quarta-feira, 21 de maio de 2008

O pânico que "não" existiu


É aterrorizante ler o relato da leitora Claudia Freitas sobre a pane no metrô do Rio de Janeiro, na segunda dia 19. Em alguns momentos, parece que estamos diante de cenas do livro "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago.

Mas a parte mais chocante do relato (pra mim, que não estava no metrô) é a atitude da concessionária do Metrô Rio em negar que os fatos aconteceram. Se alguém é tratado assim após narrar fatos que viveu, imediatamente começa a duvidar de sua própria sanidade mental.

O Metrô Rio está afirmando que tudo não passou de uma alucinação coletiva?

A incompetência na prestação do serviço de forma adequada não é mais novidade. Já acontece nas Barcas S.A., na SuperVia, e agora no superlotado Metrô, que inventa integrações das quais não pode dar conta com o número de vagões que possui.

Mas negar descaradamente que a pane aconteceu dá indícios de vilania e mau-caratismo.

Agetransp, secretarias de Transporte, Governo do Estado... quem vai dar um jeito nisso? Sergio Cabral parece preocupado apenas em criar novos meios de transporte pra continuar enchendo os cofres da iniciativa privada.

PS: o presente post (com as necessárias adaptações de texto) foi encaminhado para a Agetransp, para a Secretaria Estadual de Transporte, para a secretária de Sergio Cabral e para o SAC do Metrô Rio.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Meu encontro com o Rei

Eu era recém-concursado da Prefeitura do Rio de Janeiro, como profissional de nível médio de informática. Estava no início da faculdade de Jornalismo, e pensava: como conciliar o que estava estudando e meu trabalho?

Pensei logo na assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura - tudo a ver comigo. Pensei mais ainda quando soube que Artur da Távola tinha acabado de ser escolhido o secretário de lá.

Eu já conhecia as crônicas dele, mas fiquei fascinado mesmo quando assisti a uma entrevista na TV Cultura, com o então senador analisando a existência e os impactos da televisão. Fiquei impressionado com o profundo e perspicaz conhecimento sobre o assunto, e sendo comunicado de maneira tão simples e singular.

Já imaginou trabalhar com esse cara? Ou, ao menos, pra alguém que pensa daquele jeito?

Enquanto sonhava, trabalhava no 5º andar do prédio da Prefeitura, na Secretaria de Desenvolvimento Social. Um dia precisei ir ao 3º andar - na Secretaria de Cultura. Em determinado momento, foi necessária uma providencial ida ao banheiro.

Por sarcasmo sacana do destino, quem está a dois mictórios de mim? Obviamente, pra que ninguém duvide de minha masculinidade, fiquei na minha.

Mas na hora de lavar as mãos, pias paralelas, o fã desejoso de um emprego melhor não resistiu, naif:

- O senhor é o Artur da Távola, não é?

- Sim, sou eu.

- Eu vi sua entrevista na TV Cultura. Muito boa.

- Obrigado.

(O DIÁLOGO A SEGUIR CORRESPONDE À VERDADE FACTUAL FIEL)

- Eu faço jornalismo na UFF...

- Ah, estamos precisando alguém lá na assessoria pra ajudar a fazer os informativos, a divulgação... Fala com o Jorge Roberto, meu assessor de imprensa, pra ver como faz.

- Ah, legal! Obrigado. Vou falar com ele.

Ele se despediu e eu ainda aguardei alguns eternos meses até conseguir ser lotado na Secretaria de Cultura, na assessoria de imprensa. Lá conheci o Geraldo Lopes, a Anna Paula (designer e até hoje minha grande amiga) e ganhei uma significativa experiência de vida e de trabalho.

Não tinha contato com Artur da Távola nos 11 meses que fiquei por lá, mas desde então acompanhei ainda mais sua carreira e suas análises de comunicação (caminho acadêmico que pretendo seguir).

Hoje, o Rei Artur abdicou, pela vontade soberana de seu coração. Ele próprio, com suas palavras e conhecimento, era o cálice sagrado sempre buscado.

ATUALIZAÇÃO: Indico artigo sobre Artur da Távola no Observatório da Imprensa, que comprova o caráter socializante de seu conhecimento.
O telefone existe

Concentrado no trabalho numa terça entre feriados. O dia tinha tudo pra ser calmo, mas pega fogo. Só depois das 17h volta à normalidade. De olha na tela do computador (da minha "máquina", diria portentosamente o pessoal da TI), o telefone de um colega toca.

Toca sem parar, pois o colega não está na mesa no momento. Os ringues prosseguem, ininterruptamente, irritantemente. A pessoa do outro lado ainda não sacou que ali não há ninguém? Ou colocou na discagem automática e se distraiu, deixando o inferno reverberar?

Releio os parágrafos acima e pareço exagerado. Mas é o reflexo de um telefone que toca sem parar enquanto quero tocar meu fim de dia de labor. O trim-trim eterno revela a indiferença que pode reinar num ambiente de trabalho.

Todos ouvem o telefone. Ninguém atende (nem eu). Todos sabem que é do outro, problemas e informações destinados ao outro, no máximo arranjaremos o ofício de garoto de recados. Ninguém quer isso. Ignoram a campainha incessante. Quanto tempo vão resistir?

Vez por outra sucumbo. Atendo, anoto recado, tento ser educado, informo obviedades - "fulano não está" - e desligo, aliviado. Em breve tornam a ligar, o telefone existe e torna a tocar, a maioria prefere deixar pra lá.

Assim como aquele toque sonoro incessante, muitas outras situações - e pessoas - são alvos da indiferença constante que somos capazes de cometer. Dia desses me dei conta de que nunca lembrava do rosto dos profissionais da limpeza. Como lembraria, se sequer olhava-os nos olhos?

Aprendi que é tão fácil ignorar um aparelho telefônico quanto uma pessoa. Ambos podem ser igualmente irritantes - mas nem sempre. Há quem vire paisagem pra gente, e penso se merecem tal tratamento.

Aqui, no meu silêncio, posso ser tão infernal quanto um telefone que toca, toca, toca.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Complexo

As manifestações midiáticas e seus conteúdos não estão descoladas de seu tempo. Nada do que é produzido no ramo do entretenimento está absolutamente dissociado da realidade, e do que ela inspira nos roteiros.

O seriado House enquadra-se perfeitamente nessa definição. Em vez de um protagonista clássico com nobres valores, o médico diagnosticista é um anti-herói assumido, imanente, anti-social e extremamente competente.

No mundo de hoje, exacerbado de celebridades artificiais sem conteúdo e ídolos fabricados que não convencem ninguém, nós (a audiência) buscamos autenticidade. Pensaram que os reality shows dariam conta dessa demanda, mas até ali o jogo de máscaras se impôs.

Assim, Dr. Gregory House é autêntico canalha, porém excelente médico. E sua personalidade o ajuda a descobrir curas até então improváveis, salvando vidas - chega-se ao mesmo happy end romântico, sem romantismo.

São dez roteiristas para dar conta de uma rede complexa de argumentos e relações interpessoais, éticas e médicas onde House é a linha narrativa condutora. Quem assiste a um episódio dificilmente imagina qual será a próxima frase de qualquer personagem.

Bom, não fui pago pela TV a cabo para promover o seriado, mas ele serve de trampolim para este artigo. Assim como serve de espelho para quem está do lado de fora da telinha.

O desenrolar da rede mencionada acima é bem mais enigmático que os sintomas que vão surgindo nos pacientes de House. O seriado mostra o que sabemos e tentamos sublimar dia após dia: nosso mundo, nossa vida, nossas relações são extremamente complexas.

Quando imaginamos ter chegado a algum cais de estabilidade, percebemos (?) que o tempo virou e de nada vai adiantar encarar o que surge de maneira simplória, simplista.

É tudo ricamente complexo, fascinantemente maior que nós, que nos matamos pra ir descobrindo como matar as charadas da vida, que aparecem em nosso caminho como minas terrestres. Sempre estiveram ali, mas descobrimos quando pisamos...

Assistir House é testemunhar a própria vida de camarote, pois em algum momento do episódio (qualquer episódio) vem aquele riso nervoso, fruto do toque em algum fundo de verdade a nós relacionado. Ou o sentimento de dúvida perante certezas acumuladas em prateleiras emocionais, ou mesmo o nó na garganta de uma imobilidade inescapável perante as complexas situações que assistimos e vivemos.

E a canalhice do médico não nos permite subterfúgios: é conosco tudo aquilo, mesmo se não formos médicos, atores, roteiristas, porém todos potencialmente pacientes.

Ao contrário de muito do que se encontra na TV atual, House combate o entorpecimento via entretenimento. É a originalidade que precisamos.
Revolução dos trouxas

É o título de excelente artigo de Fausto Wolff (foto), publicado no Jornal do Brasil de 29/04. Imprensa e teatro, instituições e cidadãos, tá tudo ali, bem resumido e bem incisivo.

Como faz falta essa assertividade aos colunistas atuais...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

A flama, a chama, e os inflamados chamam a atenção

As Olimpíadas de Pequim são o mais constante alvo de protestos contra o desrespeito aos direitos humanos na China. A ameaça de boicote por parte de chefes de governo europeus, a manifestação dos Repórteres Sem Fronteiras (contra o desrespeito à liberdade de imprensa), e agora o apagão forçado da tocha.

A discussão da vez é se o esporte é um meio legítimo para manifestações do tipo. O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Artur Nuzman, é contra o boicote, por considerar um prejuízo à carreira dos atletas que se preparam há anos para os Jogos.

O jogo EUA x Irã aconteceu na Copa de 2002 apesar do contexto político extremado entre os dois países. Se ali foi louvada a não-interferência dos fatores externos na esportividade, por que seria mais aceitável uma postura, fruto de atitude política, que traz conseqüências aos atletas - como um boicote?

O protesto dos atletas nas Olimpíadas de 1968, com as luvas pretas nas mãos, aconteceu com a prova já encerrada e os dois corredores já tendo ganhado a competição por seus méritos. Perderam as medalhas por causa disso. Justo ou não? A leitura geral dos organizadores do esporte é que a política não pode se misturar.

Mas o que parece motivar os manifestantes atuais é que, como qualquer outro país, a China estará capitalizando (em todos os sentidos) em cima do sucesso dos Jogos de Pequim, com toda a visibilidade planetária. E assim, questões não resolvidas (ou mal-resolvidas) como a violência no Tibet e o desrespeito aos direitos humanos serão solenemente ignoradas quando o mundo inteiro estará de olho na pujança chinesa.

Aliás, cada país assina um termo comprometendo-se a respeitar (ou resolver) várias questões humanitárias e sociais. Isso é sério? A China, pelo visto, não poderia então realizar os Jogos. É o money envolvido no globalizado e lucrativo esporte mundial...

Então, a lei que parece valer é: se o esporte denuncia os descaminhos políticos, não pode misturar. Mas se for pra aproveitar a mobilização e a simpatia mundiais que o esporte proporciona - e por tabela mascarar realidades - pode.

O importante é competir... com o quê?

domingo, 30 de março de 2008

Eu conheci Wilson Simonal

Podemos enumerar a perder de vista as invenções do homem que trouxeram males à sociedade: bomba atômica e armas em geral, guerras, segregação, esquemas corruptos... Mas é preciso saudarmos a invenção que é o documentário.

Deslocado no tempo em relação ao objeto de sua investigação, o documentário tem a capacidade de fazer justiça e complementar o trabalho que o jornalismo diário por si só nunca conseguirá: falar com muitas fontes (a tempo), permanecer para ser visto e revisto, estar fora do calor do momento para analisar melhor o que aconteceu naquele período.

É claro que o documentário também corre o risco de cristalizar injustiças. Porém, na minha opinião, não é esse o caso de Simonal - ninguém sabe o duro que dei. Meus conhecimentos sobre o cantor dos anos 60/70 se resumiam a dois fatos: uma aparição no programa da Hebe e a fama de delator à época da ditadura. Recentemente o Burger, colega de trabalho e conhecedor musical eclético, me apresentou a um CD duplo de Wilson Simonal. Ali comecei a saber que foi excelente cantor, original, inovador, cheio de suingue na voz e no jeito. Gostei do que ouvi.

Mas só posso dizer que conheci Wilson Simonal após ver o referido documentário no festival É tudo verdade (com certeza entrará em cartaz nos cinemas, pois é produzido pela Globo Filmes). Contando com uma boa produção e edição - a parte gráfica é impecável - o filme mostra como surgiu Simonal e sua fenomenal trajetória, seu carisma com as massas de seus shows. Enfim, aonde o talento pôde levá-lo, sem deixar de lado a marra de quem já tinha sofrido na vida e julgava merecer a super volta por cima. E lá em cima ele estava quando surgiu a acusação de delator, após um episódio mal-explicado com o seu contador da época.

O filme mostra como Simonal era um artista impressionante e autêntico, e como um episódio em meio ao contexto extremista da ditadura (no qual muitos parecem estar até hoje) pôde manchar uma carreira. Mais que isso: manchar uma vida, com extrema mágoa. Como disse um dos diretores: "a anistia não veio para o Simonal". É de chorar o fato de que ele se escondia nos shows dos filhos para não prejudicar a carreira dos garotos.

Segundo o que vi no documentário, Simonal foi inocente nessa história. Marrento e meio inculto, mas inocente - ainda mais se levarmos em conta a desproporcional repercussão do episódio, atravessando décadas. Ele foi vítima de um lichamento midiático nada incomum nos dias de hoje (Artur da Távola dá um depoimento brilhante a respeito), um comportamento que os profissionais da imprensa não podem mais se sujeitar a fazer. Nem os espectadores aceitarem ou reiterarem, abusando da intolerância e do preconceito. Exemplar a galera do Pasquim admitindo seu patrulhamento, e suas conseqüências.

Justificando minha ode ao documentário, a partir desse filme está resgatada a história de Wilson Simonal. Eu pude conhecer a genialidade do cantor diante de uma platéia, admirar em tela grande e som digital a voz sem igual, testemunhar seus erros, seus dramas e seu legado. Além de mim, muitos poderão ter essa sensação (mesmo os contemporâneos dos acontecimentos), graças a alguém que teve a idéia de contar isso por meio de um documentário.

A impressão que se tem é que, mesmo depois de morto, Wilson Simonal vestiu o azul do filme, e sua sorte então mudou.



ATUALIZAÇÃO: Como post postado não tem volta, resta-nos atualizar o repensar. Pensando mais friamente, acho que Simonal não foi inocente na história do contador. Porém a atitude de relegar seu talento ao ostracismo foi tão grave quanto a malandrangem do cantor com coisa séria. Tantos outros artistas possuem tantos deslizes fora dos palcos, e nem por isso desprezamos sua arte. Foi desproporcionalmente cruel o que fizeram com Simonal.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Ela ainda mexe com as estruturas

Fiquei curioso quando vi a manchete Lan house é condenada por crime de cliente em SP e cliquei pra ler a matéria. Era isso mesmo: um sujeito usou a rede wireless (sem fio) do cyber café pra acessar a internet e enviar um e-mail ofendendo pessoal e profissionalmente uma administradora de empresas. Como o agressor não utilizou um computador fixo do café, não foi possível localizá-lo. A ofendida resolveu então processar o café, e ganhou.

Deixa ver se eu entendi: a lan house foi considerada culpada por oferecer um serviço a mais para seus clientes? A rede sem fio era pra qualquer um que ali estivesse. Seguindo o raciocínio da administradora e do juiz, acho que vou processar a Vivo pelo trote que meu pai levou semana passada. Meliantes ligaram pra ele dizendo que estavam me seqüestrando, e aparecia "número confidencial" (meu pai resolveu atender por não saber quem era). A Vivo é que ofereceu o serviço de rede permitindo que a má fé anônima ameaçasse meu pai...

O episódio revela como a internet ainda mexe com as estruturas consolidadas de mídia e sociedade de nosso tempo. O que já existe na raça humana é amplificado pelo alcance e potencial da rede, mas no fim botam a culpa na rede! É a velha história de tirar o sofá da sala.

"Considero a decisão muito importante, porque dá mais segurança a todos que usam a internet", afirmou o advogado da administradora, Renato Opice Blum, especialista em Direito da Internet. Será mesmo? Qualquer mal-intencionado poderá acessar uma rede sem fio num cyber café e cometer seus crimes tranqüilamente, pois agora há jurisprudência para se processar o estabelecimento. E estamos resolvidos.

A continuar assim, os cyber cafés podem se sentir inibidos em oferecer o serviço e teremos um retrocesso em matéria de desenvolvimento da comunicação. Aposentaram o computador após a ameaça dos hackers? Não, procurou-se melhorar a segurança e a investigação de crimes pela internet. Diversos exemplos poderiam ser elencados aqui, com o mesmo sentido: em vez de atacar as causas e melhorar a prevenção, prefere-se punir o avanço tecnológico (hoje, a internet é a bola da vez). Endurecem a lei pensando que isso é suficiente para conter os criminosos - outro vício de nossa sociedade.

Não duvido que daqui a um tempo os juízes da nova geração, mais ambientados com as possibilidades da internet (para o bem e para o mal), comecem a rever tais sentenças. A Polícia Federal tem ampliado suas habilidades no combate aos crimes na rede. E os parlamentares e seus serviços jurídicos precisam estar preocupados em legislar para o nosso tempo, sem retrocessos.
A montagem do ano (até agora)






quarta-feira, 26 de março de 2008

A origem do logo das Olimpíadas de Pequim 2008






segunda-feira, 24 de março de 2008

Reconhecimento

O caso de Joanna Maranhão já rendeu dois posts aqui no Lessa27. Segue mais um, dessa vez reconhecendo o trabalho da imprensa brasileira.

Hoje o portal de notícias G1, da Globo, deu a notícia da audiência de conciliação entre Joanna, sua mãe e o ex-técnico. Ele processa as duas por difamação ao ter seu nome revelado à imprensa como possível suspeito de abuso sexual.

Perceba que em nenhum momento a matéria cita o nome do técnico. Assim deveria ter sido desde o começo. Não adianta transferir a responsabilidade da primeira divulgação para a mãe de Joanna, se a reverberação geral e pública se dá pela imprensa. O direito à informação é tão universal quanto o direito à presunção de inocência.

domingo, 23 de março de 2008

Anarquia!

Outro verão carioca, outra ofensiva contra a dengue (na defensiva, já que o mosquito prolifera-se e é preciso força-tarefa nacional etc). Com uma novidade inusitada: as crianças foram orientadas a não usar bermudas, já que são as mais atacadas e o aedes voa baixo. Sebo nas canelas! Repelente seria melhor.

O fato é: em pleno verão carioca, chegamos ao ponto de orientar que não se use bermuda! Sinto-me pessoalmente atingido com a notícia. Um dos sonhos de minha vida é trabalhar vestindo o tropical traje, o mais adequado para nosso clima. No entanto, sou obrigado a usar calça comprida de segunda a sexta (ao menos enquanto a moda da saia permanece entre as mulheres...). Isso sempre me enervou.

Lembro de alguns episódios em que a lógica atitude de usar bermuda me privou de meus direitos. Pra começar, nenhum prédio público permite a sua entrada "daquele jeito", e descobri isso da pior maneira. Não lembro qual, mas um importante documento que precisava entregar ficou para depois, devidamente acompanhando de mais dois palmos de tecido. Era o Lessa adolescente dando-se conta da crueldade do mundo adulto.

Já na faculdade, minha turma foi visitar a redação e a gráfica do jornal O DIA. Previamente sonhei com a visita, tal e qual uma criança (de bermuda!!) sonha com o passeio da escola ao zoológico (nenhuma alusão aos profissionais da redação, ok?). No calor do momento, lá estava eu de bermuda. Não pude entrar. Não conseguia admitir que um lugar plural como um jornal meio classe média, meio popular fizesse a mesma carrancuda distinção para seus visitantes. A cena de todos os meus colegas adentrando o prédio da redação enquanto eu argumentava com o segurança dói até hoje. Assumo que chorei de raiva, e me restou visitar a gráfica com o sincero desejo de parar as máquinas... com uma bomba atômica.

Há quem diga que o descolado Google não possui uma regra geral da vestimenta no trabalho. No fundo, sabemos que o importante é fazermos o trabalho bem feito. As aparências contam? Contam, mesmo que você não queira ou perceba que não faz sentido um pensamento assim. Contam muito e muita coisa. Só não entendo por que a bermuda virou o vilão universal.

Por motivos de saúde - e descaso das autoridades competentes, como bem aponta o blog amigo Palavras do Exílio - é aconselhável evitar a bermuda. Sorry, mas o comportadinho aqui vai brincar de anarquista, sabendo dos riscos pessoais envolvidos (como os autênticos anarquistas também sabiam). Bermuda é indispensável para a minha sanidade mental, um carioca que não suporta a gota de suor escorrendo pela canela e o "abafa" desnecessário do jeans a toda prova.

Como já dizia uma antiga assinatura de e-mail, "qualidade de vida é prioritária a qualquer tipo de regra". Menos tecido, por favor.

ATUALIZAÇÃO: vale ler o excelente e conciso texto do sociólogo Léo Lince sobre a dengue no Rio.

quarta-feira, 19 de março de 2008

O bom exemplo

Há pouco postei sobre o caso da nadadora Joanna Maranhão, questionando a atitude da imprensa ao divulgar o nome do técnico suspeito de abuso sexual.

Do outro lado da questão, os jornais ingleses parecem estar interessados em rever seus conceitos (e olha que lá nem teve Escola Base):

Jornais pedem desculpas aos pais de Madeleine

Madeleine é a garotinha seqüestrada que continua desaparecida. A certa altura, os jornais alardearam a suspeita de que os pais estariam envolvidos com o rapto.

Há esperança.
Questão de Estado

A agonia do Parque Aquático Maria Lenk terminou. A construção feita especialmente para o Pan 2007 corria o risco de ficar sem administrador e rumar para o fim, mas o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) assumiu a gestão pelos próximos 20 anos. Por mais que o assunto aplique-se às páginas esportivas dos jornais, é um exemplo de como anda a questão do Estado e suas nuances. Vejamos o contexto.

É chover no molhado falar do amadorismo de nossas autoridades no planejamento e realização do Pan 2007. Este blog já publicou vários posts sobre o assunto. No entanto, vejamos o contexto que o Parque Aquático surgiu: a cidade do Rio de Janeiro precisava dese tipo de instalação para sediar a competição (o parque aquático Júlio de Lamare, no Maracanã, não dava conta). Tal e qual o Engenhão e o velódromo da Arena Multiuso.

Construído e devidamente utilizado para o Pan, a pergunta que não queria calar desde antes voltava à tona: quem vai administrar o Parque? E quando se diz administrar, é claro que se fala também de assumir os custos de manutenção a fim de investir nas futuras gerações de nadadores.

A Prefeitura já tinha repassado ao Botafogo a administração do Engenhão, recebendo em troca um aluguel quase simbólico. E quis fazer o mesmo com o Parque Aquático, que foi oferecido aos grandes clubes do Rio, nas condições descritas no parágrafo acima. Com um detalhe a mais: se a Prefeitura quisesse realizar/promover competições ali, estaria isenta de pagamento de taxas, aluguel etc. Mamata certa, desonerando os cofres públicos (depois da gastança exorbitante da construção).

Pois nenhum clube topou a enrascada. Tampouco alguma empresa quis ter seu nome associado à natação, um esporte que não dá tanto retorno de imagem quanto o massivo futebol, por exemplo.

Diante disso, restava ao Parque Aquático a deterioração. Como o Rio quer sediar as Olimpíadas 2016 e esse tipo de abandono de instalações esportivas "pegaria mal" para as ambições do COB, este assumiu a administração. O mesmo deve ocorrer com o velódromo. Porém, é certo que vão buscar patrocinadores pra sustentar a gestão.

Onde está a questão de Estado nisso tudo? Simples: quem tem a obrigação de garantir os direitos a saúde, educação, cultura, lazer, habitação para a população? O Estado. Há empresas que atuam nesse sentido? Muitas. Porém, apenas se houver algum tipo de retorno para seus investimentos. Está na natureza das empresas buscar o lucro, e nada mais natural que pensem assim quando aplicarem suas quantias. Elas não possuem a obrigação que o Estado possui.

Quer dizer que o Estado deve gastar de qualquer jeito o dinheiro dos impostos? Claro que não (aliás, esse aspecto sempre é apresentado, erroneamente, como o extremo oposto da atuação das empresas). O Estado não pode se omitir no que lhe cabe, nem tampouco terceirizar suas responsabilidades. As empresas podem, pois sua natureza é outra.

Foi esse o "nó" do Parque Aquático, assim como de todo o planejamento pro Pan 2007. E assim é com tantos outros exemplos referentes à administração da coisa pública. Irritar-se com as empresas quando elas se retiram de uma cidade por não estar obtendo os resultados esperados? Bobagem. A cobrança deve sempre ser dirigida, antes de tudo, a nossos administradores e legisladores, que possuem a faca e o queijo na mão (como têm feito desde a década de 90) para diminuir o "tamanho" do Estado (ou para gastar mal o que é recolhido nos impostos). Ora, não está se falando de tamanho, mas de responsabilidades que nunca mudaram e nunca mudarão. As conseqüências desse contexto para a população é que mudam, drasticamente, quase sempre pra pior.

"É um grande alívio o COB assumir [o Parque] porque nós não somos gestores de esporte", disse o prefeito do Rio, Cesar Maia. Não são? E o que ele espera para extinguir a Secretaria Municipal de Esporte e Lazer? Se não são gestores de esporte, o que fazem lá?

O prefeito acrescentou que o custo anual do Parque e do velódromo é de 10 milhões de reais. Ou seja, se foi um alívio, é porque a despesa está pesando nos cofres da Prefeitura. E se está pesando, é outra confirmação de que não houve planejamento algum para o depois.

E se continuar nessa toada? A Prefeitura poderia abandonar a administração do Hospital Municipal Miguel Couto com as mesmas justificativas do Parque. "Nós não somos gestores de saúde". Alguém contestaria? O prefeito estaria sendo coerente, já que ninguém parece estranhar que o Estado não seja responsável por gerir o esporte. E se o Governo Federal admitir que as universidades públicas são um peso pro orçamento? "Nós não somos gestores da educação". Faria sentido.

Portanto, chega de simplismos e mascaramentos ao abordarmos a discussão do papel do Estado no mundo contemporâneo. O papel sempre será o mesmo, assim como o das empresas. Resta apenas que a população esteja ciente das nuances de discurso.

segunda-feira, 17 de março de 2008

A novidade velha

Fato da modernidade: passamos mais tempo no trabalho do que em casa, mesmo não sendo viciados nele (os famosos workaholics). Ok, se não é mais tempo, é tanto quanto em casa (desconto as horas de sono, indispensáveis para ambos os ambientes). O certo é que nossos colegas de trabalho convivem conosco como se fossem família. Acompanhamos suas alegrias, dramas e demais episódios do cotidiano tão somente porque somos parte desse cotidiano.

Você tem seus amigos, aqueles que se abrem pra conversar ou com os quais você se sente à vontade para fazer o mesmo; outros são apenas companheiros de papo pro almoço ou pós-rodada de futebol; alguns são apenas de bom-dia/boa-tarde/até-amanhã. No entanto, se algo de diferente, extraordinário, acontece na vida de qualquer um desses, você sabe que aconteceu. E, bem ou mal, você acompanha.

Nos últimos meses, em meio a tantas mudanças em nosso setor, uma colega teve filho, outra engravidou e um descobriu que seria tio. O acontecimento é o mesmo - o nascimento de uma criança - mas as experiências são diferentes. Afinal, as pessoas são diferentes e seus contextos também.

Pois tem sido impossível não acompanhar as impressões de cada um sobre a novidade velha. Captamos as emoções, as reações, as preocupações, as expectativas, as corujices. Somos envolvidos de maneira espontânea, e nos deixamos levar pela felicidade alheia.

Não há nada tão comum quanto o nascer de uma vida. Apenas o fim da vida. Neste o desconhecido nos espera (e talvez por isso tenhamos tanto medo), mas naquele conhecemos bem o que vem por aí - apesar dos pais (e tios) de primeira viagem não concordarem muito... Sabem que vão aprender um caminhão de coisas, por mais que na teoria já tivessem ciência disso e de tantas informações. Uma perspectiva que assusta ao mesmo tempo que enche as veias de coragem pra viver logo, aproveitar logo, se saciar logo.

Mas sabemos que vem por aí uma criança, que nascerá de parto normal ou cesariana, que fará os envolvidos se postarem boquiabertos diante de fato tão corriqueiro da espécie humana. Os nenéns são a crônica encarnada: é o cotidiano enfatizado para descobrirmos a riqueza do que nos cerca. E os colegas de trabalho permanecem de plantão inevitável, sabendo que haverá ainda mais o que dividir subitamente.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Paraty: guia rápido

Aproveitando a invenção de estilo de Graciliano Ramos, segue abaixo um guia rápido para quem pensa (ou não pensa e pode mudar de idéia) em viajar a Paraty (RJ):

Compre as passagens pela Costa Verde. É a única empresa que te leva para a cidade. Prepare-se, o ônibus é "cata-corno". São 4 horas de viagem, semi-leito. Muitas curvas antes e depois de Angra dos Reis, cuidado com o enjôo. Ao chegar, facada do táxi: 15 reais por 2 minutos de corrida. Reserve com antecedência hospedagem na pousada Arte Urquijo. Ela conta com apenas seis quartos. É muito bem decorada e aconchegante. Também fica perto do cais, de onde saem as escunas para passeio. O pessoal de lá é muito hospitaleiro e simpático. Welcome drink e sandálias de lembrança. Se quiser suco de maracujá, pode escolher o maracujá antes. Se for num fim de semana, tire o sábado para as cachoeiras. Só se chega nelas com jeep tour. Água gelada. Pedras que podem surpreender seus pés. Mas é só ir devagar. Pra quem gosta, alambiques no meio do caminho. A comissão das pingas compradas alegra o guia. Irrita quem quer mais água corrente e menos aguardente. À noite, pegue um mapa para andar no centro histórico. Paraty fazia parte do Caminho do Ouro e era assediada por piratas. Assim, a cidade parece um labirinto: ruas e casas e iguais, pra confundir os invasores. Algumas casas possuem fachadas falsas. Se ainda não foi a Buenos Aires, vá ao restaurante Ateresa. Peça o chorizo: 300g de carne. Conheça o garçom mais bem-educado da cidade (por ironia, argentino). No domingo, pegue a escuna O Nome da Rosa, no cais atrás da pousada. A equipe do barco é muito simpática, e o trajeto é dos maiores e melhores. São 5 horas por 2 ilhas e 2 praias. Comida boa feita pela Baiana. A Ilha do Algodão é um paraíso. A mais distante e a mais bonita. No meio do trajeto, veja os restaurantes-ilha que possuem chalé. Programe-se para uma noite lá na próxima viagem. Dê aquela "morgada" no barco enquanto ele volta. Faça o checkout com dor no coração. Em frente à rodoviária, coma na pastelaria Wu. Um atendente chinês conversa com você. Metade das palavras são um mistério. Ou ele quer praticar português (fracassa) ou é apenas solitário mesmo. Prepare-se pra voltar - impossível. Mas deixe um gosto de quero mais.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Aconteceu em Londres

O alto mendigo estava deitado com seu cobertor numa calçada. Uma mulher compadeceu-se dele e foi entregar-lhe um prato de comida numa sacola (algo como a nossa popular "quentinha", só que britânica). Deu meia-volta e seguiu seu rumo, consciência tranqüila pela filantropia espontânea e sincera.

O mendigão levantou, andou em direção à mulher e disse, num tom de lorde inglês:

- I beg your pardon, madam, but I've already eaten.
(A senhora me perdoe, madame, mas eu já comi).

E devolveu a quentinha para a estupefata dama inglesa, em seguida retornando à "sua" calçada.

(Para os que duvidam, a cena foi testemunhada por um brasileiro que gargalhou brasileiramente no metrô de Londres ao lembrar do ocorrido, sob os olhares de estupefatos ingleses.)

segunda-feira, 3 de março de 2008

Pelo bom jornalismo, usemos o Google!

Calma. Não penso em ratificar a preguiça de muitos que, em vez de apurarem as informações com afinco e falarem diretamente com as fontes, preferem "Googlar". Acontece que a revista Veja há muito abandonou o bom jornalismo que lhe diferenciava para ser um panfletinho medíocre feito por gente idem. Quer provas? É só acompanhar a série do jornalista Luis Nassif sobre as artimanhas decadentes da maior revista semanal do país.

E quequi Google tem a ver com isso? Simples: o Blog do Bender lançou a idéia de fazer a série de Nassif ser mais difundida por meio de uma "Google Bomb": quanto mais gente postar em seus blogs e sites a palavra "Veja" com o link da série, mais ela vai aparecer entre as mais buscadas do Google.

Então, fiz minha parte (ainda tem o link aí do lado).

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

A escrita bate papo

LESSA - Que texto esse do Fausto Wolff, hein?
AMIGO - Muito bom, né?
L - Os ferrados serão imortais...
A - É... Será que eram grandes porque eram ferrados, ou ferrados porque grandes?
L - Tudo bem que pra um trilhão de ferrados aparece um imortal...
A - Pois é. Apenas alguns conseguem transformar a dor que lhes vara a alma em arte. O que por si só, deve ser uma tortura. Se para produzir arte estando tudo bem já é difícil...
L - Escrever dói. Ou, se você sente dor, sai a escrita. A boa escrita, com alma (não que eu seja masoquista).
A - Sei. Mas ao mesmo tempo é preciso um certo distanciamento diante da dor, porque se você se envolver demais na hora de escrever (pelo menos no meu caso), a coisa sai sem qualidade.
L - Esse distanciamento é exíguo, não pode ser demais nem de menos. Mas, pelo menos comigo, preciso que algo me mova a escrever. Uma descarga de intensidade - que é muito comum na dor.
A - Ah, sim, concordo. Mas eu preciso ter um certo distanciamento, como se tivesse que encapsular a dor para poder olhá-la mais atentamente, sem deixar o sentimento da hora se esvair.
L - Mas a euforia pode causar isso também.
A - Concordo de novo.
L - Se o sentimento da hora se esvai, acabo não escrevendo. Por isso meus artigos são muito datados. O que confirma minha vocação jornalística.
A - Entendo. Por isso que às vezes tento escrever no calor da emoção apenas para registrar os sentimentos. Quase um fluxo de consciência, para depois, se quiser alguma coisa coisa com o texto, trabalhá-lo.
L - Eu escrevia no Word pra depois postar no blog. Hoje, percebi que escrever na internet mudou um pouco a forma do meu texto, e que é muito bom escrever direto no Blogger. Em compensação, não tenho arquivado os textos em Word, isso é ruim.
A - Tem muita coisa que escrevo ainda em papel, coisas que não bostejo (publico). Um caderno com coisas mais pessoais.
L - É o seu "Livro Aberto" (à la Fernando Sabino)...
A - Talvez.
L - Eu também tenho algumas anotações assim, que comecei a fazer para "me ler". Teve uma época em que eu não conseguia lidar com meus avós e tinha um milhão de coisas na cabeça. Resolvi comprar um bloco pautado e viajei pra Cabo Frio, pro niver da minha madrinha. Passei a festa inteira escrevendo no bloco, sem parar.
A - Eu também faço esse registro de problemas e épocas. Levei um na minha última viagem sozinho.
L - A sogra da minha madrinha se espantou e veio me perguntar o que eu tanto escrevia sem parar...
A - Hahahahaha
L - E, pra completar, um professor dela veio fazer a mesma pergunta... com jeito de cantada.
A - Epa!
L - Pois é... que situação! Mas o bloquinho tá lá, cheio, em breve vou reler.
A - É uma ótima experiência.
L - Depois enchi mais outro, que era preenchido esporadicamente. Às vezes a gente não sabe o que está se passando conosco e - incrível! - você descobre quando a caneta vai riscando o papel.
A - Exato! Os problemas acabam entrando em perspectiva, e o que parecia um dragão é apenas uma lagartixa.
L - Pois é, eu não deixo de ficar impressionado. Mas mesmo que não virem lagartixa, ao menos você se sente menos cego em tiroteio...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Um Maranhão de dúvidas

Foi tenebrosa notícia quando a nadadora Joanna Maranhão revelou que sofreu abuso sexual por parte de seu técnico quando ela tinha apenas nove anos. Imediatamente, começaram a surgir reportagens não só sobre o caso, como também sobre a confiança dos pais de atletas nos técnicos de seus filhos (que não raro começam a carreira cedo).

É complicado. Um assunto desses requer muita sensibilidade e cautela por parte da imprensa na hora de tratar a público. Um alarmismo sem necessidade é passo certo para a paranóia. O caso de Joanna é exceção, minoria ou corriqueiro? É preciso uma boa apuração para que o público não pense que isso ocorre a torto e a direito, e assim os pais ganharem mais um motivo pra não dormir à noite.

No entanto, a mãe da nadadora botou a imprensa em xeque, de uma maneira ainda mais complicada: revelou o nome do técnico que abusou de Joanna. E aí? Publica-se ou não a informação? A imprensa não tem como apurar (ao menos, ainda) se a denúncia procede ou não.

Porque uma coisa é certa: acabou a carreira da pessoa citada pela mãe de Joanna, que ainda sofrerá olhares e desconfianças pro resto da vida. Como dizem os princípios do direito, todos são inocentes até que se prove o contrário - é o que o técnico citado tentará fazer. Mas o fato de já ter sido divulgado em massa que ele pode ter cometido um dos maiores pecados universais da contemporaneidade (abuso sexual de crianças) não tem volta.

Lembram do caso da Escola Base (que deveria ser lembrado sempre nas redações)? Na ocasião, um casal que era dono de uma escola infantil foi acusado de abusar sexualmente dos alunos. O circo da mídia foi criado, a escola faliu, os acusados foram publicamente condenados e... nunca houve provas. E nem a maior das erratas vai apagar a suspeita na reputação dos dois, fora os prejuízos emocionais.

E se for provado que o técnico mencionado foi falsamente acusado? Provavelmente, a mãe de Joanna poderá ser processada. Mas e a imprensa que espalhou a informação de uma fonte, prejudicando um cidadão? Vai retificar a informação na mesma intensidade (primeiras páginas, várias reportagens etc)? Se o fizer, vai adiantar?

Volto à pergunta: a imprensa deveria divulgar o nome? Se não o fizesse, seria sonegar informação ou não? Suicídios não são noticiados pelo fato de não causarem publicidade que "incentive" novos atos do tipo - é um dos poucos acordos universais que a imprensa cumpre. No caso do técnico de Joanna, da Escola Base, não deveria existir o mesmo cuidado? A não ser, claro, que já estivesse devidamente comprovada a culpa.

A intenção da mãe de Joanna era pôr um ponto final no assunto. Só se for pra ela, porque para o técnico e para a imprensa, a história - e os questionamentos - estão apenas começando.