quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O alter ego que nós queríamos














São muitas as semelhanças: ambos fazem parte de minorias que sofrem preconceito em seus países; tais minorias também são caracterizadas por terem os menores salários, e só são maioria quando o assunto é pobreza. Diante disso, ambos foram cercados de grandes expectativas quando a chance de vencerem uma eleição presidencial parecia possível; e ambos possuem grande carisma perante as massas. Sim, o negro filho de imigrantes Obama e o ex-metalúrgico e nordestino Lula possuem muito em comum.

As condições em que foram eleitos também foram parecidas: a rejeição do povo a seus antecessores diretos era grande, e a insatisfação social era muita. Não à toa, uma palavra foi crucial nos seus motes de campanha e no início de governo: nos EUA, "Change: yes, we can" foi o slogan do ano; em Brasília, 2003, "Mudança." foi a primeira frase do discurso de posse.

Parece leviano querer comparar um presidente que está na metade do segundo mandato a um recém-empossado? Ainda mais com sistemas de governo (bipartidarismo prático versus pluripartidarismo quase anárquico etc) e países tão diferentes quanto à sua influência mundial? Não se tratarmos dos gestos dos primeiros dias de governo.

Na primeira canetada, Obama decretou um prazo para o fechamento da prisão de Guantánamo e o cumprimento da Convenção de Genebra. Também limitou os salários de sua equipe de governo, em meio a uma crise financeira na qual a população está perdendo emprego e renda. Além disso, proibiu que funcionários públicos recebessem qualquer tipo de presente, inibindo o lobby (que nos EUA é tão enraizado que é profissão regulamentada).

Muito Obama ainda pode fazer. Porém em dois dias de governo já sinalizou muita coisa. Para a linha dura antiterror, que o mundo não é tão simplista a ponto de se desfazer de conquistas do passado, como os direitos humanos e as liberdades individuais; como todo líder que busca credibilidade por meio da coerência, deu o exemplo sendo sensível ao contexto econômico; e bateu de frente com um segmento poderoso da sociedade estadunidense, que não raro ameaça a democracia.

Se Lula, em seus primeiros dias (ou até meses de governo) aproveitasse a maciça popularidade e tomasse decisões que confirmassem a expectativa nele colocada, poderíamos ter um país talvez não tão refém da governabilidade - que só existe honrando os clientelismos de sempre. Ou ao menos, a sensação inicial de que a vontade política era à altura da história de Lula e do PT e que as coisas de fato seriam diferentes.

Mas logo de cara Lula chamou o PMDB para o governo, enviou a Reforma da Previdência para o Congresso (e não a Reforma Política) e não mudou em um milímetro o financismo das políticas econômicas. E Obama não olhou apenas para a economia na hora de tomar decisões que, além de práticas, são simbólicas e midiáticas (mas com eco social).

Pode-se dizer que o Brasil não passava pela crise que os EUA passam (a inflação estava controlada), e que Obama só está podendo muito graças ao desserviço público de George W. Bush. A sensação de "pior, não pode ficar" que o povo norte-americano passa seria o "lastro" para Obama não ter receio de cumprir promessas de campanha.

Mas por quantas crises o Brasil já passou? Quantos escândalos na esfera política e de má condução governamental já testemunhamos? Será que, apesar da estabilidade econômica, Lula não teria encontrado um país que anseava por mais, muito mais do que tinha conseguido até então? E que só ele, mais ninguém, poderia ser o líder capaz de começar um radical (mas não irresponsável) processo de mudança na postura e na visão de quem governa nosso país?

Perguntas, perguntas, especulações, especulações... Ainda assim, atire a primeira pedra quem não está sentindo uma dorzinha-de-cotovelo ao saber das notícias da America.

Um comentário:

Lívia disse...

"poderíamos ter um país talvez não tão refém da governabilidade - que só existe honrando os clientelismos de sempre". Eu sempre penso isso quando fico analisando o governo do Lula. Acho que ele fez muito sim, melhorou a condição de vida dos mais pobres e adotou medidas importantes para o país. Mas a tal governabilidade é a pedra no sapato dele. Obama fez em um dia o que Bush não conseguiu fazer em oito: fechar Guantánamo. Jogada de mestre, no primeiro dia de governo. Inveja alheia sim!