sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Marrentinho, ouça a voz da experiência!

Um dos melhores quadros que o Casseta e Planeta já produziu foi o Tabahara Futebol Clube. O grupo de humoristas conseguiu representar bem todos os tipos da cultura do futebol, amador ou profissional. Lá estava tudo o que se via na TV, nos estádios e nas peladas com os amigos.

Eu ria muito quando o personagem Wanthuirson (Beto Silva) dizia para o Marrentinho Carioca (Bussunda): "Marrentinho, ouça a voz da experiência...". Um clássico dos conselhos dos veteranos de futebol. Sem contar que o Marrentinho era claramente inspirado no grande craque - e malandro - Romário.

Semana passada o América-RJ voltou a ser campeão, 27 anos depois. Triunfo construído durante o ano com a liderança de Romário como gestor de futebol do clube. Mas no jogo do título ele decidiu entrar em campo por alguns minutos para homenagear o pai, seu Edevair. Devido à promessa, o jogo até foi transmitido pela TV.

E durante a partida Romário me ensinou muita coisa para a vida, em apenas um lance.

É fato que o Baixinho, sempre avesso a treinos e agora com 43 anos, não tem pique pra correr nem por alguns minutos. Mas além de continuar batendo muito bem na bola, tem ótimo senso de colocação.

Num dos lances em que o América ia ao ataque, ele saiu da grande área (sua especialidade) e ficou livre pra receber a bola, de maneira tão simples e óbvia que o meio-campista não fez outra coisa: passou.

Em nenhum momento do jogo Romário deu vexame ou tentou fazer o que não mais conseguiria. Como no lance acima, se deslocou no ritmo e no momento que pôde, sem forçar a barra. Romário só vai "na boa". E aí veio a epifania.

Principalmente no cotidiano de trabalho, em que interajo com muita gente, muita hierarquia e (como em todo lugar de labuta) com muitas vaidades, saber se deslocar em meio a tudo isso requer destreza. Mas o segredo de Fátima, revelado por Romário, é só ir "na boa".

Ir "na boa" pode significar ficar quieto mesmo que você tenha algo a dizer a todo momento. É se bastar como coadjuvante enquanto os pavões necessitam tanto abrir suas asas. É dar pequenos passos motivados por grandes ambições - que nem todos precisam ficar sabendo quais são.

Assim como Romário, é confiar no seu taco quando você pode jogar sinuca sem susto, não ter marra quando você não se garante. É saber o momento de se recolher e de entrar em campo, de chamar a atenção e de sumir do mapa. É ficar andando boa parte do tempo para dar o pique quando ninguém espera, em direção ao gol, cirurgicamente.

Portanto, é melhor mesmo eu ouvir a voz da experiência ecoada por Romário, exposta num simples deslocamento de área. Até porque, quem sabe eu não sou tantas vezes um Marrentinho? Fala sério...

sábado, 28 de novembro de 2009

United Kingdom of Ipanema

Nunca uma expressão foi tão representativa da cultura de uma cidade - ou das autoridades constituídas perante ela, bem como seus prestadores de serviços. Quando uma grife carioca resolveu estampar "United Kingdom of Ipanema" nas suas peças, foi o ato falho de um certo insconsciente coletivo, que se revelou nos episódios dos "mini-apagões" dessa semana.

Ipanema, Leblon e Copacabana ficaram sem luz durante algumas horas no meio da semana. Nada comparado ao blecaute nacional do dia 10, mas o suficiente para a classe média-alta carioca estrilar. Estão no seu direito já que, proporcionalmente à renda, tiveram prejuízos como qualquer outro morador teria.

Mas eis que a Light resolveu pedir oficialmente desculpas aos moradores desses bairros. Não satisfeita, ainda ofereceu um gerador para 123 clientes da região enquanto a situação não se normalizava. Aí foi se desenhando o ato falho.

O jornal Extra, que é voltado para as classes média e média-baixa das Zonas Norte e Oeste da cidade, começou a estampar em suas capas cobranças explícitas para que a Light se desculpasse e oferecesse geradores para moradores da Tijuca, Engenho de Dentro, Méier, Campo Grande, Santa Cruz... E não faltaram histórias de leitores, devidamente cobertas pelo jornal logo em seguida, para deixar a céu aberto o "apartheid" da prestação de serviços (públicos e privados) para os cariocas.

Por essas e outras, a expressão United Kingdom of Ipanema cai tão bem. Assim como na Grã-Bretanha, um arquipélago formado por Inglaterra, Escócia, Gales e Irlandas, a cidade do Rio tem em Leblon (bairro do governador e dos artistas da Globo), Ipanema, Copacabana, Gávea, São Conrado e Barra da Tijuca (bairro natal do prefeito) seu Reino Unido.

O arquipélago aqui é social e psicológico: tenho certeza que, se fosse feita uma pesquisa a respeito entre os moradores dessas regiões, para eles o Rio de Janeiro não precisaria ir além dos limites do "Reino". Todo o resto poderia ser outra cidade, dando um upgrade no status de capital e cidade-estado que o Rio já teve.

Farei justiça: conheço várias pessoas que moram nesses bairros que não pensam assim (ou deixaram de pensar). Mas não se esqueçam que estamos falando de um universo de cerca de 400 mil moradores.

E a devoção a esse reino é tanta que a postura da Light lembra as cerimônias monárquicas em que os visitantes do castelo ajoelhavam-se diante do rei soberano, em reverência, respeito e temor. Um pouco de república democrática não faria mal a ninguém.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Boicotê ao Metrô Rio no dia 30/11

TODA a população está convocada a protestar de uma forma civilizada contra o péssimo serviço prestado pelo metrô. Sempre com atrasos, vagões sem ar-condicionado, superlotados e até mesmo sem luz. Alguma coisa tem que ser feita, não adianta mais ficarmos apenas reclamando uns com os outros. Temos que agir.

No dia 30 de novembro, ninguém faça uso do metrô. Boicote de passageiros. Vamos dar um prejuízo de milhões e chamarmos atenção de verdade das autoridades e responsáveis pelo caos.

Já nos sacrificamos todos os dias utilizando este transporte, que em troca só nos oferece desrespeito. A greve deve ser mantida, mesmo que, nesse único dia, tenhamos que pegar mais condução ou demoremos um pouco mais a chegar em nosso destino. O fato é que precisamos nos mobilizar.

Avise aos amigos, colegas de trabalho, envie e-mails, mensagem de celular, espalhe cartazes para que o maior número de pessoas venham a aderir a esta mobilização. Juntos podemos mudar o caos e o descaso que reinam no Metrô Rio.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O filho da imprensa

"Lula, o filho do Brasil", filme da família Barreto que teve sua pré-estréia ontem em Brasília, ia mesmo dar o que falar. Mas é uma grande faca de dois gumes para a produção, que não dá ponto sem nó. O problema é a esquizofrenia dos críticos e da imprensa.

Já se sabe que Luis Carlos Barreto é um grande espertalhão do cinema brasileiro. Além do talento como produtor, sabe fazer lobby como ninguém. Conseguiu junto ao Congresso, após a existência da Lei Rouanet (incentivo fiscal para que empresas patrocinassem cultura como um todo), a Lei do Audiovisual, que tem o mesmo objetivo, mas é específica para o cinema.

Quem é do meio especula que, quando um grande edital de cinema prorroga a data de inscrição, é porque figurões como a família Barreto não conseguiram entregar seus projetos a tempo.

Pois é esse pessoal que teve a ideia de fazer um filme sobre Lula. Desde o começo estava claro o objetivo de fazer uma média com o Governo, e deram a sorte de ter um presidente com um roteiro de vida comum à maioria dos brasileiros. E que mantém seus níveis de popularidade altíssimos, muito disso fruto de sua identificação pessoal com o povo.


Bipolaridade

Após o incêndio das obras de Hélio Oiticica, que estavam guardadas num depósito do irmão do artista, o Globo foi entrevistar o ministro da Cultura, Juca Ferreira. Perguntaram se o Estado brasileiro não deveria ter mais iniciativas para preservar o patrimônio cultural.

O ministro tocou na ferida: "Mas vocês da imprensa não podem acender uma vela para Deus e outra para o diabo". Ele explicava que tinha pouca gente pra dar conta do trabalho da Cultura, incluindo fiscalização. Mas se alguma despesa de pessoal é anunciada, Juca reclamava que a imprensa criticava o Governo por aumentar os gastos públicos. Afinal, é pra ter ou não ter a presença do Estado?

A mesma esquizofrenia acontece com o filme sobre Lula. Na primeira página de hoje, o jornal destaca que o filme foi feito apenas com recursos privados, com empresas fazendo doações obscuras, insinuando que querem obter vantagem junto ao Governo. Tenho certeza que, se o filme tivesse utilizado lei de incentivo, iam dizer que os cofres públicos estariam pagando a campanha eleitoral de 2010.

Nem santos, nem cínicos

Ninguém é santo nessa história. Lula, o Governo, as empresas, os produtores: todos saem ganhando com o filme e com a polêmica que o envolve e traz Ibope. Quem precisa dizer a que veio é a imprensa, buscando o bom jornalismo. Que não confunde, mas colabora com o esclarecimento do leitor.

Há algum tempo, quando um carro foi submerso em Copacabana por uma tubulação que estourou, a legenda do Globo dizia: "Carro submerso em tubulação administrada pela Cedae, a única estatal fluminense que ainda não foi privatizada". A mensagem é implícita e ao mesmo tempo claríssma: privatização é sinônimo de competência, Estado não é.

As operadoras de telefonia estão aí pra mostrar que não é bem assim. Do mesmo modo, nem sempre o Estado vai ser o melhor ator para determinado tipo de atividade. Mas essa dinâmica precisa ser assimilada pela imprensa, de uma vez por todas. Os leitores estão de saco cheio de pautas que já saem das redações com uma tese pré-concebida, buscando enquadrar os fatos na versão.

Com a internet, esse tipo de expediente caduca a passos largos, destruindo a credibilidade jornalística. O que se pode pensar do patrocínio cultural, por exemplo? É melhor ser totalmente privado ou possuir Lei de Incentivo? Ou ter dinheiro direto do Estado? Não se amadurece essa discussão.

O filme sobre Lula nunca deveria ser feito, a fim de evitar qualquer tipo de questionamento? Ou deveria ser lançado somente após as eleições - sob o risco de não conseguirem patrocínios suficientes, já que o retorno de público poderia não ser o mesmo de quando Lula ainda estivesse sob os holofotes presidenciais?

Ou a imprensa volta a suas origens, sem brigar com os fatos e buscando o esclarecimento da população, ou perderá cada vez mais o seu valor.

domingo, 4 de outubro de 2009

A favor, sempre a favor. Será que ainda não entenderam?

Vi que o presidente Lula, em coletiva de imprensa, criticou aqueles que sempre torcem contra, diante da vitória do Rio para as Olimpíadas de 2016. Quase me senti lisonjeado. Será que fui mencionado pelo chefe máximo da nação em um de seus pronunciamentos? Nada mais longe da verdade.

Até porque precisamos relativizar o advérbio "sempre". Se tudo leva a crer que a Copa 2014 e a Rio 2016 vão seguir o mesmo descalabro com o dinheiro público que se viu no Pan 2007 e em tantos outros eventos esportivos, sempre torcerei contra. A partir do momento que essa perspectiva mude, sempre torcerei a favor.

Então eu estaria torcendo para que os eventos acima sejam um desastre? Óbvio que não. Minha torcida era contra a escolha. Uma vez sacramentada, meu pragmatismo me impede de ficar chorando o leite derramado.

Qual o próximo passo, então? Detonar o ufanismo galvaobuenista e os bairrismos de ocasião (tem carioca achando que as críticas vêm de São Paulo, e desqualificando-as, vê se pode?) para fiscalizar o que vão fazer com o seu, o meu, o nosso dinheirinho. Aliás, por que os figurões que, ao serem assaltados ou coisa do tipo vociferam "Eu pago meus impostos, não posso aceitar um negócio desses!" ficam quietinhos ou entram no oba-oba em meio aos superfaturamentos incompetentes?

Por que o Governo não elaborou, junto com o projeto para a candidatura, uma Política Nacional para o Esporte, fazendo da Olimpíada o catalisador de um processo planejado? Nada disso. E lá vamos nós para mais um megaevento administrado por mentes pequenas e míopes, com alma de pilhagem.

Posto isso, reproduzo aqui as perguntas formuladas por André Monnerat em seu blog, que devem ser o mantra da imprensa e da população carioca (e brasileira, por que não?):

- Como pretendem dar transparência às contas da Olimpíada? Como será possível para nós, cidadãos, verificarmos quanto de nosso dinheiro está sendo gasto, como e por quem?

- Como pretendem esclarecer a população sobre o uso pós-Olímpico dos equipamentos esportivos que serão construídos?

- Como será a política esportiva do Estado brasileiro daqui pra frente? Seguirão na linha de dar dinheiro público a atletas de ponta, ou finalmente veremos investimento para usar o esporte como ferramenta de educação e saúde, na base, colocando-o no dia-a-dia das crianças na escola?

- E qual será o efetivo legado deixado no Rio de Janeiro?

As Olimpíadas vão ser benéficas para a imagem e o turismo do Rio de Janeiro, não há dúvida. Acredito que o evento será um sucesso, já que durante ele seus protagonistas são os atletas. Mas até lá devemos, com o perdão da expressão, pentelhar os donos do poder e das responsabilidades.

Assista a uma das melhores reportagens investigativas do ano:

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Eu não sou Galvão Bueno

Quero as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro.

Não quero as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro.

Não sou incoerente, e posso provar. Sou brasileiro e tenho orgulho do meu país. Com todos os problemas que encontramos aqui, não sou daqueles que jogam no lixo tudo o que foi construído no que hoje se chama Brasil. Nem tampouco olho pra fora ansiando por ser igual a outro país, outra cultura - embora não abra mão das críticas internas, como já fiz neste blog.

Acho muito legal que o Brasil seja o país-sede da Copa 2014 - nada mais justo à nossa tradição futebolística. E também apóio a ideia do meu amado Rio de Janeiro sediar o encontro das nações por meio do esporte.

E eu gosto tanto do meu país e da minha cidade que não aceito que eles sirvam de pretexto para meia-dúzia de políticos e cartolas usarem mal e porcamente o dinheiro público. Pois os impostos que deveriam sustentar uma boa administração do cotidiano do país e da ex-capital federal vão-se embora em superfaturamentos e falta de organização e transparência.

Ora, não foi isso que vimos no Pan 2007? Não é isso que vemos, ano após ano, no Campeonato Brasileiro de futebol?

O que me irrita ainda mais é ser contado entre os traidores da pátria simplesmente porque não apóio os traidores da pátria. Porque não aceito sacanearem a boa vontade do povo brasileiro e suas intenções em ver grandes eventos aqui do lado de casa. E hoje isso significa ser contra a realização da Copa e das Olimpíadas, pois estão sendo gestadas da mesma maneira que o esporte é gerido no Brasil: por poucos, para poucos, com o dinheiro de muitos.

Portanto, não me peçam pra torcer pelo Rio no dia 2 de outubro (já que não adianta mais torcer contra o Brasil para a Copa). Ficarei na minha casa esperando, esperançosamente, ver os politicalhas de ocasião fazerem a cara de bunda dos narcisistas derrotados.

Embora reconheça que o Rio tem chances, por nunca ter havido uma Olimpíada na América do Sul e por ser o Rio. Obama estará lá na hora da decisão, mas não dá pra saber a quantas anda o lobby do carismático político, ainda mais na seara esportiva.

domingo, 27 de setembro de 2009

Ator

Fico fascinado com atuações: de cinema, teatro, ou o que seja. Sempre gosto de avaliar não só o papel, mas o artista e como ele desenvolveu seu trabalho. Acho que tenho uma queda para o ofício de diretor, por isso reparo tanto no que muitos não reparam, como a essência de uma atuação. Alguns podem perceber sua qualidade pelo efeito emocional que ela proporciona – o que geralmente acontece com os papéis principais. Mas costumo notar tais detalhes até naqueles chamados papéis secundários.

Escrevi esse primeiro parágrafo apenas para tentar ilustrar o que ocorre comigo muitas vezes. Só que o ator a ser avaliado sou eu mesmo. Não quero generalizar falando de pessoas, dos humanos… Eu mesmo sou assim, ator muitas vezes. Pior: freqüentemente atuo sem querer, no sentido implícito de “contra a minha vontade”.

Não chego ao campo da hipocrisia e suas máscaras enganadoras (e enganadas antes de tudo), mas há diversas situações em que não queremos, digo, não quero revelar o que realmente está acontecendo comigo. Seja por falta de intimidade com os que estiverem à minha volta, ou porque realmente são coisas extremamente especiais e pessoais… O que chamo a atenção hoje é que somos, perdão, é que sou ator sem ser, sem querer ser, sem levar jeito (ou levando pouquíssimo jeito), sem sentir prazer em ser, sem natural liberdade pra ser, mas sendo ator tenho liberdade para me ocultar, me guardar, me esconder.

Quantas vezes o quarto ou qualquer outro cômodo da casa que seja mais reservado não foi o cenário para atuações marcantes nossas, isto é, minhas? Na maioria, claro, dramáticas e chorosas, dignas de um esconderijo inacessível. Mas essas atuações são privadas, o público se resume a nós, quer dizer, a mim. As atuações públicas, quando da boa qualidade citada no primeiro parágrafo, merecem aplausos inflamados, pois conseguem ocultar sentimentos até mais do que inflamados, infeccionados, ainda sem cura.

Esse tipo de atuação conseguimos, digo, consigo repetir dia após dia. Me assusto constantemente com meus sucessos sucessivos. Porque quando o sentimento e seu estado anormal do momento não são notados por ninguém (como acontece comigo, com constância), parabéns pra nós, isto é, pra mim: está alcançado o sucesso e o susto com minha própria competência para o ofício de ator que sei que não levo jeito.

Nessa pequena reflexão através do meio literário da crônica fui tentado, várias vezes, a usar a primeira pessoa do plural. Cabe ao leitor justificar ou não essa minha tentação. Somos mesmo atores desse tipo, em nosso cotidiano? Eu me surpreendo sempre comigo e minha estranha capacidade de atuar escondendo, mesmo após me dar conta de que faço isso com uma facilidade que me impressiona. Será que sentimos necessidade de utilizar esse recurso, pode-se dizer, artístico para conseguir uma certa privacidade? Eu não fico assustado com isso.

Assusta-me o fato de que conseguimos fazer isso, apesar do impacto que lateja em nós, nos inconstantes momentos de nossa vida.

Que crônica filosófica! Não leve muito a sério. Às vezes, deixa de ser crônica para ser o retrato letrado de um momento crônico, apenas isso. Mas se houve algum tipo de identificação da sua parte, já valeu muito mais do que a mera tentativa de desabafar por meio de meu teclado pessoal, nada musical e combustivelmente emocional.

(17 de julho de 2000)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O homem é o mito. E o mito é um homem, sempre

Recomendo a leitura de Roberto Carlos em detalhes, biografia do rei muito fundamentada e bem escrita por Paulo César de Araújo. Talvez não seja fácil achar, já que o cantor entrou com um processo contra o autor, e o covarde acordo da editora Planeta com Roberto resultou no recolhimento dos 11 mil exemplares à venda, além de impedir sua comercialização. Mas procure em sebos ou alguém que tenha adquirido quando ainda não era proibido fum... comprar.

O livro já mereceria atenção por ser a primeira biografia de Roberto Carlos, fruto de uma pesquisa de 15 anos do historiador, jornalista e mestre em memória social Paulo César. Mas o processo judicial e suas desproporções kafkianas despertaram o interesse até de não-fãs (como eu) pra saber que conteúdo explosivo era aquele.

No evento Jornalismo Literário, do Centro Cultural Banco do Brasil, Paulo César contou o que houve na história toda - e que ele vai contar no livro O réu e o rei, a ser lançado: Roberto e seus advogados (ou será o contrário?) acusaram o autor de invasão de privacidade e pediram altas indenizações por danos morais e multas astronômicas por dia em que o livro ainda estivesse sendo vendido. Até a prisão do autor foi solicitada na acusação.

A editora Planeta prometeu total apoio a Paulo César, mas na hora teve postura de cordeirinho diante do poderoso Roberto Carlos. Segundo relato do autor, o juiz do acordo, Tércio Pires, foi tirar fotos com o cantor após a audiência. Músico amador, Tércio entregou seu CD para o rei apreciar as belas canções de Té Lopes, nome artístico do magistrado.

Paulo César ainda falou da sua interpretação para a reação de Roberto: assim como boa parte de seu público, ele possui cultura televisiva, sem o hábito da leitura, e um livro sobre sua vida teria lhe dado um susto. Além de discordar de alguns relatos e sempre anunciar que faria sua própria biografia. Curioso é que Jacqueline Kennedy possui 26 biografias sobre sua vida, feitas por autores diferentes...

E lá fui eu pedir emprestado o livro ao sogrão bibliófilo para conferir.

O mito está lá

Aqui é necessária uma contextualização: nasci em 1980, e quando começava a ficar grandinho conheci Roberto Carlos pelos especiais de final de ano da Globo. Fiquei mais grandinho e vi que era sempre o mesmo especial, e que as entrevistas de Roberto eram sempre as mesmas, e suas músicas novas, um absurdo. Pontos para o politicamente correto e a memória viúva, mas o rei da música brasileira fazendo canções apenas sobre mulheres de óculos e gordinhas, e para a falecida esposa? Não conseguia acreditar.

Esse Roberto Carlos bobalhão da Rede Globo era o único que eu conhecia de perto. Até ler o livro de Paulo César de Araújo.

Diante da pesquisa acurada do autor, tive que rever todos os meus preconceitos (talvez até justificáveis) para descobrir a importância que Roberto Carlos tem para o cenário musical brasileiro. Ali percebi a originalidade de Roberto, o impacto que seu rock causou, sendo embaixador dos Beatles sem deixar de ser autêntico e ainda causando inveja e recalque inimagináveis em baluartes da MPB (aliás, a sigla surgiu pra diferenciar-se do que a Jovem Guarda liderada por Roberto produzia).

Também graças ao livro revisitei canções românticas e simples, mas belas, que ele e Erasmo Carlos produziram, como Se você pensa, Sentado à beira do caminho, Detalhes, As curvas da estrada de Santos... Eu já tinha ouvido essas músicas nos especiais da Globo, mas saber como elas surgiram nos dá a dimensão do mito Roberto Carlos.

E aí está, na minha opinião, o ponto central da discórdia entre o rei e o réu. Paulo César de Araújo faz uma pesquisa tão séria e tão profissional que não esconde o lado humano de Roberto Carlos. Fala de sua única briga com Erasmo (negada ao vivo no Faustão), de suas manias, de suas espertezas para conseguir um lugar ao sol na vida artística. E em nenhum momento o talento e a estrela de Roberto Carlos são menosprezados, muito pelo contrário.

Porém Roberto Carlos não admite essa humanização do mito. Seus especiais na TV, suas aparições em outros programas, suas entrevistas, enfim, o trabalho de sua imagem é voltado para que o rei seja uma unanimidade bondosa e cativante - quase um santo. E nada pode pôr em risco esse processo. O que normalmente as biografias sérias fazem.

O mito é um homem, e nem por isso deixa de ser mito - vá você encontrar uma razão absoluta no imaginário popular. Paulo César também pontua que Roberto é um artista biográfico, divide sua vida com os fãs ao entoar passagens pessoais (com alegrias e dores) através de suas letras. Nada mais irônico do que impedir que uma biografia sua chegue ao público.

O santo, com seus devotos imediatos e interesseiros (assessores e advogados) cultiva a ilusão de que vai controlar o que pensam dele. Com certeza, após a morte, seus herdeiros terão a mesma militância. Mas vai adiantar, em tempos de internet e democracia?

O livro de Paulo César reforça o mito, contudo com mais fundamentos do que os apresentados pelo próprio Roberto ano após ano. A decisão de praticar tamanha violência judicial joga contra sua intenção canonizante. Vocês precisavam ver a cara da minha avó ao ouvir a história do processo, e em seguida dizer "eu não esperava isso de Roberto Carlos...".

Eu também não esperava que o livro fosse tão bom - pra mim e pra Roberto Carlos. Só que ele não quis rever seus conceitos...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Questões existenciais

Um professor do curso de Psicologia de minha esposa levantou uma questão inédita (ou quase): como terá sido a primeira fome de um bebê? O pequeno ser, que sempre viveu em simbiose com a mãe enquanto dentro do ventre, até então nunca tinha passado necessidade para se alimentar. Nem sabia o que era isso. Mas após sair do recanto ideal, vem aquela sensação estranha e desconhecida... Vamos ouvir o relato do sujeitinho:

"Que frio! Esses paninhos aqui nem dão pro gasto. Pra piorar, não consigo abrir o olho direito - nem o esquerdo. Haha, meu primeiro chiste. Quanta luz! Pra que isso tudo, seus gigantes? É isso a vida, a existência cá fora? Aceito devoluções. Como se não bastasse sair todo melecado... Peraí. Queísso, meu Deus? Tá doendo aqui dentro. Não, não é dor. O que que eu tô falando, eu lá sei o que é dor? Bom, dor de frio sim. E eu lá sei o que é frio? Empiricamente, sim. Mas isso de agora é diferente. Eu preciso, preciso... de quê? De alguma coisa! Que eu não sei o quê! Mas eu preciso! Ai, ai, ai, que sensação estranha, diferente de absolutamente tudo que conheço... Me dá alguma coisa pra passar isso que eu não faço a menor ideia do que seja mas que já não aguento em minhas parcas horas de surgimento!! Ser gigante perto de mim, me ajuda! Faz alguma coisa! Estou em suas mãos! Literalmente, o que é pior! Ai... O que é isso? Isso vai durar pra sempre? Quanto é sempre????"

É claro que todo o parágrafo acima foi dito num sonoro e contínuo "unhé". Até que a mãe tira o peito pra fora e vai levando em direção ao bebê:

"Ser gigante, você está me oferecendo um pedaço de você? O que que eu vou fazer com isso? Canibalismo, a essa altura da vida? (peito encaixa na boca. A partir daqui, a narrativa descreve o pensar "bebênico") Hummm... isso é bom. Era disso que eu precisava... Pele e líquido. Já não estou sentindo tanto o que eu sentia antes. O que terá sido? Só sei que está passando... Ô delícia. Quando eu ia imaginar que a protuberância do ser gigante traria o manjar dos deuses? (mãe tira um pouco o peito, achando que já está bom) Ei, aonde vai com isso? Me dá! É minha propriedade! Eu quero! Eu exijo! Eu demando! Freud me explica E me justifica! Volta! A sensação estranha ainda permanece, ainda que menor... Rejeito essa sensação estranha! Ser gigante, não ouse me rejeitar! Plebe!"

Até o peito voltar à boca do bebê, os protestos também foram evocados no idioma "unhé". Após nova investida e aí sim o saciar, o bebê sossega e ouve a mãe dizer:

- Ele estava com fome!

"Estava com fome. Fome. Esse troço estranho chama-se fome? Fome. Nunca mais quero sentir isso na vida. Fome. Fo-me. F-o-m-e. Nascendo e aprendendo. Nada pode ser pior do que sentir fome."

Em seguida, o bebê começou a aprender que não era bem assim. Ele voltaria a sentir fome, e para exterminá-la teria sempre a companhia dos gases (e constrangimentos) de toda sorte.

domingo, 6 de setembro de 2009

Menos, please

Não faz muito tempo liberaram o resultado de uma pesquisa curiosa: ela comprovava que, a despeito de todas as troças e piadas feitas até então, o carioca trabalhava mais do que o paulista. A reação dominante do povo do Rio de Janeiro (minha inclusive) foi de uma vingança que finalmente veio. "Esse pessoal de São Paulo tira onda que trabalha mais, que o carioca só quer saber de praia e vagabundagem...". Foi tudo por pesquisa abaixo.

Hoje eu me pergunto: por que me orgulhei tanto de trabalhar mais do que os outros? Se a gente reclama muitas vezes que trabalha demais, e em determinadas épocas fica contando os dias para as férias?

Resgatei uma questão levantada por Domenico de Masi no livro O ócio criativo. Embora ele tenha sido detonado por seus apontamentos futuristas (que as tecnologias nos fariam, gradativamente, ter mais tempo para as coisas, por exemplo), a obra de De Masi me marcou por ter criticado o valor do trabalho em si, abordando a historicidade do fato.

Não conseguirei reproduzir aqui tudo o que o sociólogo italiano falou, e nem vou tentar. No entanto foi dele que me lembrei quando comecei a me perguntar por que gostei tanto de ser mais trabalhador do que os outros.

Gosto do que faço, estou na minha área, com um ótimo clima na equipe. Na contemporaneidade, é inevitável trabalhar, de algum modo. Mesmo o cineasta que vive de seus filmes tem alguma rotina laborativa. Mas por que nos orgulharmos tanto disso, em relação às demais coisas?

Se o lazer nos faz tão bem e renova nossas energias, por que demonizá-lo? Se a meditação e o silêncio acalma nossas almas, por que menosprezá-los? Por que ouvir alguém dizer, com certo ar heróico, que trabalha 12 horas por dia, e reagir com um suspiro de admiração? E desde quando o comprometimento é medido pelo volume de trabalho, e não pela atitude demonstrada por seu caráter e pelos objetivos alcançados (após humanamente planejados)?

Na urbanização acelerada que vemos atualmente, faz parte da lógica pensar que deveríamos trabalhar menos: poluiremos menos, seremos menos estressados, traremos menos custos para o sistema de saúde (e até para o policial)... Não serei ingênuo de achar que o capitalismo está fora dessa discussão.

Mas o capitalismo (ou qualquer outro motivo que possamos elencar) não é responsável por decidirmos se engrossamos esse caldo ou não. Ainda que estejamos no meio da engrenagem da supervalorização do trabalho, está ao nosso alcance dizer que, ao menos comigo, não é bem assim. E também não será com os meus filhos - no que depender de mim, e enquanto eles dependerem de mim.

É fácil dizer que não há nada o que fazer e passar a vida murmurando.

É fácil dizer que "o sistema" é perverso (e é) e criar lutas inglórias dia após dia, só pra continuar murmurando.

É difícil tomar a decisão de não pensar como a maioria pensa, e desafiar, ainda que timidamente, o que foi posto como normalidade.

Mas uma vez tomada essa decisão, e reforçando-a no seu cotidiano, olhando antes de tudo para suas próprias escolhas, ela vai ficando mais natural.

E quanto mais natural, menos trabalho dá pra manter-se fiel a ela.

Menos trabalho.

domingo, 30 de agosto de 2009

A prova real

Antonio Palocci, ex-Ministro da Fazenda do atual governo, foi absolvido no STF da acusação de quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, ocorrido em 2006. Marcelo Netto, seu assessor de imprensa que vazou o extrato para a revista Época, também foi inocentado. Sobrou pro então presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, que à época assumiu sozinho a culpa.

Ano passado a revista Piauí publicou uma contundente matéria sobre o caso. João Moreira Salles apurou as informações por um ano, entrevistando (ou tentando entrevistar) todos os envolvidos no caso. Sua vocação documentarista é crucial para a credibilidade de seu texto, do qual saímos com a certeza de que Palocci foi, no mínimo, mentor da quebra de sigilo.

Se assim não fosse, por que ele deixou o cargo duas semanas após as denúncias de Francenildo?

Palocci e seu assessor foram absolvidos por falta de provas. E esse parece ser o "xis" da questão sobre o parecer do Supremo Tribunal Federal, que nunca apareceu tanto na mídia (o que não deixa de ser algo positivo: quanto mais holofotes, mais obrigação de transparência e fiscalização pública).

Não bastaram os depoimentos contundentes do caseiro e do motorista, nem as coincidências de horário em que o sigilo era quebrado (com velocidade absurda para a burocracia brasileira) e reuniões do então ministro e de seus subordinados. Segundo a análise dos ministros do STF, não houve provas que o condenassem. Até porque todos são inocentes, até que se prove o contrário.

E aí parece se localizar um dos maiores entraves da democracia brasileira, quanto à responsabilidade dos parlamentares em fazer um bom trabalho. De que vale tanto alarde, tantas denúncias, tantas CPIs mais políticas do que de apuração de fatos, se o principal - as provas - não conseguem ser reunidas para atingir o principal objetivo, a punição dos desvios de conduta?

O que só demonstra como o principal objetivo de muitos alardes que vemos em Brasília quase nunca é o anunciado.

Tal constatação acaba respingando na responsabilidade social do jornalismo: fiscalizar o poder sempre, mas prendendo-se aos fatos. Sair da redação querendo encaixar a realidade nas suas versões não contribui para a sociedade. Ser porta-voz da situação ou da oposição somente abrindo aspas, idem.

Pois em toda CPI é isso: saímos mais informados sobre os humores e pitacos dos congressistas (mesmo que não façam sentido) do que com o entendimento do que acontece, na prática, por trás das declarações mil daqui e dali.

Voltando a Palocci: a imprensa fazia o ping-pong entre o caseiro e o ministro. Mas alguém se preocupou em perguntar aos envolvidos onde estava a prova do crime? E a CPI, quis fazer isso algum dia?

Só nos resta assistir ao homem que preferiu sair do ministério - mesmo diante de uma acusação sem provas - agora querer se candidatar ao Governo de São Paulo.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Hein? Ah, ok...

Entrei na locadora decidido a pegar um DVD que eu já sabia qual, desde a véspera. Peguei, desci até o caixa, digitei minha senha de sócio, peguei 20 reais na carteira e dei mais um pra facilitar o troco. Guardei o dinheiro, coloquei a carteira na mochila e saí da locadora.

Esqueci o DVD no balcão. Sorte minha que, mais uma vez, o atendente me chamou, e assim pude voltar com o mais importante.

Não é raro a cena acima acontecer e se repetir em diversos lugares possíveis. troque o DVD por pão francês, pequenas compras de mercado, revista, qualquer coisa minimamente portátil tendo passado pelo escambo monetário. Esqueço nada menos que o principal, apago da minha mente a motivação para que eu me deslocasse, gastasse dinheiro etc.

Curioso é que não sou um cara esquecido. Ao contrário, desde criança tenho uma memória prodigiosa - não digo fotográfica, mas jornalística: aquela que guarda os fatos, os personagens e seus encadeamentos e sabe repassá-los sem esforço.

Não exagero quando digo que é desde a mais tenra idade: pergunte à minha mãe, que sofria quando queria inventar novos roteiros para o mesmo gibi (que eu sempre pedia para ler) e era flagrada na mentira pela memória do jovem Marcos Lessa em seus 4 anos de idade. Cruel, esse menino!

O que só me deixa mais espantado ao me perceber com "pequenas amnésias" de maneira recorrente na vida adulta. Sou acometido pela distração em sua instância máxima, aquela que desvia todo o meu foco para qualquer coisa que não seja o principal.

Eu poderia ficar preocupado com a situação acima, mas meu grande amigo Rômulo citou ninguém menos que Clarice Lispector, no conto "Por não estarmos distraídos" no seu blog:

Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e, quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito, exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem distraídos.

E o próprio Rômulo completou, para minha alegria:

Grandes acontecimentos precisam de ausência do mundo. Estar no mundo implica uma permanente resposta às necessidades que o mesmo nos impõe. Há sempre tanto o que fazer. E quando não há nada o que fazer certamente os outros têm muito o que fazer. Acredito que nós não somos responsáveis pelas grandes mudanças, mas as grandes mudanças acontecem em nós. E para que as mesmas aconteçam é necessário que estejamos distraídos.

Vale a pena ler o post inteiro. No momento em que comecei a me recriminar pelo fato de ser tão distraído e de esquecer as coisas tão frequentemente ("isso ainda vai me prejudicar!"), lembrei do texto. E do significado que um momento de distração pode trazer a nós.

Não tenho desapego aos bens materiais, seja um DVD ou as compras de mercado. Não sou louco de rasgar dinheiro, tampouco de jogá-lo fora. Mas estar diante da pós-modernidade ainda preservando a capacidade de um devaneio, ainda que involuntário, faz bem. É como se tais momentos de distração, ainda que socialmente condenáveis, fossem um resguardo mental de que não será o fim do mundo se não ficarmos conectados o tempo todo nele.

Como se isso não bastasse, ainda me ajuda a escrever uma crônica!

domingo, 23 de agosto de 2009

Cortando pela raiz

O caso é chocante de múltiplas formas. Caloura de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ) acusa veteranos que aplicavam trote de obrigá-la a fazer sexo oral em oito deles, em troca de não pagar os R$ 250,00 de "taxa" para a chopada. Não sei nem por onde começar a me revoltar.

É claro que ninguém merece passar por qualquer tipo de humilhação, jamais. O trote nesse nível é uma excrescência, é um momentinho neonazista em que os veteranos se sentem à vontade pra botar pra fora tudo o que normalmente lhes é proibido pelas regras sociais. A insegurança dos calouros quanto a seu futuro no campus é o facilitador ideal.

Mas é incrível ver alunos de Direito cometendo a atrocidade acima. Eu já me assustava com trotes dos alunos de Medicina - os mais violentos, chegando a resultar na morte de um calouro na piscina da USP, em 1999. Tratam-se simplesmente dos que vão cuidar de nossa saúde e integridade física.

Só que os futuros médicos estudam o corpo, suas patologias, possíveis curas e tratamentos. Não são obrigados, por vocação, a conhecer a lei e suas consequências - o que não justifica seus trotes e desvios de conduta. Não é o caso dos estudantes de Direito, pelo contrário.

Assédio sexual, atentado violento ao pudor, extorsão, chantagem. Quantos artigos do Código Penal englobam esses casos? E quais as penas para cada um deles? Tenho certeza que os veteranos que abusaram da caloura da UFF sabem muito bem. No entanto, por que praticaram tais atos?

A atitude desses veteranos só revela como é possível que o homem da lei sinta-se acima dela muito antes do que poderíamos imaginar. Não estamos falando de ministros do Supremo Tribunal Federal, juízes, desembargadores, altos magistrados (nem estou falando que estes ignoram a lei). São apenas estudantes de Direito, que agiram como se as consequencias de suas respectivas infrações nunca fossem alcançá-los.

Esses alunos futuramente vão advogar, julgar, condenar e absolver os criminosos do país. Se qualquer um dos veteranos futuramente arbitrar sobre casos semelhantes, como será sua conduta? Lembrará que também fez isso na juventude, e que não deve ser levado tão a sério?

Portanto, é dever do Estado e do Poder Judiciário fazer com que esses estudantes experimentem a força da lei. Se assim não for, será um tiro no pé a longo prazo, por contribuir com a construção de uma cultura da impunidade cedo, muito cedo, e logo onde não poderia acontecer: na formação em Direito.

Antes disso, a UFF precisa fazer a sua parte, abrindo investigações sérias para comprovar a denúncia (a aluna não iria inventar uma história dessas). E o objetivo deve ser somente um: expulsar os agressores.

Se a universidade não mostrar vigoroso repúdio pelo caso e disposição para resolvê-lo, ainda poderá passar à sociedade a imagem de conivente. E por ser uma instituição pública, que não depende de doações particulares para se manter, deve se sentir com indepedência plena para isso.

sábado, 22 de agosto de 2009

Mas o que é que você quer?

Ricardo Kotscho é um jornalista que respeito muito, principalmente devido à transparência de suas opiniões. Mesmo que discorde delas, Kotscho deixa claro por que as emitiu, e de que lugar está falando, deixando para o leitor tomar posição.

No seu blog, ele levanta uma questão que reverbera no ar: quais são as bandeiras da oposição atual?

Militante histórico do PT, Kotscho participou de todas as campanhas de Lula à presidência, e foi Secretário de Imprensa do Governo Federal em 2003 e 2004. Até a posse no cargo, nunca deixou de trabalhar em diversos veículos da imprensa nacional, ganhando prêmios Esso de jornalismo desde a época da ditadura.

Hoje, mesmo após sua experiência no Planalto, Kotscho continua achando que o Governo Lula faz um bom trabalho, por ter melhorado a vida da maioria dos brasileiros - o que, na sua opinião, é o principal objetivo de um governo. Porém o jornalista não tem um pensamento cínico, como se desse margem à máxima de que os fins justificam os meios. Faz críticas também aos descalabros éticos que o mesmo Governo, em suas articulações, permitiu ou produziu.

Mas esse background não invalida a reflexão que Kotscho provocou. De fato, qual é o projeto para o país de PSDB e DEM (já que o PMDB topa tudo e todos)? O que se vê são pirraças homéricas em praça pública e a sensação de que vigiam o Governo Lula só pra pegá-lo em algum "flagra" e faturar em cima do desgaste político.

Sei não, mas quem só vive de voyeurismo não é muito certo das ideias e das emoções.

Pode-se argumentar que em seus tempos de oposição o PT era igual. Mais ou menos. Também abusava do expediente do desgaste político, pedindo CPIs e mais CPIs e fazendo gritarias. No entanto, existia um projeto para o Brasil. Tanto é que as maiores críticas que se fazem ao Governo atual é de não ter empregado suas bandeiras históricas na prática.

Ou seja, se há cobrança, é porque algo foi anteriormente construído e prometido.

Mas o que quer a oposição? Não aventam, em nenhum momento, soluções à vista para os erros do Governo. Não vejo, no meio dos embates discursivos, PSDB e DEM apresentando o que eles pensam que seria mais adequado. Somente discordam, e fecham a cara.

São duas viúvas que ficaram desnorteadas após o passamento de seus líderes. Seja de fato, como no caso do ex-PFL após a morte de Antonio Carlos Magalhães; seja de realidade, no caso dos tucanos com o ainda vivo Fernando Henrique Cardoso, que fala sobre tudo aos quatro ventos, é procurado tal e qual um oráculo, mas que não possui apelo algum para angariar votos e simpatia para seu partido.

O DEM está tão sem identidade que resolveu mudar de nome copiando sua antítese estadunidense.

Nesse quadro, é óbvio que Marina Silva acaba sendo uma grande novidade e o verdadeiro temor do Governo atual. Embora seja um temor relativo. No momento em que a campanha presidencial começar pra valer, vai ser difícil o PV e sua microestrutura bater de frente com os gigantes de cargos, verbas e tempos de TV.

Entretanto parece mais difícil ainda, neste momento, que a oposição esteja preparando algum programa de governo para 2011-2014.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Influenciando políticas públicas para a juventude


Não sei quem já ouviu falar da RENAS (Rede Evangélica Nacional de Ação Social). A RENAS é uma ampla rede de relacionamento entre as organizações evangélicas que atuam na área social, proporcionando encorajamento, capacitação, articulação, mobilização, troca de experiências, informações, recursos e tecnologia social.

Nos dias 27 a 29 de agosto, na Igreja Presbiteriana do Rio, acontece o IV Encontro Nacional da RENAS (maiores informações: http://www.renas.org.br).

Do processo da da RENAS, resultou uma discussão sobre o papel dos jovens, que amadureceu no sentido de criar um "setor de juventude": é a RENAS-Jovem. Seus objetivos são discutir, influenciar políticas públicas de juventude no Brasil, e fortalecer a participação da juventude evangélica dentro da Rede Nacional Evangélica de Ação Social (RENAS).

Ao final do encontro nacional, no dia 29 de agosto, à tarde, haverá o primeiro encontro da RENAS-Jovem. Mais informações em http://www.renasjovem.blogspot.com/.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Essa Marina

Quando eu pensava que a cena política brasileira tinha fechado as portas para as novidades (sejam elas boas ou más), surge o convite do PV para que Marina Silva dispute a presidência da república pelo partido em 2010.

Não tenho a (compreensível) ingenuidade que tive à época da eleição de Lula em 2002. Fiquei tão empolgado com aquele acontecimento inédito que só depois a ficha foi caindo de que, para governar, as contingências de sempre apareceriam. A tal governabilidade (o que é o PMDB, minha gente?), as grandes estruturas de poder brasileiras, o arrefecimento da ideologia petista etc.

Mas eu já cogitava fazer voto útil em 2010 ainda no primeiro turno, ou seja, escolher o candidato menos-pior-de-ruim-Deus-me-livre!, já que não estou tão disposto a anular como em outros pleitos.

Ok, votei em Cristovam Buarque e tive aquela leveza na consciência de que não desperdicei o meu voto - a não ser que eu almejasse ganhar a eleição. Mas Marina Silva, que nunca escondeu do governo, de seu chefe e da sociedade o quão difícil era ser Ministra do Meio-Ambiente no Brasil, surge como nova opção de candidata digna. Até de voto.

A candidatura de Marina assusta tanto o Planalto (e a oposição, não duvide) que Dilma Roussef já tentou convencê-la a não deixar o PT. Mas por que esse medo todo?

Primeiro, porque Marina Silva é Lula de saias: veio das classes baixas, ex-seringueira (o torneiro mecânico do Acre) e ainda tem uma história de luta política coerente. Além disso, é a encarnação da defesa do meio-ambiente e do desenvolvimento sustentável, vocação reconhecida internacionalmente. Quer bandeira mais na moda do que essa?

E ficou claro para a sociedade brasileira (ao menos, para a parcela que ainda se importa com os caminhos do país) que Marina incomodava o governo atual sendo fiel a seus princípios, a ponto de ter sido praticamente escorraçada em público da pasta do Meio-Ambiente. Lula acusou tanto o golpe que chamou o espalhafatoso Carlos Minc para sucedê-la.

Logo, a percepção dos eleitores é que Marina Silva saiu porque quis fazer um trabalho sério - e não porque era incompetente ou criou inimigos baseada em mesquinharia política. Ah, e a candidatura seria pelo Partido Verde - mais coerência, impossível. E é um partido com presença internacional pelo mundo, o que pode ajudar a ex-ministra.

Finalmente, Marina pode ser a (boa) novidade que bagunçaria o pré-determinado cenário das eleições 2010, com Serra x Dilma polarizando os extremistas atuais pró e anti-Lula, ambos os lados com a faca nos dentes sempre. Afinal, os decepcionados encontrariam uma nova esperança; os neutros poderiam ser simpáticos à causa "salve o planeta", ainda que não pensem muito a respeito; e a parcela oposicionista que quer o expurgo de Lula e sua herança ficaria satisfeita.

É claro que Marina não poderia governar se preocupando apenas com as questões ambientais, e teria que ter pulso firme pra ser chefe de governo. Além de gerenciar o relacionamento com o Congresso e suas bancadas. Será que ela tem perfil pra isso?

Entretanto, para um povo que carece de líderes que não só melhore suas condições de vida mas também ajude a combater males éticos, e ainda ser um exemplo nas causas globais...

E ainda é Silva.

sábado, 1 de agosto de 2009

Dicas de investimento

"Se você parar pra pensar, quem foi o homem mais bem-sucedido, mais rico e poderoso de 1500? Você não lembra de ninguém. Mas se você perguntar quem foi o maior artista, todo mundo sabe que foi Leonardo da Vinci."

A partir dessa frase, ouvida em meio a um almoço com colegas de trabalho, continuei a refletir sobre as prioridades da vida. Só refletir não, decidir por elas também. Tentar arrumar na cabeça, no coração e no blog um monte de pensamentos que, definitivamente, estão me levando a algum lugar - a não ser que eu não escolha esse caminho.

Papos alucinógenos à parte, falarei logo sobre o que tenho pensado: lembrei de uma entrevista do filósofo Zygmunt Bauman, em que ele comenta sobre como somos movidos a estímulos nos dias atuais. Como se reagíssemos por espasmos a todo momento: precisamos da TV, da internet, de algum barulho ou agitação para nos sentirmos fazendo alguma coisa. Senão, é tédio. Perdemos o valor da meditação e do "estar à toa".

No meio disso tudo, também ainda teve o texto do Burger, com a excelente descrição de Kurt Vonnegut.

Fazendo a ponte com a frase do almoço, é impressionante como somos rodeados por convenções de pensamento (bem capitalistas) segundo as quais precisamos produzir, supervalorizar o trabalho, ter grana e ser bem-sucedido, o mais cedo possível, e que tudo isso é o ápice da vida. Não, não é.

Nós sabemos que não é. Sabemos que o dinheiro ajuda a trazer felicidade - uma vez que nos possibilita realizar muitas coisas - mas não é absoluto. Temos a vaidade humana do poder, mas sabemos que ele sempre será relativo. Temos as pulsões dos instintos de toda sorte, mas sabemos que o seu controle sadio é a chave para vivermos em sociedade.

"Se sabeis essas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes", já dizia Jesus, ensinando a humildade. E que se estende ao parágrafo acima, na minha opinião. Embora não pareça ser uma missão nada fácil para a raça humana.

Podemos chegar a um ponto em que estamos estabelecidos numa profissão, com um salário razoável e desenvolvendo a carreira. Mas foi por isso que sonhamos? Não, embora sejam pilares indispensáveis para o mais importante: transformar os sonhos em projetos, e os projetos em realidade.

E por que deixar de lado coisas simples da vida, mas que valem tanto a pena? Dormir até mais tarde, ver futebol, escrever no blog e sei lá o que mais, desde que seja simples e desinteressado.

Então, na hora de pensar nas prioridades de vida, penso no que vou investir. Serei profissional sempre, mas não posso dar folga pros sonhos. Esses não têm feriado, e precisam que eu faça as escolhas certas para continuarem sobrevivendo.

Não sei se Leonardo da Vinci pensou isso tudo, mas eu vou com ele.

terça-feira, 28 de julho de 2009

No blog com Saramago

Reproduzo aqui entrevista de José Saramago ao Estadão, na qual ele conta sua experiência como blogueiro. No seu jeito peculiar, o autor de "Ensaio sobre a cegueira" descreve bem como é o ponto de vista a as motivações de quem alimenta um blog - seja um reles mortal ou um prêmio Nobel...

Saramago prova das delícias de ser blogueiro

Escritor português lança livro com posts escolhidos entre os melhores que escreveu para rede mundial

Ubiratan Brasil - Estadão, Sábado, 25 de Julho de 2009

"Sou como um elefante numa loja de louças: não sigo pauta, nem roteiros." Desde setembro do ano passado, o escritor português José Saramago é um ilustre ?elefante? que circula com desenvoltura pela rede mundial de comunicação. Na função de blogueiro, ele abastece sua página na internet (www.josesaramago.org) com certa regularidade, tratando desde temas particulares (sua passagem por São Paulo, no ano passado) até os aguerridos, como suas críticas à atuação do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi. Aliás, os ácidos comentários ("Na terra da Máfia e da Camorra, que importância poderá ter o fato provado de que o primeiro-ministro seja um delinquente?") impediram a publicação, na Itália, do livro O Caderno (224 páginas, R$ 45), lançado aqui pela Companhia das Letras.

Trata-se de uma seleção de textos que Saramago postou entre setembro de 2008 e março deste ano. Na introdução, o escritor lembra-se de quando os cunhados lhe ofereceram um caderno, em 1993, no qual deveria registrar seus dias na nova moradia, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Saramago jamais rascunhou uma letra ali, mas se inspirou para escrever Cadernos de Lanzarote, publicado cinco anos depois.

No ano passado, com seu site já no ar, o escritor foi incitado a repetir a experiência no formato de blog. Ainda que convalescente de uma doença que quase o levou à morte, Saramago aceitou a empreitada. Na verdade, empolgou-se a tal ponto que, quando sua mulher Pilar pediu para diminuir a quantidade de posts a fim de descansar nas férias, ele ficou triste, acreditando que Pilar não estivesse gostando de seus comentários. Afinal, ali era seu novo campo de batalha, no qual acariciou amigos (Jorge Amado, Carlos Fuentes, Chico Buarque) e também cutucou políticos, como no texto "Sarkozy, o Irresponsável" e naquele contra Berlusconi que, dono da Einaudi, justamente a editora que publica a obra do escritor na Itália, proibiu o lançamento de O Caderno em italiano. Sobre essa nova forma de expressão (pretende lançar outra seleção de textos em setembro), Saramago respondeu, por e-mail, as seguintes questões do Estado, sem esconder um certo tom birrento que se lhe tornou característico.

Depois de alguns meses escrevendo como blogueiro, o que o senhor pensa dessa ferramenta de comunicação? Seria mesmo um revolucionário modo de se comunicar?

A rapidez é a sua grande virtude, mas daí a ser revolucionário vai uma grande distância. Revolucionário foi o telefone; o que veio depois são alargamentos tecnológicos dele, sempre com o mesmo objetivo: chegar mais longe e mais depressa.

Para um escritor, qual a principal utilidade de um blog: útil apenas para exercitar a escrita ou criar um canal quase imediato de comunicação com seu público?

A escrita não se exercita num blog. Se assim fosse, o mundo estaria cheio de escritores. Mas é certo que o blog permite um contato quase instantâneo com os seus destinatários, de certo modo o mesmo tipo de diferença que existia entre uma carta e um telegrama. A obsessão da rapidez é uma das características da nossa época em todos os aspectos da vida. Mas é uma perigosa ilusão pensar que se pode vencer o tempo.

O senhor definiu, certa vez, a internet como "uma página infinita". Qual a importância da internet em sua opinião?

"Página infinita" era uma definição de algum modo poética que a internet não tem que me agradecer. O que importa, porém, é o que se escreve nela. A tal "página infinita" aceita tudo, aguenta tudo, incluindo o pior. A liberdade de expressão não é boa nem má por si mesma, mas pelo uso que dela se faça.

Nos textos selecionados para o livro O Caderno, percebem-se desde considerações sobre notícias do dia ou sobre outros artistas (escritores, em especial) até narrativas pessoais, como sua passagem pelo Brasil no ano passado. Qual critério o senhor utiliza na escolha do assunto que lhe parecerá atraente para o leitor e, ao mesmo tempo, pouco ou nada invasivo em sua vida particular?

Nenhum critério em particular. Reajo a estímulos que na sua maioria me vêm de fora, faço os comentários que me parecem adequados e passo a página.

As leis que controlam o direito autoral de textos lançados na internet ainda são precárias. O que pensa o senhor disso? Deveria haver um controle ou o espaço deve ser livre, a despeito de suas consequências?

Embora considere que todo o trabalho deve ser remunerado, inclino-me a pensar que o espaço de internet deverá ser livre. Mas esta é a opinião de um leigo na matéria.

A prática do blog pode condicionar as pessoas a escreverem (e também a lerem) textos mais curtos? Será que as histórias muito curtas terão matéria verbal suficiente para corresponder a gêneros literários reconhecíveis?

Não creio que venha a existir esse condicionamento. O curto e o comprido têm feito boa companhia um ao outro e assim irão continuar.

Os textos que estão no livro também estão disponíveis gratuitamente no blog. O fato de se adquirir o livro significa que o leitor (ao menos, um punhado deles) ainda tem respeito e dá o devido valor para a obra impressa?

Assim é. Tal como o conhecemos, o livro terá ainda uma longa vida. Uma biblioteca é um lugar especial, os livros são os homens e as mulheres que os escreveram. Estar numa biblioteca é estar acompanhado.

Os escritos de um blog podem ser considerados obra menor na carreira de um escritor?

Os escritos de um blog não definem, por si sós, uma qualidade determinada. São filhos da casualidade, do humor, dos apetites. Salvo alguma exceção que não conheço, duvido que alguma vez esses escritos venham a ser considerados obras maiores.

Ao escrever para o blog, o senhor diminuiu o tempo dedicado à escrita da literatura? Como conciliá-los? Aliás, o exercício do blog ajuda de alguma forma o da literatura?

Vinte e quatro horas dão para tudo. É uma questão de administrar racionalmente o tempo de que se disponha. Quanto a ajudar o exercício do blog o da literatura, não ajuda nem desajuda. São duas tarefas diferentes e não complementares.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Cinco coisas que não sou, mas gostaria tanto de ser que arrisco

Fui convidado pela Livia para escrever sobre o tema em meu blog. Aí vão as minhas opções e pseudo-projeções:

Craque de futebol do Flamengo

Não apenas jogador de futebol do time do coração, como qualquer criança. Gostaria de ser craque, camisa 10 indispensável ao time, com facilidade pra fazer toda jogada que quisesse. E marcar gol de título no último minuto de final de campeonato, com o estádio explodindo de alegria!

Apresentador de talk-show

É de lei assistir a um talk-show e torcer para que o apresentador faça a pergunta que está na minha cabeça, ou a piada que seria perfeita para aquele momento. Ou simplesmente fazer uma entrevista muito melhor do que aquele boçal privilegiado com um programa só dele...

Amigo de Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade

Se eles já me convenceram a escrever e me dão conselhos e consolos através de seus textos, imagine se eu os conhecesse! Viver naquele pedaço de Copacabana entre a Rua Canning e a Conselheiro Lafaiete, sorvendo da companhia e dos direcionadores vocacionais que eles sempre proporcionaram a seus companheiros de vida.

Integrante dos Beatles

Brincar enquanto trabalha, inventar o videoclipe, eternizar minhas músicas e ter raiva da Yoko. Hoje só dá pra realizar a última opção.

Dono de livraria sem medo de prejuízo

Conseguir qualquer livro que precisasse, fazendo rodas de leitura com escritores consagrados de todo o mundo - sem a esnobice. E um café da mais fina qualidade (e bem frequentado) pra completar.

Também tô convidando pra brincadeira os blogs abaixo :

Borduna

Ababelado Mundo

Bolha Lilás

Palavras do Exílio

sábado, 4 de julho de 2009

Olhaí, ah, o meu diploma, olhaí...

Não é à toa que abaixo da minha foto no perfil deste blog consta que sou jornalista formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ). A intenção é subsidiar o leitor com informações que colaborem para credibilidade do que escrevo. Assim, ele poderá avaliar a qualidade de meu trabalho enquanto lê os artigos e saber um pouco das minhas origens, de onde estou falando.

Na polêmica decisão do Superior Tribunal Federal (STF), é preciso esclarecer: o diploma de Jornalismo não foi derrubado, como se está dizendo. A obrigatoriedade dos patrões em contratar um diplomado para exercer o jornalismo é que não existe mais.

Vários jornalistas consagrados (e antigos de idade) que têm a vocação confirmada desde sempre não passaram pela faculdade - até porque ela não existia. É o caso de Mino Carta e Elio Gaspari, por exemplo. Ou do baluarte da profissão, Barbosa Lima Sobrinho, por tantos anos presidente da Associação Brasileira de Imprensa.

O que não se pode aceitar é a questão do diploma ser tratada como: 1) mera formalidade burocrática que impede talentos de aflorar; ou 2) como a garantia absoluta da qualidade do profissional. Os que são a favor da decisão do STF utilizam a primeira justificativa, os contrários a segunda. Ambos são extremos que não colaboraram em nada para a discussão da obrigatoriedade antes de Gilmar Mendes ter batido o martelo.

A maior preocupação, antes e agora, deverá ser sempre sobre a qualidade do ensino. Um de meus professores na UFF, que não morria de amores pela obrigatoriedade (mas era extremamente preocupado em nos preocuparmos com o bom ensino), foi defenestrado por colegas e alunos quando expôs tal opinião num debate no campus.

Demostrando a importância desse ponto, o pronunciamento das Organizações Globo sobre a decisão do STF foi: achamos bem-vinda a decisão, mas continuaremos a selecionar profissionais formados em jornalismo. O óbvio ululante ficou exposto no Jornal Nacional, que anunciou as palavras dos Marinho.

E qual seria esse óbvio? Uma corporação de comunicação não pode prescindir de profissionais capacitados, pura e simplesmente. Mas adora uma brecha na lei para vulnerabilizar os postulantes ao cargo, num mercado de trabalho cada vez mais enxuto.

É só lembrar: em todo e qualquer concurso público, um cargo de nível superior possui salários mais altos que um cargo de nível médio. Muitos fazem faculdade pensando nisso. Se o diploma não é mais obrigatório para a contratação de um jornalista, que obrigação eu tenho, como empregador, de tratá-lo como um profissional de nível superior? Não que isso vá automaticamente acontecer, mas a estrada já está pavimentada.

Logo, os donos dos meios de comunicação apóiam a decisão do STF, pois ela lhes dá ainda mais poder. A Federação Nacional de Jornalistas e os sindicatos país afora discordam, pois percebem a artimanha que o Judiciário sacramentou.

E não deixa de ser irônico que o Jornalismo, um ramo profissional que utiliza seus saberes para falar à sociedade de maneira fundamentada, clara e "entendível" (quando não faz isso, perde mercado e é criticado) tenha sido "castrado" pelo Direito, que possui linguagem e descaminhos jurídicos praticamente inacessíveis e ininteligíveis para a maioria da população.

Nem vou perder tempo falando de Gilmar Mendes. Joaquim Barbosa já disse tudo.

Vamos ver o que acontece no vestibular 2009. Jornalismo era um dos cursos mais disputados - continuará a ser? Para quem está na dúvida se entra na briga por uma vaga, recomendo o que sempre disse a respeito de qualquer carreira: não discuta com a sua vocação. E outra: não se contente com o que aprender na universidade (coisa que também vale pra qualquer profissão).

Para os docentes da área, mais do que nunca, é hora de se preocupar com o bom ensino do Jornalismo, mostrando que a não-obrigatoriedade nada tem a ver com os objetivos da formação escolar. E a universidade não pode cair na tentação de encastelar-se academicamente, como o Judiciário faz tão bem.

A comunicação muda cada vez mais rápido, e os profissionais do ramo não estão se reinventando - estão sendo reinventados à força. Cabe a nós, jornalistas, nos darmos conta dessa mudança e perceber que ainda temos papel relevante na sociedade, embora muitas vezes não seja fácil para ela se dar conta disso. Num rápido exercício: como você ficou sabendo das mil mordomias descaradas do Senado Federal? Pois é, pela imprensa.

Mas não cabe, a partir disso, a imprensa assumir um ar esnobe e aristocrático: ela não está sozinha na reverberação das informações. Blogs, twitters, celulares e seus produtores não-jornalistas devem ser encarados como colaboradores, não inimigos. A concorrência desleal é com o STF, pelo visto.

Enfim, tudo isso é pra dizer, sem romantismo, que me orgulho em ser jornalista. Informo minhas origens na UFF sem constrangimento, com todas as dificuldades que passei (como em qualquer lugar). Foi na faculdade que moldei minha vocação e conheci os fundamentos e valores da carreira. Não sou dotô, mas tenho um diploma que não é só decoração.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Voz do que clama no deserto

"Existe um conceito infeliz no Brasil de que os direitos humanos só defendem bandidos. Tal conceito é popularizado e utilizado por pessoas que têm interesse em mantê-lo. Isso ajuda na justificação de políticas de comportamento repressivo, como as megaoperações no Rio de Janeiro ou a ideia de que os índios ameaçam os interesses econômicos do Mato Grosso do Sul. Várias ações governamentais no Brasil acabam sendo executadas para satisfazer àqueles que não acreditam nos direitos humanos."

Declaração de algum esquerdista de plantão? Opinião? Palpite?

Não, é um trecho do relatório da Anistia Internacional sobre o Brasil.

Lembrando que o único compromisso da organização, em nível mundial, é fiscalizar se os direitos humanos são respeitados. Não estão vinculadas a nenhum país, ou a algum grupo de pressão política ou partidária. Traduzindo: não tem rabo preso.

Tal iniciativa é um alento para este blogueiro, que agora se sente menos solitário no clamor público.

Leia o contundente relatório completo.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Estamos cercados!

No meio da entrevista ao Esporte Espetacular, o jogador Adriano diz à repórter: "Dinheiro não traz felicidade, mas ajuda a trazer". O atacante, que acaba de voltar ao Flamengo após oito anos na Itália, parece saber do que está falando. Ele saiu da favela de Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão (Rio de Janeiro) para ganhar o apelido de Imperador graças a seu futebol pelo mundo.

Sergio Cabral e Eduardo Paes, com a conivência de boa parte da imprensa carioca e atendendo aos principais anseios da classe média da cidade do Rio, começam a erguer os muros em volta das favelas. A justificativa para a ação, condenada por organismos respeitáveis como a Anistia Internacional, é para conter a devastação ambiental. Uma balela, já que os principais devastadores não são os moradores das comunidades.

Na entrevista, Adriano afirmou que ficou deprimido após a morte do pai e desgostoso pelo futebol. Abandonou seu clube na Itália e sumiu no Brasil por alguns dias. Foi à favela de Vila Cruzeiro, reencontrar família e amigos. A despeito de se acreditar nos motivos que o levaram lá, o atacante não esconde que é na favela onde ele se sente bem e à vontade, a despeito de todo o dinheiro que ganhou na vida.

Sergio Cabral e Eduardo Paes, "somando forças", dão vida a choques de ordem e ocupações de morros pela polícia, para trazer a paz (para o morro ou para a Zona Sul vizinha?). Conseguem emplacar na mídia suas justificativas fascistas, o que se percebe pelo vocabulário das matérias: "comunidades" voltaram a ser "favelas"; "moradores de rua" são de novo "mendigos", e por aí vai. A classe média que já esperava por isso se sacia, a que até então poderia estar indiferente começa a tomar partido do governo.

A provocação das torcidas rivais à torcida flamenguista quando o time rubro-negro leva um gol: "Silêncio na favela", surfando na onda pejorativa. Adriano reestreiou ontem pelo Flamengo, marcando um gol e o Maracanã lotado gritava "Festa na favela", matando na ironia a provocação mordaz.

Sergio Cabral e Eduardo Paes não devem gostar muito da exaltação à favela que Adriano faz (também ressaltada na entrevista ao programa esportivo). Mas deixa estar: é futebol, numa torcida de massa, não vai além disso. Nada que atrapalhe seus planos de "arianizar" a sociedade carioca trajando um impecável cinismo.

Mas o atacante rubro-negro, nas limitações que possui e até onde o espectro esportivo permite, contribui para que o discurso do carioca não ignore o óbvio: a favela não é um antro de marginais que merece ser extirpada (removida?) do mapa. Se outros brasileiros de renome e voz - como os jogadores de futebol, ou digníssimos formadores de opinião - mantivessem essa postura, talvez governantes como Sergio Cabral e Eduardo Paes se constrangessem um pouco antes de proferir seus planos cara-de-pau.

Só que a cooptação pelo discurso dos magnânimos líderes eleitos encontra eco e nenhuma oposição. Ou nenhuma oposição que tenha espaço e voz. Que vergonha de morar no Rio.

VEJA TAMBÉM: Protestos contra os muros

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Por isso eu corro demais

As tirinhas do Dilbert cumprem um papel importantíssimo em nossa sociedade, assim como o seriado The Office: satirizar as situações do cotidiano do mundo corporativo. As empresas é que começaram com essa história de distribuir seus empregados em baias, cada um com seu canto e seu computador, durante oito (ou mais) horas por dia.

Mas esse tipo de ambiente não se conteve nas empresas. Redações de jornal, vários setores prestadores de serviço, e até a velha repartição pública já se encontram modernizados - ao menos no layout do andar e no enfurnamento de seus funcionários.

Dilbert e The Office falam de inúmeras questões do mundo corporativo, mas muitas de suas piadas referem-se ao ambiente físico do trabalho, nessa convivência obrigatória, e obrigatoriamente civilizada, com tanta gente desconhecida tão perto de nós.

É muito estranho, em plena era da mobilidade tecnológica (e de um individualismo exacerbado) que sejamos obrigados a trabalhar como na época da revolução industrial do século XIX: todo mundo na sua mesinha, apertando seus variados tipos de parafusos, junto de todo mundo.

Então eu corro.

Calma, não saio desembestado do edifício, destrambelhado das ideias e de minhas necessidades socioeconômicas. Por três vezes na semana tenho o hábito de correr. E se em algum momento eu me desconecto da realidade, é enquanto dou minhas humildes passadas.

Sempre invejei aqueles que conseguem se desligar do seu ambiente de trabalho e das emoções vividas (ou trancafiadas) durante as oito horas. Pessoas que parecem desligar um botão ON/OFF que possuem no cérebro e que simplesmente só voltam a ligá-lo na manhã seguinte, assim que adentram o famigerado trabalho. Nunca consegui ser assim, até correr.

A inquietação com a obrigatoriedade de trabalhar num mesmo lugar, pelo mesmo espaço de tempo, todos os dias, me faz preferir o ônibus ao metrô, só para não me entocar em outro ambiente obrigatoriamente fechado. Não é fobia, é vontade de estar ao ar livre e com paisagem, só isso.

E quando corro me preocupo apenas com a passada certa, a respiração adequada, o gole d'água sem me encher demais, a vontade de chegar até o fim daquele percurso ao qual me propus a fazer.

Correr é uma atividade física recomendada pelos médicos, mas hoje percebo que esse é um objetivo secundário no meu hobby. Que na verdade não possui objetivo nenhum, somente obedecer as regras do frescobol: não há disputa, nem vencedores, nem vencidos. Corro sozinho, por correr e por agora perceber que é quando me desligo.

Correr é tudo o que não posso fazer em oito horas de escritório. Lá, tudo pede minha imobilidade: qualquer tarefa requer um computador, ou o seu ramal, ou apenas estar ali para que possam contar com você ao ver sua cabeça sobressaindo sobre a baia, mesmo sentado. Só saio dali para as salas de reunião, onde novamente ficarei sentado, parado.

Também não corro do escritório. Sei que ele tem a sua função e, até as relações (não os direitos) trabalhistas mudarem, não há muito o que divagar sobre o que eu poderia estar fazendo lá fora durante aquelas oito horas. Isso só me traz murmuração e me desarma de fazer do escri um lugar menos cinza. (Um dia penso em poder trabalhar de bermuda e fazer a sesta depois do almoço, mas isso é outra história.)

No entanto logo depois, ainda em pleno horário do rush, não estou no trânsito ou fazendo serão. Estou correndo, e totalmente desligado. Correndo porque quero, para onde quero, como eu quero, quando quero. Não é isso a liberdade?

Talvez aí esteja o segredo. Para mim, correr é a métafora perfeita para a liberdade, com seu gostinho de quero sempre que a torna incomparável. Daí desligo-me de todo o resto que não atenda a esse chamado libertário. E começo a entender porque, após uma exaustiva corrida, sinto-me mais leve e completamente renovado - das forças e das ideias.

LEIA TAMBÉM: Nas passadas

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Hello, goodbye




“Eles me tiraram tudo, Joe! Tudo! Até a inspiração!”

A frase poderia estar em qualquer roteiro de Hollywood, numa seqüência dramática, com o ator quase chegando às lágrimas, caracterizando um belo clichê. Mas é essa fala nada original que resume o meu sentimento em relação às empresas de telecomunicações instaladas no Brasilzão.

Atire a primeira queixa no Procon quem nunca teve problema com as operadoras de telefonia. Poderosíssimas, mexem com tudo: telefone fixo, celular, TV a cabo, internet... Um “polvo” da convergência tecnológica e, sobretudo, do poder quase absoluto sobre essa tecnologia.

Eu, que já fui à justiça contra a Oi devido à inoperância do Velox na hora que mais precisei (ganhei, obviamente. Os meganhas já chegaram com um acordo e o rabo entre as pernas), voltei ao aborrecimento num sábado. À tarde, novamente o problema que originou a ida aos tribunais. No 0800, uma explicação nada convincente: falha na rede da região (mais uma!), que estava em reparo até as 17h. Curioso é que moro na rua de uma das sedes da Oi.

Às duas da madruga, louco pra postar no blog após outra insônia, nada de conexão. A frustração por me sentir excluído, ainda mais após tanto dissabor judiciário, somava-se à raiva pela operadora e por seu desserviço ter espantado minha inspiração para o texto. Word é maldito prêmio de consolação.

Mas resolvi resgatar informações de um seminário sobre telecomunicações que assisti em novembro. A Lei da Radiodifusão em vigor no país é de 1962. Avançadíssima para época, hoje é mantida jurássica para que os donos do poder midiático (que se confundem com os do poder do Estado, vide o bigodão) não sejam incomodados.

Com a bandida privatização das telecomunicações no país, em 1997, foi criada a Lei Geral de Telecomunicações (LGT), que mantém a situação da radiodifusão inalterada. Com um detalhe: apenas o telefone fixo está sob regime público. Ou seja, as operadoras só são obrigadas a garantir para toda a população o telefone fixo. E apenas em relação a isso podem ser cobradas pelo Estado, que chancelou a LGT.

Os demais serviços (celular, cabo, internet) estão sob regime privado. Isto é: não possuem a obrigação de universalizar o acesso de toda a população a esses serviços. Logo, não podem ser cobrados pelo Estado por isso. Só se movem aonde houver mercado consumidor que retorne o investimento feito (com lucro), o que é normal para uma empresa.

Porém o Estado, por meio da LGT forjada sob os lobbies das operadoras, permitiu que elas ignorem a maioria da população. Mesmo em se tratando do serviço básico de garantir que as pessoas se comuniquem no mundo atual. E sequer pensam em oferecer tarifas mais baratas.

Assim, cerca de 2 mil municípios brasileiros (são 5.564 ao todo) não possuem telefonia celular. Desses 2 mil, 600 contam com apenas uma operadora, sem a tal concorrência arvorada com ardor pelo livre mercado. Somente 400 municípios possuem banda larga.

Quer um exemplo? Rumemos para Japeri, distrito do Rio de Janeiro, com quase 93 mil habitantes. Só 10% deles possuem telefone fixo. Os demais, quanto muito, um celular “pai-de-santo”: só recebe, pois o minuto de uma ligação de celular é caro até pra quem pode pagar.

Meu problema de falta de conexão parece pequeno diante desse contexto. Mas a raiva pelas operadoras todo-poderosas aumenta. A única coisa que podemos fazer (ou ao menos a mais acessível e com resultado), é registrar queixas na Anatel e entrar na justiça contra elas se a reincidência e o atendimento que não resolve persiste. Não queremos banalizar o judiciário, mas banalizaram nosso desejo de nos comunicarmos decentemente, independente da nossa renda.

Aliás, só podemos entrar na justiça contra elas baseados, claro, no Código de Defesa do Consumidor. Só não podemos nos esquecer: o direito do cidadão à comunicação está acima do direito do consumidor.

sábado, 2 de maio de 2009

Saúde!

Foi associação imediata. Ao ler que Felipe Calderón, presidente do México, determinou que a população passe cinco dias em casa a partir de sexta-feira (1º de maio), para evitar maior contágio da nova gripe, lembrei imediatamente do livro Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. A declaração do presidente só confirmou: "Não há lugar mais seguro do que o seu próprio lar para evitar ser infectado pelo vírus".

Para quem não leu ou não conhece, o livro do escritor português fala de uma epidemia de cegueira que assola a população mundial, sem razão aparente. Na impossibilidade de encontrarem a causa ou a cura, as tentativas de controle da epidemia vão se esvaindo até chegar ao absurdo de confinar as pessoas - no caso, os infectados - para evitar maior contágio.

Ainda não se sabe a causa ou a cura da nova gripe, e isso traz o desespero primeiro aos mexicanos; depois, ao resto do mundo, devidamente globalizado. O que fazer? A Espanha relatou o primeiro caso na Europa de um paciente que contraiu a doença sem ter ido ao México, o que ilustra o perigo do contágio entre pessoas.

A possibilidade do vírus se contrair com o da gripe aviária pode causar um novo desenrolar trágico. Enquanto isso, a imprensa e os governos não sabem qual o tom a adotar: um alarmista que pode causar mais pânico ou um precavido que pode sonegar informações importantes para o momento.

O meio-ambiente já flerta com o apocalipse desde o relatório do IPCC sobre as mudanças climáticas. Agora, uma nova peste pode surgir, e a Europa de séculos atrás sabe bem o que é isso.

A nova gripe, assim como o castelo de cartas da crise financeira, mostra como a sensação de segurança que teimamos em querer manter é pura cortina de fumaça. Ok, não dá pra vivermos neuróticos, mas é inevitável que uma (não tão) simples gripe nos leve a refletir sobre nossa finitude humana.

Sim, acabaremos. Não falo da humanidade, mas individualmente. E então, o que fazer com esse tempo que a cada dia nos resta menos? Se formos levados pela fábula de José Saramago, é o momento de egoísmos inconseqüentes aflorarem a torto e a direito.

Mas, ao contrário do que muitos pensam, o ser humano tem a possibilidade de escolher. Cada um de nós pode escolher ser menos mesquinho, mais solidário, mais consciente de que nossa curta existência na Terra pode ser muito mais significativa do que estamos acostumados.

E se individualmente acabaremos, individualmente podemos deixar de ser tão individualistas, sem precisar de grandes causas ideológicas para isso. Tão somente a pequena causa do cotidiano, que cada um pode aplicar a sua vida.

Desculpem se o texto pareceu simplista, não foi essa a intenção. Mas a certeza do fim não é nada complicada, ao contrário do que fazer antes dele. Não tenho respostas, mas inquietações. Não posso resolvê-las facilmente, mas compartilhá-las. Não posso prometer nada, só tentar cumprir.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Estava escrito

Só pra completar a informação, segue matéria que originou o post de 8 de abril:

(Jornal Destak, 8/4/2009)