quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O filho da imprensa

"Lula, o filho do Brasil", filme da família Barreto que teve sua pré-estréia ontem em Brasília, ia mesmo dar o que falar. Mas é uma grande faca de dois gumes para a produção, que não dá ponto sem nó. O problema é a esquizofrenia dos críticos e da imprensa.

Já se sabe que Luis Carlos Barreto é um grande espertalhão do cinema brasileiro. Além do talento como produtor, sabe fazer lobby como ninguém. Conseguiu junto ao Congresso, após a existência da Lei Rouanet (incentivo fiscal para que empresas patrocinassem cultura como um todo), a Lei do Audiovisual, que tem o mesmo objetivo, mas é específica para o cinema.

Quem é do meio especula que, quando um grande edital de cinema prorroga a data de inscrição, é porque figurões como a família Barreto não conseguiram entregar seus projetos a tempo.

Pois é esse pessoal que teve a ideia de fazer um filme sobre Lula. Desde o começo estava claro o objetivo de fazer uma média com o Governo, e deram a sorte de ter um presidente com um roteiro de vida comum à maioria dos brasileiros. E que mantém seus níveis de popularidade altíssimos, muito disso fruto de sua identificação pessoal com o povo.


Bipolaridade

Após o incêndio das obras de Hélio Oiticica, que estavam guardadas num depósito do irmão do artista, o Globo foi entrevistar o ministro da Cultura, Juca Ferreira. Perguntaram se o Estado brasileiro não deveria ter mais iniciativas para preservar o patrimônio cultural.

O ministro tocou na ferida: "Mas vocês da imprensa não podem acender uma vela para Deus e outra para o diabo". Ele explicava que tinha pouca gente pra dar conta do trabalho da Cultura, incluindo fiscalização. Mas se alguma despesa de pessoal é anunciada, Juca reclamava que a imprensa criticava o Governo por aumentar os gastos públicos. Afinal, é pra ter ou não ter a presença do Estado?

A mesma esquizofrenia acontece com o filme sobre Lula. Na primeira página de hoje, o jornal destaca que o filme foi feito apenas com recursos privados, com empresas fazendo doações obscuras, insinuando que querem obter vantagem junto ao Governo. Tenho certeza que, se o filme tivesse utilizado lei de incentivo, iam dizer que os cofres públicos estariam pagando a campanha eleitoral de 2010.

Nem santos, nem cínicos

Ninguém é santo nessa história. Lula, o Governo, as empresas, os produtores: todos saem ganhando com o filme e com a polêmica que o envolve e traz Ibope. Quem precisa dizer a que veio é a imprensa, buscando o bom jornalismo. Que não confunde, mas colabora com o esclarecimento do leitor.

Há algum tempo, quando um carro foi submerso em Copacabana por uma tubulação que estourou, a legenda do Globo dizia: "Carro submerso em tubulação administrada pela Cedae, a única estatal fluminense que ainda não foi privatizada". A mensagem é implícita e ao mesmo tempo claríssma: privatização é sinônimo de competência, Estado não é.

As operadoras de telefonia estão aí pra mostrar que não é bem assim. Do mesmo modo, nem sempre o Estado vai ser o melhor ator para determinado tipo de atividade. Mas essa dinâmica precisa ser assimilada pela imprensa, de uma vez por todas. Os leitores estão de saco cheio de pautas que já saem das redações com uma tese pré-concebida, buscando enquadrar os fatos na versão.

Com a internet, esse tipo de expediente caduca a passos largos, destruindo a credibilidade jornalística. O que se pode pensar do patrocínio cultural, por exemplo? É melhor ser totalmente privado ou possuir Lei de Incentivo? Ou ter dinheiro direto do Estado? Não se amadurece essa discussão.

O filme sobre Lula nunca deveria ser feito, a fim de evitar qualquer tipo de questionamento? Ou deveria ser lançado somente após as eleições - sob o risco de não conseguirem patrocínios suficientes, já que o retorno de público poderia não ser o mesmo de quando Lula ainda estivesse sob os holofotes presidenciais?

Ou a imprensa volta a suas origens, sem brigar com os fatos e buscando o esclarecimento da população, ou perderá cada vez mais o seu valor.

domingo, 4 de outubro de 2009

A favor, sempre a favor. Será que ainda não entenderam?

Vi que o presidente Lula, em coletiva de imprensa, criticou aqueles que sempre torcem contra, diante da vitória do Rio para as Olimpíadas de 2016. Quase me senti lisonjeado. Será que fui mencionado pelo chefe máximo da nação em um de seus pronunciamentos? Nada mais longe da verdade.

Até porque precisamos relativizar o advérbio "sempre". Se tudo leva a crer que a Copa 2014 e a Rio 2016 vão seguir o mesmo descalabro com o dinheiro público que se viu no Pan 2007 e em tantos outros eventos esportivos, sempre torcerei contra. A partir do momento que essa perspectiva mude, sempre torcerei a favor.

Então eu estaria torcendo para que os eventos acima sejam um desastre? Óbvio que não. Minha torcida era contra a escolha. Uma vez sacramentada, meu pragmatismo me impede de ficar chorando o leite derramado.

Qual o próximo passo, então? Detonar o ufanismo galvaobuenista e os bairrismos de ocasião (tem carioca achando que as críticas vêm de São Paulo, e desqualificando-as, vê se pode?) para fiscalizar o que vão fazer com o seu, o meu, o nosso dinheirinho. Aliás, por que os figurões que, ao serem assaltados ou coisa do tipo vociferam "Eu pago meus impostos, não posso aceitar um negócio desses!" ficam quietinhos ou entram no oba-oba em meio aos superfaturamentos incompetentes?

Por que o Governo não elaborou, junto com o projeto para a candidatura, uma Política Nacional para o Esporte, fazendo da Olimpíada o catalisador de um processo planejado? Nada disso. E lá vamos nós para mais um megaevento administrado por mentes pequenas e míopes, com alma de pilhagem.

Posto isso, reproduzo aqui as perguntas formuladas por André Monnerat em seu blog, que devem ser o mantra da imprensa e da população carioca (e brasileira, por que não?):

- Como pretendem dar transparência às contas da Olimpíada? Como será possível para nós, cidadãos, verificarmos quanto de nosso dinheiro está sendo gasto, como e por quem?

- Como pretendem esclarecer a população sobre o uso pós-Olímpico dos equipamentos esportivos que serão construídos?

- Como será a política esportiva do Estado brasileiro daqui pra frente? Seguirão na linha de dar dinheiro público a atletas de ponta, ou finalmente veremos investimento para usar o esporte como ferramenta de educação e saúde, na base, colocando-o no dia-a-dia das crianças na escola?

- E qual será o efetivo legado deixado no Rio de Janeiro?

As Olimpíadas vão ser benéficas para a imagem e o turismo do Rio de Janeiro, não há dúvida. Acredito que o evento será um sucesso, já que durante ele seus protagonistas são os atletas. Mas até lá devemos, com o perdão da expressão, pentelhar os donos do poder e das responsabilidades.

Assista a uma das melhores reportagens investigativas do ano:

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Eu não sou Galvão Bueno

Quero as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro.

Não quero as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro.

Não sou incoerente, e posso provar. Sou brasileiro e tenho orgulho do meu país. Com todos os problemas que encontramos aqui, não sou daqueles que jogam no lixo tudo o que foi construído no que hoje se chama Brasil. Nem tampouco olho pra fora ansiando por ser igual a outro país, outra cultura - embora não abra mão das críticas internas, como já fiz neste blog.

Acho muito legal que o Brasil seja o país-sede da Copa 2014 - nada mais justo à nossa tradição futebolística. E também apóio a ideia do meu amado Rio de Janeiro sediar o encontro das nações por meio do esporte.

E eu gosto tanto do meu país e da minha cidade que não aceito que eles sirvam de pretexto para meia-dúzia de políticos e cartolas usarem mal e porcamente o dinheiro público. Pois os impostos que deveriam sustentar uma boa administração do cotidiano do país e da ex-capital federal vão-se embora em superfaturamentos e falta de organização e transparência.

Ora, não foi isso que vimos no Pan 2007? Não é isso que vemos, ano após ano, no Campeonato Brasileiro de futebol?

O que me irrita ainda mais é ser contado entre os traidores da pátria simplesmente porque não apóio os traidores da pátria. Porque não aceito sacanearem a boa vontade do povo brasileiro e suas intenções em ver grandes eventos aqui do lado de casa. E hoje isso significa ser contra a realização da Copa e das Olimpíadas, pois estão sendo gestadas da mesma maneira que o esporte é gerido no Brasil: por poucos, para poucos, com o dinheiro de muitos.

Portanto, não me peçam pra torcer pelo Rio no dia 2 de outubro (já que não adianta mais torcer contra o Brasil para a Copa). Ficarei na minha casa esperando, esperançosamente, ver os politicalhas de ocasião fazerem a cara de bunda dos narcisistas derrotados.

Embora reconheça que o Rio tem chances, por nunca ter havido uma Olimpíada na América do Sul e por ser o Rio. Obama estará lá na hora da decisão, mas não dá pra saber a quantas anda o lobby do carismático político, ainda mais na seara esportiva.

domingo, 27 de setembro de 2009

Ator

Fico fascinado com atuações: de cinema, teatro, ou o que seja. Sempre gosto de avaliar não só o papel, mas o artista e como ele desenvolveu seu trabalho. Acho que tenho uma queda para o ofício de diretor, por isso reparo tanto no que muitos não reparam, como a essência de uma atuação. Alguns podem perceber sua qualidade pelo efeito emocional que ela proporciona – o que geralmente acontece com os papéis principais. Mas costumo notar tais detalhes até naqueles chamados papéis secundários.

Escrevi esse primeiro parágrafo apenas para tentar ilustrar o que ocorre comigo muitas vezes. Só que o ator a ser avaliado sou eu mesmo. Não quero generalizar falando de pessoas, dos humanos… Eu mesmo sou assim, ator muitas vezes. Pior: freqüentemente atuo sem querer, no sentido implícito de “contra a minha vontade”.

Não chego ao campo da hipocrisia e suas máscaras enganadoras (e enganadas antes de tudo), mas há diversas situações em que não queremos, digo, não quero revelar o que realmente está acontecendo comigo. Seja por falta de intimidade com os que estiverem à minha volta, ou porque realmente são coisas extremamente especiais e pessoais… O que chamo a atenção hoje é que somos, perdão, é que sou ator sem ser, sem querer ser, sem levar jeito (ou levando pouquíssimo jeito), sem sentir prazer em ser, sem natural liberdade pra ser, mas sendo ator tenho liberdade para me ocultar, me guardar, me esconder.

Quantas vezes o quarto ou qualquer outro cômodo da casa que seja mais reservado não foi o cenário para atuações marcantes nossas, isto é, minhas? Na maioria, claro, dramáticas e chorosas, dignas de um esconderijo inacessível. Mas essas atuações são privadas, o público se resume a nós, quer dizer, a mim. As atuações públicas, quando da boa qualidade citada no primeiro parágrafo, merecem aplausos inflamados, pois conseguem ocultar sentimentos até mais do que inflamados, infeccionados, ainda sem cura.

Esse tipo de atuação conseguimos, digo, consigo repetir dia após dia. Me assusto constantemente com meus sucessos sucessivos. Porque quando o sentimento e seu estado anormal do momento não são notados por ninguém (como acontece comigo, com constância), parabéns pra nós, isto é, pra mim: está alcançado o sucesso e o susto com minha própria competência para o ofício de ator que sei que não levo jeito.

Nessa pequena reflexão através do meio literário da crônica fui tentado, várias vezes, a usar a primeira pessoa do plural. Cabe ao leitor justificar ou não essa minha tentação. Somos mesmo atores desse tipo, em nosso cotidiano? Eu me surpreendo sempre comigo e minha estranha capacidade de atuar escondendo, mesmo após me dar conta de que faço isso com uma facilidade que me impressiona. Será que sentimos necessidade de utilizar esse recurso, pode-se dizer, artístico para conseguir uma certa privacidade? Eu não fico assustado com isso.

Assusta-me o fato de que conseguimos fazer isso, apesar do impacto que lateja em nós, nos inconstantes momentos de nossa vida.

Que crônica filosófica! Não leve muito a sério. Às vezes, deixa de ser crônica para ser o retrato letrado de um momento crônico, apenas isso. Mas se houve algum tipo de identificação da sua parte, já valeu muito mais do que a mera tentativa de desabafar por meio de meu teclado pessoal, nada musical e combustivelmente emocional.

(17 de julho de 2000)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O homem é o mito. E o mito é um homem, sempre

Recomendo a leitura de Roberto Carlos em detalhes, biografia do rei muito fundamentada e bem escrita por Paulo César de Araújo. Talvez não seja fácil achar, já que o cantor entrou com um processo contra o autor, e o covarde acordo da editora Planeta com Roberto resultou no recolhimento dos 11 mil exemplares à venda, além de impedir sua comercialização. Mas procure em sebos ou alguém que tenha adquirido quando ainda não era proibido fum... comprar.

O livro já mereceria atenção por ser a primeira biografia de Roberto Carlos, fruto de uma pesquisa de 15 anos do historiador, jornalista e mestre em memória social Paulo César. Mas o processo judicial e suas desproporções kafkianas despertaram o interesse até de não-fãs (como eu) pra saber que conteúdo explosivo era aquele.

No evento Jornalismo Literário, do Centro Cultural Banco do Brasil, Paulo César contou o que houve na história toda - e que ele vai contar no livro O réu e o rei, a ser lançado: Roberto e seus advogados (ou será o contrário?) acusaram o autor de invasão de privacidade e pediram altas indenizações por danos morais e multas astronômicas por dia em que o livro ainda estivesse sendo vendido. Até a prisão do autor foi solicitada na acusação.

A editora Planeta prometeu total apoio a Paulo César, mas na hora teve postura de cordeirinho diante do poderoso Roberto Carlos. Segundo relato do autor, o juiz do acordo, Tércio Pires, foi tirar fotos com o cantor após a audiência. Músico amador, Tércio entregou seu CD para o rei apreciar as belas canções de Té Lopes, nome artístico do magistrado.

Paulo César ainda falou da sua interpretação para a reação de Roberto: assim como boa parte de seu público, ele possui cultura televisiva, sem o hábito da leitura, e um livro sobre sua vida teria lhe dado um susto. Além de discordar de alguns relatos e sempre anunciar que faria sua própria biografia. Curioso é que Jacqueline Kennedy possui 26 biografias sobre sua vida, feitas por autores diferentes...

E lá fui eu pedir emprestado o livro ao sogrão bibliófilo para conferir.

O mito está lá

Aqui é necessária uma contextualização: nasci em 1980, e quando começava a ficar grandinho conheci Roberto Carlos pelos especiais de final de ano da Globo. Fiquei mais grandinho e vi que era sempre o mesmo especial, e que as entrevistas de Roberto eram sempre as mesmas, e suas músicas novas, um absurdo. Pontos para o politicamente correto e a memória viúva, mas o rei da música brasileira fazendo canções apenas sobre mulheres de óculos e gordinhas, e para a falecida esposa? Não conseguia acreditar.

Esse Roberto Carlos bobalhão da Rede Globo era o único que eu conhecia de perto. Até ler o livro de Paulo César de Araújo.

Diante da pesquisa acurada do autor, tive que rever todos os meus preconceitos (talvez até justificáveis) para descobrir a importância que Roberto Carlos tem para o cenário musical brasileiro. Ali percebi a originalidade de Roberto, o impacto que seu rock causou, sendo embaixador dos Beatles sem deixar de ser autêntico e ainda causando inveja e recalque inimagináveis em baluartes da MPB (aliás, a sigla surgiu pra diferenciar-se do que a Jovem Guarda liderada por Roberto produzia).

Também graças ao livro revisitei canções românticas e simples, mas belas, que ele e Erasmo Carlos produziram, como Se você pensa, Sentado à beira do caminho, Detalhes, As curvas da estrada de Santos... Eu já tinha ouvido essas músicas nos especiais da Globo, mas saber como elas surgiram nos dá a dimensão do mito Roberto Carlos.

E aí está, na minha opinião, o ponto central da discórdia entre o rei e o réu. Paulo César de Araújo faz uma pesquisa tão séria e tão profissional que não esconde o lado humano de Roberto Carlos. Fala de sua única briga com Erasmo (negada ao vivo no Faustão), de suas manias, de suas espertezas para conseguir um lugar ao sol na vida artística. E em nenhum momento o talento e a estrela de Roberto Carlos são menosprezados, muito pelo contrário.

Porém Roberto Carlos não admite essa humanização do mito. Seus especiais na TV, suas aparições em outros programas, suas entrevistas, enfim, o trabalho de sua imagem é voltado para que o rei seja uma unanimidade bondosa e cativante - quase um santo. E nada pode pôr em risco esse processo. O que normalmente as biografias sérias fazem.

O mito é um homem, e nem por isso deixa de ser mito - vá você encontrar uma razão absoluta no imaginário popular. Paulo César também pontua que Roberto é um artista biográfico, divide sua vida com os fãs ao entoar passagens pessoais (com alegrias e dores) através de suas letras. Nada mais irônico do que impedir que uma biografia sua chegue ao público.

O santo, com seus devotos imediatos e interesseiros (assessores e advogados) cultiva a ilusão de que vai controlar o que pensam dele. Com certeza, após a morte, seus herdeiros terão a mesma militância. Mas vai adiantar, em tempos de internet e democracia?

O livro de Paulo César reforça o mito, contudo com mais fundamentos do que os apresentados pelo próprio Roberto ano após ano. A decisão de praticar tamanha violência judicial joga contra sua intenção canonizante. Vocês precisavam ver a cara da minha avó ao ouvir a história do processo, e em seguida dizer "eu não esperava isso de Roberto Carlos...".

Eu também não esperava que o livro fosse tão bom - pra mim e pra Roberto Carlos. Só que ele não quis rever seus conceitos...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Questões existenciais

Um professor do curso de Psicologia de minha esposa levantou uma questão inédita (ou quase): como terá sido a primeira fome de um bebê? O pequeno ser, que sempre viveu em simbiose com a mãe enquanto dentro do ventre, até então nunca tinha passado necessidade para se alimentar. Nem sabia o que era isso. Mas após sair do recanto ideal, vem aquela sensação estranha e desconhecida... Vamos ouvir o relato do sujeitinho:

"Que frio! Esses paninhos aqui nem dão pro gasto. Pra piorar, não consigo abrir o olho direito - nem o esquerdo. Haha, meu primeiro chiste. Quanta luz! Pra que isso tudo, seus gigantes? É isso a vida, a existência cá fora? Aceito devoluções. Como se não bastasse sair todo melecado... Peraí. Queísso, meu Deus? Tá doendo aqui dentro. Não, não é dor. O que que eu tô falando, eu lá sei o que é dor? Bom, dor de frio sim. E eu lá sei o que é frio? Empiricamente, sim. Mas isso de agora é diferente. Eu preciso, preciso... de quê? De alguma coisa! Que eu não sei o quê! Mas eu preciso! Ai, ai, ai, que sensação estranha, diferente de absolutamente tudo que conheço... Me dá alguma coisa pra passar isso que eu não faço a menor ideia do que seja mas que já não aguento em minhas parcas horas de surgimento!! Ser gigante perto de mim, me ajuda! Faz alguma coisa! Estou em suas mãos! Literalmente, o que é pior! Ai... O que é isso? Isso vai durar pra sempre? Quanto é sempre????"

É claro que todo o parágrafo acima foi dito num sonoro e contínuo "unhé". Até que a mãe tira o peito pra fora e vai levando em direção ao bebê:

"Ser gigante, você está me oferecendo um pedaço de você? O que que eu vou fazer com isso? Canibalismo, a essa altura da vida? (peito encaixa na boca. A partir daqui, a narrativa descreve o pensar "bebênico") Hummm... isso é bom. Era disso que eu precisava... Pele e líquido. Já não estou sentindo tanto o que eu sentia antes. O que terá sido? Só sei que está passando... Ô delícia. Quando eu ia imaginar que a protuberância do ser gigante traria o manjar dos deuses? (mãe tira um pouco o peito, achando que já está bom) Ei, aonde vai com isso? Me dá! É minha propriedade! Eu quero! Eu exijo! Eu demando! Freud me explica E me justifica! Volta! A sensação estranha ainda permanece, ainda que menor... Rejeito essa sensação estranha! Ser gigante, não ouse me rejeitar! Plebe!"

Até o peito voltar à boca do bebê, os protestos também foram evocados no idioma "unhé". Após nova investida e aí sim o saciar, o bebê sossega e ouve a mãe dizer:

- Ele estava com fome!

"Estava com fome. Fome. Esse troço estranho chama-se fome? Fome. Nunca mais quero sentir isso na vida. Fome. Fo-me. F-o-m-e. Nascendo e aprendendo. Nada pode ser pior do que sentir fome."

Em seguida, o bebê começou a aprender que não era bem assim. Ele voltaria a sentir fome, e para exterminá-la teria sempre a companhia dos gases (e constrangimentos) de toda sorte.

domingo, 6 de setembro de 2009

Menos, please

Não faz muito tempo liberaram o resultado de uma pesquisa curiosa: ela comprovava que, a despeito de todas as troças e piadas feitas até então, o carioca trabalhava mais do que o paulista. A reação dominante do povo do Rio de Janeiro (minha inclusive) foi de uma vingança que finalmente veio. "Esse pessoal de São Paulo tira onda que trabalha mais, que o carioca só quer saber de praia e vagabundagem...". Foi tudo por pesquisa abaixo.

Hoje eu me pergunto: por que me orgulhei tanto de trabalhar mais do que os outros? Se a gente reclama muitas vezes que trabalha demais, e em determinadas épocas fica contando os dias para as férias?

Resgatei uma questão levantada por Domenico de Masi no livro O ócio criativo. Embora ele tenha sido detonado por seus apontamentos futuristas (que as tecnologias nos fariam, gradativamente, ter mais tempo para as coisas, por exemplo), a obra de De Masi me marcou por ter criticado o valor do trabalho em si, abordando a historicidade do fato.

Não conseguirei reproduzir aqui tudo o que o sociólogo italiano falou, e nem vou tentar. No entanto foi dele que me lembrei quando comecei a me perguntar por que gostei tanto de ser mais trabalhador do que os outros.

Gosto do que faço, estou na minha área, com um ótimo clima na equipe. Na contemporaneidade, é inevitável trabalhar, de algum modo. Mesmo o cineasta que vive de seus filmes tem alguma rotina laborativa. Mas por que nos orgulharmos tanto disso, em relação às demais coisas?

Se o lazer nos faz tão bem e renova nossas energias, por que demonizá-lo? Se a meditação e o silêncio acalma nossas almas, por que menosprezá-los? Por que ouvir alguém dizer, com certo ar heróico, que trabalha 12 horas por dia, e reagir com um suspiro de admiração? E desde quando o comprometimento é medido pelo volume de trabalho, e não pela atitude demonstrada por seu caráter e pelos objetivos alcançados (após humanamente planejados)?

Na urbanização acelerada que vemos atualmente, faz parte da lógica pensar que deveríamos trabalhar menos: poluiremos menos, seremos menos estressados, traremos menos custos para o sistema de saúde (e até para o policial)... Não serei ingênuo de achar que o capitalismo está fora dessa discussão.

Mas o capitalismo (ou qualquer outro motivo que possamos elencar) não é responsável por decidirmos se engrossamos esse caldo ou não. Ainda que estejamos no meio da engrenagem da supervalorização do trabalho, está ao nosso alcance dizer que, ao menos comigo, não é bem assim. E também não será com os meus filhos - no que depender de mim, e enquanto eles dependerem de mim.

É fácil dizer que não há nada o que fazer e passar a vida murmurando.

É fácil dizer que "o sistema" é perverso (e é) e criar lutas inglórias dia após dia, só pra continuar murmurando.

É difícil tomar a decisão de não pensar como a maioria pensa, e desafiar, ainda que timidamente, o que foi posto como normalidade.

Mas uma vez tomada essa decisão, e reforçando-a no seu cotidiano, olhando antes de tudo para suas próprias escolhas, ela vai ficando mais natural.

E quanto mais natural, menos trabalho dá pra manter-se fiel a ela.

Menos trabalho.