segunda-feira, 14 de março de 2011
Já faz algum tempo que o RJTV, noticiário local da Globo para o Rio de Janeiro, vem mudando seu formato. Começou como o clássico telejornal, com o apresentador lendo as notícias tendo ao fundo um cenário estático. Depois passou para uma bancada, com links ao vivo e entrevistas no estúdio. Agora conta com linguagem e ambientes informais, além de comentaristas fixos sobre assuntos da cobertura.
O perfil do jornal mudou quando Márcio Gomes e Ana Paula Araújo assumiram a bancada. Além do anúncio das notícias, o telespectador presenciava links ao vivo entre cidadãos apresentando suas queixas e as autoridades responsáveis. Ou com os apresentadores inquirindo os governantes (dentro dos limites do oligopólio midiático brasileiro), sem edição. A prática, ainda que em menor escala, ainda acontece hoje, às vezes com a autoridade no próprio estúdio.
Foi nessa época também que o RJTV diversificou sua audiência: na tela da Globo, lugares além da Zona Sul (e até da Baixada Fluminense) começaram a ter seus problemas relatados. O jornal desenvolvia uma importante característica que ainda não abandonou: prestar serviço público por meio das denúncias da falta de serviços públicos.
Tal prática mostra-se útil tanto para os cidadãos como para os repórteres, que em sua ampla maioria são oriundos da classe média. Isto é, provavelmente nunca pisaram em lugares como Queimados ou Austin, tampouco tiveram contato com pessoas que vivem à margem do espectro de consumo que define nossa cidadania atual. A sensibilidade do jornalista é, no mínimo, estimulada para além do seu mundo.
Qual o valor informativo?
A prática que sintetiza o maior mérito do RJTV, desde sua mudança de perfil, é quando a reportagem está no local da denúncia, relatando o problema lado a lado com os moradores e a autoridade. Esta, por sua vez, é instada a dizer, ao vivo, qual o prazo para resolver o problema. O repórter marca a data futura num calendário (que também fica com os moradores) e se compromete a voltar ao local para ver se a promessa foi cumprida. E volta.Num tempo em que o jornalismo declaratório e de "encher prateleiras" de notícias não acompanha o desenrolar das denúncias, a prática acima citada do RJTV merece ser elogiada.
O formato atual, mais informal, é fruto de uma perda de audiência para outra atração de mesmo horário, o popularesco programa de Wagner Montes. O jeito "mais à vontade" de apresentadores e entrevistados, dispensando até mesmo a bancada, aproxima o jornal dos telespectadores.
Mas é aí também que reside o risco do sensacionalismo, no qual o RJTV vem caindo ultimamente. Quando um acidente entre um carro e uma moto na Avenida Brasil matou algumas pessoas, no dia seguinte (!!!) estavam no estúdio os pais das respectivas vítimas. Não faltou sequer a pergunta terrível, porém previsível: "Como o senhor está se sentindo?" Em seguida às óbvias lamentações, o choro compulsivo ao vivo, Ana Paula Araújo põe a mão no braço do entrevistado, diz "Nós entendemos" e passa ao pai da segunda vítima, para que este também dê seu depoimento. Qual o valor informativo disso? Já o de captar audiência...
Sensacionalismo é mais fácil e tentador
O mesmo vale para o cruel episódio da menina Lavínia, aparentemente assassinada pela amante de seu pai em Duque de Caxias. Como era de se esperar, nos tabloides está a imensa foto com o rosto da suspeita (embora, como sempre, tratada como culpada e condenada), com os usuais tratamentos de "monstro" e "fera" da Baixada e os detalhes das horas finais da criança.
Porém, o RJTV de 03/03/2011, em toda a sua potência audiovisual, reproduziu a mesma lógica. O único assunto da edição, praticamente, foi a morte de Lavínia. As imagens da acusada chegando à delegacia e aguardando para depor eram repetidas, até em câmera lenta, para ilustrar os comentários de Rodrigo Pimentel. O velório de Lavínia foi acompanhado pela reportagem. A diretora da escola onde a menina estudava, assim como a professora da turma, foram entrevistadas. Uma vez mais: qual o valor informativo?
Os editores do RJTV deveriam fazer o exercício a que este Observatório está acostumado: analisar seu trabalho e pensar se o caminho é mesmo esse. O RJTV é o noticiário com mais chances de fazer um bom jornalismo continuado, com olhares diversificados, mesmo dentro das Organizações Globo. Sua história recente comprova isso, inclusive com garantia de audiência. Faz jornalismo popular respeitando os populares.
O sensacionalismo sempre será um caminho mais fácil e tentador. Mas nunca vai contribuir para a prestação de serviço público ou para a construção da cidadania. É uma questão de escolha para Ana Paula Araújo e companhia.
(*) Texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa
sábado, 4 de julho de 2009
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
O público enfatizadoUma das notícias mais inusitadas das Olimpíadas de Pequim (e não Beijing, falou?) foi a declaração do judoca português Pedro Dias, que eliminou o favorito brasileiro João Derly. Ele escolheu um dos eventos mais assistidos no planeta para confessar que foi... corneado. E por Derly, que teria saído com a namorada de Dias enquanto este passeava com a mãe do brasileiro (?). Meio cafona, mas vá lá.
Desmentidos de Derly e suas pazes com a esposa à parte, a cobertura do caso não poderia deixar de ser intensa. Celebridades esportivas na mesma situação que as celebridades das artes e espetáculos, em meio aos Jogos Olímpicos? Nada mais midiático.
E logo surgiu a pergunta: quem seria a pivô da briga? O jornal Extra, das Organizações Globo, descobriu a menina. Como é cada vez mais comum no fazer jornalístico atual, vasculhou o perfil do Orkut da cobiçada namorada do português. A matéria continha parágrafos como esse:
Joana se descreve como uma pessoa muito amiga e tímida. Mas as fotos em seu álbum revelam que a bela não é tão tímida assim, com closes ousados. Suas comunidades também revelam uma moça apimentada. Dentre elas, destaque para "Beijos - 600 maneiras", "Eu adoro dormir sem roupa", "Adoro abraço por trás" e "Antes Safada do que Tapada".
E ainda outro trecho, também baseado nas informações das comunidades de Joana:
"...a moça gosta de homens com barba por fazer, como revela outra de suas comunidades, o que daria mais pontos a Derly em relação ao português."
Daí surge a dúvida: isso pode ser considerado invasão de privacidade? Os internautas não quiseram nem saber, e invadiram o perfil de Joana. Assim como já tinha acontecido com a mulher que subiu no palco de Bono Vox e com árbitros de futebol após partidas decisivas.
É fato que a internet é recente e ainda não sabemos lidar com ela, ainda mais por sua capacidade de apresentar novidades e transformações numa velocidade incrível. Se alguém "se revela" num site de relacionamentos público, imagina-se que deve estar preparado para esse tipo de coisa. Afinal, qualquer um poderia ler as informações acima, sem a necessidade da matéria do Extra.
Mas pense você: e se um jornal vasculhar seu perfil no Orkut, publicar as comunidades que você freqüenta, tirar conclusões sobre sua personalidade a partir delas e disponibilizar tudo isso a milhões de internautas? Será que, mesmo você tendo ciência de que botou tais informações num site público, não se sentiria invadido?
Não se pode negar a diferença de uma informação (ou um perfil no Orkut) perdida entre muitas outras daquela que um jornal de grande circulação escolhe, destaca e deixa ao alcance de inúmeras pessoas. Por exemplo: jornal é jornal, dicionário é dicionário. Ambos possuem o mesmo conteúdo - as palavras. Mas com funções, contextos, e alcances diferentes.
E aí surge outra dúvida: isso é jornalismo? Utilizar apenas uma fonte para informar ao grande público sobre uma pessoa que está em evidência? Não sei se o Extra teve essa preocupação. Mas se estiver de fato querendo fazer jornalismo, o faz de maneira responsável? Ou seja, apresenta um relato confiável e que não vai prejudicar o "entrevistado"?
Na história da comunicação nenhuma mídia substituiu completamente suas predecessoras. O jornal impresso, o rádio, a TV e agora, a internet, coexistem, influenciando-se mutuamente. A real ameaça (já concretizada) é que, devido à sua instantaneidade e a possibilidade de participação do usuário, a internet está escancarando como se produzem as notícias. Um feito e tanto.
domingo, 30 de março de 2008
Eu conheci Wilson SimonalPodemos enumerar a perder de vista as invenções do homem que trouxeram males à sociedade: bomba atômica e armas em geral, guerras, segregação, esquemas corruptos... Mas é preciso saudarmos a invenção que é o documentário.
Deslocado no tempo em relação ao objeto de sua investigação, o documentário tem a capacidade de fazer justiça e complementar o trabalho que o jornalismo diário por si só nunca conseguirá: falar com muitas fontes (a tempo), permanecer para ser visto e revisto, estar fora do calor do momento para analisar melhor o que aconteceu naquele período.
É claro que o documentário também corre o risco de cristalizar injustiças. Porém, na minha opinião, não é esse o caso de Simonal - ninguém sabe o duro que dei. Meus conhecimentos sobre o cantor dos anos 60/70 se resumiam a dois fatos: uma aparição no programa da Hebe e a fama de delator à época da ditadura. Recentemente o Burger, colega de trabalho e conhecedor musical eclético, me apresentou a um CD duplo de Wilson Simonal. Ali comecei a saber que foi excelente cantor, original, inovador, cheio de suingue na voz e no jeito. Gostei do que ouvi.
Mas só posso dizer que conheci Wilson Simonal após ver o referido documentário no festival É tudo verdade (com certeza entrará em cartaz nos cinemas, pois é produzido pela Globo Filmes). Contando com uma boa produção e edição - a parte gráfica é impecável - o filme mostra como surgiu Simonal e sua fenomenal trajetória, seu carisma com as massas de seus shows. Enfim, aonde o talento pôde levá-lo, sem deixar de lado a marra de quem já tinha sofrido na vida e julgava merecer a super volta por cima. E lá em cima ele estava quando surgiu a acusação de delator, após um episódio mal-explicado com o seu contador da época.
O filme mostra como Simonal era um artista impressionante e autêntico, e como um episódio em meio ao contexto extremista da ditadura (no qual muitos parecem estar até hoje) pôde manchar uma carreira. Mais que isso: manchar uma vida, com extrema mágoa. Como disse um dos diretores: "a anistia não veio para o Simonal". É de chorar o fato de que ele se escondia nos shows dos filhos para não prejudicar a carreira dos garotos.
Segundo o que vi no documentário, Simonal foi inocente nessa história. Marrento e meio inculto, mas inocente - ainda mais se levarmos em conta a desproporcional repercussão do episódio, atravessando décadas. Ele foi vítima de um lichamento midiático nada incomum nos dias de hoje (Artur da Távola dá um depoimento brilhante a respeito), um comportamento que os profissionais da imprensa não podem mais se sujeitar a fazer. Nem os espectadores aceitarem ou reiterarem, abusando da intolerância e do preconceito. Exemplar a galera do Pasquim admitindo seu patrulhamento, e suas conseqüências.
Justificando minha ode ao documentário, a partir desse filme está resgatada a história de Wilson Simonal. Eu pude conhecer a genialidade do cantor diante de uma platéia, admirar em tela grande e som digital a voz sem igual, testemunhar seus erros, seus dramas e seu legado. Além de mim, muitos poderão ter essa sensação (mesmo os contemporâneos dos acontecimentos), graças a alguém que teve a idéia de contar isso por meio de um documentário.
A impressão que se tem é que, mesmo depois de morto, Wilson Simonal vestiu o azul do filme, e sua sorte então mudou.
ATUALIZAÇÃO: Como post postado não tem volta, resta-nos atualizar o repensar. Pensando mais friamente, acho que Simonal não foi inocente na história do contador. Porém a atitude de relegar seu talento ao ostracismo foi tão grave quanto a malandrangem do cantor com coisa séria. Tantos outros artistas possuem tantos deslizes fora dos palcos, e nem por isso desprezamos sua arte. Foi desproporcionalmente cruel o que fizeram com Simonal.
domingo, 14 de outubro de 2007
5 anos de blog!
Pois é... Eu sabia que a data festiva aconteceria em outubro, mas não lembrava o dia certo. Em 14 de outubro de 2002 adentrei a blogosfera. De lá pra cá, foi um aprendizado atrás do outro, além de uma curtição como só a internet pôde me proporcionar.
Explico: no segundo semestre de 2002 estava há 7 meses como escriturário do Banco do Brasil, concursado e desgostoso com aquele emprego. Estava na metade da faculdade de Comunicação Social, na UFF. O salário era bom e veio em boa hora, mas os chamados do jornalismo e da escrita vociferavam dentro de mim. E aquilo foi demais para ambos: trabalhar em banco, cercado de números, com o objetivo máximo de vendas? Tortura, masoquismo, sei lá.
Hoje, olhando pra trás, não faria o concurso. Mas é inegável que ter sido exposto a condições tão agudas de distanciamento entre profissão e realização pessoal ajudou a confirmar minha vocação maior. Pensava: "isso não é pra mim". E se não é o que eu quero, já me ajuda a descobrir o que quero. Apurar, escrever, opinar, publicar, ser ouvido, interagir, intervir, não me omitir.
Quem me deu o primeiro gostinho de tudo isso foi o blog. O meu espaço, disponível a todos que soubessem o endereço, minhas idéias publicadas - ou seja, a público - e chegando a todos, mesmo que não me conhecessem. (Antes de outubro de 2002, a experiência mais próxima que tive disso foi a "Crônica semanal do Lessa": toda segunda uma nova crônica, encaminhada para a minha lista de contatos no recém-descoberto mundo da internet.)
Comecei com dicas culturais, um ou outro pitaco político e comportamental. Mas foi em março de 2003, com o post A guerra é show, que teve início uma nova fase do Lessog - o blog do Lessa (antigo nome). Os artigos opinativos que pulsavam nas artérias saíam "na veia", com a preocupação de estarem fundamentados em fatos e informações confiáveis, para não ludibriar o leitor.
Creio que os temas mais abordados foram mídia, comportamento e cultura. Mas não nego que também faço parte da "umbigosfera": falo de mim e de minhas reflexões pessoais, na necessidade de me ler enquanto escrevo, de desabafo, catarse, vontade de botar a boca no mundo sem ser um chato (uma vez que minhas palavras se circunscrevem a meu blog). Verissimo já disse que escreve, antes de tudo, para si mesmo. Depois para os leitores. Acho que é por aí.
Em 2005, perto de me formar e conseguir o diploma de curso superior, decidi: era hora de sair do banco. Hora de me sustentar com a Comunicação (já pensava em casar...), e observando as opções do mercado de então, vi que era hora de tentar um novo concurso. Mas somente na área de Comunicação.
Estudei, recusei uma promoção no banco, botei meu blog no currículo. Fiz seis concursos, passei em um, para o qual fui chamado em junho de 2006. Em julho já estava empregado: Comunicador Social - Jornalista. Essa é a minha profissão. Fiquei lotado num lugar ideal graças a meu blog - o currículo foi observado e, segundo relatos confirmados por várias fontes, fui "disputado" por outros setores após conferirem a qualidade dos meus textos publicados.
Muito mais que um orgulho, a experiência me mostrou o que realmente importa: viver pela fé, como diz a Bíblia, e investindo no que você gosta. Nada de romantismo vazio e barato, é trabalho duro com os sonhos por timoneiros.
E o Lessa27 (nome atual) faz cinco anos com muita história contada, muitas pra se contar, com a promessa de virar livro um dia (já tenho o título). Fico feliz de ter essa estrada, e mais feliz ainda por ter com quem compartilhar isso. No caso, você, que se deu ao trabalho de acessar este endereço e ler até aqui. Sou mais do que agradecido. Sou realizado.
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ESCOLHA OS 10 MELHORES TEXTOS DO LESSA 27!
Você vota em 3 textos. Pode ser do que vc lembrar, ou pode pesquisar o arquivo do Lessa27, à direita no blog. E escrever para lessa27@yahoo.com.br com suas indicações.
A equipe do blog (eu e uns colaboradores informais) está providenciando brindes para serem sorteados entre os que responderem!
Portanto, você tem até o dia 05 de novembro pra enviar seus votos. É preciso informar o título do texto/post e a data, para ajudar na localização dos mesmos.
Participe! E envie para lessa27@yahoo.com.br!
terça-feira, 2 de outubro de 2007
"Um amigo querido, Hugo Assmann, faz anos, me disse com um sorriso: ‘Rubem, faz anos que você fala sempre sobre a mesma coisa’. É verdade. Não importa sobre o que eu esteja falando: eu falo sobre o tema que enche minha alma de alegria." E ele prossegue numa satisfação empolgada de quem se encontrou, sem volta.
terça-feira, 25 de setembro de 2007

Qualquer país precisa de um bom jornalismo. É horrível ficar falando mal de nossa imprensa dia apos dia (embora a crítica seja sempre necessária), já que é por meio dela que nos informamos cotidianamente. É com tais informações que construímos nossas noções de cidadania e desenvolvemos nossas perspectivas de mundo, além das expectativas quanto ao futuro.
Sabemos que a imprensa, por si só, não é a única culpada desse mal-estar que sentimos todos os dias. Os donos dos veículos de comunicação, mais preocupados com uma empresa fabricante de notícias-mercadoria do que com uma empresa que possua credibilidade junto ao seu público, têm grande parcela de culpa nisso.
Assim, ficamos nós desesperados em busca de informações com qualidade, bem apuradas, transparentes. A internet nos ajuda, aqui e acolá pinçamos pérolas a fim de construir nosso conhecimento para além do "efeito-manada" (quando todos os veículos falam da mesma coisa, do mesmo jeito, no mesmo tom, no mesmo período, até enjoar).
Se o leitor quiser aceitar uma dica preciosa de bom jornalismo ligado às questões do cotidiano, recomendo colocar como primeira página de seu computador o site da Agência Brasil.
Numa leitura conservadora e simplória, é a agência de notícias do governo. Mas se você conferir o conteúdo - antes mesmo de se aprofundar, ficando somente nas manchetes - verá que está longe disso. É uma agência do Estado, isto é, recursos públicos oriundos de nossos impostos sendo empregados para produzir uma comunicação cidadã, para todos.
Com leiaute limpo, sem excluir nenhuma mídia e incentivando a participação ativa dos leitores e blogueiros, a Agência Brasil se destaca por exprimir o óbvio: o esquema emissor-receptor do envio de mensagens já era. Nosso contato com tantas mídias desde criança, a presença e a velocidade da internet e suas novidades, faz com que nossa relação com os meios de comunicação não seja meramente passiva. A Agência Brasil compreeende isso muito bem, e respeita seus leitores nesse sentido.
E mais: é um dos pouquíssimos locais da mídia que discute a própria mídia. As políticas de comunicação do governo também, apresentando os pontos de vista contrários e necessários para uma boa informação. E acompanha passo-a-passo os três poderes, numa linguagem acessível.
Sem contar que todo o conteúdo do site é pela licença Creative Commons, isto é, tudo pode ser replicado e baixado, sem ressalvas. E feito com software livre, passando ao largo dos esquemas midiáticos monopolizantes de Bill Gates e Roberto Marinho.
Portanto, trata-se de uma boa notícia: a Agência Brasil faz o jornalismo que o país precisa.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Uma colega de trabalho resolveu fazer aniversário. Folgou na sexta e passou o fim de semana com a família, em São Paulo.
Uma segunda-feira resolveu surgir novamente, apresentando o famigerado trânsito da manhã como cartão de visitas.
A colega de trabalho resolveu mostrar os presentes que ela ganhou.
Aí apareceu esse livro aí do lado, com esse título maravilhoso - "De notícias e não notícias faz-se a crônica" - com a foto de ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade lendo um jornal.
Aí você sabe como é, se não sabe leia aqui. Certo é que tremi na base, me emocionei, quis sair do prédio e comprar toda a reimpressão da obra do velhinho, porque isso não se faz comigo numa segunda de manhã. A colega de trabalho me apresenta uma coletânea de crônicas de Drummond que ainda não está na minha coleção, cujo título vem como espada afiada no âmago da identificação inescapável, blogável.
Meu dinheiro não vale muita coisa se não me proporcionar a obra completa do velhinho. Minha segunda-feira vale muita coisa se o velhinho me reaparece assim, de surpresa.
"Você que me lê, preste atenção. Não deixe passar nenhuma palavra ou locução atual, pelo seu ouvido, sem registrá-la. Amanhã, pode precisar dela." (de "Entre palavras").
domingo, 26 de agosto de 2007

Como eu gostaria de ter conhecido esse velhinho... Acabei conhecendo-o de outra forma, quando me deparei com seus poemas e crônicas e tomei aquele susto de me ver ali, de alguém falando por mim, meus suspiros traduzidos. É uma experiência quase sobrenatural. E você não é mais o mesmo depois de um troço desses. No mínimo, você ganha uma companhia pro resto da vida, em forma de livro. No máximo, domando toda a pretensão e ousadia possível no momento, você quer virar escritor.
Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade provocaram isso em mim. O mineiro de Itabira, cuja morte aconteceu em 17 de agosto de 1987, me mostrou que eu poderia fazer poemas sem rima ou excessiva formalidade. Ah, o Modernismo e suas rupturas... Mas nem de longe ele me disse que seria fácil fazer poemas, quanto mais um poema bom...
Feito isso, minha nada célebre produção poética ficou na adolescência, com o combustível passional de então, correndo atrás de paixõezinhas que não tinham futuro. Respeitemos as descobertas púberes, e todo mérito a Drummond. A partir dali, bebia de seus poemas e a cada estrofe nova (para mim), era uma nova ode, justa, devida.
Assim como Sabino, quis muito conhecer Drummond. Nem teria como, mas eu queria muito, muito. Não posso ver uma entrevista antiga dele que me vem essa vontade que eu sei ser impossível de realizar. Mas vem! E eu fico naquela tristeza de ter uma saudade de alguém que nunca conheci, e que está intimamente ligado a uma das minhas vocações mais certeiras, que é a de escrever.
Não sei se serei um escritor como Drummond ou Sabino. Nem sou eu quem tenho que dizer. Garanto que não almejo ABLs da vida, porém fico um tantinho revoltado quando vejo textos questionáveis fazendo sucesso ou sendo incensados... Mas Drummond era funcionário público, e escrevia por necessidade de alma. Por acaso genial, foi dos maiores do nosso tempo. Não sei quais serão as conseqüências de meus escritos, mas o propósito com o qual escrevo são os mesmos do velhinho.
"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo". E o senhor achava pouco?
