sexta-feira, 16 de março de 2007

Resposta do jornal Expresso e minha resposta à resposta
(sobre a cobertura do caso João Hélio)

"Olá, meu caro. Antes de tudo um ótimo dia pra você. É o que desejo. Afinal, o meu não foi nada bom. A barbárie cometida por aqueles bandidos, que não podem ser gente, ainda me faz chorar.

Bom, se minha mentalidade menor e simplista me fez entender o que você quis dizer, você acha todos os jornais do Brasil sensacionalistas. Mas vem em tom particularmente visceral para cima dos tablóides (gostaria de lembrar que você incluiu o Extra, mas ele não é tablóide. Tablóide são jornais menores como Expresso e Meia Hora). Gostaria de lembrar ainda que os jornais, tablóides ou não, sensacionalistas ou não, não prendem ninguém. Não têm poder de polícia. Não têm poder de Justiça. Muito menos de decidir pela pena de morte. Também não têm o poder de vilipendiar famílias como a de João Hélio. Quem vilipendiou (desprezou ou repeliu) a família de João Hélio, além da minha e das pessoas de bem, foram os facínoras que não podem ser gente. Os jornais (tablóides ou não, sensacionalistas ou não) apenas tentam retratar os fatos e falar com os seus. Os tablóides não pioram a vida do povo, quem piora a vida do povo são indivíduos como aqueles criminosos.
Os jornais, tablóides ou não, sensacionalistas ou não, não concordam com atitudes como a que matou o menino João. Seja o criminoso maior ou menor. Os mesmos jornais que você acusa de vilipendiar famílias são os que mostram absurdos cometidos por pais que maltratam seus filhos. Graças a Deus, esses menores são vítimas e têm os jornais a seu favor. Mais ainda: eles têm o Estatuto, que é quem tem poder de polícia, poder de Justiça.

Discordo quando você diz que fazemos discurso em tom exacerbado. Exacerbada foi a atitude daqueles que cometeram tal barbárie que chocou toda a população. Acho que vou repetir isso: toda a população. De novo: toda a população brasileira. Assim como deveria ser exacerbado ao máximo o castigo de criminosos deste tipo. Absurdo pra mim, expressamente proibido pra mim, é achar que tal cidadão que comete esse crime deve mesmo sair da cadeia em cinco anos..."

Marcelo Senna
Editor


Caro Senna,

Antes de mais nada, obrigado pela atenção e resposta. Não é todo dia que uma redação publica cartas sobre o fazer da imprensa, tampouco responde diretamente a quem as escreveu.

É preciso ressaltar que todo o sentimento que você e a redação tiveram, eu - e toda a população brasileira - tivemos. Indignação, nojo, revolta, ódio contra os bárbaros, desejo de vingança, perplexidade com a impunidade de nosso país. No entanto, em nenhum momento questionei ou pus em dúvida os sentimentos de vocês.

Confirmo que vim particularmente visceral pra cima dos tablóides. Esses sim, são todos sensacionalistas - e não todos os jornais do Brasil, como vc interpretou minhas palavras. O Extra não seria um tablóide no formato, mas na linha sensacionalista sempre foi, tanto quanto o "The Sun" e tantos outro mundo afora. E nem preciso me prender ao formato: o Linha Direta, os programas do Datena e do Wagner Monte, e tantos de nossa TV,seguem a mesma linha.

Os demais jornais não são sensacionalistas, quem faz esse serviço pra eles são tablóides como os que citei. Não é à toa que o Globo tem o Extra e o Expresso, o Dia tem o Meia Hora etc. Por que a população de baixa renda tem que consumir um tipo de abordagem tão rasa como a que vcs fazem com todos os assuntos? Se não são sensacionalistas - ou seja, apelam para as sensações - por que todo dia é sexo e sangue na capa, independente do episódio do pequeno João?

Portanto, Senna, eu não desqualifico a revolta que tomou conta de vocês diante de tão bárbaro episódio. Questiono é o fazer jornalístico, a construção de um discurso, a maneira de abordar fatos que, por si só, já são impactantes. Quando falo "tom exacerbado" é a dramaticidade de cada enunciado, a maneira de tratar as histórias como folhetins. É o desrespeito para com a família, que terá que agüentar matérias diárias sem nada acrescentar na reflexão sobre o episódio, apenas discorrer sobre como era o pequeno João, suas fotos, seus desenhos, e o rememorar da tragédia sem fazer o leitor pensar sobre a situação. Ah, sim, apenas o pedido de pena máxima sem contextualizar o tema, afinal, haverá espaço (físico) pra isso no Expresso?

"Os mesmos jornais que você acusa de vilipendiar famílias são os que mostram absurdos cometidos por pais que maltratam seus filhos. Graças a Deus, esses menores são vítimas e têm os jornais a seu favor. Mais ainda: eles têm o Estatuto, que é quem tem poder de polícia, poder de Justiça. "

Agora eu fiquei confuso: se o Estatuto tem essa importância, por que é tratado com desprezo na matéria que citei, como se fosse um atravancar da lei?

Mais uma vez: respeito o sentimento de vocês diante de tão horrendo episódio. Mas não devemos nos render a nossas sensações estando em postos da sociedade tão importantes quanto governantes, policiais ou médicos. Somos jornalistas, com alcance e influência em boa parte da população brasileira. Formadores de opinião em potencial, referenciais. Precisamos zelar pela responsabilidade do que publicamos e COMO publicamos.

Um grande abraço,
Marcos André Lessa

4 comentários:

Eric, disse...

Arrebentou, cara! Agora, por mais que o cara esteja com uma visão errada, difícil ver um editor se mexendo pra responder....

Marcos disse...

Pois é, cara, tanto é que mencionei isso no primeiro parágrafo. Vale lembrar que essa troca de e-mails foi com cópia pra redação toda.

Ah, mto legal o novo blog. Como nunca ando (nem andei)de trem, vou acompanhar o diário.

Abs...

Gil disse...

Oi, Marcos, tudo bem? Coloquei o link do seu blog no meu. Algum problema? Gostei do seu texto e da sua perspectiva. Brilhante! Abraços!

Marcos disse...

Fale, Gil!
Sem problema qto ao link. Obrigado pela visita!

Abs,