
Começando pelo motorista
Aquela rotina de acordar cedo, atravessar os sinais de sempre e correr, porque o ônibus que te leva ao trabalho está parado no sinal. O polegar pra cima, olhando pro motorista pedindo "na moral" que me deixe entrar. As portas se abrem. Bolas de aniversário amarelas penduradas até chegarmos à roleta.
Uma festa dentro do ônibus, numa terça-feira, às 7h45 da matina? Enquanto tiro meu Riocard do bolso, uma mulher sentada no banco solitário do lado da escada brandia uma faca. No colo, um bolo (com glacê!), já pela metade. Não perguntei nada - que vergonha, jornalista! - mas suspeitei que era aniversário do motorista.
Curioso é que a "festa" (ou a arrumação do ambiente para ela) ia da porta do ônibus à roleta. Ou seja, num curto espaço de 2x2, enquanto os funcionários trabalhavam, dirigindo e cobrando. Depois de pagar a passagem, o coletivo voltava à sua normalidade cotidiana.
Mas não é esse o espírito da celebração? Mesmo sem a pompa, a grana, a multidão de convidados, as finas iguarias - que normalmente são os requisitos chamados de indispensáveis para o "sucesso" de uma festa. E quando os estresses para a preparação da celebração são bem maiores que a oportunidade de se regozijar por algo? A relação custo/benefício não se calcula apenas no bolso, e muitos se esquecem disso.
Como não é bom desprezar as singelas cenas da vida e o significado que elas evocam, guardo pra sempre esse começo de dia. Tá ali o que se precisa pra comemorar um aniversário, uma conquista, um momento que é especial por si só, não pelas aparências ou padrões-prisões que impomos a eles. A trocadora, o motorista e os "convidados" dos bancos anteriores à roleta não tinham sequer o tempo devido, tiveram que comemorar enquanto trabalhavam. Nem isso foi obstáculo.
E se você não pega ônibus pra ir trabalhar, azar o seu.
(OBS: A charge acima é do gênio Henfil.)