sexta-feira, 6 de julho de 2007


Você mora no Complexo do Alemão?

Se você não mora e quer saber o que acontece com os habitantes de lá durante a ocupação das favelas, leia o texto abaixo.

Se você não mora e já tem opinião formada sobre a "ofensiva de segurança" da polícia, leia o texto abaixo.

"Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados e todos os que assistem a esta sessão ou nela trabalham:Por designação do Presidente da Comissão de Direitos Humanos, Deputado Luiz Couto, representei esse colegiado parlamentar, em visita à comunidade da Grota, no Complexo do Alemão, na Cidade do Rio de Janeiro, alvo de forte ação das forças de segurança pública.Por tratar-se de um acontecimento de repercussão nacional, apresento, para conhecimento e reflexão desse plenário, o relatório de nossas atividades naquela localidade.

POLÍTICA CONSEQÜENTE DE SEGURANÇA OU ESPETÁCULO LETAL DE ABERTURA DO PAN?

O relato de uma visita à comunidade da Grota, no Complexo do Alemão, durante a tarde de sábado, último dia de junho de 2007."Quem usa o sapato sabe onde o calo dói", ensina a sabedoria popular. Para se ter a dimensão exata da ação das forças de segurança na última quarta-feira, 27 de junho, no Complexo do Alemão, não basta ouvir as autoridades e a opinião da sociedade que não vive lá. Tratou-se de uma atividade vinculada a uma política pública: os 1.350 policiais militares, civis e da Força Nacional que participaram da operação são servidores e os veículos blindados e helicópteros que os apoiaram também são custeados pelo contribuinte.

Logo, esta operação, realizada, em tese, para a defesa da população e do bem-comum, precisa ser avaliada também pelos 200 mil moradores da região afetada. A esses, em geral, não se dá a palavra: apenas se promete, de forma paternalista, um "futuro melhor, de cuidados". Para ouvir estes silenciados, parlamentares das Comissões de Direitos Humanos da ALERJ e da Câmara dos Deputados lá estivemos. Todos compartilhamos da certeza de que é necessário que o Estado esteja presente nas áreas pobres, onde hoje, sabidamente, o poder despótico do varejo armado de drogas ilícitas tem amplo controle. Todos entendemos que é urgente o estancamento da oferta de armas e o desarmamento dos grupos que se beneficiam com esse comércio, tão mais próspero quanto mais gente - no sossego de seus bairros mais bem tratados, onde também residem os "barões" do negócio transnacional - se torna usuária e dependente dos produtos químicos. Todos escolhemos, secretário Beltrame, viver em paz e sob a proteção do Poder Público, legal, legítimo e controlável pela cidadania.

Na sede do "Afro-Reggae", que realiza belo trabalho sócio-cultural na comunidade da Grota, nós e lideranças comunitárias ouvimos duas dezenas de moradores que viveram integralmente as horas de pânico com a incursão militar na favela. De imediato, destaque-se isso: foi uma incursão, um "ataque", uma ofensiva. Não uma ocupação, o passo inicial de uma presença permanente, um apoio para a imediata inserção da outra face, indispensável, do Poder Público, com sua assistência social, educacional, cultural, sanitária, de estímulo à agregação comunitária.

Um soldado da Guarda Nacional, postado na entrada da via de acesso à Grota, perguntou preocupado: "Mas vocês vão entrar?" "Não estaremos em segurança, não há uma ocupação?", indagamos. E ele, visivelmente incomodado: "Não tenho essa informação".

A única novidade dessa operação foi a sua potência, que também gerou atrocidades maiores contra quem não tem nada a ver com o conflito e devia ser respeitado como cidadão. Eles vieram para matar e não para prender ninguém. Isso só fez aumentar a raiva e a revolta dos moradores. Vê lá se em bairros chiques ou de classe média eles iam agir assim!"O que é este "agir assim"? Para além do inevitável tiroteio, que furou paredes de casas e caixas d´água, e da positiva captura de arsenais, houve dezenas de casas arrombadas, invadidas e saqueadas - na contabilização das perdas materiais, moradores, devidamente identificados pela OAB, registraram o sumiço de celulares, dinheiro, documentos pessoais, cds e dvds, utensílios de cozinha (inclusive facas), alimentos, peças de vestuário, calçados e até brinquedos, além da destruição de móveis e eletrodomésticos.

Automóveis também foram arrombados, com seus rádios e ferramentas roubados. Uma kombi, cujo proprietário tem todos os documentos em dia, e que era seu ganha-pão, depois de ser utilizada pela força policial (que a acionou com ligação direta), inclusive para transportar corpos, foi incinerada. A dona de um barzinho ainda faz o levantamento do prejuízo com a "ocupação" de seu estabelecimento por policiais, que zeraram seu estoque de bebidas e quitutes, além de levarem um par de tênis e um celular.

O "agir assim", ao arrepio da lei, significou situações ainda mais graves, como pelo menos duas execuções sumárias, de possíveis traficantes desarmados e imobilizados, relatadas em detalhes por testemunhas, que dizem ter "nascido de novo": um pai de cinco filhos, mostrando os sinais de sangue no exato local da eliminação que assistiu, apavorado, e um jovem de 14 anos.

O espírito de muitos dos "agentes da ordem pública", no relatado pelos que por eles foram abordados, era de absoluta intolerância e agressividade, além do procedimento corrompido que os inaceitáveis roubos e furtos, já descritos confirmam. Um jovem detido foi indagado, aos gritos, se acreditava "no diabo". Face à negativa, o policial disse, iniciando o espancamento: "pois sou filho dele, você vai conhecer agora!". Um senhor, cuja casa se tornara "base de operações" sem seu consentimento, ousou dizer que estava havendo "abuso de autoridade". Além do tapa, ouviu que "autoridade aqui sou eu e cale a boca se não quiser ir pra vala!". São esses que celebram como vitória o saldo de, até agora, 44 mortos e uma centena de feridos, cujo óbito é justificado genericamente por "ligação com o crime".

O senso comum aplaude. Há membros destacados das tropas do Estado que não escondem o sonho de "ir para o Iraque". Bush sentir-se-ia bem com soldados assim.Ao fim de nossa visita, a comunidade vivia sua rotina do anoitecer de um sábado: rostos sofridos de senhoras nas janelas, jovens conversando ou jogando carteado, sob desbotados cartazes de candidatos que nunca mais apareceram, sons de preces e funks e batuques no ar, esgoto a céu aberto onde ratazanas passeavam, tvs nos bares transmitindo o jogo inaugural do "Engenhão", o estádio do Pan, trabalhadores voltando para casa, com sacolas de compras na mão. Vida pulsando, tensa. E a pujante e constrangedora atividade do "movimento", como sempre.

Meninos de seis a oito anos corriam na viela atrás da bola, alegres, observados por outros tantos pouco mais velhos que eles, muito bem armados e ciosos do seu poder de mando. A lua cheia reforçava o contorno do horizonte crepuscular, com as casas humildes desalinhando o perfil da montanha. O Poder Público já tinha, há muito, ido embora dali. Todos - que o aspiram como prestador de serviços, promotor de oportunidade e garantidor de direitos - temem que ele volte do mesmo jeito: não como solução social continuada, e sim como horror e destruição."

(Pronunciamento do deputado Chico Alencar, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara)

domingo, 1 de julho de 2007

Vocês façam-me o favor...

De calar a boca, aqueles que dizem que o futebol hoje é força, preparo físico e "matar a jogada" com faltas. Calem a boca aqueles que dizem que o futebol bonito não traz resultado, ou que o talento não é tão decisivo quanto antigamente. Calem a boca todos vocês que pensam e dizem isso, pois o terceiro gol de Robinho, hoje, contra o Chile, é prova viva de que vocês estão errados.

Robinho, magrelinho daquele jeito, nem chutar forte ele sabe, jogando sozinho - porque ele jogava bem, ao contrário do resto da seleção - fez o que fez, aos 41 minutos do 2º tempo. Pulmão o garoto tem, de correr aquilo tudo, dar um drible "da vaca" num zagueiro, depois um drible curtinho em outro (o famoso "come" das peladas), sempre correndo, ninguém pega, o chute de perna esquerda (ele é destro) e o golaço, golaço, golaço.

Taí a contribuição do preparo físico: ser suporte do talento. O primeiro qualquer um consegue, o segundo é genético. Mas como tudo na vida, o talento pode ser tolhido pelas instâncias de poder (técnicos), pela força bruta (brucutus que só entram em campo pra fazer falta e bater, bater, bater) e rarear. Isso tem acontecido no Brasil desde cedo, e Robinho é jóia rara por ter vencido tudo isso, desde as divisões de base - porque lá o garoto, nos seus 10, 11 anos, já sabe que tem que ter força física, "matar a jogada", perde o aspecto lúdico do futebol. A diversão que quando bem executada, leva o craque à glória máxima: o gol! E com o gol, a vitória, o resultado.

Futebol bonito pode ser futebol de resultado, nessa ordem. Se você discorda, cale a boca depois do gol de Robinho. Cale a boca, meu camarada, depois de Robinho aparecer nessa insossa seleção brasileira de Dunga (que nunca foi craque, nem técnico - com duplo sentido, por favor). Pois o time não faz nada de bom, e ele teve que resolver sozinho. Opa, sozinho não: com talento que ele tem e não abre mão na hora de jogar profissionalmente.

Talento por si só não leva a lugar nenhum? Pois levou a bola no fundo do gol três vezes hoje, mas na terceira ele humilhou você, meu camarada, que acha que jogar sério é destruir jogada, bloquear ataque, vencer por 1x0 ou nos pênaltis e achar que teve um "orgasmo futebolístico". Você não teve nada, meu caro, principalmente porque pensando assim, você nunca fica na expectativa de que Robinho faça o que fez no terceiro gol, e quando acontece, você não sabe desfrutar da delícia que é um golaço, golaço, golaço.

Então façam-me o favor: me esqueçam se forem comentar algo que não seja o terceiro gol de Robinho hoje, ou algo similar. Porque o que é raro porém resistente deve ser celebrado continuamente, em lugar de intermináveis mesas-redondas sobre "nó tático", defesa fechada, recuar pra jogar no contra-ataque. Olha o nome: CONTRA-ataque!!! A gente tem que falar do terceiro gol de Robinho, dos dribles de Robinho, dos golaços de Robinho, do talento puro e simples, genial, diante do deserto de criatividade que se instalou atualmente na seleção brasileira - e até em outras seleções, como se viu na Copa de 2006. Ah, e Robinho ficou no banco nessa Copa. Tá explicado.

Calem a boca.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Os leitores participam

Em resposta ao post anterior (Começando pelo motorista), meu amigo André Aureliano respondeu com um texto jocoso, mencionando até o filho Samuel, recém-nascido. Apreciem:

"Saudoso amigo Marcos. Venho por meio deste emeio para:

1. Comentar o seu blog;

2. Só isso.

Pois bem. Ao receber tão inusitado emeio convidando-me a visitar seu blog, de pronto cliquei no link indicado. Ato contínuo abriu-se magicamente uma outra janela onde pude ler: lessa27. (A propósito, um nome mais simples, apropriado e adequado do que o antigo Lessog. Era interessante, mas esquisito. Prefiro Lessa27. Parabéns pela escolha.) Se fosse escrever uma redação do tipo "minhas férias", eu apontaria como tema principal o fragmento de teu texto que refere-se ao sinal feito com o polegar em riste clamando ao motorista para que lhe permitisse a entrada pronunciando a mui jocosa expressão: "Na moral". Sou grato por me fazer sorrir imaginando a impagável cena. Muito divertida por sinal. O restante do texto foi também muito interessante, mas nada se comparou ao na moral.


Teu texto foi um texto na moral.

P.S. O Samuel vai bem, cresce e mama na moral.

Amplexos constrictos do teu irmão.

André"


OBS: Ao lado, André ninando Samuel... na moral.

terça-feira, 12 de junho de 2007


Começando pelo motorista

Aquela rotina de acordar cedo, atravessar os sinais de sempre e correr, porque o ônibus que te leva ao trabalho está parado no sinal. O polegar pra cima, olhando pro motorista pedindo "na moral" que me deixe entrar. As portas se abrem. Bolas de aniversário amarelas penduradas até chegarmos à roleta.

Uma festa dentro do ônibus, numa terça-feira, às 7h45 da matina? Enquanto tiro meu Riocard do bolso, uma mulher sentada no banco solitário do lado da escada brandia uma faca. No colo, um bolo (com glacê!), já pela metade. Não perguntei nada - que vergonha, jornalista! - mas suspeitei que era aniversário do motorista.

Curioso é que a "festa" (ou a arrumação do ambiente para ela) ia da porta do ônibus à roleta. Ou seja, num curto espaço de 2x2, enquanto os funcionários trabalhavam, dirigindo e cobrando. Depois de pagar a passagem, o coletivo voltava à sua normalidade cotidiana.

Mas não é esse o espírito da celebração? Mesmo sem a pompa, a grana, a multidão de convidados, as finas iguarias - que normalmente são os requisitos chamados de indispensáveis para o "sucesso" de uma festa. E quando os estresses para a preparação da celebração são bem maiores que a oportunidade de se regozijar por algo? A relação custo/benefício não se calcula apenas no bolso, e muitos se esquecem disso.

Como não é bom desprezar as singelas cenas da vida e o significado que elas evocam, guardo pra sempre esse começo de dia. Tá ali o que se precisa pra comemorar um aniversário, uma conquista, um momento que é especial por si só, não pelas aparências ou padrões-prisões que impomos a eles. A trocadora, o motorista e os "convidados" dos bancos anteriores à roleta não tinham sequer o tempo devido, tiveram que comemorar enquanto trabalhavam. Nem isso foi obstáculo.

E se você não pega ônibus pra ir trabalhar, azar o seu.

(OBS: A charge acima é do gênio Henfil.)

quarta-feira, 6 de junho de 2007

sexta-feira, 1 de junho de 2007

40 anos de Sgt. Pepper's

Hoje, 1º de junho, parabéns pra eles e pra nós. Eu nem sabia disso e há dois meses postei esse texto. Antes de Joaquim Ferreira dos Santos e da revista Bizz desse mês!

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Quanto a expectativas e resistência em regimes de opressão

Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?

(Renato Russo)

sexta-feira, 25 de maio de 2007

CÂMARA MUNICIPAL APROVA CPI DO PAN

A Câmara Municipal aprovou na terça-feira (22/05) requerimento, apresentado por Eliomar e assinado por mais 16 vereadores, de instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar indícios de irregularidades nas obras, nos equipamentos e nos contratos firmados pela prefeitura do Rio para os Jogos Pan-Americanos.

Há fatos preocupantes, divulgados pela imprensa e relatados pelo acórdão 282 do Tribunal de Contas da União, que exigem uma investigação: a construção do Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, prevista inicialmente em R$ 166 milhões, já consumiu cerca de R$ 400 milhões, teve mais de 20 aditamentos ao contrato, e ainda não está finalizada; em função do atraso das obras, alguns serviços acabam sendo feitos sem licitação e, portanto, sem um procedimento administrativo adequado que garanta a lisura das operações.

Além disso, as metas estabelecidas na Agenda Social do Pan não foram cumpridas. Por tudo isso, é preciso investigar se houve má administração dos recursos públicos por parte da prefeitura. Caso isso tenha ocorrido, o processo será enviado ao Ministério Público para que sejam tomadas as providências cabíveis. A CPI deverá ser instalada na próxima semana e terá 120 dias para apresentar seu relatório final.

(da newsletter do Mandato Chico Alencar - www.chicoalencar.com.br)

Este blog está acompanhando criticamente o Pan 2007. Vide post anterior.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Uma cena

Os médicos também são capitalistas. De que adianta "sair voado" do trabalho, mais cedo que o normal, se ao chegar ao consultório na hora marcada há cinco pessoas na minha frente, devido ao atraso de consultas anteriores? Acontece que sempre que vou lá é assim, o que me permite a suspeita: quanto mais consultas, melhor. Qualquer atraso, o paciente espera! Absurdo, como muitas das buscas pelo lucro máximo.

Pois eu é que não fico lá esperando. Daqui a uma hora eu volto, e me mando pra Cobal do Humaitá em busca de um crepe e um mate limão.

E vem a cena.

60 e mais anos, camisa pra dentro da calça, barriguinha "aerodinâmica" dos chopinhos em vida. De cabeça erguida, olhos fechados (só se abriram para fixar algum ponto específico, lá no alto), braços abertos como se recebesse uma bênção divina. Ao redor, o estacionamento da Cobal, as pessoas passando e ele, concentrado.

Não demorou e veio o sinal-da-cruz, três vezes, todos terminando com 3 beijos nos dedos que vão à mão, após o Amém.

Então percebi: o ponto específico, lá no alto, era o Cristo Redentor.

Porém, mais do que entender, vi a fé. Se ela pudesse se materializar, seria naquela cena. Cadê o templo? Não havia. E o constrangimento por tal postura em público? Também não existia. Afinal, por que se envergonhar de sua fé?

Ele também não estava ali para dar espetáculo. Terminou seu momento de fé (após uma última e igualmente feliz contemplação do Cristo, ainda com os braços abertos, "em bênção"), e seguiu Cobal adentro.

Do jeito que foi a cena, não arrisco dizer que logo após ele "voltou à vida", como se antes estivesse em transe. Não, ele seguiu o curso normal de seu cotidiano, do qual a fé parece fazer parte significativa. A ponto de ser tão natural um momento daquele em público, como andar devagar ou usar camisa pra dentro da calça.

Vi a fé, pois ela não precisa de um aparato específico para ser exercida, simplesmente é espontânea e sincera. Como naquela cena. Acontece.

Vi a fé, graças ao capitalismo.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Vale mais que mil palavras...

Câmara aprova aumento dos salários na surdina









Tá na cara... de pau.

Na foto, Inocêncio (?????????????) Oliveira, deputado DEMoníaco de Pernambuco

quarta-feira, 9 de maio de 2007

O fim da lingüiça

Parece que é sério. Está em curso uma reforma da língua portuguesa que traria mudanças, a fim de unificar o idioma nos países lusófonos em todo o mundo. Com todas as vantagens que isso pode acarretar (dicionário único, economia devido a uma ortografia apenas), vai soar estranho. Acentos como o circunflexo, o popular "chapeuzinho", podem ser extintos. Palavras como "vôo" virariam "voo", por exemplo. Credo!

Mas nada é mais trágico do que a extinção do trema. Tão simpático, por que ser extinto? Há quem não sinta a menor afeição por ele, e dá graças pela reforma. Mas tem o seu charme. Finalizamos a palavra com todo esforço e pingamos dois pontos flutuantes em cima do U, e c'est fini, feito uma cereja no bolo recém-confeitado. Esteticamente, cumpre o seu papel com fineza.

O trema não faz mal a ninguém. Sua regra não é confusa, e não disputa lugar com outros acentos. É só no U, e acabou. É discreto, simples, fácil de grafar e administrar. Por que a implicância com ele? Pois devia ser aplicado em Portugal, Angola, Macau e demais plagas de lusa fala. Seria uma demonstração diplomática de boa vizinhança. E sem grandes custos: apenas um pouquinho de tinta espetada no papel. Ou melhor, dois pouquinhos.

Não vou mais comer cachorro-quente com lingüiça, escrever com freqüência, ver a seqüência de vitórias do Mengão, ou ler tranqüilamente. Conseqüentemente à reforma, não haverá mais conseqüencias.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Ah, que alegria sofrida...










Pra quem não conseguir ler, diz o texto: "Hoje, milhões de pessoas acordaram achando o Rio ainda mais bonito". Propaganda da Petrobras. Sacada genial, né?

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Jogos perdidos? Que nada!

Essa é pra quem é maluco por futebol ou simplesmente quer acompanhar as campanhas de times que dificilmente estarão na mídia comum. O Tribuna da Bola vai te informar sobre o cotidiano de clubes obscuros ou ex-famosos que sim, existem, e fazem a alegria de alguns poucos torcedores. Criado pelo Claudio Burger e pelo Stefano Salles, que já estão sendo reconhecidos profissionalmente pelo trabalho.

Não é nada, não é nada, mas você pode acompanhar como anda o time do seu bairro que há tempos não desponta no cenário nacional. Pode-se saber, por exemplo, que o Rubro, de Araruama, não vai nada bem, ou que o São Cristóvão perdeu para o Profute (isso mesmo, Profute), mas segue vice-líder. Até o CFZ, time de Zico, aparece na cobertura. Trabalho de primeira sobre a segundona e a terceirona cariocas.

segunda-feira, 30 de abril de 2007


Tabuada!!!!! (*)

Foi com muito orgulho e sensação de "bem-feito!" que li, na primeira página do Globo de hoje que as escolas federais são uma saída para a educação. O orgulho, claro, é por ter sido aluno de uma das escolas citadas - o Colégio Pedro II - por toda a minha vida escolar, do primário ao terceiro ano do 2º grau. O "bem-feito!" é para aqueles tecnocratas economicistas que vêem na privatização a solução ideal e final para a "diabólica" presença do Estado em algo tão essencial para o país como a educação.

A matéria fala do Pedro II, do Colégio de Aplicação da UFRJ e do CEFET como modelos de ensino, aprendizado e valorização do professor, em todo o país. Mais até do que escolas particulares que cobram alto da classe média que desistiu de lutar por um bom ensino público (tinham como pagar, né? Dane-se quem não pode...). Pois vejam: ambas instituições federais, com espírito de serviço público, plano de carreira, boa remuneração, universalidade.

A crítica às políticas públicas de educação de nosso Brasilzim também é feita: os colégios são "ilhas" de excelência, pois não existe além deles uma rede de ensino público com a mesma qualidade.

Portanto, governantes, monetaristas e povinho classe média: é possível fazer ensino público de qualidade, se bem planejado e administrado. O que me dá mais raiva nos neo-liberais não é que eu pense diferente deles - é importante aprendermos a conviver com os contrapontos. Mas é por pensarem que o "mercado" ou "as empresas" sempre são o perfeito caminho para se cuidar de direitos básicos (e que nem sempre significam lucro, ou prejuízo): saúde, educação, moradia, cultura, alimentação... E que o Estado, por si só, é uma "fonte do mal" que deve ser extirpada o mais rápido possível. Isso é um discurso construído desde o começo da década de 90, para as privatizações descerem redondo na goela da nação.

Não vou negar os problemas que um funcionário público acomodado pode causar para o país (é por aí que se bate no Estado também). Mas daí a generalizar e chegar a uma conclusão que se pretende soberana e inquestionável - "vende/terceiriza que é melhor" - é uma grande distância.

Pior do que nos eleitos, é perceber nos eleitores que o espírito público não existe mais, apenas o darwinismo sócio-econômico onde o mais forte (no bolso) sobrevive. "Eu exijo meus direitos, pois pago meus impostos", é o que mais se ouve hoje em dia. Esqueceram, por completo, que direitos humanos básicos precisam ser garantidos ou mediados pelos representantes do povo, que ocupam... o Estado. Voltando ao exemplo dos colégios: o que tem de gente querendo que os filhos voltem pra escola pública, pois tá brabo pagar mensalidade... E vão reclamar com quem, agora? Com o dono da escola, que criou um negócio da educação? Ele tem mais é que praticar o seu capitalismo pra sobreviver.

Um último aspecto que queria ressaltar, existente no bom ensino público - que aprendi ao vivo e a cores, no Colégio Pedro II - é a universalidade. Lá, os alunos usam uniformes e têm contato com pessoas de todas as classes sociais. Também no Globo, também num domingo, um educador francês confirmou o óbvio: se as crianças já crescem em ambientes desiguais (escola particular x escola pública), tal experiência e mentalidade produzida vai se propagar quando crescerem e estiverem em suas respectivas "trincheiras" em meio ao cada vez mais agudo abismo social.

(*) Essa é para alunos e ex-alunos... Pra quem não conhece, vai a cola abaixo (pede pra alguém do CPII entoar o grito de guerra):

Pedro II, tudo ou nada?

TUDO!

Então como é que é?

TABUADA!

3x9, 27! 3x7, 21!

Menos 12, ficam 9

Menos 8, ficam 1

Zumzumzum, paratibum

PEDRO II!!!!!


Pra cobrar do Cabral

Em 4 de janeiro, Sergio Cabral indignou-se com a situação do hospital Albert Schweitzer. Pediu que o Secretário de Saúde elaborasse em 10 dias um plano para sanar os problemas da unidade hospitalar.

Em 27 de abril, Juliana Pereira da Silva, universitária, foi atingida por uma bala perdida e morreu no referido hospital, por falta de recursos.

E aí? Onde está o plano da Secretaria Estadual de Saúde de Sergio Cabral? 4 meses depois, nada parece ter mudado.

Quer cobrar do Cabral? Então lá vai:

Secretaria Estadual de Saúde: clique no envelopinho do cabeçalho (Atendimento ao Cidadão) e mande um e-mail. Ou ligue para o Gabinete do Governador, nos telefones 2553-1030 ou 2553-4573.

Ou espere o Exército chegar pra ver se resolve.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Pluralidade de opiniões

No que uma comissão do Senado aprova a redução da maioridade penal, o pai de uma menina assassinada por um menor discorda. E mais: admite que era a favor da redução só no período após o choque da morte.

Ainda que o texto termine com uma reação diferente por parte do pai, é interessante uma vítima assumir que, no calor do momento, tomaria uma decisão precipitada sobre a redução da maioridade penal.

Ouvi, "Sivucas" de plantão...

PS: aqui você confere um ótimo estudo de caso da cobertura do Globo e a pena de morte, analisando as matérias sobre o assassinato de Liana. Atemporal e universal.
PAN-DEMÔNIO (*)

Você sabia que existe o Comitê Social do Pan? É um grupo de 17 entidades que busca intervir criticamente na gestão do Pan-Americano do Rio de Janeiro. Um alento, já que a maior parte da mídia saúda o Pan como um carro-chefe de futuros lucros pro Rio, mas não coloca em foco os desperdiçadores do dinheiro público. O Pan aumentou em mais de 10 vezes o seu orçamento inicial (de R$ 800 milhões para R$ 3,5 bilhões), e lá se vai grana do Governo Federal para cobrir incompetências de planejamento dos dirigentes esportivos. Em especial, o senhor Carlos Arthur Nuzman, mais um grande aproveitador do filão do esporte brasileiro, tal e qual Ricardo Teixeira.

Algumas das entidades atuam não apenas no Pan, mas de maneira permanente. E é essencial que sejam conhecidas do público, como o Fórum Popular do Orçamento.

(*) Título de artigo do deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), também sobre o Pan-Americano.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Luto

O luto é necessário. A perda traz impacto fulminante, é impossível prosseguir do mesmo jeito no dia seguinte a ela. A imunidade emocional vai lá embaixo, e a metáfora biológica se aplica em todos os aspectos. É preciso convalescência.

Ao mesmo tempo, o luto tem um dado curioso, mesmo em suas expressões mais tradicionais: possui um período. Um dia, mais ou menos de acordo com a dor referente, foram estipulados vários períodos de luto. Luto oficial de três dias, uma semana. Algumas viúvas já ficaram enlutadas por um, três ou sete anos!

Mas é um período determinado. Ou seja, existe a necessidade de se viver o luto, e também a necessidade de que ele termine. E isso algum dia foi programado, pensado, planejado. Precisamos estar cientes, e buscar essa mentalidade: o luto é essencial após as perdas, mas deve terminar. Do contrário, ficamos estagnados. Fim do luto é recomeço da luta.

Não sejamos frios pensando que todo luto tem um período e ponto final. Cada um no seu tempo, mas com a consciência de que ele tem que acabar a tempo da vida seguir.

Pequenos grandes aprendizados do cotidiano.
É o retrato do artista quando mutilado

"A saudade é arrumar o quarto/Do filho que já morreu/
Oh pedaço de mim, oh metade arrancada de mim"

("Pedaço de Mim", Chico Buarque)

Você pode perder um filho sem ter um filho. Não tenho filhos, pretendo ter. Tudo o que sei sobre o assunto vem de leituras, relatos ouvidos ou acompanhamento pessoal de outros pais e seus filhos.

Logo, sei que um filho quase sempre chega na hora certa, mesmo que na hora não pareça. Independente disso, um filho, desde sua concepção, é cercado de expectativas e especulações. Nele os pais projetam muita coisa (isso pode ser ruim, se mal administrado pelos genitores), aguardam e depois observam seu crescimento, desenvolvimento, amadurecimento. Ver um filho formado ou casando não é apenas um sonho classe média. É a coroação viva de uma criação que, com todas as suas limitações, vê naquele garotão ali uma licença para se orgulhar, é o ápice a ser curtido, o fruto depurado e alçando vôo.

Seu filho pode ser um projeto pessoal ou profissional, uma ocasião que conjugaria em suas execuções resultados há muito buscados por você. Que a partir dela você seria potencializado, suas expectativas se renovariam. O "bom" orgulho chegaria te deixando suspirar pelo que você batalhou anteriormente para que aquele momento pudesse ser do jeito sonhado.

Você pode perder um filho numa bala perdida.

Uma bala perdida é tão estúpida quanto os mesquinhos que possuem uma nesga de poder sobre você. E que são extremamente competentes no exercício desse poder e na refinação de sua mesquinharia cruel e míope.

Você pode ser órfão de filho.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Mais uma rasteira da ironia

FHC roubado na Espanha

Ele deve estar se roendo de raiva por que não foi num país de terceiro mundo, e porque nem pode culpar o PT...