segunda-feira, 18 de maio de 2020

Athos Bulcão e o impacto da arte

Minha conexão com a cidade de Brasília foi tão afetiva quanto inesperada.

Fora as obras de Oscar Niemeyer, o que me impactou também foi o trabalho dos artistas que o arquiteto trouxe consigo. Dentre eles, Athos Bulcão. A principal referência são azulejos que formam painéis geométricos e combinados com poucas cores. Você provavelmente já viu um desses durante o noticiário político cotidiano. Nos corredores da Câmara dos Deputados, por exemplo, servindo de cenário para o trabalho de jornalistas entrevistando deputados e cobrindo o Congresso. Mas os azulejos de Bulcão estão em outros pontos da cidade, de prédios públicos a privados e estações de metrô.

Eis que o centenário do artista não passou em branco aqui no Rio. O Centro Cultural Banco do Brasil resolveu fazer uma exposição e eu não poderia deixar de ir. Almocei rápido, me escondi da opressão solar do calor carioca, peguei o VLT até a Candelária e desembarquei ao lado do CCBB.

Apesar dos azulejos famosos, Athos Bulcão também produziu colagens fotográficas, algumas esculturas e também pinturas. Inúmeros quadros em uma sala só para eles, mas um deles me capturou. E eu não sei dizer por quê.

Era um pequeno apresentando quadrados de um lado, tal um tabuleiro de xadrez colorido, e pequenos pontinhos aglomerados do outro. Apesar de assistir à exposição mais rápido do que gostaria (afinal, hora de almoço), parei em frente ao quadrinho. E tomei apenas uma decisão: me deixar levar. Tal um participante de rafting que desistiu de se preocupar com os trancos da corredeira.

Não quis entender o quadro. Despi-me de qualquer ameaça de curiosidade em saber o que o artista quis dizer com a pintura. Também desisti de acessar qualquer mínimo conhecimento sobre o estilo ou as influências de Bulcão. Apenas me voluntariei para um quase hipnotismo, posto que ainda consciente de minhas decisões e de tudo o que estava acontecendo.

Não meditei. Não me distraí. Alentei a pressa. Fiz-me inteiro na ação de fruir da arte com o mínimo objetivo de ir percebendo os efeitos daquilo em mim.

É difícil explicar. Não senti nada místico, mas a certeza de algo que só o encontro com a arte pode proporcionar. O resultado em mim não era nada utilitário (“pra que vai me servir?”) nem superficial (“matei o tempo de um jeito bacana”). Sei que entrei e saí daquele quadro diversas vezes, estive no ateliê do artista, passeei por todo meu background cultural, fui invadido por desconhecidas sensações - sem necessariamente estar ciente de cada um desses processos. A arte me chamou pra dançar e sussurrou no meu ouvido: “É bom, né?”.

O quadrinho de Athos Bulcão endireitou minhas veredas. Eu, que busco funcionalidade e pragmatismo em tantos livros, filmes e exposições, fui exposto à minha própria mesquinharia inconsciente. Por que não se entregar à arte pela arte, jogando-se de olhos abertos no abismo da fruição desconhecida? Esquecer o conceito de espaço e suas limitações, sobrepujar a pseudo-tirania do tempo. Entrar na dimensão da obra de arte e ser alvo de seus cavalares feixes de oxigenação. O mundo é o mesmo após uma experiência dessas?

Provavelmente sim, mas não o meu.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Terceira Primeira

O coronavírus é a guerra mundial da minha geração.

Após a Guerra Fria, com vários países possuindo seu arsenalzinho ou arsenalzão nuclear, houve um sossegamento geral. Os conflitos tornaram-se localizados e pontuais, com mais jeito de fervura em banho maria do que incêndio generalizado. Uma guerra total de boa parte do mundo contra boa parte do mundo – como ocorreu em 1914 e 1939 – parece descartada.

Tudo o que conhecemos desses acontecimentos veio dos livros e filmes (tendenciosos ou não) contando a História. E de depoimentos (tendenciosos ou não) de quem viveu tudo aquilo, pelos mais diversos pontos de vista. É claro que populações que vivem em zonas de conflito atuais (quintais das grandes potências) ainda têm essa experiência, infelizmente. Mas, também infelizmente, o mundo não para por esses conflitos – ao contrário da pandemia.

Se a partir dos anos 1990 uma integração muito mais profunda que a do começo do século XX foi aditivada - novamente graças às tecnologias de comunicação e transportes, só que bem mais intensa e bem mais veloz – uma das contas chegou agora. Nenhum de nós está imune aos efeitos e notícias do vírus pelo mundo.

Assim como numa guerra mundial, famílias estão separadas umas das outras, há soldados na linha de frente, fronteiras sendo fechadas, economia global em jogo, relações internacionais ainda mais esquisitas. E tudo servindo de pretexto para se realizarem desejos autoritários, xenófobos e eugênicos de toda ordem.

E mortes. E líderes insensíveis às mortes. Que não são monstros quixotescos, mas possuem seu exército de defensores, alguns bem fanáticos quanto ao que aquele líder encaminha, mesmo que sejam destinos loucos e sepulcrais. Apoiadores oficiais, outros ideológicos, cada um em sua trincheira ignorando os apelos de paz e direitos humanos. Uma guerra sem convenções de Genebra como contrapeso mínimo, mesmo em estado de guerra.

E há os que faturam com tudo isso. Que sequer enrubescem por não querer perder dinheiro (que já lhe sobra) enquanto tantos sequer podem visitar ou enterrar seus doentes. O cinismo em carne viva, sem pudores e banhado em justificativas injustificáveis.

E também a sensação de que não sabemos quando tudo isso vai acabar. Ou como voltaremos à “normalidade” de antes. Sabendo que não seremos os mesmos após esse acontecimento, que dirá a política, a economia, as relações. Mas aprendendo a aceitar e conviver com as restrições, os racionamentos físicos e emocionais, e a condição humanoide que cada vez mais nos envergonha. Afinal, o vírus foi o teste surpresa enquanto procrastinávamos estudar pro aquecimento global.

É a minha guerra. E há momentos em que o vírus parece o mais inofensivo dos meus inimigos.

Como viver durante uma guerra? Como aceitar o estado de guerra? Como conviver com a imprevisibilidade do desfecho aceitável? Como resistir? Como resistir à impulsividade de resistir de todo e qualquer modo, arriscando muito sem estratégia? Que “novo-velho” normal é esse, e como degluti-lo de forma a prosseguir com o sopro de vida? O que minha filha espera de mim? Como não me cobrar além das minhas possibilidades? Quais são as minhas possibilidades?

É o que tenho buscado saber. Resgatando leituras, relatos e informações do tempo dos grandes eventos do século XX citados acima. Perguntas cuja honestidade para comigo mesmo aquece como fogueira em meio à noite passada no deserto. Quem mais estará em volta dela?