segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O brasileiro não é ufanista

Diego Hipólito, favorito para vencer a medalha de ouro na ginástica olímpica, caiu no final da série de exercícios e ficou em sexto lugar. Cabisbaixo e muito decepcionado, o atleta balbuciou para os repórteres:

- Peço desculpas aos brasileiros que acreditaram em mim.

Diego não deve pedir desculpas a nós: assim como muitos esportes amadores, a ginástica não tem um planejamento nem grandes incentivos do Comitê Olímpico ou do Ministério do Esporte.

De onde vem a pressão sobre o atleta na hora de representar o país? Os brasileiros torcem, mas diferentemente do futebol, não há uma cobrança por expressivos resultados nos esportes olímpicos. Ficamos frustrados por Diego, pois ele era favorito. Mas não se pode dizer que a torcida colocou um enorme peso nas costas do atleta.

No entanto, observe a cobertura e a transmissão dos Jogos: quantas vezes você já ouviu ou leu o adjetivo "histórico"? Se o ginasta foi à final pela primeira vez, foi uma classificação "histórica"; se o bronze feminino no iatismo era inédito, então é uma medalha "histórica". Mesmo se um atleta fica em décimo lugar no geral, e essa for a melhor classificação em todos os Jogos, é um desempenho "histórico".

A banalização dos adjetivos para os feitos olímpicos cria falsas expectativas e coloca sobre os atletas uma pressão que, na verdade, é muito menor. Mas a partir do momento que uma rede como a Globo compra os direitos de transmissão, ela torna-se "parceira" do evento. Ou seja, o evento tem que ser um sucesso. E os espectadores precisam ter essa sensação de sucesso.

Só que apenas ufanismo não basta. O Brasil leva quase 300 atletas em cada delegação e o maior número de medalhas conquistadas numa Olimpíada foi... 15. Há algo errado aí, e é só olhar para o descaso de escolas e alunos pelas aulas de Educação Física para entender. Ou checar o orçamento do Ministério do Esporte.

Fora isso, por mais que a Globo (ou a Record, em 2012, vai dar no mesmo) exija dos atletas uma alta performance, ela não age da mesma forma. Por exemplo: pode-se dizer que Galvão Bueno sabe de Fórmula 1 e, vá lá, de futebol. Mas ele também narra natação, ginástica olímpica, basquete... É a lógica do ufanismo acima de tudo.

O brasileiro não é ufanista, e isso não quer dizer que ele não goste do Brasil ou não torça por seus representantes.

Queremos ver o sucesso de nossos atletas - e para isso eles precisam de uma preocupação séria das autoridades esportivas. E nós precisamos de uma transmissão fiel à realidade, seja ela qual for.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O público enfatizado

Uma das notícias mais inusitadas das Olimpíadas de Pequim (e não Beijing, falou?) foi a declaração do judoca português Pedro Dias, que eliminou o favorito brasileiro João Derly. Ele escolheu um dos eventos mais assistidos no planeta para confessar que foi... corneado. E por Derly, que teria saído com a namorada de Dias enquanto este passeava com a mãe do brasileiro (?). Meio cafona, mas vá lá.

Desmentidos de Derly e suas pazes com a esposa à parte, a cobertura do caso não poderia deixar de ser intensa. Celebridades esportivas na mesma situação que as celebridades das artes e espetáculos, em meio aos Jogos Olímpicos? Nada mais midiático.

E logo surgiu a pergunta: quem seria a pivô da briga? O jornal Extra, das Organizações Globo, descobriu a menina. Como é cada vez mais comum no fazer jornalístico atual, vasculhou o perfil do Orkut da cobiçada namorada do português. A matéria continha parágrafos como esse:

Joana se descreve como uma pessoa muito amiga e tímida. Mas as fotos em seu álbum revelam que a bela não é tão tímida assim, com closes ousados. Suas comunidades também revelam uma moça apimentada. Dentre elas, destaque para "Beijos - 600 maneiras", "Eu adoro dormir sem roupa", "Adoro abraço por trás" e "Antes Safada do que Tapada".

E ainda outro trecho, também baseado nas informações das comunidades de Joana:

"...a moça gosta de homens com barba por fazer, como revela outra de suas comunidades, o que daria mais pontos a Derly em relação ao português."

Daí surge a dúvida: isso pode ser considerado invasão de privacidade? Os internautas não quiseram nem saber, e invadiram o perfil de Joana. Assim como já tinha acontecido com a mulher que subiu no palco de Bono Vox e com árbitros de futebol após partidas decisivas.

É fato que a internet é recente e ainda não sabemos lidar com ela, ainda mais por sua capacidade de apresentar novidades e transformações numa velocidade incrível. Se alguém "se revela" num site de relacionamentos público, imagina-se que deve estar preparado para esse tipo de coisa. Afinal, qualquer um poderia ler as informações acima, sem a necessidade da matéria do Extra.

Mas pense você: e se um jornal vasculhar seu perfil no Orkut, publicar as comunidades que você freqüenta, tirar conclusões sobre sua personalidade a partir delas e disponibilizar tudo isso a milhões de internautas? Será que, mesmo você tendo ciência de que botou tais informações num site público, não se sentiria invadido?

Não se pode negar a diferença de uma informação (ou um perfil no Orkut) perdida entre muitas outras daquela que um jornal de grande circulação escolhe, destaca e deixa ao alcance de inúmeras pessoas. Por exemplo: jornal é jornal, dicionário é dicionário. Ambos possuem o mesmo conteúdo - as palavras. Mas com funções, contextos, e alcances diferentes.

E aí surge outra dúvida: isso é jornalismo? Utilizar apenas uma fonte para informar ao grande público sobre uma pessoa que está em evidência? Não sei se o Extra teve essa preocupação. Mas se estiver de fato querendo fazer jornalismo, o faz de maneira responsável? Ou seja, apresenta um relato confiável e que não vai prejudicar o "entrevistado"?

Na história da comunicação nenhuma mídia substituiu completamente suas predecessoras. O jornal impresso, o rádio, a TV e agora, a internet, coexistem, influenciando-se mutuamente. A real ameaça (já concretizada) é que, devido à sua instantaneidade e a possibilidade de participação do usuário, a internet está escancarando como se produzem as notícias. Um feito e tanto.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Masoquismo

Uma das últimas coisas que eu gostaria de ter na vida seria amnésia. Pensar em perder a memória, seja de coisas recentes ou antigas, me dá arrepios. Sabendo que nossas lembranças estão sempre associadas emocionalmente com episódios importantes da vida, compondo nossa identidade, pior ainda.

Olhamos para determinadas fases de nosso passado e nos assustamos: como pude fazer aquilo? Onde eu estava com a cabeça? E então, alimentados por essa memória que não se apaga de nós, decidimos não errar mais, aquele deslize registrado internamente nos alerta a não repetir o que fizemos de ruim.

Diante disso, há momentos em que eu gostaria de ser argentino.

Nossos hermanos aprenderam que os crimes da ditadura não poderiam ficar impunes, principalmente a tortura. Não é incomum que muitos militares (até de alta patente) tenham sido julgados, condenados e presos quase 30 anos depois de comandar esse tipo de ação.

E a Argentina continua com Forças Armadas! Ou seja, punir quem desonrou os direitos humanos não significa desrespeito ou descaso com os oficiais de hoje.

Mas no Brasil não parece ser assim. Nosso país é especialista em grandes acordos: a anistia foi para perseguidos e perseguidores; em vez de Diretas Já, um pacto para os congressistas escolherem o mandatário da nação indiretamente.

O ministro da Justiça, Tarso Genro, tentou levantar o assunto de punição aos torturadores. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, chiou em nome dos militares. Polêmica vai, polêmica vem, o presidente Lula resolveu que não se fala mais nisso.

Ok, Lula definiu que o Poder Executivo não fala mais nisso, deixou a batata quente pro Poder Judiciário. Mas se houvesse vontade política por parte de seu Governo nessa matéria, as coisas não seriam repassadas assim tão facilmente.

E asssim prosseguimos. Tentando deixar o nosso passado embaixo do tapete, como se as memórias pudessem ser simplesmente deletadas. Os torturados e suas famílias não vão esquecer. Os torturadores que ainda existem no aparato policial, por exemplo, sempre vão se lembrar que podem sair impunes.

Nunca antes na história desse país um presidente perdeu tantas oportunidades de fazer História.

sábado, 2 de agosto de 2008

Salto alto e pochete

Matei a charada! Pode me chamar de pretensioso ao final do artigo, ou mesmo artista do óbvio. No entanto, pessoalmente, acredito que caminhei mais algumas milhas na dificílima arte de decifrar como se desenrola um relacionamento homem-mulher.

Minha namorada (hoje esposa) quase me espinafrou a sangue-frio quando me viu portando uma pochete no ombro (veja bem: eu não usava na cintura). Tinha me maravilhado com aquele singelo artefato: meu celular, minha carteira e minhas chaves cabiam num só lugar de maneira portátil. Chega de revezamento de bolsos!

Paralelamente, ela vez por outra reclamava que aqueles sapatos estavam assassinando-a, devido aos saltos, altos e finos. Ainda assim, o uso em determinadas ocasiões era prioritário, quando não obrigatório.

Salto alto e pochete: como dois objetos conseguem ser tão concisos quanto a características intransferíveis do homem e da mulher. Enquanto nós priorizamos a utilidade e o conforto acima de tudo, elas fazem o mesmo com a estética. E nessa gangorra os relacionamentos passam por aventuras inesquecíveis.

Pensamos: qual a razão para se usar um sapato desconfortável, que machuca os dedos e os calcanhares? E por que não devemos usar um recipiente tão perfeito para guardar o resumo de nossa vida diária?

Pensam elas: qual a razão para se usar algo tão horroroso no ombro (e que na cintura é uma aberração)? E por que não devemos usar sapatos tão lindos (que torço para que nenhuma mulher mais tenha)?

Ambos evocam as argumentações acima e se entreolham, incrédulos com a profissão de fé do outro.

Estética e utilidade (com conforto) podem caminhar juntas, mas essa graça não foi alcançada pela pochete ou pelo salto alto. Foram inventados apenas para colocar em xeque os relacionamentos que tentam driblar a arte de negociar e a oportunidade de perceber como funciona o sexo oposto.

Mesmo assim, saimos perdendo: sempre haverá os bolsos, mas determinadas vestimentas femininas não pedem outra coisa que não os sapatos de salto alto. E pior: adoramos vê-las com eles.

O que não apaga a minha sensação de ter matado uma charada.


sábado, 26 de julho de 2008


Estamos todos condenados

Eu não sei quanto a vocês, mas meu olhar sobre o mundo mudou após a divulgação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), no ano passado. Pra quem não se lembra, ali foi apontado que o homem é o grande causador do aquecimento global e de suas conseqüências.

Não só isso: a velocidade com que a deterioriação do planeta aconteceu devido à ação humana foi tão rápida que se coloca em dúvida a possibilidade de um caminho de volta. Isto é, a humanidade chegou a tal ponto na exploração dos recursos naturais que talvez seja tarde pra evitar o colapso da Terra.

Mas não se tem certeza dessa última afirmação, então teríamos nova chance pra repensar nossos caminhos e pisar no freio. Só que a China não abre mão de seu crescimento econômico, mesmo gastando 25% mais do que o planeta pode repor; os EUA não deixam de consumir 5 vezes mais do que a Terra produz; o Protocolo de Kyoto, para diminuir a emissão de carbono, não teve adesões dos principais poluidores...

Após a divulgação do relatório, imaginei que todos os jornais teriam uma editoria de meio-ambiente diária, penetrante e incômoda, pra estar na boca do povo - como a de política, ou esportes, economia... Nada.

Aí eu me pergunto como pode o ser humano continuar da mesma forma após ter ciência de que seus filhos e netos podem derreter junto com o planeta.

Como continuar indo ao cinema, contando piadas, ver grande importância no trabalho rotineiro, ralhar com o motorista do ônibus? Tudo isso parece pequeno demais de uma hora pra outra. Olhar a praia e imaginar que aquela água pode subir e acabar com valorizados endereços mundo afora (por culpa da ganância humana) sempre passa pela minha cabeça. É inevitável.

Mas, mesmo assim, vida que segue. Ainda não é o fim. Dorme-se preocupado com tudo isso, acorda-se de manhã tendo que dar conta do que está sob nossa responsabilidade.

Fico pensando se estou deixando de curtir o presente por imaginar que o futuro reserva um fim cada vez mais próximo - e comprovado cientificamente! Ao mesmo tempo, continuo indo ao cinema, rindo de piadas e ralhando com o motorista.

Porém confesso que meus olhos não são os mesmos. E não me sinto mais importante que ninguém por causa disso. Apenas sou alguém diferente de mim mesmo após o relatório do IPCC.

Com a teimosa e quase burra esperança me beliscando.

LEIA TAMBÉM:

Um mundo que se racha

G8 se encaminha para acordo sem grandeza sobre aquecimento global

PRA DESCONTRAIR:


sexta-feira, 18 de julho de 2008

Ela passou pela rehab. E os outros?

Foi com alegria que vi uma matéria do Fantástico num domingo desses. Tal afirmação, nos dias atuais, é uma contradição pra mim. Mas o assunto era a volta de Amy Winehouse aos palcos de grande público. No caso, do Rock in Rio Madri.

Após ouvir o hit Rehab, comecei a prestar atenção na cantora. Que música! Que voz! Eu, que já gosto de jazz e blues, adorei saber que Ella Fitzgerald, Billie Holiday e Nina Simone já possuem herdeira musical.

A matéria conta que não se sabia se Amy estaria em Madri, outra vez devido a seus problemas extra-palco. Aí me dei conta que sei muito mais desse aspecto da sua carreira do que de seu talento ou suas músicas.

O que dá na mídia (sensacionalista, não toda) é a anorexia de Amy, a depressão de Amy, a dependência química de Amy, a prisão do marido de Amy... E as pessoas não cansam de consumir essas notícias, então os pseudo-jornais não cansam de publicar esse tipo de coisa, já que as pessoas não cansam de consumir essas notícias, uma vez que os pseudo-jornais não cansam de publicar esse tipo de coisa...

Em meio a essa roda-viva, Amy Winehouse foi pra reabilitação. E cantou seu drama no hit que já citei (veja a letra). Além disso, tem buscado prosseguir a carreira, como nos shows do Rock in Rio pelo mundo.

E os viciados nas vísceras das celebridades? Isso não é de hoje, mas perceba: julgam e condenam Amy por seus pecados, mas não largam o osso de encarnarem o papel de abutres humanos.

Enquanto os ávidos consumidores (e "traficantes") não admitem esse tipo de vício, Amy mostra-se superior a todos eles quando busca ajuda, reconhecendo que precisa dela. E volta a oferecer ao mundo que tem de melhor: sua voz.

Não saiba de Amy, ouça Amy.

terça-feira, 15 de julho de 2008

A ironia não perdoa

Os eleitores brasileiros reclamam do Congresso Nacional, mas não deixam de aprontar das suas. Enquanto se critica o nível dos representantes que há anos povoam a Câmara e o Senado, o estilista e apresentador de TV Clodovil Hernandez é eleito deputado federal pelo maior colégio eleitoral do país, São Paulo.

As primeiras entrevistas de Clodovil eleito foram um escárnio, e não dava pra aceitar essa grande brincadeira dando resultado. O estilista sem noção foi pra Brasília receber salário e auxílios mil com o dinheiro público pra fazer o quê?

Pois, ironia das ironias, Clodovil pode ter apresentado uma das melhores emendas à Constituição dos últimos tempos: reduzir o número de deputados de 513 para 250. A economia para os cofres da nação: R$ 26,3 milhões por mês, R$ 315,6 milhões por ano.

Não sei qual é a motivação de Clodovil, mas a proposta vem de um deputado recém-eleito, que ainda não tem um eleitorado cativo pra se garantir em futuros pleitos. Ou seja, ele não pode sequer ser acusado de legislar em causa própria. No que normalmente todo congressista tem se enquadrado.

Mas será que 513 deputados não é o número proporcional às dimensões continentais do Brasil? Talvez. Ou será que é proporcional ao volume de emendas e coronelismos de todo o tipo que muitos políticos necessitam pra continuar na sua "profissão"?

Após o mais recente disparate do Senado - criação de 97 cargos de assessor parlamentar, sem concurso - a proposta de Clodovil ganha mais peso ainda. Imagine o que o país não poderia fazer com R$ 315,6 milhões a mais? Ah, e o estilista votou contra a volta da CPMF.

Não faço campanha para Clodovil (ainda há 2 anos e meio de mandato pela frente), mas os fatos são os fatos. E os fatos (e a ironia), não raro nos exortam à humildade para reconhecer sua força.

Clodovil conseguiu o que a gente sempre espera de nossos representantes: bom senso e sentimento de que o voto não foi desperdiçado. Essa é a verdade, seja qual for sua opinião sobre o controverso congressista.

ATUALIZAÇÃO: Diante da repercussão negativa, o Senado cancelou a criação dos 97 cargos. Vitória nossa!

sexta-feira, 11 de julho de 2008

A lei não seca a criatividade

Os donos dos bares derramaram as lágrimas catastróficas após a promulgação da chamada "Lei Seca". Reclamam, claro, dos prejuízos.

Mas a lei não impediu que idéias criativas viessem à tona, virassem notícia e mostrassem que é possível manter o seu estabelecimento de pé. Tais empreendedores acabam complementando o processo educativo do qual a lei faz parte.

Viva a criatividade, em vez de lamúrias.

ATUALIZAÇÃO: mais uma prova da criatividade brasileira aqui.

terça-feira, 8 de julho de 2008


Mais um João

Primeiro João Hélio, agora João Roberto. Em ambos, a violência gratuita. No caso do segundo João, a polícia que primeiro atira, depois pergunta.

O repórter Dimmi Amora pontuou muito bem a situação: o governador do Estado do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, é responsável por esse crime. Em novembro de 2007, em plena ofensiva no Complexo do Alemão, o dito cujo vaticinou:

"A polícia está num confronto permanente. Confronto gera estresse. Não tem outro caminho. Não tem." (revista Piauí, 3a. página da matéria e também em áudio)

Essa é a direção que a polícia militar do Rio recebe e continuará recebendo. Essa é a mentalidade com a qual boa parte da classe média carioca se identifica. Até morrer um pequeno João Roberto, morador da Tijuca.

É tarde demais, outro morreu após a necessidade de "confronto permanente". Investigação prévia, qualificação do policial? Necas. Essa classe média também se lixa pros policiais, são meros "lixeiros humanos". Até morrer um pequeno João Roberto, morador da Tijuca.

E enquanto morrem os Joões, elegem Sergio Cabral, que indica um Beltrame.

CHEGA DE SER CONIVENTE COM ESSA POLÍTICA DE GUERRA CIVIL UNILATERAL.

CHEGA DE APOIAR GOVERNADORES QUE MANDAM A POLÍCIA MATAR, E NÃO PENSAR.

CHEGA DE POLÍCIA DESPREPARADA, MAL PAGA E QUE SERVE DE BODE EXPIATÓRIO NA HORA DA TRAGÉDIA.

É hora de uma oposição ferrenha a esse tipo de gente que quer estragar o nosso estado pensando numa minoria. Verdadeiros mandantes de assassinatos premeditados, de tanto que sabem dos riscos de acontecer uma operação como a que matou João Roberto. Ao menos, nessa lógica do confronto acima de tudo.

Sergio Cabral e Beltrame: cínicos, incompetentes e insensíveis. "Cadê o bandido?", perguntaram os policiais à família, após o ataque. Estão logo ali, em Laranjeiras.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Radiohead na cabeça

Nunca curti o som da banda inglesa Radiohead. Mas assim como seus conterrâneos Beatles, não receio em dizer que eles já entraram pra história da música. A diferença é que isso acontece mais por suas atitudes do que por uma qualidade inédita de suas melodias (como foi com os Fab Four).

Não estou dizendo que o Radiohead é ruim, apenas não ouvi nada deles (a não ser a excêntrica, mas perfeita, trilha sonora do filme Sangue Negro).

A banda começou a sacudir as estruturas lançando um CD pela internet, permitindo que os fãs que baixassem as músicas pagassem por elas o preço que achassem melhor. Isso incluía quem não quisesse pagar nada.

Os locais de sua turnê não são escolhidos à toa: analisaram as emissões de CO2 que seus fãs produziam ao se deslocar para os shows (com veículos automotivos, ok?), e agora sempre escolhem um local que possua um bom esquema de transporte público.

Não penso que a realidade de uma banda pode ser automaticamente aplicada às complexidades de nosso tempo. Mas é certo que, ousando na sua produção musical e na postura ambiental, o Radiohead consegue novos fãs, e vai provando que o progresso pode andar de mãos dadas com sustentabilidade e diálogo com as novas mídias. Ao contrário do que diz (e faz) a grande indústria.

domingo, 15 de junho de 2008

O jornalismo na medida do possível

Esse é o título de um excelente artigo que a professora e jornalista Sylvia Moretzsohn publicou no Observatório da Imprensa, sobre a tortura aos repórteres do jornal O DIA. Sem deixar de abordar a questão de direitos humanos envolvida, ela mostra como a mitificação do ofício do jornalismo pode prejudicar a cobertura e agora, a integridade física e a vida do profissional.

Ah, e eu tive a honra de assistir às aulas e passar pela orientação de monografia da professora Sylvia.

Leia e tenha uma visão muito mais abrangente sobre o tema, coisa rara hoje em dia.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

O pânico que "não" existiu


É aterrorizante ler o relato da leitora Claudia Freitas sobre a pane no metrô do Rio de Janeiro, na segunda dia 19. Em alguns momentos, parece que estamos diante de cenas do livro "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago.

Mas a parte mais chocante do relato (pra mim, que não estava no metrô) é a atitude da concessionária do Metrô Rio em negar que os fatos aconteceram. Se alguém é tratado assim após narrar fatos que viveu, imediatamente começa a duvidar de sua própria sanidade mental.

O Metrô Rio está afirmando que tudo não passou de uma alucinação coletiva?

A incompetência na prestação do serviço de forma adequada não é mais novidade. Já acontece nas Barcas S.A., na SuperVia, e agora no superlotado Metrô, que inventa integrações das quais não pode dar conta com o número de vagões que possui.

Mas negar descaradamente que a pane aconteceu dá indícios de vilania e mau-caratismo.

Agetransp, secretarias de Transporte, Governo do Estado... quem vai dar um jeito nisso? Sergio Cabral parece preocupado apenas em criar novos meios de transporte pra continuar enchendo os cofres da iniciativa privada.

PS: o presente post (com as necessárias adaptações de texto) foi encaminhado para a Agetransp, para a Secretaria Estadual de Transporte, para a secretária de Sergio Cabral e para o SAC do Metrô Rio.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Meu encontro com o Rei

Eu era recém-concursado da Prefeitura do Rio de Janeiro, como profissional de nível médio de informática. Estava no início da faculdade de Jornalismo, e pensava: como conciliar o que estava estudando e meu trabalho?

Pensei logo na assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura - tudo a ver comigo. Pensei mais ainda quando soube que Artur da Távola tinha acabado de ser escolhido o secretário de lá.

Eu já conhecia as crônicas dele, mas fiquei fascinado mesmo quando assisti a uma entrevista na TV Cultura, com o então senador analisando a existência e os impactos da televisão. Fiquei impressionado com o profundo e perspicaz conhecimento sobre o assunto, e sendo comunicado de maneira tão simples e singular.

Já imaginou trabalhar com esse cara? Ou, ao menos, pra alguém que pensa daquele jeito?

Enquanto sonhava, trabalhava no 5º andar do prédio da Prefeitura, na Secretaria de Desenvolvimento Social. Um dia precisei ir ao 3º andar - na Secretaria de Cultura. Em determinado momento, foi necessária uma providencial ida ao banheiro.

Por sarcasmo sacana do destino, quem está a dois mictórios de mim? Obviamente, pra que ninguém duvide de minha masculinidade, fiquei na minha.

Mas na hora de lavar as mãos, pias paralelas, o fã desejoso de um emprego melhor não resistiu, naif:

- O senhor é o Artur da Távola, não é?

- Sim, sou eu.

- Eu vi sua entrevista na TV Cultura. Muito boa.

- Obrigado.

(O DIÁLOGO A SEGUIR CORRESPONDE À VERDADE FACTUAL FIEL)

- Eu faço jornalismo na UFF...

- Ah, estamos precisando alguém lá na assessoria pra ajudar a fazer os informativos, a divulgação... Fala com o Jorge Roberto, meu assessor de imprensa, pra ver como faz.

- Ah, legal! Obrigado. Vou falar com ele.

Ele se despediu e eu ainda aguardei alguns eternos meses até conseguir ser lotado na Secretaria de Cultura, na assessoria de imprensa. Lá conheci o Geraldo Lopes, a Anna Paula (designer e até hoje minha grande amiga) e ganhei uma significativa experiência de vida e de trabalho.

Não tinha contato com Artur da Távola nos 11 meses que fiquei por lá, mas desde então acompanhei ainda mais sua carreira e suas análises de comunicação (caminho acadêmico que pretendo seguir).

Hoje, o Rei Artur abdicou, pela vontade soberana de seu coração. Ele próprio, com suas palavras e conhecimento, era o cálice sagrado sempre buscado.

ATUALIZAÇÃO: Indico artigo sobre Artur da Távola no Observatório da Imprensa, que comprova o caráter socializante de seu conhecimento.
O telefone existe

Concentrado no trabalho numa terça entre feriados. O dia tinha tudo pra ser calmo, mas pega fogo. Só depois das 17h volta à normalidade. De olha na tela do computador (da minha "máquina", diria portentosamente o pessoal da TI), o telefone de um colega toca.

Toca sem parar, pois o colega não está na mesa no momento. Os ringues prosseguem, ininterruptamente, irritantemente. A pessoa do outro lado ainda não sacou que ali não há ninguém? Ou colocou na discagem automática e se distraiu, deixando o inferno reverberar?

Releio os parágrafos acima e pareço exagerado. Mas é o reflexo de um telefone que toca sem parar enquanto quero tocar meu fim de dia de labor. O trim-trim eterno revela a indiferença que pode reinar num ambiente de trabalho.

Todos ouvem o telefone. Ninguém atende (nem eu). Todos sabem que é do outro, problemas e informações destinados ao outro, no máximo arranjaremos o ofício de garoto de recados. Ninguém quer isso. Ignoram a campainha incessante. Quanto tempo vão resistir?

Vez por outra sucumbo. Atendo, anoto recado, tento ser educado, informo obviedades - "fulano não está" - e desligo, aliviado. Em breve tornam a ligar, o telefone existe e torna a tocar, a maioria prefere deixar pra lá.

Assim como aquele toque sonoro incessante, muitas outras situações - e pessoas - são alvos da indiferença constante que somos capazes de cometer. Dia desses me dei conta de que nunca lembrava do rosto dos profissionais da limpeza. Como lembraria, se sequer olhava-os nos olhos?

Aprendi que é tão fácil ignorar um aparelho telefônico quanto uma pessoa. Ambos podem ser igualmente irritantes - mas nem sempre. Há quem vire paisagem pra gente, e penso se merecem tal tratamento.

Aqui, no meu silêncio, posso ser tão infernal quanto um telefone que toca, toca, toca.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Complexo

As manifestações midiáticas e seus conteúdos não estão descoladas de seu tempo. Nada do que é produzido no ramo do entretenimento está absolutamente dissociado da realidade, e do que ela inspira nos roteiros.

O seriado House enquadra-se perfeitamente nessa definição. Em vez de um protagonista clássico com nobres valores, o médico diagnosticista é um anti-herói assumido, imanente, anti-social e extremamente competente.

No mundo de hoje, exacerbado de celebridades artificiais sem conteúdo e ídolos fabricados que não convencem ninguém, nós (a audiência) buscamos autenticidade. Pensaram que os reality shows dariam conta dessa demanda, mas até ali o jogo de máscaras se impôs.

Assim, Dr. Gregory House é autêntico canalha, porém excelente médico. E sua personalidade o ajuda a descobrir curas até então improváveis, salvando vidas - chega-se ao mesmo happy end romântico, sem romantismo.

São dez roteiristas para dar conta de uma rede complexa de argumentos e relações interpessoais, éticas e médicas onde House é a linha narrativa condutora. Quem assiste a um episódio dificilmente imagina qual será a próxima frase de qualquer personagem.

Bom, não fui pago pela TV a cabo para promover o seriado, mas ele serve de trampolim para este artigo. Assim como serve de espelho para quem está do lado de fora da telinha.

O desenrolar da rede mencionada acima é bem mais enigmático que os sintomas que vão surgindo nos pacientes de House. O seriado mostra o que sabemos e tentamos sublimar dia após dia: nosso mundo, nossa vida, nossas relações são extremamente complexas.

Quando imaginamos ter chegado a algum cais de estabilidade, percebemos (?) que o tempo virou e de nada vai adiantar encarar o que surge de maneira simplória, simplista.

É tudo ricamente complexo, fascinantemente maior que nós, que nos matamos pra ir descobrindo como matar as charadas da vida, que aparecem em nosso caminho como minas terrestres. Sempre estiveram ali, mas descobrimos quando pisamos...

Assistir House é testemunhar a própria vida de camarote, pois em algum momento do episódio (qualquer episódio) vem aquele riso nervoso, fruto do toque em algum fundo de verdade a nós relacionado. Ou o sentimento de dúvida perante certezas acumuladas em prateleiras emocionais, ou mesmo o nó na garganta de uma imobilidade inescapável perante as complexas situações que assistimos e vivemos.

E a canalhice do médico não nos permite subterfúgios: é conosco tudo aquilo, mesmo se não formos médicos, atores, roteiristas, porém todos potencialmente pacientes.

Ao contrário de muito do que se encontra na TV atual, House combate o entorpecimento via entretenimento. É a originalidade que precisamos.
Revolução dos trouxas

É o título de excelente artigo de Fausto Wolff (foto), publicado no Jornal do Brasil de 29/04. Imprensa e teatro, instituições e cidadãos, tá tudo ali, bem resumido e bem incisivo.

Como faz falta essa assertividade aos colunistas atuais...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

A flama, a chama, e os inflamados chamam a atenção

As Olimpíadas de Pequim são o mais constante alvo de protestos contra o desrespeito aos direitos humanos na China. A ameaça de boicote por parte de chefes de governo europeus, a manifestação dos Repórteres Sem Fronteiras (contra o desrespeito à liberdade de imprensa), e agora o apagão forçado da tocha.

A discussão da vez é se o esporte é um meio legítimo para manifestações do tipo. O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Artur Nuzman, é contra o boicote, por considerar um prejuízo à carreira dos atletas que se preparam há anos para os Jogos.

O jogo EUA x Irã aconteceu na Copa de 2002 apesar do contexto político extremado entre os dois países. Se ali foi louvada a não-interferência dos fatores externos na esportividade, por que seria mais aceitável uma postura, fruto de atitude política, que traz conseqüências aos atletas - como um boicote?

O protesto dos atletas nas Olimpíadas de 1968, com as luvas pretas nas mãos, aconteceu com a prova já encerrada e os dois corredores já tendo ganhado a competição por seus méritos. Perderam as medalhas por causa disso. Justo ou não? A leitura geral dos organizadores do esporte é que a política não pode se misturar.

Mas o que parece motivar os manifestantes atuais é que, como qualquer outro país, a China estará capitalizando (em todos os sentidos) em cima do sucesso dos Jogos de Pequim, com toda a visibilidade planetária. E assim, questões não resolvidas (ou mal-resolvidas) como a violência no Tibet e o desrespeito aos direitos humanos serão solenemente ignoradas quando o mundo inteiro estará de olho na pujança chinesa.

Aliás, cada país assina um termo comprometendo-se a respeitar (ou resolver) várias questões humanitárias e sociais. Isso é sério? A China, pelo visto, não poderia então realizar os Jogos. É o money envolvido no globalizado e lucrativo esporte mundial...

Então, a lei que parece valer é: se o esporte denuncia os descaminhos políticos, não pode misturar. Mas se for pra aproveitar a mobilização e a simpatia mundiais que o esporte proporciona - e por tabela mascarar realidades - pode.

O importante é competir... com o quê?

domingo, 30 de março de 2008

Eu conheci Wilson Simonal

Podemos enumerar a perder de vista as invenções do homem que trouxeram males à sociedade: bomba atômica e armas em geral, guerras, segregação, esquemas corruptos... Mas é preciso saudarmos a invenção que é o documentário.

Deslocado no tempo em relação ao objeto de sua investigação, o documentário tem a capacidade de fazer justiça e complementar o trabalho que o jornalismo diário por si só nunca conseguirá: falar com muitas fontes (a tempo), permanecer para ser visto e revisto, estar fora do calor do momento para analisar melhor o que aconteceu naquele período.

É claro que o documentário também corre o risco de cristalizar injustiças. Porém, na minha opinião, não é esse o caso de Simonal - ninguém sabe o duro que dei. Meus conhecimentos sobre o cantor dos anos 60/70 se resumiam a dois fatos: uma aparição no programa da Hebe e a fama de delator à época da ditadura. Recentemente o Burger, colega de trabalho e conhecedor musical eclético, me apresentou a um CD duplo de Wilson Simonal. Ali comecei a saber que foi excelente cantor, original, inovador, cheio de suingue na voz e no jeito. Gostei do que ouvi.

Mas só posso dizer que conheci Wilson Simonal após ver o referido documentário no festival É tudo verdade (com certeza entrará em cartaz nos cinemas, pois é produzido pela Globo Filmes). Contando com uma boa produção e edição - a parte gráfica é impecável - o filme mostra como surgiu Simonal e sua fenomenal trajetória, seu carisma com as massas de seus shows. Enfim, aonde o talento pôde levá-lo, sem deixar de lado a marra de quem já tinha sofrido na vida e julgava merecer a super volta por cima. E lá em cima ele estava quando surgiu a acusação de delator, após um episódio mal-explicado com o seu contador da época.

O filme mostra como Simonal era um artista impressionante e autêntico, e como um episódio em meio ao contexto extremista da ditadura (no qual muitos parecem estar até hoje) pôde manchar uma carreira. Mais que isso: manchar uma vida, com extrema mágoa. Como disse um dos diretores: "a anistia não veio para o Simonal". É de chorar o fato de que ele se escondia nos shows dos filhos para não prejudicar a carreira dos garotos.

Segundo o que vi no documentário, Simonal foi inocente nessa história. Marrento e meio inculto, mas inocente - ainda mais se levarmos em conta a desproporcional repercussão do episódio, atravessando décadas. Ele foi vítima de um lichamento midiático nada incomum nos dias de hoje (Artur da Távola dá um depoimento brilhante a respeito), um comportamento que os profissionais da imprensa não podem mais se sujeitar a fazer. Nem os espectadores aceitarem ou reiterarem, abusando da intolerância e do preconceito. Exemplar a galera do Pasquim admitindo seu patrulhamento, e suas conseqüências.

Justificando minha ode ao documentário, a partir desse filme está resgatada a história de Wilson Simonal. Eu pude conhecer a genialidade do cantor diante de uma platéia, admirar em tela grande e som digital a voz sem igual, testemunhar seus erros, seus dramas e seu legado. Além de mim, muitos poderão ter essa sensação (mesmo os contemporâneos dos acontecimentos), graças a alguém que teve a idéia de contar isso por meio de um documentário.

A impressão que se tem é que, mesmo depois de morto, Wilson Simonal vestiu o azul do filme, e sua sorte então mudou.



ATUALIZAÇÃO: Como post postado não tem volta, resta-nos atualizar o repensar. Pensando mais friamente, acho que Simonal não foi inocente na história do contador. Porém a atitude de relegar seu talento ao ostracismo foi tão grave quanto a malandrangem do cantor com coisa séria. Tantos outros artistas possuem tantos deslizes fora dos palcos, e nem por isso desprezamos sua arte. Foi desproporcionalmente cruel o que fizeram com Simonal.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Ela ainda mexe com as estruturas

Fiquei curioso quando vi a manchete Lan house é condenada por crime de cliente em SP e cliquei pra ler a matéria. Era isso mesmo: um sujeito usou a rede wireless (sem fio) do cyber café pra acessar a internet e enviar um e-mail ofendendo pessoal e profissionalmente uma administradora de empresas. Como o agressor não utilizou um computador fixo do café, não foi possível localizá-lo. A ofendida resolveu então processar o café, e ganhou.

Deixa ver se eu entendi: a lan house foi considerada culpada por oferecer um serviço a mais para seus clientes? A rede sem fio era pra qualquer um que ali estivesse. Seguindo o raciocínio da administradora e do juiz, acho que vou processar a Vivo pelo trote que meu pai levou semana passada. Meliantes ligaram pra ele dizendo que estavam me seqüestrando, e aparecia "número confidencial" (meu pai resolveu atender por não saber quem era). A Vivo é que ofereceu o serviço de rede permitindo que a má fé anônima ameaçasse meu pai...

O episódio revela como a internet ainda mexe com as estruturas consolidadas de mídia e sociedade de nosso tempo. O que já existe na raça humana é amplificado pelo alcance e potencial da rede, mas no fim botam a culpa na rede! É a velha história de tirar o sofá da sala.

"Considero a decisão muito importante, porque dá mais segurança a todos que usam a internet", afirmou o advogado da administradora, Renato Opice Blum, especialista em Direito da Internet. Será mesmo? Qualquer mal-intencionado poderá acessar uma rede sem fio num cyber café e cometer seus crimes tranqüilamente, pois agora há jurisprudência para se processar o estabelecimento. E estamos resolvidos.

A continuar assim, os cyber cafés podem se sentir inibidos em oferecer o serviço e teremos um retrocesso em matéria de desenvolvimento da comunicação. Aposentaram o computador após a ameaça dos hackers? Não, procurou-se melhorar a segurança e a investigação de crimes pela internet. Diversos exemplos poderiam ser elencados aqui, com o mesmo sentido: em vez de atacar as causas e melhorar a prevenção, prefere-se punir o avanço tecnológico (hoje, a internet é a bola da vez). Endurecem a lei pensando que isso é suficiente para conter os criminosos - outro vício de nossa sociedade.

Não duvido que daqui a um tempo os juízes da nova geração, mais ambientados com as possibilidades da internet (para o bem e para o mal), comecem a rever tais sentenças. A Polícia Federal tem ampliado suas habilidades no combate aos crimes na rede. E os parlamentares e seus serviços jurídicos precisam estar preocupados em legislar para o nosso tempo, sem retrocessos.
A montagem do ano (até agora)