domingo, 20 de agosto de 2006

A vida é curta


A vida é curta. Por enquanto, apenas 8 meses, dependurados na barriga em simbiose maternal. Aguarda o momento enquanto é segurado firme, a mãe segurando firme na barra do metrô para não cair. Os lugares, todos ocupados, incluindo os já a ela reservados.

A insensibilidade geral é larga. Bancos verdes, laranjas, sem preconceito de cor em honra à indiferença. A mãe se segura e os demais acomodam-se cegos, ou num fingimento cuja habilidade quase admiro.

O olhar da mãe é curto. Não almeja grandes conquistas, apenas um lugar naquele vagão. Um descanso exigido por lei natural e legitimado no direito, degolado na atitude ilegítima dos sentados. O olhar da mãe é curto e me corta. É comigo agora. Meu desespero em checar se realmente ninguém dos bancos reservados vai levantar é estimulante do meu erguer-me. Ela parece ter compreendido meu próprio olhar antes de mim: começava a deslocar-se em minha direção. Era hora de algo mudar.

A distância entre nós encurtou-se. Um homem no banco em frente a mim quase levita em marcha acelerada para preservar a vida curta e sua mãe, que senta à minha frente. Vejo seu rabo-de-cavalo a um palmo. Os sentados nos reservados poderiam hospedar-se num museu de cera. Estáticos gélidos de alma.

A viagem é curta e eu salto. Daqui a um mês ele vem à luz e me pergunto: em que lado se postará? Dos profissionais da frieza ou dos revoltados incomodados? Não saberá, por certo, que sua mãe participou do circo humano da dissimulação. Nem poderei relatar-lhe meu testemunho. "O mundo te espera, e cruel", eu diria.

domingo, 13 de agosto de 2006

PCC, mestre em Comunicação Social


Seqüestraram um repórter. UM repórter. Após centenas de ataques, outra centena de mortos, toques de recolher, paspalhices políticas e terror generalizado, o PCC resolve seqüestrar um repórter, funcionário do maior monopólio de comunicação do país. Após esse feito, seu vídeo de reivindicações, que fala da situação carcerária insustentável, é veiculado na íntegra, do contrário a pena de morte do repórter estaria assinalada.

É incrível que, até então, o noticiário só conseguia cobrir os momentos de pânico, influenciar ou relatar a repressão policial maior ainda, mostrar os chefões do PCC etc etc. Mas pouquíssimas vezes fizeram matérias sobre a situação carcerária do país, as condições para que ladrões de galinha ou de lojas de shopping se tornem monstros e que monstros nunca dêem meia-volta na sua vocação criminosa.

Mas no momento em que UM repórter da Globo é seqüestrado, todo o país é obrigado a ver o que os jornais teimam em não mostrar: as causas do problema.

Não discutirei aqui as origens de um criminoso, qual a melhor solução para a violência e a desigualdade social, ou coisa do tipo. Vou me ater ao fato da vez: como os principais representantes do PCC reiteraram sempre (incluindo Marcola na CPI do Tráfico), os ataques se repetem porque a situação carcerária é desumana, uma fábrica de bombas-relógio como a que estamos assistindo agora.

"Mas eles são desumanos também! Olha o que estão fazendo com cidadãos de bem! E eles não estão presos à toa!". Não estou negando isso.

No entanto, o sistema prisional brasileiro especializa-se dia após dia a piorar o que já está ruim. Imagine você juntar num cubículo para 12 pessoas cerca de 50 indivíduos com antecedentes criminais, de variados níveis e índoles. Além disso, trate-os como animais, abuse de sua autoridade diante deles. Há como conter essa panela de pressão por tempo indeterminado?

Esse é o tipo de cobrança que a sociedade também deve exercer sobre os governantes. Segurança pública não é apenas manter os marginais longe de nossas belas casas - é proporcionar condições para que os mesmos, se não forem ressocializados, ao menos não apresentem perigo iminente. E que não tenham motivação ou condições para isso. Prender e manter nas condições já referidas é fortalecer rebeliões futuras, quando a fúria será maior e mais organizada. É o que vemos em São Paulo.

Pois dessa parte da história a imprensa passa longe. Também não são abordados os casos (milhares de casos) de ladrões de pequenos furtos que já deveriam estar soltos e permanecem lá, pois não são Suzane von Richtofen para terem advogados acompanhando passo a passo os direitos de liberdade condicional etc que possuem. Ficam lá, sem esperança, e cujas únicas opções são a morte ou sobreviver por meio de facções como o PCC. Pioram, graças ao sistema prisional, que deveria nos dar segurança.

A imprensa encarna o espírito de classe média/média-alta que nos acomete hoje: bandido bom é bandido morto ou esculachado dia após dia. Não se percebe que esse tipo de postura, estendida aos governantes e suas administrações penitenciárias, é a pólvora perfeita para incendiar o Morumbi intocável. É muita ignorância.

Assim, qual é a maneira de mostrar à sociedade as causas de problemas tão graves de nosso sistema de segurança pública? Seqüestrando um repórter da Globo. Bin Laden faz escola, e a imprensa não aprende.

Como jornalista, fico temeroso em perceber que os canais de intermediação - a mídia -são cada vez mais desprezados para que conheçamos nosso contexto. E por pura incompetência e cegueira de seus donos, fingindo que vivem num mundo diferente por terem mais dinheiro. Ilusão que o PCC tem se especializado em desfazer.

Oro para que o repórter não pague com sua vida pela teimosia de governantes e donos de jornais.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Geraldo Lopes, jornalista


Talvez você não o conheça. Mas se você me conhece, recomendo o artigo que segue.

Repórter policial por mais de 30 anos, Geraldo passou por jornais como a Última Hora, O Globo, revista Manchete e foi editor de um marcante programa de TV: o Documento Especial, com reportagens urbanas e qualidade cinematográfica.

Eu, que desde minha 8a. série já queria ser jornalista, pude conhecer Geraldo quando trabalhei na Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Cultura do Rio. Ele já tinha mais de 50 anos e como tantos outros de sua geração, não conseguia mais emprego nas redações. A tal lógica burra do capitalismo: manda embora os mais velhos por terem maiores salários, e assim cortar custos. Desprezam a experiência e o conhecimento que os então demitidos acumularam e ainda tentam manter a qualidade do produto. Impossível.

Geraldo foi um instrumento de Deus para confirmar minha vocação jornalística. Ouvindo suas histórias (também falava em tom de reportagem) e lendo seus livros (era especialista em sistema prisional, ganhou o prêmio Jabuti em 2001) fui conhecendo-o melhor. E me conhecendo também. Ao conversarmos e ao ouvi-lo, vi que era aquele espírito de repórter que eu também possuía. Mesmo que nunca trabalhasse numa redação, eu seria jornalista sempre. Assim como Geraldo era, independente de seu momento.

Também foi um pai para mim, um orientador, alguém a me inspirar, que investia em minha carreira jornalística com conselhos e estímulos. "Pô, Lessa, você vai fazer 22 anos mas tem estrada de 40!", disse-me Geraldo há 4 anos.

Deixamos de nos ver por mais de 2 anos, e ao nos reencontrarmos ele descobriu que tinha câncer de estômago. Tentou os tratamentos tradicionais e um alternativo em Cuba. Não resistiu, falecendo em 20 de junho passado.

Há pouco soube que em algum país do Oriente (Japão ou China, não lembro), quando alguém morre, é feito um desfile em praça pública. Todos os familiares e amigos se vestem com as melhores roupas, dançam e cantam as músicas mais alegres, chamam a atenção dos passantes. Depois dos mais animados que abrem o desfile, vem o caixão. E após ele mais gente cantando e dançando. Em vez de lamentarem a morte recém-chegada, celebram a vida do que partiu. E que deixou saudade, marcas que serão para sempre lembradas.

Meu artigo celebra a vida de Geraldo Lopes. Permitindo-me um pouco de surrealismo, me multiplico em dez, cem, mil iguais a mim cantando e dançando na Av. Presidente Vargas, carregando o féretro. Paro o trânsito, os trabalhadores dos prédios olham e percebem que a celebração deve ser de alguém importante, num tempo em que a fama teima em ser inversamente proporcional ao diferencial das pessoas em nós.

As matérias de Geraldo são projetadas no céu, e todos suspiram nostalgicamente por um jornalismo que escrevia pensando em gente, e não em números. É um sentimento natural, uma vez que Geraldo não foi mais um. Foi um. E não foi pouco.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

O fato

A necessidade de se mostrar nas letras. O incômodo de olhar a folha em branco, a caneta em punho, o coração pulsando por tantos motivos e apenas uma certeza: escrever.

Mas escrever o quê? Não sei, o que também me parece absurdo. Tenho uma lista de histórias para contar, mas não agora, não sei por quê. É mais transpiração e atendimento ao chamado de macular o papel branco. Como pode, um papel branco, branquinho, sem nada... escrito? É quase uma ofensa, uma insinuação insolente, desafiando aquele que não vive sem escrever, ainda que não escreva para viver. E ofendidos nós caímos na provocação, e não deixamos aquele marrento papel em branco em paz. Vêm os rabiscos organizados que lapidam a auto-estima do escritor.

E o impressionante é que se consegue escrever sem abordar nenhum assunto diretamente, apenas descrever o exercício metalingüístico da escrita pela escrita. Porque é isso que "mexe" com a gente, o ato de produzir as letras que urgem, a despeito de nosso momento ou contexto, se eles permitem ou não que escrevamos. E quando somos vencidos pela impossibilidade, a angústia reina em dobro: pelo fato de não podermos escrever e pelo desespero de que a inspiração/transpiração passe, erradicando a idéia, até então, digna de ser escrita.

Terror!

Pode ser pior, acredite. Podemos ter uma tendinite já aos 20 e poucos anos e ela doer tanto ao teclado ou à caneta, trazendo uma interrogação para possibilidades futuras de escrever (a não ser que ainda hoje se resolva o agravante da doença). Um obstáculo paradoxalmente benéfico, pois quando confrontados é que sabemos do que somos feitos, sabemos qual é a nossa busca. E a inconveniente tendinite me leva ao encontro da vocação inescapável, assunto que já mencionei por aqui tantas vezes. O espinho me traz a glória, e é impossível não sorrir diante desse fato, apesar do braço dolorido.

Assim prossegue a dança entre os sonhos e as possibilidades, revelada aqui nesse microcosmo de alguém com sua caneta e seu papel. Meus tendões e a lógica louca pós-moderna, que faz do excesso de tudo uma virtude inconseqüente e da qualidade de vida antes, durante e depois do pão de cada dia, um crime hediondo e nada lucrativo. Eu não pertenço a esse mundo, eu só pertenço a mim mesmo.

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Ao atravessarmos a rua

Ao atravessarmos a rua, todo cuidado é pouco. É preciso olhar o sinal (ou farol, ou semáforo), aguardar os veículos pararem e seguir pela faixa de pedestres até o seu objetivo: o outro lado da rua. Uma tarefa simples e totalmente cotidiana, crucial para seguirmos em vida.

Agora imagine que, enquanto você está no meio da rua, alguém grita o seu nome. Você não sabe de onde vem a voz, tampouco quem está falando. Informações fundamentais para você decidir o que faz. Continua atravessando? Ignora a voz? Dependendo de quem for, você presta atenção e pode voltar à calçada. Ou atravessar mais rápido. Enfim, saber quem fala e de onde fala é que dá credibilidade à informação, permitindo assim que você tome a melhor decisão para seguir em vida.

Pois eu penso que os cidadãos brasileiros encontram-se na mesma situação diante da imprensa atual.

Muito se tem gritado daqui e dali, vozes elevadas querendo ostentar moral ou indignação, denúncias, pizzas de novo, culpados, absolvidos, interesses permeando a atmosfera. Você pode concluir que sempre foi assim e que, dependendo das conveniências e do nível de "rabo preso", não muda muita coisa.

Ainda assim, quero lembrar um exemplo que considero significativo na história recente da imprensa brasileira. Em 2002, a revista Carta Capital declarou abertamente o voto em Lula, e por meio de seus editoriais e artigos apoiava o candidato do PT. Enquanto isso, continuava cobrindo a campanha, como todos os veículos de comunicação.

Considero que a postura da revista foi a mais honesta, uma vez que nos ajuda a "atravessar a rua", até hoje. Quando lemos em suas páginas matérias sobre o Governo Federal e demais acontecimentos da atual cena política, sabemos qual a posição do veículo sobre seus sujeitos e objetos de análise e cobertura. Sabemos quem fala o quê, e de onde está falando. Isso se chama transparência.

Por outro lado, os principais jornais e emissoras do país teimam em nos dizer que são "imparciais" e "isentos", e que buscam o equilíbrio na hora de cobrir os acontecimentos. Diante do que temos presenciado nas páginas de jornais e blocos de TV, isso se chama estelionato. E com a audiência do cidadão brasileiro, o seu bem mais precioso (eu diria que a credibilidade é o bem mais precioso, mas não sei se tais veículos ainda se preocupam com isso).

Como distinguir as versões elaboradas dos fatos reais, uma vez que ninguém admite de onde está falando? E ainda flertam dia após dia com as aspas, aproveitando as falas de políticos daqui e dali, uma vez que os próprios veículos não têm coragem de assumir o DNA do que transmitem. Talvez por estarem com tanto "rabo preso" quanto aqueles que denunciam...

Seria muito mais benéfico para a democracia e para o Estado brasileiro se a imprensa compartilhasse com seu público uma informação tão importante quanto seus "furos": o lugar de onde se emite a mensagem. Isso daria mais elementos ao cidadão para decidir não somente seu voto, como também tantas outras decisões importantes para sua autonomia pessoal e conscientização nacional. Assim como desejamos dos parlamentares o voto aberto nas sessões, queremos a "apuração aberta" da imprensa no que diz respeito às intenções de suas pautas.

Ou sou só eu que preciso de um jornalismo responsável?

terça-feira, 4 de abril de 2006

O homem na corda bamba (*)

Está tenso. Tensiona os músculos e o espírito, e controla sua ansiedade para dar o passo seguinte. Ao mesmo tempo, preocupa-se em manter o equilíbrio. Qualquer passo em falso, verdadeira queda, derradeira morte. Não há rede de segurança, e ele precisa ignorar o abismo e lembrar-se dele, ao mesmo tempo. Avista o outro lado, quer chegar, mas precisa manter o ritmo.

Ao chegar perto, pensa em se apressar. Depois de tanta espera e suor, agora falta muito pouco. A tentação de se apressar é cada vez mais forte, mas ele sabe que se jogar pro alto toda a tensão administrada, atira-se abaixo. A ansiedade o envolve de tal forma que fica na dúvida se era mesmo pra ter seguido aquele caminho. " Era!" , ouve a confirmação em seu espírito.

O homem na corda bamba, personagem tão conhecido de quem já foi ao circo, volta a minhas memórias ao escrever esse editorial. Tentei observar o que ele agüenta lá em cima e fechando os olhos por um minuto, ao abrir me vi na corda. Meu medo de altura por companhia, pra deixar a situação mais dramática. Corda metafórica, sentimentos semelhantes ao de tantas fases de nossa vida.

Não sei que vozes o homem na corda bamba consegue ouvir durante sua exibição. Se o barulho da platéia o atrapalha, se pensa que nunca devia ter sido o que é. Mas ouvir " esse é o caminho, andai por ele" , na voz inconfundível do Espírito Santo, é tudo o que busco na minha corda. Quer dizer, vida. Acho que dá no mesmo.
(*) Originalmente publicado em 15/05/2005 no boletim dominical da Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Por trás das lentes dos meus óculos

Por trás das lentes dos meus óculos existe alguém ambicioso. Alguém que busca, minuto a minuto, algo que não há como saber se é cobiçado pela maioria dos seres humanos. Se é, tal procura não parece ser assumida publicamente. Uma ambição, como já disse, e não há outra maneira de descrever a perseguição desse objetivo, cujo caminho é cheio de armadilhas e auto-empecilhos. Por trás das lentes dos meus óculos existe alguém que não quer outra coisa que não a simplicidade.

É a rotina de acordar, lavar o rosto, tomar o banho que desperta, portar os óculos e me postar para a retomada diária da busca. É reassumir sem desespero as complexidades que nossa vida nos reserva, sabendo que isso faz parte da motivação para a busca. É ter sede de conhecimento, na vazão da leitura plural e sem preconceitos, nos contatos assimilados e mantidos, empreendendo os cinco sentidos no espocar das mídias e de suas informações.

Ao mesmo tempo, é sentir dor. Por mais que eu me esmere em buscar a simplicidade em todos os meus atos e palavras, construindo comunhão com quem está ao meu redor, sem ares de superioridade, ainda assim posso ser classificado como "superior". Ou intelectual, ou coisa parecida. E esse é um momento de angústia. De sentir na pele, na boca e na mente o gosto de distância, de ainda estar longe da tal simplicidade, uma vez que ainda sou assim classificado. De me sentir segregado enquanto remo com toda força contra essa maré.

E ao flagrar aqueles que pouco se importam em serem assim classificados, ou melhor, que se esbaldam em serem "especiais" e a quilômetros dos "seres humanos comuns", mantendo as barreiras que eu tento transpor - os "auto-empecilhos" - me vem a sensação de abandono. Abandonado entre os que sentem prazer em ser "elite", ao não comungar dos seus paladares; e abandonado por aqueles a quem tento me ladear no contato pessoal com a simplicidade, e que no entanto não detectam essa minha vontade, essa minha busca. Sinto-me só e incompreendido.

Por trás das lentes dos meus óculos existe alguém assim. E se existe alguém assim à frente das lentes dos meus óculos, que um dia a mim se manifeste. Vai ser um alívio renovador. Para ambos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Não!

Quem sabe dizer não? Você sabe? Eu sei? Não sei não. E por que não? Como saber? Apenas três letras, sempre imperiosas e imperativas por si só, por que não? Qual é a dificuldade? Por que tanto vício no aceite, no concordar sem questionar, no "engolir" e só depois perceber que desde o início a resposta devia ser "não"? E agora agüentar as conseqüências, nesse sentimento de vergonha secreta, em que só nós e o espelho nos torturamos mutuamente enquanto os beneficiados por nossa covardia se deleitam?

A comunidade do Orkut "Preciso aprender a dizer NÃO!" já conta com quase 80 mil pessoas! Nada comparado a 6 bilhões de habitantes do planeta. Ainda assim, 80 mil seres como eu que ainda não aprenderam a dizer a palavrinha em tantas situações, para o nosso próprio bem. Eu me pergunto: por que, tendo consciência desse problema, ainda é tão difícil dizer NÃO?

Encontro um fiapo de resposta no shopping.

A opressão do consumo rodeia a nossa vida desde o nascimento. As roupas e lojas de bebês são variadas, e não me venha com o papo de que haver concorrência baixa os preços e ponto final. Pois as vendas e a publicidade deixaram de existir a fim de proporcionar a subsistência de uma vida digna do básico, para exortar com capa de profeta a opulência necessária (a quem?). Precisamos todos consumir, embora quase nunca precisemos consumir tanto. A ideologia do consumo além do necessário, como estilo e proposta de vida, tem levado muitos a suicídios de personalidade por meio do superficial.

Consumir é dizer sim. "Sim, vou levar"; "sim, eu compro"; "sim, eu aceito"; "sim, por que não?". Suspeito que temos tanta dificuldade em dizer não pela extrema lavagem cerebral, corporal e intelectual do consumo, que só existe a partir do nosso "sim". Sem sim não há compra nem venda. Logo, é preciso um pouco de "sim" para não morrermos pelo caminho. Mas viciar em "sim", fazendo da crítica uma herege em cleros capitalistas, é morte em vida.

"Ô garoto 'vermelhinho'! Aposto que não despreza uma Coca-Cola ou um tênis novo!". Estão certos. Não desprezo. Assim como não desprezo o equilíbrio. Dizer sim a todo instante é gangorra enterrada de um lado só, sem movimento nem diversão, tampouco qualidade de vida. E o drama para dizer não (mesmo tendo a consciência total de que é aquilo que preciso dizer naquele momento) é o sintoma dessa situação doente na qual me vejo inserido. Quem ambiciona continuar doente?

Preciso aprender a dizer não. Preciso dizer não. Sem grosseria, mas com firmeza. Sem estupidez, mas com coerência. Sem intolerância, mas com amor. Sim, eu preciso dizer não. Pra mim e por mim.

Enquanto produzia mais essas linhas, o maldito Word recém instalado me perguntava, a cada palavra digitada: "A Auto Correção não está instalada. Deseja instalar agora?". Para continuar a escrever, era preciso clicar infinitamente: não! Refestelo-me na ironia...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Chico, Tom e Vinicius

Pode parecer escapismo, mas não é. Assim como, diante das torrentes que tentam nos submergir e é preciso vir à tona, tomar fôlego e renovar as energias para prosseguir, é alento para um coração brasileiro assistir ao especial sobre Chico Buarque e Tom Jobim, exibido pela Bandeirantes no fim do último domingo. Da mesma maneira o documentário "Vinicius", ainda em cartaz nos cinemas, sobre um dos principais parceiros de Tom, o poeta Vinicius de Moraes.

Sim, nosso país está em meio a mais uma crise, não podemos sequer por um minuto descolar os olhos dos políticos, somos assolados por violência explícita e implícita, e não sou eu quem vai incentivar aos leitores deste blog a esquecerem a realidade. Mas para enfrentar os desafios de nosso tempo é preciso memória. É preciso história, principalmente do que vale lembrar, do que tem valor, do que também é Brasil.

Chico, Tom e Vinicius são Brasil. São brasileiros como eu, e isso me enche de um orgulho maior do que a vergonha pelos desalinhos sociais. Não excluo nem o orgulho nem a vergonha, mas é hora de sublinhar o que já é fato: sou feliz por ter como expoentes de minha cultura nacional Chico, Tom e Vinicius.

O especial foi fantástico, ainda que simples: tão somente clipes de alguns bastidores e shows, intercalados com depoimentos recentes de Chico. E bendita seja a mídia, eu que tanto a critico: seus aparatos permitem imortalizar quase ao vivo a vida de quem já se foi e não era pra ter ido. Posso ver Tom cantando, compondo e falando sobre música e até mesmo bobagens, demonstrando que de mito nada teve, era gente como eu e você. E explorem mesmo o "filão" Chico Buarque (no intervalo do especial, os anúncios dos novos DVDs sobre Chico, com o mercado sempre tirando uma casquinha), registrem, vamos falar pra sempre do que é bom pra caramba.

Há gosto pra tudo e você já percebeu que gosto de Chico, Tom e Vinicius. Não vou aqui discutir o que é música popular hoje, o que está sendo esquecido pela galera mais jovem. Vou apenas ressaltar pela milésima vez que devemos agradecer a Deus por ter nos dado Chico, Tom e Vinicius. Por sua poesia, inteligência, música e também sensibilidade social.

Ainda não vi o filme "Vinicius", mas uma reportagem narrou que os espectadores mais velhos têm saudade daquele Rio de Janeiro da época. Não sei ao certo em que sentido falaram (não li a reportagem inteira), mas ao menos no inconsciente coletivo haverá a saudade de um Rio menos violento e mais harmonioso. Não adianta negar, carioca. E "Vinicius" tem evocado essa nostalgia maravilhosa.

Porém eu, sem ter vivido naquele tempo, acrescento ter saudade da classe média de então. Vinicius de Moraes, diplomata, virou nome de rua em Ipanema, por justa causa; Tom Jobim, vizinho e famoso mundialmente; Chico Buarque, filho do autor de um dos livros indispensáveis para se entender nosso país, também morador da Zona Sul, olhos verdes de garoto rico. Pois em todos eles a música - por meio do samba, em todas as suas variantes e manifestações culturais - foi a ponte integradora entre Chico, Tom e Vinicius e os não tão privilegiados.

"O morro não tem vez/E o que ele fez já foi demais/Mas olhem bem vocês/Quando derem vez ao morro toda a cidade vai cantar" - Tom/Vinicius; "Já mandei subir o piano pra Mangueira/A minha música não é de levantar poeira/Mas pode entrar no barracão" - Chico/Tom. Exemplos de como esses expoentes de nossa música relacionavam-se com nossas favelas. Não eram sociólogos, governantes, secretários de Estado ou policiais. Eram músicos, e na parte que lhe cabiam, executavam a necessidade de integração - e não de apartação - das classes altas com as classes baixas. Chico, Tom e Vinicius subiam o morro, e eles desciam ao encontro de Chico, Tom e Vinicius, metafórica e literalmente. Dessa comunhão surgiu parte considerável do DNA de nosso orgulho atual, já mencionado.

Que querem os moradores de Leblon e Ipanema, de uns tempos pra cá? Distância daquela gente. Remoção, desaparecimento, invisibilidade, praias limpas. Precisam de seus BMWs, ainda que a custa de salários de fome dos empregados/escravos. Não querem saber de integração, quando muito de alguma açãozinha social pra conseguir dormir à noite em seus travesseiros com pena de pavão.

(Não sejamos infantis: "moradores de Leblon e Ipanema" é um termo para classe média. Assim como "favela" para classe pobre. Tenho pouco espaço e você pouca paciência para ler na tela do computador, então preciso ser o mais sucinto possível na linguagem).

A questão é: agindo, pensando e fazendo com que seus herdeiros pensem de igual forma, a classe média de hoje desonra seus antepassados, contemporâneos dos personagens reais de "Vinicius". Podem pagar o tributo devido indo aos cinemas e vendo especiais na TV, mas na hora da prática de sensibilidade social integral (e não só pontual), sujam o nome e a obra de Chico, Tom e Vinicius. E ainda dão escândalos nas primeiras páginas quando a violência se acentua, como se a mesma surgisse "do nada", como se não fosse correspondente à exclusão social que avista os incluídos da janela do barraco. Por favor... Se for o caso, fiquem quietos. Ou cantarolem uma bossa nova.

Chega de saudade. A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza. É só tristeza e a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Arestas do referendo

Como você, eu não agüento mais. Não agüento mais os exaltados defensores do NÃO, nem os artistas globais defensores do SIM. Não agüento mais ter que desconfiar de tudo e de todos para tentar perceber o que está por trás do referendo, quais as reais intenções e as possíveis conseqüências de meu voto... Não falo aqui de alienação, mas de uma saturação que não gostaria de estar sentindo, mas sinto.

Os políticos não quiseram assumir esse ônus para seus mandatos e mandaram o povo escolher e também arcar com as conseqüências. Não quiseram esse desgaste das responsabilidades a assumir antes, durante e depois do referendo, e de repente resolveram exaltar a democracia. Nossos impostos públicos também pagam as milhares de vantagens e assessores descabidos, e nem por isso somos levados a decidir diretamente os destinos de tais verbas...

É o que o referendo está mostrando a todos nós, na verdade: a questão central não é o fato de andarem armados ou desarmados, se a violência vai aumentar ou diminuir, quem é conservador ou liberal. O que a experiência do referendo revela, antes mesmo do escrutínio, é a nossa adolescência democrática. Estamos na puberdade cidadã.

Nossa Constituição faz 18 anos, as primeiras eleições diretas, 17. Por mais precoce que um jovem possa ser, ele passa pelas crises de identidade, responsabilidade e maturidade. O fim da infância, embora ainda não tenha chegado à fase adulta. Dificuldade na hora de tomar decisões que trazem frutos para o resto da vida, terror ao começar a se dar conta de que fazer escolhas significa antes de tudo abrir mão de outras. A inabilidade inicial com as ferramentas que dispõe também é característico da idade.

E cá está o referendo, um instrumento de democracia direta (sem mediação de eleitos) em meio à nossa democracia representativa (com mediação de eleitos). Por que não usá-lo mais vezes? Por que tanta divisão - e desinformação muitas vezes - na hora de discutir e decidir? Como um adolescente que ainda não entende como funciona seus hormônios e ali estão eles, fazendo parte de seu corpo, somos nós com nossa democracia recente e exigindo que demos conta dela.

Levando-se em conta a baixa credibilidade de nossos representantes no Congresso e o desgosto de muitos pela política (agravado pela pasteurização moral do único partido que ainda apresentava-se como alternativa), a democracia teria direito de sobrevida? Chegando só agora à maioridade, estaria ela apta para lidar consigo mesma e com as conseqüências de suas ações?

É esse o contexto de nosso referendo. Nas eleições corriqueiras, muitos votam para em seguida esquecer em quem votaram, como se tivessem repassado rápido uma chata responsabilidade para uns poucos em Brasília. Tal e qual um inconstante adolescente, ficamos indignados quando os eleitos são flagrados nos deslizes de ética etc., a despeito de nossa irresponsabilidade ao votar.

Agora, para decidir se o comércio de armas continua ou não, discutimos uns com os outros sem perceber que o referendo é a melhor maneira de muitos políticos lavarem as mãos em público, para o público e fazendo o público sorrir pensando que conseguiram uma grande vitória. Tal e qual um adolescente, após essa empolgação toda podemos nos frustrar como ao levar o "fora" de um grande amor.

Afinal, o artigo divaga sobre democracia e referendo para chegar aonde? Não sei. Não é meu objetivo recomendar o voto no SIM ou no NÃO, embora ache que o leitor tem o direito de saber de onde me dirijo: voto SIM, por várias razões elencadas pela Frente Brasil Sem Armas. Mas a minha maior preocupação é que o referendo se tornou a nossa maior preocupação, e que ano que vem corre-se o risco de não termos a menor preocupação diante dos que não têm a menor preocupação com o sentido e a responsabilidade de um cargo público.

E teremos gastado toda a nossa energia e desejo de qualificar o debate e depurar nossa crítica somente quanto às armas. E seguiremos desarmados politicamente e prorrogando nossa adolescência democrática para que nossos supostos tutores em Brasília nos confundam ainda mais em nossa identidade como nação.

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Severino Cavalcanti, homem do povo

Ah, Severino... Você pensou que o conto de fadas duraria para sempre? Pois é... Imagino que sua cabeça esteja dando voltas, sem entender direito esse episódio de seus 40 anos de vida pública. Como espectador atento tentarei te esclarecer despretensiosamente, apenas pela consideração com o homem público que você (por enquanto) é.

Lembra, Severino, que em governos anteriores você sempre se candidatava à presidência da Câmara dos Deputados? Chegou a ser primeiro-secretário, mas quando a eleição era para o terceiro homem da República você chegava sempre em quarto, quinto lugar. O chamado "baixo clero" sempre te acompanhou, mas não era suficiente. E a imprensa te dava uma linha nas páginas para depois esquecê-lo com gosto (saudade desses tempos, Severino?).

No entanto, em 2005 a coisa mudou: a base aliada ao Governo estava dividida (algum dia esteve coesa?), o mesmo partido lançou dois candidatos à presidência da Câmara, os oportunistas de sempre alojavam-se em quem convinha melhor. O resultado era imprevisível, mas não tanto quanto foi de fato. Na antevéspera da eleição muita gente mudou seu voto pré-declarado e pronto: você, Severino, era o novo presidente, depois da milésima tentativa.

Você não estranhou que a imprensa sequer mencionou seu nome nessa antevéspera derradeira? Que nunca foi cogitada a possibilidade de você emplacar, Severino? Talvez você não estranhasse o silêncio da apuração jornalística quanto à sua candidatura, mas hoje eu estranho... Enfim: você e o baixo clero mal podiam acreditar que estavam no poder, finalmente. Nem vocês nem o resto do Brasil, boquiaberto.

E você foi um político coerente como há muito não víamos: quis colocar em voga tudo o que pregava antes, a começar pelo aumento constante dos vencimentos dos parlamentares. Você não entendia quando muitos dos que te elegeram se mostraram receosos com decisões assim. Mas não foi pra isso que te elegeram? Acho que não, Severino...

Por que tanta perseguição a você agora, Severino? Por que todos de dedo em riste quanto a sua trajetória política, que não mudou após ganhar a eleição? Por que essa indignação tardia? Será que ela sempre existiu de fato, Severino? Respire, reconheço que é difícil de entender.

Fato é, Severino, que você já cumpriu sua missão. E foi descartado no momento que convinha. Para tirar por impeachment quem foi eleito (presidente e vice), ia sobrar pro terceiro homem da República assumir essa joça. Quando viram que essa oportunidade esbarraria em você, Severino, aí eles viram que foram longe demais.

E tome cheque surgindo (logo agora?), denúncia de propina (logo agora?), acusação de corrupção quando você era primeiro-secretário (logo agora?)... E olha que incrível: a imprensa que nunca te deu bola não saía mais do seu pé. Chegaram a anunciar sua renúncia em capas de revista, como que decretando sua decisão posterior. Premonição ou pressão? A primeira é difícil dizer de onde costuma vir, já a segunda...

E você ainda tentou alertá-los, Severino... Aquele umbigo de fora ao comemorar sua eleição já dizia tudo, e eu fiquei fascinado com sua sutil crítica via jogada de marketing. Você dizia a todos que os parlamentares só olhavam para seus próprios umbigos elegendo alguém como você, que o Brasil era pretexto para a farra de Brasília. Ninguém reparou nisso, né, Severino?

Ninguém reparou também que cassar umas dezenas de envolvidos é inútil. Adianta matar o mosquito da dengue e deixar os focos, as possibilidades de novas investidas? Não, qualquer dona de casa sabe que não adianta.

Aqui estamos nós, Severino, você bem pertinho da gente - o que eu achei valoroso de sua parte ao renunciar. Agora você está condenado ao desprezo, esquecido em seus interesses, enganado quanto às promessas a você feitas. Exatamente como os eleitores de nosso país. Isso é que é político com "cheiro de povo".

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

Sandy estava num outdoor

Sandy estava num outdoor, chamando a atenção para uma propaganda, como sua fama a guia. Pulava sobre um automóvel, e eu da janela de meu ônibus (na condição de passageiro e não de proprietário, obviamente) reparei pela primeira vez em seu sorriso. Não vi se era bonito ou sincero, somente reparei. O ônibus fez a curva e meu raciocínio seguiu junto.

Sandy saiu daquele outdoor e foi pra casa. Foi ver TV, ouvir música, ler alguma revista, tirar uma soneca depois do almoço. É uma Sandy diferente da Sandy da propaganda? Vai saber... Mas ela não pode colocar os pés fora de casa. Nada de ataque de fãs, nada disso. Sandy sai de casa, porém condicionada. Sandy é uma máquina.

Sandy não pode acordar de mau-humor e assim sair de casa, ou triste por algum outro motivo pessoal. As capas não dormirão no ponto, e estamparão o diagnóstico: "Sandy em depressão". Sandy não pode brigar com o namorado (não poderia sequer namorar, ao menos como a Sandy de dentro de casa), pois as capas exortarão: "Sandy e Fulano: será o fim?". Sandy não pode falar palavrão, não pode desabafar diante da possibilidade de uma câmera. Sandy precisa sorrir pra pular no automóvel.

Sandy faz shows, sessão de fotos, vai cumprir o contrato global e surgir alguns minutos na telinha, Sandy convocada para a telona, Sandy suspeita de silicone, Sandy Lolita quase nua, Sandy talvez na carreira independente, Sandy címbalo sexual-midiático, Sandy a boa filha, Sandy a inspiração, Sandy e a Melissinha, Sandy e as crianças, os adolescentes, os adultos.

Sandy volta pra casa. Extenuada? Vai saber... Sandy deve adorar colocar os pés em casa e ser a Sandy que sempre sonhou, que ironicamente é a Sandy real, a Sandy que nunca estaria nas capas. Não por ser má pessoa, mas por não ser a máquina que todos precisam e almejam encontrar a cada 15 minutos de fama, renováveis. Sandy olha no espelho e vê espinhas, olheiras e a maquiagem desfeita. Sandy deve sorrir um sorriso diferente do outdoor e deitar na cama que, por enquanto, não possui uma câmera à espreita. Sandy no Big Brother? "Interessante, ainda não havíamos pensado nisso...".

Sandy, a máquina, violenta todo dia a Sandy normal, com o consentimento de seus pais, seu irmão (máquina, idem), sua conta bancária, seus luxos e sua obrigação em se dizer feliz, para alegria do mercado editorial mais rentável. Sandy normal é... normal demais, mito de menos. Sobreviva o mito, tripudiando da humanidade. Sandy humana perde feio, deve doer, mas segura o sorriso até chegar em casa.

Pela primeira vez reparei no sorriso de Sandy. Não julguei nada, sequer sei dizer se era bonito, feio ou oportuno. Mas reparei. Sandy sorrindo é triste, pois não oculta a máquina. Sandy não está sozinha nesse mundo canino que se quer de fadas, o que é um consolo para a Sandy de dentro de casa. Migalha de consolo.

segunda-feira, 4 de julho de 2005

A janela de Roberto Jefferson

Eu tentei fugir, mas ficou extremamente difícil. Cheio de compromissos acadêmicos de fim de curso, deadline para textos em outras publicações, meu blog e meu espaço no site Opinião Pública (link ao lado) relegados a último plano... Mas não teve jeito: contra todas as exortações da prudência e atendendo a anseios que vêm à tona, preciso ser mais um a falar dos (recentes) escândalos de Brasília.

O que mais me chamou a atenção nessa longa jornada em que o Governo atola-se há um mês não foram as denúncias (graves, sem dúvida) nem a decepção com certas práticas que julgava estarem muito distantes do PT, mesmo no poder. A imagem que me saltou aos olhos foi a da janela de Roberto Jefferson.

É incrível como o deputado, acusado de comandar esquemas de propina, recluso com seus advogados e não dando entrevistas, mantinha sua janela aberta ao público. E aos jornalistas, claro: sempre saindo nas primeiras páginas. O dúbio parlamentar fazia questão de manter sua privacidade... com o janelão aberto?

A janela era profética. Nós é que ainda não havíamos entendido.

Desde seu primeiro depoimento na CPI, Jefferson transformou-se na ironia encarnada: convocado como réu, portou-se como promotor de justiça; encaminhado ao curral dos bodes expiatórios, por meio de uma sinceridade profunda e cínica nivelou-se por baixo arrastando todos os seus pares, até então à vontade com as pedras em riste; sem apresentar prova alguma, praticou retórica e balançou a estrutura do poder: já não se conta nos dedos de apenas uma mão quem saiu do Governo ou, no mínimo, foi envolvido nas acusações de Jefferson.

Réu confesso, antes de tudo. No entanto, a amplitude de suas denúncias, o lugar de onde as projetava - o olho do furacão dos governantes da vez, como sempre marchou desde que entrou no Congresso - não deixava dúvidas: enlameado, porém não sozinho. De quem sempre se esperou tais práticas surgem as inesperadas metralhadoras contra aqueles de quem nunca se esperava manchas tão significativas.

A partir daí, roda, roda e avisa: CPI aqui e ali, indignação súbita, moral em alta na baixaria inconsciente etc etc etc. E o que Jefferson ganha com isso tudo? Outra entrevista na Folha de São Paulo; entrevista no Roda Viva; entrevista no Jô Soares. Falamos de Ronaldinho, Roberto Carlos (o cantor), ou de algum outro ícone propício aos palanques acima? De um balcão da Comissão de Ética, passando pela CPI que o acusava (também), Jefferson é convidado a torto e a direito para lugares que emprestam sua credibilidade a um suspeito-mais-que-suspeito.

Os jornais alardeiam: já temos um novo PC, os novos traidores da pátria, mar de lama again. É preciso cobrir tudo isso, claro. Mas os mesmos órgãos de imprensa que nos trazem o Apocalipse atual tentam acalmar: a economia não se abalou, o presidente não está envolvido, o Brasil segue caminhando, apesar de tudo. Agora fiquei na dúvida: é mesmo a maior crise dos últimos tempos? Ou não é? Hein?

Roberto Jefferson colhe, com gosto, o que plantou no seu apartamento: pensávamos que era ele a bola da vez, que ele estava encurralado, vigiado 24 horas por dia pela opinião pública via mídia, mas todos esquecemos do principal: quem abriu a janela foi ele. Jefferson poderia ter fechado a janela, mas não o fez. Ele sabia que ali fora estariam câmeras, fotógrafos e tudo o mais caindo na sua infantil armadilha.

E isso se repetiu depois. Sabe-se lá por que, todo o país e seus porta-vozes entraram pela janela de Roberto Jefferson sempre que ele permitiu. Homeopaticamente, foi lançando suas versões - muitas vezes contraditórias, mas quem lembra desses detalhes no meio do fogo ardente? - ameaçando ter mais munição, espertamente inocentando o mandatário-chefe, porque Jefferson não é bobo. Nem da corte, embora pareça.

Que investigação existe? Que questionamentos aos delatores? O que há é uma janela aberta por alguém, e toda vez que essa janela se fecha, é preciso chamar Vossa Excelência a abrir de novo. Uma janelinha na TV Cultura, outra (repetida) na Folha, mais uma - dessa vez mais informal e divertida - na Globo. Nas sérias CPIs, todos se debruçam na janela retórica de Jefferson, que sai rindo de todas as sessões, sabemos sim porquê. É o gozo da vitória, é o orgasmo de quem tem todo um país na mão.

Foi só abrir a janela.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Agora

Três anos, em março. Uma parte definitiva de vida que operou pelo contraste do que sou e do que estou, do que faço e do que aspiro. Por três anos provações foram minha sobremesa diária após o expediente - ou durante, sendo mais fiel aos fatos reais. O ofício ao mesmo tempo escolhido e descartado: um concurso feito antes do vestibular, a certeza de um dia sair, em busca da vocação encontrada.

Em busca da vocação encontrada. Repito por conseqüência da teimosa revelação que me cercou por três anos, sem trégua ou acomodação. Enquanto as finanças prosperavam e o prestígio/reconhecimento em vida profissional se mantinham na ascendência, o dissabor do sabor interno de realização era amargo. Ali estava, com a certeza tantas vezes confirmada de que não era para ali estar, de que era preciso aspirar sem apenas suspirar. Correr.

E chegaria a estas linhas de outra forma? Sem a provação, como já disse, do praguejar pragmático contra a poesia possível (por que não?), chegaria até a retrospectiva dos três anos com tanta maturidade? Não. Não olharia pra trás com orgulho do aprendizado e das cicatrizes, marcas de expressão pra me relembrar que preciso me expressar. A mim mesmo antes de a qualquer outro, a fim de completar os ciclos, sair do que o concurso me proporcionou, que não era a busca da vocação encontrada.

Encontrada e fiel, não posso agir diferente. A coerência é um chamado, e eu aqui respondo, me publicando contra a minha racionalidade. Se pensasse bem, anotaria num bloquinho pessoal essas conclusões pessoalíssimas sobre profissão e chamado de vida. Mas faço parte do público: estou na primeira fila, aguardando mais do que ninguém o início do espetáculo há tanto anunciado. Ainda que comece timidamente, não remunerado, irregular. Que comece logo a existir, pra que não nasça abortado.

Por soberana ironia, o ofício me levou à enfermidade do tendão, o mal do século eletrônico. E o que já se revelara um obstáculo por meio de suas bondades - sua estabilidade, seu vil metal em boa hora, suas promessas de encarreiramento invejado - ainda atravancava a busca da vocação, agora encontrada. A pseudo-impossibilidade de não teclar, de não expressar, de não vazar, de não parir (abortar?), de não publicar. Rasgava-me sem direção: uma pausa para melhor trabalhar no que não era eu? A cura que nunca vem, maneiremos no uso do PC. Como maneirar o que transborda na gente?

A coerência é um chamado e eu aqui respondo, com umas pontadas acima do punho e no meio do antebraço, prestes a pegar o diploma, na expectativa de largar abismo abaixo o saco de bondades para subir ao cume da vocação encontrada. Três anos se passaram e bem mais que vinte e quatro podem vir, mas hão de vir ao lado da vocação encontrada, que vem na hora boa, a do horizonte permeável à construção do que se quer, do que se almeja, do que se romantiza sem alienação. E que se concretiza, pela graça de Deus.

terça-feira, 8 de março de 2005

Nadar é preciso. Ou precisamente nada?

"Se eu pudesse contar..." é o título de uma música meio antiga, que são minhas palavras hoje. Se eu pudesse contar o que é ter aula de natação após um longo período sedentário, eu contaria. Mas não tenho fôlego, as pernas cansam logo e pior: o molequinho de metade do meu tamanho me vence no crawl.

Já achava péssimo diagnosticar tendinite e escoliose de uma só vez (será que estou em vias de me aposentar, carregando comigo ites e oses?), e configurando-se em cura vem a natação, o pior remédio. É aquele gosto ruim, de uma só talagada, mas sem o qual não melhoro. É só nisso que penso quando paro no meio da piscina, pedindo pelamordedeus que acabe rápido. Professor, que horas são? Na verdade, não tenho coragem de perguntar. Na verdade mesmo, estou cansado demais, e com água no nariz.

Percebi que a aula foi um soco na minha auto-estima. "Você não sabe nadar, não sabe respirar, não se exercita regularmente, agora sofra as conseqüências!". Como muitos relatos dos que escaparam da morte numa fração de segundo, minha vida passa diante de mim e eu me recrimino pelos desprezos atléticos de outrora. Chego à outra margem, olho onde penso que estão os olhos do professor - ele está de óculos de sol - e penso que ele comanda minhas penitências, vestindo a capa de incentivador só pra ser politicamente correto. Neurose minha? Pode ser, entrou muita água no ouvido...

Vamos ouvir o outro lado, como manda o bom jornalismo. O disseminado culto ao corpo nos atrapalha na busca da saúde ideal. Não temos noção se queremos apenas manter um organismo saudável ou ser esbeltos pra não fazer feio - literalmente. Por trás da multiplicação das academias está a tão famosa ditadura da beleza, que desestimula aqueles que sabem que nunca irão consegui-la. Assim sendo, pra que se manter saudável? Pra ter uma aula de natação que me derrube emocionalmente? As batatas fritas, o sofá e a TV me dão mais alegria e (aparente) recompensa.

Quero passar longe do melodrama, mas deixar os leitores próximos de minha tragédia grega nas águas. As "barrigas de tanque" saíram do campo doméstico para a confissão de fé das baladas e "pegações", desnorteando quem tenta sobreviver em meio à lógica do consumo exacerbado - de coisas e pessoas. Estou no meio disso tudo, sem poder fugir da raia. Talvez aquele molequinho me ajude.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

Reencontro outra vez

"Não sou rico, não sei jogar bola, não sou bom de porrada. Estudar é a minha maneira de chamar atenção." (*)

A frase me atingiu como uma flecha impiedosa. Cai na armadilha da identificação, que adora nos surpreender com o que já somos. Das linhas sai o impacto do se ver naquela descrição. Não adiantava olhar pro lado e disfarçar. Era comigo, era interno, restava-me suspirar e admitir que a frase me despiu.

Daquele jeito foi boa parte da minha vida escolar: sem muito luxo, mas com o suficiente para ir à aula em dignidade. Sempre renegado nas peladas do recreio, o menorzinho que olhava o corre-corre dos grandões, craques que nunca se cansavam. Eu corria, mas das brigas antes delas começarem. Tinha noção de minha fragilidade física, não arrumava nenhuma encrenca e por vezes tentando apaziguar algum desacordo para comigo me sentia meio otário. De repente, um soco de repente faria um bem tremendo pra mim! Mas e a advertência, a suspensão, a reputação, o futuro? Pra mim, a ameaça era séria e fazia meu sangue estancar.

Restava-me sentar na frente, copiar do quadro com rapidez, (tentar) ser um dos melhores alunos. O azul do boletim compensava tudo na minha auto-estima. Nunca tive paranóia de notas altas, mas terminar a prova rápido, naturalmente, sem me apressar, e ser o primeiro a sair de sala dava-me um ar de superioridade em relação aos demais, principalmente a todos que me espancavam emocionalmente.

Se queria também chamar a atenção, não sei dizer. Também nunca aspirei a intelectualidade, embora muitos me encarem assim. E o pior é quando encaram uma superioridade que não existe, intimidatória. Não sou mais criança, e não quero a distancia que precisei obter na escola. Ninguém é melhor ou pior por ser estudioso, craque, zelador ou papa de qualquer coisa. Apenas encontrei meu canto, regado ainda na infância: em meio aos livros, quem sabe um dia parindo um deles.

Mais do que estudar, escrever foi o movimento compensatório definitivo, que me encurralou desde a pouca idade. Movido por lembranças e esperanças, a ponta da caneta fica tonta e as linhas me chamam. Sinto-me mais à vontade do que em qualquer ambiente familiar, percebo que fui gerado pra assim ser e agir: escrevendo, Tirem-me isso e estarão me despedaçando. Estarão me seqüestrando de volta aos recreios intermináveis nos quais eu era preterido, às fases de minha infância que tento apagar traçando letras. Ou reescrever, no melhor propósito do verbo, olhando com olhos mais maduros o que aconteceu em minha imaturidade que fornece para meus 24 anos temas-chaves de vivência. Inegáveis.

Tenho cérebro, coração, mão e necessidade. Minha sede enorme riscando papéis com gosto, sem pretensões. Já quis ser escritor-prodigio, produzir textos aos 16 que se universalizassem e me conduzissem a qualquer tipo de ABL, com ego inflacionado. Hoje descubro que isso é babaquice, que a única coisa vital é me expressar sem ressalvas. É vão negociar com o espaço-tempo vigente a prioridade que o ato tradutório de escrever deve significar para mim. É levar flecha e ainda moribundo lançar outras de volta, mirando apenas no espelho, nada mais. É reler e ser flechado de novo.

Que ninguém encare como uma definição que aspira ser definitiva: mas escrever é ser persistente consigo mesmo. E ai de mim se me negar essa chance.

(*) Trecho do livro "Chove sobre minha infância", de Miguel Sanches Neto.

sábado, 27 de novembro de 2004

Nossos rumos em nossas entrelinhas

Pra lá. Pra cá. Upa, quase que ela cai! Sai do balanço, corre pra jogar a bola, o pai sempre perto, pra brincar junto e dar segurança. Riso fácil e farto, naquela espontaneidade de quem acorda e é sempre feriado. Pés descalços, pois ali é lugar santo, fase santa da vida chamada infância. Recompensa da vida chamada paternidade.

Tirai da minha frente os estereótipos míticos desse tema. Quero ter a percepção pura e simples, pro resto da vida, do que é curtir o filho (ou a filha). Estou sentado lendo algo distante de tudo isso, rascunhava outras linhas igualmente remotas, quando fui capturado pela cena. Um balanço, uma bola atirada pra lá e pra cá, nenhuma fala. Apenas satisfação legendada subjetivamente.

Vez por outra eles me olham, e preciso disfarçar. Volto a escrever sobre o que os dois me proporcionam, mas a tinta do coração vai secando e preciso olhar de novo. Paro, olho em volta, ouço o forró da Feira de São Cristóvão, o pagode de turistas gaúchos do outro lado da rua, encaro o dominó de uns caras mal-encarados. E retorno à paternidade expressa em viva vida.

A mãe chega e vira figurante do espetáculo promovido por pai e filha. Quase espectadora, sorri, como eu faço por dentro. Resolve também participar das brincadeiras e aí está, idilicamente, o exemplo de família feliz. Óbvio que não os conheço nem sei seus problemas, particularidades, defeitos, frustrações e demais chamados realísticos. Mas sou grato por me permitirem esses caprichos da imaginação em perspectiva.

Eles vão embora, cansados de tanta plenitude. Aproveitaram o feriado, e eu também. Fui acolhido temporariamente por aquela família, principalmente pela filha e seu pai, que me encorajaram a um dia fazer o mesmo. Nesse 15 de novembro proclamei a República Hereditária em meus sonhos. Pegando em armas genéticas, quimicamente misturadas em amor, projetando meu futuro que já começou naqueles instantes.

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

A cruz da questão

- Evangélica, eu? Deus me livre!

O que não faz muito tempo seria uma curiosa contradição, nas palavras da cobradora do ônibus parecia lógico. Ainda mais diante dos exemplos de "gente de Deus" conhecidos publicamente. O evangélico Bush, reeleito para seguir com seus genocídios a bel-prazer. A evangélica família Garotinho, cometendo todos os possíveis e prováveis crimes eleitorais. Os evangélicos bispos-parlamentares envolvidos em corrupções sacrílegas para a nação. A bancada evangélica no Congresso, insípido sal, verdadeira mesma farinha. Desse jeito...

Desse jeito sinto-me deslocado sabendo que estou onde devo estar. Que a despeito dos exemplos na mídia, carregados de má fama, faço parte desse grupo. O IBGE me classifica sem meio-termo: evangélico. Sou e me espanto com o quadro acima, incluindo a ofendida resposta da cobradora. Sinto-me estranho, por perceber que pertenço a um grupo que parece cada vez mais distante de sua origem, o Evangelho. E tremendamente constrangido quando figuras do tipo dizem que falam em meu nome.

Cientistas sociais, antropólogos, teólogos, pesquisadores de religião. Todos eles, vez por outra, surgem para explicar o "fenômeno evangélico brasileiro". Um crescimento populacional que já chega a 30% dos 180 milhões. Estou vendo de perto, estou lá dentro. O assunto não sai da moda, pois viramos nicho de mercado, peso político, massa de manobra.

Mas o incômodo surge porque, de fato, não tenho voz, vez, representação, nada. Nem eu nem boa parte de meus companheiros de jornada, pois fugimos do rótulo de "religiosos" como o diabo da cruz. Muitos de nós (que não aparecem na mídia) não se identificam nem um pouco com esses ditos representantes. Somos críticos, discordamos da práxis e percebemos, melhor do que quaisquer outros, o oportunismo flagrante a respeito de coisas tão sérias e profundas como a palavra de Deus.

Pior: flagra-se a distância de Cristo. Se tento, junto a meus irmãos de caminhada, buscar um compromisso fiel com Aquele que um dia nos alcançou nas entranhas, sem convencimento argumentativo ou propostas de prosperidade, não é nos públicos pseudo-expoentes da fé cristã que encontro exemplos a seguir. É preciso que isso seja dito. Eles estão sozinhos, ainda que com uma cega multidão os elegendo aqui e ali. Estão todos sozinhos, sem perceber. Sem perceber que, quando se fez homem, o próprio Jesus fez diferença (pra melhor), e que nunca coadunou com os poderosos de seu tempo em troca de benesses para sua causa, nunca se alienou de seu contexto social. Nunca.

É esse Jesus que eu e muitos amigos seguimos, e que fique bem claro, bem público, bem conhecido aos que me lêem. Que é o genuíno Jesus, que não negociava valores do reino de Deus por nada desse mundo, que é motivado por amor para transformar os corações, que deixou sua Palavra - a Bíblia - para ser instrumento de cura e não de lei implacável. Que seria crucificado novamente por Bush e cia.

Não serei conivente com esses auto-proclamantes evangélicos. Não dá pra ficar calado, consentindo. E não me orgulho de ser religioso, protestante, evangélico, crente ou qualquer outro carimbo socio-ideológico onde queiram me enquadrar. Sou cidadão do mundo, antenado na vida, pés no chão, olhando para o Alto, procurando compartilhar a todos, por todos os meios possíveis, o que preenche nossa existência com significado pessoal e ad eternum. Sabendo de minhas limitações, mas certo de quem é, de fato, o Todo-Poderoso de Todos os Tempos. E que Ele se achega de maneira mais simples do que podemos imaginar.

domingo, 24 de outubro de 2004

Exílio

Minha casa está em obras, e dela não posso sair. Desejava morar num "abrigo temporário" até que a poeira baixasse de maneira literal, mas não dá. Preciso habitar no canteiro enquanto as metamorfoses do concreto avassalam. Enquanto isso, me teletransporto para depois do AI-5 e sinto todos os paladares do exílio. Em meu próprio quarto.

O quarto foi o primeiro na ordem artificial das coisas. Quebra-quebra, pintura, crescimento demográfico e reorganização social (volto a dividi-lo com minha irmã), novos componentes móveis, novo quarto. Meses se foram e agora me deleito no melhor momento de qualquer obra: quando ela já acabou.

Acontece que obra é coelho insaciável, já procria naturalmente e ainda recebe "Viagra" dos patrocinadores. Findos a sala, o outro quarto e a cozinha, é hora de brotar uma suíte e um escritório, lápides do quarto de empregada (que Deus o tenha, porque empregada mesmo nunca tivemos). Evoque-se Tim Maia, o que eu quero é sossego. Vá embora, não me amola, boa obra. Mas ela não vai. A furadeira na trincheira, o seguidor martelo e barulho, muito barulho. Poeira, muita poeira. Amargor, muito amargor.

Meu quarto é meu refúgio. Quase tudo o que preciso para minha sobrevivência cultural está lá. Tento interagir com a sala e a TV, com sofrer chego ao banheiro e à cozinha. É difícil. Por toda a casa, apenas o idioma da desordem (que precede o tal deleite que já falei, me chantageando sem piedade) e da poeira. Muita poeira.

É demais pra minha alergia. As portas do meu quarto são fechadas com força. À força. Lacro-me de todo o resto da casa e ao trazer o prato do almoço para a escrivaninha dos meus papéis, percebo o óbvio terrível: estou exilado. Em meu próprio quarto, em minha própria casa, em meio a minha família. Exílio irônico, que só podia acontecer comigo, refém predileto da mordaz ironia.

Quase choro de saudades da minha terra, que vai se transformando - e ainda que me permita testemunhar sua mutação, isso não me satisfaz. Estou preso a ela, paradoxalmente quero ir embora e não posso. Meu exílio é tão imóvel quanto minha casa. E tão destruidor quanto os de 40 anos atrás. Quero voltar, mas nem fui! Nesse momento estou numa biblioteca a quilômetros do meu bairro, e me sinto mais à vontade do que em meu quarto.

Quero minha casa - meu campo. Onde eu possa rever a mim mesmo, meus livros, meus discos e tudo o mais. Anistia, ainda que tardia!

domingo, 17 de outubro de 2004

Fernando Sabino, tudo a declarar

"Não se escreve impunemente, seja qual for o assunto, pelo menos quando se trata de escrever sobre o que não sabemos, justamente para ficar sabendo e nos conhecermos melhor, como acontece comigo. (Fernando Sabino, "Com a graça de Deus")

Como acontece comigo.

Recebi a notícia mais triste de 2004 sem saber como recebê-la, o que me causou uma anestesia inicial involuntária. Escrevia uma bem-humorada esquete teatral e me preparava para o feriado de 12 de outubro. Não sabia que seria aniversário de Fernando Sabino. Seria.

Não me choquei, não me entristeci demais, não chorei, não fiquei indiferente. Apenas não sabia como ficar. Não sabia o que sentir. Não estava pronto para não estar pronto. O dia seguinte foi escolhido para devorar os obituários, relembrar tudo o que eu já sabia sobre meu "pai nas letras" e lamentar uma perda irreparável não só para a literatura brasileira como para mim. E vida que segue. Faz parte.

Dia 13 de outubro, caça em sebos. Seis livros clássicos de Sabino numa média de cinco reais cada, ótimo negócio. Não me senti mal por essa gana de completar minha coleção após sua morte. Só não queria correr o risco de perder a oportunidade para demais órfãos em busca do espólio intencionalmente deixado por Sabino. "Se não foi publicado então não presta", dizia ele, ao explicar porque desengavetava tudo quanto é manuscrito até os últimos momentos em vida.

Pensava eu que estava tudo nos conformes. Agora era só gravar a entrevista que ele deu a Roberto d'Ávila há sete anos (e que seria repetida oportunamente nessa semana) e pronto: meu trabalho como fã de carteirinha estava completo. Mas eu era muito mais que isso, e ele era muito mais que um ídolo ou um escritor a se admirar. Só que eu não sabia da profundidade de todas essas coisas até ler o trecho em epígrafe neste artigo.

Em meio à adolescência, ler Fernando Sabino mexia comigo em dois aspectos. O primeiro: com que simplicidade ele escreve sobre coisas simples, sem ser simplista! O segundo, e derradeiro encurralamento vocacional pro resto da vida: será que eu também consigo...? Não foi nenhum espírito pretensioso que se apossou de mim para fazer tal raciocínio. Nunca desejei suplantar Sabino em sua genialidade de cronista. Era apenas uma janela da alma, escancarada, que me permitia avistar a expressão que já vinha. Posso eu, como Sabino, narrar as curiosidades simples de meu cotidiano por meio da crônica, correndo até o risco de ficar bom? Era como se ele respondesse com outra pergunta: "por que você não tenta?".

E assim começava o meu diálogo filial com Sabino, sem nunca termos nos conhecido pessoalmente. Seus porta-vozes eram diretos (as crônicas que tiravam as palavras de minha boca, deixando-me estupefato) e indiretos, principalmente nas aulas de redação. A ponto de, após conseguir o grau máximo numa prova de até 30 linhas, receber ao lado da nota o lembrete: "Não precisa escrever igual a Fernando Sabino!". Era ele me lapidando, dizendo que até então eu não tinha criado nada: o cotidiano simplesmente acontecia e minha narrativa copiava a dele. "Seja escritor, garoto! Ao menos, tente com mais coragem!".

Então surge o luto. Enquanto escrevia sobre Fernando Sabino compreendi melhor o que aconteceu. Aconteceu que ele não está mais vivo, aconteceu que estou órfão, aconteceu que doeu. Como na epígrafe, agora me conheço melhor.

A identificação que havia entre eu e Fernando permite agora que eu o chame pelo primeiro nome. Como eu, parecia não censurar a si mesmo nas crônicas. Ele estava nelas, seja em primeira pessoa ou pessoa escondida, mas era ele. Era tudo dele, tudo ele. Eu também, Fernando. Que negócio é esse que se apodera da gente e não sossega enquanto não transformamos em escrita? Que nos convoca à personificação temperando com emoção vivida as letras frias no papel? Que espírito, que chamado, que coisa!

Mas Fernando, te ler agora é como receber seu seguro de vida. Uma grana que veio em boa hora, mas a que custo? A custo de seu desaparecimento? De seus livros terem agora somente reedições? De não poder mais conversar contigo por meio das suas crônicas e de meus artigos? Seguem em mim, Fernando Sabino, as marcas de seu exemplo, talento, capacidade de se desnudar literariamente a desconhecidos de todo o país, de seu recolhimento para que a obra fale mais alto, e pela gente. Não queremos ter cara, apenas veia aberta no papel.

Fernando, sem você e Drummond, não tenho mais isso. Mas o outro mineiro faleceu quando eu tinha apenas sete anos, bem antes de começar a escrever. E nunca fui muito de poesia, só me arrisquei nas crônicas. Como você. E você, Fernando, me acompanhou desde o início, sem saber. Agora me sinto sozinho, meio desamparado, tendo que seguir sem meu tutor no inescapável caminho das letras. Agora a ficha caiu, cinco dias após sua morte.

Você não está mais aqui, Fernando, então por que me dirijo a você? Talvez porque eu não conheça outra maneira de tornar pública a nossa cumplicidade privada, a não ser por essas palavras dolorosas, francas e desabafantes. Talvez por não ter buscado te dizer isso em vida - meu Deus, que dor.

Nunca houve (nem há) em mim a intenção de ser escritor ou de galgar condecorações humanas. Apenas o transitar da mente para o papel, via coração, vida elaborada, encontrando assim um dos significados de minha existência terrena. E foi Fernando Sabino quem me ensinou. A gratidão é eterna. O luto é denso. A saudade, permanente como uma estátua a homenageá-lo. A motivação para prosseguir escrevendo, tão vigorosa e sincera como minhas lágrimas de agora. A alegria de ser seu filho, renovadora como encontro marcado.

Fernando Sabino, predestinado a me predestinar para a escrita.