Vendi minha alma ao diabinho bilionário
Aqui no Brasil essa onda de redes sociais começou com o Orkut, nem lembro mais quando. Sei que estava na faculdade e um amigo começou a me vender o peixe, ainda sem saber direito como defini-lo, mas deveras empolgado.
Como a curiosidade é a mãe de todas as roubadas, lá fui eu checar que troço era aquele. Mas gostei. Legal retomar o contato com antigos amigos, ou descobrir por meio das comunidades que tinha a mesma opinião que você sobre determinados assuntos.
O Orkut foi evoluindo, ficou mais fácil de mexer. Criei vários álbuns de fotos, compartilhei com todos os meus amigos virtuais (destes, os amigos mesmo eram poucos), deixei recados e comentei/me diverti nas comunidades.
Aí foram surgindo redes sociais de tudo que é jeito, pra tudo que é utilidade. Nunca embarquei muito. O tempo gasto para administrar cada conta ficava cada vez maior, drama que já vivia no email.
Até que entrei no Facebook, com muito mais usabilidade e navegabilidade do que o Orkut. E com função diferente do Twitter, outra rede social da qual ainda faço parte. Mas cerrei fileiras em torno de um objetivo: só adicionar amigos mesmo, e restringir minha privacidade apenas a quem interessava.
"É que Narciso acha feio o que não é espelho"
Porém, ah porém... Fui ler o artigo "
Quero ficar na geração 1.0", de Zadie Smith, contemporânea de Mark Zuckerberg em Harvard. Também já havia assistido "A rede social", que conta a história do Facebook expondo o caráter dúbio de seu criador.
O artigo faz provocações nada polemistas, mas que me fizeram pensar sobre a necessidade de estar tão "antenado" nas redes sociais, como dita a moda da vez. Estamos mesmo estabelecendo conexões com as pessoas? Afinal, o Facebook virou um banco de dados recebidos gratuitamente e vendidos a peso de ouro para anunciantes. Que nos conhecem muito bem, pois botamos nossa vida e nossas opiniões na rede, publicamente.
Levei uma bofetada do artigo quando ele expõe o quão narcisistas somos, e como a decisão de nos expormos em redes sociais comprova isso. Tudo o que sempre quisemos manter reservados ao nosso círculo social agora fazemos questão de dizer ao mundo todo, incluindo desconhecidos. Por que sou tão importante para os outros?
Sem contar o fato que nossas conexões reais podem tender a ficar como as virtuais: superficiais, no senso comum, querendo contato com quem nos elogia, recrudescendo o ódio a quem discorda de nós.
Ainda tem o aspecto do Facebook, conforme bem descrito por Zadie, ser à imagem e semelhança do nerd que o criou. Por que tenho que me adequar a um formato desses, que nada tem a ver comigo? Qual é a utilidade, o propósito?
Emboscada
A autora confessa a dificuldade que foi, diante de reflexões como essa, sair do Facebook. Parece algo intrinsecamente inquestionável: sair de uma rede social. Senti o mesmo quando resolvi me desconectar de lá, após concluir que não fazia mais sentido pra mim.
Encerrei minha conta. Logo em seguida, loguei de novo para checar. Abriu novamente a minha página, tal como era, com a mensagem institucional "Que bom que você voltou!". Minhas fotos, minhas mensagens, tudo ainda estava lá. O Facebook tomou posse de parte da minha vida (o que deveria estar escrito naqueles Termos de Aceite que clicamos logo e nunca lemos).
Ali senti que vendi minha alma. Provavelmente deve acontecer o mesmo no Orkut, onde ainda estou. Perdi minha liberdade de escolha. Uma vez dentro, é lá que você estará sempre, mesmo se dizendo desconectado.
Tudo isso é opressivo demais, orwelliano demais. E dizer "não" ao mundo maravilhoso das redes sociais deve soar antiquado demais, retrógrado demais. Acho que no momento é um rótulo que me conforta.