ser amorfo e invocado a cada 4 anos ou a pretexto demagógico. Mas que, tendo oportunidade, faz valer o seu direito.
É fazendo parte desse ser amorfo que prossigo querendo fazer valer o meu direito. E o meu dever. O meu direito de votar e o meu dever de acompanhar; o meu direito de escolher e o meu dever de reprovar, deixando de votar em quem esqueceu que foi votado um dia. Defendo meu direito de saber do que acontece com meu dinheiro tornado público, e meu dever de prestar minhas contas sem sonegação. Afinal, boa parte dos escândalos que nos enojam nada mais são que pequenos escandalozinhos do cotidiano em escala maior.
A corrupção endêmica brasileira é o pretenso cidadão pego em flagra na sua hipocrisia. É nessas horas que confirmamos nosso sistema político: democrático REPRESENTATIVO, do bom e do pior. A coerência começa em nós, em nossos círculos pessoais, em nossos alcances devidos. Não precisamos de partidos para projetar o que deveríamos ser e não temos coragem.
Diante disso, repensemos o nosso conceito de decepção perante a canalhice da vez.
Déjà vu surge a torto e a direito, a ponto de já presenciarmos o déjà vu do déjà vu. Com a política brasileira, tal fenômeno voltou a voltar a ocorrer nas últimas semanas. A tal "pureza ética" do PT, por mais que essa expressão soe idílica demais, era uma impressão real. Ou não daria tanto barulho ao ser arranhada. Mesmo contrariados, opositores eram obrigados a aceitar isso, tendo em vista a escassez de estatísticas de corrupção nos quadros do Partido dos Trabalhadores.
Todavia, não é que eles também tinham o seu PC?
Se Dirceu estava envolvido ou não, se sabia ou não, se o Governo foi conivente ou não... Tudo isso se resume às disputas de cargos em Brasília, essa ilha em alta terra, tão distante da população quanto à época da Independência. O turbilhão no centro do poder, usando uma expressão de Aristides Lobo, está sendo assistido por um povo "bestializado", meramente espectador dos acontecimentos. Ou não?
Por isso, transponho as notícias do Planalto a uma realidade superior aos joguinhos de poder tão comuns ao ser humano. Como fica nossa cidadania perante tudo isso?
Uma vez que o PT representava, no imaginário coletivo, o último "bastião ético da política" (bonito esse jargão, né? Mais uma pérola da repetitiva imprensa brasileira), que motivação para seguir acreditando? Que estímulo, que incentivo à participação política por meio do voto, uma vez que a corrupção parece ser o grande proprietário dos destinos da nação, desde 1500?
Só essa questão me interessa. O resto é em Brasília, esse distante país, essa tragédia que JK ajudou a construir. Ah, como diz Herbert Vianna, se essa palhaçada fosse na Cinelândia, ia ter muita gente pra juntar na saída, pra fazer justiça uma vez na vida.
Brasília é a concretização de um sonho comum aos íntegros e aos corruptos. A materialização da plenitude da arquitetura e do ideal de progresso; a marcação cerrada de uma distância do povo, esse ser amorfo e invocado a cada 4 anos ou a pretexto demagógico. Mas que, tendo oportunidade, faz valer o seu direito.
É fazendo parte desse ser amorfo que prossigo querendo fazer valer o meu direito. E o meu dever. O meu direito de votar e o meu dever de acompanhar; o meu direito de escolher e o meu dever de reprovar, deixando de votar em quem esqueceu que foi votado um dia. Defendo meu direito de saber do que acontece com meu dinheiro tornado público, e meu dever de prestar minhas contas sem sonegação. Afinal, boa parte dos escândalos que nos enojam nada mais são que pequenos escandalozinhos do cotidiano em escala maior.
A corrupção endêmica brasileira é o pretenso cidadão pego em flagra na sua hipocrisia. É nessas horas que confirmamos nosso sistema político: democrático REPRESENTATIVO, do bom e do pior. A coerência começa em nós, em nossos círculos pessoais, em nossos alcances devidos. Não precisamos de partidos para projetar o que deveríamos ser e não temos coragem.
Diante disso, repensemos o nosso conceito de decepção perante a canalhice da vez.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004
Prazer, obrigação, suspiros
Ao passar no vestibular, nos idos de 2000, ouvi a sapiência de um amigo entrado em dias: "Na faculdade temos duas grandes alegrias: quando passamos e quando nos formamos". Preciosas e proféticas palavras. Em meu período pré-calourano, tal afirmação me escandalizava! Hoje, constato ser verdade. Mas por que isso se dá?
Não é apenas pelo fato de estarmos terminando uma etapa de nossa vida. É preciso falar de uma realidade que qualquer graduando com real interesse na qualidade de sua formação se depara: o que poderia ser um aprendizado prazeiroso, muitas vezes transmuta-se em penosas obrigações.
De novo: por que isso se dá? Pode ser pelo professor, pela expectativa que colocamos em determinadas matérias, pelos mitos da profissão que vão caindo pelo caminho... Mas, tratando-se de ensino e de sua apreensão, perdoem-me os docentes, o mestre tem uma extrema dose de responsabilidade quanto ao resultado em forma de decepção.
Como em qualquer ambiente educacional, os alunos estão subjugados ao professor, desde o conteúdo a ser transmitido até as práticas de aula. E não são poucos os casos em que esperamos muito de uma matéria ao ver sua ementa e o dia-a-dia de seu desenvolvimento ser um desejo de que tudo acabe o mais rápido possível. 8 ou 80: se um extremo compõe-se de professores desleixados que adoram uma única avaliação final pra ninguém ser reprovado e ele dar a aula que quiser; outro é a existência de mestres que fazem da aula uma seqüência de pontos a bater, a cada semana um seminário complexo a ser apresentado, um denso trabalho de grupo, testes que parecem querer provar que você nunca saberá nada do que pensa estar aprendendo.
Caros leitores, nào prego aqui a vagabundagem sem peso na consciência. Mas chamo a atenção para o potencial que o professor tem de destruir a sede de saber que necessitamos até o fim dos dias. E logo no pior ambiente para isso: a escola ou a universidade. Se ainda fosse em seu exemplo de vida, isso seria uma questão mais complexa e fora do âmbito da aula. Mas se no ofício para o qual se preparou para exercer ele extermina o foco da sua profissão, ficamos desolados.
A outra face é verdadeira: professores que marcaram nossa vida (positivamente) foram os que encarnaram o bom senso em sua multiplicidade: amizade, cobranças, notas justas e aulas idem, desejo de promoção social discente - não de terrorismo com o mínimo de autoridade. Ou de ofensiva indiferença perante os que dele dependem para aprender.
Portanto, façam valer o 15 de outubro. Não negligenciem a a árdua mas recompensadora tarefa - para uma geração inteira - à qual foram predestinados. Sei que haverá motivos que desmotivam no decorrer da carreira. Porém, outros de igual forma buscam atenuar a contrapartida dos alunos. Estamos no mesmo barco e acreditem, todos queremos ser bem-sucedidos como Noé.
Ao passar no vestibular, nos idos de 2000, ouvi a sapiência de um amigo entrado em dias: "Na faculdade temos duas grandes alegrias: quando passamos e quando nos formamos". Preciosas e proféticas palavras. Em meu período pré-calourano, tal afirmação me escandalizava! Hoje, constato ser verdade. Mas por que isso se dá?
Não é apenas pelo fato de estarmos terminando uma etapa de nossa vida. É preciso falar de uma realidade que qualquer graduando com real interesse na qualidade de sua formação se depara: o que poderia ser um aprendizado prazeiroso, muitas vezes transmuta-se em penosas obrigações.
De novo: por que isso se dá? Pode ser pelo professor, pela expectativa que colocamos em determinadas matérias, pelos mitos da profissão que vão caindo pelo caminho... Mas, tratando-se de ensino e de sua apreensão, perdoem-me os docentes, o mestre tem uma extrema dose de responsabilidade quanto ao resultado em forma de decepção.
Como em qualquer ambiente educacional, os alunos estão subjugados ao professor, desde o conteúdo a ser transmitido até as práticas de aula. E não são poucos os casos em que esperamos muito de uma matéria ao ver sua ementa e o dia-a-dia de seu desenvolvimento ser um desejo de que tudo acabe o mais rápido possível. 8 ou 80: se um extremo compõe-se de professores desleixados que adoram uma única avaliação final pra ninguém ser reprovado e ele dar a aula que quiser; outro é a existência de mestres que fazem da aula uma seqüência de pontos a bater, a cada semana um seminário complexo a ser apresentado, um denso trabalho de grupo, testes que parecem querer provar que você nunca saberá nada do que pensa estar aprendendo.
Caros leitores, nào prego aqui a vagabundagem sem peso na consciência. Mas chamo a atenção para o potencial que o professor tem de destruir a sede de saber que necessitamos até o fim dos dias. E logo no pior ambiente para isso: a escola ou a universidade. Se ainda fosse em seu exemplo de vida, isso seria uma questão mais complexa e fora do âmbito da aula. Mas se no ofício para o qual se preparou para exercer ele extermina o foco da sua profissão, ficamos desolados.
A outra face é verdadeira: professores que marcaram nossa vida (positivamente) foram os que encarnaram o bom senso em sua multiplicidade: amizade, cobranças, notas justas e aulas idem, desejo de promoção social discente - não de terrorismo com o mínimo de autoridade. Ou de ofensiva indiferença perante os que dele dependem para aprender.
Portanto, façam valer o 15 de outubro. Não negligenciem a a árdua mas recompensadora tarefa - para uma geração inteira - à qual foram predestinados. Sei que haverá motivos que desmotivam no decorrer da carreira. Porém, outros de igual forma buscam atenuar a contrapartida dos alunos. Estamos no mesmo barco e acreditem, todos queremos ser bem-sucedidos como Noé.
domingo, 8 de fevereiro de 2004
Voltei, voltei...
As desculpas não eram muitas, sequer inventadas. Mas, de fato, faz tempo que não escrevo por aqui. Porém acabei me inspirando em meu último post pra tornar esse blog atualizado de maneira mais constante.
Como assim?, você pergunta. Ninguém sabe, mas escrevi o poeminha abaixo no meu trabalho. Sou bancário - ou melhor, ESTOU bancário - e de 8 às 10 da manhã dou meu plantãozinho no hall com máquinas de saque. É isso mesmo, ajudando milhões de velhinhos diariamente, traduzindo para a língua terráquea o que diz ali no extrato... E num dia de pouco movimento, rabisquei num canto da prancheta o meu Anseio. Referia-se a minha situação profissional atual.
Mas por que ele me inspirou?, você pergunta de novo. Porque não fiquei esperando a melhor situação pra escrevê-lo, pra desabafar nas letras, pra desenvolver meu talentozinho. E o Lessog estava sofrendo disso: procrastinação. Em português javélico, empurrar com a barriga. Tive suspeita de tendinite, a tão conhecida falta de tempo, o fantasma do ter-que-estudar. E nada de blog atualizado.
Também havia meu pensamento metido a organizadinho que havia baixado uma lei invisível no Lessog: apenas artigos opinativos sobre fatos conhecidos, divulgados na mídia em geral. Tom pessoal? Nããão! Isso todo blog tem. Aqui é o lugar pra originalidade! (Não sei se um blog desatualizado é tão original assim...)
Posto isso, saibam meus queridos leitores (sim, existem, a caixa de comentários é a certidão de nascimento deles!) que escreverei aqui quando der na telha. Dizem que se você não bota pra fora sua raiva pode vir a ter câncer. Se eu não escrever quando a inspiração me seqüestrar, ficarei claustrofóbico no cativeiro. Logo, os temas vão variar mais. Hoje, por exemplo, escrevo sobre voltar a escrever. Uma metalinguagem não faz mal a ninguém...
Mas estou de volta! O tom pessoal, o quase-diário vem dividir espaço com minha verve jornalística e opinativa sobre tudo e todos. Peço que o habitante por trás das janelas de sua alma se aprochegue e não se apoquente. Não haverá arrependimento por tascar as pupilas no Lessog. E fique atento, porque daqui a um tempinho (sem força de expressão) tem post novo. E tenho escrito.
As desculpas não eram muitas, sequer inventadas. Mas, de fato, faz tempo que não escrevo por aqui. Porém acabei me inspirando em meu último post pra tornar esse blog atualizado de maneira mais constante.
Como assim?, você pergunta. Ninguém sabe, mas escrevi o poeminha abaixo no meu trabalho. Sou bancário - ou melhor, ESTOU bancário - e de 8 às 10 da manhã dou meu plantãozinho no hall com máquinas de saque. É isso mesmo, ajudando milhões de velhinhos diariamente, traduzindo para a língua terráquea o que diz ali no extrato... E num dia de pouco movimento, rabisquei num canto da prancheta o meu Anseio. Referia-se a minha situação profissional atual.
Mas por que ele me inspirou?, você pergunta de novo. Porque não fiquei esperando a melhor situação pra escrevê-lo, pra desabafar nas letras, pra desenvolver meu talentozinho. E o Lessog estava sofrendo disso: procrastinação. Em português javélico, empurrar com a barriga. Tive suspeita de tendinite, a tão conhecida falta de tempo, o fantasma do ter-que-estudar. E nada de blog atualizado.
Também havia meu pensamento metido a organizadinho que havia baixado uma lei invisível no Lessog: apenas artigos opinativos sobre fatos conhecidos, divulgados na mídia em geral. Tom pessoal? Nããão! Isso todo blog tem. Aqui é o lugar pra originalidade! (Não sei se um blog desatualizado é tão original assim...)
Posto isso, saibam meus queridos leitores (sim, existem, a caixa de comentários é a certidão de nascimento deles!) que escreverei aqui quando der na telha. Dizem que se você não bota pra fora sua raiva pode vir a ter câncer. Se eu não escrever quando a inspiração me seqüestrar, ficarei claustrofóbico no cativeiro. Logo, os temas vão variar mais. Hoje, por exemplo, escrevo sobre voltar a escrever. Uma metalinguagem não faz mal a ninguém...
Mas estou de volta! O tom pessoal, o quase-diário vem dividir espaço com minha verve jornalística e opinativa sobre tudo e todos. Peço que o habitante por trás das janelas de sua alma se aprochegue e não se apoquente. Não haverá arrependimento por tascar as pupilas no Lessog. E fique atento, porque daqui a um tempinho (sem força de expressão) tem post novo. E tenho escrito.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2004
ANSEIO
É preciso ser o cara certo
(Com capacidade)
No lugar certo
Fazendo o que gosta
Para que sinta o realizar-se.
A conjugação com o sustento
É vital, porém
Aprisionadora de sonhos
Acorrentadora da fé
Destruidora de buscas.
Por vezes desejo uma crise
Que abale tudo, mude as circunstâncias
Para que o movimento de transformação seja inevitável,
Indispensável, imprescindível!
Antes, impossível;
Agora, obrigação da natureza.
É preciso ser o cara certo
(Com capacidade)
No lugar certo
Fazendo o que gosta
Para que sinta o realizar-se.
A conjugação com o sustento
É vital, porém
Aprisionadora de sonhos
Acorrentadora da fé
Destruidora de buscas.
Por vezes desejo uma crise
Que abale tudo, mude as circunstâncias
Para que o movimento de transformação seja inevitável,
Indispensável, imprescindível!
Antes, impossível;
Agora, obrigação da natureza.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2003
ABL: Academia Brasileira de Lamentações
Em um futuro próximo alguém irá abordar em sua tese de doutorado a influência da revista CARAS no Brasil da virada de século. Sério! São tantas as áreas de nossa sociedade e suas representações que olhamos e logo vaticinamos: "Putz, isso é muito revista CARAS!". Hoje vou falar de uma dessas situações pitorescas, como a que vem acontecendo com a Academia Brasileira de Letras faz tempo.
É doloroso, para isso, ter que lembrar como surgiu a Academia. Ela foi idealizada por ninguém menos que o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis. Observem suas palavras em 7 de dezembro de 1897:
"A Academia, trabalhando pelo conhecimento [...], buscará ser, com o tempo, a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não venha das fontes legítimas, - o povo e os escritores, - não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica. Guardar não é impor; nenhum de vós tem para si que a Academia decrete fórmulas. E depois, para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a composição e a conservação de obras clássicas."
E a tradição da ABL começou assim, com os escritores que hoje estudamos (ainda que apenas em época de Vestibular) tendo conquistado seu espaço atendendo ao objetivo firmado por Machado de Assis e seus contemporâneos. Diante disso, é impossível olhar a Academia atual e achar que ela continua na missão dada por seus fundadores. É só pensar um pouquinho sobre os recém-eleitos (e até mesmo alguns antigos) pra chegar a essa conclusão.
Marco Maciel: ex-vice-presidente por 2 vezes consecutivas, político experiente de Pernambuco, ocupa hoje a vaga que foi de Roberto Marinho. Que livros Maciel escreveu? Que dedicação ele teve para a guarda da nossa língua, defendendo-a do que não vem de fontes legítimas? Se assim aconteceu, o foi de forma bem discreta e sem alcance nacional. Então, por que ser um imortal da Academia BRASILEIRA de Letras?
O mesmo para Ivo Pitanguy. O que um cirurgião plástico, ainda que de renome internacional, faz na Academia Brasileira... de LETRAS? Em seu currículo no site da ABL, são citadas mais de 800 obras especializadas na área médica, traduzidas para vários países... E pela nossa língua? O que ele fez? Alguém aí sabe?
O caso de Paulo Coelho também destaca-se. É o escritor da moda, não há dúvida. São milhões de livros vendidos no mundo inteiro, o "Alquimista" já está virando filme de Hollywood, o outrora bruxo hoje é grande escritor competindo em cifras com o aprendiz Harry Potter. Ironicamente, muitos que abraçaram a leitura desde criança (que são em número bem menor que os aficcionados pela onda do momento) não gostam das letras de Paulo Coelho. E Machado dizia: a Academia deve defender a língua "não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica". E lá está Paulo Coelho, imortalíssimo.
Ao contrário dos imortais acima, os demais não são tão conhecidos. Ao menos, nunca apareceram em qualquer revista CARAS. Por que será? Sem contar que as eleições para a ABL, de uns tempos pra cá, viraram show, coisa de palpiteiro e de gente se auto-candidatando sem a menor vergonha na cara. Jô Soares foi um deles, lembra? E olha que ele fez isso entrevistando a então presidente da ABL, Nélida Piñon! Isso é muito revista CARAS...
Infelizmente, não é apenas isso que me entristece ao ver a situação atual da ABL. Recentemente, no seminário "Jornalismo e Literatura", não foram poucos os lamentos sobre a situação educacional do Brasil. Que ainda há muitos analfabetos, que não há tantos leitores na mesma proporção da venda de livros, que os Governos estão deixando a desejar nessa prioridade. Só não dá pra pensar que a ABL nada tem a ver com isso. Em vez de aproveitarem o exemplo dado na ditadura pela Ordem dos Advogados do Brasil e pela Associação Brasileira de Imprensa - que eram a consciência crítica da sociedade, atuantes nacionalmente a respeito das questões de suas respectivas áreas - a Academia Brasleira de Letras prefere lamentar. Ou pior, prefere aparecer nos jornais e para o contexto social ao qual pertence como uma fogueira das vaidades cada vez mais pitoresca.
É uma escolha que os acadêmicos atuais estão fazendo. Ainda que não votem em nomes que nada tem a ver com o ideal de Machado, não têm se pronunciado como devido para impedir o pior: a descaracterização da Academia. Não se sabe mais que Letras querem defender, afinal.
Em um futuro próximo alguém irá abordar em sua tese de doutorado a influência da revista CARAS no Brasil da virada de século. Sério! São tantas as áreas de nossa sociedade e suas representações que olhamos e logo vaticinamos: "Putz, isso é muito revista CARAS!". Hoje vou falar de uma dessas situações pitorescas, como a que vem acontecendo com a Academia Brasileira de Letras faz tempo.
É doloroso, para isso, ter que lembrar como surgiu a Academia. Ela foi idealizada por ninguém menos que o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis. Observem suas palavras em 7 de dezembro de 1897:
"A Academia, trabalhando pelo conhecimento [...], buscará ser, com o tempo, a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não venha das fontes legítimas, - o povo e os escritores, - não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica. Guardar não é impor; nenhum de vós tem para si que a Academia decrete fórmulas. E depois, para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a composição e a conservação de obras clássicas."
E a tradição da ABL começou assim, com os escritores que hoje estudamos (ainda que apenas em época de Vestibular) tendo conquistado seu espaço atendendo ao objetivo firmado por Machado de Assis e seus contemporâneos. Diante disso, é impossível olhar a Academia atual e achar que ela continua na missão dada por seus fundadores. É só pensar um pouquinho sobre os recém-eleitos (e até mesmo alguns antigos) pra chegar a essa conclusão.
Marco Maciel: ex-vice-presidente por 2 vezes consecutivas, político experiente de Pernambuco, ocupa hoje a vaga que foi de Roberto Marinho. Que livros Maciel escreveu? Que dedicação ele teve para a guarda da nossa língua, defendendo-a do que não vem de fontes legítimas? Se assim aconteceu, o foi de forma bem discreta e sem alcance nacional. Então, por que ser um imortal da Academia BRASILEIRA de Letras?
O mesmo para Ivo Pitanguy. O que um cirurgião plástico, ainda que de renome internacional, faz na Academia Brasileira... de LETRAS? Em seu currículo no site da ABL, são citadas mais de 800 obras especializadas na área médica, traduzidas para vários países... E pela nossa língua? O que ele fez? Alguém aí sabe?
O caso de Paulo Coelho também destaca-se. É o escritor da moda, não há dúvida. São milhões de livros vendidos no mundo inteiro, o "Alquimista" já está virando filme de Hollywood, o outrora bruxo hoje é grande escritor competindo em cifras com o aprendiz Harry Potter. Ironicamente, muitos que abraçaram a leitura desde criança (que são em número bem menor que os aficcionados pela onda do momento) não gostam das letras de Paulo Coelho. E Machado dizia: a Academia deve defender a língua "não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica". E lá está Paulo Coelho, imortalíssimo.
Ao contrário dos imortais acima, os demais não são tão conhecidos. Ao menos, nunca apareceram em qualquer revista CARAS. Por que será? Sem contar que as eleições para a ABL, de uns tempos pra cá, viraram show, coisa de palpiteiro e de gente se auto-candidatando sem a menor vergonha na cara. Jô Soares foi um deles, lembra? E olha que ele fez isso entrevistando a então presidente da ABL, Nélida Piñon! Isso é muito revista CARAS...
Infelizmente, não é apenas isso que me entristece ao ver a situação atual da ABL. Recentemente, no seminário "Jornalismo e Literatura", não foram poucos os lamentos sobre a situação educacional do Brasil. Que ainda há muitos analfabetos, que não há tantos leitores na mesma proporção da venda de livros, que os Governos estão deixando a desejar nessa prioridade. Só não dá pra pensar que a ABL nada tem a ver com isso. Em vez de aproveitarem o exemplo dado na ditadura pela Ordem dos Advogados do Brasil e pela Associação Brasileira de Imprensa - que eram a consciência crítica da sociedade, atuantes nacionalmente a respeito das questões de suas respectivas áreas - a Academia Brasleira de Letras prefere lamentar. Ou pior, prefere aparecer nos jornais e para o contexto social ao qual pertence como uma fogueira das vaidades cada vez mais pitoresca.
É uma escolha que os acadêmicos atuais estão fazendo. Ainda que não votem em nomes que nada tem a ver com o ideal de Machado, não têm se pronunciado como devido para impedir o pior: a descaracterização da Academia. Não se sabe mais que Letras querem defender, afinal.
sábado, 29 de novembro de 2003
Meu avô e Ary Barroso
Quem teve a oportunidade de estudar História da Comunicação teve conhecimento das sociedades pré-escrita, ou sociedades orais. É tão difícil para nós hoje pensarmos que existiu uma sociedade assim, não é? Sem leitura ou anotações em papéis, coisa tão vital pra gente. Fiquei mais "encucado" foi com a questão da memória histórica. Se não havia registro, como os mais novos saberiam de suas origens, de seus ancestrais? E se assim era, como hoje sabemos que as sociedades orais existiram?
Os anciãos das tribos eram os responsáveis pela manutenção dessa memória. Por haverem presenciado os eventos - ou, ainda jovens, ouvido de outros anciãos da época - repetiam diariamente, várias vezes, a trajetória de seu clã para os mais novos. E isso era tão forte que em pleno começo de século XX tais sociedades ainda existiam, bem como sua prática. Assim, os antropólogos de nosso tempo tiveram contato com os pré-escrita e, em tempos de escrita consolidada, nos transmitiram o conhecimento que hoje acessamos em História da Comunicação.
Tudo isso me veio à mente ao ouvir um programa em homenagem ao centenário de Ary Barroso, no dia 7 desse mês. (Não é muito difícil concluirmos que o rádio, hoje, é o meio de comunicação mais próximo da prática de memória das sociedades orais). E naquele programa o jornalista Luiz Mendes (um ancião repórter de rádio) narrou vários episódios da vida do amigo e colega de trabalho Ary Barroso.
Falou que Ary era flamenguista doente, e não escondia isso nas narrações dos jogos; que, por não possuir voz potente como os demais radialistas, na hora do gol tocava uma gaita em vez de gritar; que, mesmo sendo mineiro de Ubá, foi o maior propagandista da Bahia e do carnaval brasileiro no mundo - vide "Aquarela do Brasil". E outras histórias.
Acontece que tudo o que Luiz Mendes disse, eu em meus singelos 23 anos já sabia. Isso porque meu avô, desde minha adolescência, encarregou-se de me contar, repetindo diariamente e várias vezes, as histórias de Ary Barroso. Ele fazia isso com diversos assuntos, desde que lesse ou visse algo que o lembraria de determinado episódio que viveu ou testemunhou. Sim, meu avô era a sociedade oral encarnada. Ali, do meu lado, estava parte da História da Comunicação resumida em 82 anos.
Os motivos pelos quais ele tanto me contava e recontava as histórias são vários. É certo que, em determinada idade e dependendo do temperamento da pessoa, ela vai falar apenas de fatos passados, pois a expectativa de realizar coisas novas é remota. Se viveu eventos além do normal, mais ainda. E meu avô, marinheiro sobrevivente de um incêndio em um navio e ex-combatente da 2ª Guerra Mundial, dentre outras coisas, ficava à vontade para falar de seu tempo. Diante de um ouvido atento e amoroso como o meu, imaginem.
Deixei para escrever este artigo hoje, dia 29, por fazer um ano que meu avô nos deixou. Mas se sua presença física já não é possível, o adjetivo inesquecível cabe aqui. Não só pela afeição saudosa como pelas narrações pessoais que perpassam o tempo. Como os guardiães da memória nas sociedades orais. Ironicamente, eu, leitor voraz e tentando realizar minha vocação para a escrita, agradeço a Deus por ter "viajado no tempo" e conhecido melhor do que ninguém as origens da comunicação entrecruzando-se com minhas próprias origens.
Por meio de meu avô sinto saudade de um tempo que, mesmo não tendo vivido, vivi. Uma "saudade misturada", sentindo falta de um ente querido e de um passado distante. Subitamente, as letras não fazem mais sentido. E nem me importo.
Quem teve a oportunidade de estudar História da Comunicação teve conhecimento das sociedades pré-escrita, ou sociedades orais. É tão difícil para nós hoje pensarmos que existiu uma sociedade assim, não é? Sem leitura ou anotações em papéis, coisa tão vital pra gente. Fiquei mais "encucado" foi com a questão da memória histórica. Se não havia registro, como os mais novos saberiam de suas origens, de seus ancestrais? E se assim era, como hoje sabemos que as sociedades orais existiram?
Os anciãos das tribos eram os responsáveis pela manutenção dessa memória. Por haverem presenciado os eventos - ou, ainda jovens, ouvido de outros anciãos da época - repetiam diariamente, várias vezes, a trajetória de seu clã para os mais novos. E isso era tão forte que em pleno começo de século XX tais sociedades ainda existiam, bem como sua prática. Assim, os antropólogos de nosso tempo tiveram contato com os pré-escrita e, em tempos de escrita consolidada, nos transmitiram o conhecimento que hoje acessamos em História da Comunicação.
Tudo isso me veio à mente ao ouvir um programa em homenagem ao centenário de Ary Barroso, no dia 7 desse mês. (Não é muito difícil concluirmos que o rádio, hoje, é o meio de comunicação mais próximo da prática de memória das sociedades orais). E naquele programa o jornalista Luiz Mendes (um ancião repórter de rádio) narrou vários episódios da vida do amigo e colega de trabalho Ary Barroso.
Falou que Ary era flamenguista doente, e não escondia isso nas narrações dos jogos; que, por não possuir voz potente como os demais radialistas, na hora do gol tocava uma gaita em vez de gritar; que, mesmo sendo mineiro de Ubá, foi o maior propagandista da Bahia e do carnaval brasileiro no mundo - vide "Aquarela do Brasil". E outras histórias.
Acontece que tudo o que Luiz Mendes disse, eu em meus singelos 23 anos já sabia. Isso porque meu avô, desde minha adolescência, encarregou-se de me contar, repetindo diariamente e várias vezes, as histórias de Ary Barroso. Ele fazia isso com diversos assuntos, desde que lesse ou visse algo que o lembraria de determinado episódio que viveu ou testemunhou. Sim, meu avô era a sociedade oral encarnada. Ali, do meu lado, estava parte da História da Comunicação resumida em 82 anos.
Os motivos pelos quais ele tanto me contava e recontava as histórias são vários. É certo que, em determinada idade e dependendo do temperamento da pessoa, ela vai falar apenas de fatos passados, pois a expectativa de realizar coisas novas é remota. Se viveu eventos além do normal, mais ainda. E meu avô, marinheiro sobrevivente de um incêndio em um navio e ex-combatente da 2ª Guerra Mundial, dentre outras coisas, ficava à vontade para falar de seu tempo. Diante de um ouvido atento e amoroso como o meu, imaginem.
Deixei para escrever este artigo hoje, dia 29, por fazer um ano que meu avô nos deixou. Mas se sua presença física já não é possível, o adjetivo inesquecível cabe aqui. Não só pela afeição saudosa como pelas narrações pessoais que perpassam o tempo. Como os guardiães da memória nas sociedades orais. Ironicamente, eu, leitor voraz e tentando realizar minha vocação para a escrita, agradeço a Deus por ter "viajado no tempo" e conhecido melhor do que ninguém as origens da comunicação entrecruzando-se com minhas próprias origens.
Por meio de meu avô sinto saudade de um tempo que, mesmo não tendo vivido, vivi. Uma "saudade misturada", sentindo falta de um ente querido e de um passado distante. Subitamente, as letras não fazem mais sentido. E nem me importo.
quinta-feira, 27 de novembro de 2003
O tumulto é do cinismo
A grita foi geral, e dessa vez não apenas na mídia. Tudo começou (de novo) numa batalha campal entre Guarda Municipal (GM) e camelôs no abarrotado Centro do Rio de Janeiro. A construção do discurso emburrecedor tem como agentes a cobertura jornalística e seu público-alvo (ativamente, incentivando e produzindo as reportagens) e as autoridades responsáveis - de forma omissa, coniventes e fomentando a discussão de acordo com suas conveniências.
Ok, dessa vez os camelôs é que se prepararam pra briga, e a começaram ao atacar um carro da fiscalização da Prefeitura (aquele flamejante embaixo do termômetro a 130 graus). O resto foi a reação da GM com todo o seu aparato de guerra - e finalmente ela chegou, não era pra isso que servia? Os camelôs com seus morteiros, côcos e cadeiras; a Guarda com capacetes, escudos de choque, cacetetes e bombas de gás lacrimogêneo. Dá pra imaginar que fim levou, né?
Só que o RJTV da noite inaugurou o discurso que iria predominar na mídia. Anunciando a guerra ocorrida no Centro, mostra as imagens dos guardas sendo atingidos pelos côcos; as cadeiras espalhadas em meio à Av. Pres. Vargas ao meio-dia, "trazendo transtornos". A imagem de um guarda com a mão à boca e o âncora narrando que "um guarda ficou ferido". Ao fim da matéria, um pronunciamento oficial de César Maia dizendo que o Estado é que não enviou reforços da PM ao local; outro de Garotinho, rebatendo as críticas do prefeito, dizendo que a truculência não deveria ser usada, mas sim responsabilidade no tratar com os camelôs.
As perguntas vão surgindo: quem envia a Guarda Municipal para "combater" os camelôs em pleno Centro da cidade durante o dia, com milhares de transeuntes pra lá e pra cá? A Prefeitura. Quem não envia a Guarda Municipal às 6 da manhã para impedir que os camelôs montem suas barracas (já que é essa a questão legal)? A Prefeitura. Quem é um dos principais responsáveis pela porradaria no Centro do Rio, independentemente da situação ilegal dos camelôs? A Prefeitura. Fato. E ainda queria o reforço da PM!
Questiona-se esse lado da questão nos jornais? Não.
Os camelôs sempre foram "soldados de guerra" com estratégias, como ontem? Não. Como todo mundo sabe, violência chama violência. E sua escalada no confronto GM x ambulantes foi gradativa - sendo que bate mais forte (e primeiro) quem está mais preparado pra isso. Quem trabalha no Centro acompanhou essa gradação de perto, desde o início.
Questiona-se esse histórico da questão nos jornais? Não.
O governador do Estado adverte que deve ser usada de responsabilidade para tratar da questão dos camelôs, mas sem truculência. Irônico, vindo de quem vem. Até parece que a carreira político-administrativa de Garotinho foi construída assim, com serenidade e pensando nas conseqüências de seus atos e palavras no calor da hora. Se fosse prefeito, nada leva a crer que Garotinho agiria diferente.
E as primeiras páginas de hoje mostram os prejuízos do comércio e da Prefeitura, exibe fotos dos Guardas Municipais com as "armas" dos camelôs (talvez um côco seja mais destruidor que uma bomba de gás lacrimogêneo, quem sabe?). O dia finda com a sensação que os camelôs merecem mesmo é a pena de morte por não nos deixar em paz, atrapalhar-nos na calçada e irritar as autoridades responsáveis.
Questiona-se o que está sendo feito para resolver a situação dos camelôs? Não. O porque de tantos permanecerem ilegais? Não. Além de fiscalizar e descer o cacete, o que mais a Prefeitura tem feito para RESOLVER essa situação e aí sim servir à população? Não sei, não se fala disso. Quem vai incomodar o nosso herói do Pan 2007 e das quase Olimpíadas-2012?
É muito cinismo de uma vez só. Da mídia, dos governantes, da classe média conivente com a violência na medida que lhe convém (no caso, expulsar camelôs mas sem maiores drasticidades). E é daí que surge o tumultuado desmando da segurança no Rio. Tratando a população como idiota.
A grita foi geral, e dessa vez não apenas na mídia. Tudo começou (de novo) numa batalha campal entre Guarda Municipal (GM) e camelôs no abarrotado Centro do Rio de Janeiro. A construção do discurso emburrecedor tem como agentes a cobertura jornalística e seu público-alvo (ativamente, incentivando e produzindo as reportagens) e as autoridades responsáveis - de forma omissa, coniventes e fomentando a discussão de acordo com suas conveniências.
Ok, dessa vez os camelôs é que se prepararam pra briga, e a começaram ao atacar um carro da fiscalização da Prefeitura (aquele flamejante embaixo do termômetro a 130 graus). O resto foi a reação da GM com todo o seu aparato de guerra - e finalmente ela chegou, não era pra isso que servia? Os camelôs com seus morteiros, côcos e cadeiras; a Guarda com capacetes, escudos de choque, cacetetes e bombas de gás lacrimogêneo. Dá pra imaginar que fim levou, né?
Só que o RJTV da noite inaugurou o discurso que iria predominar na mídia. Anunciando a guerra ocorrida no Centro, mostra as imagens dos guardas sendo atingidos pelos côcos; as cadeiras espalhadas em meio à Av. Pres. Vargas ao meio-dia, "trazendo transtornos". A imagem de um guarda com a mão à boca e o âncora narrando que "um guarda ficou ferido". Ao fim da matéria, um pronunciamento oficial de César Maia dizendo que o Estado é que não enviou reforços da PM ao local; outro de Garotinho, rebatendo as críticas do prefeito, dizendo que a truculência não deveria ser usada, mas sim responsabilidade no tratar com os camelôs.
As perguntas vão surgindo: quem envia a Guarda Municipal para "combater" os camelôs em pleno Centro da cidade durante o dia, com milhares de transeuntes pra lá e pra cá? A Prefeitura. Quem não envia a Guarda Municipal às 6 da manhã para impedir que os camelôs montem suas barracas (já que é essa a questão legal)? A Prefeitura. Quem é um dos principais responsáveis pela porradaria no Centro do Rio, independentemente da situação ilegal dos camelôs? A Prefeitura. Fato. E ainda queria o reforço da PM!
Questiona-se esse lado da questão nos jornais? Não.
Os camelôs sempre foram "soldados de guerra" com estratégias, como ontem? Não. Como todo mundo sabe, violência chama violência. E sua escalada no confronto GM x ambulantes foi gradativa - sendo que bate mais forte (e primeiro) quem está mais preparado pra isso. Quem trabalha no Centro acompanhou essa gradação de perto, desde o início.
Questiona-se esse histórico da questão nos jornais? Não.
O governador do Estado adverte que deve ser usada de responsabilidade para tratar da questão dos camelôs, mas sem truculência. Irônico, vindo de quem vem. Até parece que a carreira político-administrativa de Garotinho foi construída assim, com serenidade e pensando nas conseqüências de seus atos e palavras no calor da hora. Se fosse prefeito, nada leva a crer que Garotinho agiria diferente.
E as primeiras páginas de hoje mostram os prejuízos do comércio e da Prefeitura, exibe fotos dos Guardas Municipais com as "armas" dos camelôs (talvez um côco seja mais destruidor que uma bomba de gás lacrimogêneo, quem sabe?). O dia finda com a sensação que os camelôs merecem mesmo é a pena de morte por não nos deixar em paz, atrapalhar-nos na calçada e irritar as autoridades responsáveis.
Questiona-se o que está sendo feito para resolver a situação dos camelôs? Não. O porque de tantos permanecerem ilegais? Não. Além de fiscalizar e descer o cacete, o que mais a Prefeitura tem feito para RESOLVER essa situação e aí sim servir à população? Não sei, não se fala disso. Quem vai incomodar o nosso herói do Pan 2007 e das quase Olimpíadas-2012?
É muito cinismo de uma vez só. Da mídia, dos governantes, da classe média conivente com a violência na medida que lhe convém (no caso, expulsar camelôs mas sem maiores drasticidades). E é daí que surge o tumultuado desmando da segurança no Rio. Tratando a população como idiota.
quarta-feira, 15 de outubro de 2003
VEJA: a irônica revolução da linguagem
É mais forte do que eu: mais uma vez a banca de jornal me chamava a atenção por alguma matéria de capa, mais uma vez a VEJA. Um cartum em que uma gigantesca águia era "peitada" por um pintinho marrento verde e amarelo. A chamada: "Brasil peita os EUA na ALCA - CORAGEM OU ESTUPIDEZ?". Precisa dizer o quê?
Que a revista está se especializando em tratar os leitores de forma infantilóide já se sabe há muito. Não satisfeita em reportar os fatos com ótica visivelmente tendenciosa, a redação de VEJA sempre termina suas matérias ratificando uma solução única e derradeira para a questão abordada. Nunca permite que o leitor forme sua opinião por si só após avaliar o conteúdo da revista. E isso é um tique nervoso que vai desde a capa até as matérias mais banais, como se fosse uma regra de prática jornalística.
Mas a capa dessa semana, além de continuar seguindo à risca o acima citado, provoca uma revolução na linguagem (sem querer, e vocês já vão entender por que). Uma imagem valer mais que mil palavras é exagero - "diz isso sem palavras!", lembra Millôr. Mas a capacidade do cartum ou da charge em sintetizar idéias não deve ser subestimada. Muito menos seu potencial informativo. E de forma completa, já que por ele percebe-se o que querem dizer e com que intenções querem dizer. Nesse ponto as palavras podem confundir, prostituindo a retórica.
E a VEJA jogou pro alto a sutileza e a dissimulação: acrescenta logo a seguir que a situação ridícula do Brasil "peitar" os EUA na ALCA - afinal, o pintinho marrento pra cima da enfezada águia é uma cena ridícula, da qual já se sabe o desfecho - seria enquadrada em um dos extremos: CORAGEM ou ESTUPIDEZ. (Aliás, esse é o maior vício da mídia hoje: tudo é bem x mal, fulano vence x fulano perde etc. Não há análise complexa como são as situações reportadas. Simplifica-se o difícil pela lógica emburrecedora, não pelo pragmatismo).
Assim, percebe-se uma revolução da linguagem protagonizada pela revista, só que de forma irônica. Diante da capa, eu pergunto: preciso ler a matéria? Mesmo que eu concorde com a opinião da revista, por que me dar ao trabalho de comprar e folhear suas páginas para me explicar o que já está resumido e finalizado na capa? Até com o suspense marqueteiro a VEJA acabou. É o cúmulo da síntese! Não é necessário me aprofundar na reportagem para melhor compreender. Está dito, ponto final. Ironicamente, mesmo eu estando na banca, não preciso comprar a revista - e normalmente as capas colaboram para o contrário...
Logo, tal revolução é sem querer, visto que a revista não iria criar um "auto-boicote". Mas se os leitores notarem essa nova fase, será um castigo merecido para o mau jornalismo que a vedete da editora Abril comete faz tempo.
É mais forte do que eu: mais uma vez a banca de jornal me chamava a atenção por alguma matéria de capa, mais uma vez a VEJA. Um cartum em que uma gigantesca águia era "peitada" por um pintinho marrento verde e amarelo. A chamada: "Brasil peita os EUA na ALCA - CORAGEM OU ESTUPIDEZ?". Precisa dizer o quê?
Que a revista está se especializando em tratar os leitores de forma infantilóide já se sabe há muito. Não satisfeita em reportar os fatos com ótica visivelmente tendenciosa, a redação de VEJA sempre termina suas matérias ratificando uma solução única e derradeira para a questão abordada. Nunca permite que o leitor forme sua opinião por si só após avaliar o conteúdo da revista. E isso é um tique nervoso que vai desde a capa até as matérias mais banais, como se fosse uma regra de prática jornalística.
Mas a capa dessa semana, além de continuar seguindo à risca o acima citado, provoca uma revolução na linguagem (sem querer, e vocês já vão entender por que). Uma imagem valer mais que mil palavras é exagero - "diz isso sem palavras!", lembra Millôr. Mas a capacidade do cartum ou da charge em sintetizar idéias não deve ser subestimada. Muito menos seu potencial informativo. E de forma completa, já que por ele percebe-se o que querem dizer e com que intenções querem dizer. Nesse ponto as palavras podem confundir, prostituindo a retórica.
E a VEJA jogou pro alto a sutileza e a dissimulação: acrescenta logo a seguir que a situação ridícula do Brasil "peitar" os EUA na ALCA - afinal, o pintinho marrento pra cima da enfezada águia é uma cena ridícula, da qual já se sabe o desfecho - seria enquadrada em um dos extremos: CORAGEM ou ESTUPIDEZ. (Aliás, esse é o maior vício da mídia hoje: tudo é bem x mal, fulano vence x fulano perde etc. Não há análise complexa como são as situações reportadas. Simplifica-se o difícil pela lógica emburrecedora, não pelo pragmatismo).
Assim, percebe-se uma revolução da linguagem protagonizada pela revista, só que de forma irônica. Diante da capa, eu pergunto: preciso ler a matéria? Mesmo que eu concorde com a opinião da revista, por que me dar ao trabalho de comprar e folhear suas páginas para me explicar o que já está resumido e finalizado na capa? Até com o suspense marqueteiro a VEJA acabou. É o cúmulo da síntese! Não é necessário me aprofundar na reportagem para melhor compreender. Está dito, ponto final. Ironicamente, mesmo eu estando na banca, não preciso comprar a revista - e normalmente as capas colaboram para o contrário...
Logo, tal revolução é sem querer, visto que a revista não iria criar um "auto-boicote". Mas se os leitores notarem essa nova fase, será um castigo merecido para o mau jornalismo que a vedete da editora Abril comete faz tempo.
segunda-feira, 6 de outubro de 2003
Sabemos aonde estamos indo... como continuamos indo?
A ISTOÉ da semana passada (edição 1774) é digna de ser elogiada e criticada, levando-se em conta assunto, qualidade jornalística e tratamento de matéria. Com o título "Inimigo Oculto", a revista mostrou uma terrível realidade do nosso país: mais de 400 mil brasileiros são portadores do vírus HIV e não sabem.
Elogio a equipe de redação por fazer um trabalho digno da vocação jornalística de prestar serviço público informando com responsabilidade. A matéria traz dados oficiais da Organização Mundial de Saúde, mostrando que o Brasil é exemplar no tratamento da AIDS. Também colhe depoimentos de pessoas que se mostraram surpresas ao saber que eram soropositivas - até porque não levavam a "vida suja" geralmente correlacionada aos contaminados. Informa sobre a campanha "Fique Sabendo", que estimula os que transaram sem camisinha a fazer o exame e derruba crendices a respeito do contágio no contato social com aidéticos.
Minhas críticas à revista dizem respeito ao tratamento da matéria. Não foi de capa, o que permitiria um alcance maior de pessoas - e a importante urgência do assunto merecia esse destaque. Também acho válido que sejam enfatizadas vidas que convivem normalmente com o fato de serem soropositivas, o que foi feito por meio de depoimentos transcritos e fotos sorridentes. Mas o lado mais sombrio da doença também precisava estar ali, para não se correr o risco da banalização de um dos piores males da humanidade.
Aí é que está o principal. Aí é que desandei a chorar.
Porque a matéria mais importante do ano vai passar despercebida. Vai ser mais uma matéria de saúde pública sexual a ser engolida pela sociedade do consumo, do espetáculo, sem afeto, sensacionalista (idólatra das sensações), supérflua, hipócrita etc etc etc etc.
Haverá reflexão para os hábitos sexuais de hoje? Um dos depoimentos da matéria é de uma mulher com 4 filhos que nunca teve "aventuras" que dessem margem à suspeita da AIDS. Mas o marido a contaminou, fruto de infidelidade conjugal. E quer coisa mais folclórica hoje do que o "corno", o "triângulo amoroso", o "pular a cerca"? Fala-se disso como se o ato não produzisse conseqüências emocionais - e agora, físicas - desse romper de compromisso.
Os que preferem guardar-se pro casamento e levar a sério a fidelidade - sem impor essa decisão a nenhuma massa, é apenas uma decisão individual como tantas outras - são ridicularizados sem piedade. (Irônica sociedade em que tantos reivindicam o direito de assumir o que escolheram pra vida enquanto enquadram outros que possuem o mesmo objetivo).
Quem se importa com pessoas contaminadas com AIDS hoje? A indústria do sexo, ramificada desde as mais vulgares pornografias até as sutis/escancaradas propagações de valores questionáveis em horário nobre? Os orgulhosos conservadores certos de que sua lei e moral bastam para dominar facilmente os instintos humanos (que não precisam de muito pra perder as rédeas)? Os políticos que não sobrevivem sem o cabresto da ignorância, custe o que custar para os analfabetos de cidadania, sem educação básica - aquela que permite amadurecer para avaliar o melhor, e não ser engabelado pelos malandros oficiais (como dizia Chico Buarque)?
E agora é hora de me expor. Corro o risco de levar um implacável rótulo ao manifestar minha opinião, mas dane-se. Além de ser o meu blog, são minhas sinceras inquietações sobre os destinos do ser humano. A situação narrada pela revista é mais uma prova de que vivemos, como nunca, uma crise de valores. Quanto mais nossa vida se afasta do caráter de Deus, mais perdidos ficamos, menos sentido encontramos. Enquanto nos preocuparmos em buscá-lO apenas na hora da morte ou do sofrer, assim será nossa existência: sepulcral e masoquista, travestindo-se de hedonismo, esperteza egoísta, cinismo de idéias e insensibilidade contagiosa. Sem nunca nos preencher, e nos enganando com tanta perfeição até alcançar o alvo máximo: uma desconfiança geral em relação ao óbvio que salva.
Deus tá vendo. E chora.
A ISTOÉ da semana passada (edição 1774) é digna de ser elogiada e criticada, levando-se em conta assunto, qualidade jornalística e tratamento de matéria. Com o título "Inimigo Oculto", a revista mostrou uma terrível realidade do nosso país: mais de 400 mil brasileiros são portadores do vírus HIV e não sabem.
Elogio a equipe de redação por fazer um trabalho digno da vocação jornalística de prestar serviço público informando com responsabilidade. A matéria traz dados oficiais da Organização Mundial de Saúde, mostrando que o Brasil é exemplar no tratamento da AIDS. Também colhe depoimentos de pessoas que se mostraram surpresas ao saber que eram soropositivas - até porque não levavam a "vida suja" geralmente correlacionada aos contaminados. Informa sobre a campanha "Fique Sabendo", que estimula os que transaram sem camisinha a fazer o exame e derruba crendices a respeito do contágio no contato social com aidéticos.
Minhas críticas à revista dizem respeito ao tratamento da matéria. Não foi de capa, o que permitiria um alcance maior de pessoas - e a importante urgência do assunto merecia esse destaque. Também acho válido que sejam enfatizadas vidas que convivem normalmente com o fato de serem soropositivas, o que foi feito por meio de depoimentos transcritos e fotos sorridentes. Mas o lado mais sombrio da doença também precisava estar ali, para não se correr o risco da banalização de um dos piores males da humanidade.
Aí é que está o principal. Aí é que desandei a chorar.
Porque a matéria mais importante do ano vai passar despercebida. Vai ser mais uma matéria de saúde pública sexual a ser engolida pela sociedade do consumo, do espetáculo, sem afeto, sensacionalista (idólatra das sensações), supérflua, hipócrita etc etc etc etc.
Haverá reflexão para os hábitos sexuais de hoje? Um dos depoimentos da matéria é de uma mulher com 4 filhos que nunca teve "aventuras" que dessem margem à suspeita da AIDS. Mas o marido a contaminou, fruto de infidelidade conjugal. E quer coisa mais folclórica hoje do que o "corno", o "triângulo amoroso", o "pular a cerca"? Fala-se disso como se o ato não produzisse conseqüências emocionais - e agora, físicas - desse romper de compromisso.
Os que preferem guardar-se pro casamento e levar a sério a fidelidade - sem impor essa decisão a nenhuma massa, é apenas uma decisão individual como tantas outras - são ridicularizados sem piedade. (Irônica sociedade em que tantos reivindicam o direito de assumir o que escolheram pra vida enquanto enquadram outros que possuem o mesmo objetivo).
Quem se importa com pessoas contaminadas com AIDS hoje? A indústria do sexo, ramificada desde as mais vulgares pornografias até as sutis/escancaradas propagações de valores questionáveis em horário nobre? Os orgulhosos conservadores certos de que sua lei e moral bastam para dominar facilmente os instintos humanos (que não precisam de muito pra perder as rédeas)? Os políticos que não sobrevivem sem o cabresto da ignorância, custe o que custar para os analfabetos de cidadania, sem educação básica - aquela que permite amadurecer para avaliar o melhor, e não ser engabelado pelos malandros oficiais (como dizia Chico Buarque)?
E agora é hora de me expor. Corro o risco de levar um implacável rótulo ao manifestar minha opinião, mas dane-se. Além de ser o meu blog, são minhas sinceras inquietações sobre os destinos do ser humano. A situação narrada pela revista é mais uma prova de que vivemos, como nunca, uma crise de valores. Quanto mais nossa vida se afasta do caráter de Deus, mais perdidos ficamos, menos sentido encontramos. Enquanto nos preocuparmos em buscá-lO apenas na hora da morte ou do sofrer, assim será nossa existência: sepulcral e masoquista, travestindo-se de hedonismo, esperteza egoísta, cinismo de idéias e insensibilidade contagiosa. Sem nunca nos preencher, e nos enganando com tanta perfeição até alcançar o alvo máximo: uma desconfiança geral em relação ao óbvio que salva.
Deus tá vendo. E chora.
terça-feira, 16 de setembro de 2003
LESSA 23!
Woody Allen dirige, escreve e atua em seus filmes. resultado: já beijou mulheres lindas em muitos deles... São as benesses do controle do meio de comunicação! De igual forma, hoje usufruo desse blog para publicar minha lista de presentes de aniversário!!! De repente você tá sem idéia...
Será dia 27 de setembro - e para os engraçadinhos de plantão: nao gosto de doce de Cosme e Damião!!!!! Heheheh...
Se você hesitar pensando que outra pessoa pode dar o mesmo presente, uma dica: é só comprar em lojas que dão aquela etiqueta, que permite trocar em até 15 dias... Pretensioso eu, né?
CDs:
- Trilha sonora do filme "Alta Fidelidade"
- "Bloco do Eu Sozinho" e "Ventura", do Los Hermanos
- "Abbey Road" e "Let it be", dos Beatles
- Qualquer um do songbook de Chico Buarque
- Qualquer um do songbook de Tom Jobim
LIVROS:
- "Budapeste" - Chico Buarque
- "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa
- "Brejo das Almas", "Claro Enigma", "Caminhos de João Brandão", de Carlos Drummond de Andrade
- "Como ser legal", de Nick Hornby
- "eu@teamo.com.br", de Letícia Wierzchowski
- "Maravilhosa Graça", de Philip Yancey
- "Cristianismo e política", de Robinson Cavalcanti
- "Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal", de Milton Santos
- "Cartas na mesa", "Cartas a um jovem escritor" - Fernando Sabino
ROUPAS: apenas informo que camisa é tamanho P ou M; calça, 40; sapatos, 42/43.
Ou me surpreenda!!!
Woody Allen dirige, escreve e atua em seus filmes. resultado: já beijou mulheres lindas em muitos deles... São as benesses do controle do meio de comunicação! De igual forma, hoje usufruo desse blog para publicar minha lista de presentes de aniversário!!! De repente você tá sem idéia...
Será dia 27 de setembro - e para os engraçadinhos de plantão: nao gosto de doce de Cosme e Damião!!!!! Heheheh...
Se você hesitar pensando que outra pessoa pode dar o mesmo presente, uma dica: é só comprar em lojas que dão aquela etiqueta, que permite trocar em até 15 dias... Pretensioso eu, né?
CDs:
- Trilha sonora do filme "Alta Fidelidade"
- "Bloco do Eu Sozinho" e "Ventura", do Los Hermanos
- "Abbey Road" e "Let it be", dos Beatles
- Qualquer um do songbook de Chico Buarque
- Qualquer um do songbook de Tom Jobim
LIVROS:
- "Budapeste" - Chico Buarque
- "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa
- "Brejo das Almas", "Claro Enigma", "Caminhos de João Brandão", de Carlos Drummond de Andrade
- "Como ser legal", de Nick Hornby
- "eu@teamo.com.br", de Letícia Wierzchowski
- "Maravilhosa Graça", de Philip Yancey
- "Cristianismo e política", de Robinson Cavalcanti
- "Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal", de Milton Santos
- "Cartas na mesa", "Cartas a um jovem escritor" - Fernando Sabino
ROUPAS: apenas informo que camisa é tamanho P ou M; calça, 40; sapatos, 42/43.
Ou me surpreenda!!!
sábado, 13 de setembro de 2003
E agora, José do Patrocínio?
Depois de um longo tempo, vi algo de bom na primeira página do GLOBO: Conar proíbe jovens e cenas eróticas em anúncios de bebida. Essa medida pode trazer conseqüências mais inesperadas do que pensamos... Além disso, as reações dos publicitários a ela revela intenções e problemas que são sempre mascarados pela beleza dos anúncios. Quer ver só?
Primeiro, que uma classe social sui generis vai ser muito prejudicada: é a tal da "modelatriz". Você sabe, elas não são modelos nem atrizes, mas um mix dos dois sem desempenhar nenhuma das funções direito. Mão-de-obra principal dos anúncios de cerveja - são jovens e eróticas - como começarão a carreira tão sonhada? Como evoluir para a capa da Playboy e para o tórrido romance ovulatório com jogadores de futebol e demais celebridades, agora? Mostrar (ao lado do álcool que deixa os homens com aquela barriga sexy) suas carnes glúteas era o pontapé inicial. Curioso: a única carreira em que "pé na bunda" pode significar emprego...
A indústria da bebida também deve ter ficado surpresa com tal medida, que começa a vigorar no verão! Todo o estratagema montado por anos e anos (sem trocadilho, por favor) para as vendas subirem na sudorípara estação vai por Conar abaixo... A decisão também proíbe o uso de animais humanizados, bonecos ou animações, para que as crianças não sejam despertadas pro álcool (e o mercado futuro? O mercado futuro!). Só que pra fechar a conta desse possível prejuízo eles vão empurrar a responsabilidade para os... publicitários!
Aí é que a cobra fuma, a porca torce o rabo, a onça bebe água e demais slogans populares.
O discurso oficial da P&P é que "as agências terão que usar ainda mais de criatividade e vão conseguir". Hilário... AINDA MAIS? Acho que agora é que vão ter que provar que sabem criar. Atiçar o público-alvo em seus básicos instintos é muito mais fácil que convencê-lo a fazer uma escolha consciente e tomar decisão idem.
VÃO CONSEGUIR? Quem disse a frase acima é o sócio-diretor da Agência Total, responsável pela campanha da Schin (que por sinal, é um primor de criatividade: "Experimenta" até encher o saco!). Esse "vão conseguir" pode muito bem ser traduzido por "pelamordedeus, é a nossa única chance" ou "consigam ou muitos de nós estarão na rua em breve". A decisão do Conar pode ser o primeiro grande desafio para uma indústria publicitária acomodada na fórmula bunda-futebol pra vender outro prazer cheio de riscos pessoais e sociais.
A matéria informa que a decisão do Conar antecipa-se a uma possível legislação do Congresso, que prometia ainda mais rigor com as propagandas. Ou seja, dos males o menor. Mas, dependendo de como se virarem, esse menor torna-se relativo. Longe de mim duvidar do talento dos publicitários brasileiros, mas o Conar prestou um serviço público imenso - talvez sem querer. Nem a grande imprensa teve peito pra questionar essas campanhas que tratam o homem como bicho, nem os publicitários ousaram mudar a fórmula pensando no bem ou mal-estar que faziam ao público com suas campanhas. Na marra, o Conar obrigou a imprensa a se auto-flagrar e as agências a produzirem algo de menos inutilidade pública.
Agora eu quero ver a paixão nacional experimentar o argumento redondo dentro da lei, refrescando principalmente os pensamentos. Ah, mas com moderação e pegando táxi depois, porque também faz mal à saúde.
Depois de um longo tempo, vi algo de bom na primeira página do GLOBO: Conar proíbe jovens e cenas eróticas em anúncios de bebida. Essa medida pode trazer conseqüências mais inesperadas do que pensamos... Além disso, as reações dos publicitários a ela revela intenções e problemas que são sempre mascarados pela beleza dos anúncios. Quer ver só?
Primeiro, que uma classe social sui generis vai ser muito prejudicada: é a tal da "modelatriz". Você sabe, elas não são modelos nem atrizes, mas um mix dos dois sem desempenhar nenhuma das funções direito. Mão-de-obra principal dos anúncios de cerveja - são jovens e eróticas - como começarão a carreira tão sonhada? Como evoluir para a capa da Playboy e para o tórrido romance ovulatório com jogadores de futebol e demais celebridades, agora? Mostrar (ao lado do álcool que deixa os homens com aquela barriga sexy) suas carnes glúteas era o pontapé inicial. Curioso: a única carreira em que "pé na bunda" pode significar emprego...
A indústria da bebida também deve ter ficado surpresa com tal medida, que começa a vigorar no verão! Todo o estratagema montado por anos e anos (sem trocadilho, por favor) para as vendas subirem na sudorípara estação vai por Conar abaixo... A decisão também proíbe o uso de animais humanizados, bonecos ou animações, para que as crianças não sejam despertadas pro álcool (e o mercado futuro? O mercado futuro!). Só que pra fechar a conta desse possível prejuízo eles vão empurrar a responsabilidade para os... publicitários!
Aí é que a cobra fuma, a porca torce o rabo, a onça bebe água e demais slogans populares.
O discurso oficial da P&P é que "as agências terão que usar ainda mais de criatividade e vão conseguir". Hilário... AINDA MAIS? Acho que agora é que vão ter que provar que sabem criar. Atiçar o público-alvo em seus básicos instintos é muito mais fácil que convencê-lo a fazer uma escolha consciente e tomar decisão idem.
VÃO CONSEGUIR? Quem disse a frase acima é o sócio-diretor da Agência Total, responsável pela campanha da Schin (que por sinal, é um primor de criatividade: "Experimenta" até encher o saco!). Esse "vão conseguir" pode muito bem ser traduzido por "pelamordedeus, é a nossa única chance" ou "consigam ou muitos de nós estarão na rua em breve". A decisão do Conar pode ser o primeiro grande desafio para uma indústria publicitária acomodada na fórmula bunda-futebol pra vender outro prazer cheio de riscos pessoais e sociais.
A matéria informa que a decisão do Conar antecipa-se a uma possível legislação do Congresso, que prometia ainda mais rigor com as propagandas. Ou seja, dos males o menor. Mas, dependendo de como se virarem, esse menor torna-se relativo. Longe de mim duvidar do talento dos publicitários brasileiros, mas o Conar prestou um serviço público imenso - talvez sem querer. Nem a grande imprensa teve peito pra questionar essas campanhas que tratam o homem como bicho, nem os publicitários ousaram mudar a fórmula pensando no bem ou mal-estar que faziam ao público com suas campanhas. Na marra, o Conar obrigou a imprensa a se auto-flagrar e as agências a produzirem algo de menos inutilidade pública.
Agora eu quero ver a paixão nacional experimentar o argumento redondo dentro da lei, refrescando principalmente os pensamentos. Ah, mas com moderação e pegando táxi depois, porque também faz mal à saúde.
domingo, 7 de setembro de 2003
O cinema de Guel é a maior diversão
Como falei no último post, aqui vai uma crítica mais apurada do novo filme de Guel Arraes, Lisbela e o prisioneiro. Quem gostou do "Auto da Compadecida" e de "Caramuru" não vai se decepcionar com este. Direção, roteiro, produção, interpretações, figurinos, trilha - tá tudo bom demais. Com certeza verei pela quarta vez (no cinema).
Osman Lins é um autor pernambucano desconhecido, de onde Guel Arraes tirou a história do filme para primeiro transformá-la em peça. Foi um laboratório de sucesso para saberem o que fazer na tela grande. Alguns atores que estavam na peça estão no filme, ainda que em papéis trocados.
De fato, as interpretações de cada um já valem o ingresso, com sobras. Selton Mello vai se transformando no maior ator de sua geração, tamanha é a sua versatilidade. Além dos citados filmes de Guel, Selton também protagonizou com maestria o pesado "Lavoura Arcaica", além da peça "Zastrozzi". É impressionante sua capacidade de ser completamente diferente em cada papel que atua - coisa que o parceiro do "Auto", Matheus Natchergale, já tinha alcançado.
Marco Nanini, como o vilão, é algo de outro mundo. Sua experiência teatral e televisiva está dando conta da carreira cinematográfica, permitindo-lhe o bom senso de nunca parecer exagerado nos personagens que encarna. Sabe dosar o humor, a seriedade, o drama e o que vier na medida ideal. Suas caras, bocas e entonações chegam ao limite da perfeição nesse filme.
Débora Falabella surpreende como Lisbela, embora cresça somente durante o desenrolar do filme. O mesmo se diz de Bruno Garcia como o noivo carioca (que no teatro fez o papel do prisioneiro, que aqui é de Selton Mello). Tanto ele como Virgínia Cavendish - mulher do vilão - são dois atores não muito conhecidos do grande público que possuem talento fenomenal, acredite. Tadeu Mello é o cabo Citonho, num personagem para o qual parece ter nascido. Assim como André Marques, que conseguiu a proeza de sair da Escolinha do Professor Raimundo ("Meu querido!!!") e do papel de D.João VI para ser muito requisitado como ator, e com justiça.
O roteiro e seus argumentos são sensacionais. Destaque para o dinâmico jogo de palavras entre os personagens, já característico dos filmes de Guel. Em meio à comédia sem descanso, também há cenas de drama que provocam sinceras lágrimas na platéia. E principalmente para o enredo, que trata os clichês de Hollywood exatamente como são: clichês que não se comparam a um filme do nível de Lisbela e o prisioneiro. Fica aí o recado para que prestemos mais atenção à qualidade da produção nacional, em vez de apenas encher os cofres dos ianques sem imaginação.
A trilha sonora também é notável. Pela sua diversidade e bom gosto: depois de "Sozinho", Caetano Veloso transforma outra música considerada brega ("Você não me ensinou a te esquecer", de Fernando Mendes) em momento mágico da MPB; Elza Soares manda bem no tema do vilão (e olha que eu a odeio!), Los Hermanos mostram que sabem de forró; e uma inusitada parceria produz inimaginável entrosamento: Zé Ramalho e Sepultura. Fora a qualidade musical, cada letra e melodia encaixa-se nas cenas com perfeição - méritos para a produção.
Claudio Assis, diretor de "Amarelo Manga", trouxe ácida opinião sobre o tal "cinema social" do país: "O Brasil está fazendo um cinema com culpa (...) são burgueses filhos de sei lá quem, que têm peso na consciência por herdar riqueza e que querem se limpar fazendo um cinema com culpa. Daí dizem que pobre é bonzinho..." Certo ou errado, aproveito o depoimento de Claudio para inocentar Guel Arraes. Seu cinema não é com culpa, é com orgulho do país, com a pretensão de conscientizar no sentido da auto-estima cultural. Sabemos fazer bom cinema, e nossa terra e nossa miscigenação geral são matéria-prima suficiente para ótimos roteiros. Além disso, faço coro com o personagem de Selton Mello: "cinema nacional é bom porque o beijo já vem traduzido...".
Como falei no último post, aqui vai uma crítica mais apurada do novo filme de Guel Arraes, Lisbela e o prisioneiro. Quem gostou do "Auto da Compadecida" e de "Caramuru" não vai se decepcionar com este. Direção, roteiro, produção, interpretações, figurinos, trilha - tá tudo bom demais. Com certeza verei pela quarta vez (no cinema).
Osman Lins é um autor pernambucano desconhecido, de onde Guel Arraes tirou a história do filme para primeiro transformá-la em peça. Foi um laboratório de sucesso para saberem o que fazer na tela grande. Alguns atores que estavam na peça estão no filme, ainda que em papéis trocados.
De fato, as interpretações de cada um já valem o ingresso, com sobras. Selton Mello vai se transformando no maior ator de sua geração, tamanha é a sua versatilidade. Além dos citados filmes de Guel, Selton também protagonizou com maestria o pesado "Lavoura Arcaica", além da peça "Zastrozzi". É impressionante sua capacidade de ser completamente diferente em cada papel que atua - coisa que o parceiro do "Auto", Matheus Natchergale, já tinha alcançado.
Marco Nanini, como o vilão, é algo de outro mundo. Sua experiência teatral e televisiva está dando conta da carreira cinematográfica, permitindo-lhe o bom senso de nunca parecer exagerado nos personagens que encarna. Sabe dosar o humor, a seriedade, o drama e o que vier na medida ideal. Suas caras, bocas e entonações chegam ao limite da perfeição nesse filme.
Débora Falabella surpreende como Lisbela, embora cresça somente durante o desenrolar do filme. O mesmo se diz de Bruno Garcia como o noivo carioca (que no teatro fez o papel do prisioneiro, que aqui é de Selton Mello). Tanto ele como Virgínia Cavendish - mulher do vilão - são dois atores não muito conhecidos do grande público que possuem talento fenomenal, acredite. Tadeu Mello é o cabo Citonho, num personagem para o qual parece ter nascido. Assim como André Marques, que conseguiu a proeza de sair da Escolinha do Professor Raimundo ("Meu querido!!!") e do papel de D.João VI para ser muito requisitado como ator, e com justiça.
O roteiro e seus argumentos são sensacionais. Destaque para o dinâmico jogo de palavras entre os personagens, já característico dos filmes de Guel. Em meio à comédia sem descanso, também há cenas de drama que provocam sinceras lágrimas na platéia. E principalmente para o enredo, que trata os clichês de Hollywood exatamente como são: clichês que não se comparam a um filme do nível de Lisbela e o prisioneiro. Fica aí o recado para que prestemos mais atenção à qualidade da produção nacional, em vez de apenas encher os cofres dos ianques sem imaginação.
A trilha sonora também é notável. Pela sua diversidade e bom gosto: depois de "Sozinho", Caetano Veloso transforma outra música considerada brega ("Você não me ensinou a te esquecer", de Fernando Mendes) em momento mágico da MPB; Elza Soares manda bem no tema do vilão (e olha que eu a odeio!), Los Hermanos mostram que sabem de forró; e uma inusitada parceria produz inimaginável entrosamento: Zé Ramalho e Sepultura. Fora a qualidade musical, cada letra e melodia encaixa-se nas cenas com perfeição - méritos para a produção.
Claudio Assis, diretor de "Amarelo Manga", trouxe ácida opinião sobre o tal "cinema social" do país: "O Brasil está fazendo um cinema com culpa (...) são burgueses filhos de sei lá quem, que têm peso na consciência por herdar riqueza e que querem se limpar fazendo um cinema com culpa. Daí dizem que pobre é bonzinho..." Certo ou errado, aproveito o depoimento de Claudio para inocentar Guel Arraes. Seu cinema não é com culpa, é com orgulho do país, com a pretensão de conscientizar no sentido da auto-estima cultural. Sabemos fazer bom cinema, e nossa terra e nossa miscigenação geral são matéria-prima suficiente para ótimos roteiros. Além disso, faço coro com o personagem de Selton Mello: "cinema nacional é bom porque o beijo já vem traduzido...".
quarta-feira, 3 de setembro de 2003
Êxtase cultural: a Disney morreu, ao contrário do bom cinema nacional
A gente reclama de gastos extensos com nossas necessidades básicas, mas há momentos em que o dinheiro é muito bem gasto. Não apenas pra manter a saúde, a boa alimentação ou o sustento educacional como também o consumo, em doses cavalares, de alto nível cultural. "Procurando Nemo" e "Lisbela e o prisioneiro" estão nos meus receituários.
A história do peixinho Nemo é mais um sucesso da Pixar, a empresa responsável pela revolução gráfica nos desenhos animados do cinema. Desde "Toy Story" eles exploram a metáfora do mundo adulto por meio de outros universos conhecidos – como brinquedos, formigas etc. Embora as crianças sejam o público-alvo, a linguagem utilizada alcança qualquer idade. E não só a linguagem, como bons roteiros e cada personagem, dos divertidos aos mais tocantes.
A fórmula agora é a seguinte: a Pixar é mão-de-obra dos desenhos, enquanto a Disney fica com o marketing e a distribuição. Ou seja: mérito todinho pra Pixar, melhor ainda por suplantar qualquer filme anterior da Disney. Seja em originalidade, criatividade ou até mesmo bom senso. Claro que cada filme a seu tempo, mas compare os antigos essencialmente produzidos e feitos pela Disney com os de hoje, nos quais ela apenas paga pra botar a marca. É covardia.
Um trailer de 1989 feito pela Pixar coloca o "Rei Leão" no chinelo. Cada vez menos clichês e cada vez mais valorização da inteligência da criança. Afinal, elas entendem (e riem de) todas as referências contemporâneas, como não? Ao contrário dos contos de fada politicamente corretos ao extremo, usam o mundo real para exercer suas qualidades gráfico-narrativas.
"Lisbela e o prisioneiro" é mais uma pérola de Guel Arraes, que tem no currículo "O Auto da Compadecida" e "Caramuru", além dos conceituados "Comédias da Vida Privada" e "TV Pirata". Dessa vez a mulher do Caetano bancou a produção e quis fazer um blockbuster brasileiro. Em entrevista, Paula Lavigne diz ficar feliz se conseguir "pelo menos dois milhões de espectadores"...
Ao contrário do que parece, isso não atrapalhou em nada a qualidade do filme. Os atores estão excepcionais, todos eles. Os argumentos, a uma velocidade já característica dos filmes de Guel. Figurinos e trilha sonora feitos sob medida completam a obra-prima. Já vi 3 vezes! (O próximo post será exclusivo sobre Lisbela, quando me alongarei mais sobre o filme)
Logo, é ótimo perceber que o bom cinema nacional ressurgiu de vez, e sem precisar apelar. É disso que o povo gosta, e não das baixarias justificadas por argumento semelhante no horário nobre. O mesmo vale pra Pixar, a verdadeira rainha dos baixinhos. Dêem-nos opções e saberemos escolher a boa parte. Quem tem medo (no caso, de perder audiência) é quem não se garante – e olha que isso a gente aprende no primário...
A gente reclama de gastos extensos com nossas necessidades básicas, mas há momentos em que o dinheiro é muito bem gasto. Não apenas pra manter a saúde, a boa alimentação ou o sustento educacional como também o consumo, em doses cavalares, de alto nível cultural. "Procurando Nemo" e "Lisbela e o prisioneiro" estão nos meus receituários.
A história do peixinho Nemo é mais um sucesso da Pixar, a empresa responsável pela revolução gráfica nos desenhos animados do cinema. Desde "Toy Story" eles exploram a metáfora do mundo adulto por meio de outros universos conhecidos – como brinquedos, formigas etc. Embora as crianças sejam o público-alvo, a linguagem utilizada alcança qualquer idade. E não só a linguagem, como bons roteiros e cada personagem, dos divertidos aos mais tocantes.
A fórmula agora é a seguinte: a Pixar é mão-de-obra dos desenhos, enquanto a Disney fica com o marketing e a distribuição. Ou seja: mérito todinho pra Pixar, melhor ainda por suplantar qualquer filme anterior da Disney. Seja em originalidade, criatividade ou até mesmo bom senso. Claro que cada filme a seu tempo, mas compare os antigos essencialmente produzidos e feitos pela Disney com os de hoje, nos quais ela apenas paga pra botar a marca. É covardia.
Um trailer de 1989 feito pela Pixar coloca o "Rei Leão" no chinelo. Cada vez menos clichês e cada vez mais valorização da inteligência da criança. Afinal, elas entendem (e riem de) todas as referências contemporâneas, como não? Ao contrário dos contos de fada politicamente corretos ao extremo, usam o mundo real para exercer suas qualidades gráfico-narrativas.
"Lisbela e o prisioneiro" é mais uma pérola de Guel Arraes, que tem no currículo "O Auto da Compadecida" e "Caramuru", além dos conceituados "Comédias da Vida Privada" e "TV Pirata". Dessa vez a mulher do Caetano bancou a produção e quis fazer um blockbuster brasileiro. Em entrevista, Paula Lavigne diz ficar feliz se conseguir "pelo menos dois milhões de espectadores"...
Ao contrário do que parece, isso não atrapalhou em nada a qualidade do filme. Os atores estão excepcionais, todos eles. Os argumentos, a uma velocidade já característica dos filmes de Guel. Figurinos e trilha sonora feitos sob medida completam a obra-prima. Já vi 3 vezes! (O próximo post será exclusivo sobre Lisbela, quando me alongarei mais sobre o filme)
Logo, é ótimo perceber que o bom cinema nacional ressurgiu de vez, e sem precisar apelar. É disso que o povo gosta, e não das baixarias justificadas por argumento semelhante no horário nobre. O mesmo vale pra Pixar, a verdadeira rainha dos baixinhos. Dêem-nos opções e saberemos escolher a boa parte. Quem tem medo (no caso, de perder audiência) é quem não se garante – e olha que isso a gente aprende no primário...
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