quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Um Maranhão de dúvidas

Foi tenebrosa notícia quando a nadadora Joanna Maranhão revelou que sofreu abuso sexual por parte de seu técnico quando ela tinha apenas nove anos. Imediatamente, começaram a surgir reportagens não só sobre o caso, como também sobre a confiança dos pais de atletas nos técnicos de seus filhos (que não raro começam a carreira cedo).

É complicado. Um assunto desses requer muita sensibilidade e cautela por parte da imprensa na hora de tratar a público. Um alarmismo sem necessidade é passo certo para a paranóia. O caso de Joanna é exceção, minoria ou corriqueiro? É preciso uma boa apuração para que o público não pense que isso ocorre a torto e a direito, e assim os pais ganharem mais um motivo pra não dormir à noite.

No entanto, a mãe da nadadora botou a imprensa em xeque, de uma maneira ainda mais complicada: revelou o nome do técnico que abusou de Joanna. E aí? Publica-se ou não a informação? A imprensa não tem como apurar (ao menos, ainda) se a denúncia procede ou não.

Porque uma coisa é certa: acabou a carreira da pessoa citada pela mãe de Joanna, que ainda sofrerá olhares e desconfianças pro resto da vida. Como dizem os princípios do direito, todos são inocentes até que se prove o contrário - é o que o técnico citado tentará fazer. Mas o fato de já ter sido divulgado em massa que ele pode ter cometido um dos maiores pecados universais da contemporaneidade (abuso sexual de crianças) não tem volta.

Lembram do caso da Escola Base (que deveria ser lembrado sempre nas redações)? Na ocasião, um casal que era dono de uma escola infantil foi acusado de abusar sexualmente dos alunos. O circo da mídia foi criado, a escola faliu, os acusados foram publicamente condenados e... nunca houve provas. E nem a maior das erratas vai apagar a suspeita na reputação dos dois, fora os prejuízos emocionais.

E se for provado que o técnico mencionado foi falsamente acusado? Provavelmente, a mãe de Joanna poderá ser processada. Mas e a imprensa que espalhou a informação de uma fonte, prejudicando um cidadão? Vai retificar a informação na mesma intensidade (primeiras páginas, várias reportagens etc)? Se o fizer, vai adiantar?

Volto à pergunta: a imprensa deveria divulgar o nome? Se não o fizesse, seria sonegar informação ou não? Suicídios não são noticiados pelo fato de não causarem publicidade que "incentive" novos atos do tipo - é um dos poucos acordos universais que a imprensa cumpre. No caso do técnico de Joanna, da Escola Base, não deveria existir o mesmo cuidado? A não ser, claro, que já estivesse devidamente comprovada a culpa.

A intenção da mãe de Joanna era pôr um ponto final no assunto. Só se for pra ela, porque para o técnico e para a imprensa, a história - e os questionamentos - estão apenas começando.

4 comentários:

André Marques disse...

Como já dizia o Felipe Pena: Jornalismo não tem Fibrase!

Abs

Marcos André Lessa, cristão, flamenguista, jornalista formado pela UFF-RJ disse...

É verdade, rapaz... Nãolembrava dessa. Mas acho q é "fibrose", né? Regeneração dos tecidos etc?

Rebêlo disse...

Lessa: sou um dos poucos que acredita em um novo caso 'Escola Base' por aqui em Pernambuco. Ao menos, publicamente. Infelizmente, voz isolada não pauta ninguém.

Marcos André Lessa, cristão, flamenguista, jornalista formado pela UFF-RJ disse...

Rebêlo, este artigo também foi publicado no Observatório da Imprensa, junto de outro que também menciona a Escola Base. Acho que não estamos sozinhos...
Faça uma busca por lá: "A Escola Base revisitada".