domingo, 23 de agosto de 2009

Cortando pela raiz

O caso é chocante de múltiplas formas. Caloura de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ) acusa veteranos que aplicavam trote de obrigá-la a fazer sexo oral em oito deles, em troca de não pagar os R$ 250,00 de "taxa" para a chopada. Não sei nem por onde começar a me revoltar.

É claro que ninguém merece passar por qualquer tipo de humilhação, jamais. O trote nesse nível é uma excrescência, é um momentinho neonazista em que os veteranos se sentem à vontade pra botar pra fora tudo o que normalmente lhes é proibido pelas regras sociais. A insegurança dos calouros quanto a seu futuro no campus é o facilitador ideal.

Mas é incrível ver alunos de Direito cometendo a atrocidade acima. Eu já me assustava com trotes dos alunos de Medicina - os mais violentos, chegando a resultar na morte de um calouro na piscina da USP, em 1999. Tratam-se simplesmente dos que vão cuidar de nossa saúde e integridade física.

Só que os futuros médicos estudam o corpo, suas patologias, possíveis curas e tratamentos. Não são obrigados, por vocação, a conhecer a lei e suas consequências - o que não justifica seus trotes e desvios de conduta. Não é o caso dos estudantes de Direito, pelo contrário.

Assédio sexual, atentado violento ao pudor, extorsão, chantagem. Quantos artigos do Código Penal englobam esses casos? E quais as penas para cada um deles? Tenho certeza que os veteranos que abusaram da caloura da UFF sabem muito bem. No entanto, por que praticaram tais atos?

A atitude desses veteranos só revela como é possível que o homem da lei sinta-se acima dela muito antes do que poderíamos imaginar. Não estamos falando de ministros do Supremo Tribunal Federal, juízes, desembargadores, altos magistrados (nem estou falando que estes ignoram a lei). São apenas estudantes de Direito, que agiram como se as consequencias de suas respectivas infrações nunca fossem alcançá-los.

Esses alunos futuramente vão advogar, julgar, condenar e absolver os criminosos do país. Se qualquer um dos veteranos futuramente arbitrar sobre casos semelhantes, como será sua conduta? Lembrará que também fez isso na juventude, e que não deve ser levado tão a sério?

Portanto, é dever do Estado e do Poder Judiciário fazer com que esses estudantes experimentem a força da lei. Se assim não for, será um tiro no pé a longo prazo, por contribuir com a construção de uma cultura da impunidade cedo, muito cedo, e logo onde não poderia acontecer: na formação em Direito.

Antes disso, a UFF precisa fazer a sua parte, abrindo investigações sérias para comprovar a denúncia (a aluna não iria inventar uma história dessas). E o objetivo deve ser somente um: expulsar os agressores.

Se a universidade não mostrar vigoroso repúdio pelo caso e disposição para resolvê-lo, ainda poderá passar à sociedade a imagem de conivente. E por ser uma instituição pública, que não depende de doações particulares para se manter, deve se sentir com indepedência plena para isso.

sábado, 22 de agosto de 2009

Mas o que é que você quer?

Ricardo Kotscho é um jornalista que respeito muito, principalmente devido à transparência de suas opiniões. Mesmo que discorde delas, Kotscho deixa claro por que as emitiu, e de que lugar está falando, deixando para o leitor tomar posição.

No seu blog, ele levanta uma questão que reverbera no ar: quais são as bandeiras da oposição atual?

Militante histórico do PT, Kotscho participou de todas as campanhas de Lula à presidência, e foi Secretário de Imprensa do Governo Federal em 2003 e 2004. Até a posse no cargo, nunca deixou de trabalhar em diversos veículos da imprensa nacional, ganhando prêmios Esso de jornalismo desde a época da ditadura.

Hoje, mesmo após sua experiência no Planalto, Kotscho continua achando que o Governo Lula faz um bom trabalho, por ter melhorado a vida da maioria dos brasileiros - o que, na sua opinião, é o principal objetivo de um governo. Porém o jornalista não tem um pensamento cínico, como se desse margem à máxima de que os fins justificam os meios. Faz críticas também aos descalabros éticos que o mesmo Governo, em suas articulações, permitiu ou produziu.

Mas esse background não invalida a reflexão que Kotscho provocou. De fato, qual é o projeto para o país de PSDB e DEM (já que o PMDB topa tudo e todos)? O que se vê são pirraças homéricas em praça pública e a sensação de que vigiam o Governo Lula só pra pegá-lo em algum "flagra" e faturar em cima do desgaste político.

Sei não, mas quem só vive de voyeurismo não é muito certo das ideias e das emoções.

Pode-se argumentar que em seus tempos de oposição o PT era igual. Mais ou menos. Também abusava do expediente do desgaste político, pedindo CPIs e mais CPIs e fazendo gritarias. No entanto, existia um projeto para o Brasil. Tanto é que as maiores críticas que se fazem ao Governo atual é de não ter empregado suas bandeiras históricas na prática.

Ou seja, se há cobrança, é porque algo foi anteriormente construído e prometido.

Mas o que quer a oposição? Não aventam, em nenhum momento, soluções à vista para os erros do Governo. Não vejo, no meio dos embates discursivos, PSDB e DEM apresentando o que eles pensam que seria mais adequado. Somente discordam, e fecham a cara.

São duas viúvas que ficaram desnorteadas após o passamento de seus líderes. Seja de fato, como no caso do ex-PFL após a morte de Antonio Carlos Magalhães; seja de realidade, no caso dos tucanos com o ainda vivo Fernando Henrique Cardoso, que fala sobre tudo aos quatro ventos, é procurado tal e qual um oráculo, mas que não possui apelo algum para angariar votos e simpatia para seu partido.

O DEM está tão sem identidade que resolveu mudar de nome copiando sua antítese estadunidense.

Nesse quadro, é óbvio que Marina Silva acaba sendo uma grande novidade e o verdadeiro temor do Governo atual. Embora seja um temor relativo. No momento em que a campanha presidencial começar pra valer, vai ser difícil o PV e sua microestrutura bater de frente com os gigantes de cargos, verbas e tempos de TV.

Entretanto parece mais difícil ainda, neste momento, que a oposição esteja preparando algum programa de governo para 2011-2014.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Influenciando políticas públicas para a juventude


Não sei quem já ouviu falar da RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social). A RENAS é uma ampla rede de relacionamento entre as organizações evangélicas que atuam na área social, proporcionando encorajamento, capacitação, articulação, mobilização, troca de experiências, informações, recursos e tecnologia social.

Nos dias 27 a 29 de agosto, na Igreja Presbiteriana do Rio, acontece o IV Encontro Nacional da RENAS (maiores informações: http://www.renas.org.br).

Do processo da da RENAS, resultou uma discussão sobre o papel dos jovens, que amadureceu no sentido de criar um "setor de juventude": é a RENAS-Jovem. Seus objetivos são discutir, influenciar políticas públicas de juventude no Brasil, e fortalecer a participação da juventude evangélica dentro da Rede Nacional Evangélica de Ação Social (RENAS).

Ao final do encontro nacional, no dia 29 de agosto, à tarde, haverá o primeiro encontro da RENAS-Jovem. Mais informações em http://www.renasjovem.blogspot.com/.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Essa Marina

Quando eu pensava que a cena política brasileira tinha fechado as portas para as novidades (sejam elas boas ou más), surge o convite do PV para que Marina Silva dispute a presidência da república pelo partido em 2010.

Não tenho a (compreensível) ingenuidade que tive à época da eleição de Lula em 2002. Fiquei tão empolgado com aquele acontecimento inédito que só depois a ficha foi caindo de que, para governar, as contingências de sempre apareceriam. A tal governabilidade (o que é o PMDB, minha gente?), as grandes estruturas de poder brasileiras, o arrefecimento da ideologia petista etc.

Mas eu já cogitava fazer voto útil em 2010 ainda no primeiro turno, ou seja, escolher o candidato menos-pior-de-ruim-Deus-me-livre!, já que não estou tão disposto a anular como em outros pleitos.

Ok, votei em Cristovam Buarque e tive aquela leveza na consciência de que não desperdicei o meu voto - a não ser que eu almejasse ganhar a eleição. Mas Marina Silva, que nunca escondeu do governo, de seu chefe e da sociedade o quão difícil era ser Ministra do Meio-Ambiente no Brasil, surge como nova opção de candidata digna. Até de voto.

A candidatura de Marina assusta tanto o Planalto (e a oposição, não duvide) que Dilma Roussef já tentou convencê-la a não deixar o PT. Mas por que esse medo todo?

Primeiro, porque Marina Silva é Lula de saias: veio das classes baixas, ex-seringueira (o torneiro mecânico do Acre) e ainda tem uma história de luta política coerente. Além disso, é a encarnação da defesa do meio-ambiente e do desenvolvimento sustentável, vocação reconhecida internacionalmente. Quer bandeira mais na moda do que essa?

E ficou claro para a sociedade brasileira (ao menos, para a parcela que ainda se importa com os caminhos do país) que Marina incomodava o governo atual sendo fiel a seus princípios, a ponto de ter sido praticamente escorraçada em público da pasta do Meio-Ambiente. Lula acusou tanto o golpe que chamou o espalhafatoso Carlos Minc para sucedê-la.

Logo, a percepção dos eleitores é que Marina Silva saiu porque quis fazer um trabalho sério - e não porque era incompetente ou criou inimigos baseada em mesquinharia política. Ah, e a candidatura seria pelo Partido Verde - mais coerência, impossível. E é um partido com presença internacional pelo mundo, o que pode ajudar a ex-ministra.

Finalmente, Marina pode ser a (boa) novidade que bagunçaria o pré-determinado cenário das eleições 2010, com Serra x Dilma polarizando os extremistas atuais pró e anti-Lula, ambos os lados com a faca nos dentes sempre. Afinal, os decepcionados encontrariam uma nova esperança; os neutros poderiam ser simpáticos à causa "salve o planeta", ainda que não pensem muito a respeito; e a parcela oposicionista que quer o expurgo de Lula e sua herança ficaria satisfeita.

É claro que Marina não poderia governar se preocupando apenas com as questões ambientais, e teria que ter pulso firme pra ser chefe de governo. Além de gerenciar o relacionamento com o Congresso e suas bancadas. Será que ela tem perfil pra isso?

Entretanto, para um povo que carece de líderes que não só melhore suas condições de vida mas também ajude a combater males éticos, e ainda ser um exemplo nas causas globais...

E ainda é Silva.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Déjà vu


Estamos em 1989? Para entender, clique.

sábado, 1 de agosto de 2009

Dicas de investimento

"Se você parar pra pensar, quem foi o homem mais bem-sucedido, mais rico e poderoso de 1500? Você não lembra de ninguém. Mas se você perguntar quem foi o maior artista, todo mundo sabe que foi Leonardo da Vinci."

A partir dessa frase, ouvida em meio a um almoço com colegas de trabalho, continuei a refletir sobre as prioridades da vida. Só refletir não, decidir por elas também. Tentar arrumar na cabeça, no coração e no blog um monte de pensamentos que, definitivamente, estão me levando a algum lugar - a não ser que eu não escolha esse caminho.

Papos alucinógenos à parte, falarei logo sobre o que tenho pensado: lembrei de uma entrevista do filósofo Zygmunt Bauman, em que ele comenta sobre como somos movidos a estímulos nos dias atuais. Como se reagíssemos por espasmos a todo momento: precisamos da TV, da internet, de algum barulho ou agitação para nos sentirmos fazendo alguma coisa. Senão, é tédio. Perdemos o valor da meditação e do "estar à toa".

No meio disso tudo, também ainda teve o texto do Burger, com a excelente descrição de Kurt Vonnegut.

Fazendo a ponte com a frase do almoço, é impressionante como somos rodeados por convenções de pensamento (bem capitalistas) segundo as quais precisamos produzir, supervalorizar o trabalho, ter grana e ser bem-sucedido, o mais cedo possível, e que tudo isso é o ápice da vida. Não, não é.

Nós sabemos que não é. Sabemos que o dinheiro ajuda a trazer felicidade - uma vez que nos possibilita realizar muitas coisas - mas não é absoluto. Temos a vaidade humana do poder, mas sabemos que ele sempre será relativo. Temos as pulsões dos instintos de toda sorte, mas sabemos que o seu controle sadio é a chave para vivermos em sociedade.

"Se sabeis essas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes", já dizia Jesus, ensinando a humildade. E que se estende ao parágrafo acima, na minha opinião. Embora não pareça ser uma missão nada fácil para a raça humana.

Podemos chegar a um ponto em que estamos estabelecidos numa profissão, com um salário razoável e desenvolvendo a carreira. Mas foi por isso que sonhamos? Não, embora sejam pilares indispensáveis para o mais importante: transformar os sonhos em projetos, e os projetos em realidade.

E por que deixar de lado coisas simples da vida, mas que valem tanto a pena? Dormir até mais tarde, ver futebol, escrever no blog e sei lá o que mais, desde que seja simples e desinteressado.

Então, na hora de pensar nas prioridades de vida, penso no que vou investir. Serei profissional sempre, mas não posso dar folga pros sonhos. Esses não têm feriado, e precisam que eu faça as escolhas certas para continuarem sobrevivendo.

Não sei se Leonardo da Vinci pensou isso tudo, mas eu vou com ele.

terça-feira, 28 de julho de 2009

No blog com Saramago

Reproduzo aqui entrevista de José Saramago ao Estadão, na qual ele conta sua experiência como blogueiro. No seu jeito peculiar, o autor de "Ensaio sobre a cegueira" descreve bem como é o ponto de vista a as motivações de quem alimenta um blog - seja um reles mortal ou um prêmio Nobel...

Saramago prova das delícias de ser blogueiro

Escritor português lança livro com posts escolhidos entre os melhores que escreveu para rede mundial

Ubiratan Brasil - Estadão, Sábado, 25 de Julho de 2009

"Sou como um elefante numa loja de louças: não sigo pauta, nem roteiros." Desde setembro do ano passado, o escritor português José Saramago é um ilustre ?elefante? que circula com desenvoltura pela rede mundial de comunicação. Na função de blogueiro, ele abastece sua página na internet (www.josesaramago.org) com certa regularidade, tratando desde temas particulares (sua passagem por São Paulo, no ano passado) até os aguerridos, como suas críticas à atuação do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. Aliás, os ácidos comentários ("Na terra da Máfia e da Camorra, que importância poderá ter o fato provado de que o primeiro-ministro seja um delinquente?") impediram a publicação, na Itália, do livro O Caderno (224 páginas, R$ 45), lançado aqui pela Companhia das Letras.

Trata-se de uma seleção de textos que Saramago postou entre setembro de 2008 e março deste ano. Na introdução, o escritor lembra-se de quando os cunhados lhe ofereceram um caderno, em 1993, no qual deveria registrar seus dias na nova moradia, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Saramago jamais rascunhou uma letra ali, mas se inspirou para escrever Cadernos de Lanzarote, publicado cinco anos depois.

No ano passado, com seu site já no ar, o escritor foi incitado a repetir a experiência no formato de blog. Ainda que convalescente de uma doença que quase o levou à morte, Saramago aceitou a empreitada. Na verdade, empolgou-se a tal ponto que, quando sua mulher Pilar pediu para diminuir a quantidade de posts a fim de descansar nas férias, ele ficou triste, acreditando que Pilar não estivesse gostando de seus comentários. Afinal, ali era seu novo campo de batalha, no qual acariciou amigos (Jorge Amado, Carlos Fuentes, Chico Buarque) e também cutucou políticos, como no texto "Sarkozy, o Irresponsável" e naquele contra Berlusconi que, dono da Einaudi, justamente a editora que publica a obra do escritor na Itália, proibiu o lançamento de O Caderno em italiano. Sobre essa nova forma de expressão (pretende lançar outra seleção de textos em setembro), Saramago respondeu, por e-mail, as seguintes questões do Estado, sem esconder um certo tom birrento que se lhe tornou característico.

Depois de alguns meses escrevendo como blogueiro, o que o senhor pensa dessa ferramenta de comunicação? Seria mesmo um revolucionário modo de se comunicar?

A rapidez é a sua grande virtude, mas daí a ser revolucionário vai uma grande distância. Revolucionário foi o telefone; o que veio depois são alargamentos tecnológicos dele, sempre com o mesmo objetivo: chegar mais longe e mais depressa.

Para um escritor, qual a principal utilidade de um blog: útil apenas para exercitar a escrita ou criar um canal quase imediato de comunicação com seu público?

A escrita não se exercita num blog. Se assim fosse, o mundo estaria cheio de escritores. Mas é certo que o blog permite um contato quase instantâneo com os seus destinatários, de certo modo o mesmo tipo de diferença que existia entre uma carta e um telegrama. A obsessão da rapidez é uma das características da nossa época em todos os aspectos da vida. Mas é uma perigosa ilusão pensar que se pode vencer o tempo.

O senhor definiu, certa vez, a internet como "uma página infinita". Qual a importância da internet em sua opinião?

"Página infinita" era uma definição de algum modo poética que a internet não tem que me agradecer. O que importa, porém, é o que se escreve nela. A tal "página infinita" aceita tudo, aguenta tudo, incluindo o pior. A liberdade de expressão não é boa nem má por si mesma, mas pelo uso que dela se faça.

Nos textos selecionados para o livro O Caderno, percebem-se desde considerações sobre notícias do dia ou sobre outros artistas (escritores, em especial) até narrativas pessoais, como sua passagem pelo Brasil no ano passado. Qual critério o senhor utiliza na escolha do assunto que lhe parecerá atraente para o leitor e, ao mesmo tempo, pouco ou nada invasivo em sua vida particular?

Nenhum critério em particular. Reajo a estímulos que na sua maioria me vêm de fora, faço os comentários que me parecem adequados e passo a página.

As leis que controlam o direito autoral de textos lançados na internet ainda são precárias. O que pensa o senhor disso? Deveria haver um controle ou o espaço deve ser livre, a despeito de suas consequências?

Embora considere que todo o trabalho deve ser remunerado, inclino-me a pensar que o espaço de internet deverá ser livre. Mas esta é a opinião de um leigo na matéria.

A prática do blog pode condicionar as pessoas a escreverem (e também a lerem) textos mais curtos? Será que as histórias muito curtas terão matéria verbal suficiente para corresponder a gêneros literários reconhecíveis?

Não creio que venha a existir esse condicionamento. O curto e o comprido têm feito boa companhia um ao outro e assim irão continuar.

Os textos que estão no livro também estão disponíveis gratuitamente no blog. O fato de se adquirir o livro significa que o leitor (ao menos, um punhado deles) ainda tem respeito e dá o devido valor para a obra impressa?

Assim é. Tal como o conhecemos, o livro terá ainda uma longa vida. Uma biblioteca é um lugar especial, os livros são os homens e as mulheres que os escreveram. Estar numa biblioteca é estar acompanhado.

Os escritos de um blog podem ser considerados obra menor na carreira de um escritor?

Os escritos de um blog não definem, por si sós, uma qualidade determinada. São filhos da casualidade, do humor, dos apetites. Salvo alguma exceção que não conheço, duvido que alguma vez esses escritos venham a ser considerados obras maiores.

Ao escrever para o blog, o senhor diminuiu o tempo dedicado à escrita da literatura? Como conciliá-los? Aliás, o exercício do blog ajuda de alguma forma o da literatura?

Vinte e quatro horas dão para tudo. É uma questão de administrar racionalmente o tempo de que se disponha. Quanto a ajudar o exercício do blog o da literatura, não ajuda nem desajuda. São duas tarefas diferentes e não complementares.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Cinco coisas que não sou, mas gostaria tanto de ser que arrisco

Fui convidado pela Livia para escrever sobre o tema em meu blog. Aí vão as minhas opções e pseudo-projeções:

Craque de futebol do Flamengo

Não apenas jogador de futebol do time do coração, como qualquer criança. Gostaria de ser craque, camisa 10 indispensável ao time, com facilidade pra fazer toda jogada que quisesse. E marcar gol de título no último minuto de final de campeonato, com o estádio explodindo de alegria!

Apresentador de talk-show

É de lei assistir a um talk-show e torcer para que o apresentador faça a pergunta que está na minha cabeça, ou a piada que seria perfeita para aquele momento. Ou simplesmente fazer uma entrevista muito melhor do que aquele boçal privilegiado com um programa só dele...

Amigo de Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade

Se eles já me convenceram a escrever e me dão conselhos e consolos através de seus textos, imagine se eu os conhecesse! Viver naquele pedaço de Copacabana entre a Rua Canning e a Conselheiro Lafaiete, sorvendo da companhia e dos direcionadores vocacionais que eles sempre proporcionaram a seus companheiros de vida.

Integrante dos Beatles

Brincar enquanto trabalha, inventar o videoclipe, eternizar minhas músicas e ter raiva da Yoko. Hoje só dá pra realizar a última opção.

Dono de livraria sem medo de prejuízo

Conseguir qualquer livro que precisasse, fazendo rodas de leitura com escritores consagrados de todo o mundo - sem a esnobice. E um café da mais fina qualidade (e bem frequentado) pra completar.

Também tô convidando pra brincadeira os blogs abaixo :

Borduna

Ababelado Mundo

Bolha Lilás

Palavras do Exílio

sábado, 4 de julho de 2009

Olhaí, ah, o meu diploma, olhaí...

Não é à toa que abaixo da minha foto no perfil deste blog consta que sou jornalista formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). A intenção é subsidiar o leitor com informações que colaborem para credibilidade do que escrevo. Assim, ele poderá avaliar a qualidade de meu trabalho enquanto lê os artigos e saber um pouco das minhas origens, de onde estou falando.

Na polêmica decisão do Superior Tribunal Federal (STF), é preciso esclarecer: o diploma de Jornalismo não foi derrubado, como se está dizendo. A obrigatoriedade dos patrões em contratar um diplomado para exercer o jornalismo é que não existe mais.

Vários jornalistas consagrados (e antigos de idade) que têm a vocação confirmada desde sempre não passaram pela faculdade - até porque ela não existia. É o caso de Mino Carta e Elio Gaspari, por exemplo. Ou do baluarte da profissão, Barbosa Lima Sobrinho, por tantos anos presidente da Associação Brasileira de Imprensa.

O que não se pode aceitar é a questão do diploma ser tratada como: 1) mera formalidade burocrática que impede talentos de aflorar; ou 2) como a garantia absoluta da qualidade do profissional. Os que são a favor da decisão do STF utilizam a primeira justificativa, os contrários a segunda. Ambos são extremos que não colaboraram em nada para a discussão da obrigatoriedade antes de Gilmar Mendes ter batido o martelo.

A maior preocupação, antes e agora, deverá ser sempre sobre a qualidade do ensino. Um de meus professores na UFF, que não morria de amores pela obrigatoriedade (mas era extremamente preocupado em nos preocuparmos com o bom ensino), foi defenestrado por colegas e alunos quando expôs tal opinião num debate no campus.

Demostrando a importância desse ponto, o pronunciamento das Organizações Globo sobre a decisão do STF foi: achamos bem-vinda a decisão, mas continuaremos a selecionar profissionais formados em jornalismo. O óbvio ululante ficou exposto no Jornal Nacional, que anunciou as palavras dos Marinho.

E qual seria esse óbvio? Uma corporação de comunicação não pode prescindir de profissionais capacitados, pura e simplesmente. Mas adora uma brecha na lei para vulnerabilizar os postulantes ao cargo, num mercado de trabalho cada vez mais enxuto.

É só lembrar: em todo e qualquer concurso público, um cargo de nível superior possui salários mais altos que um cargo de nível médio. Muitos fazem faculdade pensando nisso. Se o diploma não é mais obrigatório para a contratação de um jornalista, que obrigação eu tenho, como empregador, de tratá-lo como um profissional de nível superior? Não que isso vá automaticamente acontecer, mas a estrada já está pavimentada.

Logo, os donos dos meios de comunicação apóiam a decisão do STF, pois ela lhes dá ainda mais poder. A Federação Nacional de Jornalistas e os sindicatos país afora discordam, pois percebem a artimanha que o Judiciário sacramentou.

E não deixa de ser irônico que o Jornalismo, um ramo profissional que utiliza seus saberes para falar à sociedade de maneira fundamentada, clara e "entendível" (quando não faz isso, perde mercado e é criticado) tenha sido "castrado" pelo Direito, que possui linguagem e descaminhos jurídicos praticamente inacessíveis e ininteligíveis para a maioria da população.

Nem vou perder tempo falando de Gilmar Mendes. Joaquim Barbosa já disse tudo.

Vamos ver o que acontece no vestibular 2009. Jornalismo era um dos cursos mais disputados - continuará a ser? Para quem está na dúvida se entra na briga por uma vaga, recomendo o que sempre disse a respeito de qualquer carreira: não discuta com a sua vocação. E outra: não se contente com o que aprender na universidade (coisa que também vale pra qualquer profissão).

Para os docentes da área, mais do que nunca, é hora de se preocupar com o bom ensino do Jornalismo, mostrando que a não-obrigatoriedade nada tem a ver com os objetivos da formação escolar. E a universidade não pode cair na tentação de encastelar-se academicamente, como o Judiciário faz tão bem.

A comunicação muda cada vez mais rápido, e os profissionais do ramo não estão se reinventando - estão sendo reinventados à força. Cabe a nós, jornalistas, nos darmos conta dessa mudança e perceber que ainda temos papel relevante na sociedade, embora muitas vezes não seja fácil para ela se dar conta disso. Num rápido exercício: como você ficou sabendo das mil mordomias descaradas do Senado Federal? Pois é, pela imprensa.

Mas não cabe, a partir disso, a imprensa assumir um ar esnobe e aristocrático: ela não está sozinha na reverberação das informações. Blogs, twitters, celulares e seus produtores não-jornalistas devem ser encarados como colaboradores, não inimigos. A concorrência desleal é com o STF, pelo visto.

Enfim, tudo isso é pra dizer, sem romantismo, que me orgulho em ser jornalista. Informo minhas origens na UFF sem constrangimento, com todas as dificuldades que passei (como em qualquer lugar). Foi na faculdade que moldei minha vocação e conheci os fundamentos e valores da carreira. Não sou dotô, mas tenho um diploma que não é só decoração.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Voz do que clama no deserto

"Existe um conceito infeliz no Brasil de que os direitos humanos só defendem bandidos. Tal conceito é popularizado e utilizado por pessoas que têm interesse em mantê-lo. Isso ajuda na justificação de políticas de comportamento repressivo, como as megaoperações no Rio de Janeiro ou a ideia de que os índios ameaçam os interesses econômicos do Mato Grosso do Sul. Várias ações governamentais no Brasil acabam sendo executadas para satisfazer àqueles que não acreditam nos direitos humanos."

Declaração de algum esquerdista de plantão? Opinião? Palpite?

Não, é um trecho do relatório da Anistia Internacional sobre o Brasil.

Lembrando que o único compromisso da organização, em nível mundial, é fiscalizar se os direitos humanos são respeitados. Não estão vinculadas a nenhum país, ou a algum grupo de pressão política ou partidária. Traduzindo: não tem rabo preso.

Tal iniciativa é um alento para este blogueiro, que agora se sente menos solitário no clamor público.

Leia o contundente relatório completo.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Estamos cercados!

No meio da entrevista ao Esporte Espetacular, o jogador Adriano diz à repórter: "Dinheiro não traz felicidade, mas ajuda a trazer". O atacante, que acaba de voltar ao Flamengo após oito anos na Itália, parece saber do que está falando. Ele saiu da favela de Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão (Rio de Janeiro) para ganhar o apelido de Imperador graças a seu futebol pelo mundo.

Sergio Cabral e Eduardo Paes, com a conivência de boa parte da imprensa carioca e atendendo aos principais anseios da classe média da cidade do Rio, começam a erguer os muros em volta das favelas. A justificativa para a ação, condenada por organismos respeitáveis como a Anistia Internacional, é para conter a devastação ambiental. Uma balela, já que os principais devastadores não são os moradores das comunidades.

Na entrevista, Adriano afirmou que ficou deprimido após a morte do pai e desgostoso pelo futebol. Abandonou seu clube na Itália e sumiu no Brasil por alguns dias. Foi à favela de Vila Cruzeiro, reencontrar família e amigos. A despeito de se acreditar nos motivos que o levaram lá, o atacante não esconde que é na favela onde ele se sente bem e à vontade, a despeito de todo o dinheiro que ganhou na vida.

Sergio Cabral e Eduardo Paes, "somando forças", dão vida a choques de ordem e ocupações de morros pela polícia, para trazer a paz (para o morro ou para a Zona Sul vizinha?). Conseguem emplacar na mídia suas justificativas fascistas, o que se percebe pelo vocabulário das matérias: "comunidades" voltaram a ser "favelas"; "moradores de rua" são de novo "mendigos", e por aí vai. A classe média que já esperava por isso se sacia, a que até então poderia estar indiferente começa a tomar partido do governo.

A provocação das torcidas rivais à torcida flamenguista quando o time rubro-negro leva um gol: "Silêncio na favela", surfando na onda pejorativa. Adriano reestreiou ontem pelo Flamengo, marcando um gol e o Maracanã lotado gritava "Festa na favela", matando na ironia a provocação mordaz.

Sergio Cabral e Eduardo Paes não devem gostar muito da exaltação à favela que Adriano faz (também ressaltada na entrevista ao programa esportivo). Mas deixa estar: é futebol, numa torcida de massa, não vai além disso. Nada que atrapalhe seus planos de "arianizar" a sociedade carioca trajando um impecável cinismo.

Mas o atacante rubro-negro, nas limitações que possui e até onde o espectro esportivo permite, contribui para que o discurso do carioca não ignore o óbvio: a favela não é um antro de marginais que merece ser extirpada (removida?) do mapa. Se outros brasileiros de renome e voz - como os jogadores de futebol, ou digníssimos formadores de opinião - mantivessem essa postura, talvez governantes como Sergio Cabral e Eduardo Paes se constrangessem um pouco antes de proferir seus planos cara-de-pau.

Só que a cooptação pelo discurso dos magnânimos líderes eleitos encontra eco e nenhuma oposição. Ou nenhuma oposição que tenha espaço e voz. Que vergonha de morar no Rio.

VEJA TAMBÉM: Protestos contra os muros

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Por isso eu corro demais

As tirinhas do Dilbert cumprem um papel importantíssimo em nossa sociedade, assim como o seriado The Office: satirizar as situações do cotidiano do mundo corporativo. As empresas é que começaram com essa história de distribuir seus empregados em baias, cada um com seu canto e seu computador, durante oito (ou mais) horas por dia.

Mas esse tipo de ambiente não se conteve nas empresas. Redações de jornal, vários setores prestadores de serviço, e até a velha repartição pública já se encontram modernizados - ao menos no layout do andar e no enfurnamento de seus funcionários.

Dilbert e The Office falam de inúmeras questões do mundo corporativo, mas muitas de suas piadas referem-se ao ambiente físico do trabalho, nessa convivência obrigatória, e obrigatoriamente civilizada, com tanta gente desconhecida tão perto de nós.

É muito estranho, em plena era da mobilidade tecnológica (e de um individualismo exacerbado) que sejamos obrigados a trabalhar como na época da revolução industrial do século XIX: todo mundo na sua mesinha, apertando seus variados tipos de parafusos, junto de todo mundo.

Então eu corro.

Calma, não saio desembestado do edifício, destrambelhado das ideias e de minhas necessidades socioeconômicas. Por três vezes na semana tenho o hábito de correr. E se em algum momento eu me desconecto da realidade, é enquanto dou minhas humildes passadas.

Sempre invejei aqueles que conseguem se desligar do seu ambiente de trabalho e das emoções vividas (ou trancafiadas) durante as oito horas. Pessoas que parecem desligar um botão ON/OFF que possuem no cérebro e que simplesmente só voltam a ligá-lo na manhã seguinte, assim que adentram o famigerado trabalho. Nunca consegui ser assim, até correr.

A inquietação com a obrigatoriedade de trabalhar num mesmo lugar, pelo mesmo espaço de tempo, todos os dias, me faz preferir o ônibus ao metrô, só para não me entocar em outro ambiente obrigatoriamente fechado. Não é fobia, é vontade de estar ao ar livre e com paisagem, só isso.

E quando corro me preocupo apenas com a passada certa, a respiração adequada, o gole d'água sem me encher demais, a vontade de chegar até o fim daquele percurso ao qual me propus a fazer.

Correr é uma atividade física recomendada pelos médicos, mas hoje percebo que esse é um objetivo secundário no meu hobby. Que na verdade não possui objetivo nenhum, somente obedecer as regras do frescobol: não há disputa, nem vencedores, nem vencidos. Corro sozinho, por correr e por agora perceber que é quando me desligo.

Correr é tudo o que não posso fazer em oito horas de escritório. Lá, tudo pede minha imobilidade: qualquer tarefa requer um computador, ou o seu ramal, ou apenas estar ali para que possam contar com você ao ver sua cabeça sobressaindo sobre a baia, mesmo sentado. Só saio dali para as salas de reunião, onde novamente ficarei sentado, parado.

Também não corro do escritório. Sei que ele tem a sua função e, até as relações (não os direitos) trabalhistas mudarem, não há muito o que divagar sobre o que eu poderia estar fazendo lá fora durante aquelas oito horas. Isso só me traz murmuração e me desarma de fazer do escri um lugar menos cinza. (Um dia penso em poder trabalhar de bermuda e fazer a sesta depois do almoço, mas isso é outra história.)

No entanto logo depois, ainda em pleno horário do rush, não estou no trânsito ou fazendo serão. Estou correndo, e totalmente desligado. Correndo porque quero, para onde quero, como eu quero, quando quero. Não é isso a liberdade?

Talvez aí esteja o segredo. Para mim, correr é a métafora perfeita para a liberdade, com seu gostinho de quero sempre que a torna incomparável. Daí desligo-me de todo o resto que não atenda a esse chamado libertário. E começo a entender porque, após uma exaustiva corrida, sinto-me mais leve e completamente renovado - das forças e das ideias.

LEIA TAMBÉM: Nas passadas

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Hello, goodbye




“Eles me tiraram tudo, Joe! Tudo! Até a inspiração!”

A frase poderia estar em qualquer roteiro de Hollywood, numa seqüência dramática, com o ator quase chegando às lágrimas, caracterizando um belo clichê. Mas é essa fala nada original que resume o meu sentimento em relação às empresas de telecomunicações instaladas no Brasilzão.

Atire a primeira queixa no Procon quem nunca teve problema com as operadoras de telefonia. Poderosíssimas, mexem com tudo: telefone fixo, celular, TV a cabo, internet... Um “polvo” da convergência tecnológica e, sobretudo, do poder quase absoluto sobre essa tecnologia.

Eu, que já fui à justiça contra a Oi devido à inoperância do Velox na hora que mais precisei (ganhei, obviamente. Os meganhas já chegaram com um acordo e o rabo entre as pernas), voltei ao aborrecimento num sábado. À tarde, novamente o problema que originou a ida aos tribunais. No 0800, uma explicação nada convincente: falha na rede da região (mais uma!), que estava em reparo até as 17h. Curioso é que moro na rua de uma das sedes da Oi.

Às duas da madruga, louco pra postar no blog após outra insônia, nada de conexão. A frustração por me sentir excluído, ainda mais após tanto dissabor judiciário, somava-se à raiva pela operadora e por seu desserviço ter espantado minha inspiração para o texto. Word é maldito prêmio de consolação.

Mas resolvi resgatar informações de um seminário sobre telecomunicações que assisti em novembro. A Lei da Radiodifusão em vigor no país é de 1962. Avançadíssima para época, hoje é mantida jurássica para que os donos do poder midiático (que se confundem com os do poder do Estado, vide o bigodão) não sejam incomodados.

Com a bandida privatização das telecomunicações no país, em 1997, foi criada a Lei Geral de Telecomunicações (LGT), que mantém a situação da radiodifusão inalterada. Com um detalhe: apenas o telefone fixo está sob regime público. Ou seja, as operadoras só são obrigadas a garantir para toda a população o telefone fixo. E apenas em relação a isso podem ser cobradas pelo Estado, que chancelou a LGT.

Os demais serviços (celular, cabo, internet) estão sob regime privado. Isto é: não possuem a obrigação de universalizar o acesso de toda a população a esses serviços. Logo, não podem ser cobrados pelo Estado por isso. Só se movem aonde houver mercado consumidor que retorne o investimento feito (com lucro), o que é normal para uma empresa.

Porém o Estado, por meio da LGT forjada sob os lobbies das operadoras, permitiu que elas ignorem a maioria da população. Mesmo em se tratando do serviço básico de garantir que as pessoas se comuniquem no mundo atual. E sequer pensam em oferecer tarifas mais baratas.

Assim, cerca de 2 mil municípios brasileiros (são 5.564 ao todo) não possuem telefonia celular. Desses 2 mil, 600 contam com apenas uma operadora, sem a tal concorrência arvorada com ardor pelo livre mercado. Somente 400 municípios possuem banda larga.

Quer um exemplo? Rumemos para Japeri, distrito do Rio de Janeiro, com quase 93 mil habitantes. Só 10% deles possuem telefone fixo. Os demais, quanto muito, um celular “pai-de-santo”: só recebe, pois o minuto de uma ligação de celular é caro até pra quem pode pagar.

Meu problema de falta de conexão parece pequeno diante desse contexto. Mas a raiva pelas operadoras todo-poderosas aumenta. A única coisa que podemos fazer (ou ao menos a mais acessível e com resultado), é registrar queixas na Anatel e entrar na justiça contra elas se a reincidência e o atendimento que não resolve persiste. Não queremos banalizar o judiciário, mas banalizaram nosso desejo de nos comunicarmos decentemente, independente da nossa renda.

Aliás, só podemos entrar na justiça contra elas baseados, claro, no Código de Defesa do Consumidor. Só não podemos nos esquecer: o direito do cidadão à comunicação está acima do direito do consumidor.

sábado, 2 de maio de 2009

Saúde!

Foi associação imediata. Ao ler que Felipe Calderón, presidente do México, determinou que a população passe cinco dias em casa a partir de sexta-feira (1º de maio), para evitar maior contágio da nova gripe, lembrei imediatamente do livro Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. A declaração do presidente só confirmou: "Não há lugar mais seguro do que o seu próprio lar para evitar ser infectado pelo vírus".

Para quem não leu ou não conhece, o livro do escritor português fala de uma epidemia de cegueira que assola a população mundial, sem razão aparente. Na impossibilidade de encontrarem a causa ou a cura, as tentativas de controle da epidemia vão se esvaindo até chegar ao absurdo de confinar as pessoas - no caso, os infectados - para evitar maior contágio.

Ainda não se sabe a causa ou a cura da nova gripe, e isso traz o desespero primeiro aos mexicanos; depois, ao resto do mundo, devidamente globalizado. O que fazer? A Espanha relatou o primeiro caso na Europa de um paciente que contraiu a doença sem ter ido ao México, o que ilustra o perigo do contágio entre pessoas.

A possibilidade do vírus se contrair com o da gripe aviária pode causar um novo desenrolar trágico. Enquanto isso, a imprensa e os governos não sabem qual o tom a adotar: um alarmista que pode causar mais pânico ou um precavido que pode sonegar informações importantes para o momento.

O meio-ambiente já flerta com o apocalipse desde o relatório do IPCC sobre as mudanças climáticas. Agora, uma nova peste pode surgir, e a Europa de séculos atrás sabe bem o que é isso.

A nova gripe, assim como o castelo de cartas da crise financeira, mostra como a sensação de segurança que teimamos em querer manter é pura cortina de fumaça. Ok, não dá pra vivermos neuróticos, mas é inevitável que uma (não tão) simples gripe nos leve a refletir sobre nossa finitude humana.

Sim, acabaremos. Não falo da humanidade, mas individualmente. E então, o que fazer com esse tempo que a cada dia nos resta menos? Se formos levados pela fábula de José Saramago, é o momento de egoísmos inconseqüentes aflorarem a torto e a direito.

Mas, ao contrário do que muitos pensam, o ser humano tem a possibilidade de escolher. Cada um de nós pode escolher ser menos mesquinho, mais solidário, mais consciente de que nossa curta existência na Terra pode ser muito mais significativa do que estamos acostumados.

E se individualmente acabaremos, individualmente podemos deixar de ser tão individualistas, sem precisar de grandes causas ideológicas para isso. Tão somente a pequena causa do cotidiano, que cada um pode aplicar a sua vida.

Desculpem se o texto pareceu simplista, não foi essa a intenção. Mas a certeza do fim não é nada complicada, ao contrário do que fazer antes dele. Não tenho respostas, mas inquietações. Não posso resolvê-las facilmente, mas compartilhá-las. Não posso prometer nada, só tentar cumprir.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Estava escrito

Só pra completar a informação, segue matéria que originou o post de 8 de abril:

(Jornal Destak, 8/4/2009)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Mundo bizarro (à la HQ do Super-homem)

José Sarney, quase 200 anos de idade e de vida pública. Roseana Sarney, que em 2002 foi alijada da campanha presidencial por acharem um milhão de reais em dinheiro (inexplicado) na sede de sua empresa. Família Sarney em geral, dona do Maranhão (com um pé no Amapá) desde a descoberta do Brasil.

Jackson Lago, vencedor das eleições de 2006 para o governo do Maranhão, desbancando a oligarquia política e midiática do estado (Sarneys).

Jackson Lago, cassado do governo do Maranhão por acusação de compra de votos e abuso do poder político e econômico. Roseana Sarney, segunda colocada nas eleições, vai assumir o cargo.

Como todo mundo sabe, os Sarneys não podem ser acusados de compra de votos ou abuso do poder político e econômico.

É tão bom ver a justiça brasileira trabalhando tão bem!!!!

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Somos gaiatos no navio

As barcas para Niterói são um escândalo desde antes de 2000, quando ingressei na UFF para estudar jornalismo. O serviço ficava pior ano após ano.

Recentemente, o superintendente das Barcas S/A, Flavio Almada, declarou sem pudor: se os passageiros não aguentassem esperar na fila pra embarcar, que pegassem ônibus.

A sócia majoritária do consórcio que administra a Barcas S/A é a Auto Viação 1001. O Extra chama isso de ironia, mas é bandidagem canalha mesmo. E legalizada.

É no mínimo curioso: em determinado momento o Estado admite que não consegue dar conta do serviço das barcas. Diante disso, faz uma concessão pública para que um consórcio administre o serviço, teoricamente fiscalizado pela Agência Reguladora de Serviços Públicos.

O consórcio que vence possui um declarado conflito de interesses, conforme apontado acima. Mas vence assim mesmo. Agora, assumindo sua incompetência na gestão do serviço (sem nunca deixar de aumentar as tarifas), o consórcio ainda recebe uma bolada... do Estado.

As raposas tomaram conta do galinheiro, extrapolando todos os limites do cinismo. Obrigado, eleitores de Sergio Cabral.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Em cima do muro

O Secretário de Ordem Pública, Rodrigo Maria Zilda Bethlem, defendeu em artigo no Globo a construção de muros em volta de comunidades pobres a fim de reduzir a favelização e a consequente devastação ambiental do Rio de Janeiro. Até aí, nada de novo: nem na solução, nem na motivação excludente da proposta.

Curioso foi o argumento utilizado por Bethlem para defender a ideia (ou minimizar o buburinho?): acusa os críticos de hipocrisia, pois não consideram os muros de um condomínio de classe média como segregação, e sim proteção. Por que não veem os muros em volta das favelas da mesma forma?

Se alguém não vê os muros de condomínios como segregação é porque tem uma mentalidade muito estreita. Pergunte a um jovem de 18 anos, nascido e criado em condomínio, se ele conhece a cidade do Rio. Se sabe como se deslocar pra encontrar outros cidadãos de mesma naturalidade que ele. O condomínio, uma mini-cidade quase autônoma, não se integra com o resto da metrópole.

A grande diferença que Bethlem não vê (ou ignora) é que a decisão dos condomínios terem muros é tomada... pelos moradores! Que nunca tiveram problemas de serem donos de suas moradias, ou de pagar por elas e por seus respectivos terrenos. Vai igualar essa situação a dos favelados?

E outra: se o objetivo do muro em volta das comunidades é impedir a devastação ambiental, por que não se faz o mesmo na outra ponta? Todo mundo sabe que os novos condomínios da Barra da Tijuca, Recreio e Jacarepaguá estão destruindo áreas de preservação (já garantidas por lei!), e que todo o terreno é movediço. A Vila do Pan está afundando desde a época dos jogos!

Não quero tratar de maneira simplista o problema da moradia ou das favelas cariocas. Mas Rodrigo Betlhem e seu chefinho Duda Paes querem. E o fazem para atender a uma expectativa de boa parte da classe média e da especulação imobiliária. E porque não tem competência ou vontade política para pensar em algo diferente.

O artigo de Bethlem foi publicado na véspera da Páscoa. Prefiro acreditar no coelhinho do que nas boas intenções do ordeiro público.
Che, o homem
Benicio del Toro fez muito bem ao resolver filmar a vida de Che Guevara. Fez melhor ainda ao encarnar o próprio e chamar Steven Soderbergh (de Traffic) para dirigir. Baseado nos diários de guerrilha do mito da esquerda mundial e tendo como consultor John Lee Anderson - considerado o melhor biógrafo de Che - o filme não é nada épico. E isso é o que ele tem de melhor.

Três momentos da vida de Che são contados paralelamente: o encontro com Fidel Castro no México, onde o então médico argentino é "convocado" para a revolução cubana; sua visita aos EUA em 1964, como chefe de estado, em recepções, entrevistas e na ONU; e o cotidiano da guerrilha desde antes de Sierra Maestra até a conquista do poder em Havana.

O filme não é épico porque reproduz os fatos com caráter realista. Isto é, sem delírios Hollywoodianos ou esquerdistas para manter a aura mitológica que envolve Ernesto Guevara até hoje. Nada de trilha sonora estrondosa ou takes imponentes, como se ele fosse o maior dos guerreiros revolucionários. Tampouco suprime detalhes da humanidade de Che, mostrando seus ideais e hábitos nobres como suas discordâncias com Fidel (e em algum momento, uma aparente desobediência hierárquica).

As cenas também foram filmadas como antigamente: exércitos e camponeses existem naquele número, não são truques de computador. A selva é uma selva mesmo, e o ritmo do filme não é o de um thriller alucinado de ação ou aventura. Pelo contrário: em alguns momentos um tipo de espectador pode se entediar com a falta de tiros ou de palavras de ordem enérgicas. E é um filme sobre a revolução cubana!

É retratado o passo-a-passo da conquista militar em Sierra Maestra, de maneira quase didática. Dá pra entender como os revolucionários cubanos conseguiram o que parecia impossível - e a narrativa mostra que de impossível ou extraordinário pouco existia. É realismo despretensioso, e esse foi o enfoque ideal para desmitificar Che sem rebaixá-lo.

Mas se Benicio del Toro está ótimo como Che, é preciso destacar o trabalho de Demián Bichir, que interpreta Fidel. É uma atuação quase mediúnica de tão fiel e bem feita. Outro ponto alto: o filme é falado em espanhol. Claro! O protagonista é um argentino em Cuba, buscando ser porta-voz das Américas Central e do Sul. Uma raridade entre os produtores norte-americanos, que praticam coisas terríveis como a versão cinematográfica de O amor nos tempos do cólera - atores espanhóis, autor colombiano e tudo em inglês com sotaquezinho castelhano...

Originalmente, Che é um filme de quatro horas que foi dividido em dois. A segunda parte vai narrar sobre a guerrilha na América do Sul, em que o líder cubano foi morto. Vale assistir, pela oportunidade de ver retratada a vida de alguém tão evocado e banalizado que faz com que nos esqueçamos do homem Ernesto Guevara. Esse sim existiu, muito antes do mito.


quarta-feira, 8 de abril de 2009

Deixa o homem trabalhar

"Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido."

É o que diz a Constituição, e é o que disse o jurista Sobral Pinto num histórico comício na praça da Candelária, Rio de Janeiro, na campanha pelas eleições diretas para presidente. A frase é simples, categórica e não dá margem para interpretações dúbias. É aquilo ali e ponto final.

Cristovam Buarque sabe muito bem disso. E verbalizou a mesma frase emanada por Sobral Pinto de uma maneira muito mais atual e crítica:

"A reação é tão grande hoje contra o Parlamento, que talvez fosse a hora de fazer um plebiscito para saber se o povo quer ou não que o Parlamento continue aberto."

Os tacanhos de plantão já interpretaram as palavras do senador literalmente. Cristovam teve que passar o dia se explicando, dizendo que não propôs tal questão, mas externou de maneira didática e extrema a relação que o povo brasileiro tem com seus ditos representantes.

Vale lembrar que Cristovam é um membro do Parlamento. Não pode sequer ser acusado de legislar em causa própria. Quem conhece seu histórico político também compreendeu a didática, e sabe que ele não quis abortar a democracia pura e simplesmente. Luis Fernando Verissimo já disse que escrever com ironia é perigoso, e por isso ele hoje precisa dizer quando comete uma ironia, para que as pessoas compreendam as entrelinhas como devem.

É chocante como as palavras de Cristovam chocam mais os seus colegas do que os demais desmandos dos parlamentares. Uma casa com milhares de mordomias e cabides de emprego aprovados descaradamente, que suga o dinheiro público mais do que a crise financeira mundial. E vão se ofender com a opinião corajosa de Cristovam Buarque?

Se todo poder emana do povo e deve ser exercido em seu nome, o que fazer quando flagramos diariamente que isso não tem acontecido? Qual a razão de existir um poder constituído se o povo não faz parte dele nem representado?

Logo, Cristovam não cometeu um ato falho. Mas um ato dos mais verdadeiros que já se viu na atual podridão do Senado Federal. A crítica foi tão contundente que nem o eterno golpista Jair Bolsonaro saiu em apoio ao senador do Distrito Federal.

E olha que Cristovam sugeriu um plebiscito, isto é, um instrumento democrático para ouvir a voz do povo de maneira mais prática. Mas quem exerce seus mandatos públicos sem saquear o povo, como o senador, e sabe "tocar na ferida" para criticar os descaminhos do sistema político merece ser ouvido.
Pitacos políticos

Populista, eu?

Lula demitiu o presidente do Banco do Brasil devido aos juros altos aplicados pela instituição de economia mista (mezzo pública, mezzo S.A.). Engraçado... O BB se sente livre para aplicar esses juros diante da política do Banco Central, que regula o funcionamento das instituições financeiras.

E quem escolheu - e blindou - o presidente do Banco Central (foto), desde sempre associado a esse tipo de política? O Governo Lula. Que ironia, não?


***

Pequeno peixe (ou Peru)?

O ex-presidente do Peru, Alberto Fujimori, foi condenado a 25 anos de prisão por "crimes contra a humanidade". E quais são eles? Assassinatos e seqüestros realizados na década de 90.

Qual seria a acusação para George W. Bush diante dos genocídios iraquianos plus Guantànamo? Crimes contra a galáxia?


***

Desemprego

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, apresentou o modelo da carteirinha de legalização dos camelôs da cidade. O crachá de identificação vem com uma foto do próprio e a legenda: "pipoqueiro". Ao lado, uma de Rodrigo Maria Zilda Bethlem, secretário de Ordem Pública, como "auxiliar".

A prefeitura quer tirar o emprego dos humoristas? Piada pronta assim é covardia!

terça-feira, 7 de abril de 2009

terça-feira, 31 de março de 2009

Cidadãos?


Se fosse possível medir um "quociente de ingenuidade", eu gostaria de conhecer o meu. Talvez isso explique por que fiquei tão chocado com algo aparentemente normal. Ou não?

Assisti ao excelente Cidadão Boilesen, no festival de documentários É tudo verdade. O filme resgata a trajetória de Henning Boilesen, dinarmaquês naturalizado brasileiro e ex-presidente da Ultragaz. O empresário, idealizador do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), liderou seus pares no financiamento da ditadura brasileira (cujo golpe fez aniversário ontem, 1o. de abril). Particularmente a Operação Bandeirantes, que caçou subversivos em São Paulo.

Boilesen ficou famoso por seu sadismo ao assistir sessões de tortura e até mesmo trazer aparelhos do exterior para a prática. A "pianola Boilesen", espécie de instrumento com teclado que dá choques intermitentes (e que pôde ser visto no filme Batismo de Sangue) já diz tudo.

O documentário ouve historiadores, militares, ex-militantes, ex-ministros do governo militar, políticos e até mesmo Henning Boilesen Junior. São muitos pontos de vista e farta documentação dos arquivos da CIA (já liberados para consulta, ao contrário dos arquivos da ditadura brasileira) que confirmam a cruel dubiedade de Boilesen.


O empresário foi assassinado (ou justiçado, como dizem os ex-militantes de esquerda) em 1971. Seu carro foi fechado, ele levou um tiro de fuzil, saiu correndo baleado, levou outros cinco tiros pelas costas e caiu com o rosto na sarjeta, ao lado do meio-fio. Tudo isso é narrado pelo filme com fotos e recursos de animação, sem escatologia.

No momento em que o narrador mencionou que "Boilesen, já ao chão, levou 25 tiros na cabeça", duas fileiras do cinema começaram a aplaudir.

Não uma ou duas pessoas, mas quase vinte. Não começaram a aplaudir ao ser anunciada a morte do empresário, mas quando o narrador informava que Boilesen levou 25 tiros na cabeça.

A partir daí, comecei a me perguntar sobre meu "quociente de ingenuidade". Porque o primeiro sentimento, a primeira ideia que me veio foi: "vocês são iguaizinhos a ele".

Depois desse primeiro momento vem a crítica mental/social e tenta justificar/censurar tal sentimento. "O homem foi um sádico, fez coisas tão cruéis ou piores do que 25 tiros na cabeça de alguém. Como é que eu posso igualar um cara desses àqueles que aplaudiram? Será que não sofreram na ditadura, ou perderam alguém? Será que eles devem ser condenados por aplaudirem e se regozijarem com a destruição de um mega-vilão da vida real?".

Antonio Carlos Fom, um dos ex-militantes de esquerda perseguidos, verbaliza sua auto-censura durante seu depoimento para o filme: "É complicado a gente, hoje, dizer que se alegrou com a morte de alguém. Mas naquela época podemos dizer que ficamos felizes com a morte do Boilesen".

Só que as pessoas no cinema não aplaudiram a notícia da morte, mas o requinte dos 25 tiros na cabeça do empresário já moribundo. E aplaudiram em 2009, não em 1971.

Sou ingênuo em ficar chocado com tais aplausos? Ou em igualá-los a Boilesen?

Documentários como Hércules 56 (e outros depoimentos de Cidadão Boilesen) contextualizam a ação da luta armada contra a ditadura. Franklin Martins e Daniel Aarão Reis, hoje, não consideram que foi a melhor opção de militância - e olha que eles seqüestraram o embaixador dos EUA e conseguiram libertar presos políticos. No documentário de ontem, depoimentos de exilados mostram que a democracia no Brasil não existia, e não havia caminho diferente da luta armada para os que ousavam contestar o regime com veemência.

Mas os aplausos me transpuseram aos tempos horrendos. Será que essas pessoas aplaudem tratamento igual aos criminosos de nosso tempo? Se assim for, por que militantes padeceram em nome dos direitos humanos, se quando chega a vez dos "homens de bem" eles tem o mesmo sentimento dos torturadores?

Talvez alguns dos que aplaudiram leiam estas linhas e me acusem de reacionário ou insensível. Corro esse risco, mas hipócrita não serei. Confesso qual foi meu primeiro sentimento arrepiante ao presenciar os aplausos a 25 tiros na cabeça de um quase-morto, seja quem for. É tudo verdade.

Solidarizar-se com as vítimas da violência não é ter orgasmos com violência igual. É aproveitar a oportunidade para promover a paz, o entendimento e a superação de estigmas. O que é muito superior ao olho por olho, dente por dente.

ATUALIZAÇÃO EM 10/04/09: o filme venceu o prêmio de melhor documentário brasileiro.

sexta-feira, 20 de março de 2009

quarta-feira, 18 de março de 2009

O legado de Clodovil

Muito se pode falar sobre Clodovil Hernandez, folclórico estilista e apresentador de TV que faleceu ontem, aos 71 anos, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC).

O que vale a pena ficar na memória como o legado de Clodovil, acredite se quiser, é o seu mandato como deputado federal.

O blogueiro fala sério. É só conferir esse post pra entender o que digo.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Einstein foi superado


Em cerimônia amistosa, José Sarney repassa o cargo de Presidente da República a Fernando Collor de Mello, eleito no 2º turno das eleições de 1989.

Não, a legenda não é essa. Mas poderia ser.

Não, os personagens em questão não estão mortos ou no ostracismo político.

Sim, Collor sofreu um impeachment há 17 anos.

Sim, Sarney não conseguiu se eleger senador por seu próprio estado, o Maranhão. Teve que seguir para o Amapá.

A legenda correta (adaptada por este blogueiro) é:

O senador José Sarney (PMDB-AP), reeleito presidente do Senado Federal, e o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), recém-empossado presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado.

Albert Einstein morreu sem conseguir provar sua teoria sobre a possibilidade da viagem no tempo.

Foi superado pelo sistema político brasileiro e pelos eleitores do país.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Só por uma noite

Foi quanto durou minha leve sensação do que é ser uma pessoa solitária. Nem tive a pretensão de fazer uma experiência antropológica. A amada esposa viajou por uma semana e, desde que casamos, foi a primeira vez que cheguei em casa sem ela a me esperar ou prestes a chegar. Ela, por sua vez, já tinha passado por experiência semelhante devido a alguns cursos que precisei fazer em - argh! - São Paulo.

Durante a semana são dias de labuta: contato com colegas de trabalho, envolvimento em projetos que me enlaçam até o pescoço e chegada em casa para um lanche, um video-game, um Seinfeld, uma leiturinha pré-sono e cama. O sábado, durante o dia, não é tão diferente: em vez de compromissos com terceiros, são comigo mesmo: compras a fazer, horas de lazer, visita à vovó e logo, logo já passam das seis da tarde.

Mas e à noite? Sábado à noite sem a amada? Mesmo o filminho do Telecine, que vem a calhar a três (eu, ela e o home theather) fica tremendamente insosso. Cinema? Coisa de maluco: ingresso no dia mais caro para se aborrecer com os que fazem da sala de projeção um boteco animado. E todos os amigos próximos também são bem casados, não serei um separador de amores logo no sábado à noite.

Então me percebi à beira da janela de meu apartamento sem nada para fazer. Àquela hora, não cabia ligar para qualquer pessoa. TV, DVD e afins não me seduziam. Livros e revistas bem antes de dormir? Nhá. Porém, não me sentia entediado. Ora, então que sensação era aquela?

Solidão.

No entanto não era aquela solidão brusca, que é atalho para depressão e coisas do tipo (afinal, estamos falando de uma noite apenas). O sentimento foi se confirmando pela idéia que tive a seguir e que vim a concretizar: ir a um barzinho com 2 livros a tiracolo para ler. Por que lá? Por serem lugares cheios de gente e, mesmo estando sozinho à mesa, sentir que não estava sozinho. Definitivamente, solidão.

E lá fiquei por uma hora, petiscando e bebericando sozinho, em companhia apenas de um livro (ótimo, por sinal. Tanto que o outro ficou esquecido). Sendo absolutamente honesto com os queridos leitores, confesso que fiquei na ingênua expectativa de ser encontrado por alguém conhecido. Repare no tempo verbal: ser encontrado, não encontrar alguém.

Foi ficando mais tarde, e veio a hora da conta. Paguei, e agora? Lá veio a angústia da solidão de novo: então já acabou? Só resta voltar para o apartamento de sempre e ficar, de fato, sozinho, sem os subterfúgios sociais do barzinho? É isso mesmo, meu chapa.

Assim foi minha breve sensação solitária. Nem me arrisco a pensar como seria viver assim, e imediatamente senti-me como Drummond: meu coração não é maior que o mundo, é muito menor. E, no momento em que escrevo essas linhas, o essencial músculo é pequeno demais para conter todas as pessoas do planeta que são, na real, categorica e cotidianamente solitárias.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O alter ego que nós queríamos














São muitas as semelhanças: ambos fazem parte de minorias que sofrem preconceito em seus países; tais minorias também são caracterizadas por terem os menores salários, e só são maioria quando o assunto é pobreza. Diante disso, ambos foram cercados de grandes expectativas quando a chance de vencerem uma eleição presidencial parecia possível; e ambos possuem grande carisma perante as massas. Sim, o negro filho de imigrantes Obama e o ex-metalúrgico e nordestino Lula possuem muito em comum.

As condições em que foram eleitos também foram parecidas: a rejeição do povo a seus antecessores diretos era grande, e a insatisfação social era muita. Não à toa, uma palavra foi crucial nos seus motes de campanha e no início de governo: nos EUA, "Change: yes, we can" foi o slogan do ano; em Brasília, 2003, "Mudança." foi a primeira frase do discurso de posse.

Parece leviano querer comparar um presidente que está na metade do segundo mandato a um recém-empossado? Ainda mais com sistemas de governo (bipartidarismo prático versus pluripartidarismo quase anárquico etc) e países tão diferentes quanto à sua influência mundial? Não se tratarmos dos gestos dos primeiros dias de governo.

Na primeira canetada, Obama decretou um prazo para o fechamento da prisão de Guantánamo e o cumprimento da Convenção de Genebra. Também limitou os salários de sua equipe de governo, em meio a uma crise financeira na qual a população está perdendo emprego e renda. Além disso, proibiu que funcionários públicos recebessem qualquer tipo de presente, inibindo o lobby (que nos EUA é tão enraizado que é profissão regulamentada).

Muito Obama ainda pode fazer. Porém em dois dias de governo já sinalizou muita coisa. Para a linha dura antiterror, que o mundo não é tão simplista a ponto de se desfazer de conquistas do passado, como os direitos humanos e as liberdades individuais; como todo líder que busca credibilidade por meio da coerência, deu o exemplo sendo sensível ao contexto econômico; e bateu de frente com um segmento poderoso da sociedade estadunidense, que não raro ameaça a democracia.

Se Lula, em seus primeiros dias (ou até meses de governo) aproveitasse a maciça popularidade e tomasse decisões que confirmassem a expectativa nele colocada, poderíamos ter um país talvez não tão refém da governabilidade - que só existe honrando os clientelismos de sempre. Ou ao menos, a sensação inicial de que a vontade política era à altura da história de Lula e do PT e que as coisas de fato seriam diferentes.

Mas logo de cara Lula chamou o PMDB para o governo, enviou a Reforma da Previdência para o Congresso (e não a Reforma Política) e não mudou em um milímetro o financismo das políticas econômicas. E Obama não olhou apenas para a economia na hora de tomar decisões que, além de práticas, são simbólicas e midiáticas (mas com eco social).

Pode-se dizer que o Brasil não passava pela crise que os EUA passam (a inflação estava controlada), e que Obama só está podendo muito graças ao desserviço público de George W. Bush. A sensação de "pior, não pode ficar" que o povo norte-americano passa seria o "lastro" para Obama não ter receio de cumprir promessas de campanha.

Mas por quantas crises o Brasil já passou? Quantos escândalos na esfera política e de má condução governamental já testemunhamos? Será que, apesar da estabilidade econômica, Lula não teria encontrado um país que anseava por mais, muito mais do que tinha conseguido até então? E que só ele, mais ninguém, poderia ser o líder capaz de começar um radical (mas não irresponsável) processo de mudança na postura e na visão de quem governa nosso país?

Perguntas, perguntas, especulações, especulações... Ainda assim, atire a primeira pedra quem não está sentindo uma dorzinha-de-cotovelo ao saber das notícias da America.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Engenheiro, dentista, jornalista, ser humano...


Fazendo hora para o filme começar no Espaço de Cinema, em Botafogo, dirigi-me ao balcão que oferece vários prospectos gratuitos. Peguei um sobre oficinas de escrita, outro que era um vale-ingresso para um documentário e outro sobre o bloco de carnaval da Preta Gil. Não os escolhi aleatoriamente: para cada um, pensei em uma pessoa específica que gostaria muito de saber do conteúdo daqueles prospectos (ok, o da Preta Gil eu peguei só pra sacanear mesmo).

É inevitável: existe algum mecanismo dentro de mim que sempre identifica automaticamente quem gostaria (ou teria muito a ver) com aquele prospecto, aquele livro, aquele CD, aquele DVD, aquele qualquer coisa. Vejo sim, o que me interessa. Mas também fico interessado em levar aquilo a quem vai se interessar muito mais do que eu.

É um processo que, ao menos no primeiro momento (aquele momento em que as idéias, ainda na sala de parto, não levaram o tapa da razão e da nossa personalidade), não faz distinção dos possíveis beneficiários. Já me flagrei pensando: "Esse livro tem tudo a ver com Fulano de Tal, ele vai gostar" e logo em seguida lembrar que Fulano de Tal é um especialista em me atormentar o juízo.

Tal mecanismo parece ter alguma relação com a "economia da dádiva", conceito elaborado por Marcel Mauss que conheço superficialmente. Segundo a Wikipedia (ambiente mais do que apropriado para falar sobre o conceito), nesse sistema é assim:

"presentes ou serviços que se apresentariam à primeira vista na forma de ofertas voluntárias fazem parte de uma organização que torna a reciprocidade uma obrigação. É importante ressaltar que não há equivalência, mas sempre ofertas cada vez maiores, num pacto onde um dos indivíduos sempre está em dívida com outro."

Algo parecido saiu da boca de ninguém menos que Jesus Cristo, conforme narra o evangelho de Lucas, capítulo 6, verso 38:

"Dai, e dar-se-vos-á; boa medida, recalcada, sacudida, transbordante, generosamente vos darão; porque com a medida com que tiverdes medido vos medirão também."

Correndo o risco de parecer demagógico, não penso em reciprocidade quando o tal mecanismo é acionado. Realmente me sinto bem se fizer chegar às mãos de outra pessoa algo que vai ao encontro do momento e das expectativas dela. Isso vale para presentes e para informações, que quando chegam em boa hora é como gole de água fresca no calor.

Observando o mecanismo reparo que minha grande alegria é fazer pontes. É registrar a necessidade de alguém, sentir a memória acessando-a no exato momento em que a solução correspondente aparece e ir correndo ao tal alguém pra dar as boas novas. Dever cumprido, eu sossego.

Fazer pontes: isso é coisa de engenheiro. Ou dentista. Profissões que eu nunca exerceria. Não deixa de ser coisa de jornalista também (ufa!). Mas eu nunca aprendi ou apreendi o tal mecanismo em qualquer faculdade. Apenas constatei. Parafraseando Chico Buarque, só sei que vou prosseguir, tijolo por tijolo num desenho lógico (ou mágico) contruindo minhas Golden Gates.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O carioca da gema está chocado

Barra da Tijuca; São Conrado, Recreio dos Bandeirantes, Leblon, Ipanema, Copacabana (Botafogo); Flamengo (Largo do Machado), Glória e Laranjeiras; Tijuca e Centro. É com esse time que praticamente todo prefeito eleito joga seu mandato (porque o candidato a prefeito ainda flerta com a Zona Norte e a Zona "Curral de Votos" Oeste). Não foi diferente com Duda Paes.

O que você pensaria ao anunciarem que seu bairro será alvo da "Operação Choque de Ordem"? Pois é isso que está dando alegria ao escrete carioca que começou este artigo. Rodrigo Betlhem, Secretário da Ordem Pública e filho da Maria Zilda, começou fazendo arte do jeito que sua torcida gosta. O "choque" nada mais é do que derrubar imóveis irregulares, apreender mercadorias de camelô (e/ou o próprio) e limpar as ruas (considerando que a população de rua, para os atuais governantes da capital, nada mais é do que lixo humano).

Bethlem afirma que a Prefeitura não vai sair dos locais "chocados" até o problema estar resolvido. A princípio, duvidei que o governo municipal tenha mão-de-obra pra estar presente por um bom tempo em todos os lugares afetados. Mas como os demais bairros do Rio não devem ter a mesma atenção (lembrai-vos do escrete), até acredito que tal promessa será cumprida.

Um prédio no Recreio, que era irregular e seria domínio de uma milícia, foi demolido. Bom. Falta agora demolir os quartéis milicianos em Campo Grande, Santa Cruz, Jacarepaguá... Será que Duda Paes terá peito pra isso?

O que acontecerá com os moradores do prédio posto abaixo? Os ambulantes removidos terão chance de ser regularizados? Haverá abrigos suficientes para toda a população de rua? São perguntas que a Prefeitura do Rio não responde, até porque a imprensa carioca (que influenciou tanto o novo governo a ponto da "ordem" ter sido palavra de ordem no Globo) não se interessa em fazê-las.

Uma vez mais temos um governo que, após eleito, só olha para a orla e assim agrada a quem iria incomodá-lo de maneira significativa. Os outros bairros só contam com os remendos de emendas legislativas, e assim a Prefeitura facilita a dependência de boa parte da população com os vereadores ligados a milícias, máfias e todo o tipo de clientelismo.