terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Malditos índios!

De novo, lá estão eles, atravancando nosso progresso. Como em Belo Monte, os indígenas enchem o nosso saco fazendo barulho em vez de deixar o Novo Maracanã passar. O que poucos percebem é que tanto o prédio do Museu do Índio como a Escola Friendereich são espaços simbólicos do que acontece hoje na cidade. A partir do "rolo compressor" que os grandes eventos instalaram por aqui, é em momentos como esse que a população carioca revoltada com a postura governamental manifesta-se. Não se trata apenas de urbanismo.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Edukators

O "quixotismo" do senador Cristovam Buarque na sua luta por uma educação pública de qualidade me provoca dois sentimentos: admiração e pena. O primeiro, pela sinceridade e perseverança de Cristovam; o segundo, por sua solidão e por ter que aguentar críticas de quem não dá o devido valor à educação e a vê pelo filtro do pragmatismo econômico de nossos dias. O episódio mostra bem como não honramos figuras históricas do tema (como Darcy Ribeiro e Paulo Freire) e como lidamos com os impostos que pagamos.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Beagá

Por motivos familiares, fui a Belo Horizonte pela primeira vez há pouco. Não tinha expectativas quanto à cidade, e só de não ter praia (sequer um litoral) já era motivo pra não me empolgar. Mas além de ser muito bem acolhido, pude visitar alguns lugares interessantes, embora nem tenha feito o turismo que gostaria. O melhor da viagem foi descobrir que tenho uma ligação afetiva com a cidade de maneira indireta, graças a Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Deixa a chuva me levar

Zeca Pagodinho, intérprete consagrado, conta bancária sem problemas. Morador autêntico de Xerém (a ponto de ter voltado da Barra da Tijuca depois de morar lá por pouco tempo), seu sítio não foi afetado pelas fortes chuvas de hoje. Ainda assim, ele mostrou o que é ser uma estrela de verdade.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

De Paris a Nova York

Não sei quanto a você, mas me parece emblemática a cessão do terreno da quadra da Unidos da Tijuca, atual campeã do Carnaval carioca,  para a construção de cinco (!) Trump Towers. Um popular reduto do samba vai dar lugar a um complexo corporativo do topetudo milionário. Assim tem caminhado o Rio de Janeiro. Se pelos idos de 1900 o prefeito Pereira Passos botou tudo abaixo pra virarmos Paris, nosso alcaide atual prepara (ou vende?) o terreno pra virarmos Nova York.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A feira é livre!

Como era o mundo antes do surgimento do capitalismo selvagem? Você pode ler nos livros de História, ver documentários do Discovery, conversar com pesquisadores e entendidos do assunto. Mas pra ter uma ideia bem real e nítida de como era viver nesse tempo, não precisa ir muito longe (nem gastar muito): dê um pulo na feira livre mais perto da sua casa.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Geografia


Nasci no Engenho Novo, cresci em São Cristóvão. Trabalhei na Cidade Nova, no Centro, em Botafogo e na Vila da Penha. Estudei em Niterói. Casei e fui morar no Flamengo, depois Tijuca. Visito meus pais no Recreio e em Irajá. Sem contar a rede de conhecidos e amigos que transitavam por outros bairros. Acredito que tudo isso contribuiu para formar minha identidade, e para me dar uma visão da cidade e da população que nela habita de maneira mais abrangente do que a que eu estaria acostumado.

sábado, 11 de agosto de 2012

Sintonia e respeito

É chover no molhado dizer que Avenida Brasil é um sucesso absoluto. Audiência, crítica, repercussão - o país parece girar em torno da novela, como outros folhetins globais já mostraram ser possível. Quem considerava o gênero esgotado (como eu) foi arrastado para o compromisso diário diante da TV, de segunda a sábado. Não tenho a pretensão de explicar o porquê desse sucesso, mas registro neste humilde blog que duas coisas estão presentes no espírito dos realizadores: respeito ao telespectador e sintonia com seu tempo. E isso pode ser uma lição tanto para a TV aberta como para os demais meios de comunicação.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Greve

Sonegar informações, além de ser antiético, é uma covardia. Quem recebe a versão enviesada de um fato, sem ter conhecimento sobre a realidade relatada, fica em desvantagem. Sabe menos (ou pior) do que o emissor da informação. Assim se produz o noticiário sobre as greves no país. Seja de que categoria for, o tom é sempre o mesmo: os veículos de comunicação só reproduzem a parte sobre os transtornos causados pela greve. Se as causas são justas ou se os trabalhadores são vítimas, nada disso aparece para o espectador.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um caminho sem volta

Artur "Tuco" Egg é um publicitário de Santa Catarina, mas antes disso é cristão. E sua busca por viver um cristianismo autêntico está registrada com riqueza literária no blog A Trilha. Mesmo que seja (ou principalmente) deixando a igreja de lado. Um fenômeno, aliás, cada vez mais frequente: o livro Por que você não quer mais ir à igreja? virou best-seller.

O post Um primeiro passo pode ser um cartão de visitas para quem não conhece Tuco. Nesta entrevista ele esclarece seus pontos de vista e responde a algumas dúvidas geradas por provocações de seus escritos. Aliás, seu mais recente livro - Igreja entre aspas - é uma reflexão prática sobre o sentido da fé cuja leitura este blogueiro considera obrigatória para qualquer um, mas principalmente aos cristãos evangélicos membros de denominações tradicionais.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Dói


Deu no Globo de hoje: Eduardo Paes, prefeito do Rio, numa inauguração ao lado de um vereador irmão de miliciano. Na Zona Oeste, esse curral de votos que, para a classe média carioca, não faz parte da cidade. Na mesma hora lembrei do relato do fotógrafo do jornal O Dia torturado por milicianos. Reli. Chorei de novo. E me deu um asco gigante ao ver a autoridade maior da "Cidade Olímpica", por tabela, sendo conivente com o crime em nome de suas ambições políticas.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Meu Bolsa-Família

Faz algum tempo que pra mim o reveillon  nada mais é que um dia após o outro. Aquela sensação de recomeço, de expectativas e resoluções para um ano-novo não me afeta. Acredito que passo por muitos "reveillons" em diversos períodos da vida que não obedecem à nossa temporalidade organizada. Mas não nego o valor do calendário para administrar nossos planos e motivações. Assim, excepcionalmente, defini um particular objetivo para 2012: realizar meu Bolsa-Família.


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Os cínicos no poder


De novo as barcas. Daqui a pouco serão os trens (de novo), o metrô (de novo), sobrecarregando os extorsivos ônibus (de novo). A população do Rio de Janeiro está cansada desse déja vù. Ainda mais sabendo que é motivado pelo cinismo e por uma agenda oculta das autoridades públicas responsáveis.

sábado, 19 de novembro de 2011

Um Gre-Nal intelectual

A reação ao vídeo que os atores da Globo fizeram em protesto contra a construção da usina de Belo Monte demonstrou, mais uma vez, a polarização intelectual que vemos no Brasil. Obedecendo a uma lógica simplista e maniqueísta, o debate sobre as mais diversas questões é, antes de mais nada, rotulado. E os defensores estão preferindo ser mais fiéis aos rótulos do que à realidade. O país só perde com esse comportamento infantil.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A maturidade é necessária

No fim de outubro participei do 1º Encontro Mundial de Blogueiros, em Foz do Iguaçu. O local chega a ser emblemático: é a tríplice fronteira entre Paraguai, Argentina e Brasil, e o tema do evento falava dos novos limites entre a mídia tradicional e as novas mídias. Os palestrantes trouxeram aos blogueiros um chamado à maturidade. Resta saber se entenderam o recado.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Anti-simplismo

Não gosto de nada simplista: argumentos, pontos de vista, opiniões, raciocínios. Não somos simples, nossos contextos humanos não são simples.

Sem confusão: simplicidade é uma jornada que facilita a nossa existência; simplismo, uma prisão invisível.

Não gosto de me extremar num polo e ali fincar orgulhosamente minha bandeira. Embora não deva servir de  atalho ou justificativa para a incoerência ou para o cinismo, a flexibilidade é necessária, com a companhia da humildade.

Não gosto de reduzir discussões políticas ao espírito de um Gre-Nal, ou Fla-Flu das antigas.

Não gosto de rotular e, a partir de então, fechar meus ouvidos para aquele a quem rotulei.

Não gosto de me sentir dono da razão, nem de admirar os que se portam assim.

Não gosto de fundamentalismos de nenhuma ordem. Aliás, o fundamentalismo não é monopólio de nenhum estrato da sociedade.

O simplismo tenta, mas não dá conta da complexidade da nossa existência. E quanto mais insistimos nele, mais regredimos. Da tolerância voltamos ao ódio; do debate, à guerra; da troca de ideias, aos grunhidos e xingamentos.

E tome expectativas frustradas. "Ué, mas me disseram que funcionava assim. O buraco é mais embaixo, então?".

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Raul Seixas constatou o óbvio em forma de música: que não somos minerais, robôs ou animais pra sermos imutáveis, sólidos. A teimosia é sempre irritante, seja qual for o assunto.

Ainda mais se for simplista.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Certamente

Imagem: Jonathan Mak

A morte de Steve Jobs me fez conhecer mais sobre o cara do que em vida. Não é um fenômeno raro, já deve ter acontecido com você. É que só há pouco tempo tenho adentrado com mais afinco e interesse o mundo das tecnologias de comunicação. Aí, ler essa entrevista do hômi (de 1986!) e ver o que o cara fez depois é de cair o queixo.

Quando a notícia da morte foi anunciada por um colega da pós-graduação, a reação de todos foi de um "ah... que pena". Não havia tanta surpresa, já que Jobs sofria de um câncer tão terminal que o fez abrir mão do comando da Apple. Mas era aquilo, todo mundo queria que ele continuasse com suas ideias transformando o nosso mundo e as nossas vidas. (Não me julgue exagerado, se você usa um computador e um celular, deve tributos ao cara).

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Indignados: ainda falta


Mundo árabe, Espanha, Chile, Wall Street. São diversas as mobilizações coletivas insatisfeitas com a ordem atual das coisas. Movidos pela juventude e com o suporte da tecnologia móvel e das redes sociais, reúnem-se, gritam, perseveram. Um louvável esforço de quem ainda é rotulado como uma geração alienada ou coisa do tipo.

O que fico pensando ao acompanhar todos esses movimentos é qual deve ser o próximo passo. Ok, conseguimos nos organizar para protestar e sermos ouvidos. Sabemos contra o que nos insurgir. Mas para além da contestação, alguém dessa multidão está pensando na alternativa futura a esse estado de coisas?

domingo, 7 de agosto de 2011

Aulas ao relento

Inspirados nos bombeiros, professores tentam acuar o Governo do Estado do Rio

Um senhor, com os olhos machucados pelo spray de pimenta, era amparado por um rapaz. Ambos estavam no andar da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, aonde chegaram sem planejar. Após caminhar da Rua Primeiro de Março até a Rua da Ajuda, a única coisa que ouviam era o silêncio. A indiferença, que pode ser mais cortante do que o próprio ódio, foi o combustível para ficarem ali. “Foi tudo espontâneo. Quando percebi, estava amparando um professor que me deu aula no ensino médio.”

Marcio Freire era o rapaz. De camisa amarela e calça jeans, cabelo baixo e um olhar cansado, ele explica com paciência porque os professores da rede estadual estão acampados no coração do Centro do Rio. A poucos passos de grandes empresas como Vale, Petrobras e Itaú, da Assembléia Legislativa do Estado (Alerj) e do principal Fórum da capital, experimentam a vida de moradores de rua: dormem na calçada e são ignorados pelos transeuntes.

domingo, 26 de junho de 2011

Tempo, essa ilusão

Lendo "Dez dias que abalaram o mundo", o relato de John Reed sobre a Revolução Russa de 1917, conhecida como "Revolução de Outubro". Mas por que esse nome se na Rússia tudo aconteceu em novembro? Porque eles seguiam o calendário juliano, criado pelo imperador de mesmo nome. Enquanto no resto do mundo era  finzinho de outubro, lá já era novembro.

Até por isso o natal ortodoxo, da vertente do cristianismo que nasceu na Rússia, é comemorado no começo de janeiro. Mas depois da tomada do poder pelos bolcheviques, como o país ia se relacionar com os demais naquele descompasso temporal? Numa canetada, Lênin resolveu: voltemos duas semanas e cá estamos nós, camaradas, no mesmo ritmo do mundo. De um dia pro outro, fevereiro de 1918 passou a ser janeiro e estamos revolucionados.

O terceiro sábado de fevereiro é dia de acabar o horário de verão em boa parte do Brasil - que sempre começa no terceiro sábado de outubro do ano anterior. Orientações para o fim: atrasar o relógio em uma hora. Num apertar de botões, ganhamos de volta a hora de sono que perdemos três meses atrás.

O que é o tempo, hein, gente? Nada. Absolutamente nada. Ou melhor: uma unidade de medida criada para nos escravizar. No máximo.

Já faz dois anos que não consigo encarar o reveillon como a maioria das pessoas. Pra mim, é apenas um dia após o outro. Com a diferença que, a partir dali, tenho que prestar atenção na hora de passar um cheque. Se numa canetada ou num apertar de botões tudo muda, que grande magia ou mistério está no tempo, afinal? Resoluções de ano novo perderam o sentido.

Se eu tivesse que fazer uma classificação, no máximo elencaria "períodos letivos". Do momento que procurava apartamento até encontrar, foi um período; do começo da faculdade até o término, outro.  O fato de alguns (ou nem um) anos, meses, dias terem se passado seria mero detalhe. Que diferença essa divisão fez nas minhas sensações?

Ah, faz pro mal. Estou velho demais, já passei da idade, o tempo está passando e eu tô fazendo o quê? O caixa eletrônico é rápido como nunca houve, mas dez segundos na fila são tortura chinesa até conseguir sacar meus dez reais.

Não tenho o hábito de usar relógio de pulso, e hoje esqueci meu celular em casa. Na hora do almoço, resolvi vários problemas, e tive que pedir almoço pra viagem. Uma fila imensa na lanchonete. Porém, nenhum relógio à mão. Poderia perguntar a algum desconhecido "que horas são?", mas pra quê? Pra ficar ansioso, revoltado, inquieto?

O tempo é o senhor da angústia.