domingo, 1 de julho de 2007

Vocês façam-me o favor...

De calar a boca, aqueles que dizem que o futebol hoje é força, preparo físico e "matar a jogada" com faltas. Calem a boca aqueles que dizem que o futebol bonito não traz resultado, ou que o talento não é tão decisivo quanto antigamente. Calem a boca todos vocês que pensam e dizem isso, pois o terceiro gol de Robinho, hoje, contra o Chile, é prova viva de que vocês estão errados.

Robinho, magrelinho daquele jeito, nem chutar forte ele sabe, jogando sozinho - porque ele jogava bem, ao contrário do resto da seleção - fez o que fez, aos 41 minutos do 2º tempo. Pulmão o garoto tem, de correr aquilo tudo, dar um drible "da vaca" num zagueiro, depois um drible curtinho em outro (o famoso "come" das peladas), sempre correndo, ninguém pega, o chute de perna esquerda (ele é destro) e o golaço, golaço, golaço.

Taí a contribuição do preparo físico: ser suporte do talento. O primeiro qualquer um consegue, o segundo é genético. Mas como tudo na vida, o talento pode ser tolhido pelas instâncias de poder (técnicos), pela força bruta (brucutus que só entram em campo pra fazer falta e bater, bater, bater) e rarear. Isso tem acontecido no Brasil desde cedo, e Robinho é jóia rara por ter vencido tudo isso, desde as divisões de base - porque lá o garoto, nos seus 10, 11 anos, já sabe que tem que ter força física, "matar a jogada", perde o aspecto lúdico do futebol. A diversão que quando bem executada, leva o craque à glória máxima: o gol! E com o gol, a vitória, o resultado.

Futebol bonito pode ser futebol de resultado, nessa ordem. Se você discorda, cale a boca depois do gol de Robinho. Cale a boca, meu camarada, depois de Robinho aparecer nessa insossa seleção brasileira de Dunga (que nunca foi craque, nem técnico - com duplo sentido, por favor). Pois o time não faz nada de bom, e ele teve que resolver sozinho. Opa, sozinho não: com talento que ele tem e não abre mão na hora de jogar profissionalmente.

Talento por si só não leva a lugar nenhum? Pois levou a bola no fundo do gol três vezes hoje, mas na terceira ele humilhou você, meu camarada, que acha que jogar sério é destruir jogada, bloquear ataque, vencer por 1x0 ou nos pênaltis e achar que teve um "orgasmo futebolístico". Você não teve nada, meu caro, principalmente porque pensando assim, você nunca fica na expectativa de que Robinho faça o que fez no terceiro gol, e quando acontece, você não sabe desfrutar da delícia que é um golaço, golaço, golaço.

Então façam-me o favor: me esqueçam se forem comentar algo que não seja o terceiro gol de Robinho hoje, ou algo similar. Porque o que é raro porém resistente deve ser celebrado continuamente, em lugar de intermináveis mesas-redondas sobre "nó tático", defesa fechada, recuar pra jogar no contra-ataque. Olha o nome: CONTRA-ataque!!! A gente tem que falar do terceiro gol de Robinho, dos dribles de Robinho, dos golaços de Robinho, do talento puro e simples, genial, diante do deserto de criatividade que se instalou atualmente na seleção brasileira - e até em outras seleções, como se viu na Copa de 2006. Ah, e Robinho ficou no banco nessa Copa. Tá explicado.

Calem a boca.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Os leitores participam

Em resposta ao post anterior (Começando pelo motorista), meu amigo André Aureliano respondeu com um texto jocoso, mencionando até o filho Samuel, recém-nascido. Apreciem:

"Saudoso amigo Marcos. Venho por meio deste emeio para:

1. Comentar o seu blog;

2. Só isso.

Pois bem. Ao receber tão inusitado emeio convidando-me a visitar seu blog, de pronto cliquei no link indicado. Ato contínuo abriu-se magicamente uma outra janela onde pude ler: lessa27. (A propósito, um nome mais simples, apropriado e adequado do que o antigo Lessog. Era interessante, mas esquisito. Prefiro Lessa27. Parabéns pela escolha.) Se fosse escrever uma redação do tipo "minhas férias", eu apontaria como tema principal o fragmento de teu texto que refere-se ao sinal feito com o polegar em riste clamando ao motorista para que lhe permitisse a entrada pronunciando a mui jocosa expressão: "Na moral". Sou grato por me fazer sorrir imaginando a impagável cena. Muito divertida por sinal. O restante do texto foi também muito interessante, mas nada se comparou ao na moral.


Teu texto foi um texto na moral.

P.S. O Samuel vai bem, cresce e mama na moral.

Amplexos constrictos do teu irmão.

André"


OBS: Ao lado, André ninando Samuel... na moral.

terça-feira, 12 de junho de 2007


Começando pelo motorista

Aquela rotina de acordar cedo, atravessar os sinais de sempre e correr, porque o ônibus que te leva ao trabalho está parado no sinal. O polegar pra cima, olhando pro motorista pedindo "na moral" que me deixe entrar. As portas se abrem. Bolas de aniversário amarelas penduradas até chegarmos à roleta.

Uma festa dentro do ônibus, numa terça-feira, às 7h45 da matina? Enquanto tiro meu Riocard do bolso, uma mulher sentada no banco solitário do lado da escada brandia uma faca. No colo, um bolo (com glacê!), já pela metade. Não perguntei nada - que vergonha, jornalista! - mas suspeitei que era aniversário do motorista.

Curioso é que a "festa" (ou a arrumação do ambiente para ela) ia da porta do ônibus à roleta. Ou seja, num curto espaço de 2x2, enquanto os funcionários trabalhavam, dirigindo e cobrando. Depois de pagar a passagem, o coletivo voltava à sua normalidade cotidiana.

Mas não é esse o espírito da celebração? Mesmo sem a pompa, a grana, a multidão de convidados, as finas iguarias - que normalmente são os requisitos chamados de indispensáveis para o "sucesso" de uma festa. E quando os estresses para a preparação da celebração são bem maiores que a oportunidade de se regozijar por algo? A relação custo/benefício não se calcula apenas no bolso, e muitos se esquecem disso.

Como não é bom desprezar as singelas cenas da vida e o significado que elas evocam, guardo pra sempre esse começo de dia. Tá ali o que se precisa pra comemorar um aniversário, uma conquista, um momento que é especial por si só, não pelas aparências ou padrões-prisões que impomos a eles. A trocadora, o motorista e os "convidados" dos bancos anteriores à roleta não tinham sequer o tempo devido, tiveram que comemorar enquanto trabalhavam. Nem isso foi obstáculo.

E se você não pega ônibus pra ir trabalhar, azar o seu.

(OBS: A charge acima é do gênio Henfil.)

quarta-feira, 6 de junho de 2007

sexta-feira, 1 de junho de 2007

40 anos de Sgt. Pepper's

Hoje, 1º de junho, parabéns pra eles e pra nós. Eu nem sabia disso e há dois meses postei esse texto. Antes de Joaquim Ferreira dos Santos e da revista Bizz desse mês!

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Quanto a expectativas e resistência em regimes de opressão

Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?

(Renato Russo)

sexta-feira, 25 de maio de 2007

CÂMARA MUNICIPAL APROVA CPI DO PAN

A Câmara Municipal aprovou na terça-feira (22/05) requerimento, apresentado por Eliomar e assinado por mais 16 vereadores, de instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar indícios de irregularidades nas obras, nos equipamentos e nos contratos firmados pela prefeitura do Rio para os Jogos Pan-Americanos.

Há fatos preocupantes, divulgados pela imprensa e relatados pelo acórdão 282 do Tribunal de Contas da União, que exigem uma investigação: a construção do Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, prevista inicialmente em R$ 166 milhões, já consumiu cerca de R$ 400 milhões, teve mais de 20 aditamentos ao contrato, e ainda não está finalizada; em função do atraso das obras, alguns serviços acabam sendo feitos sem licitação e, portanto, sem um procedimento administrativo adequado que garanta a lisura das operações.

Além disso, as metas estabelecidas na Agenda Social do Pan não foram cumpridas. Por tudo isso, é preciso investigar se houve má administração dos recursos públicos por parte da prefeitura. Caso isso tenha ocorrido, o processo será enviado ao Ministério Público para que sejam tomadas as providências cabíveis. A CPI deverá ser instalada na próxima semana e terá 120 dias para apresentar seu relatório final.

(da newsletter do Mandato Chico Alencar - www.chicoalencar.com.br)

Este blog está acompanhando criticamente o Pan 2007. Vide post anterior.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Uma cena

Os médicos também são capitalistas. De que adianta "sair voado" do trabalho, mais cedo que o normal, se ao chegar ao consultório na hora marcada há cinco pessoas na minha frente, devido ao atraso de consultas anteriores? Acontece que sempre que vou lá é assim, o que me permite a suspeita: quanto mais consultas, melhor. Qualquer atraso, o paciente espera! Absurdo, como muitas das buscas pelo lucro máximo.

Pois eu é que não fico lá esperando. Daqui a uma hora eu volto, e me mando pra Cobal do Humaitá em busca de um crepe e um mate limão.

E vem a cena.

60 e mais anos, camisa pra dentro da calça, barriguinha "aerodinâmica" dos chopinhos em vida. De cabeça erguida, olhos fechados (só se abriram para fixar algum ponto específico, lá no alto), braços abertos como se recebesse uma bênção divina. Ao redor, o estacionamento da Cobal, as pessoas passando e ele, concentrado.

Não demorou e veio o sinal-da-cruz, três vezes, todos terminando com 3 beijos nos dedos que vão à mão, após o Amém.

Então percebi: o ponto específico, lá no alto, era o Cristo Redentor.

Porém, mais do que entender, vi a fé. Se ela pudesse se materializar, seria naquela cena. Cadê o templo? Não havia. E o constrangimento por tal postura em público? Também não existia. Afinal, por que se envergonhar de sua fé?

Ele também não estava ali para dar espetáculo. Terminou seu momento de fé (após uma última e igualmente feliz contemplação do Cristo, ainda com os braços abertos, "em bênção"), e seguiu Cobal adentro.

Do jeito que foi a cena, não arrisco dizer que logo após ele "voltou à vida", como se antes estivesse em transe. Não, ele seguiu o curso normal de seu cotidiano, do qual a fé parece fazer parte significativa. A ponto de ser tão natural um momento daquele em público, como andar devagar ou usar camisa pra dentro da calça.

Vi a fé, pois ela não precisa de um aparato específico para ser exercida, simplesmente é espontânea e sincera. Como naquela cena. Acontece.

Vi a fé, graças ao capitalismo.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Vale mais que mil palavras...

Câmara aprova aumento dos salários na surdina









Tá na cara... de pau.

Na foto, Inocêncio (?????????????) Oliveira, deputado DEMoníaco de Pernambuco

quarta-feira, 9 de maio de 2007

O fim da lingüiça

Parece que é sério. Está em curso uma reforma da língua portuguesa que traria mudanças, a fim de unificar o idioma nos países lusófonos em todo o mundo. Com todas as vantagens que isso pode acarretar (dicionário único, economia devido a uma ortografia apenas), vai soar estranho. Acentos como o circunflexo, o popular "chapeuzinho", podem ser extintos. Palavras como "vôo" virariam "voo", por exemplo. Credo!

Mas nada é mais trágico do que a extinção do trema. Tão simpático, por que ser extinto? Há quem não sinta a menor afeição por ele, e dá graças pela reforma. Mas tem o seu charme. Finalizamos a palavra com todo esforço e pingamos dois pontos flutuantes em cima do U, e c'est fini, feito uma cereja no bolo recém-confeitado. Esteticamente, cumpre o seu papel com fineza.

O trema não faz mal a ninguém. Sua regra não é confusa, e não disputa lugar com outros acentos. É só no U, e acabou. É discreto, simples, fácil de grafar e administrar. Por que a implicância com ele? Pois devia ser aplicado em Portugal, Angola, Macau e demais plagas de lusa fala. Seria uma demonstração diplomática de boa vizinhança. E sem grandes custos: apenas um pouquinho de tinta espetada no papel. Ou melhor, dois pouquinhos.

Não vou mais comer cachorro-quente com lingüiça, escrever com freqüência, ver a seqüência de vitórias do Mengão, ou ler tranqüilamente. Conseqüentemente à reforma, não haverá mais conseqüencias.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Ah, que alegria sofrida...










Pra quem não conseguir ler, diz o texto: "Hoje, milhões de pessoas acordaram achando o Rio ainda mais bonito". Propaganda da Petrobras. Sacada genial, né?

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Jogos perdidos? Que nada!

Essa é pra quem é maluco por futebol ou simplesmente quer acompanhar as campanhas de times que dificilmente estarão na mídia comum. O Tribuna da Bola vai te informar sobre o cotidiano de clubes obscuros ou ex-famosos que sim, existem, e fazem a alegria de alguns poucos torcedores. Criado pelo Claudio Burger e pelo Stefano Salles, que já estão sendo reconhecidos profissionalmente pelo trabalho.

Não é nada, não é nada, mas você pode acompanhar como anda o time do seu bairro que há tempos não desponta no cenário nacional. Pode-se saber, por exemplo, que o Rubro, de Araruama, não vai nada bem, ou que o São Cristóvão perdeu para o Profute (isso mesmo, Profute), mas segue vice-líder. Até o CFZ, time de Zico, aparece na cobertura. Trabalho de primeira sobre a segundona e a terceirona cariocas.

segunda-feira, 30 de abril de 2007


Tabuada!!!!! (*)

Foi com muito orgulho e sensação de "bem-feito!" que li, na primeira página do Globo de hoje que as escolas federais são uma saída para a educação. O orgulho, claro, é por ter sido aluno de uma das escolas citadas - o Colégio Pedro II - por toda a minha vida escolar, do primário ao terceiro ano do 2º grau. O "bem-feito!" é para aqueles tecnocratas economicistas que vêem na privatização a solução ideal e final para a "diabólica" presença do Estado em algo tão essencial para o país como a educação.

A matéria fala do Pedro II, do Colégio de Aplicação da UFRJ e do CEFET como modelos de ensino, aprendizado e valorização do professor, em todo o país. Mais até do que escolas particulares que cobram alto da classe média que desistiu de lutar por um bom ensino público (tinham como pagar, né? Dane-se quem não pode...). Pois vejam: ambas instituições federais, com espírito de serviço público, plano de carreira, boa remuneração, universalidade.

A crítica às políticas públicas de educação de nosso Brasilzim também é feita: os colégios são "ilhas" de excelência, pois não existe além deles uma rede de ensino público com a mesma qualidade.

Portanto, governantes, monetaristas e povinho classe média: é possível fazer ensino público de qualidade, se bem planejado e administrado. O que me dá mais raiva nos neo-liberais não é que eu pense diferente deles - é importante aprendermos a conviver com os contrapontos. Mas é por pensarem que o "mercado" ou "as empresas" sempre são o perfeito caminho para se cuidar de direitos básicos (e que nem sempre significam lucro, ou prejuízo): saúde, educação, moradia, cultura, alimentação... E que o Estado, por si só, é uma "fonte do mal" que deve ser extirpada o mais rápido possível. Isso é um discurso construído desde o começo da década de 90, para as privatizações descerem redondo na goela da nação.

Não vou negar os problemas que um funcionário público acomodado pode causar para o país (é por aí que se bate no Estado também). Mas daí a generalizar e chegar a uma conclusão que se pretende soberana e inquestionável - "vende/terceiriza que é melhor" - é uma grande distância.

Pior do que nos eleitos, é perceber nos eleitores que o espírito público não existe mais, apenas o darwinismo sócio-econômico onde o mais forte (no bolso) sobrevive. "Eu exijo meus direitos, pois pago meus impostos", é o que mais se ouve hoje em dia. Esqueceram, por completo, que direitos humanos básicos precisam ser garantidos ou mediados pelos representantes do povo, que ocupam... o Estado. Voltando ao exemplo dos colégios: o que tem de gente querendo que os filhos voltem pra escola pública, pois tá brabo pagar mensalidade... E vão reclamar com quem, agora? Com o dono da escola, que criou um negócio da educação? Ele tem mais é que praticar o seu capitalismo pra sobreviver.

Um último aspecto que queria ressaltar, existente no bom ensino público - que aprendi ao vivo e a cores, no Colégio Pedro II - é a universalidade. Lá, os alunos usam uniformes e têm contato com pessoas de todas as classes sociais. Também no Globo, também num domingo, um educador francês confirmou o óbvio: se as crianças já crescem em ambientes desiguais (escola particular x escola pública), tal experiência e mentalidade produzida vai se propagar quando crescerem e estiverem em suas respectivas "trincheiras" em meio ao cada vez mais agudo abismo social.

(*) Essa é para alunos e ex-alunos... Pra quem não conhece, vai a cola abaixo (pede pra alguém do CPII entoar o grito de guerra):

Pedro II, tudo ou nada?

TUDO!

Então como é que é?

TABUADA!

3x9, 27! 3x7, 21!

Menos 12, ficam 9

Menos 8, ficam 1

Zumzumzum, paratibum

PEDRO II!!!!!


Pra cobrar do Cabral

Em 4 de janeiro, Sergio Cabral indignou-se com a situação do hospital Albert Schweitzer. Pediu que o Secretário de Saúde elaborasse em 10 dias um plano para sanar os problemas da unidade hospitalar.

Em 27 de abril, Juliana Pereira da Silva, universitária, foi atingida por uma bala perdida e morreu no referido hospital, por falta de recursos.

E aí? Onde está o plano da Secretaria Estadual de Saúde de Sergio Cabral? 4 meses depois, nada parece ter mudado.

Quer cobrar do Cabral? Então lá vai:

Secretaria Estadual de Saúde: clique no envelopinho do cabeçalho (Atendimento ao Cidadão) e mande um e-mail. Ou ligue para o Gabinete do Governador, nos telefones 2553-1030 ou 2553-4573.

Ou espere o Exército chegar pra ver se resolve.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Pluralidade de opiniões

No que uma comissão do Senado aprova a redução da maioridade penal, o pai de uma menina assassinada por um menor discorda. E mais: admite que era a favor da redução só no período após o choque da morte.

Ainda que o texto termine com uma reação diferente por parte do pai, é interessante uma vítima assumir que, no calor do momento, tomaria uma decisão precipitada sobre a redução da maioridade penal.

Ouvi, "Sivucas" de plantão...

PS: aqui você confere um ótimo estudo de caso da cobertura do Globo e a pena de morte, analisando as matérias sobre o assassinato de Liana. Atemporal e universal.
PAN-DEMÔNIO (*)

Você sabia que existe o Comitê Social do Pan? É um grupo de 17 entidades que busca intervir criticamente na gestão do Pan-Americano do Rio de Janeiro. Um alento, já que a maior parte da mídia saúda o Pan como um carro-chefe de futuros lucros pro Rio, mas não coloca em foco os desperdiçadores do dinheiro público. O Pan aumentou em mais de 10 vezes o seu orçamento inicial (de R$ 800 milhões para R$ 3,5 bilhões), e lá se vai grana do Governo Federal para cobrir incompetências de planejamento dos dirigentes esportivos. Em especial, o senhor Carlos Arthur Nuzman, mais um grande aproveitador do filão do esporte brasileiro, tal e qual Ricardo Teixeira.

Algumas das entidades atuam não apenas no Pan, mas de maneira permanente. E é essencial que sejam conhecidas do público, como o Fórum Popular do Orçamento.

(*) Título de artigo do deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), também sobre o Pan-Americano.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Luto

O luto é necessário. A perda traz impacto fulminante, é impossível prosseguir do mesmo jeito no dia seguinte a ela. A imunidade emocional vai lá embaixo, e a metáfora biológica se aplica em todos os aspectos. É preciso convalescência.

Ao mesmo tempo, o luto tem um dado curioso, mesmo em suas expressões mais tradicionais: possui um período. Um dia, mais ou menos de acordo com a dor referente, foram estipulados vários períodos de luto. Luto oficial de três dias, uma semana. Algumas viúvas já ficaram enlutadas por um, três ou sete anos!

Mas é um período determinado. Ou seja, existe a necessidade de se viver o luto, e também a necessidade de que ele termine. E isso algum dia foi programado, pensado, planejado. Precisamos estar cientes, e buscar essa mentalidade: o luto é essencial após as perdas, mas deve terminar. Do contrário, ficamos estagnados. Fim do luto é recomeço da luta.

Não sejamos frios pensando que todo luto tem um período e ponto final. Cada um no seu tempo, mas com a consciência de que ele tem que acabar a tempo da vida seguir.

Pequenos grandes aprendizados do cotidiano.
É o retrato do artista quando mutilado

"A saudade é arrumar o quarto/Do filho que já morreu/
Oh pedaço de mim, oh metade arrancada de mim"

("Pedaço de Mim", Chico Buarque)

Você pode perder um filho sem ter um filho. Não tenho filhos, pretendo ter. Tudo o que sei sobre o assunto vem de leituras, relatos ouvidos ou acompanhamento pessoal de outros pais e seus filhos.

Logo, sei que um filho quase sempre chega na hora certa, mesmo que na hora não pareça. Independente disso, um filho, desde sua concepção, é cercado de expectativas e especulações. Nele os pais projetam muita coisa (isso pode ser ruim, se mal administrado pelos genitores), aguardam e depois observam seu crescimento, desenvolvimento, amadurecimento. Ver um filho formado ou casando não é apenas um sonho classe média. É a coroação viva de uma criação que, com todas as suas limitações, vê naquele garotão ali uma licença para se orgulhar, é o ápice a ser curtido, o fruto depurado e alçando vôo.

Seu filho pode ser um projeto pessoal ou profissional, uma ocasião que conjugaria em suas execuções resultados há muito buscados por você. Que a partir dela você seria potencializado, suas expectativas se renovariam. O "bom" orgulho chegaria te deixando suspirar pelo que você batalhou anteriormente para que aquele momento pudesse ser do jeito sonhado.

Você pode perder um filho numa bala perdida.

Uma bala perdida é tão estúpida quanto os mesquinhos que possuem uma nesga de poder sobre você. E que são extremamente competentes no exercício desse poder e na refinação de sua mesquinharia cruel e míope.

Você pode ser órfão de filho.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Mais uma rasteira da ironia

FHC roubado na Espanha

Ele deve estar se roendo de raiva por que não foi num país de terceiro mundo, e porque nem pode culpar o PT...

quinta-feira, 19 de abril de 2007


O carioca é um ser inteligente?

Nasci no Engenho Novo e me criei em São Cristóvão, após passar um breve período no Rocha. Minha noiva, quando começamos a namorar, morava no Rio Comprido. Congrego numa igreja do Centro da cidade (onde também trabalho), e tenho grandes amigos que moram em Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca. Sou carioca, portanto. Não quero sair desta cidade, com todas as facilidades que um centro urbano possui, mesmo com suas desvantagens.

Como qualquer carioca - seja rico, seja pobre - estou indignado com a violência (de novo, meu Deus!) e seriamente preocupado em me acostumar com episódios bárbaros e tiroteios em praça pública. Mas o pior é que a sensação que tenho é que o carioca está embrutecendo e emburrecendo.

Por que alguém acredita que o Exército vai resolver o problema da violência? Por que essa é sempre a solução tratada como ideal após situações de calamidade pública movidas a bala? Por que temos essa ilusão, ainda mais que as Forças Armadas são do país, e não de um estado exclusivo? E sabendo que eles ficarão temporariamente apenas? Eles não são preparados para o policiamento urbano, e isso não é uma ofensa aos soldados, mas uma constatação de função. Dão, no máximo, uma sensação de segurança.

Eu me pergunto por que o carioca só resolve cobrar uma coisa dos governantes: a presença do Exército. Se acontecer, não será a primeira vez. O que adiantou? Será que cada governador, pra não contrariar um pensamento único do público, encampa esse teatro deliberadamente?

Irmãos cariocas, vamos cobrar permanentemente de nossos representantes políticos um ensino público de qualidade que seja universal, atendendo a todas as classes - e não protestar contra o aumento de mensalidades; moradias decentes para todos - e não a remoção de seres indesejáveis; uma polícia ética - e não um zé mané que nos alivie de mão molhada a irregularidade cometida no trânsito. Enfim, vamos nos indignar contra quem é devido, e pelos motivos devidos, com coerência.

Carioca, seja inteligente, em vez de ajudar a cavar a própria cova social e humanitária. Não se acostume a ser cínico só porque você pode pagar por saúde, educação, segurança e dane-se o resto. Pois como vemos em nosso dia-a-dia, tá tudo interligado. E não vai ser o Exército que vai dar um jeitinho.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Momento curiosidade extrema!

"Esquece tudo. Esquece de tudo. De tudo. Lembra só que eu te amo. Quando eu chegar em casa te ligo, tá? Beijo", disse ele, fechando o flip do celular e se calando, ao meu lado no ônibus. O que aconteceu? Onde? O que se discutiu em relação? Silêncio.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Capturado

Minha noiva não pode ter ciúme dela. Ela não me dá um tempo, está sempre me perseguindo, não larga do meu pé. Eu não posso fazer nada, é involuntário, ela é que não me deixa em paz. Nos lugares que vou, com as pessoas que conheço, tudo com o que me relaciono envolve, um dia, a presença dela. Assim que me distraio ela chega sem cerimônia, nem quer saber se está sendo inconveniente. Pode me arrasar em público, ou tão somente me arrancar um sorriso esperto - e essa imprevisibilidade é terrível. As sensações que ela me causa quando chega são inesquecíveis. Sua lealdade é canina (às vezes, cachorra), seu feeling para me abordar indefeso é impressionante, e eu acabo sucumbindo aos seus encantos. Ela está na minha vida faz tempo, e parece que já me acostumei. É isso, gente minha: a IRONIA não me dá sossego.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

















Pelé, aos 29 anos, marcando seu milésimo gol...




















... e Romário, aos 41 anos, tentando o seu.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Picolé!

Não se vende mais picolé no Centro do Rio? Da Cinelândia ao Castelo, nenhum lugar com aquele freezer cheio deles? Que cidade é essa? Sem um Chicabon pra adoçar o bico depois do almoço não há quem güente.

Existem um bilhão de lanchonetes de sucos naturais + salgados anti-naturais, restaurantes chiques e sujões, uma geração inteira de camelôs desafiando a física nas calçadas, mas nada de picolé! Achei até uma baiana vendendo acarajé e uma loja só de Rolex. É possível? Da Bahia a Wall Street, e nada de Chicabon. Andei com calma, olhei pra tudo quanto é rua, direção e calçada. Nada do doce gelado.

Esses executivos do Centro do Rio não sabem mais o que é picolé? As manifestações sindicais, os guardas de trânsito, os jornaleiros... cadê a indignação pela falta de um artigo de primeira necessidade pra Cidade Maravilhosa? Afinal, nossas estações de tempo são quatro: verão, verão, verão e verão. Outros meteorologistas de boteco apontam apenas duas: verão e frente fria (quando dá).

Pois fica aqui a minha chiadeira pela chatice da falta de Chicabon.

sábado, 7 de abril de 2007

Centro do Rio

Trabalhar no Centro do Rio de Janeiro é sensacional. Além das características clássicas (gente de todo o tipo e parte da cidade, tudo acessível a alguns passos) as cenas que a gente flagra são inesquecíveis.

Na esquina da Av. Almirante Barroso com Av. Rio Branco, tal e qual muitas esquinas do Centro na sexta-feira pós-expediente, estão lá: o churrasquinho perfumador (ah, a fumaça que se insere em nossas roupas...) e as caixas de som ecoando o pagodinho. Seria mais uma sexta e mais uma esquina, se não fosse a existência de um notebook!

Sim, apoiado naquelas históricas mesinhas de bar feitas de metal, um notebook conectado às caixas de som! O sujeito camelô com sua camisetinha surrada, boné de algum candidato da última eleição e a lista de músicas selecionadas no Windows Media Player. Ao léu, num ambiente em que tudo quanto é executivo inventa inúmeros disfarces para proteger seus notebooks do olho grande da ladroagem. Fiquei tão surpreso que comentei com meu colega de trabalho, apontando pro camelô feito criança. A carinha orgulhosa do carinha que administrava o equipamento foi hilária.

Tenho a impressão de que este não será o último post sobre o Centro do Rio...

quinta-feira, 5 de abril de 2007


Vasco do Gama

Melhor que a vitória do Mengão na Libertadores sobre o Maracaibo (falarei adiante), foi a gama de alegria pelo ocorrido em pleno Maracanã. Em busca do gol mil (será o pote de ouro no fim do arco-íris?), Romário permanece em branco e o Vasco está desclassificado da Copa do Brasil... pelo Gama. Com todo o respeito ao Gama, mas Brasília não tem futebol. Atire a primeira pedra o brasiliense que não tenha um segundo time, dos grandes do Brasil! Foi lindo. Lembrando o Pet em 2001, uma falta certeira aos 49 do segundo tempo. Gamei! E chega de trocadilhos.

Já o Flamengo... Bem, já tô me acostumando com vitórias sofridas, mesmo quando o adversário não justifica isso. Dá raiva de ver a falta de qualidade desse time, e mais raiva ainda o fato de vencerem assim mesmo. Ah, paradoxos do torcedor... E Ney Franco não me convence. É mediano e tratado como herói. Sou um rubro-negro cético, embora fiel.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

(Suspiro)

Ah, o que é uma nova postagem mesmo? Postagem espontânea, sem a sisudez de um artigo pré-elaborado (que tem todo o meu respeito), postar simplesmente pra exercer o direito de ir e vir na internet via blog. Blog, ô lugarzim bom pra desopilar, desabafar, sentir-se ouvido, pôr a público o que você acha que deve. Blog é legal.

Nostalgia também é legal. Reli o artigo que deu origem à face opinativa do blog, também reli meu primeiro post, vi que o Lessa27 (ex-Lessog) vai pros seus cinco anos em outubro, e espero fazer uma comemoração especial. No começo era o "verbinho": pequenos posts, dicas culturais ou um apontamentozinho sobre um desapontamentozinho. Vez em quando vinha um caminhão bonito de palavras, como a despedida de meu avô Lessa. Mexe com quem lê, mas mexe antes comigo. Se eu releio então...

Com todas as más notícias desse mundo (muitas vezes necessárias, pra denunciar com responsabilidade e conteúdo o que não pode continuar errado), penso que a Internet é uma das ótimas. Calma, amiguinho, não vou abolir as críticas necessárias a ela. Mas é bom. Pra quem tem acesso fácil, é bom demais. O mundo ao seu alcance - ao menos o mundo informativo, que muito me interessa, comunicador que sou. Blog então...

Blog então é meu. Meu espacinho no espação abstrato e virtual da rede, caracterizado pela minha pretensa humanidade da boa colaboração a quem interessar possa. Minhas letras, minhas imagens pesquisadas e postadas, meus links, meus arquivos, meu contador de pageviews (êba!). E fácil de mexer, que mais eu quero?

Mas eu falava de nostalgia blogueira. Lembrei que já escrevi pequenos posts quando dava na telha, mas encaretei um pouco e os abandonei. Tô pensando em voltar. Nosso cotidiano dá tanta pauta, tanta coisa legal, engraçada e recomendável pra dizer... Por que apenas artigos argumentativos, que não nascem aos borbotões? São importantes, fazem parte de meu propósito com o Lessa27, mas não precisam ter dedicação exclusiva. Essa é a conclusão a que cheguei, fruto da nostalgia.

Ironicamente (a ironia é muito leal à minha pessoa), tal conclusão vem na forma de um artigo. Fazer o quê? A gente não escolhe o que vai escrever. O "algo" a ser escrito é que já nos escolheu, e fica à espreita de uma oportunidade emocional pra vir à tona. Nada anormal. É questão de assumir essa relação de co-dependência que temos com esse "algo". Blog é só sala de parto.

Pois é, taí, nova postagem. Bom isso. Preciso praticar mais.

sexta-feira, 30 de março de 2007

It's wonderful to be here

Acabo de ter uma experiência atrasada. Passa da meia-noite, é 2007 e eu ouvi Sgt. Pepper's, um dos mais marcantes discos dos Beatles, de ponta a ponta. Coloquei os fones de ouvido, aumentei o volume e percebi cada nuance, arranjo, ousadia, irreverência, em cada música. Queria não dormir e ficar com o disco ecoando no travesseiro. Recomendo. Sara dores de cabeça, mau-humor e decepção com o que a sociedade de consumo tem oferecido para nosso ouvir.

Digo experiência atrasada porque posso estar falando a quem já fez isso há muito tempo, várias vezes. Eu não: só agora ouvi Sgt. Pepper's decentemente. Sem exageros, só agora ouvi, de fato, o disco.

Por que Sgt. Pepper's é um marco na história do rock, talvez da música?

Porque Sgt. Pepper's é um marco na história do rock, talvez da música.

Há o pioneirismo dos Beatles em incluir nas faixas sons de platéia, animais, instrumentos de orquestra etc e tal. Sem falar na arte da capa. Não sou músico ou estudioso musical para assinalar o quê, exatamente e em detalhes, os Beatles fizeram ao realizar o disco. Falo da minha experiência, aos 26 anos e sem ter visto os Fab Four tocarem juntos, de ser abençoado com qualidade que vai além de gostar ou não. É isso que quero descrever.

Sim, é delicado. Alguns crêem que gosto não se discute (muitas vezes pra justificar um gosto ruim sem dar vergonha de assumi-lo, mas deixa pra lá); outros, pensam que comer o filé mignon depois do patinho só dificulta o retorno ao patinho. Vou pela horrorosa metáfora via açougue. A gente ouve de tudo nessa vida. Mas ouvir Sgt. Pepper's é perceber que você se encontra em outro nível. É dar de cara com a produção de algo que faz diferença na tua vida. É perceber que quatro caras podem modular a voz, chiar com umas cordas e batidas e isso soar como nova Música, com maiúscula.

Você ouve e quer que a Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club band toque no coreto da praça em frente à sua casa. É abrir a janela e ver Lucy in the Sky with Diamonds assim que o sol nasce. É querer reunir todos os seus amigos, em todo planeta e de todas as épocas, e declarar pra eles With a little help from my friends (e a nossa voz tem que sair igual à do Ringo). Saber que existe o disco é ver que as coisas estão Getting Better, qualquer coisa é só ficar Fixing a Hole que tudo se resolve bem.

E pára tudo e chora tudo: She's leaving home. Como os Beatles conseguiram condensar todo o sofrimento humano com a indiferença alheia - e suas conseqüências - em curtos versos? Como encontraram a melodia perfeita, o coro em separado (poesia genuína e vinda "da veia") com a métrica ideal? Gente, é de pasmar. Sentimo-nos culpados por She's leaving home, sentimos pena, torcemos por ela, dizemos "Bem-feito!" para nós mesmos ao final...

Não acabou: Mr. Kite, um engraçadinho que cruza o nosso caminho, e depois imaginamos When I'm 64. Paul já passou da idade, mas pareceu desafiar a física quântica: ele não está fora de nosso tempo, não? Cantar isso bem antes de ter 64. Queremos estar lá também, precisamos dele, ele nos alimenta. Lovely Rita nos dá Good Moorning, Good Morning e que belo começo de dia!

Mas volta a banda. Sgt. Pepper's novamente, em tom de despedida. Cara, o CD está aqui na mão, posso tocar quantas vezes quiser, mas eu me desespero por eles dizerem que vão embora! Que negócio é esse? Mera reprise é que não é. Aliás, Sgt. Pepper's nunca será repetição pura e simples, cada audição é um impacto diferente. Talvez daí venha o desespero. Mas as notícias de A day in the life são o tiro de misericórdia, sem misericórdia. Acabou. Você não é mais o mesmo.

Sgt. Pepper's não é mais um disco, morrem os gostos e toda discussão a respeito, reverências a postos. Ouvir outra coisa? Eu mereço mais que isso.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Resposta do jornal Expresso e minha resposta à resposta
(sobre a cobertura do caso João Hélio)

"Olá, meu caro. Antes de tudo um ótimo dia pra você. É o que desejo. Afinal, o meu não foi nada bom. A barbárie cometida por aqueles bandidos, que não podem ser gente, ainda me faz chorar.

Bom, se minha mentalidade menor e simplista me fez entender o que você quis dizer, você acha todos os jornais do Brasil sensacionalistas. Mas vem em tom particularmente visceral para cima dos tablóides (gostaria de lembrar que você incluiu o Extra, mas ele não é tablóide. Tablóide são jornais menores como Expresso e Meia Hora). Gostaria de lembrar ainda que os jornais, tablóides ou não, sensacionalistas ou não, não prendem ninguém. Não têm poder de polícia. Não têm poder de Justiça. Muito menos de decidir pela pena de morte. Também não têm o poder de vilipendiar famílias como a de João Hélio. Quem vilipendiou (desprezou ou repeliu) a família de João Hélio, além da minha e das pessoas de bem, foram os facínoras que não podem ser gente. Os jornais (tablóides ou não, sensacionalistas ou não) apenas tentam retratar os fatos e falar com os seus. Os tablóides não pioram a vida do povo, quem piora a vida do povo são indivíduos como aqueles criminosos.
Os jornais, tablóides ou não, sensacionalistas ou não, não concordam com atitudes como a que matou o menino João. Seja o criminoso maior ou menor. Os mesmos jornais que você acusa de vilipendiar famílias são os que mostram absurdos cometidos por pais que maltratam seus filhos. Graças a Deus, esses menores são vítimas e têm os jornais a seu favor. Mais ainda: eles têm o Estatuto, que é quem tem poder de polícia, poder de Justiça.

Discordo quando você diz que fazemos discurso em tom exacerbado. Exacerbada foi a atitude daqueles que cometeram tal barbárie que chocou toda a população. Acho que vou repetir isso: toda a população. De novo: toda a população brasileira. Assim como deveria ser exacerbado ao máximo o castigo de criminosos deste tipo. Absurdo pra mim, expressamente proibido pra mim, é achar que tal cidadão que comete esse crime deve mesmo sair da cadeia em cinco anos..."

Marcelo Senna
Editor


Caro Senna,

Antes de mais nada, obrigado pela atenção e resposta. Não é todo dia que uma redação publica cartas sobre o fazer da imprensa, tampouco responde diretamente a quem as escreveu.

É preciso ressaltar que todo o sentimento que você e a redação tiveram, eu - e toda a população brasileira - tivemos. Indignação, nojo, revolta, ódio contra os bárbaros, desejo de vingança, perplexidade com a impunidade de nosso país. No entanto, em nenhum momento questionei ou pus em dúvida os sentimentos de vocês.

Confirmo que vim particularmente visceral pra cima dos tablóides. Esses sim, são todos sensacionalistas - e não todos os jornais do Brasil, como vc interpretou minhas palavras. O Extra não seria um tablóide no formato, mas na linha sensacionalista sempre foi, tanto quanto o "The Sun" e tantos outro mundo afora. E nem preciso me prender ao formato: o Linha Direta, os programas do Datena e do Wagner Monte, e tantos de nossa TV,seguem a mesma linha.

Os demais jornais não são sensacionalistas, quem faz esse serviço pra eles são tablóides como os que citei. Não é à toa que o Globo tem o Extra e o Expresso, o Dia tem o Meia Hora etc. Por que a população de baixa renda tem que consumir um tipo de abordagem tão rasa como a que vcs fazem com todos os assuntos? Se não são sensacionalistas - ou seja, apelam para as sensações - por que todo dia é sexo e sangue na capa, independente do episódio do pequeno João?

Portanto, Senna, eu não desqualifico a revolta que tomou conta de vocês diante de tão bárbaro episódio. Questiono é o fazer jornalístico, a construção de um discurso, a maneira de abordar fatos que, por si só, já são impactantes. Quando falo "tom exacerbado" é a dramaticidade de cada enunciado, a maneira de tratar as histórias como folhetins. É o desrespeito para com a família, que terá que agüentar matérias diárias sem nada acrescentar na reflexão sobre o episódio, apenas discorrer sobre como era o pequeno João, suas fotos, seus desenhos, e o rememorar da tragédia sem fazer o leitor pensar sobre a situação. Ah, sim, apenas o pedido de pena máxima sem contextualizar o tema, afinal, haverá espaço (físico) pra isso no Expresso?

"Os mesmos jornais que você acusa de vilipendiar famílias são os que mostram absurdos cometidos por pais que maltratam seus filhos. Graças a Deus, esses menores são vítimas e têm os jornais a seu favor. Mais ainda: eles têm o Estatuto, que é quem tem poder de polícia, poder de Justiça. "

Agora eu fiquei confuso: se o Estatuto tem essa importância, por que é tratado com desprezo na matéria que citei, como se fosse um atravancar da lei?

Mais uma vez: respeito o sentimento de vocês diante de tão horrendo episódio. Mas não devemos nos render a nossas sensações estando em postos da sociedade tão importantes quanto governantes, policiais ou médicos. Somos jornalistas, com alcance e influência em boa parte da população brasileira. Formadores de opinião em potencial, referenciais. Precisamos zelar pela responsabilidade do que publicamos e COMO publicamos.

Um grande abraço,
Marcos André Lessa

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007


Carta à redação do jornal Expresso

Os tablóides pioram a vida do povo. Abusam do sensacionalismo e fazem um discurso cujo tom exacerbado desvia a atenção do que realmente importa: os fatos em si, a reflexão sobre eles, e a devida contextualização. Aliás, o mínimo de contextualização só existe até onde convém. A barbárie cometida por ladrões que arrastaram pelas ruas um menino preso no cinto de segurança serve como exemplo.

Abro o Expresso de hoje (08/02/2007), que fala da prisão dos ladrões. Destaco algumas frases:

"Isso não pode ser gente" (manchete);

"Dois desalmados foram presos...";

"Um deles é maior. Se condenado, sai da cadeia em 5 anos. O outro é menor e não fica mais de 3 anos internado. Isso é justiça, meu Deus?";

Depois de narrar novamente o passo-a-passo do episódio, desde o roubo até deixarem o carro com menino pendurado do lado de fora, segue:

"Mesmo assim, devem ficar pouco tempo na cadeia (...) Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, o menor X. poderá pegar no máximo três anos";

Sendo assim, o que nos resta? Pena de morte, claro. Afinal, não têm alma e não são gente. E, além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente é um atraso de vida para o cidadão injustiçado.

Assim é construído o discurso. O Estatuto só é evocado quando "alivia" a pena de bandidos menores de idade. Quase ninguém lembra que ele traz uma legislação que protege filhos que apanham dos pais ou sofrem qualquer tipo de abuso. E que a ressocialização em instituições - onde o menor X. ficará por três anos - é prevista para todo o tipo de menor, não apenas para os bárbaros (que não existem aos milhares. A intensidade de um ato bárbaro é que é explorada de maneira sensacionalista para dar essa impressão).

NÃO ESTOU DEFENDENDO OS LADRÕES. Defendo um jornalismo responsável que trate assuntos sérios de maneira séria, sem reducionismos e desrespeito para com os envolvidos. A violência no Rio de Janeiro foi banalizada por veículos como Expresso, Extra, Meia Hora e outros pelo Brasil. Mas eles revelam a face mais rasteira de uma mentalidade que permeia entre seus "irmãos maiores": os jornalões de classe média encampam o mesmo discurso simplista, que não aborda o contexto da violência, apenas protestam contra o incômodo em volta de seus castelos usando dos meios de comunicação que dispõem.

Com esse tipo de jornalismo, famílias como a de João Hélio continuarão sendo vilipendiadas: pela violência física e pelos por seus "pseudo-porta-vozes" mercantilistas de pautas.

Marcos André Lessa
Jornalista

domingo, 31 de dezembro de 2006


Eu quero um jornalismo melhor

Cheguei à sala de meu amigo André Mello com a cara de quem acabara de escrever o artigo abaixo ("Eu sou do Rio de Janeiro" - de fato, eu tinha acabado de escrever). Triste por ver o Rio sitiado novamente e um pouco temeroso com minha volta pra casa. Não puxei uma cadeira, explicando que precisava encontrar minha irmã para irmos logo. Sem levantar, ele me pergunta:

- Por causa dos boatos?

Digo que sim, que a estação do metrô da Saens Peña estava fechada, e que eu estava meio nervoso com tudo aquilo. Ele me fala que, quanto às causas dos ataques criminosos à cidade, tudo parece ser reduzido a questões pontuais, como um descontentamento com o fim das regalias nas prisões, ou um alerta ao novo governo do estado.

- Nós sabemos que há algo maior por trás disso. É um discurso do medo construído na mídia que deixa as pessoas nesse estado de pânico.

- Calma aí, André. De ontem para hoje aconteceram ataques simultâneos em todas as partes da cidade.

- Eu andei por toda a cidade hoje e estou aqui.

- Eu também! Concordo que muitas vezes o discurso midiático insufla "ondas de terror" na população, mas agora são fatos: um ônibus foi incendiado na Avenida Brasil, pessoas morreram carbonizadas. Fora o que já te disse, ocorrências em toda a cidade, em vários pontos.

André não altera a entonação da voz e nem se levanta da cadeira. Mas não possui um ar cínico ou indiferente para com a situação, ou com meu relato. Jornalista, antropólogo e pastor presbiteriano, sabe que não pode jogar palavras vazias a seus interlocutores.

- Existem algumas coisas a serem consideradas no contexto do momento. Primeiro, há um vácuo de notícias, é uma semana tradicionalmente fraca pra isso. Depois, estamos no "limbo" entre governos estaduais: o comandante da polícia de agora não continua na segunda-feira, e o que vai assumir ainda não manda nada.

- É verdade. Ainda assim, André, os episódios de violência aconteceram.

- Sim, mas o que precisamos perceber é que a maioria das ocorrências não é inédita. A não ser o ônibus interestadual incendiado. É algo diferente, um ato de terror. Ainda assim, já houve um incêndio antes, só que o ônibus era intermunicipal (ele se refere ao ônibus 350, incendiado em Brás de Pina, em 2005. E outros foram incendiados sem vítimas, em alguns pontos da cidade e da Baixada Fluminense). Os tiros, assaltos, granadas, todos já ocorreram outras vezes na cidade do Rio de Janeiro. Se você pegar o jornal O Povo de manhã verá o que ocorre nas madrugadas toda semana, são episódios como esses.

- Mas a gente não pode banalizar os acontecimentos assim...

- Não é banalizar, não. Mas ninguém fala do pior: que a violência está imiscuída na nossa sociedade, e tão corriqueira que, aí sim, banalizamos ao não destacarmos esse aspecto. Por que surgem essas "ondas de terror" em todos os telejornais, de repente? Olha só...Você já leu esse livro aqui?

André pega de sua estante Cultura do Medo, de Barry Glassner, que fez uma ponta no documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore. Na contracapa, as aspas do autor: "A TV não inventa o que mostra, mas escolhe o que mostrar". Na orelha do livro, outra frase: "A poluição é algo bem mais preocupante e perigoso que todas as outras coisas das quais a mídia insiste que tenhamos medo". É por aí que vai o pensamento de André. Em nenhum momento ele demonstra insensibilidade para com as pessoas que sofreram com os episódios de violência de ontem, pelo contrário: solidariza-se com aqueles que já sofreram antes mas que não ofereciam o Ibope que convinha - como numa última semana do ano, raquítica em notícias.

Imediatamente me lembrei que, em época de Copa do Mundo ou na semana do Carnaval, o Rio de Janeiro é a cidade mais pacífica do planeta. Nenhuma ocorrência violenta é noticiada.

- Precisamos nos preocupar com a situação dos presídios, por exemplo. Quem acha que a solução é lotar as penitenciárias ou reduzir a maioridade penal nunca esteve num presídio. A situação é tão caótica que daqui a um tempo as rebeliões e fugas em massa generalizadas não serão contidas. Aí sim teremos um terror incontrolável nas ruas. Como no exemplo da poluição, estamos muito pouco preocupados com o que realmente importa e pode causar transtornos da ordem social.

As políticas públicas que atendem mais aos sintomas da hora do pânico, em vez de agir na origem do problema: raramente sou "torpedeado" por notícias sobre isso.

A hora passa e eu realmente preciso ir. Levo emprestado o livro, e saio da sala de André mais calmo. Não menos preocupado com a violência urbana da metrópole, mas bem mais imune às "ondas de terror" de fermento midiático. Resolvo desligar a TV até o ano que vem.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006



Eu sou do Rio de Janeiro

Do alto andar aonde trabalho sinto-me Robinson Crusoé. Uma vez cheguei mais tarde e, duas horas antes, quase em frente ao meu prédio, um passante foi baleado por estar perto de um assalto. Da janela deu pra ver o vermelho sangue. Centro do Rio de Janeiro.

Há duas semanas, a duas quadras de onde trabalho, um vigia do banco Itaú atirou numa pessoa que, parada na porta giratória, pareceu-lhe suspeito ladrão. Não era, mas morreu assim mesmo. Hoje, passando em frente à agência aonde aconteceu o episódio, vejo uma manifestação com cartazes dizendo que o tiro foi movido a racismo. E que o assassino está solto.

Ontem minha cidade foi alvo de estratégicos ataques terroristas nada preconceituosos: atingiram moradores da Zona Sul à Zona Norte, do outro lado da ponte Rio-Niterói e também visitantes de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Destes, sete morreram queimados dentro de um ônibus recém-assaltado na Avenida Brasil e em seguida incendiado. Um policial que dava plantão numa cabine na Praia de Botafogo pela primeira vez morreu metralhado, além do ambulante que fazia ponto ao lado. Delegacias também foram atacadas, algumas com granadas.

Tenho um amigo de infância que hoje é policial, noivo de uma amiga que é de Cachoeiro do Itapemirim. Ele está de férias, ela estava em casa, eu estou em paz (agora).

Sinto-me Robinson Crusoé ao não ser atingido (diretamente) por nada disso, porém tudo acontecendo ao meu redor. Já andei muito pela Avenida Brasil, trabalhando ou chegando de viagem; já passei muito por portas giratórias dos bancos, já trabalhei quatro anos num deles; todo dia ando pelas inúmeras ruas do Centro; sempre vou ao Cinemark Botafogo; já peguei carona com meu amigo de infância, voltando do futebol.

Sinto-me Robinson Crusoé ao saber que os chefões do crime têm regalias e que as mesmas, quando ameaçadas, param e matam a cidade. Ou quando o jornal local ofende os moradores ao entrevistar ao vivo o presidente da Riotur, para que o mesmo discorra sobre os prejuízos do episódio para o reveillon e para a chegada de turistas na cidade.

Hoje discordei de uma amiga quando ela disse que o mundo era um lixo, que os seres humanos eram um lixo, e que por isso ela não queria gerar descendência.

Eu, Robinson Crusoé que estou, só queria continuar a discordar.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

A culpa é de JK

Quebremos o mito. Somente os arquitetos devem dar graças pelo governo de Juscelino Kubitschek. Afinal, Brasília é um marco mundial da qualidade dos brasileiros Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Fora isso, a cidade é uma fortaleza que cristalizou no espaço público e geográfico brasileiro a impunidade inconseqüente. É uma ilha em terra firme, cercada de distância do povo, fisicamente mesmo. E isso foi uma tragédia para a democracia.

O aumento de 91% dos salários dos parlamentares do Congresso, dado pelos próprios, é uma prova disso. Renan Calheiros e Aldo Rebelo, respectivamente presidentes do Senado e da Câmara, transparecem na foto acima a cara de quem está fazendo muita caquinha. Mas sabem que o único ônus que vão enfrentar é o mau humor da opinião pública. Nada mais. Nunca a opinião pública foi tão fraca, e Brasília ajuda nesse processo.

"Se essa palhaçada fosse na Cinelândia/Ia ter muita gente pra juntar na saída/Pra fazer justiça, uma vez na vida". Os versos de Herbert Vianna nunca foram tão atuais. Se o Senado e a Câmara continuassem no centro da cidade do Rio de Janeiro, ao lado do povo, cuja maioria circula por ali na busca diária de salários nada astronômicos, duvido que estariam tão tranqüilos em aprovar um aumento desses. Por mais que um exaltado quisesse chegar às mortais vias de fato - que nossa racionalidade condena mas, confessemos, dá vontade - no mínimo teriam que agüentar protestos bem próximos.

Mas eles estão em Brasília. No meio do deserto Planalto Central, numa cidade inventada sem vizinhança. E, na Praça dos Três Poderes, antes de se chegar aos Palácios e Casas Parlamentares, há um lago que anula qualquer tentativa de aproximação não autorizada. JK, com sua idéia incensada até hoje, deixou o povo longe dos políticos, e realizou o sonho obscuro de todo político mal-intencionado: ficar distante do povo enquanto não há novas eleições. Só por essa loucura, JK já pode ser considerado um desastre para o país. Sua cidade inviabilizou ainda mais a democracia.

Quando vier a próxima proposta de Reforma da Previdência (que não duvido que possa ser necessária, haja vista o envelhecimento da população), cobremos dos nossos representantes o exemplo vindo de cima. O corte ou congelamento dos salários deles; o corte nos jetons e auxílios paletó, gasolina, cafézinho; a demissão de metade dos assessores de gabinete; a extinção da indecente aposentadoria vitalícia para ex-presidentes, ex-governadores, ex-senadores e ex-deputados, que conseguem conquistá-la com dois mandatos apenas (no caso do presidente, um mandato). Não se engane com a desculpa de que o Congresso cortou despesas que possibilitaram o aumento. A questão é mais moral do que econômica. Não é justo, uma vez que não pode ser aplicado aos demais cidadãos.

Após a catarse, vamos ao espelho: você, que deve se lembrar em quem votou, pesquise se ele votou a favor desse indecente aumento (a votação foi dos líderes dos partidos, mas ainda assim o candidato, que pertence a um partido, deve uma explicação). Se tiver contato pessoal com ele, pergunte por que votou a favor (ou foi conivente) diante da gritante desigualdade social brasileira, diante da carga tributária avassaladora e do leão morto a cada dia pela maioria dos brasileiros, tão somente para sobreviver com dignidade. Incomode-o, apesar de Brasília. E não vote nele outra vez, pra que todos aprendam. Faça a sua parte. Ou seja omisso e engula caladinho essa nova falta de vergonha. E não venha murmurar perto de mim depois...

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006


Mrs. Northfleet


Ellen Gracie Northfleet, brasileira. Primeira mulher a presidir o Supremo Tribunal Federal (STF), instância máxima do Poder Judiciário. Devido ao cargo, na ausência do Presidente da República, do Vice, e dos presidentes da Câmara e do Senado, ela pode ser também a primeira mulher a exercer o cargo de mandatária-chefe da nação. Deve ter enfrentado preconceitos e machismos da sociedade para exercer sua vocação. Para chegar ao posto em que está, também deve ter estudado muito as leis do país, principalmente a Constituição Nacional.

Ellen, semanas atrás, propôs que o teto dos salários dos juízes dos Ministérios Públicos Estaduais deveria ser equiparado ao teto dos ministros do STF. Nos valores atuais, o salário passaria de R$ 22.111,00 para R$ 24.500,00. Como se já não bastasse a Câmara e o Senado defenderem o aumento de 91% dos seus vencimentos, recentemente. Se o Executivo passou por escândalos e o Legislativo prosseguiu legislando em causa própria, só faltava o Judiciário se pronunciar. Poderia condenar publicamente a falta de bom senso dos congressistas, mas não. Com a proposta de Ellen, legitimou o descalabro flagrante com o dinheiro público. Também em causa própria.

Gracie não esperava a grita da opinião pública, que rechaçou tal atitude de quem já recebe seus proventos muito acima da média dos brasileiros, sem contar os auxílios congênitos. Averiguou e disse que cerca de 300 juízes já recebiam acima do teto, ilegalmente. Não disse quem ou onde, deixando no ar a imprecisão da informação e a desconfiança de que soltou um oportuno sofisma pra acalmar os ânimos que ela mesma exaltou.

Northfleet, com toda a capacidade intelectual que deve ter para ser ministra do STF, parece não perceber que a desigualdade social agrava a violência. Que poucos com tanto e tantos com tão pouco são um vácuo perfeito para o sentimento de injustiça geral e para alguns que preferem fazer a justiça com as próprias mãos. Inspirados em Robin Hood na prática (mas não no caráter), existem para tomar dos outros o que lhes falta, ou o que cobiçam.

Que os astutos leitores deste blog não percebam nestes parágrafos a complacência com bandidos. Roubou, que seja preso. No entanto, a sensação de "enxugar gelo" é constante, e não seria melhor se, de uma vez por todas, os líderes de nosso país resolvessem caminhar na direção de reduzir a desigualdade? Será que a violência não seria menor um dia? Mas quando menos esperamos, o Executivo desvia fundos, o Legislativo mira o umbigo, e o Judiciário consente e pede o seu "naco".

Ellen Gracie Northfleet veio ao Rio de Janeiro e uma quadrilha a assaltou na Linha Vermelha. Num lugar em que muitos trabalhadores que ganham bem menos que a ministra já foram assaltados. Veria ela alguma relação de sua indecente proposta com o acontecido? "Como você consegue viver nessa cidade?", desabafou Ellen com um amigo carioca, após o assalto. Da mesma maneira que tentamos viver nesse país, Gracie. Da mesma maneira heróica que, dia após dia, teimamos em acreditar que nosso Brasil diminuirá seus atrasos de mentalidade e visão de governo, apesar de seus líderes (em quem votamos, não esqueçamos disso também). Conseguimos viver, Northflleet, com salários básicos, sobreviver com salários mínimos, conviver de perto com a violência e suspirar tristes diante de exemplos como o do Judiciário. Não podemos votar para o STF, infelizmente.

Ellen Gracie Northfleet, brasileira. Exímia conhecedora da Constituição Nacional, que busca promover a igualdade de direitos. Parece desinformada sobre o país que habita e onde rege as leis, e insensível para com os cidadãos que precisam suportá-las na frieza da falta de bom senso. Ellen Gracie Northflleet, brasileira? Nem no nome. Se pensa que vive em outro país - como demonstram suas ações e pronunciamentos - que se desaloje bem rápido do nosso. Com todos os seus pares compadres.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006


Cafuné nevrálgico

- Barra ou ponto?

Nunca tinha pensado seriamente na questão. Barra ou ponto? Alguma diferença iconográfica que refletisse a essência do compromisso? Ah, eu não pensei nisso. Pensei no preço, no melhor momento de comprar e de anunciar a toda a família, nos arranhões, nos cuidados, na sua durabilidade.

- Barra ou ponto?

Olhei para ela, depois olhei para Carolina e perguntei, hesitante:

- Ponto, né? O que você acha...?

- Ponto.

Pronto. Ponto. E ponto.

Seria "Carolina - 26.10.03" na minha e "Marcos - 26.10.03" na dela. Dia do começo do namoro. Agora, barra ou ponto? Isso é pergunta que se faça? Não por ser indiscreta ou algo do tipo, mas eu pensaria se na aliança a data seria 26/10/03 (com barra) ou 26.10.03 (com ponto)?

Não existe assunto tão torpedeado hoje quanto o casamento. No entanto, as pessoas seguem se casando. Seja tradicionalmente, seja "juntando", seja de qualquer outra forma (e agora até de gênero), as pessoas continuam criando a expectativa do casamento, com que cara ele tenha. Permanecem na ansiedade de, um dia, terem alguém por mais tempo ao seu lado, um compromisso. Sim, as pessoas querem compromisso. É só ver que quase ninguém suporta uma traição, apesar do folclore em torno do assunto. Não raro, paga-se uma traição com outra, pra fazer o "canalha" ou a "vaca" sentirem o mesmo (ou, no mínimo, deseja-se isso). Ou seja, nada de sublimação, é vingança com a mesma moeda devastadora de emoções.

Também não colam muito os discursos galináceos de que esse papo de compromisso e ter alguém a seu lado não é comigo, eu quero aproveitar a vida e ser feliz! Sim, vai fazer isso, mas um dia, num muxoxo para si próprio, a fim de não passar vergonha diante dos demais, olhará para o seu dedo e para sua cama de solteiro e reconhecerá que, sim, seria ótimo um cafuné no pescoço. E não qualquer cafuné: aquele de quem sabe o ponto nevrálgico da satisfação que um cafuné pode proporcionar, tão somente porque te conhece do avesso e sabe do que e como você gosta. Fruto de convivência, compromisso, aliança (com barra ou ponto, ou figurativamente).

Os discursos ressaltando que "não nascemos para a monogamia, veja só os animais!" (nossa, hoje nos orgulhamos de ser comparados com animais!) ainda se perpetuarão. Mas como todo bem elaborado discurso, terá a provação da realidade para tentar se sustentar e seguir orientando vidas. Continuará nesse propósito, até encontrar o caminho da humildade e reconhecer: "meu pescoço por um cafuné no próprio".

Há os pesares, as crises que surgem durante os relacionamentos, as complexidades que sabemos que existem e que não merecem ser tratadas superficialmente aqui. Ainda assim, essa raça humana continua querendo casar, ter compromisso. Por que, já que há sempre um "perrengue" de plantão pra azedar o clima e depois ainda ter que dividir o mesmo cobertor à noite? Ora, eu não me dispus a explicar o fenômeno, mas a constatar. Só tenha absoluta certeza de que o cafuné nevrálgico é intraduzível.

Quando você perceber que "barra ou ponto?"- uma pergunta superficial que se refere a uma inscrição literalmente superficial numa jóia - consegue ter a profundidade de te deixar hesitante e gestor de todos esses devaneios, é capaz de você concordar comigo. E potencialmente próximo da satisfação de estar a dois.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006



Não é outro

Você caminha pelo centro da cidade do Rio de Janeiro e olha pra cima. Como em toda grande metrópole, lá estão os altos prédios, na avassaladora maioria locais de trabalho. Você volta o seu olhar para o horizonte e, qualquer que seja a sua altura, ali estão pessoas e mais pessoas indo e vindo, na avassaladora maioria em busca de comida, isto é, almoço (você olha ao meio-dia, ok?).

Você sai mais cedo, às 11:45, também em busca de comida - fresca, quentinha - e de um ambiente necessário para uma paz gastronômica - sem estar abarrotado, para não haver engarrafamento de pratos e Visa Electron no serve-te a ti mesmo (self-service).

Você normalmente andaria rápido, com reflexos acurados para desviar de um possível encontrão ou morte enquanto atravessa a larga rua apinhada. Mas você resolve fazer diferente: já saiu mais cedo mesmo, resolve andar como gente normal (na sua avassaladora maioria, pessoas que trabalham no centro e almoçam todas na mesma hora não parecem normais). Para os demais, você anda devagar e é obstáculo aos esfomeados. Para você, é um rompante da rotina que muitas vezes você teve vontade de viver e, sem saber direito por que cargas culturais d'água, você nunca conseguiu.

Aliás, se assim não fosse, você não olharia como olhou no primeiro parágrafo.

Você come e estranha a calmaria de sua hora de almoço. Você termina, estranha que terminou e que ainda tem meia hora antes de voltar ao seu alto prédio. Você se dá o direito de ter uma sobremesa entre livros na Travessa do Ouvidor, sentir o aroma dos papéis e de um perfume que aquele estabelecimento coloca (talvez numa estratégia de deixar cada visitante à vontade até correr sério risco de virar clientela).

Você olha novamente para cima, para o horizonte, para as pessoas, para o mundo corriqueiro de cada hora de almoço e se espanta. A surpresa vem pelo fato de que, quando você olha pra tudo isso, inevitavelmente você se vê olhando pra si. Olha pra você. Olha pra isso! Olha pra esse, ou pra essa. Pra ti.

Olha como você deixa de ser você se você se enreda pelo ritmo imposto. Pelas imposições que não se justificam e sequer se explicam. Você se olha e não se reconhece. Você precisa parar com isso. Você precisa parar. Você precisa de você de volta.

Você precisa estar novamente - e tão somente - a vossa mercê.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Nas passadas



Eu gosto de correr.

Então me vi correndo numa pista, dessas que circundam o gramado central dos estádios olímpicos. Não era corrida rasa, eu parecia correr numa velocidade constante e prudente para preservar meu fôlego até o fim. Na verdade, parecia que eu estava num de meus treinos diários, para manter meu condicionamento físico. Não havia mais ninguém no estádio: nem nas arquibancadas, nem na pista. Era apenas eu e um dia ensolarado, correndo e suando, diligentemente.

De repente comecei a reparar num vulto à minha frente, na pista. Minha curiosidade me fez acelerar, deixando um pouco de lado a disciplina do treino. A imagem ficava mais nítida, e eu já podia perceber que era uma pessoa branca, de camiseta e meias idem, e calção preto, correndo. Achei estranho, pois não tinha visto ninguém entrar no estádio ou na pista. Sozinho por ali, seria difícil alguém passar desapercebido por mim.

A silhueta me é familiar, mas de costas você não tem certeza absoluta se conhece ou não qualquer pessoa. Não tinha outra escolha senão correr mais, e eu já percebia que o ritmo daquele desconhecido era mais forte que o meu, e também mais firme e constante. Fui chegando, chegando e de curioso passei a intrigado: eu conheço esse cara. Mas de onde? Por coincidência, sua roupa era exatamente igual à minha. Eu suava bem mais do que quando o avistei, e agora meu objetivo era emparelhar com ele. Objetivo é eufemismo, tinha virado obssessão. Quem é esse cara?

Então eu consegui, fiquei bem ao lado dele, fazendo um esforço extra, concentrado no momento em que ia matar minha curiosidade. Saber quem era aquele estranho, aquele intruso do meu treino, aquele "copião" dos meus trajes, aquele que corria mais rápido (e melhor) do que eu.

Tive que controlar o susto. O corredor era eu. Talvez fosse um clone, um sósia, uma brincadeira de mau gosto. Mas tinha certeza que não. Era eu, de alguma maneira em outra dimensão da vida, em outro momento. Correndo mais e melhor do que eu. Ele (eu?) não se abalava, permanecia na sua velocidade, sequer se virou para me olhar também. Depois de uma súbita parada devido ao susto, fiquei em desvantagem, eu (ele?) já estava de novo lá na frente. Percebi que eu não conseguia mais acompanhá-lo. Por mais forças que empenhasse, ficava entre nós aquela distância na pista. Eu corria mais do que eu mesmo.

A dificuldade de processar as mudanças que acontecem em nossa vida, sejam elas boas ou más, quando ocorridas em curto espaço de tempo. Os sintomas daquela "avalanche" surgindo e a gente sem saber de onde vêm, um descontrole de emoções não-identificáveis na sua totalidade. O medo do novo, do desconhecido. Por incrível que pareça, o medo de ser feliz e "cair dentro" do propósito de felicidade há tempos anunciado e para o qual nos preparávamos. A própria preparação surpreendida pelos fatos que andaram mais rápido que qualquer planejamento sóbrio.

Resta-me voltar à pista e me dar conta de que tenho corrido mais do que eu mesmo. Volto a meu ritmo, sabendo da necessidade do treino e da disciplina. Porém me lembro de algo muito importante. Algo mais importante do que todo o plano de treinamento, o melhor tênis ou as roupas mais leves para melhorar meu desempenho. Mais especial até do que passar pela inesquecível experiência de me ver correndo contra mim numa pista - isso seria um desespero se não tivesse me lembrado do que lembrei então.

Eu lembrei que gosto de correr.

Sem essa constatação, nunca me verei entrelaçando os braços comigo mesmo numa pista, correndo no mesmo ritmo, até me ultrapassar, ganhar confiança e terreno. E olhar pra trás, percebendo que desapareci, que estava sozinho novamente. Mas que não seria pela última vez.

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Considerações sobre o silêncio



Hesitei por alguns instantes ao começar este artigo, talvez pelo próprio assunto e seu efeito em mim. Tenho olhado (ouvido?) o silêncio de uma maneira inédita em minha vida.

Para mim, o silêncio era, quase automaticamente, o mesmo que omissão. "Lavar as mãos", não fazer minha parte na realidade que estava ao meu alcance. Silenciar sempre significou deixar outros decidirem por mim, escolher o caminho mais fácil. Praticamente uma covardia.

Considerando que sou jornalista, isto é, profissional de Comunicação; considerando que sou uma pessoa comunicativa e desenvolvi razoável oratória e argumentação; considerando que desde os tempos de Colégio Pedro II considero-me politizado e com vontade de intervir nos contextos em meu redor... Como considerar o silêncio?

(Hesito, em silêncio, mais alguns instantes antes de continuar a escrever.)

Tenho percebido que o silêncio pode nos preservar. Pode nos oxigenar perante o bombardeio de ruídos de comunicação e o excesso de vozes e informações. Ele permite que possamos nos ouvir, ainda que estejamos em silêncio.

Passar pela experiência de opinar e sequer ser considerado pelo outro que pensa em direção contrária: isso é marcante. Perceber quando você apresenta argumentos sinceros, em busca de um consenso, e nada caminha para o que você propôs... Não seria hora de silenciar um pouco?

Silenciar facilita também nossa autocrítica. Diante da ansiedade constante em opinar, argumentar, marcar pública posição, dificilmente refletimos de onde vem tanta certeza. Se ela possui fundamento ou é apenas soberba "enlatada". No silêncio esses questionamentos surgem espontaneamente, acredite.

E convenhamos: ficar em silêncio é árduo. Raramente é nossa primeira opção. O silêncio, na maioria das vezes, é o que nos resta, quase nunca é uma decisão. É render-se à derrota de seus argumentos, é quando "nossa inteligência foi desprezada" - assim pensamos. Cônscios ou forçosamente, o silêncio é um exercício de humildade.

Óbvio que não estou renunciando ao debate ou ao diálogo. Afinal de contas, escrevi e publiquei este artigo. E a caixa de comentários abaixo não ficará desativada. Mas recomendo a prática do silêncio escolhido, tanto quanto a do debate franco e de questionamentos assumidos. Faz bem.

Somos seres complexos, e reconhecer essa condição é rumar ao simples, que sempre é genial e confortador. Não subestime o silêncio nesse processo.

domingo, 20 de agosto de 2006

A vida é curta


A vida é curta. Por enquanto, apenas 8 meses, dependurados na barriga em simbiose maternal. Aguarda o momento enquanto é segurado firme, a mãe segurando firme na barra do metrô para não cair. Os lugares, todos ocupados, incluindo os já a ela reservados.

A insensibilidade geral é larga. Bancos verdes, laranjas, sem preconceito de cor em honra à indiferença. A mãe se segura e os demais acomodam-se cegos, ou num fingimento cuja habilidade quase admiro.

O olhar da mãe é curto. Não almeja grandes conquistas, apenas um lugar naquele vagão. Um descanso exigido por lei natural e legitimado no direito, degolado na atitude ilegítima dos sentados. O olhar da mãe é curto e me corta. É comigo agora. Meu desespero em checar se realmente ninguém dos bancos reservados vai levantar é estimulante do meu erguer-me. Ela parece ter compreendido meu próprio olhar antes de mim: começava a deslocar-se em minha direção. Era hora de algo mudar.

A distância entre nós encurtou-se. Um homem no banco em frente a mim quase levita em marcha acelerada para preservar a vida curta e sua mãe, que senta à minha frente. Vejo seu rabo-de-cavalo a um palmo. Os sentados nos reservados poderiam hospedar-se num museu de cera. Estáticos gélidos de alma.

A viagem é curta e eu salto. Daqui a um mês ele vem à luz e me pergunto: em que lado se postará? Dos profissionais da frieza ou dos revoltados incomodados? Não saberá, por certo, que sua mãe participou do circo humano da dissimulação. Nem poderei relatar-lhe meu testemunho. "O mundo te espera, e cruel", eu diria.

domingo, 13 de agosto de 2006

PCC, mestre em Comunicação Social


Seqüestraram um repórter. UM repórter. Após centenas de ataques, outra centena de mortos, toques de recolher, paspalhices políticas e terror generalizado, o PCC resolve seqüestrar um repórter, funcionário do maior monopólio de comunicação do país. Após esse feito, seu vídeo de reivindicações, que fala da situação carcerária insustentável, é veiculado na íntegra, do contrário a pena de morte do repórter estaria assinalada.

É incrível que, até então, o noticiário só conseguia cobrir os momentos de pânico, influenciar ou relatar a repressão policial maior ainda, mostrar os chefões do PCC etc etc. Mas pouquíssimas vezes fizeram matérias sobre a situação carcerária do país, as condições para que ladrões de galinha ou de lojas de shopping se tornem monstros e que monstros nunca dêem meia-volta na sua vocação criminosa.

Mas no momento em que UM repórter da Globo é seqüestrado, todo o país é obrigado a ver o que os jornais teimam em não mostrar: as causas do problema.

Não discutirei aqui as origens de um criminoso, qual a melhor solução para a violência e a desigualdade social, ou coisa do tipo. Vou me ater ao fato da vez: como os principais representantes do PCC reiteraram sempre (incluindo Marcola na CPI do Tráfico), os ataques se repetem porque a situação carcerária é desumana, uma fábrica de bombas-relógio como a que estamos assistindo agora.

"Mas eles são desumanos também! Olha o que estão fazendo com cidadãos de bem! E eles não estão presos à toa!". Não estou negando isso.

No entanto, o sistema prisional brasileiro especializa-se dia após dia a piorar o que já está ruim. Imagine você juntar num cubículo para 12 pessoas cerca de 50 indivíduos com antecedentes criminais, de variados níveis e índoles. Além disso, trate-os como animais, abuse de sua autoridade diante deles. Há como conter essa panela de pressão por tempo indeterminado?

Esse é o tipo de cobrança que a sociedade também deve exercer sobre os governantes. Segurança pública não é apenas manter os marginais longe de nossas belas casas - é proporcionar condições para que os mesmos, se não forem ressocializados, ao menos não apresentem perigo iminente. E que não tenham motivação ou condições para isso. Prender e manter nas condições já referidas é fortalecer rebeliões futuras, quando a fúria será maior e mais organizada. É o que vemos em São Paulo.

Pois dessa parte da história a imprensa passa longe. Também não são abordados os casos (milhares de casos) de ladrões de pequenos furtos que já deveriam estar soltos e permanecem lá, pois não são Suzane von Richtofen para terem advogados acompanhando passo a passo os direitos de liberdade condicional etc que possuem. Ficam lá, sem esperança, e cujas únicas opções são a morte ou sobreviver por meio de facções como o PCC. Pioram, graças ao sistema prisional, que deveria nos dar segurança.

A imprensa encarna o espírito de classe média/média-alta que nos acomete hoje: bandido bom é bandido morto ou esculachado dia após dia. Não se percebe que esse tipo de postura, estendida aos governantes e suas administrações penitenciárias, é a pólvora perfeita para incendiar o Morumbi intocável. É muita ignorância.

Assim, qual é a maneira de mostrar à sociedade as causas de problemas tão graves de nosso sistema de segurança pública? Seqüestrando um repórter da Globo. Bin Laden faz escola, e a imprensa não aprende.

Como jornalista, fico temeroso em perceber que os canais de intermediação - a mídia -são cada vez mais desprezados para que conheçamos nosso contexto. E por pura incompetência e cegueira de seus donos, fingindo que vivem num mundo diferente por terem mais dinheiro. Ilusão que o PCC tem se especializado em desfazer.

Oro para que o repórter não pague com sua vida pela teimosia de governantes e donos de jornais.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Geraldo Lopes, jornalista


Talvez você não o conheça. Mas se você me conhece, recomendo o artigo que segue.

Repórter policial por mais de 30 anos, Geraldo passou por jornais como a Última Hora, O Globo, revista Manchete e foi editor de um marcante programa de TV: o Documento Especial, com reportagens urbanas e qualidade cinematográfica.

Eu, que desde minha 8a. série já queria ser jornalista, pude conhecer Geraldo quando trabalhei na Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Cultura do Rio. Ele já tinha mais de 50 anos e como tantos outros de sua geração, não conseguia mais emprego nas redações. A tal lógica burra do capitalismo: manda embora os mais velhos por terem maiores salários, e assim cortar custos. Desprezam a experiência e o conhecimento que os então demitidos acumularam e ainda tentam manter a qualidade do produto. Impossível.

Geraldo foi um instrumento de Deus para confirmar minha vocação jornalística. Ouvindo suas histórias (também falava em tom de reportagem) e lendo seus livros (era especialista em sistema prisional, ganhou o prêmio Jabuti em 2001) fui conhecendo-o melhor. E me conhecendo também. Ao conversarmos e ao ouvi-lo, vi que era aquele espírito de repórter que eu também possuía. Mesmo que nunca trabalhasse numa redação, eu seria jornalista sempre. Assim como Geraldo era, independente de seu momento.

Também foi um pai para mim, um orientador, alguém a me inspirar, que investia em minha carreira jornalística com conselhos e estímulos. "Pô, Lessa, você vai fazer 22 anos mas tem estrada de 40!", disse-me Geraldo há 4 anos.

Deixamos de nos ver por mais de 2 anos, e ao nos reencontrarmos ele descobriu que tinha câncer de estômago. Tentou os tratamentos tradicionais e um alternativo em Cuba. Não resistiu, falecendo em 20 de junho passado.

Há pouco soube que em algum país do Oriente (Japão ou China, não lembro), quando alguém morre, é feito um desfile em praça pública. Todos os familiares e amigos se vestem com as melhores roupas, dançam e cantam as músicas mais alegres, chamam a atenção dos passantes. Depois dos mais animados que abrem o desfile, vem o caixão. E após ele mais gente cantando e dançando. Em vez de lamentarem a morte recém-chegada, celebram a vida do que partiu. E que deixou saudade, marcas que serão para sempre lembradas.

Meu artigo celebra a vida de Geraldo Lopes. Permitindo-me um pouco de surrealismo, me multiplico em dez, cem, mil iguais a mim cantando e dançando na Av. Presidente Vargas, carregando o féretro. Paro o trânsito, os trabalhadores dos prédios olham e percebem que a celebração deve ser de alguém importante, num tempo em que a fama teima em ser inversamente proporcional ao diferencial das pessoas em nós.

As matérias de Geraldo são projetadas no céu, e todos suspiram nostalgicamente por um jornalismo que escrevia pensando em gente, e não em números. É um sentimento natural, uma vez que Geraldo não foi mais um. Foi um. E não foi pouco.

sexta-feira, 5 de maio de 2006

O fato

A necessidade de se mostrar nas letras. O incômodo de olhar a folha em branco, a caneta em punho, o coração pulsando por tantos motivos e apenas uma certeza: escrever.

Mas escrever o quê? Não sei, o que também me parece absurdo. Tenho uma lista de histórias para contar, mas não agora, não sei por quê. É mais transpiração e atendimento ao chamado de macular o papel branco. Como pode, um papel branco, branquinho, sem nada... escrito? É quase uma ofensa, uma insinuação insolente, desafiando aquele que não vive sem escrever, ainda que não escreva para viver. E ofendidos nós caímos na provocação, e não deixamos aquele marrento papel em branco em paz. Vêm os rabiscos organizados que lapidam a auto-estima do escritor.

E o impressionante é que se consegue escrever sem abordar nenhum assunto diretamente, apenas descrever o exercício metalingüístico da escrita pela escrita. Porque é isso que "mexe" com a gente, o ato de produzir as letras que urgem, a despeito de nosso momento ou contexto, se eles permitem ou não que escrevamos. E quando somos vencidos pela impossibilidade, a angústia reina em dobro: pelo fato de não podermos escrever e pelo desespero de que a inspiração/transpiração passe, erradicando a idéia, até então, digna de ser escrita.

Terror!

Pode ser pior, acredite. Podemos ter uma tendinite já aos 20 e poucos anos e ela doer tanto ao teclado ou à caneta, trazendo uma interrogação para possibilidades futuras de escrever (a não ser que ainda hoje se resolva o agravante da doença). Um obstáculo paradoxalmente benéfico, pois quando confrontados é que sabemos do que somos feitos, sabemos qual é a nossa busca. E a inconveniente tendinite me leva ao encontro da vocação inescapável, assunto que já mencionei por aqui tantas vezes. O espinho me traz a glória, e é impossível não sorrir diante desse fato, apesar do braço dolorido.

Assim prossegue a dança entre os sonhos e as possibilidades, revelada aqui nesse microcosmo de alguém com sua caneta e seu papel. Meus tendões e a lógica louca pós-moderna, que faz do excesso de tudo uma virtude inconseqüente e da qualidade de vida antes, durante e depois do pão de cada dia, um crime hediondo e nada lucrativo. Eu não pertenço a esse mundo, eu só pertenço a mim mesmo.