segunda-feira, 7 de abril de 2008

A flama, a chama, e os inflamados chamam a atenção

As Olimpíadas de Pequim são o mais constante alvo de protestos contra o desrespeito aos direitos humanos na China. A ameaça de boicote por parte de chefes de governo europeus, a manifestação dos Repórteres Sem Fronteiras (contra o desrespeito à liberdade de imprensa), e agora o apagão forçado da tocha.

A discussão da vez é se o esporte é um meio legítimo para manifestações do tipo. O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Artur Nuzman, é contra o boicote, por considerar um prejuízo à carreira dos atletas que se preparam há anos para os Jogos.

O jogo EUA x Irã aconteceu na Copa de 2002 apesar do contexto político extremado entre os dois países. Se ali foi louvada a não-interferência dos fatores externos na esportividade, por que seria mais aceitável uma postura, fruto de atitude política, que traz conseqüências aos atletas - como um boicote?

O protesto dos atletas nas Olimpíadas de 1968, com as luvas pretas nas mãos, aconteceu com a prova já encerrada e os dois corredores já tendo ganhado a competição por seus méritos. Perderam as medalhas por causa disso. Justo ou não? A leitura geral dos organizadores do esporte é que a política não pode se misturar.

Mas o que parece motivar os manifestantes atuais é que, como qualquer outro país, a China estará capitalizando (em todos os sentidos) em cima do sucesso dos Jogos de Pequim, com toda a visibilidade planetária. E assim, questões não resolvidas (ou mal-resolvidas) como a violência no Tibet e o desrespeito aos direitos humanos serão solenemente ignoradas quando o mundo inteiro estará de olho na pujança chinesa.

Aliás, cada país assina um termo comprometendo-se a respeitar (ou resolver) várias questões humanitárias e sociais. Isso é sério? A China, pelo visto, não poderia então realizar os Jogos. É o money envolvido no globalizado e lucrativo esporte mundial...

Então, a lei que parece valer é: se o esporte denuncia os descaminhos políticos, não pode misturar. Mas se for pra aproveitar a mobilização e a simpatia mundiais que o esporte proporciona - e por tabela mascarar realidades - pode.

O importante é competir... com o quê?

domingo, 30 de março de 2008

Eu conheci Wilson Simonal

Podemos enumerar a perder de vista as invenções do homem que trouxeram males à sociedade: bomba atômica e armas em geral, guerras, segregação, esquemas corruptos... Mas é preciso saudarmos a invenção que é o documentário.

Deslocado no tempo em relação ao objeto de sua investigação, o documentário tem a capacidade de fazer justiça e complementar o trabalho que o jornalismo diário por si só nunca conseguirá: falar com muitas fontes (a tempo), permanecer para ser visto e revisto, estar fora do calor do momento para analisar melhor o que aconteceu naquele período.

É claro que o documentário também corre o risco de cristalizar injustiças. Porém, na minha opinião, não é esse o caso de Simonal - ninguém sabe o duro que dei. Meus conhecimentos sobre o cantor dos anos 60/70 se resumiam a dois fatos: uma aparição no programa da Hebe e a fama de delator à época da ditadura. Recentemente o Burger, colega de trabalho e conhecedor musical eclético, me apresentou a um CD duplo de Wilson Simonal. Ali comecei a saber que foi excelente cantor, original, inovador, cheio de suingue na voz e no jeito. Gostei do que ouvi.

Mas só posso dizer que conheci Wilson Simonal após ver o referido documentário no festival É tudo verdade (com certeza entrará em cartaz nos cinemas, pois é produzido pela Globo Filmes). Contando com uma boa produção e edição - a parte gráfica é impecável - o filme mostra como surgiu Simonal e sua fenomenal trajetória, seu carisma com as massas de seus shows. Enfim, aonde o talento pôde levá-lo, sem deixar de lado a marra de quem já tinha sofrido na vida e julgava merecer a super volta por cima. E lá em cima ele estava quando surgiu a acusação de delator, após um episódio mal-explicado com o seu contador da época.

O filme mostra como Simonal era um artista impressionante e autêntico, e como um episódio em meio ao contexto extremista da ditadura (no qual muitos parecem estar até hoje) pôde manchar uma carreira. Mais que isso: manchar uma vida, com extrema mágoa. Como disse um dos diretores: "a anistia não veio para o Simonal". É de chorar o fato de que ele se escondia nos shows dos filhos para não prejudicar a carreira dos garotos.

Segundo o que vi no documentário, Simonal foi inocente nessa história. Marrento e meio inculto, mas inocente - ainda mais se levarmos em conta a desproporcional repercussão do episódio, atravessando décadas. Ele foi vítima de um lichamento midiático nada incomum nos dias de hoje (Artur da Távola dá um depoimento brilhante a respeito), um comportamento que os profissionais da imprensa não podem mais se sujeitar a fazer. Nem os espectadores aceitarem ou reiterarem, abusando da intolerância e do preconceito. Exemplar a galera do Pasquim admitindo seu patrulhamento, e suas conseqüências.

Justificando minha ode ao documentário, a partir desse filme está resgatada a história de Wilson Simonal. Eu pude conhecer a genialidade do cantor diante de uma platéia, admirar em tela grande e som digital a voz sem igual, testemunhar seus erros, seus dramas e seu legado. Além de mim, muitos poderão ter essa sensação (mesmo os contemporâneos dos acontecimentos), graças a alguém que teve a idéia de contar isso por meio de um documentário.

A impressão que se tem é que, mesmo depois de morto, Wilson Simonal vestiu o azul do filme, e sua sorte então mudou.



ATUALIZAÇÃO: Como post postado não tem volta, resta-nos atualizar o repensar. Pensando mais friamente, acho que Simonal não foi inocente na história do contador. Porém a atitude de relegar seu talento ao ostracismo foi tão grave quanto a malandrangem do cantor com coisa séria. Tantos outros artistas possuem tantos deslizes fora dos palcos, e nem por isso desprezamos sua arte. Foi desproporcionalmente cruel o que fizeram com Simonal.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Ela ainda mexe com as estruturas

Fiquei curioso quando vi a manchete Lan house é condenada por crime de cliente em SP e cliquei pra ler a matéria. Era isso mesmo: um sujeito usou a rede wireless (sem fio) do cyber café pra acessar a internet e enviar um e-mail ofendendo pessoal e profissionalmente uma administradora de empresas. Como o agressor não utilizou um computador fixo do café, não foi possível localizá-lo. A ofendida resolveu então processar o café, e ganhou.

Deixa ver se eu entendi: a lan house foi considerada culpada por oferecer um serviço a mais para seus clientes? A rede sem fio era pra qualquer um que ali estivesse. Seguindo o raciocínio da administradora e do juiz, acho que vou processar a Vivo pelo trote que meu pai levou semana passada. Meliantes ligaram pra ele dizendo que estavam me seqüestrando, e aparecia "número confidencial" (meu pai resolveu atender por não saber quem era). A Vivo é que ofereceu o serviço de rede permitindo que a má fé anônima ameaçasse meu pai...

O episódio revela como a internet ainda mexe com as estruturas consolidadas de mídia e sociedade de nosso tempo. O que já existe na raça humana é amplificado pelo alcance e potencial da rede, mas no fim botam a culpa na rede! É a velha história de tirar o sofá da sala.

"Considero a decisão muito importante, porque dá mais segurança a todos que usam a internet", afirmou o advogado da administradora, Renato Opice Blum, especialista em Direito da Internet. Será mesmo? Qualquer mal-intencionado poderá acessar uma rede sem fio num cyber café e cometer seus crimes tranqüilamente, pois agora há jurisprudência para se processar o estabelecimento. E estamos resolvidos.

A continuar assim, os cyber cafés podem se sentir inibidos em oferecer o serviço e teremos um retrocesso em matéria de desenvolvimento da comunicação. Aposentaram o computador após a ameaça dos hackers? Não, procurou-se melhorar a segurança e a investigação de crimes pela internet. Diversos exemplos poderiam ser elencados aqui, com o mesmo sentido: em vez de atacar as causas e melhorar a prevenção, prefere-se punir o avanço tecnológico (hoje, a internet é a bola da vez). Endurecem a lei pensando que isso é suficiente para conter os criminosos - outro vício de nossa sociedade.

Não duvido que daqui a um tempo os juízes da nova geração, mais ambientados com as possibilidades da internet (para o bem e para o mal), comecem a rever tais sentenças. A Polícia Federal tem ampliado suas habilidades no combate aos crimes na rede. E os parlamentares e seus serviços jurídicos precisam estar preocupados em legislar para o nosso tempo, sem retrocessos.
A montagem do ano (até agora)






quarta-feira, 26 de março de 2008

A origem do logo das Olimpíadas de Pequim 2008






segunda-feira, 24 de março de 2008

Reconhecimento

O caso de Joanna Maranhão já rendeu dois posts aqui no Lessa27. Segue mais um, dessa vez reconhecendo o trabalho da imprensa brasileira.

Hoje o portal de notícias G1, da Globo, deu a notícia da audiência de conciliação entre Joanna, sua mãe e o ex-técnico. Ele processa as duas por difamação ao ter seu nome revelado à imprensa como possível suspeito de abuso sexual.

Perceba que em nenhum momento a matéria cita o nome do técnico. Assim deveria ter sido desde o começo. Não adianta transferir a responsabilidade da primeira divulgação para a mãe de Joanna, se a reverberação geral e pública se dá pela imprensa. O direito à informação é tão universal quanto o direito à presunção de inocência.

domingo, 23 de março de 2008

Anarquia!

Outro verão carioca, outra ofensiva contra a dengue (na defensiva, já que o mosquito prolifera-se e é preciso força-tarefa nacional etc). Com uma novidade inusitada: as crianças foram orientadas a não usar bermudas, já que são as mais atacadas e o aedes voa baixo. Sebo nas canelas! Repelente seria melhor.

O fato é: em pleno verão carioca, chegamos ao ponto de orientar que não se use bermuda! Sinto-me pessoalmente atingido com a notícia. Um dos sonhos de minha vida é trabalhar vestindo o tropical traje, o mais adequado para nosso clima. No entanto, sou obrigado a usar calça comprida de segunda a sexta (ao menos enquanto a moda da saia permanece entre as mulheres...). Isso sempre me enervou.

Lembro de alguns episódios em que a lógica atitude de usar bermuda me privou de meus direitos. Pra começar, nenhum prédio público permite a sua entrada "daquele jeito", e descobri isso da pior maneira. Não lembro qual, mas um importante documento que precisava entregar ficou para depois, devidamente acompanhando de mais dois palmos de tecido. Era o Lessa adolescente dando-se conta da crueldade do mundo adulto.

Já na faculdade, minha turma foi visitar a redação e a gráfica do jornal O DIA. Previamente sonhei com a visita, tal e qual uma criança (de bermuda!!) sonha com o passeio da escola ao zoológico (nenhuma alusão aos profissionais da redação, ok?). No calor do momento, lá estava eu de bermuda. Não pude entrar. Não conseguia admitir que um lugar plural como um jornal meio classe média, meio popular fizesse a mesma carrancuda distinção para seus visitantes. A cena de todos os meus colegas adentrando o prédio da redação enquanto eu argumentava com o segurança dói até hoje. Assumo que chorei de raiva, e me restou visitar a gráfica com o sincero desejo de parar as máquinas... com uma bomba atômica.

Há quem diga que o descolado Google não possui uma regra geral da vestimenta no trabalho. No fundo, sabemos que o importante é fazermos o trabalho bem feito. As aparências contam? Contam, mesmo que você não queira ou perceba que não faz sentido um pensamento assim. Contam muito e muita coisa. Só não entendo por que a bermuda virou o vilão universal.

Por motivos de saúde - e descaso das autoridades competentes, como bem aponta o blog amigo Palavras do Exílio - é aconselhável evitar a bermuda. Sorry, mas o comportadinho aqui vai brincar de anarquista, sabendo dos riscos pessoais envolvidos (como os autênticos anarquistas também sabiam). Bermuda é indispensável para a minha sanidade mental, um carioca que não suporta a gota de suor escorrendo pela canela e o "abafa" desnecessário do jeans a toda prova.

Como já dizia uma antiga assinatura de e-mail, "qualidade de vida é prioritária a qualquer tipo de regra". Menos tecido, por favor.

ATUALIZAÇÃO: vale ler o excelente e conciso texto do sociólogo Léo Lince sobre a dengue no Rio.

quarta-feira, 19 de março de 2008

O bom exemplo

Há pouco postei sobre o caso da nadadora Joanna Maranhão, questionando a atitude da imprensa ao divulgar o nome do técnico suspeito de abuso sexual.

Do outro lado da questão, os jornais ingleses parecem estar interessados em rever seus conceitos (e olha que lá nem teve Escola Base):

Jornais pedem desculpas aos pais de Madeleine

Madeleine é a garotinha seqüestrada que continua desaparecida. A certa altura, os jornais alardearam a suspeita de que os pais estariam envolvidos com o rapto.

Há esperança.
Questão de Estado

A agonia do Parque Aquático Maria Lenk terminou. A construção feita especialmente para o Pan 2007 corria o risco de ficar sem administrador e rumar para o fim, mas o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) assumiu a gestão pelos próximos 20 anos. Por mais que o assunto aplique-se às páginas esportivas dos jornais, é um exemplo de como anda a questão do Estado e suas nuances. Vejamos o contexto.

É chover no molhado falar do amadorismo de nossas autoridades no planejamento e realização do Pan 2007. Este blog já publicou vários posts sobre o assunto. No entanto, vejamos o contexto que o Parque Aquático surgiu: a cidade do Rio de Janeiro precisava dese tipo de instalação para sediar a competição (o parque aquático Júlio de Lamare, no Maracanã, não dava conta). Tal e qual o Engenhão e o velódromo da Arena Multiuso.

Construído e devidamente utilizado para o Pan, a pergunta que não queria calar desde antes voltava à tona: quem vai administrar o Parque? E quando se diz administrar, é claro que se fala também de assumir os custos de manutenção a fim de investir nas futuras gerações de nadadores.

A Prefeitura já tinha repassado ao Botafogo a administração do Engenhão, recebendo em troca um aluguel quase simbólico. E quis fazer o mesmo com o Parque Aquático, que foi oferecido aos grandes clubes do Rio, nas condições descritas no parágrafo acima. Com um detalhe a mais: se a Prefeitura quisesse realizar/promover competições ali, estaria isenta de pagamento de taxas, aluguel etc. Mamata certa, desonerando os cofres públicos (depois da gastança exorbitante da construção).

Pois nenhum clube topou a enrascada. Tampouco alguma empresa quis ter seu nome associado à natação, um esporte que não dá tanto retorno de imagem quanto o massivo futebol, por exemplo.

Diante disso, restava ao Parque Aquático a deterioração. Como o Rio quer sediar as Olimpíadas 2016 e esse tipo de abandono de instalações esportivas "pegaria mal" para as ambições do COB, este assumiu a administração. O mesmo deve ocorrer com o velódromo. Porém, é certo que vão buscar patrocinadores pra sustentar a gestão.

Onde está a questão de Estado nisso tudo? Simples: quem tem a obrigação de garantir os direitos a saúde, educação, cultura, lazer, habitação para a população? O Estado. Há empresas que atuam nesse sentido? Muitas. Porém, apenas se houver algum tipo de retorno para seus investimentos. Está na natureza das empresas buscar o lucro, e nada mais natural que pensem assim quando aplicarem suas quantias. Elas não possuem a obrigação que o Estado possui.

Quer dizer que o Estado deve gastar de qualquer jeito o dinheiro dos impostos? Claro que não (aliás, esse aspecto sempre é apresentado, erroneamente, como o extremo oposto da atuação das empresas). O Estado não pode se omitir no que lhe cabe, nem tampouco terceirizar suas responsabilidades. As empresas podem, pois sua natureza é outra.

Foi esse o "nó" do Parque Aquático, assim como de todo o planejamento pro Pan 2007. E assim é com tantos outros exemplos referentes à administração da coisa pública. Irritar-se com as empresas quando elas se retiram de uma cidade por não estar obtendo os resultados esperados? Bobagem. A cobrança deve sempre ser dirigida, antes de tudo, a nossos administradores e legisladores, que possuem a faca e o queijo na mão (como têm feito desde a década de 90) para diminuir o "tamanho" do Estado (ou para gastar mal o que é recolhido nos impostos). Ora, não está se falando de tamanho, mas de responsabilidades que nunca mudaram e nunca mudarão. As conseqüências desse contexto para a população é que mudam, drasticamente, quase sempre pra pior.

"É um grande alívio o COB assumir [o Parque] porque nós não somos gestores de esporte", disse o prefeito do Rio, Cesar Maia. Não são? E o que ele espera para extinguir a Secretaria Municipal de Esporte e Lazer? Se não são gestores de esporte, o que fazem lá?

O prefeito acrescentou que o custo anual do Parque e do velódromo é de 10 milhões de reais. Ou seja, se foi um alívio, é porque a despesa está pesando nos cofres da Prefeitura. E se está pesando, é outra confirmação de que não houve planejamento algum para o depois.

E se continuar nessa toada? A Prefeitura poderia abandonar a administração do Hospital Municipal Miguel Couto com as mesmas justificativas do Parque. "Nós não somos gestores de saúde". Alguém contestaria? O prefeito estaria sendo coerente, já que ninguém parece estranhar que o Estado não seja responsável por gerir o esporte. E se o Governo Federal admitir que as universidades públicas são um peso pro orçamento? "Nós não somos gestores da educação". Faria sentido.

Portanto, chega de simplismos e mascaramentos ao abordarmos a discussão do papel do Estado no mundo contemporâneo. O papel sempre será o mesmo, assim como o das empresas. Resta apenas que a população esteja ciente das nuances de discurso.

segunda-feira, 17 de março de 2008

A novidade velha

Fato da modernidade: passamos mais tempo no trabalho do que em casa, mesmo não sendo viciados nele (os famosos workaholics). Ok, se não é mais tempo, é tanto quanto em casa (desconto as horas de sono, indispensáveis para ambos os ambientes). O certo é que nossos colegas de trabalho convivem conosco como se fossem família. Acompanhamos suas alegrias, dramas e demais episódios do cotidiano tão somente porque somos parte desse cotidiano.

Você tem seus amigos, aqueles que se abrem pra conversar ou com os quais você se sente à vontade para fazer o mesmo; outros são apenas companheiros de papo pro almoço ou pós-rodada de futebol; alguns são apenas de bom-dia/boa-tarde/até-amanhã. No entanto, se algo de diferente, extraordinário, acontece na vida de qualquer um desses, você sabe que aconteceu. E, bem ou mal, você acompanha.

Nos últimos meses, em meio a tantas mudanças em nosso setor, uma colega teve filho, outra engravidou e um descobriu que seria tio. O acontecimento é o mesmo - o nascimento de uma criança - mas as experiências são diferentes. Afinal, as pessoas são diferentes e seus contextos também.

Pois tem sido impossível não acompanhar as impressões de cada um sobre a novidade velha. Captamos as emoções, as reações, as preocupações, as expectativas, as corujices. Somos envolvidos de maneira espontânea, e nos deixamos levar pela felicidade alheia.

Não há nada tão comum quanto o nascer de uma vida. Apenas o fim da vida. Neste o desconhecido nos espera (e talvez por isso tenhamos tanto medo), mas naquele conhecemos bem o que vem por aí - apesar dos pais (e tios) de primeira viagem não concordarem muito... Sabem que vão aprender um caminhão de coisas, por mais que na teoria já tivessem ciência disso e de tantas informações. Uma perspectiva que assusta ao mesmo tempo que enche as veias de coragem pra viver logo, aproveitar logo, se saciar logo.

Mas sabemos que vem por aí uma criança, que nascerá de parto normal ou cesariana, que fará os envolvidos se postarem boquiabertos diante de fato tão corriqueiro da espécie humana. Os nenéns são a crônica encarnada: é o cotidiano enfatizado para descobrirmos a riqueza do que nos cerca. E os colegas de trabalho permanecem de plantão inevitável, sabendo que haverá ainda mais o que dividir subitamente.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Paraty: guia rápido

Aproveitando a invenção de estilo de Graciliano Ramos, segue abaixo um guia rápido para quem pensa (ou não pensa e pode mudar de idéia) em viajar a Paraty (RJ):

Compre as passagens pela Costa Verde. É a única empresa que te leva para a cidade. Prepare-se, o ônibus é "cata-corno". São 4 horas de viagem, semi-leito. Muitas curvas antes e depois de Angra dos Reis, cuidado com o enjôo. Ao chegar, facada do táxi: 15 reais por 2 minutos de corrida. Reserve com antecedência hospedagem na pousada Arte Urquijo. Ela conta com apenas seis quartos. É muito bem decorada e aconchegante. Também fica perto do cais, de onde saem as escunas para passeio. O pessoal de lá é muito hospitaleiro e simpático. Welcome drink e sandálias de lembrança. Se quiser suco de maracujá, pode escolher o maracujá antes. Se for num fim de semana, tire o sábado para as cachoeiras. Só se chega nelas com jeep tour. Água gelada. Pedras que podem surpreender seus pés. Mas é só ir devagar. Pra quem gosta, alambiques no meio do caminho. A comissão das pingas compradas alegra o guia. Irrita quem quer mais água corrente e menos aguardente. À noite, pegue um mapa para andar no centro histórico. Paraty fazia parte do Caminho do Ouro e era assediada por piratas. Assim, a cidade parece um labirinto: ruas e casas e iguais, pra confundir os invasores. Algumas casas possuem fachadas falsas. Se ainda não foi a Buenos Aires, vá ao restaurante Ateresa. Peça o chorizo: 300g de carne. Conheça o garçom mais bem-educado da cidade (por ironia, argentino). No domingo, pegue a escuna O Nome da Rosa, no cais atrás da pousada. A equipe do barco é muito simpática, e o trajeto é dos maiores e melhores. São 5 horas por 2 ilhas e 2 praias. Comida boa feita pela Baiana. A Ilha do Algodão é um paraíso. A mais distante e a mais bonita. No meio do trajeto, veja os restaurantes-ilha que possuem chalé. Programe-se para uma noite lá na próxima viagem. Dê aquela "morgada" no barco enquanto ele volta. Faça o checkout com dor no coração. Em frente à rodoviária, coma na pastelaria Wu. Um atendente chinês conversa com você. Metade das palavras são um mistério. Ou ele quer praticar português (fracassa) ou é apenas solitário mesmo. Prepare-se pra voltar - impossível. Mas deixe um gosto de quero mais.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Aconteceu em Londres

O alto mendigo estava deitado com seu cobertor numa calçada. Uma mulher compadeceu-se dele e foi entregar-lhe um prato de comida numa sacola (algo como a nossa popular "quentinha", só que britânica). Deu meia-volta e seguiu seu rumo, consciência tranqüila pela filantropia espontânea e sincera.

O mendigão levantou, andou em direção à mulher e disse, num tom de lorde inglês:

- I beg your pardon, madam, but I've already eaten.
(A senhora me perdoe, madame, mas eu já comi).

E devolveu a quentinha para a estupefata dama inglesa, em seguida retornando à "sua" calçada.

(Para os que duvidam, a cena foi testemunhada por um brasileiro que gargalhou brasileiramente no metrô de Londres ao lembrar do ocorrido, sob os olhares de estupefatos ingleses.)

segunda-feira, 3 de março de 2008

Pelo bom jornalismo, usemos o Google!

Calma. Não penso em ratificar a preguiça de muitos que, em vez de apurarem as informações com afinco e falarem diretamente com as fontes, preferem "Googlar". Acontece que a revista Veja há muito abandonou o bom jornalismo que lhe diferenciava para ser um panfletinho medíocre feito por gente idem. Quer provas? É só acompanhar a série do jornalista Luis Nassif sobre as artimanhas decadentes da maior revista semanal do país.

E quequi Google tem a ver com isso? Simples: o Blog do Bender lançou a idéia de fazer a série de Nassif ser mais difundida por meio de uma "Google Bomb": quanto mais gente postar em seus blogs e sites a palavra "Veja" com o link da série, mais ela vai aparecer entre as mais buscadas do Google.

Então, fiz minha parte (ainda tem o link aí do lado).

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

A escrita bate papo

LESSA - Que texto esse do Fausto Wolff, hein?
AMIGO - Muito bom, né?
L - Os ferrados serão imortais...
A - É... Será que eram grandes porque eram ferrados, ou ferrados porque grandes?
L - Tudo bem que pra um trilhão de ferrados aparece um imortal...
A - Pois é. Apenas alguns conseguem transformar a dor que lhes vara a alma em arte. O que por si só, deve ser uma tortura. Se para produzir arte estando tudo bem já é difícil...
L - Escrever dói. Ou, se você sente dor, sai a escrita. A boa escrita, com alma (não que eu seja masoquista).
A - Sei. Mas ao mesmo tempo é preciso um certo distanciamento diante da dor, porque se você se envolver demais na hora de escrever (pelo menos no meu caso), a coisa sai sem qualidade.
L - Esse distanciamento é exíguo, não pode ser demais nem de menos. Mas, pelo menos comigo, preciso que algo me mova a escrever. Uma descarga de intensidade - que é muito comum na dor.
A - Ah, sim, concordo. Mas eu preciso ter um certo distanciamento, como se tivesse que encapsular a dor para poder olhá-la mais atentamente, sem deixar o sentimento da hora se esvair.
L - Mas a euforia pode causar isso também.
A - Concordo de novo.
L - Se o sentimento da hora se esvai, acabo não escrevendo. Por isso meus artigos são muito datados. O que confirma minha vocação jornalística.
A - Entendo. Por isso que às vezes tento escrever no calor da emoção apenas para registrar os sentimentos. Quase um fluxo de consciência, para depois, se quiser alguma coisa coisa com o texto, trabalhá-lo.
L - Eu escrevia no Word pra depois postar no blog. Hoje, percebi que escrever na internet mudou um pouco a forma do meu texto, e que é muito bom escrever direto no Blogger. Em compensação, não tenho arquivado os textos em Word, isso é ruim.
A - Tem muita coisa que escrevo ainda em papel, coisas que não bostejo (publico). Um caderno com coisas mais pessoais.
L - É o seu "Livro Aberto" (à la Fernando Sabino)...
A - Talvez.
L - Eu também tenho algumas anotações assim, que comecei a fazer para "me ler". Teve uma época em que eu não conseguia lidar com meus avós e tinha um milhão de coisas na cabeça. Resolvi comprar um bloco pautado e viajei pra Cabo Frio, pro niver da minha madrinha. Passei a festa inteira escrevendo no bloco, sem parar.
A - Eu também faço esse registro de problemas e épocas. Levei um na minha última viagem sozinho.
L - A sogra da minha madrinha se espantou e veio me perguntar o que eu tanto escrevia sem parar...
A - Hahahahaha
L - E, pra completar, um professor dela veio fazer a mesma pergunta... com jeito de cantada.
A - Epa!
L - Pois é... que situação! Mas o bloquinho tá lá, cheio, em breve vou reler.
A - É uma ótima experiência.
L - Depois enchi mais outro, que era preenchido esporadicamente. Às vezes a gente não sabe o que está se passando conosco e - incrível! - você descobre quando a caneta vai riscando o papel.
A - Exato! Os problemas acabam entrando em perspectiva, e o que parecia um dragão é apenas uma lagartixa.
L - Pois é, eu não deixo de ficar impressionado. Mas mesmo que não virem lagartixa, ao menos você se sente menos cego em tiroteio...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Um Maranhão de dúvidas

Foi tenebrosa notícia quando a nadadora Joanna Maranhão revelou que sofreu abuso sexual por parte de seu técnico quando ela tinha apenas nove anos. Imediatamente, começaram a surgir reportagens não só sobre o caso, como também sobre a confiança dos pais de atletas nos técnicos de seus filhos (que não raro começam a carreira cedo).

É complicado. Um assunto desses requer muita sensibilidade e cautela por parte da imprensa na hora de tratar a público. Um alarmismo sem necessidade é passo certo para a paranóia. O caso de Joanna é exceção, minoria ou corriqueiro? É preciso uma boa apuração para que o público não pense que isso ocorre a torto e a direito, e assim os pais ganharem mais um motivo pra não dormir à noite.

No entanto, a mãe da nadadora botou a imprensa em xeque, de uma maneira ainda mais complicada: revelou o nome do técnico que abusou de Joanna. E aí? Publica-se ou não a informação? A imprensa não tem como apurar (ao menos, ainda) se a denúncia procede ou não.

Porque uma coisa é certa: acabou a carreira da pessoa citada pela mãe de Joanna, que ainda sofrerá olhares e desconfianças pro resto da vida. Como dizem os princípios do direito, todos são inocentes até que se prove o contrário - é o que o técnico citado tentará fazer. Mas o fato de já ter sido divulgado em massa que ele pode ter cometido um dos maiores pecados universais da contemporaneidade (abuso sexual de crianças) não tem volta.

Lembram do caso da Escola Base (que deveria ser lembrado sempre nas redações)? Na ocasião, um casal que era dono de uma escola infantil foi acusado de abusar sexualmente dos alunos. O circo da mídia foi criado, a escola faliu, os acusados foram publicamente condenados e... nunca houve provas. E nem a maior das erratas vai apagar a suspeita na reputação dos dois, fora os prejuízos emocionais.

E se for provado que o técnico mencionado foi falsamente acusado? Provavelmente, a mãe de Joanna poderá ser processada. Mas e a imprensa que espalhou a informação de uma fonte, prejudicando um cidadão? Vai retificar a informação na mesma intensidade (primeiras páginas, várias reportagens etc)? Se o fizer, vai adiantar?

Volto à pergunta: a imprensa deveria divulgar o nome? Se não o fizesse, seria sonegar informação ou não? Suicídios não são noticiados pelo fato de não causarem publicidade que "incentive" novos atos do tipo - é um dos poucos acordos universais que a imprensa cumpre. No caso do técnico de Joanna, da Escola Base, não deveria existir o mesmo cuidado? A não ser, claro, que já estivesse devidamente comprovada a culpa.

A intenção da mãe de Joanna era pôr um ponto final no assunto. Só se for pra ela, porque para o técnico e para a imprensa, a história - e os questionamentos - estão apenas começando.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Tá explicado.

(Foto encontrada num blog bem legal, de uma amiga bem legal: www.bibidebicicleta.blogspot.com)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

NASA, confete e serpentina

Férias com chuva? Carnaval com chuva? Não desejo isso a nenhum incauto. Ao despertar, chuva. Durante o dia, chuva. Ao dormir, chuva. Ida ao banheiro de madrugada, chuva. Chuva, chuva, não pára de chover e o teto do apartamento é o limite. Reconheço: o aconchego do lar é aconchegante com a ajuda da TV a cabo e do DVD. Ao longe, blocos de carnaval urrando suas alegrias até os décimos-vigésimos andares do bairro, mesmo debaixo d'água.

Os blocos de gente assumidamente disfarçada ganham terreno (concedido pelas autoridades) e são espaçosos. Nada contra, é feriado, carnaval, tem que ser assim. Além do mais, não dirijo e não saí de casa, praticamente. Não me incomodaram (solidarizo-me com os que discordam de mim nesse aspecto).

O espaço do carnaval imiscuindo-se a nosso espaço, os foliões descem de casa, tomam as ruas, se fazem. Os sambas, as marchinhas, os gritos de incentivo via microfone do trio ou do puxador da rua viajam pelas ruas da cidade. É carnaval, e os blocos são os embaixadores/repórteres desse acontecimento inescapável ao Brasil.

E a NASA faz 50 anos.

Hein?

A NASA faz 50 anos, você não sabia? Eu acabei de saber. Pra comemorar, vão transmitir pelo espaço a canção Across the Universe, dos Beatles. Segundo a agência espacial, a velocidade alcançada será de 300 mil quilômetros por segundo. Se você acha rápido (e é), veja o quão insignificantes somos: daqui a 430 anos a canção chega na estrela Polaris. A escolha é óbvia, desde o título até sua letra, e faz 40 anos que ela foi gravada (ouça aqui).

Pois veja só: música conquistando o espaço, como acontece com os blocos de carnaval. E o digno espaço sideral só poderia receber mesmo uma música dos Beatles. Serão 430 carnavais do universo sustentados pelo bloco de Liverpool, seja qual for o clima. Eu, que nesse 2008 fiquei em cinzento cativeiro ainda antes da quarta-feira, acabei sabendo de tudo isso enquanto ouço a farra lá da rua.

Quem dera se eu pudesse descer do prédio e dar de cara com os Fab Four atravessando a rua à la Abbey Road... Ou que o feriadão mais universal do planeta pudesse imitar Polaris e ser um cenário oficial para uma comemoração beatlemaníaca. O espaço pode ser fora da Terra, pode ser o passeio público, ou pode ser apenas um substantivo. Mas o espaço que recepciona uma canção dos Beatles é o um dos meus lugares preferidos para passar o carnaval.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Não precisa explicar, eu só queria entender

Passamos a vida buscando perguntas - esse é o nosso instinto. Instinto que muitas vezes tentamos sublimar, para isso criamos "ismos" que coloquem nossas entranhas perguntadoras num cercadinho. Aderimos aos "ismos" com tanto afinco, pensando que as perguntas vão se calar em nossa alma. Não vão.

O escritor português José Saramago tem uma pergunta consigo desde sempre e para sempre: “A pergunta que não consigo responder é muito simples: para quê? Para que tudo isso? Vou morrer sem encontrar a resposta. Creio que ninguém nunca encontrou”. Se você achou vago, pare e pense. Tudo isso da vida que começa no nascer e vai terminar no morrer. Entre esses dois momentos, perguntas pululam em nós.

O que nos atormenta é a falta de respostas? Começo a discordar. O que nunca nos deixará em paz é o fato de que as perguntas não cessam. Os questionamentos se qualificam. Os dilemas, as contrariedades, a complexidade das situações com as quais nos deparamos geram mais e mais perguntas. A avalanche de perguntas é o que assusta, não a escassez de respostas.

Pensamos que acalmamos as perguntas diante de qualquer sistema com o qual nos deparamos e pelo qual nos decidimos. É um engano que, cedo ou tarde, será desvelado. Você sentirá que levou uma rasteira de si mesmo. Os "ismos" não dão conta da multiplicação de perguntas que vêm do nosso âmago e não nos deixam sossegados.

Quem decide não se prender aos "ismos" vai lidando "na marra" com as perguntas. Escreve, filosofa, compõe, ouve, grita, chora, fica em silêncio, goza, joga bola... Dá o seu jeito. As perguntas não páram. As perguntas perguntam. As perguntas assolam. As perguntas ameaçam.

Paradoxalmente penso que, no momento em que admitimos esse instinto perguntador, é quando ocorre o desabrochar da maturidade. Julgar alguém maduro ou pensar-se assim é temerário, sempre. Porém a experiência de olhar nos olhos das perguntas e assimilar sua companhia dá-nos a sensação de madureza. De cicatriz pra nos lembrar de que as respostas nunca deveriam ser simplistas.

Mas eu queria falar das perguntas. Elas não páram. Nem no travesseiro - lugar e hora fértil para te levitarem da cama com certa agressividade, exilando o sono. Ou admitimos a voracidade de nosso instinto perguntador, ou estaremos sempre numa vida em suspenso, faltando algo, e o que é pior: sabendo por quê.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

A liberdade aprisionada

A piada pode surgir de repente (não necessariamente acompanhada da graça). A da vez foi proporcionada pela Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA). Lá estou eu sintonizando o menu principal (mosaico) de canais da SKY e vem o anúncio institucional clamando por Liberdade na TV. Achei estranho e resolvi prestar atenção. O tom do apresentador era grave. O conteúdo, risível e denotando o desespero dos magnatas do cabo.

Explico: a tal campanha por Liberdade na TV (que tem até site e vídeo no YouTube) refere-se ao projeto de lei 29/2007, que obriga que 50% dos canais das TVs por assinatura devam ser nacionais; e que 10% do conteúdo de todos eles, incluindo os estrangeiros, também seja nacional.

Achei o projeto exagerado. Mas antes de chegar nesse mérito, observe o texto do apresentador da ABTA: "Eles decidem o que você deve assistir e no final você pagará mais por isso. Não deixe que eles prejudiquem a sua liberdade de escolha". Rárárá. E o que as TVs por assinatura fazem conosco hoje? É diferente?

A TV a cabo chegou ao Brasil com a promessa de ser a alternativa ao rame-rame baixo nível da TV aberta, com opções melhores e, acima de tudo, opções. Hoje, o horário "nobre" de um canal chama-se "Politicamente Incorreto", com programas que rivalizam nas baixarias com Ratinhos e Datenas da TV aberta, por exemplo. E nenhuma operadora permite que você faça seu pacote e escolha pagar apenas pelos canais que de fato assistirá. Precisamos engolir mil canais inúteis para nossos gostos. Cadê a liberdade?

É o desespero diante de um público que tem encontrado na internet ou noutros meios o conteúdo que desejam (sobre isso, ver excelente artigo de Nelson Hoineff no Observatório da Imprensa). Tão desesperados estão que têm a coragem de acusar os políticos dos mesmos crimes que cometem contra o público. O instinto de sobrevivência é forte mesmo...

Por outro lado, não é por decreto que se criam canais. No momento em que se estrutura uma TV pública, percebe-se que a coisa não é tão simples. Assim como a imposição de cotas para produção regional também é polêmica. No entanto, precisamos reconhecer: agüentamos cotas e mais cotas de seriados rejeitados nos EUA e de filmes perfeitamente classificáveis como B. E não participamos da elaboração dessa grade de programação em nenhum momento. Isto é, só na hora de pagar.

Aí é outra "terra de ninguém": no caso da SKY, se você escolhe pagar em débito automático na conta-corrente, é um preço e você recebe em casa um "extrato de conferência". Se optar por pagar em boleto bancário, são mais 3 reais. Qual a diferença entre o conteúdo do extrato e do boleto? Nenhuma. O custo de emissão de um boleto junto ao banco, claro, é repassado pro cliente. Mais uma vez: não há liberdade de escolha. Diferente de outras concessionárias de serviço, temos que optar por pagar mais e ter mais trabalho ou pagar menos e confiar que os valores sempre virão certos. Porque se não vierem, prepare-se pra bloquear o débito, correr atrás pra contestar os valores etc...

Aprisionaram o significado da palavra "liberdade". Quem vai libertá-la?

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Que bom que esse sangue jorra

Demorou, mas tive a oportunidade de assistir ao documentário 3 irmãos de sangue, que conta a vida de ninguém menos que Henfil, Betinho e Chico Mário. Uma trindade hemofílica onde cada pessoa dela executou, com unção, a missão que lhe cabia. O humor, a sociologia prática e a música com alma nunca foram tão refinados e afinados com nosso tempo. Temos uma geração inteira marcada por Henfil, Betinho e Chico Mário.

Difícil dividir comentários sobre o filme e sobre a vida dos três. A gente não sabe se gostou e saiu emocionado pelo conteúdo dramático ou pela maneira com que tudo foi narrado em tela. A diretora Ângela Patrícia Reiniger mostrou que tinha na veia a matéria-prima essencial para se fazer um filme sobre os três: sensibilidade. Porque é isso que transborda a cada cena e, principalmente, a cada depoimento de arquivo de cada um deles.

Eu, particularmente, nem sabia quem era Chico Mário, sequer que Henfil e Betinho tinham mais um irmão famoso. Pois o filme mostra que os três estavam no mesmo patamar da vida, daqueles que nasceram pra fazer diferença - muito antes dessa expressão virar clichê. Seu violão fala alto no volume inaudível do coração de quem assiste o documentário. A música sobre Ouro Preto e o show em sua homenagem, quando a AIDS avançava (os três se tornaram soropositivos após transfusão de sangue, sempre necessária) são de não deixar a gente dormir, no bom sentido.

Henfil, um barbudo bonito e carismático pra caramba, e seus traços mínimos no papel. É uma coisa impressionante. Vê-lo falar sobre cada personagem, sobre seu desejo intrínseco de fazer cinema, sobre o Brasil - todos eram muito, mas muito brasileiros - é bom demais. A maneira original de entrevistar os convidados no seu quadro na TV Mulher é inesquecível.

E Betinho, que levou a teoria sociológica para o campo prático e urgente do brasileiro? Para aqueles que tinham fome e para os indiferentes: ambos sentiram o revirar do estômago. E isso desde quando o irmão do Henfil voltou da anistia... Esse parece nunca ter sossegado na tarefa que assumiu pra si de não ser mais um lamentador.

A hemofilia e a AIDS permeiam o documentário, como deve ter sido na vida dos três. A princípio, explícita na hora da descoberta e de saber como lidar com elas. Depois, como companheiras permanentes com as quais os irmãos precisaram conjugar suas circunstâncias e perspectivas. Ao final, de novo explícita, anunciando o fim e denunciando negligências no trato com os hemofílicos de todo o país, e não só os famosos.

Além da cara vermelha e dos soluços de tanto chorar, saimos do cinema com a sensação de que a luta contra a desigualdade e os desmandos injustos desse mundo pode ser encarada com suavidade. Em nenhum momento percebemos nos discursos de Henfil, Chico Mário e Betinho aquele ranço chato de quem acha que a vida nada vale porque não há condições ideais para todos. Isso é verdade, mas eles nos mostram que é possível encarar essa luta com o vigor suave de um traço, de um acorde ou com o dom da conciliação.

Uma das últimas falas de Betinho parece resumir poeticamente tudo o que eles viveram: "Nessa luta, daqui a um tempo, não importa quem vai estar vivo ou quem vai estar morto. O que importa é que a música existe".