Anarquia!Outro verão carioca, outra ofensiva contra a dengue (na defensiva, já que o mosquito prolifera-se e é preciso força-tarefa nacional etc). Com uma novidade inusitada: as crianças foram orientadas a não usar bermudas, já que são as mais atacadas e o aedes voa baixo. Sebo nas canelas! Repelente seria melhor.
O fato é: em pleno verão carioca, chegamos ao ponto de orientar que não se use bermuda! Sinto-me pessoalmente atingido com a notícia. Um dos sonhos de minha vida é trabalhar vestindo o tropical traje, o mais adequado para nosso clima. No entanto, sou obrigado a usar calça comprida de segunda a sexta (ao menos enquanto a moda da saia permanece entre as mulheres...). Isso sempre me enervou.
Lembro de alguns episódios em que a lógica atitude de usar bermuda me privou de meus direitos. Pra começar, nenhum prédio público permite a sua entrada "daquele jeito", e descobri isso da pior maneira. Não lembro qual, mas um importante documento que precisava entregar ficou para depois, devidamente acompanhando de mais dois palmos de tecido. Era o Lessa adolescente dando-se conta da crueldade do mundo adulto.
Já na faculdade, minha turma foi visitar a redação e a gráfica do jornal O DIA. Previamente sonhei com a visita, tal e qual uma criança (de bermuda!!) sonha com o passeio da escola ao zoológico (nenhuma alusão aos profissionais da redação, ok?). No calor do momento, lá estava eu de bermuda. Não pude entrar. Não conseguia admitir que um lugar plural como um jornal meio classe média, meio popular fizesse a mesma carrancuda distinção para seus visitantes. A cena de todos os meus colegas adentrando o prédio da redação enquanto eu argumentava com o segurança dói até hoje. Assumo que chorei de raiva, e me restou visitar a gráfica com o sincero desejo de parar as máquinas... com uma bomba atômica.
Há quem diga que o descolado Google não possui uma regra geral da vestimenta no trabalho. No fundo, sabemos que o importante é fazermos o trabalho bem feito. As aparências contam? Contam, mesmo que você não queira ou perceba que não faz sentido um pensamento assim. Contam muito e muita coisa. Só não entendo por que a bermuda virou o vilão universal.
Por motivos de saúde - e descaso das autoridades competentes, como bem aponta o blog amigo Palavras do Exílio - é aconselhável evitar a bermuda. Sorry, mas o comportadinho aqui vai brincar de anarquista, sabendo dos riscos pessoais envolvidos (como os autênticos anarquistas também sabiam). Bermuda é indispensável para a minha sanidade mental, um carioca que não suporta a gota de suor escorrendo pela canela e o "abafa" desnecessário do jeans a toda prova.
Como já dizia uma antiga assinatura de e-mail, "qualidade de vida é prioritária a qualquer tipo de regra". Menos tecido, por favor.
ATUALIZAÇÃO: vale ler o excelente e conciso texto do sociólogo Léo Lince sobre a dengue no Rio.