terça-feira, 31 de março de 2009

Cidadãos?


Se fosse possível medir um "quociente de ingenuidade", eu gostaria de conhecer o meu. Talvez isso explique por que fiquei tão chocado com algo aparentemente normal. Ou não?

Assisti ao excelente Cidadão Boilesen, no festival de documentários É tudo verdade. O filme resgata a trajetória de Henning Boilesen, dinarmaquês naturalizado brasileiro e ex-presidente da Ultragaz. O empresário, idealizador do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), liderou seus pares no financiamento da ditadura brasileira (cujo golpe fez aniversário ontem, 1o. de abril). Particularmente a Operação Bandeirantes, que caçou subversivos em São Paulo.

Boilesen ficou famoso por seu sadismo ao assistir sessões de tortura e até mesmo trazer aparelhos do exterior para a prática. A "pianola Boilesen", espécie de instrumento com teclado que dá choques intermitentes (e que pôde ser visto no filme Batismo de Sangue) já diz tudo.

O documentário ouve historiadores, militares, ex-militantes, ex-ministros do governo militar, políticos e até mesmo Henning Boilesen Junior. São muitos pontos de vista e farta documentação dos arquivos da CIA (já liberados para consulta, ao contrário dos arquivos da ditadura brasileira) que confirmam a cruel dubiedade de Boilesen.


O empresário foi assassinado (ou justiçado, como dizem os ex-militantes de esquerda) em 1971. Seu carro foi fechado, ele levou um tiro de fuzil, saiu correndo baleado, levou outros cinco tiros pelas costas e caiu com o rosto na sarjeta, ao lado do meio-fio. Tudo isso é narrado pelo filme com fotos e recursos de animação, sem escatologia.

No momento em que o narrador mencionou que "Boilesen, já ao chão, levou 25 tiros na cabeça", duas fileiras do cinema começaram a aplaudir.

Não uma ou duas pessoas, mas quase vinte. Não começaram a aplaudir ao ser anunciada a morte do empresário, mas quando o narrador informava que Boilesen levou 25 tiros na cabeça.

A partir daí, comecei a me perguntar sobre meu "quociente de ingenuidade". Porque o primeiro sentimento, a primeira ideia que me veio foi: "vocês são iguaizinhos a ele".

Depois desse primeiro momento vem a crítica mental/social e tenta justificar/censurar tal sentimento. "O homem foi um sádico, fez coisas tão cruéis ou piores do que 25 tiros na cabeça de alguém. Como é que eu posso igualar um cara desses àqueles que aplaudiram? Será que não sofreram na ditadura, ou perderam alguém? Será que eles devem ser condenados por aplaudirem e se regozijarem com a destruição de um mega-vilão da vida real?".

Antonio Carlos Fom, um dos ex-militantes de esquerda perseguidos, verbaliza sua auto-censura durante seu depoimento para o filme: "É complicado a gente, hoje, dizer que se alegrou com a morte de alguém. Mas naquela época podemos dizer que ficamos felizes com a morte do Boilesen".

Só que as pessoas no cinema não aplaudiram a notícia da morte, mas o requinte dos 25 tiros na cabeça do empresário já moribundo. E aplaudiram em 2009, não em 1971.

Sou ingênuo em ficar chocado com tais aplausos? Ou em igualá-los a Boilesen?

Documentários como Hércules 56 (e outros depoimentos de Cidadão Boilesen) contextualizam a ação da luta armada contra a ditadura. Franklin Martins e Daniel Aarão Reis, hoje, não consideram que foi a melhor opção de militância - e olha que eles seqüestraram o embaixador dos EUA e conseguiram libertar presos políticos. No documentário de ontem, depoimentos de exilados mostram que a democracia no Brasil não existia, e não havia caminho diferente da luta armada para os que ousavam contestar o regime com veemência.

Mas os aplausos me transpuseram aos tempos horrendos. Será que essas pessoas aplaudem tratamento igual aos criminosos de nosso tempo? Se assim for, por que militantes padeceram em nome dos direitos humanos, se quando chega a vez dos "homens de bem" eles tem o mesmo sentimento dos torturadores?

Talvez alguns dos que aplaudiram leiam estas linhas e me acusem de reacionário ou insensível. Corro esse risco, mas hipócrita não serei. Confesso qual foi meu primeiro sentimento arrepiante ao presenciar os aplausos a 25 tiros na cabeça de um quase-morto, seja quem for. É tudo verdade.

Solidarizar-se com as vítimas da violência não é ter orgasmos com violência igual. É aproveitar a oportunidade para promover a paz, o entendimento e a superação de estigmas. O que é muito superior ao olho por olho, dente por dente.

ATUALIZAÇÃO EM 10/04/09: o filme venceu o prêmio de melhor documentário brasileiro.

quarta-feira, 18 de março de 2009

O legado de Clodovil

Muito se pode falar sobre Clodovil Hernandez, folclórico estilista e apresentador de TV que faleceu ontem, aos 71 anos, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC).

O que vale a pena ficar na memória como o legado de Clodovil, acredite se quiser, é o seu mandato como deputado federal.

O blogueiro fala sério. É só conferir esse post pra entender o que digo.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Einstein foi superado


Em cerimônia amistosa, José Sarney repassa o cargo de Presidente da República a Fernando Collor de Mello, eleito no 2º turno das eleições de 1989.

Não, a legenda não é essa. Mas poderia ser.

Não, os personagens em questão não estão mortos ou no ostracismo político.

Sim, Collor sofreu um impeachment há 17 anos.

Sim, Sarney não conseguiu se eleger senador por seu próprio estado, o Maranhão. Teve que seguir para o Amapá.

A legenda correta (adaptada por este blogueiro) é:

O senador José Sarney (PMDB-AP), reeleito presidente do Senado Federal, e o senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), recém-empossado presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado.

Albert Einstein morreu sem conseguir provar sua teoria sobre a possibilidade da viagem no tempo.

Foi superado pelo sistema político brasileiro e pelos eleitores do país.