sábado, 13 de dezembro de 2008

Uma sala de estar convidativa

(Foto: Carolina Lessa)

Será necessária mesmo uma apresentação sobre quem é Luis Fernando Verissimo? O escritor gaúcho de crônicas bem-humoradas e críticas sobre todo o tipo de situação, com uma das melhores vendagens de livros no Brasil, é uma pessoa super acessível. Já deu entrevistas para além dos grandes jornais, e agora marca presença dupla no Lessa27 e no Futebol Racional, falando de temas diferentes. A conversa começou por e-mail e terminou na casa do filho de Verissimo, em Ipanema. Acompanhe o bate-papo sobre cultura geral:

Você tem saudade dos seus tempos de jornalista? Por quê?

Jornalista eu ainda sou. Tenho saudade do convivio na redação. Trabalhar em casa é mais comodo mas menos estimulante.

Você sempre planeja escrever com humor ou depois que escreve é que você percebe?

Sempre procuro fazer um texto atraente e, dependendo do assunto, bem humorado.

Como é a sua relação com Machado de Assis, que há mais de 100 anos era alguém que escrevia com muito humor?

Na verdade eu não li muito Machado de Assis, li aqueles livros que todo mundo leu: Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Memorial de Aires, não foi muito mais do que isso. Lia muitas crônicas também. Machado usava muito a ironia, o que é uma constante dos nossos cronistas, todos eles escreviam com certo humor.

Você acha que o humor é uma característica dos escritores brasileiros?

Eu acho que é uma característica brasileira. Esse gosto pela crônica é uma característica brasileira também. Nós tivemos grandes escritores que nunca fizeram outra coisa além de crônica: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Antonio Maria, Stanislaw Ponte Preta. Eu acho que é uma coisa brasileira, não tenho notícia de algo assim em outro lugar.

Há algum tempo existia uma tradição de cronistas na imprensa brasileira. Você ainda tem um espaço, João Ubaldo Ribeiro também. Mas são poucos. O que você acha que mudou no espaço da crônica, que nos jornais de antes era maior, havia mais gente e hoje dá-se preferência às crônicas opinativas do que a crônica que conta uma história?

Eu acho que a crônica como gênero literário, como construção literária, mudou bastante. Hoje não se tem mais a crônica como um espaço de leitura prazeirosa num jornal, ou numa revista. É mais opinião, sobre atualidade e política, e acho que não há ninguém que faça como Rubem Braga, por exemplo.

Você imagina por que houve essa mudança?

Não sei, não tenho nenhuma tese sobre o assunto. Talvez a vida tenha se tornado tão difícil, tão competitiva, que as pessoas não têm mais tempo para o puro prazer de ler uma boa crônica sobre uma coisa lírica, bonita, a crônica pela crônica. Esperam sempre uma atualidade da crônica.

Você já disse que gosta de assistir Seinfeld. Por quê?

Gosto do texto inteligente e da interatividade dos personagens principais, os quatro muito bem interpretados.

Você acha que um blogueiro pode ser considerado escritor? Por quê?

Acho que não é o veículo que determina se o cara é escritor ou não. Num blog ou em outro lugar, o que interessa é o texto.

Como surgiu a idéia de fazer cartuns?

Eu sempre gostei muito de quadrinhos e cartuns e quando comecei a ter um espaço assinado no jornal, e quando faltava tempo ou inspiração para o texto, apelava para o desenho.

Família Brasil, Cobras, Dora Avante, Velhinha de Taubaté, Analista de Bagé... Há algum outro personagem a caminho?

Não, mas nunca se sabe.

Quais são suas expectativas políticas para o país? O pragmatismo venceu o idealismo (qualquer um)?

Acho que quando se escrever sobre este tempo no futuro duas coisas vão intrigar os historiadores: o ódio ao Lula e a paixão pelo Lula, as duas coisas desmedidas e um pouco irracionais. Na sucessão do Lula elas vão ser determinantes, não sei para que lado. Me parece que o Lula está fazendo um governo mais pragmático do que ideológico.

Você acha que as ideologias chegaram a um ponto em que ficaram inócuas? Isto é, a ideologia pode ser bonita e inspiradora mas, quando chega ao governo, é incapaz de virar ação de governo, políticas públicas?

Eu acho que o Governo Lula foi uma decepção para a esquerda, por não fazer um governo exatamente de esquerda, e ao mesmo tempo decepcionou para a direita, porque não foi um desastre completo. Na verdade, o poder não muda tanto ao mudar a política, ou o governo. Os donos do poder, como diria Raymundo Faoro, são os mesmos: o poder do dinheiro, do capital financeiro... Essa crise do capitalismo que estamos passando agora, que exageradamente é chamada de terminal, talvez cause algumas mudanças.

Há algum tempo ficou famoso o seminário “O silêncio dos intelectuais”. Diante desse quadro político do qual falamos, você consegue ver um papel diferente dos intelectuais na política e na relação com a sociedade?

Eu acho que o papel do intelectual é ajudar a sociedade a se entender, a se pensar. O papel dele é definir o que está acontecendo, mas não que isso signifique que ele vá ter interferência nos rumos do que vai acontecer. Mas ele é uma maneira da sociedade se compreender.

Como tem sido a experiência de ser avô? Vai desaguar na sua produção literária?

Já escrevi sobre a neta mas não pretendo transformá-la em assunto. São coisas que têm um significado sentimental óbvio para a gente mas não devem interessar muito aos outros.

Você já deu muitas entrevistas. Existe alguma coisa que você gostaria de ter respondido mas não te perguntaram? Se existir, pode responder agora...

Ainda não me perguntaram que tamanho eu calço. E sabe que eu não sei?

Veja também Verissimo falando sobre futebol

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Engodo eleitoral - parte 2

Estava com a idéia na cabeça pra escrever sobre as novidades da prefeitura de Duda Paes mas Xico Vargas, do blog Ponte Aérea, foi mais rápido que eu. E tirou as palavras da minha boca:

Paes carrega mais santos do que velas

"A escolha de Francisco Manoel de Carvalho, o notório Chiquinho da Mangueira (foto), para a presidência da Suderj é o sinal mais forte até agora de que Eduardo Paes chegou ao altar com mais santos do que velas para acender.

O novo dono do Maraca - e de suas dúzias de placas de publicidade que enriqueceram tantos nomes importante do esporte e da política - é o mesmo personagem que pediu refresco da PM no combate aos traficantes da favela da Mangueira. Danou-se, na época, o coronel que denunciou o escândalo.

Não fosse suficiente isso, ainda se poderia acrescentar que a nomeação do moço resgata dívidas do novo prefeito com o que há de mais atrasado, para dizer o mínimo, na política fluminense. Não estranhe, querido leitor, se daqui a pouco começar a ouvir a voz do casal Garotinho, momentaneamente enxotado para o extremo Norte do Rio de Janeiro. São grandes os intere$$es do PMDB na administração do estado e da capital."

Obrigado, eleitores de Eduardo Paes!!!!

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Podia ter saído na Piauí...

Escrevi a matéria abaixo e mandei como colaboaração para a seção "Esquinas", da revista Piauí, em agosto de 2007. Infelizmente, não foi publicada. Mas resolvi disponibilizá-la no Lessa27 e, por que não?, colocá-la no hall de entrevistas do blog.


Protestantismo em série
Tarzan e Homer Simpson professam Calvino e processam a FOX

Homer Simpson é protestante. Freqüenta a igreja aos domingos, tem a Bíblia como regra de fé e prática, e orienta-se pela ortodoxia calvinista. Tem noção de quem o ouve e o admira. Tem noção de que, quando fala, possui aprovação quase unânime. Ao ser passado pra trás, fez questão de ser ainda mais protestante. Há alguns meses protesta contra a FOX, a casa que o convidou para entrar há 18 anos. Nada disso foi levado em consideração quando Homer alcançaria o seu momento máximo. Na verdade, para muitos, Homer Simpson ficou mudo. Waldyr Sant’anna, o dublador que melhor encarnava o espírito do personagem do desenho de Matt Groening, usando somente suas cordas vocais, foi tirado da produção do filme e do seriado dos Simpsons, após entrar em litígio com a FOX. Ah, e Waldyr é presbiteriano.

A produtora e distribuidora de filmes norte-americana lançou as temporadas em DVD da série, mas não pagou os devidos direitos a Waldyr. Ele não teve escolha senão entrar na justiça contra a FOX, que por sua vez tirou o dublador do filme, que é considerado um dos arrasa-quarteirões do ano em bilheteria. Waldyr já tinha gravado o trailer e os teasers do filme, disponíveis no YouTube dois meses antes da estréia.

“Os Simpsons – o filme” é um dos poucos lançamentos internacionais que chegam aos cinemas brasileiros com muito mais cópias dubladas do que legendadas. Não apenas por ser desenho animado, mas também porque boa parte dos fãs prefere as vozes em português. E muito desse sucesso deve-se à voz de Homer, isto é, de Waldyr. Por esses acasos que enriquecem reportagens pelo mundo (inclusive esta), um detalhe: Waldyr não era o indicado para o papel. “Quando vieram escolher as vozes brasileiras dos Simpsons eu dirigia filmes para a VTI Network, uma empresa do ramo de dublagem, e uma senhora da FOX americana, após ter percorrido alguns estúdios em São Paulo testando vozes, veio ao Rio, para o mesmo trabalho, chegando até a VTI”, explicou Waldyr em entrevista antiga, disponível na internet. Por determinação da empresa, ele acompanhou a visita da dita senhora, e por falar inglês transmitia aos atores aquilo que ela pretendia extrair deles em termos artísticos, traçando um pouco do perfil de cada personagem. “Num determinado momento um ator que fazia o teste para o Homer não havia acertado a inflexão de voz, e eu fui mostrar a ele a maneira mais adequada ao perfil do Homer, não bastando a voz grave , mas sim falar como se tivesse um ovo na boca”. Ela gostou do som que Waldyr fez, e na mesma hora gritou: “That’s it, you are Homer Simpson! You are perfect! Ok, it’s enough for me, you are the Homer! ( É isso , você é o Homer. É perfeito. Para mim já basta, Você é o Homer)”.

Desde então, Waldyr continuou dublando outros desenhos, mas era só você ouvir o narrador de Sheep na Cidade Grande, parar o trânsito e gritar: “É o Homer!”. Mas Waldyr se mostrou versátil: ele já dublava Eddie Murphy em “Um tira da pesada”, com uma voz bem diferente de Homer, por exemplo. Desde 1958 Waldyr faz dublagens – “fiz os Tarzans todos” – e ele aproveita o assunto do litígio para chamar a atenção para o poder dos telespectadores contra as distribuidoras e suas imposições. “O que a FOX fez não foi apenas uma agressão a mim, mas a toda a classe de dubladores. E quem faz o sucesso de qualquer programa de TV é o seu público, que é um público consumidor daquele produto”. Alguns parecem ter entendido o recado, pois caçaram as cópias legendadas de “Os Simpsons – o filme” só por não ser a voz de Waldyr nas dubladas. Pessoas que ainda nem ouviram a nova voz, ou seja, não chegaram sequer a comparar, pois para eles Homer é Waldyr, Waldyr é Homer. No “Oscar da Dublagem”, realizado anualmente, foi só ele aparecer no palco para a platéia berrar “Homer! Homer! Homer!”. Em retribuição, ele saúda a todos com a voz de...

Waldyr é presbiteriano, uma das denominações mais tradicionais da igreja protestante no mundo. Embora more na Urca, freqüenta a Igreja Presbiteriana da Tijuca. Seu rosto é de uma morenice quase indiana, e o sorriso é aberto com dentes que, de fato, parecem desenhados. Ao atender ao telefone, nunca diz alô, e sim “Diga!”, num timbre de voz que já lembra o de Homer. Ele explica que o fato da família Simpson ser protestante o ajudou a se adaptar ao seriado. Mas e as críticas ácidas à religião? Ele não se incomoda, acha que “eles satirizam situações, sem outra intenção a não ser a de transformá-las meramente em sátiras”. O que pareceu incomodar Waldyr, mesmo, foi o episódio em que os Simpsons vêm ao Rio de Janeiro. Perguntado se ainda dublava Homer na época, ele responde, seco: “Felizmente, não”. A polêmica antes da exibição no Brasil foi tamanha que a FOX, antes de transmitir o fatídico episódio, exibiu outros três em que os Simpsons visitavam África, Austrália e Japão, com sarcasmo afiado. Nos intervalos, um comunicado oficial da FOX dizia que a responsabilidade pelo conteúdo era da turma de Matt Groening, criador da série. No episódio do Brasil, os Simpsons vêm ao Rio e Homer é seqüestrado por um táxi pirata, uma apresentadora de programa infantil é sexy demais para crianças e Bart é engolido por uma cobra numa floresta amazônica ao lado do Pão de Açúcar. “Amazônia no Rio é demais!”, devem ter pensado as autoridades do setor de turismo.

Carlos Alberto, o dublador escolhido para o filme (e para o seriado), parece bom, mas depois de um tempo, o espectador parece cansar da voz, que em alguns momentos esganiça. Com Waldyr não era assim, a piada era metade do roteirista e metade do dublador. A opinião dele sobre o substituto: “excelente pessoa e um bom profissional aprovado e escolhido pela FOX”. E o filme, assistiu? “Não."

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Engenhoso!

Foi um daqueles dias em que eu, despreocupadamente, resolvi alugar um documentário para assistir. Há muitos na minha galeria dos "não-alugados", e o filme sobre a vida do escritor José Lins do Rêgo foi o escolhido da vez. Para quem nunca leu nada de sua obra é uma convocação a mergulhar no mundo do menino de engenho.

Vladimir Carvalho, um dos melhores documentaristas brasileiros, é do estilo em que o entrevistador (no caso, ele) aparece no filme, fazendo com que cada entrevista seja automaticamente convertida em conversa fraterna e espontânea. Até o ambiente do lugar Vladimir consegue captar nas filmagens, sem prejudicar os objetivos de sua pesquisa sobre Zé Lins.

As alterações de humor, a relação com a memória pessoal e familiar, a desenvoltura nas letras a partir do encontro com Gilberto Freyre e a obsessão pelo Flamengo estão relatadas. E muitas histórias e observações de seus amigos e contemporâneos, demonstrando como a obra de Zé Lins é melancolicamente autobiográfica.

Nada se compara ao depoimento longo de Thiago de Melo, grande amigo do escritor e que esteve com ele nas horas finais, no hospital. A capacidade do poeta em descrever os acontecimentos, alternando tragédia e comédia, e sempre deixando à tona sua sensibilidade perante o drama de Zé Lins é de comover qualquer um.

O engenho de Zé Lins é da galeria dos documentários nacionais que revela parte da história e da cultura brasileiras por meio de seu objeto de pesquisa - no caso, sujeito de pesquisa: José Lins do Rêgo, paraibano, flamenguista, romancista que marcou a literatura. Méritos a Vladimir Carvalho por nos permitir o acesso a tanto conhecimento sobre nosso Brasil.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008


Engodo eleitoral - parte 1


Nem bem assumiu a Prefeitura e Eduardo Paes já descumpriu uma das promessas de campanha, que era não aceitar indicação política para os cargos do secretariado. Ok, Duda só acatou a idéia após Gabeira fazer sucesso com ela desde o princípio. Mas acatou. E agora, um verdadeiro desacato à autoridade - no caso, dele mesmo.

Fora isso, Duda também acusou Gabeira de, ao receber apoio de Cesar Maia, fazer com que o prefeito "saia por uma porta e entre por outra" no novo governo.

Pois Duda escolheu Ruy Cesar Miranda para a Secretaria Especial Copa do Mundo e Olimpíadas 2016. Quem é Ruy Cesar? Ele cuidou do Pan 2007 (carro chefe do terceiro governo de Cesar Maia) e até junho era secretário do prefeito.

O cinismo volta à tona, escancarado. E vem mais por aí...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Chico Caruso rules!


Da esquerda para a direita: Aécio Neves e Paulo Lacerda (prefeito de BH); Cabral e Paes; Serra e Kassab (prefeito de SP); e Lula e Luiz Marinho (prefeito de São Bernardo do Campo).

domingo, 26 de outubro de 2008

O prefeito da metade


A foto mostra o eleitor mais feliz de Eduardo Paes, o que viu todos os seus esforços (lícitos ou não) recompensados ao final do pleito. Agora, os governos do Estado e da Prefeitura do Rio de Janeiro estarão unidos.

Para a metade que elegeu Paes por pouco, depois não reclamem se os interesses políticos de Sergio Cabral e Duda forem mais importantes do que as urgências da população. Ambos são nomes fortes para as eleições de 2010 (Cabral talvez vice de uma chapa presidencial, Paes possível nome para o governo do Estado).

Não reclamem também se Paes governar para os que já são bem favorecidos: se a passagem do ônibus aumentar sem muita justificativa, em prol da máfia dos donos de linhas, ou se apenas a Zona Sul tiver a atenção devida por um prefeito.

Fiquem quietinhos também se correligionários envolvidos com milícias e outros delitos (e arrebanhadores de votos) forem deixados em paz por Paes (ops!), como tantos no PMDB. E não finjam surpresa se ele escolher secretários a partir de indicação política, pois essa idéia Duda só resolveu abandonar após o sétimo debate, uma vez que Gabeira tinha ganhado simpatia do eleitor ao martelar o tema (não aceitar indicações) desde o primeiro confronto dos dois.

Se faltar criatividade, se as soluções para a valorização da cultura carioca como um todo forem frias e técnicas, não chiem. Eduardo Paes sabe o que faz, desde que faça do jeito que sempre fez: tecnicamente. Se preferiram um síndico, não adianta reclamar do preço do condomínio.

E eu, que faço parte da minoria derrotada, vou dormir em paz. Com a sensação intocável de não ter desperdiçado meu voto.

ATUALIZAÇÃO: Na verdade, as expectativas políticas de Cabral para 2010 estão na reeleição, e não numa vaga pra vice. Sendo que Eduardo Paes seria um grande cabo eleitoral.

E não estou só no voto a Gabeira: Ricardo Noblat resumiu bem o que pensa a outra metade do Rio de Janeiro.

Ah, e aqui estão as promessas de Paes, pra serem cobradas por todos os cidadãos cariocas.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Os candidatos a prefeito do Rio

Quem é Eduardo Paes?

Eduardo Paes começou sua carreira política com o nome de Duda Paes. Foi subprefeito da Barra da Tijuca e Jacarepaguá na primeira gestão de Cesar Maia na Prefeitura do Rio. Era um dos jovens treinados pelo prefeito para seguir no mesmo estilo do chefe: essencialmente técnicos, com os partidos servindo apenas para conseguirem se eleger. Seu perfil administrativo e sem ideologia definida conquistou muitos eleitores.

Paes tem a mesma expressão ao abordar qualquer assunto (quem viu os debates na TV reparou). Seu sorriso ao falar de alguma boa notícia da campanha é o mesmo da foto das propagandas e do dia de seu casamento (conforme foto publicada no Globo). O tom de voz não muda.

Seria apoiado por Cesar Maia nas eleições de agora, mas viu que o futuro estava em Sergio Cabral, que começava a ascender na política ao virar senador e favorito para o governo do Estado. Paes se desfiliou do PSDB debaixo de guerra interna e entrou no PMDB com clima igual, pois Cabral queria combater a influência de Garotinho.

Agora, Paes tem o discurso de que é aliado dos governos estadual e federal, e que assim a população teria mais chance de ser atendida nos serviços públicos. Ora, os governos têm obrigação de servir à população. Aceitar o raciocínio de Paes é chancelar uma maneira de administrar nada técnica, pois favorece o personalismo. Chega a ser chantagem eleitoral - "não votem no outro, pois vocês serão culpados de sua própria desgraça mais tarde".

Se Paes assumiu e desfez compromissos com vários partidos sem nunca dar explicações à população, por que confiar que não fará o mesmo após assumir a Prefeitura? Nem mesmo a carta de desculpas a Lula (que, há 2 anos, foi chamado por Paes de "chefe da quadrilha") foi exposta ao público. Se não há transparência antes, por que haveria depois?

Logo, não voto em Paes por uma questão muito simples, dadas as circunstâncias: falta de confiança, por mais capacitado que o candidato seja.


Quem é Fernando Gabeira?

Gabeira participou da luta armada contra a ditadura (embora tenha exagerado muito o seu papel no seqüestro do embaixador americano), já defendeu a legalização da maconha e tem fama de homossexual, embora casado. Esses argumentos estão sempre nas entrelinhas da rejeição do eleitor a Gabeira.

Bom, a ditadura acabou, ele já foi condecorado por ter evoluído na discussão sobre a maconha (inclusive desconsiderando a legalização) pelo Governo Lula, que apóia Paes. E escolhas pessoais só cabem a Gabeira, desde que elas não interfiram na sua vida política (pois o mandato é público). Além do mais, nenhuma dessas questões podem ser levadas em conta, pois o cargo a ser disputado é de prefeito, que precisa administrar uma cidade.

Aos 67 anos e com uma vida política consolidada, por que arriscar tudo isso num incerto futuro como prefeito do Rio? Se ele não se preocupasse com a cidade, não valeria a pena correr esse risco para sua biografia, no caso de má administração. Além disso, ao contrário de Paes, Gabeira não tem como almejar outros cargos públicos maiores - seu nome não é viável para governador ou presidente, por exemplo.

Já Eduardo Paes é o típico político profissional: um carreirista (como Cesar Maia, como Sergio Cabral) que está sempre visando o próximo degrau, enquanto garante funções com visibilidade - como a presidência da Suderj, que administra o Maracanã, ou a prefeitura do Rio. Que relação com a cidade um sujeito desses teria?

Gabeira saiu do PV e foi para o PT. Depois, voltou para o PV. No entanto, foi para o partido de Lula antes da eleição e saiu enquanto era governo (Paes nunca mudou para ficar na oposição), e explicou isso no Congresso Nacional, com transmissão ao vivo pela TV. Ou seja, prestou contas ao público de sua mudança.

Gabeira tinha causas e se viu com a necessidade de entrar na política para defendê-las. Paes primeiro entrou na política para depois ter causas (e interesses) a defender.

Gabeira recebeu o apoio de Cesar Maia, é fato. Mas se um poste se candidatasse contra Paes receberia apoio do prefeito, devido ao narrado no terceiro parágrafo. Além do mais, desde 1992 o Rio de Janeiro tem uma prefeitura essencialmente técnica - que é o perfil de Paes! A cultura, o esporte, o turismo, o serviço público: para os técnicos, tudo isso é estatística e custos. Será que uma cidade como o Rio, capital cultural, referência mundial do Brasil, merece uma gestão tão apequenada e simplista?

Gabeira colocou no programa de governo não aceitar indicações políticas para sua administração, enquanto Paes só mencionou o assunto após o sexto debate. O candidato do Partido Verde disse que não ia sujar as ruas, o que é um revés e tanto: sua cara e seu número não estariam o tempo todo aparecendo para o eleitor. Cumpriu sua promessa, mesmo assim. Pra que cumprir promessas antes mesmo da eleição, com o risco de estar em desvantagem na disputa?

Logo, voto em Gabeira por uma questão muito simples, dadas as circunstâncias: confiança. E o sentimento de que a minha cidade merece muito mais do que um mero síndico.

domingo, 19 de outubro de 2008

O artifício é o mesmo

A polícia de São Paulo é questionada quanto à sua atuação no desfecho do seqüestro da jovem Eloá por seu ex-namorado. Ela está em coma irreversível, após ser atingida por tiros que, a princípio, partiram do seqüestrador.

Não darei detalhes do caso, que está sendo, conforme esperado, amplamente divulgado (e explorado) pela mídia. Mas o governador de São Paulo, José Serra, não precisa se preocupar com as justificativas para a opinião pública. É só usar do mesmo artifício que o governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral: praguejar.

Policiais mataram o pequeno João Roberto, metralhando o carro que pensavam ser de traficantes? "São uns débeis mentais", vociferou Cabral. Médicos não compareceram ao plantão do Hospital Estadual Getúlio Vargas? "Canalhas", vaticinou o governador. O diretor de Bangu 3 foi assassinado? "O Rio está em guerra".

A atitude esquentadinha e declaratória de Sergio Cabral é destacada em primeira página, assim como as subseqüentes promessas de investigações acuradas e melhoria no serviço a ser prestado. E ponto. Cabral segue governando sem mais cobranças - até a próxima tragédia.

As perguntas (que não foram feitas ao governador), seguem no ar: se são debéis mentais, como podem fazer parte da polícia de sua Secretaria de Segurança, excelência? Quais as condições de trabalho que sua Secretaria de Saúde dá aos "canalhas"? Se o Rio está em guerra, onde está a eficácia de sua política de segurança, que completa 2 anos?

Serra, abre o olho: praguejar pode ser mais "jogo" pra você do que tentar qualquer explicação racional.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O escritor que não passou da idade


A entrevista seguiu por e-mail e o escritor de quase 70 anos gravou as respostas num arquivo MP3, já tarde da noite, e as devolveu também por e-mail. João Ubaldo Ribeiro, que recentemente recebeu o prêmio Camões (a maior honraria da literatura de língua portuguesa, recebida por ele sem nenhuma surpresa) concede sua primeira entrevista a um blog e fala sobre a velhice, o contato com a realidade pós-internet e o papel do cronista de jornal hoje. Sem nunca esquecer de ressaltar seu amor pela ilha de Itaparica e também pelo bairro do Leblon, no Rio de Janeiro.

O senhor tem uma obra reconhecida pelo público e pela crítica e acabou de ganhar o prêmio Camões. O senhor já disse que, aos 60 e poucos anos, tem menos ambições na vida. Mas quais seriam elas?

Pra começar, eu não tenho 60 e poucos anos. Tenho 60 e tantos anos, ou 60 e muitos anos (risos). Porque eu estou com 67 e em janeiro faço 68. Nessa idade a gente começa a perceber com maior clareza, não só pelos aspectos orgânico e físico, mas também em pensamento, a finitude da vida. E, o que é lugar comum dizer mas é verdade, a gente percebe com clareza as ilusões que teve e a futilidade de tanta coisa pelo que já lutou nesse mundo, a futilidade de coisas a que outras pessoas dão importância. Enfim, o sujeito vai se sublimando um pouco com a idade, nem sempre dá sorte de não ficar amargurado, não entortar com a idade. O sujeito que envelhece razoavelmente conciliado com a vida fica mais ... Eu não vou dizer mais cínico, mas fica menos apegado a certos valores aparentes, como honrarias assim, e gloríolas passageiras. A gente fica mais filosófico com essas coisas.

Eu acho que fiz uma obra que em certa medida ainda não foi lida como eu acho que ela podia ser lida. É uma obra um pouco injustiçada ainda, acho eu, apesar de ser uma obra de sucesso. Mas acho que ela é vista como muito mais heterogênea do que na realidade é. Minha obra não é tão heterogênea assim. Ela tem uma continuidade, uma linha que um dia espero que vejam.

Eu acredito em Deus, e acho que Deus me deu muito, me dá muito. Tenho uma carreira de êxito, sou capaz de viver do meu trabalho decentemente. Nunca parti pra ficar rico, portanto não posso me queixar de não ser rico. Mas também não passo necessidade alguma, pelo contrario, tenho tudo que quero, sou um sujeito sadio. Então que ambições outras eu teria? Eu tenho vontade de acabar um romance que estou fazendo. E é possível, com as voltas que o mundo dá, que eu venha a querer fazer um outro livro, quem sabe?

O Nobel estaria nos seus planos?

Não, mas se você puder dar um jeito de trazê-lo pra mim eu não recuso não, tudo bem.

O que o senhor gosta de ler atualmente? Que autores? Algum contemporâneo?

Eu sempre gosto de ler, mas agora já estou com catarata, tenho que fazer uma operação, já leio com dificuldade. Como desde jovem tive mania de ler a mesma coisa, estou piorando com a idade e continuo a ler as mesmíssimas coisas sempre. Eu, que já passei tempos em que lia as mesmas páginas dos mesmos livros sempre, gosto de ler poesia. Mas tenho lido pouco. Cada vez gosto menos de ler teoria literária e coisas desse tipo, não suporto. Cada vez gosto mais de poesia, de Shakespeare, de Homero... Enfim, a mesma coisa de sempre.

O senhor já disse que gosta de navegar na internet. O que gosta de acessar?

Ah, eu disse isso? Mas eu não sou muito chegado a ficar navegando não. Eu sou bom de buscar coisas na internet, isso eu sei. Eu acesso de vez em quando os sites de notícias, alguns sites de curiosidades, de música, de literatura. E acesso de vez em quando uns sites de sacanagem pra ver como é, mas geralmente é meio chato e são sites perigosos de acessar. Mas em geral são meio chatos. Eu fiz muito isso quando estava escrevendo a Casa dos Budas Ditosos pra poder não ficar desatualizado (risos), não fazer cenas desatualizadas. Mas confesso pra você que, apesar de uma surpresinha ou outra, aprendi pouco. As coisas têm mudado pouco através dos tempos (risos).

(Acima, Fernanda Torres na montagem teatral de "A Casa...")


O senhor lê blogs? Na sua opinião, um blogueiro pode ser considerado um escritor? Por quê?

Eu leio blog, mas muito eventualmente, não sou freguês de blog nenhum. Eu acho blog ótimo, uma coisa quase revolucionária. Cada um pode publicar, todo mundo vira editor do que quer dizer, e ainda oferece mais possibilidades do que uma editora de antigamente, pois a difusão é instantânea e, digamos, mundial. E o relacionamento com o leitor é facílimo, há interatividade. É ótimo o blog.

O grande problema do blog é a concorrência, tem blog a dar com pau, todo mundo tem um blog. Muita gente tem aqueles famosos “retalhos de mim”, publica, faz uma ou duas edições no blog e desiste. Mas acho que o blogueiro pode ser considerado escritor sim, por que não? O blog é uma nova forma de publicação e oferece várias possibilidades. Agora, acho que ele tem esse problema: o blog enfrenta uma concorrência mortal – como é com os livros, se pensarmos bem. O blog se identifica com o autor.

O senhor gosta de escrever uma crônica periódica em jornal ou só faz isso por necessidade?

Eu gosto de escrever a crônica sim, isso dá disciplina, um senso de compromisso que faz bem, principalmente quando você vai ficando velho, é bom se sentir preso a um compromisso. Agora tem o lado B, que é chato, sempre foi chato ter a obrigação. A obrigatoriedade é fogo, ainda mais eu, que resolvi, desde que fiz minha primeira crônica, que jamais escreveria a famosa crônica sobre a falta de assunto, e jamais escrevi. Mas que é fogo, é, fazer sempre. Mas eu gosto.

Qual o papel que um cronista de jornal possui atualmente?

Isso depende do cronista. Ele pode ser o que chamam de formador de opinião, uma designação que eu não gosto muito. Ou pode ser um crítico de costumes, pode ser um repórter, um observador da cena cotidiana... Enfim, o cronista de jornal seja talvez um jornalista que desfruta de maior liberdade de assunto, de maior campo. E ele pode às vezes se limitar por iniciativa própria: isso acontece, se o sujeito começa a escrever numa “latitude grande” e acaba preso a um território que ele mesmo cria. Cronista tem um papel cada vez maior no jornal. Porque notícia no jornal é um negócio que não pode competir em velocidade com o tempo real, então o jornal tem que ser a reflexão, o pensamento e o entretenimento. Se o jornal não tiver esses elementos... E o cronista é privilegiado nesse negócio quando ele é fornecedor de texto e, espera-se, de um bom texto.


Senhor presidente e Pode ser que ele esteja maluco são dois exemplos de artigos em que os presidentes da República são duramente criticados pelo senhor. Em geral, qual é a expectativa do senhor após escrever artigos como esses, especificamente, que geram reações polarizadas? Já teve retorno de algum presidente após a publicação dos referidos artigos?

Não, não tive retorno de presidente nenhum. Eles nem leram, nem sabem, ninguém nunca me mandou recado nenhum. Eu que sei que provavelmente não sou adorado por esse pessoal que andei criticando. Eu tenho [retorno] dos que são mais realistas que o rei, dos puxa-sacos... E dos lulólatras, dos que transformam essas pessoas em praticamente ídolos, em deuses, e suas crenças numa espécie de religião. Daí surgem os fanáticos. Desses é que eu sofro um pouco, mas não muito. Eu não me sinto coagido nem pressionado nem coisa nenhuma. Também não xingo, eu sou formado em Direito e procuro manter em boa lembrança os crimes contra a honra. Sou muito cuidadoso em não perpetrar pelos jornais injúria, calúnia ou difamação, que são os três crimes contra a honra previstos no código penal. Procuro sempre não me enquadrar em nenhum deles, e procuro dizer as coisas de uma forma tal que não configure um crime. Mesmo porque não quero e não tenho ódio de ninguém, e nem quero tornar isso uma coisa doente ou patologicamente hostil.

Viva o povo brasileiro narra a história de um país que nasceu (e vive) sob o viés exploratório dos mais poderosos, ou de uma elite. Nas suas crônicas são apontados os problemas que o Brasil e suas instituições ainda apresentam. O senhor perdeu a esperança quanto ao futuro do país? O que o povo brasileiro poderia fazer para mudar isso?

Essa é uma pergunta comprida demais pra ser respondida aqui, isso requeriria um seminário. Claro que eu não perdi totalmente a esperança porque do contrário, levado isso ao extremo lógico, se você acha que realmente o futuro é destituído de qualquer esperança, você morreu. Não é à toa que a esperança é uma das virtudes teológicas, é quase pecado não se ter esperança. Então tenho, sim, um pouco de esperança. Agora, como vai se fazer isso, você me desculpe, não vou responder agora. Eu já escrevi alguma coisa sobre isso, já se escreveu muito sobre isso, e se fala muito sobre isso, não dá pra ser respondido com uma palavrinha ou outra.

O senhor se considera um "herdeiro de estilo" de Padre Antonio Vieira e Gregório de Matos (ambos grandes expoentes do estilo barroco na literatura brasileira)?

Meu Deus do céu, se eu fosse herdeiro de Vieira eu seria um abençoado! Vieira era uma imensidão, e Gregório de Matos era um talento magnífico. O Gregório que conhecemos era uma floresta, não era um homem, era uma efervescência de alegria e de sensibilidade poética ao mesmo tempo, a lírica dele é linda...

Eu sou herdeiro num sentido mais genérico, sou herdeiro desses homens todos e particularmente, por ser baiano, tenho certamente alguma afinidade glandular, ou genética, eu sou bastante abarrocado. Eu gosto, sou chegado a um barroco desde pequeno. Tanto assim que era obrigado a copiar os sermões do padre Antonio Vieira nas férias e devia detestá-lo, mas adoro Vieira. E depois de adulto fui obrigado a copiar os textos do padre Manoel Bernardes, reacionário, chatíssimo, mas que escreve divinamente, a mão dele é guiada por Deus.. Aí não só copiei com boa letra mas peguei o livro que o tornou célebre, A nova floresta, que é enorme, e fiz dele uma seletazinha para a [editora] Nova Fronteira, porque até hoje tenho esses padres perto do meu coração.

O senhor foi amigo de Glauber Rocha e teve sua obra adaptada para o cinema e para a TV. O que te agrada assistir no audiovisual hoje?

Bom, na verdade nada, porque eu não tenho assistido coisa nenhuma (risos). Eu estou tentando entender uma série de coisas e vivo muito em cima desse computador aqui lendo outras coisas, e tentando aprender uma convivência com a realidade nova. E tenho pensado muitas coisas importantes, então não tenho tempo pra ver coisa nenhuma, não quero ver nada.

Há alguma relação entre o Leblon e a Ilha de Itaparica?

Há, claro. Você se lembra, inclusive, que o Leblon é uma ilha. Ele tem na frente um mar, dos dois lados um canal e do outro lado a Lagoa. O Leblon é um território que devia ser tornado independente, como Itaparica também deveria. Deviam fazer uma espécie de federação entre os dois, sei que Leblon e Itaparica constituiriam um eixo de felicidade inominável. Mas a geopolítica presente nos criou certas dificuldades nesse sentido.

Quais os próximos projetos do senhor?

Meu projeto continua sendo conseguir terminar o romance que persigo há vários anos. Mas por causa das entrevistas que eu dou nunca consigo tempo pra fazer isso... (risos)

Veja também: João Ubaldo e o prêmio Camões

domingo, 14 de setembro de 2008


Pois é, Sandy casou. Lembrei de uma crônica de EXATOS três anos atrás, que republico agora. A cerimônia teve poucos famosos e foi fechada à imprensa. Será um indício de mudança?

Sandy estava num outdoor (14/09/2005)

Sandy estava num outdoor, chamando a atenção para uma propaganda, como sua fama a guia. Pulava sobre um automóvel, e eu da janela de meu ônibus (na condição de passageiro e não de proprietário, obviamente) reparei pela primeira vez em seu sorriso. Não vi se era bonito ou sincero, somente reparei. O ônibus fez a curva e meu raciocínio seguiu junto.

Sandy saiu daquele outdoor e foi pra casa. Foi ver TV, ouvir música, ler alguma revista, tirar uma soneca depois do almoço. É uma Sandy diferente da Sandy da propaganda? Vai saber... Mas ela não pode colocar os pés fora de casa. Nada de ataque de fãs, nada disso. Sandy sai de casa, porém condicionada. Sandy é uma máquina.

Sandy não pode acordar de mau-humor e assim sair de casa, ou triste por algum outro motivo pessoal. As capas não dormirão no ponto, e estamparão o diagnóstico: "Sandy em depressão". Sandy não pode brigar com o namorado (não poderia sequer namorar, ao menos como a Sandy de dentro de casa), pois as capas exortarão: "Sandy e Fulano: será o fim?". Sandy não pode falar palavrão, não pode desabafar diante da possibilidade de uma câmera. Sandy precisa sorrir pra pular no automóvel.

Sandy faz shows, sessão de fotos, vai cumprir o contrato global e surgir alguns minutos na telinha, Sandy convocada para a telona, Sandy suspeita de silicone, Sandy Lolita quase nua, Sandy talvez na carreira independente, Sandy címbalo sexual-midiático, Sandy a boa filha, Sandy a inspiração, Sandy e a Melissinha, Sandy e as crianças, os adolescentes, os adultos.

Sandy volta pra casa. Extenuada? Vai saber... Sandy deve adorar colocar os pés em casa e ser a Sandy que sempre sonhou, que ironicamente é a Sandy real, a Sandy que nunca estaria nas capas. Não por ser má pessoa, mas por não ser a máquina que todos precisam e almejam encontrar a cada 15 minutos de fama, renováveis. Sandy olha no espelho e vê espinhas, olheiras e a maquiagem desfeita. Sandy deve sorrir um sorriso diferente do outdoor e deitar na cama que, por enquanto, não possui uma câmera à espreita. Sandy no Big Brother? "Interessante, ainda não havíamos pensado nisso...".

Sandy, a máquina, violenta todo dia a Sandy normal, com o consentimento de seus pais, seu irmão (máquina, idem), sua conta bancária, seus luxos e sua obrigação em se dizer feliz, para alegria do mercado editorial mais rentável. Sandy normal é... normal demais, mito de menos. Sobreviva o mito, tripudiando da humanidade. Sandy humana perde feio, deve doer, mas segura o sorriso até chegar em casa.

Pela primeira vez reparei no sorriso de Sandy. Não julguei nada, sequer sei dizer se era bonito, feio ou oportuno. Mas reparei. Sandy sorrindo é triste, pois não oculta a máquina. Sandy não está sozinha nesse mundo canino que se quer de fadas, o que é um consolo para a Sandy de dentro de casa. Migalha de consolo.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

“Prefeito não é síndico, nem xerife"

Foi um dia midiático para Chico Alencar. Após passar pela sabatina que o jornal O Globo tem feito com os candidatos a prefeito do Rio, ele foi para outra entrevista coletiva: com blogueiros e veículos de comunicação da imprensa alternativa, para a qual o Lessa27 foi convidado. Na ocasião, ele falou sobre o chamado “voto útil da esquerda”, o desafio de ser prefeito mesmo sem maioria parlamentar e a necessidade do carioca se “reencantar com a cidadania”. Veja os principais pontos da entrevista:

JANDIRA FEGHALI E O "VOTO ÚTIL"

Sempre que sou indagado sobre a conversa fiada do voto útil [de esquerda], que a Jandira [Feghali, candidata pelo PC do B] começou a puxar recentemente, eu me pergunto: voto útil contra quem? Contra os aliados dela? Ela tem que conversar sobre isso com o Eduardo Paes,do PMDB, com o PRB e o PT, todos sócios do PC do B no governo federal. Não com a gente.

CANDIDATURA PRA VALER OU PRA MARCAR POSIÇÃO?

É pra valer. Olha aqui [Chico puxa um bloco de anotações espesso, só com anotações à mão], durante a campanha fui recolhendo pontos muito concretos da vida do Rio. Número de servidores de cada secretaria e seu orçamento, cada rubrica utilizada para pagamento, expectativa de receita, montante do ISS, que arrecada mais que o IPTU, da questão urbana, de saúde, transporte, educação. Tudo isso fora o que a gente já tinha pensado antes. Eu me sinto muito preparado em matéria de conhecer a cidade e encaminhar as soluções dos seus problemas, envolvendo a população.

DIÁLOGO COM GOVERNOS FEDERAL E ESTADUAL: A POSTURA DO PSOL NÃO O ISOLARIA NA PREFEITURA DO RIO?

Não, primeiro porque o cargo de prefeito do Rio é uma instituição da república federativa brasileira. Não é um quartel em que o presidente manda no governador e o governador, no prefeito. São expressões político-administrativas autônomas. E eu vejo até como vantagem não ser dependente do governo estadual nem do governo federal. Aí você faz uma relação aberta e transparente: não tem troca de favores, não há acertos políticos, você coloca os interesses públicos na mesa, diretamente. Como convivi muito na vida política tanto com Lula quanto com Sergio Cabral, mesmo com divergências, vai ser muito boa a minha relação com eles. Quanto ao presidente, espero fazer ele ter saudades do PT “pré-delubiano” [referência a Delúbio Soares, tesoureiro do PT em meio aos escândalos do mensalão]. E ele pode ter certeza que a relação comigo, ao contrário de muitos outros, vai sair muito mais barata para os cofres públicos.

GANHANDO A PREFEITURA SEM A MAIORIA PARLAMENTAR NA CÂMARA DOS VEREADORES. COMO GOVERNAR?

Queremos fazer o máximo de vereadores, mas não temos a ilusão de que vamos ser maioria na câmara. Agora, vivendo e aprendendo com meus dois mandatos de vereador e de deputado federal pelo Rio: a grande falha do governo Lula foi desmobilizar a força social de mudança quando tomou posse. E aí ele ficou cada vez mais prisioneiro do agronegócio, da ortodoxia financeira... Porque o seu governo não estimulou a mobilização da população e se afastou dos movimentos sociais.

No nosso caso, a gente vai fazer uma prefeitura de tensão, sim. Os vereadores têm instinto de sobrevivência: quando eles percebem que alguma proposta da prefeitura avança nos interesses sociais, com as galerias cheias [da câmara, onde as pessoas podem assistir as sessões], eles mudam convicções rapidinho. Luiza Erundina, prefeita de São Paulo com minoria parlamentar e a turma malufista querendo derrubá-la. Numa semana havia 10 mil pessoas cercando a câmara, e aí ela sobreviveu com mais força política ainda. Vai haver tensão, mas eu sei dialogar também. No entanto, todo governo que tem uma postura firme pelas maiorias sociais encontra resistências. E nós vamos fazer um governo permanentemente mobilizado na sociedade.

COMO VAI ACONTECER ESSA PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE NO SEU GOVERNO?

Vamos mobilizar os conselhos populares que já existem: as associações de moradores, conselhos escolares, conselhos distritais, conselhos de saúde, e fazer um novo Plano Diretor Urbano da cidade, que já caducou desde 2002. Sem isso, a iniciativa privada toma conta, como é o caso dos transportes. Em 2009 queremos fazer um Congresso da Cidade com todos esses conselhos, possibilitando a “atomização do poder”. Claro que alguns vereadores vão reclamar, vão se sentir desprestigiados na sua representação... Mas representação não é delegação, nenhum vereador é eleito pra substituir a população. A Constituição garante que ela participe por meio dos representantes ou diretamente.

Precisamos promover um reencantamento com a cidadania. É importante que o povo se sinta protagonista, tenha consciência cidadã, e isso não é mais estimulado pelos partidos, que hoje são máquinas de atuação meramente eleitoral pra conquistar votos. Estão cada vez mais na TV e no rádio, causando a despolitização da política e a falta de democratização da democracia.

QUAIS AS PIORES HERANÇAS DE CESAR MAIA?

Em primeiro lugar, o apequenamento do poder público. O processo de privatização de todas as instâncias da vida carioca. Hoje em dia parece inconcebível o governo fazer uma obra sem entregá-la para a iniciativa privada. Em segundo lugar, a desmobilização política. César Maia assumiu como prefeito da lei e da ordem, em 1993, com uma administração técnica, burocrática, vertical e não resolveu os problemas da lei e ordem como os conservadores querem, criminalizando a pobreza e afastamento dos pobres da vida da cidade. E o governo atual estimulou o desencanto com a política.

CAMELÔS E VANS: LEGALIZAÇÃO

Quanto às vans, temos que fiscalizar tomando cuidado, porque muitas dessas linhas pertencem a máfias que mandam matar. Com o Plano Diretor Urbano contemplando os transportes, dá pra planejar isso. Quanto aos camelôs, é preciso diferenciar: há muitos intermediários das máfias coreana e chinesa, como em São Paulo, e outros que são ambulantes devido ao desemprego. A lei 1876/92, de minha autoria, prevê a regulamentação, a fiscalização, a determinação de um espaço para o trabalho dos camelôs. Eu não acho bacana você não ter calçada pra passar, mas não queremos aquela repressão, aquela guerra que já se viu. É preciso contemporizar, sem ser leniente com os criminosos nem deixar a cidade intransitável.

CANDIDATOS SUSPEITOS, PARTIDOS CÚMPLICES

Os grandes partidos têm nanismo moral. Eles acolhem em seus quadros candidatos ligados com milícias e bandidagem em geral, é a captura do Estado por essa gente. E o Álvaro Lins, do PMDB, ex-chefe de polícia do Rio, foi preso. O Natalino só foi expulso do DEM depois de ir pra cadeia. O Jorge Babu, do PT – partido do presidente da república – é envolvido com milícias, corre o risco de perder o mandato. Mas o irmão é candidato com a mesma plataforma política e base eleitoral e continua concorrendo! Não há um “controle de qualidade” por parte dos partidos políticos, que são cúmplices com isso em troca de 20 mil votos... Isso é gravíssimo.

SÍNDICO OU XERIFE? LÍDER POLÍTICO

A revitalização de Bogotá [capital da Colômbia], citada como bom exemplo, foi comandada pelo prefeito Antonio Mocas, que era um filósofo. E isso foi feito com reencantamento cidadão, transparência absoluta, honestidade. Conseguiu fazer com que a população de Bogotá pagasse um imposto adicional para projetos sociais determinados. Sempre se quer apenas as propostas técnicas. O Globo deu uma matéria, analisando meu programa eleitoral na TV, com a manchete “Caveirão faz Chico prometer sem poder cumprir”. Como se eu dissesse que vou barrar os Caveirões. Eu quero ter voz ativa contra essa política genocida do governo do estado, o prefeito pode participar do Gabinete de Segurança Pública. O prefeito não é síndico, não é xerife, não é dono de casa, ele é um líder político. Tem que falar do governo Bush, da América Latina, das grandes questões sociais.

domingo, 7 de setembro de 2008

Há injustiça no mundo (*)

O ano era 2002. Centenário de Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros, de quem sou grande admirador. Na plenitude de meus 22 anos me desdobrei pra acompanhar todas as comemorações a respeito. Quase fui a Itabira, cidade natal do escritor mineiro.

Assisti a uma peça na qual o ator Marcos França interpretava Drummond. Excelente espetáculo, e ao final, dois livros seriam sorteados entre os presentes. A adrenalina subiu e meus olhinhos brilhavam: já, já, poderia aumentar minha coleção.

O primeiro sorteado estava ao meu lado. O ator ofereceu os dois livros, edição novinha, pro dito cujo escolher. Ele fez aquela cara de "tanto faz" e, aleatoriamente, pegou um. Minha raiva tentava permanecer dentro de mim, pra não causar escândalo.

Ali foi uma das situações em que percebi que há injustiça no mundo. Eu, um ardoroso e fiel fã de Drummond, perdia uma bela edição de seus livros para um sujeito que parecia ter ido forçado à peça e nem fazia questão de levar aquele trambolho pra casa. A poeira já deve ter tomado conta do objeto do sorteio.

O show de João Gilberto, no Teatro Municipal do Rio, foi outra dessas situações. Eu, que sempre gostei de bossa nova - especialmente Tom Jobim e João Gilberto - estava diante de uma ocasião única: o show do baiano era único mesmo, e sabe lá quando ele vai sair da toca pra cantar de novo?

Pois os míseros ingressos acabaram em pouquíssimo tempo (e custavam as córneas!). Sem chance de ver ao vivo outro "Drummond".

Aí é inevitável saber das notícias sobre o show. A penca de convidados (eufemismo pra "penetras da moda") era maioria. E duvido que Naomi Campbell seja uma das admiradoras ferrenhas do criador da bossa nova. Aliás, soube que ela mandou torpedos SMS durante a performance de João e saiu 40 minutos antes de acabar.

Não vou entrar no mérito de quais outros convidados mereciam ou não estar ali, pra não prejulgar. De repente uma dessas "modelatrizes", políticos e artistas obscuros acompanham João Gilberto tanto quanto eu, como vou saber?

Mas que é injusto, é. Vender uma pequena quantidade de ingressos, também. Perder meu lugar pra celebridades, idem. Há injustiça no mundo!

Um dia eu dou o troco.

(*) Publicado tardiamente em virtude da tentativa (bem-sucedida?) de escrever sem ressentimento.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Por que será?

Conforme noticiado no Destak, Clodovil pode perder o mandato de deputado federal por infidelidade partidária.

Considerando que Clodovil não é o primeiro a fazer isso, e que o estilista-parlamentar apresentou uma emenda para diminuir o número de deputados... tá explicado.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O brasileiro não é ufanista

Diego Hipólito, favorito para vencer a medalha de ouro na ginástica olímpica, caiu no final da série de exercícios e ficou em sexto lugar. Cabisbaixo e muito decepcionado, o atleta balbuciou para os repórteres:

- Peço desculpas aos brasileiros que acreditaram em mim.

Diego não deve pedir desculpas a nós: assim como muitos esportes amadores, a ginástica não tem um planejamento nem grandes incentivos do Comitê Olímpico ou do Ministério do Esporte.

De onde vem a pressão sobre o atleta na hora de representar o país? Os brasileiros torcem, mas diferentemente do futebol, não há uma cobrança por expressivos resultados nos esportes olímpicos. Ficamos frustrados por Diego, pois ele era favorito. Mas não se pode dizer que a torcida colocou um enorme peso nas costas do atleta.

No entanto, observe a cobertura e a transmissão dos Jogos: quantas vezes você já ouviu ou leu o adjetivo "histórico"? Se o ginasta foi à final pela primeira vez, foi uma classificação "histórica"; se o bronze feminino no iatismo era inédito, então é uma medalha "histórica". Mesmo se um atleta fica em décimo lugar no geral, e essa for a melhor classificação em todos os Jogos, é um desempenho "histórico".

A banalização dos adjetivos para os feitos olímpicos cria falsas expectativas e coloca sobre os atletas uma pressão que, na verdade, é muito menor. Mas a partir do momento que uma rede como a Globo compra os direitos de transmissão, ela torna-se "parceira" do evento. Ou seja, o evento tem que ser um sucesso. E os espectadores precisam ter essa sensação de sucesso.

Só que apenas ufanismo não basta. O Brasil leva quase 300 atletas em cada delegação e o maior número de medalhas conquistadas numa Olimpíada foi... 15. Há algo errado aí, e é só olhar para o descaso de escolas e alunos pelas aulas de Educação Física para entender. Ou checar o orçamento do Ministério do Esporte.

Fora isso, por mais que a Globo (ou a Record, em 2012, vai dar no mesmo) exija dos atletas uma alta performance, ela não age da mesma forma. Por exemplo: pode-se dizer que Galvão Bueno sabe de Fórmula 1 e, vá lá, de futebol. Mas ele também narra natação, ginástica olímpica, basquete... É a lógica do ufanismo acima de tudo.

O brasileiro não é ufanista, e isso não quer dizer que ele não goste do Brasil ou não torça por seus representantes.

Queremos ver o sucesso de nossos atletas - e para isso eles precisam de uma preocupação séria das autoridades esportivas. E nós precisamos de uma transmissão fiel à realidade, seja ela qual for.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O público enfatizado

Uma das notícias mais inusitadas das Olimpíadas de Pequim (e não Beijing, falou?) foi a declaração do judoca português Pedro Dias, que eliminou o favorito brasileiro João Derly. Ele escolheu um dos eventos mais assistidos no planeta para confessar que foi... corneado. E por Derly, que teria saído com a namorada de Dias enquanto este passeava com a mãe do brasileiro (?). Meio cafona, mas vá lá.

Desmentidos de Derly e suas pazes com a esposa à parte, a cobertura do caso não poderia deixar de ser intensa. Celebridades esportivas na mesma situação que as celebridades das artes e espetáculos, em meio aos Jogos Olímpicos? Nada mais midiático.

E logo surgiu a pergunta: quem seria a pivô da briga? O jornal Extra, das Organizações Globo, descobriu a menina. Como é cada vez mais comum no fazer jornalístico atual, vasculhou o perfil do Orkut da cobiçada namorada do português. A matéria continha parágrafos como esse:

Joana se descreve como uma pessoa muito amiga e tímida. Mas as fotos em seu álbum revelam que a bela não é tão tímida assim, com closes ousados. Suas comunidades também revelam uma moça apimentada. Dentre elas, destaque para "Beijos - 600 maneiras", "Eu adoro dormir sem roupa", "Adoro abraço por trás" e "Antes Safada do que Tapada".

E ainda outro trecho, também baseado nas informações das comunidades de Joana:

"...a moça gosta de homens com barba por fazer, como revela outra de suas comunidades, o que daria mais pontos a Derly em relação ao português."

Daí surge a dúvida: isso pode ser considerado invasão de privacidade? Os internautas não quiseram nem saber, e invadiram o perfil de Joana. Assim como já tinha acontecido com a mulher que subiu no palco de Bono Vox e com árbitros de futebol após partidas decisivas.

É fato que a internet é recente e ainda não sabemos lidar com ela, ainda mais por sua capacidade de apresentar novidades e transformações numa velocidade incrível. Se alguém "se revela" num site de relacionamentos público, imagina-se que deve estar preparado para esse tipo de coisa. Afinal, qualquer um poderia ler as informações acima, sem a necessidade da matéria do Extra.

Mas pense você: e se um jornal vasculhar seu perfil no Orkut, publicar as comunidades que você freqüenta, tirar conclusões sobre sua personalidade a partir delas e disponibilizar tudo isso a milhões de internautas? Será que, mesmo você tendo ciência de que botou tais informações num site público, não se sentiria invadido?

Não se pode negar a diferença de uma informação (ou um perfil no Orkut) perdida entre muitas outras daquela que um jornal de grande circulação escolhe, destaca e deixa ao alcance de inúmeras pessoas. Por exemplo: jornal é jornal, dicionário é dicionário. Ambos possuem o mesmo conteúdo - as palavras. Mas com funções, contextos, e alcances diferentes.

E aí surge outra dúvida: isso é jornalismo? Utilizar apenas uma fonte para informar ao grande público sobre uma pessoa que está em evidência? Não sei se o Extra teve essa preocupação. Mas se estiver de fato querendo fazer jornalismo, o faz de maneira responsável? Ou seja, apresenta um relato confiável e que não vai prejudicar o "entrevistado"?

Na história da comunicação nenhuma mídia substituiu completamente suas predecessoras. O jornal impresso, o rádio, a TV e agora, a internet, coexistem, influenciando-se mutuamente. A real ameaça (já concretizada) é que, devido à sua instantaneidade e a possibilidade de participação do usuário, a internet está escancarando como se produzem as notícias. Um feito e tanto.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Masoquismo

Uma das últimas coisas que eu gostaria de ter na vida seria amnésia. Pensar em perder a memória, seja de coisas recentes ou antigas, me dá arrepios. Sabendo que nossas lembranças estão sempre associadas emocionalmente com episódios importantes da vida, compondo nossa identidade, pior ainda.

Olhamos para determinadas fases de nosso passado e nos assustamos: como pude fazer aquilo? Onde eu estava com a cabeça? E então, alimentados por essa memória que não se apaga de nós, decidimos não errar mais, aquele deslize registrado internamente nos alerta a não repetir o que fizemos de ruim.

Diante disso, há momentos em que eu gostaria de ser argentino.

Nossos hermanos aprenderam que os crimes da ditadura não poderiam ficar impunes, principalmente a tortura. Não é incomum que muitos militares (até de alta patente) tenham sido julgados, condenados e presos quase 30 anos depois de comandar esse tipo de ação.

E a Argentina continua com Forças Armadas! Ou seja, punir quem desonrou os direitos humanos não significa desrespeito ou descaso com os oficiais de hoje.

Mas no Brasil não parece ser assim. Nosso país é especialista em grandes acordos: a anistia foi para perseguidos e perseguidores; em vez de Diretas Já, um pacto para os congressistas escolherem o mandatário da nação indiretamente.

O ministro da Justiça, Tarso Genro, tentou levantar o assunto de punição aos torturadores. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, chiou em nome dos militares. Polêmica vai, polêmica vem, o presidente Lula resolveu que não se fala mais nisso.

Ok, Lula definiu que o Poder Executivo não fala mais nisso, deixou a batata quente pro Poder Judiciário. Mas se houvesse vontade política por parte de seu Governo nessa matéria, as coisas não seriam repassadas assim tão facilmente.

E asssim prosseguimos. Tentando deixar o nosso passado embaixo do tapete, como se as memórias pudessem ser simplesmente deletadas. Os torturados e suas famílias não vão esquecer. Os torturadores que ainda existem no aparato policial, por exemplo, sempre vão se lembrar que podem sair impunes.

Nunca antes na história desse país um presidente perdeu tantas oportunidades de fazer História.

sábado, 2 de agosto de 2008

Salto alto e pochete

Matei a charada! Pode me chamar de pretensioso ao final do artigo, ou mesmo artista do óbvio. No entanto, pessoalmente, acredito que caminhei mais algumas milhas na dificílima arte de decifrar como se desenrola um relacionamento homem-mulher.

Minha namorada (hoje esposa) quase me espinafrou a sangue-frio quando me viu portando uma pochete no ombro (veja bem: eu não usava na cintura). Tinha me maravilhado com aquele singelo artefato: meu celular, minha carteira e minhas chaves cabiam num só lugar de maneira portátil. Chega de revezamento de bolsos!

Paralelamente, ela vez por outra reclamava que aqueles sapatos estavam assassinando-a, devido aos saltos, altos e finos. Ainda assim, o uso em determinadas ocasiões era prioritário, quando não obrigatório.

Salto alto e pochete: como dois objetos conseguem ser tão concisos quanto a características intransferíveis do homem e da mulher. Enquanto nós priorizamos a utilidade e o conforto acima de tudo, elas fazem o mesmo com a estética. E nessa gangorra os relacionamentos passam por aventuras inesquecíveis.

Pensamos: qual a razão para se usar um sapato desconfortável, que machuca os dedos e os calcanhares? E por que não devemos usar um recipiente tão perfeito para guardar o resumo de nossa vida diária?

Pensam elas: qual a razão para se usar algo tão horroroso no ombro (e que na cintura é uma aberração)? E por que não devemos usar sapatos tão lindos (que torço para que nenhuma mulher mais tenha)?

Ambos evocam as argumentações acima e se entreolham, incrédulos com a profissão de fé do outro.

Estética e utilidade (com conforto) podem caminhar juntas, mas essa graça não foi alcançada pela pochete ou pelo salto alto. Foram inventados apenas para colocar em xeque os relacionamentos que tentam driblar a arte de negociar e a oportunidade de perceber como funciona o sexo oposto.

Mesmo assim, saimos perdendo: sempre haverá os bolsos, mas determinadas vestimentas femininas não pedem outra coisa que não os sapatos de salto alto. E pior: adoramos vê-las com eles.

O que não apaga a minha sensação de ter matado uma charada.


sábado, 26 de julho de 2008


Estamos todos condenados

Eu não sei quanto a vocês, mas meu olhar sobre o mundo mudou após a divulgação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), no ano passado. Pra quem não se lembra, ali foi apontado que o homem é o grande causador do aquecimento global e de suas conseqüências.

Não só isso: a velocidade com que a deterioriação do planeta aconteceu devido à ação humana foi tão rápida que se coloca em dúvida a possibilidade de um caminho de volta. Isto é, a humanidade chegou a tal ponto na exploração dos recursos naturais que talvez seja tarde pra evitar o colapso da Terra.

Mas não se tem certeza dessa última afirmação, então teríamos nova chance pra repensar nossos caminhos e pisar no freio. Só que a China não abre mão de seu crescimento econômico, mesmo gastando 25% mais do que o planeta pode repor; os EUA não deixam de consumir 5 vezes mais do que a Terra produz; o Protocolo de Kyoto, para diminuir a emissão de carbono, não teve adesões dos principais poluidores...

Após a divulgação do relatório, imaginei que todos os jornais teriam uma editoria de meio-ambiente diária, penetrante e incômoda, pra estar na boca do povo - como a de política, ou esportes, economia... Nada.

Aí eu me pergunto como pode o ser humano continuar da mesma forma após ter ciência de que seus filhos e netos podem derreter junto com o planeta.

Como continuar indo ao cinema, contando piadas, ver grande importância no trabalho rotineiro, ralhar com o motorista do ônibus? Tudo isso parece pequeno demais de uma hora pra outra. Olhar a praia e imaginar que aquela água pode subir e acabar com valorizados endereços mundo afora (por culpa da ganância humana) sempre passa pela minha cabeça. É inevitável.

Mas, mesmo assim, vida que segue. Ainda não é o fim. Dorme-se preocupado com tudo isso, acorda-se de manhã tendo que dar conta do que está sob nossa responsabilidade.

Fico pensando se estou deixando de curtir o presente por imaginar que o futuro reserva um fim cada vez mais próximo - e comprovado cientificamente! Ao mesmo tempo, continuo indo ao cinema, rindo de piadas e ralhando com o motorista.

Porém confesso que meus olhos não são os mesmos. E não me sinto mais importante que ninguém por causa disso. Apenas sou alguém diferente de mim mesmo após o relatório do IPCC.

Com a teimosa e quase burra esperança me beliscando.

LEIA TAMBÉM:

Um mundo que se racha

G8 se encaminha para acordo sem grandeza sobre aquecimento global

PRA DESCONTRAIR:


sexta-feira, 18 de julho de 2008

Ela passou pela rehab. E os outros?

Foi com alegria que vi uma matéria do Fantástico num domingo desses. Tal afirmação, nos dias atuais, é uma contradição pra mim. Mas o assunto era a volta de Amy Winehouse aos palcos de grande público. No caso, do Rock in Rio Madri.

Após ouvir o hit Rehab, comecei a prestar atenção na cantora. Que música! Que voz! Eu, que já gosto de jazz e blues, adorei saber que Ella Fitzgerald, Billie Holiday e Nina Simone já possuem herdeira musical.

A matéria conta que não se sabia se Amy estaria em Madri, outra vez devido a seus problemas extra-palco. Aí me dei conta que sei muito mais desse aspecto da sua carreira do que de seu talento ou suas músicas.

O que dá na mídia (sensacionalista, não toda) é a anorexia de Amy, a depressão de Amy, a dependência química de Amy, a prisão do marido de Amy... E as pessoas não cansam de consumir essas notícias, então os pseudo-jornais não cansam de publicar esse tipo de coisa, já que as pessoas não cansam de consumir essas notícias, uma vez que os pseudo-jornais não cansam de publicar esse tipo de coisa...

Em meio a essa roda-viva, Amy Winehouse foi pra reabilitação. E cantou seu drama no hit que já citei (veja a letra). Além disso, tem buscado prosseguir a carreira, como nos shows do Rock in Rio pelo mundo.

E os viciados nas vísceras das celebridades? Isso não é de hoje, mas perceba: julgam e condenam Amy por seus pecados, mas não largam o osso de encarnarem o papel de abutres humanos.

Enquanto os ávidos consumidores (e "traficantes") não admitem esse tipo de vício, Amy mostra-se superior a todos eles quando busca ajuda, reconhecendo que precisa dela. E volta a oferecer ao mundo que tem de melhor: sua voz.

Não saiba de Amy, ouça Amy.

terça-feira, 15 de julho de 2008

A ironia não perdoa

Os eleitores brasileiros reclamam do Congresso Nacional, mas não deixam de aprontar das suas. Enquanto se critica o nível dos representantes que há anos povoam a Câmara e o Senado, o estilista e apresentador de TV Clodovil Hernandez é eleito deputado federal pelo maior colégio eleitoral do país, São Paulo.

As primeiras entrevistas de Clodovil eleito foram um escárnio, e não dava pra aceitar essa grande brincadeira dando resultado. O estilista sem noção foi pra Brasília receber salário e auxílios mil com o dinheiro público pra fazer o quê?

Pois, ironia das ironias, Clodovil pode ter apresentado uma das melhores emendas à Constituição dos últimos tempos: reduzir o número de deputados de 513 para 250. A economia para os cofres da nação: R$ 26,3 milhões por mês, R$ 315,6 milhões por ano.

Não sei qual é a motivação de Clodovil, mas a proposta vem de um deputado recém-eleito, que ainda não tem um eleitorado cativo pra se garantir em futuros pleitos. Ou seja, ele não pode sequer ser acusado de legislar em causa própria. No que normalmente todo congressista tem se enquadrado.

Mas será que 513 deputados não é o número proporcional às dimensões continentais do Brasil? Talvez. Ou será que é proporcional ao volume de emendas e coronelismos de todo o tipo que muitos políticos necessitam pra continuar na sua "profissão"?

Após o mais recente disparate do Senado - criação de 97 cargos de assessor parlamentar, sem concurso - a proposta de Clodovil ganha mais peso ainda. Imagine o que o país não poderia fazer com R$ 315,6 milhões a mais? Ah, e o estilista votou contra a volta da CPMF.

Não faço campanha para Clodovil (ainda há 2 anos e meio de mandato pela frente), mas os fatos são os fatos. E os fatos (e a ironia), não raro nos exortam à humildade para reconhecer sua força.

Clodovil conseguiu o que a gente sempre espera de nossos representantes: bom senso e sentimento de que o voto não foi desperdiçado. Essa é a verdade, seja qual for sua opinião sobre o controverso congressista.

ATUALIZAÇÃO: Diante da repercussão negativa, o Senado cancelou a criação dos 97 cargos. Vitória nossa!

sexta-feira, 11 de julho de 2008

A lei não seca a criatividade

Os donos dos bares derramaram as lágrimas catastróficas após a promulgação da chamada "Lei Seca". Reclamam, claro, dos prejuízos.

Mas a lei não impediu que idéias criativas viessem à tona, virassem notícia e mostrassem que é possível manter o seu estabelecimento de pé. Tais empreendedores acabam complementando o processo educativo do qual a lei faz parte.

Viva a criatividade, em vez de lamúrias.

ATUALIZAÇÃO: mais uma prova da criatividade brasileira aqui.

terça-feira, 8 de julho de 2008


Mais um João

Primeiro João Hélio, agora João Roberto. Em ambos, a violência gratuita. No caso do segundo João, a polícia que primeiro atira, depois pergunta.

O repórter Dimmi Amora pontuou muito bem a situação: o governador do Estado do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, é responsável por esse crime. Em novembro de 2007, em plena ofensiva no Complexo do Alemão, o dito cujo vaticinou:

"A polícia está num confronto permanente. Confronto gera estresse. Não tem outro caminho. Não tem." (revista Piauí, 3a. página da matéria e também em áudio)

Essa é a direção que a polícia militar do Rio recebe e continuará recebendo. Essa é a mentalidade com a qual boa parte da classe média carioca se identifica. Até morrer um pequeno João Roberto, morador da Tijuca.

É tarde demais, outro morreu após a necessidade de "confronto permanente". Investigação prévia, qualificação do policial? Necas. Essa classe média também se lixa pros policiais, são meros "lixeiros humanos". Até morrer um pequeno João Roberto, morador da Tijuca.

E enquanto morrem os Joões, elegem Sergio Cabral, que indica um Beltrame.

CHEGA DE SER CONIVENTE COM ESSA POLÍTICA DE GUERRA CIVIL UNILATERAL.

CHEGA DE APOIAR GOVERNADORES QUE MANDAM A POLÍCIA MATAR, E NÃO PENSAR.

CHEGA DE POLÍCIA DESPREPARADA, MAL PAGA E QUE SERVE DE BODE EXPIATÓRIO NA HORA DA TRAGÉDIA.

É hora de uma oposição ferrenha a esse tipo de gente que quer estragar o nosso estado pensando numa minoria. Verdadeiros mandantes de assassinatos premeditados, de tanto que sabem dos riscos de acontecer uma operação como a que matou João Roberto. Ao menos, nessa lógica do confronto acima de tudo.

Sergio Cabral e Beltrame: cínicos, incompetentes e insensíveis. "Cadê o bandido?", perguntaram os policiais à família, após o ataque. Estão logo ali, em Laranjeiras.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Radiohead na cabeça

Nunca curti o som da banda inglesa Radiohead. Mas assim como seus conterrâneos Beatles, não receio em dizer que eles já entraram pra história da música. A diferença é que isso acontece mais por suas atitudes do que por uma qualidade inédita de suas melodias (como foi com os Fab Four).

Não estou dizendo que o Radiohead é ruim, apenas não ouvi nada deles (a não ser a excêntrica, mas perfeita, trilha sonora do filme Sangue Negro).

A banda começou a sacudir as estruturas lançando um CD pela internet, permitindo que os fãs que baixassem as músicas pagassem por elas o preço que achassem melhor. Isso incluía quem não quisesse pagar nada.

Os locais de sua turnê não são escolhidos à toa: analisaram as emissões de CO2 que seus fãs produziam ao se deslocar para os shows (com veículos automotivos, ok?), e agora sempre escolhem um local que possua um bom esquema de transporte público.

Não penso que a realidade de uma banda pode ser automaticamente aplicada às complexidades de nosso tempo. Mas é certo que, ousando na sua produção musical e na postura ambiental, o Radiohead consegue novos fãs, e vai provando que o progresso pode andar de mãos dadas com sustentabilidade e diálogo com as novas mídias. Ao contrário do que diz (e faz) a grande indústria.

domingo, 15 de junho de 2008

O jornalismo na medida do possível

Esse é o título de um excelente artigo que a professora e jornalista Sylvia Moretzsohn publicou no Observatório da Imprensa, sobre a tortura aos repórteres do jornal O DIA. Sem deixar de abordar a questão de direitos humanos envolvida, ela mostra como a mitificação do ofício do jornalismo pode prejudicar a cobertura e agora, a integridade física e a vida do profissional.

Ah, e eu tive a honra de assistir às aulas e passar pela orientação de monografia da professora Sylvia.

Leia e tenha uma visão muito mais abrangente sobre o tema, coisa rara hoje em dia.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

O pânico que "não" existiu


É aterrorizante ler o relato da leitora Claudia Freitas sobre a pane no metrô do Rio de Janeiro, na segunda dia 19. Em alguns momentos, parece que estamos diante de cenas do livro "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago.

Mas a parte mais chocante do relato (pra mim, que não estava no metrô) é a atitude da concessionária do Metrô Rio em negar que os fatos aconteceram. Se alguém é tratado assim após narrar fatos que viveu, imediatamente começa a duvidar de sua própria sanidade mental.

O Metrô Rio está afirmando que tudo não passou de uma alucinação coletiva?

A incompetência na prestação do serviço de forma adequada não é mais novidade. Já acontece nas Barcas S.A., na SuperVia, e agora no superlotado Metrô, que inventa integrações das quais não pode dar conta com o número de vagões que possui.

Mas negar descaradamente que a pane aconteceu dá indícios de vilania e mau-caratismo.

Agetransp, secretarias de Transporte, Governo do Estado... quem vai dar um jeito nisso? Sergio Cabral parece preocupado apenas em criar novos meios de transporte pra continuar enchendo os cofres da iniciativa privada.

PS: o presente post (com as necessárias adaptações de texto) foi encaminhado para a Agetransp, para a Secretaria Estadual de Transporte, para a secretária de Sergio Cabral e para o SAC do Metrô Rio.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Meu encontro com o Rei

Eu era recém-concursado da Prefeitura do Rio de Janeiro, como profissional de nível médio de informática. Estava no início da faculdade de Jornalismo, e pensava: como conciliar o que estava estudando e meu trabalho?

Pensei logo na assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura - tudo a ver comigo. Pensei mais ainda quando soube que Artur da Távola tinha acabado de ser escolhido o secretário de lá.

Eu já conhecia as crônicas dele, mas fiquei fascinado mesmo quando assisti a uma entrevista na TV Cultura, com o então senador analisando a existência e os impactos da televisão. Fiquei impressionado com o profundo e perspicaz conhecimento sobre o assunto, e sendo comunicado de maneira tão simples e singular.

Já imaginou trabalhar com esse cara? Ou, ao menos, pra alguém que pensa daquele jeito?

Enquanto sonhava, trabalhava no 5º andar do prédio da Prefeitura, na Secretaria de Desenvolvimento Social. Um dia precisei ir ao 3º andar - na Secretaria de Cultura. Em determinado momento, foi necessária uma providencial ida ao banheiro.

Por sarcasmo sacana do destino, quem está a dois mictórios de mim? Obviamente, pra que ninguém duvide de minha masculinidade, fiquei na minha.

Mas na hora de lavar as mãos, pias paralelas, o fã desejoso de um emprego melhor não resistiu, naif:

- O senhor é o Artur da Távola, não é?

- Sim, sou eu.

- Eu vi sua entrevista na TV Cultura. Muito boa.

- Obrigado.

(O DIÁLOGO A SEGUIR CORRESPONDE À VERDADE FACTUAL FIEL)

- Eu faço jornalismo na UFF...

- Ah, estamos precisando alguém lá na assessoria pra ajudar a fazer os informativos, a divulgação... Fala com o Jorge Roberto, meu assessor de imprensa, pra ver como faz.

- Ah, legal! Obrigado. Vou falar com ele.

Ele se despediu e eu ainda aguardei alguns eternos meses até conseguir ser lotado na Secretaria de Cultura, na assessoria de imprensa. Lá conheci o Geraldo Lopes, a Anna Paula (designer e até hoje minha grande amiga) e ganhei uma significativa experiência de vida e de trabalho.

Não tinha contato com Artur da Távola nos 11 meses que fiquei por lá, mas desde então acompanhei ainda mais sua carreira e suas análises de comunicação (caminho acadêmico que pretendo seguir).

Hoje, o Rei Artur abdicou, pela vontade soberana de seu coração. Ele próprio, com suas palavras e conhecimento, era o cálice sagrado sempre buscado.

ATUALIZAÇÃO: Indico artigo sobre Artur da Távola no Observatório da Imprensa, que comprova o caráter socializante de seu conhecimento.