terça-feira, 10 de abril de 2012

Dói


Deu no Globo de hoje: Eduardo Paes, prefeito do Rio, numa inauguração ao lado de um vereador irmão de miliciano. Na Zona Oeste, esse curral de votos que, para a classe média carioca, não faz parte da cidade. Na mesma hora lembrei do relato do fotógrafo do jornal O Dia torturado por milicianos. Reli. Chorei de novo. E me deu um asco gigante ao ver a autoridade maior da "Cidade Olímpica", por tabela, sendo conivente com o crime em nome de suas ambições políticas.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Meu Bolsa-Família

Faz algum tempo que pra mim o reveillon  nada mais é que um dia após o outro. Aquela sensação de recomeço, de expectativas e resoluções para um ano-novo não me afeta. Acredito que passo por muitos "reveillons" em diversos períodos da vida que não obedecem à nossa temporalidade organizada. Mas não nego o valor do calendário para administrar nossos planos e motivações. Assim, excepcionalmente, defini um particular objetivo para 2012: realizar meu Bolsa-Família.


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Os cínicos no poder


De novo as barcas. Daqui a pouco serão os trens (de novo), o metrô (de novo), sobrecarregando os extorsivos ônibus (de novo). A população do Rio de Janeiro está cansada desse déja vù. Ainda mais sabendo que é motivado pelo cinismo e por uma agenda oculta das autoridades públicas responsáveis.

sábado, 19 de novembro de 2011

Um Gre-Nal intelectual

A reação ao vídeo que os atores da Globo fizeram em protesto contra a construção da usina de Belo Monte demonstrou, mais uma vez, a polarização intelectual que vemos no Brasil. Obedecendo a uma lógica simplista e maniqueísta, o debate sobre as mais diversas questões é, antes de mais nada, rotulado. E os defensores estão preferindo ser mais fiéis aos rótulos do que à realidade. O país só perde com esse comportamento infantil.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A maturidade é necessária

No fim de outubro participei do 1º Encontro Mundial de Blogueiros, em Foz do Iguaçu. O local chega a ser emblemático: é a tríplice fronteira entre Paraguai, Argentina e Brasil, e o tema do evento falava dos novos limites entre a mídia tradicional e as novas mídias. Os palestrantes trouxeram aos blogueiros um chamado à maturidade. Resta saber se entenderam o recado.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Anti-simplismo

Não gosto de nada simplista: argumentos, pontos de vista, opiniões, raciocínios. Não somos simples, nossos contextos humanos não são simples.

Sem confusão: simplicidade é uma jornada que facilita a nossa existência; simplismo, uma prisão invisível.

Não gosto de me extremar num polo e ali fincar orgulhosamente minha bandeira. Embora não deva servir de  atalho ou justificativa para a incoerência ou para o cinismo, a flexibilidade é necessária, com a companhia da humildade.

Não gosto de reduzir discussões políticas ao espírito de um Gre-Nal, ou Fla-Flu das antigas.

Não gosto de rotular e, a partir de então, fechar meus ouvidos para aquele a quem rotulei.

Não gosto de me sentir dono da razão, nem de admirar os que se portam assim.

Não gosto de fundamentalismos de nenhuma ordem. Aliás, o fundamentalismo não é monopólio de nenhum estrato da sociedade.

O simplismo tenta, mas não dá conta da complexidade da nossa existência. E quanto mais insistimos nele, mais regredimos. Da tolerância voltamos ao ódio; do debate, à guerra; da troca de ideias, aos grunhidos e xingamentos.

E tome expectativas frustradas. "Ué, mas me disseram que funcionava assim. O buraco é mais embaixo, então?".

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Raul Seixas constatou o óbvio em forma de música: que não somos minerais, robôs ou animais pra sermos imutáveis, sólidos. A teimosia é sempre irritante, seja qual for o assunto.

Ainda mais se for simplista.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Certamente

Imagem: Jonathan Mak

A morte de Steve Jobs me fez conhecer mais sobre o cara do que em vida. Não é um fenômeno raro, já deve ter acontecido com você. É que só há pouco tempo tenho adentrado com mais afinco e interesse o mundo das tecnologias de comunicação. Aí, ler essa entrevista do hômi (de 1986!) e ver o que o cara fez depois é de cair o queixo.

Quando a notícia da morte foi anunciada por um colega da pós-graduação, a reação de todos foi de um "ah... que pena". Não havia tanta surpresa, já que Jobs sofria de um câncer tão terminal que o fez abrir mão do comando da Apple. Mas era aquilo, todo mundo queria que ele continuasse com suas ideias transformando o nosso mundo e as nossas vidas. (Não me julgue exagerado, se você usa um computador e um celular, deve tributos ao cara).

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Indignados: ainda falta


Mundo árabe, Espanha, Chile, Wall Street. São diversas as mobilizações coletivas insatisfeitas com a ordem atual das coisas. Movidos pela juventude e com o suporte da tecnologia móvel e das redes sociais, reúnem-se, gritam, perseveram. Um louvável esforço de quem ainda é rotulado como uma geração alienada ou coisa do tipo.

O que fico pensando ao acompanhar todos esses movimentos é qual deve ser o próximo passo. Ok, conseguimos nos organizar para protestar e sermos ouvidos. Sabemos contra o que nos insurgir. Mas para além da contestação, alguém dessa multidão está pensando na alternativa futura a esse estado de coisas?

domingo, 7 de agosto de 2011

Aulas ao relento

Inspirados nos bombeiros, professores tentam acuar o Governo do Estado do Rio

Um senhor, com os olhos machucados pelo spray de pimenta, era amparado por um rapaz. Ambos estavam no andar da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, aonde chegaram sem planejar. Após caminhar da Rua Primeiro de Março até a Rua da Ajuda, a única coisa que ouviam era o silêncio. A indiferença, que pode ser mais cortante do que o próprio ódio, foi o combustível para ficarem ali. “Foi tudo espontâneo. Quando percebi, estava amparando um professor que me deu aula no ensino médio.”

Marcio Freire era o rapaz. De camisa amarela e calça jeans, cabelo baixo e um olhar cansado, ele explica com paciência porque os professores da rede estadual estão acampados no coração do Centro do Rio. A poucos passos de grandes empresas como Vale, Petrobras e Itaú, da Assembléia Legislativa do Estado (Alerj) e do principal Fórum da capital, experimentam a vida de moradores de rua: dormem na calçada e são ignorados pelos transeuntes.

domingo, 26 de junho de 2011

Tempo, essa ilusão

Lendo "Dez dias que abalaram o mundo", o relato de John Reed sobre a Revolução Russa de 1917, conhecida como "Revolução de Outubro". Mas por que esse nome se na Rússia tudo aconteceu em novembro? Porque eles seguiam o calendário juliano, criado pelo imperador de mesmo nome. Enquanto no resto do mundo era  finzinho de outubro, lá já era novembro.

Até por isso o natal ortodoxo, da vertente do cristianismo que nasceu na Rússia, é comemorado no começo de janeiro. Mas depois da tomada do poder pelos bolcheviques, como o país ia se relacionar com os demais naquele descompasso temporal? Numa canetada, Lênin resolveu: voltemos duas semanas e cá estamos nós, camaradas, no mesmo ritmo do mundo. De um dia pro outro, fevereiro de 1918 passou a ser janeiro e estamos revolucionados.

O terceiro sábado de fevereiro é dia de acabar o horário de verão em boa parte do Brasil - que sempre começa no terceiro sábado de outubro do ano anterior. Orientações para o fim: atrasar o relógio em uma hora. Num apertar de botões, ganhamos de volta a hora de sono que perdemos três meses atrás.

O que é o tempo, hein, gente? Nada. Absolutamente nada. Ou melhor: uma unidade de medida criada para nos escravizar. No máximo.

Já faz dois anos que não consigo encarar o reveillon como a maioria das pessoas. Pra mim, é apenas um dia após o outro. Com a diferença que, a partir dali, tenho que prestar atenção na hora de passar um cheque. Se numa canetada ou num apertar de botões tudo muda, que grande magia ou mistério está no tempo, afinal? Resoluções de ano novo perderam o sentido.

Se eu tivesse que fazer uma classificação, no máximo elencaria "períodos letivos". Do momento que procurava apartamento até encontrar, foi um período; do começo da faculdade até o término, outro.  O fato de alguns (ou nem um) anos, meses, dias terem se passado seria mero detalhe. Que diferença essa divisão fez nas minhas sensações?

Ah, faz pro mal. Estou velho demais, já passei da idade, o tempo está passando e eu tô fazendo o quê? O caixa eletrônico é rápido como nunca houve, mas dez segundos na fila são tortura chinesa até conseguir sacar meus dez reais.

Não tenho o hábito de usar relógio de pulso, e hoje esqueci meu celular em casa. Na hora do almoço, resolvi vários problemas, e tive que pedir almoço pra viagem. Uma fila imensa na lanchonete. Porém, nenhum relógio à mão. Poderia perguntar a algum desconhecido "que horas são?", mas pra quê? Pra ficar ansioso, revoltado, inquieto?

O tempo é o senhor da angústia.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Está ao nosso alcance

- Adoro eleitores desinformados e apáticos...
É comum recebermos por email algum texto demonstrando os abusos que a classe política faz com o dinheiro de nossos impostos. Seja a corrupção impura e simples, os cabides de emprego, as ausências em plenário, o desperdício de verbas. A nós, muitas vezes só resta rosnar e lamentar.

Também ficamos incomodados quando "a mídia" não fala de determinados assuntos, devido aos mais diversos conflitos de interesse, facilitando o trabalho daqueles que preferem um cidadão ignorante, alienado e desinformado sobre as reais motivações de suas carreiras políticas.

Eu gostaria de lhe dizer que estamos a um clique de sair desse lugar de ignorância e de poder decifrar as reais intenções de nossos eleitos, a fim de cobrá-los melhor (ou não cair mais no discurso de alguns): é o site da Transparência Brasil.

Sabe o que você encontra lá? Muita coisa útil que os (maus) políticos não querem que você saiba.

Na seção Excelências, você acompanha o desempenho dos parlamentares: quem falta mais, para quais campanhas eles fizeram doações, quem é citado na Justiça ou no Tribunal de Contas, qual a origem de cada um deles, quem é concessionário de rádio e TV ou dono de escola. Enfim, ali vemos como se dá o conflito de interesses de cada parlamentar na hora dos temas a serem votados, e se estão honrando o mandato presencialmente.

A seção Deu no Jornal é um apanhado de tudo o que saiu em jornais do país sobre os parlamentares, principalmente as acusações que sofreram por desvios de conduta, tanto no mandato como na vida particular.

A seção Às Claras é crucial para desmascararmos os maus políticos: ali está, com todas as letras e valores, as doações que os eleitos receberam para suas campanhas eleitorais. Dá pra saber quem doou quanto e para qual candidato, sendo o doador empresa ou pessoa física. E entender se o eleito "deve favores" a seus financiadores, em vez de servir à população.

(Quer um exemplo? No Rio de Janeiro que sofre com a especulação imobiliária , o governador Sergio Cabral recebeu cerca de R$ 6 milhões de empreiteiras, construtoras e imobiliárias. Sem contar outras empresas que prestam serviços para esse ramo industrial.)

Se você quiser, na seção Meritíssimos ainda é possível acompanhar o ritmo de trabalho dos ministros do STF, cujas decisões afetam a vida política e nossa cidadania plena (vide o desenrolar da lei da Ficha Limpa, do Mensalão etc).

O site ainda possui uma ferramenta em que, a partir de um projeto de lei específico, você pode enviar uma mensagem a todos os deputados de determinado estado, de uma vez só.

Está tudo lá, para que não sejamos mais enganados pela propaganda eleitoral ou pelo silêncio dos que deviam fiscalizar os mandatos. Com o site www.transparencia.org.br, tudo é acessível a apenas um clique.

Munidos dessas informações, temos mais fundamentos para escrever ou ligar para aqueles em quem votamos e fazer uma cobrança contínua, para que não pensem que são intocáveis. Eles morrem de medo se dissermos que não votaremos mais neles na próxima eleição. Vá no site da Câmara ou do Senado, ou da Assembleia Legislativa de seu estado, da Câmara de Vereadores de sua cidade, e pegue o contato deles.

Ah, e muitos parlamentares já estão no Twitter também. Até de alguns cargos executivos, como o prefeito do Rio, Eduardo Paes (@eduardopaes_).

A hora é essa: informe-se, cobre, chantageie com a perda do voto, canalize sua revolta e indignação para a pessoa e o lugar certo. É assim que vamos construir um Brasil melhor e mais decente.

- Transparência???
- Céus!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Life goes on!


Agora que foi confirmado o show de Paul McCartney no Rio, resolvi contar como foi minha experiência na apresentação de São Paulo, no ano passado. Até então, tinha esperado 20 anos por esse momento.

Explico: em 1990 minha mãe trabalhava na Prefeitura, como assessora de uma secretaria. Quando Paul veio ao Maracanã, ela ganhou ingressos para o show. Eu, que cursava a quarta série do primário e tinha 10 anos, já gostava dos Beatles.

Se outras crianças pediam brinquedos de aniversário ou de Natal, daquela vez pedi pra ir ao show com ela. Três anos antes, passamos um literal aperto ao ver a chegada de Papai Noel no Maraca. E preocupação de mãe às vezes é grande demais: com receio de me levar na muvuca (foram mais de 184 mil espectadores), ela me deixou em casa rangendo os dentes e foi ver seu ídolo da juventude - embora ela preferisse o George.

O episódio virou um folclore na família. Enquanto meu gosto pelos Beatles só aumentava e se refinava, as brincadeiras de que minha mãe tinha me causado um trauma (e que eu nunca a havia perdoado) possuíam um pequeno fundo de verdade. Ela também teria ficado traumatizada posteriormente, cheia de remorso.

No entanto, o tempo passou, hoje sustento minha casa com o suor do meu rosto, sou dimaior e... Paul McCartney resolveu estender sua turnê ao Brasil! Não conseguia acreditar, já que sempre houve boatos de sua vinda, nunca confirmados.

Lá fui eu pra São Paulo, com ingressos comprados pra pista (a maior muvuca, mãe!), sabendo que não haveria nenhum remorso futuro. Só mesmo Paul McCartney para me fazer enfrentar a fila gigantesca no entorno do Morumbi, ficar um total de cinco horas em pé para depois voltar de madrugada ao Rio.

E valeu muito a pena. Grandes sucessos dos Fab Four, do Wings e da carreira solo de Paul, ótima banda, um sonho realizado. Já posso dizer a meus filhos que vi os Beatles ao vivo!

Fico me perguntando se teria ido ao show de 2010 caso tivesse comparecido em 1990. Provavelmente sim, não dá pra comparar as fases de minha vida, com suas correspondentes vivências de Beatles.

Porém de certa forma a negativa materna só acentuou minha disposição em ver Paul McCartney ao vivo de qualquer jeito. E o que é melhor: Macca afirmou que foi o show mais inesquecível do ano, e um dos melhores de sua carreira. E eu estava lá!

A prova de que o perdão não tem nenhum fundo de mentira: adorei gravar, com minha câmera, Paul cantando a música dos Beatles preferida de minha mãe: "Yesterday". E é a primeira canção deles que conheci, provavelmente graças a mamãe.

Ou seja, apesar do show de 1990, o gosto pelos Beatles pode ser creditado a um milagre feito pela santa de casa. É paradoxal: eu teria ficado tão revoltado com minha mãe se ela própria não gostasse dos Fab Four desde antes de eu nascer?

Na ironia que põe fim a qualquer trauma, agora podemos dizer juntos: EU FUI!

sábado, 19 de março de 2011

Vendi minha alma ao diabinho bilionário



Aqui no Brasil essa onda de redes sociais começou com o Orkut, nem lembro mais quando. Sei que estava na faculdade e um amigo começou a me vender o peixe, ainda sem saber direito como defini-lo, mas deveras empolgado.

Como a curiosidade é a mãe de todas as roubadas, lá fui eu checar que troço era aquele. Mas gostei. Legal retomar o contato com antigos amigos, ou descobrir por meio das comunidades que tinha a mesma opinião que você sobre determinados assuntos.

O Orkut foi evoluindo, ficou mais fácil de mexer. Criei vários álbuns de fotos,  compartilhei com todos os meus amigos virtuais (destes, os amigos mesmo eram poucos), deixei recados e comentei/me diverti nas comunidades.

Aí foram surgindo redes sociais de tudo que é jeito, pra tudo que é utilidade. Nunca embarquei muito. O tempo gasto para administrar cada conta ficava cada vez maior, drama que já vivia no email.

Até que entrei no Facebook, com muito mais usabilidade e navegabilidade do que o Orkut. E com função diferente do Twitter, outra rede social da qual ainda faço parte. Mas cerrei fileiras em torno de um objetivo: só adicionar amigos mesmo, e restringir minha privacidade apenas a quem interessava.


"É que Narciso acha feio o que não é espelho"

Porém, ah porém... Fui ler o artigo "Quero ficar na geração 1.0", de Zadie Smith, contemporânea de Mark Zuckerberg em Harvard. Também já havia assistido "A rede social", que conta a história do Facebook expondo o caráter dúbio de seu criador.

O artigo faz provocações nada polemistas, mas que me fizeram pensar sobre a necessidade de estar tão "antenado" nas redes sociais, como dita a moda da vez. Estamos mesmo estabelecendo conexões com as pessoas? Afinal, o Facebook virou um banco de dados recebidos gratuitamente e vendidos a peso de ouro para anunciantes. Que nos conhecem muito bem, pois botamos nossa vida e nossas opiniões na rede, publicamente.

Levei uma bofetada do artigo quando ele expõe o quão narcisistas somos, e como a decisão de nos expormos em redes sociais comprova isso. Tudo o que sempre quisemos manter reservados ao nosso círculo social agora fazemos questão de dizer ao mundo todo, incluindo desconhecidos. Por que sou tão importante para os outros?

Sem contar o fato que nossas conexões reais podem tender a ficar como as virtuais: superficiais, no senso comum, querendo contato com quem nos elogia, recrudescendo o ódio a quem discorda de nós.

Ainda tem o aspecto do Facebook, conforme bem descrito por Zadie, ser à imagem e semelhança do nerd que o criou. Por que tenho que me adequar a um formato desses, que nada tem a ver comigo? Qual é a utilidade, o propósito?


Emboscada

A autora confessa a dificuldade que foi, diante de reflexões como essa, sair do Facebook. Parece algo intrinsecamente inquestionável: sair de uma rede social. Senti o mesmo quando resolvi me desconectar de lá, após concluir que não fazia mais sentido pra mim.

Encerrei minha conta. Logo em seguida, loguei de novo para checar. Abriu novamente a minha página, tal como era, com a mensagem institucional "Que bom que você voltou!". Minhas fotos, minhas mensagens, tudo ainda estava lá. O Facebook tomou posse de parte da minha vida (o que deveria estar escrito naqueles Termos de Aceite que clicamos logo e nunca lemos).

Ali senti que vendi minha alma. Provavelmente deve acontecer o mesmo no Orkut, onde ainda estou. Perdi minha liberdade de escolha. Uma vez dentro, é lá que você estará sempre, mesmo se dizendo desconectado.

Tudo isso é opressivo demais, orwelliano demais. E dizer "não" ao mundo maravilhoso das redes sociais deve soar antiquado demais, retrógrado demais. Acho que no momento é um rótulo que me conforta.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Qualquer semelhança...

31 de janeiro de 2003:


18 de março de 2011:


terça-feira, 15 de março de 2011

E disse Deus

Diante de mais um desastre natural, dessa vez no Japão, surge o sentimento de choque com as consequências para a raça humana. Quase que simultaneamente, a pergunta (que, dependendo da crença pessoal de cada um, pode vir em tom acusatório ou desolado): por que Deus permitiu isso?

Bom, a natureza e seus fenômenos estão aí desde sempre. Dinossauros podem ter sido extintos por um deles, a cidade de Pompéia sumiu debaixo da lava de um vulcão, terremotos, tornados, tsunamis não são mais acontecimentos inéditos.

Como bem definido por um amigo meu, só é catastrófe porque nós, humanos, estamos no meio do caminho. O problema - como apontado pelo jornal Extra - é que ainda temos a ilusão de controle.

Dessa vez a tragédia não aconteceu numa periferia do mundo, como Tailândia ou Bangladesh. Foi numa das maiores potências. Famosa, vejam só, pela capacidade de criar tudo que é tecnologia que ajude o homem a pensar que está no comando. Por que Deus é tão irônico?

Os que creem nesse Deus aproveitam a oportunidade para tripudiar dos céticos materialistas.

Os céticos materialistas aproveitam a oportunidade para constranger os que creem nesse Deus que permite tudo isso.

Tô fora de ambas as correntes, mas concordo com o Extra.

Uma tragédia dessas proporções não nos apequena, apenas nos devolve à nossa real condição. Um tsunami é uma auto-análise forçada, porém necessária. Quebra o encanto.

Um desastre nacional, com repercussão mundial, mostra que diante da natureza (ou de Deus?) não há classe social, acúmulo de riquezas, VIPs,  segurança total e absoluta.

Somos absurdamente iguais uns aos outros. Uma só raça, a humana. A frágil e marrenta raça humana.

segunda-feira, 14 de março de 2011

RJTV, acertos e erros (*)

Já faz algum tempo que o RJTV, noticiário local da Globo para o Rio de Janeiro, vem mudando seu formato. Começou como o clássico telejornal, com o apresentador lendo as notícias tendo ao fundo um cenário estático. Depois passou para uma bancada, com links ao vivo e entrevistas no estúdio. Agora conta com linguagem e ambientes informais, além de comentaristas fixos sobre assuntos da cobertura.

O perfil do jornal mudou quando Márcio Gomes e Ana Paula Araújo assumiram a bancada. Além do anúncio das notícias, o telespectador presenciava links ao vivo entre cidadãos apresentando suas queixas e as autoridades responsáveis. Ou com os apresentadores inquirindo os governantes (dentro dos limites do oligopólio midiático brasileiro), sem edição. A prática, ainda que em menor escala, ainda acontece hoje, às vezes com a autoridade no próprio estúdio.

Foi nessa época também que o RJTV diversificou sua audiência: na tela da Globo, lugares além da Zona Sul (e até da Baixada Fluminense) começaram a ter seus problemas relatados. O jornal desenvolvia uma importante característica que ainda não abandonou: prestar serviço público por meio das denúncias da falta de serviços públicos.

Tal prática mostra-se útil tanto para os cidadãos como para os repórteres, que em sua ampla maioria são oriundos da classe média. Isto é, provavelmente nunca pisaram em lugares como Queimados ou Austin, tampouco tiveram contato com pessoas que vivem à margem do espectro de consumo que define nossa cidadania atual. A sensibilidade do jornalista é, no mínimo, estimulada para além do seu mundo.

Qual o valor informativo?
A prática que sintetiza o maior mérito do RJTV, desde sua mudança de perfil, é quando a reportagem está no local da denúncia, relatando o problema lado a lado com os moradores e a autoridade. Esta, por sua vez, é instada a dizer, ao vivo, qual o prazo para resolver o problema. O repórter marca a data futura num calendário (que também fica com os moradores) e se compromete a voltar ao local para ver se a promessa foi cumprida. E volta.Num tempo em que o jornalismo declaratório e de "encher prateleiras" de notícias não acompanha o desenrolar das denúncias, a prática acima citada do RJTV merece ser elogiada.

O formato atual, mais informal, é fruto de uma perda de audiência para outra atração de mesmo horário, o popularesco programa de Wagner Montes. O jeito "mais à vontade" de apresentadores e entrevistados, dispensando até mesmo a bancada, aproxima o jornal dos telespectadores.

Mas é aí também que reside o risco do sensacionalismo, no qual o RJTV vem caindo ultimamente. Quando um acidente entre um carro e uma moto na Avenida Brasil matou algumas pessoas, no dia seguinte (!!!) estavam no estúdio os pais das respectivas vítimas. Não faltou sequer a pergunta terrível, porém previsível: "Como o senhor está se sentindo?" Em seguida às óbvias lamentações, o choro compulsivo ao vivo, Ana Paula Araújo põe a mão no braço do entrevistado, diz "Nós entendemos" e passa ao pai da segunda vítima, para que este também dê seu depoimento. Qual o valor informativo disso? Já o de captar audiência...

Sensacionalismo é mais fácil e tentador
O mesmo vale para o cruel episódio da menina Lavínia, aparentemente assassinada pela amante de seu pai em Duque de Caxias. Como era de se esperar, nos tabloides está a imensa foto com o rosto da suspeita (embora, como sempre, tratada como culpada e condenada), com os usuais tratamentos de "monstro" e "fera" da Baixada e os detalhes das horas finais da criança.

Porém, o RJTV de 03/03/2011, em toda a sua potência audiovisual, reproduziu a mesma lógica. O único assunto da edição, praticamente, foi a morte de Lavínia. As imagens da acusada chegando à delegacia e aguardando para depor eram repetidas, até em câmera lenta, para ilustrar os comentários de Rodrigo Pimentel. O velório de Lavínia foi acompanhado pela reportagem. A diretora da escola onde a menina estudava, assim como a professora da turma, foram entrevistadas. Uma vez mais: qual o valor informativo?

Os editores do RJTV deveriam fazer o exercício a que este Observatório está acostumado: analisar seu trabalho e pensar se o caminho é mesmo esse. O RJTV é o noticiário com mais chances de fazer um bom jornalismo continuado, com olhares diversificados, mesmo dentro das Organizações Globo. Sua história recente comprova isso, inclusive com garantia de audiência. Faz jornalismo popular respeitando os populares.

O sensacionalismo sempre será um caminho mais fácil e tentador. Mas nunca vai contribuir para a prestação de serviço público ou para a construção da cidadania. É uma questão de escolha para Ana Paula Araújo e companhia.

(*) Texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa

terça-feira, 1 de março de 2011

Shakespeare tem razão



Estou cansado da marcação cerrada em cima do deputado federal e palhaço Tiririca. Ótimas capas de jornal são feitas, a revolta popular é requentada, mas acredito que somos palhaços (no mau sentido) por outros motivos.

O bode expiatório é conveniente, sempre foi, e agora não está sendo diferente. Bater no lado mais fraco idem. Ou seja, culpemos (e malhemos) Tiririca e seus eleitores a torto e a direito, esquecendo-nos (?) dos reais orquestradores de todo esse novo circo.

Que tal falarmos do sistema de votação, que permite a um candidato eleger outros tantos, mesmo que tenham conseguido míseros votos? É justo isso, esse tal de quociente eleitoral? Se um cara não consegue votos nem pra vereador por quem o quis, por que meu voto em outro deve arregimentá-lo a um mandato contra a minha vontade? Tiririca, com seu milhão de votos, levou mais quatro do Partido da República (PR).

A reforma política é entoada por tudo que é postulante ao cargo de presidente e de parlamentar. Está na pauta da reforma a questão do quociente eleitoral?

Isso nos leva a outra questão: por que o PR aceitou Tiririca como candidato? Obviamente, pensando no quociente eleitoral e em ter mais um joguete nada questionador nas votações do Congresso. Se o palhaço conseguiu ser eleito, precisou de uma legenda para isso. Qual o programa que rege os ideais do PR? Seus candidatos identificam-se com ele para se filiarem?

Agora perseguem Tiririca porque ele vai participar da Comissão de Educação e Cultura. Sendo artista de circo, imagino que vá lutar pelos interesses da classe. Logo, tem que participar da Comissão que trata do tema. Logo, Comissão de Educação e Cultura. Ele não está lá pela Educação, embora esse seja o gancho tentador de todos os jornais.

Por que não aplicar a mesma revolta com outros parlamentares? Vamos olhar a Comissão de Constituição e Justiça: há deputados com (no mínimo) ficha limpa para legislar sobre a questão? Nas discussões sobre concessão de rádio e TV, que não podem ser destinadas a parlamentares:  estão legislando em causa própria? Podem fazer isso?

Na fiscalização dos gastos com a Copa 2014: vão ser benevolentes com os desmandos da falta de licitação, da chantagem dos doadores de suas milionárias campanhas a parlamentares, como as todo-poderosas empreiteiras?

Se nada disso acontece, se estamos gastando a nossa indignação com um palhaço semi-analfabeto que vai ser só mais um, e não com os manda-chuvas que se perpetuam no poder espertamente... Então Shakespeare tem razão: "há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia". Ou a nossa vã (e conveniente) ingenuidade.

sábado, 4 de dezembro de 2010

A praia é pública, não é privada



A dona do nosso lazer

Esse foi o mote de uma campanha de educação dos banhistas que aconteceu há algum tempo no Rio de Janeiro. O cartaz contava com a imagem de um vaso sanitário recebendo o lixo que é jogado nas areias e no mar.

O slogan é um chiste preciso e abrangente: mostra que não podemos esquecer que a praia é um bem público, e por isso não podemos tratá-la como se fôssemos os únicos a usá-la depois que formos embora.

Infelizmente, o slogan permanece atual. Só que, além da atitude dos banhistas, ele diz respeito à mentalidade do poder público, da qual a gestão do Prefeito do Rio é apenas um dos expoentes. Tal situação também é um exemplo de como a lógica privatizante pode ser um tiro no pé da população - ao contrário do que e propagado por seus defensores.

Quem frequenta as praias do Rio sabe a importância dos postos de salvamento. Tanto para seu objetivo principal, com os guarda-vidas sempre a postos, como para o conforto dos banhistas. Ali também há banheiros e chuveiros.

Enquanto a Comlurb (companhia de limpeza urbana da Prefeitura) administrava os postos, ficavam sempre dois garis em cada posto. Regulavam a entrada dos usuários para não haver superlotação. Faziam todos passar pela catraca, permitindo que a administração saiba quantas pessoas usaram, facilitando até na fiscalização contábil (custa R$ 1,00 para usar o posto).

Os garis também só abriam os chuveiros quando as pessoas se posicionavam para tomar banho. Fechavam quando elas terminavam, evitando o desperdício e a falta d'água. E, seguindo o ofício, sempre mantinham o posto limpo, mesmo durante os dias movimentados.

Pois enquanto o choque de ordem fazia barulho pela cidade, a Prefeitura privatizou a administração dos postos da orla sem nenhum alarde. A empresa Orla Rio, que já tem a concessão dos quiosques, recebeu a dos postos, do Leme ao Pontal.

E o que se vê agora? Postos com água acabando antes do fim da tarde, por exemplo. O que dá pra entender quando você consegue usar um: não há mais nenhum cuidado. A pessoa designada pela Orla Rio apenas recebe o dinheiro. Todos vão entrando, com todos os chuveiros abertos ininterruptamente. Sem regulação e sem catraca, é um povaréu no cada-um-por-si dentro do posto.

Sem contar a sujeira. Nem sequer um rodo é passado no chão, ou a areia varrida. Quem quiser usar o chuveiro, tem que se aventurar na água suja antes de tirar a areia do corpo.

E aí eu te pergunto: por que privatizar, se o serviço era bem feito pela prefeitura? Qual a lógica de piorar um bom serviço no cartão-postal da cidade? Sem contar que a Orla Rio, quando teve o contrato prorrogado, tinha uma dívida de R$ 1,5 milhão com a Prefeitura (*). Como uma empresa inadimplente pode ser apta para ganhar uma licitação do próprio credor?

A orla carioca é um patrimônio ecológico e cultural da cidade. É claro que o Rio de Janeiro não se resume às suas praias, todas na Zona Sul. Mas esse pequeno exemplo dos postos de salvamento mostra como pensa nosso prefeito. E o silêncio (ou assentimento) em torno do assunto mostra como a imprensa e boa parte da população estão anestesiadas quando o assunto é o interesse público.

(*) - Conforme reportagem da Veja Rio

As aparências não enganam

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Rio de Janeiro continua sendo



O medo dos cariocas é legítimo. Mas o que eu me pergunto desde o início dos ataques dos bandidos à cidade é: o que fazer a partir disso? Porque apesar de tudo, nossa vida não pode parar. E acabamos agindo sem pensar no que estamos fazendo, o que só potencializa a imobilidade pelo medo.

Diante dos atos de violência, as empresas estão liberando seus funcionários mais cedo. Qual a lógica disso, se os ataques aconteceram em diferentes horários do dia? Qual a garantia que não vão acontecer antes das seis da tarde? Ou mesmo às nove da noite?

A polícia recomenda que a população fique em casa nessa noite, por segurança. E o pessoal que mora em frente aos carros e ônibus estacionados que foram incendiados? Eles ficaram em casa durante o dia e não escaparam do ruído da explosão e da possibilidade de estilhaços em seus apartamentos.

Os fatos já são ruins por si só. Mas a reverberação deles, graças ao desenvolvimento e à mobilidade das tecnologias de comunicação, torna o medo onipresente. Até quem não passou por momentos de terror sente-se invadido pela sensação de segurança ao ver, ouvir, rever e "reouvir" os relatos.

Mesmo que não queira. Fui almoçar, lá estava a TV ligada mostrando tudo ao vivo. Minha esposa voltava da faculdade e teve que ouvir as TVs via celular (em tempo real) das pessoas ao lado. Abrir a primeira página dos portais de notícias é ver o "show" de imagens e transmissões em tempo real.

O que me lembra um artigo do amigo Rômulo Dias, jornalista e historiador, em que ele defende a tese de que o mundo nunca foi tão pacífico. Após relatar as guerras em outras épocas, e analisando o protagonismo da imprensa nos momentos de pânico coletivo, ele argumenta:

"Hoje, a escassez do modelo clássico de guerra faz com que não tenhamos as mesmas perdas humanas que tivemos no passado. Contudo, a sociedade em que vivemos sente-se mais insegura que aquela de outrora. A ameaça terrorista nos traz a perspectiva do perigo a qualquer tempo e em qualquer lugar. Civis ou militares, todos podemos pagar pelo mundo desigual e intolerante em que vivemos.

A lógica do terrorismo dialoga diretamente com uma proposta desestabilizadora. O terrorismo é inofensivo se não consegue gerar um sentimento permanente de pânico. Um ataque mata 15, 20, pessoas. No entanto, não é a potência do ataque que importa, mas a impossibilidade de saber onde e quando o mesmo irá acontecer.

A imprensa contemporânea é, dessa forma, um ator fundamental no sentido de colaborar com a atividade terrorista, esteja o terrorismo relacionado ao tráfico de drogas ou aos ataques orquestrados pela Al Quaeda. Queiramos ou não, a informação sempre chega às nossas casas nos dias de hoje. Os meios de comunicação nos obrigam a ter medo, mesmo que a morte seja improvável. Talvez, contraditoriamente, este mundo em que vivemos seja de uma paz sem precedentes."

Diante desse aspecto, em conversa posterior à publicação do artigo, ele defendeu que a imprensa não deveria fazer a cobertura dos ataques terroristas. Na sociedade do espetáculo tão bem prevista por Guy Dèbord, a realidade é vivida e sentida quando se revela na mídia. "O que os olhos não veem, o coração não sente".

E se o primeiro ataque não tivesse aparecido na TV? Se fosse solenemente ignorado por todas as emissoras e veículos de comunicação? Será que estaríamos tão aterrorizados? Provavelmente não.

Mas no mundo do fetiche da velocidade, expresso no jornalismo em tempo real (conceito definido pela professora Sylvia Moretzsohn), a notícia virou mercadoria. As prateleiras dos meios de comunicação não podem ficar vazias. Mesmo que seja pra termos ciência de informações importantíssimas para o destino da nação, como o fato de Claudia Leitte planejar ter quatro filhos.

Voltando ao ponto de partida: o que nós, cariocas, devemos fazer a partir desse medo institucionalizado? Primeiro, manter-se informado na medida da sanidade. Se você sabe que está ocorrendo um tiroteio em determinada avenida por onde você passaria, não passe. Aí sim, dê um tempo.

Mas se não há nada acontecendo, vá em frente. Não faça uma auto-prisão. Não podemos aceitar que o Rio de Janeiro seja uma cidade violenta e que estaremos sempre à espera do próximo pseudo-estado de sítio. O Rio de Janeiro continua lindo, o Rio de Janeiro continua sendo. Nossas vidas continuam, apesar da sensação de impotência.

Ou você vai começar a faltar ao trabalho? Vai deixar de sair com os amigos? Vai blindar a sua casa e pedir comida a domicílio? Não, ninguém vai fazer isso. Portanto, dá pra ter coragem quando a gente percebe os exageros das Cassandras.

E mais importante: cobrar de quem se deve. Critico Sergio Cabral e Duda Paes por suas decisões políticas, mas não serei idiota de negar os benefícios das UPPs. E que todo trabalho precisa começar por algum lugar, nem que sejam os trajetos de Copa e Olimpíadas.

Mas as perguntas que já estão no ar faz tempo são: e o resto das comunidades? E os bandidos que fugiram das UPPs? Que a Vila Cruzeiro, em pleno Complexo do Alemão, estava sendo o refúgio deles, até o carioca mais desligado já sabia. Que era uma questão de tempo que aquilo explodisse, idem.

A realidade é complexa, eu sei. Além disso, os aparatos do Estado não são suficientes (alô, alô, neoliberais: aquele abraço!). Mas os cidadãos cariocas precisam cobrar permanentemente de quem se dispôs a assumir o compromisso de ser uma autoridade pública. E para toda a cidade, não apenas para os de IPTU altíssimo.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Muito cedo, muito cedo




É preciso coragem para assistir ao documentário "Senna", que estreou nos cinemas sexta-feira passada. O filme mostra o herói sem esconder a faceta humana errática e vulnerável. E não só pelo final que todos nós conhecemos.

A relação de Senna com o Brasil era a de um imaginário que se tornava real a cada domingo, encarnado no cockpit de um carro de Fórmula 1. Em meio à "década perdida" na economia do país, lá estava o Brasil em primeiro lugar, ultrapassando as demais potências sem baixar a cabeça pra ninguém. E sem a arrogância de um Piquet ou um Schumacher, só o carisma com fome de vitória, de não querer ser sacaneado ou ficar pra trás.

O documentário de Asif Kapadia é de excelente qualidade. A narrativa é muito bem conduzida, há inúmeras imagens inéditas de bastidores e papos ao pé no ouvido nos boxes, além de entrevistas a TVs estrangeiras. A rivalidade com Prost e a guerra contra o sistema - encarnado na figura de Jean-Marie Balestre, presidente da Federação Internacional de Automobilismo - traz Senna para a trincheira dos oprimidos. Dos "Davis" contra o Golias de sempre. Tal um Capitão Nascimento, mas real e acompanhado ao vivo.

É claro que, para a bilheteria, o timing do filme é ótimo. Quem nasceu após a morte de Senna já tem idade para acompanhar F-1, e tem a chance de conhecer o que os mais velhos tanto falam desse Ayrton.

Mas para quem acompanhava o esporte e vibrava a cada Grande Prêmio, 16 anos ainda parece cedo demais. Vimos as imagens daquele fatídico fim de semana milhões de vezes. E cada replay, cada cobertura jornalística do acidente e suas consequências, era uma punhalada em nosso coração. A ferida ainda parece aberta no cinema em 2010.

Devido a essa sensação de que foi ontem que tudo aconteceu, fica difícil curtir a rememoração dos feitos de Senna do kart até a McLaren. Isso porque nos sentimos numa contagem regressiva até o inevitável. Todas as falas e pensamentos do tricampeão soam premonitórias demais, quase assustadoras.

Senna mostra que sabia dos seus limites. A evocação constante de Deus em sua carreira, além de uma confissão de fé pública e sincera, parece sublinhar que ele era humano, demasiada e honestamente humano. O permanente semblante compenetrado do piloto parece dizer à audiência o tempo inteiro: "Por que vocês acham que um campeão de F-1, ídolo mundial, estaria acima dos mortais? Ou seria imortal?".

O documentário atinge seu ápice ao mostrar um Ayrton Senna totalmente em conflito consigo mesmo no último final de semana de sua vida. Racionalmente, ele não queria correr. Mas sabia que devia correr, que sua vida não fazia sentido se ele desistisse. É como se estivesse numa missão para a qual foi predestinado, mesmo que isso envolvesse o sacrifício. A mensagem que ele diz ter recebido de Deus ao ler a Bíblia naquele domingo só confirma essa impressão.

Saí do cinema triste, pois é uma linda história com um final muito triste. E o diretor soube captar isso bem demais. No entanto percebo que o incômodo também existe porque, mesmo sem sermos pilotos de F-1, não sabemos nossa hora de partir. Que garantias temos, qual é o nosso "carro infalível"?

Não tenho outra opção a não ser voltar a Senna. A todo momento, ele olha para o Alto, busca e enxerga Deus, agradece a Ele pelas vitórias, reconhece Sua força e sua finitude. Não é piegas (como muitas matérias da TV aberta sobre o assunto fazem parecer). A 300 km/h, a confiança de Ayrton Senna estava nAquele que tudo pode.

Duvido que Senna tenha ficado "chateado" com Deus por encerrar sua vida aos 34 anos. Enquanto esse dia não chegava, ele dava o seu máximo, fazia o seu melhor, cultivava uma sensibilidade social - taí o Instituto Ayrton Senna pra provar - amou e retribuiu o amor de muitos.

É essa a lição que aprendo até o incógnito dia de minha última curva.

"Não que eu o tenha já recebido, ou tenha obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.

Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam, e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus." (Filipenses, 4:12-14)

"Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível" (I Coríntios 9:25)