sexta-feira, 26 de abril de 2019

NOTRE





 Por que choramos quando um prédio se vai?

Talvez porque ali havia história, arte, cultura. Coisas que fazem parte de nós mesmo que não admitamos. Que mexem conosco, passando por cima de nossos recalques. Que dão graça à vida, deixando roucos os oportunistas políticos.

Paris, Rio ou mesmo a cidadezinha do interior. Todas com história, arte e cultura, conforme a proporção e a projeção no cenário geográfico, no imaginário.

Mas não vivemos sem história, arte e cultura. Não adianta tentar apagar, diminuir, sufocar qualquer uma delas. Como a flor do asfalto de Drummond ou uma fênix teimosa, permanecem. No mundo. Em nós.

Devemos cuidar de nossos museus. A França deve restaurar a Notre-Dame, como já o fez com outros monumentos.

Mas a Notre-Dame da memória afetiva de cada um de nós - os que visitaram, os que só conheciam de filme e leitura - jamais pegará fogo. Em nenhum sentido.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

“QUERIDOS, E O FRIO?”

Foi a pergunta que enviei a um grupo que temos com amigos que se mudaram para o hemisfério norte. Sabendo que lá o inverno tem fama de rigoroso, estava preocupado com a adaptação deles.

Eles contam que o verão se foi e agora, já no final do outono, o dia escurece mais cedo, coisa à qual eles não estavam acostumados, nunca viveram isso. A temperatura também fica mais baixa a cada dia: 10 graus, 5 graus, 0 graus. A sensação térmica, principalmente quando surgem os ventos, é mais aguda que isso. A previsão para o final do ano é de -30 graus de temperatura.

Para lidar com isso, camadas e mais camadas de roupas para andar na rua; vitamina D para compensar a cada vez menor exposição ao sol; vitamina C para não gripar, diante dos ambientes fechados e da reclusão forçosa dentro de casa.

Nessa semana ligaram pela primeira vez a calefação. Até então não foi necessário, pois o apartamento é bem quente. Além disso, na cidade em que estão, há uma solução de arquitetura em função do clima: as casas são geminadas, o que faz com que as calefações não precisem ser colocadas no máximo. Por estarem próximas, se aquecem mutuamente e rápido, sem onerar mais um ou outro condômino.

Quem já mora no local recomenda que meus amigos passem o Natal com familiares em um local mais quente. Mais do que a temperatura física, diante da adaptação ao novo ambiente, pensam ser vital estar em dia com os laços e afetos que abrigam e esquentam emocionalmente.

“E como está aí no Brasil? Estamos preocupados”, eles me perguntam.

Conto que indo pro final do outono a sensação é de que o dia escureceu mais cedo, coisa à qual não estamos acostumados, minha geração nunca viveu isso. O frio parece aumentar a cada dia, com ventos autoritariamente fortes deixando-o ainda mais agudo. A previsão é que só piore.

Para lidar com isso, camadas e mais camadas de proteção para andar na rua, viver em público; vitaminas terapêuticas para compensar a cada vez menor exposição à luz e à razão - e para não adoecermos, diante dos ambientes fechados e da reclusão forçosa de tantas ordens.

Acionamos a calefação humana que mutuamente aquece, e porque mútua, não exaure ou sobrecarrega os demais. Temos buscado uma arquitetura social que nos reaproxime nesse sentido, sem onerar um ou outro concidadão.

Quem já passou por isso recomenda que estejamos cada vez mais juntos, resistindo ao frio um dia de cada vez. Diante da adaptação ao novo ambiente, pensamos ser vital estar em dia com os laços e afetos que abrigam e esquentam emocionalmente. E que vão nos sustentar não apenas no Natal.

Afinal, lá como cá, o verão há de chegar.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

A louça




Não sei qual é a sua relação com lavar a louça. A minha é ambígua e rica em experiências.

Há quem odeie lavar a louça, a própria tarefa muitas vezes é associada a castigo ou moeda de troca: se não tiver dinheiro para pagar a conta do restaurante, já sabe. Outros têm nojo de estar em contato com restos de comida - o que entendo perfeitamente mas não pesa tanto pra mim. Pior é lavar banheiro...

Encarar a pia e seus componentes que parecem ter acabado de chegar de um bloco de carnaval rende memórias e aprendizados. E até uma crônica (ou duas, acho que já escrevi sobre o tema).

Não foram poucas as vezes em que a solução para problemas ou “destravamento” de pensamentos ocorreram com um copo ou um prato ensaboado às mãos. Dizem que é o mesmo mecanismo ativado enquanto tomamos banho ou caminhamos. Entramos num modo de trabalho contínuo em uma tarefa banal e as limitações do cérebro são postas abaixo.

Também é o momento em que percebemos o especialista em logística que existe em nós (a pós-graduação disso é ter filhos). Coloco os amigos reunidos: copos enfileirados ao lado da torneira; pratos, empilhados; talheres, dentro da pia. Em seguida soa o apito da fábrica e tem início a linha de lavagem. Encerra-se o expediente com a louça repousando no escorredor ou já dentro do armário, seca, se eu fizer hora extra com o pano de prato.

Claro que a rotina descrita acima é a minha em particular. Minha mãe colocava tudo junto de molho dentro da pia para depois lavar de uma vez (o fato de um dia a cuba ter despencado devido ao peso não mudou seus hábitos). Outros se dão ao luxo de robotizar a produção: a máquina de lavar louças que se encarregue do serviço.

Soube de alguém que usava pratos e talheres descartáveis, só pra não ter que lavar a louça. Lá se vai mais plástico no mar, pois embora economizasse água, esta ainda é um recurso renovável. Fora o desperdício de descobertas e autoconhecimento.

“Pode gastar seu vocabulário nessa crônica. Eu não gosto de lavar a louça, e pronto”. Sem problemas, o objetivo não é convocar ninguém para a tarefa, nem convencer como se fosse um assunto de suma importância.  Mas tem o seu lugar no meu dia, com todas as suas gotas de significado.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Meu Brasil


Há um canto da minha estante apenas com livros sobre o Brasil. Ali estão os chamados ensaios formadores, como Casa Grande e Senzala, Raízes do Brasil, Formação do Brasil Contemporâneo, Formação Econômica do Brasil, O Povo Brasileiro.

Seus vizinhos são Ordem e Progresso (o que Gilberto Freyre não conseguiu incluir no Casa Grande), Visão do Paraíso (outro de Sergio Buarque, o seu preferido, que dava de presente a todos os seus filhos), Viva o Povo Brasileiro, romance neo-barroco de João Ubaldo Ribeiro e ainda 1968 - o ano que não terminou, obra-prima de Zuenir Ventura. E ainda Os Sertões, de Euclides da Cunha.

Não li todos, e alguns não li por completo. Mas ali estão. No alto, inconscientemente num pedestal, ou altar: para serem venerados, mas agora como possíveis fontes de respostas para perguntas que até então não me permeavam.

O que li desses clássicos me fez entender por que o Brasil é como é, me levando a um estado de espírito que pude externar melhor na abertura da Rio 2016. Porém hoje me encontro outro.

O status do meu relacionamento com o país poderia ser "em uma DR com o Brasil" ou "numa ressaca violenta pelo Brasil". Os clássicos explicam, mas não consolam. A sensação de círculo vicioso, num eterno retorno às capitanias hereditárias, me machuca de desesperança.

Flagrar o fratricídio diário é de doer. Não há mais um projeto em conjunto, uma perspectiva de construção, um denominador comum possível sem necessariamente apelar  para nacionalismos e populismos de toda ordem. Apenas o desejo salivar de aniquilar o diferente, de marcar posição, de estar certo apesar de caminhar para o abismo.

Esse não é o meu país. Ou é, e durante boa parte da minha vida entrei em negação? Por outro lado, que resta de nós ao nos abraçarmos ao niilismo (ou ao cinismo) puro e simples?

Continuaremos a viver neste país, onde esperamos que nossos filhos cresçam e tenham oportunidades de viver também. O que haverá após tanto ódio entre os plebeus, com os mesmos de sempre sendo os donos do poder?

Sou brasileiro. Hoje sei que isso não é natural, que muito de minha identidade como cidadão é composta dos mais diversos interesses de outrem. Mas minha busca por uma brasilidade sempre foi genuína. A tentativa de me apegar a nossos acertos era tudo, menos ufanista.

Mas o que fazer quando você se sente atropelado pelo caminhão de uma realidade?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017