segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A louça




Não sei qual é a sua relação com lavar a louça. A minha é ambígua e rica em experiências.

Há quem odeie lavar a louça, a própria tarefa muitas vezes é associada a castigo ou moeda de troca: se não tiver dinheiro para pagar a conta do restaurante, já sabe. Outros têm nojo de estar em contato com restos de comida - o que entendo perfeitamente mas não pesa tanto pra mim. Pior é lavar banheiro...

Encarar a pia e seus componentes que parecem ter acabado de chegar de um bloco de carnaval rende memórias e aprendizados. E até uma crônica (ou duas, acho que já escrevi sobre o tema).

Não foram poucas as vezes em que a solução para problemas ou “destravamento” de pensamentos ocorreram com um copo ou um prato ensaboado às mãos. Dizem que é o mesmo mecanismo ativado enquanto tomamos banho ou caminhamos. Entramos num modo de trabalho contínuo em uma tarefa banal e as limitações do cérebro são postas abaixo.

Também é o momento em que percebemos o especialista em logística que existe em nós (a pós-graduação disso é ter filhos). Coloco os amigos reunidos: copos enfileirados ao lado da torneira; pratos, empilhados; talheres, dentro da pia. Em seguida soa o apito da fábrica e tem início a linha de lavagem. Encerra-se o expediente com a louça repousando no escorredor ou já dentro do armário, seca, se eu fizer hora extra com o pano de prato.

Claro que a rotina descrita acima é a minha em particular. Minha mãe colocava tudo junto de molho dentro da pia para depois lavar de uma vez (o fato de um dia a cuba ter despencado devido ao peso não mudou seus hábitos). Outros se dão ao luxo de robotizar a produção: a máquina de lavar louças que se encarregue do serviço.

Soube de alguém que usava pratos e talheres descartáveis, só pra não ter que lavar a louça. Lá se vai mais plástico no mar, pois embora economizasse água, esta ainda é um recurso renovável. Fora o desperdício de descobertas e autoconhecimento.

“Pode gastar seu vocabulário nessa crônica. Eu não gosto de lavar a louça, e pronto”. Sem problemas, o objetivo não é convocar ninguém para a tarefa, nem convencer como se fosse um assunto de suma importância.  Mas tem o seu lugar no meu dia, com todas as suas gotas de significado.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Meu Brasil


Há um canto da minha estante apenas com livros sobre o Brasil. Ali estão os chamados ensaios formadores, como Casa Grande e Senzala, Raízes do Brasil, Formação do Brasil Contemporâneo, Formação Econômica do Brasil, O Povo Brasileiro.

Seus vizinhos são Ordem e Progresso (o que Gilberto Freyre não conseguiu incluir no Casa Grande), Visão do Paraíso (outro de Sergio Buarque, o seu preferido, que dava de presente a todos os seus filhos), Viva o Povo Brasileiro, romance neo-barroco de João Ubaldo Ribeiro e ainda 1968 - o ano que não terminou, obra-prima de Zuenir Ventura. E ainda Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Não li todos, e alguns não li por completo. Mas ali estão. No alto, inconscientemente num pedestal, ou altar: para serem venerados, mas agora como possíveis fontes de respostas para perguntas que até então não me permeavam.

O que li desses clássicos me fez entender por que o Brasil é como é, me levando a um estado de espírito que pude externar melhor na abertura da Rio 2016. Porém hoje me encontro outro.

O status do meu relacionamento com o país poderia ser "em uma DR com o Brasil" ou "numa ressaca violenta pelo Brasil". Os clássicos explicam, mas não consolam. A sensação de círculo vicioso, num eterno retorno às capitanias hereditárias, me machuca de desesperança.

Flagrar o fratricídio diário é de doer. Não há mais um projeto em conjunto, uma perspectiva de construção, um denominador comum possível sem necessariamente apelar  para nacionalismos e populismos de toda ordem. Apenas o desejo salivar de aniquilar o diferente, de marcar posição, de estar certo apesar de caminhar para o abismo.

Esse não é o meu país. Ou é, e durante boa parte da minha vida entrei em negação? Por outro lado, que resta de nós ao nos abraçarmos ao niilismo (ou ao cinismo) puro e simples?

Continuaremos a viver neste país, onde esperamos que nossos filhos cresçam e tenham oportunidades de viver também. O que haverá após tanto ódio entre os plebeus, com os mesmos de sempre sendo os donos do poder?

Sou brasileiro. Hoje sei que isso não é natural, que muito de minha identidade como cidadão é composta dos mais diversos interesses de outrem. Mas minha busca por uma brasilidade sempre foi genuína. A tentativa de me apegar a nossos acertos era tudo, menos ufanista.

Mas o que fazer quando você se sente atropelado pelo caminhão de uma realidade?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Quintino

Enquanto a patroa e a patroinha foram para um compromisso, Saramagueei: "se podes olhar, vê. Se podes ver, repara".