Artur "Tuco" Egg é um publicitário de Santa Catarina, mas antes disso é cristão. E sua busca por viver um cristianismo autêntico está registrada com riqueza literária no blog A Trilha. Mesmo que seja (ou principalmente) deixando a igreja de lado. Um fenômeno, aliás, cada vez mais frequente: o livro Por que você não quer mais ir à igreja? virou best-seller.
O post Um primeiro passo pode ser um cartão de visitas para quem não conhece Tuco. Nesta entrevista ele esclarece seus pontos de vista e responde a algumas dúvidas geradas por provocações de seus escritos. Aliás, seu mais recente livro - Igreja entre aspas - é uma reflexão prática
sobre o sentido da fé cuja leitura este blogueiro considera obrigatória para qualquer um, mas
principalmente aos cristãos evangélicos membros de denominações
tradicionais.
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sexta-feira, 4 de maio de 2012
Um caminho sem volta
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sábado, 13 de dezembro de 2008
Uma sala de estar convidativa
(Foto: Carolina Lessa)
Será necessária mesmo uma apresentação sobre quem é Luis Fernando Verissimo? O escritor gaúcho de crônicas bem-humoradas e críticas sobre todo o tipo de situação, com uma das melhores vendagens de livros no Brasil, é uma pessoa super acessível. Já deu entrevistas para além dos grandes jornais, e agora marca presença dupla no Lessa27 e no Futebol Racional, falando de temas diferentes. A conversa começou por e-mail e terminou na casa do filho de Verissimo, em Ipanema. Acompanhe o bate-papo sobre cultura geral:
Você tem saudade dos seus tempos de jornalista? Por quê?
Jornalista eu ainda sou. Tenho saudade do convivio na redação. Trabalhar em casa é mais comodo mas menos estimulante.
Você sempre planeja escrever com humor ou depois que escreve é que você percebe?
Sempre procuro fazer um texto atraente e, dependendo do assunto, bem humorado.
Como é a sua relação com Machado de Assis, que há mais de 100 anos era alguém que escrevia com muito humor?
Na verdade eu não li muito Machado de Assis, li aqueles livros que todo mundo leu: Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Memorial de Aires, não foi muito mais do que isso. Lia muitas crônicas também. Machado usava muito a ironia, o que é uma constante dos nossos cronistas, todos eles escreviam com certo humor.
Você acha que o humor é uma característica dos escritores brasileiros?
Eu acho que é uma característica brasileira. Esse gosto pela crônica é uma característica brasileira também. Nós tivemos grandes escritores que nunca fizeram outra coisa além de crônica: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Antonio Maria, Stanislaw Ponte Preta. Eu acho que é uma coisa brasileira, não tenho notícia de algo assim em outro lugar.
Há algum tempo existia uma tradição de cronistas na imprensa brasileira. Você ainda tem um espaço, João Ubaldo Ribeiro também. Mas são poucos. O que você acha que mudou no espaço da crônica, que nos jornais de antes era maior, havia mais gente e hoje dá-se preferência às crônicas opinativas do que a crônica que conta uma história?
Eu acho que a crônica como gênero literário, como construção literária, mudou bastante. Hoje não se tem mais a crônica como um espaço de leitura prazeirosa num jornal, ou numa revista. É mais opinião, sobre atualidade e política, e acho que não há ninguém que faça como Rubem Braga, por exemplo.
Você imagina por que houve essa mudança?
Não sei, não tenho nenhuma tese sobre o assunto. Talvez a vida tenha se tornado tão difícil, tão competitiva, que as pessoas não têm mais tempo para o puro prazer de ler uma boa crônica sobre uma coisa lírica, bonita, a crônica pela crônica. Esperam sempre uma atualidade da crônica.
Você já disse que gosta de assistir Seinfeld. Por quê?
Gosto do texto inteligente e da interatividade dos personagens principais, os quatro muito bem interpretados.
Você acha que um blogueiro pode ser considerado escritor? Por quê?
Acho que não é o veículo que determina se o cara é escritor ou não. Num blog ou em outro lugar, o que interessa é o texto.
Como surgiu a idéia de fazer cartuns?
Eu sempre gostei muito de quadrinhos e cartuns e quando comecei a ter um espaço assinado no jornal, e quando faltava tempo ou inspiração para o texto, apelava para o desenho.
Família Brasil, Cobras, Dora Avante, Velhinha de Taubaté, Analista de Bagé... Há algum outro personagem a caminho?
Não, mas nunca se sabe.
Quais são suas expectativas políticas para o país? O pragmatismo venceu o idealismo (qualquer um)?
Acho que quando se escrever sobre este tempo no futuro duas coisas vão intrigar os historiadores: o ódio ao Lula e a paixão pelo Lula, as duas coisas desmedidas e um pouco irracionais. Na sucessão do Lula elas vão ser determinantes, não sei para que lado. Me parece que o Lula está fazendo um governo mais pragmático do que ideológico.
Você acha que as ideologias chegaram a um ponto em que ficaram inócuas? Isto é, a ideologia pode ser bonita e inspiradora mas, quando chega ao governo, é incapaz de virar ação de governo, políticas públicas?
Eu acho que o Governo Lula foi uma decepção para a esquerda, por não fazer um governo exatamente de esquerda, e ao mesmo tempo decepcionou para a direita, porque não foi um desastre completo. Na verdade, o poder não muda tanto ao mudar a política, ou o governo. Os donos do poder, como diria Raymundo Faoro, são os mesmos: o poder do dinheiro, do capital financeiro... Essa crise do capitalismo que estamos passando agora, que exageradamente é chamada de terminal, talvez cause algumas mudanças.
Há algum tempo ficou famoso o seminário “O silêncio dos intelectuais”. Diante desse quadro político do qual falamos, você consegue ver um papel diferente dos intelectuais na política e na relação com a sociedade?
Eu acho que o papel do intelectual é ajudar a sociedade a se entender, a se pensar. O papel dele é definir o que está acontecendo, mas não que isso signifique que ele vá ter interferência nos rumos do que vai acontecer. Mas ele é uma maneira da sociedade se compreender.
Como tem sido a experiência de ser avô? Vai desaguar na sua produção literária?
Já escrevi sobre a neta mas não pretendo transformá-la em assunto. São coisas que têm um significado sentimental óbvio para a gente mas não devem interessar muito aos outros.
Você já deu muitas entrevistas. Existe alguma coisa que você gostaria de ter respondido mas não te perguntaram? Se existir, pode responder agora...
Ainda não me perguntaram que tamanho eu calço. E sabe que eu não sei?
Veja também Verissimo falando sobre futebol
Será necessária mesmo uma apresentação sobre quem é Luis Fernando Verissimo? O escritor gaúcho de crônicas bem-humoradas e críticas sobre todo o tipo de situação, com uma das melhores vendagens de livros no Brasil, é uma pessoa super acessível. Já deu entrevistas para além dos grandes jornais, e agora marca presença dupla no Lessa27 e no Futebol Racional, falando de temas diferentes. A conversa começou por e-mail e terminou na casa do filho de Verissimo, em Ipanema. Acompanhe o bate-papo sobre cultura geral:
Você tem saudade dos seus tempos de jornalista? Por quê?
Jornalista eu ainda sou. Tenho saudade do convivio na redação. Trabalhar em casa é mais comodo mas menos estimulante.
Você sempre planeja escrever com humor ou depois que escreve é que você percebe?
Sempre procuro fazer um texto atraente e, dependendo do assunto, bem humorado.
Como é a sua relação com Machado de Assis, que há mais de 100 anos era alguém que escrevia com muito humor?
Na verdade eu não li muito Machado de Assis, li aqueles livros que todo mundo leu: Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Memorial de Aires, não foi muito mais do que isso. Lia muitas crônicas também. Machado usava muito a ironia, o que é uma constante dos nossos cronistas, todos eles escreviam com certo humor.
Você acha que o humor é uma característica dos escritores brasileiros?
Eu acho que é uma característica brasileira. Esse gosto pela crônica é uma característica brasileira também. Nós tivemos grandes escritores que nunca fizeram outra coisa além de crônica: Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Antonio Maria, Stanislaw Ponte Preta. Eu acho que é uma coisa brasileira, não tenho notícia de algo assim em outro lugar.
Há algum tempo existia uma tradição de cronistas na imprensa brasileira. Você ainda tem um espaço, João Ubaldo Ribeiro também. Mas são poucos. O que você acha que mudou no espaço da crônica, que nos jornais de antes era maior, havia mais gente e hoje dá-se preferência às crônicas opinativas do que a crônica que conta uma história?
Eu acho que a crônica como gênero literário, como construção literária, mudou bastante. Hoje não se tem mais a crônica como um espaço de leitura prazeirosa num jornal, ou numa revista. É mais opinião, sobre atualidade e política, e acho que não há ninguém que faça como Rubem Braga, por exemplo.
Você imagina por que houve essa mudança?
Não sei, não tenho nenhuma tese sobre o assunto. Talvez a vida tenha se tornado tão difícil, tão competitiva, que as pessoas não têm mais tempo para o puro prazer de ler uma boa crônica sobre uma coisa lírica, bonita, a crônica pela crônica. Esperam sempre uma atualidade da crônica.
Você já disse que gosta de assistir Seinfeld. Por quê?
Gosto do texto inteligente e da interatividade dos personagens principais, os quatro muito bem interpretados.
Você acha que um blogueiro pode ser considerado escritor? Por quê?
Acho que não é o veículo que determina se o cara é escritor ou não. Num blog ou em outro lugar, o que interessa é o texto.
Como surgiu a idéia de fazer cartuns?
Eu sempre gostei muito de quadrinhos e cartuns e quando comecei a ter um espaço assinado no jornal, e quando faltava tempo ou inspiração para o texto, apelava para o desenho.
Família Brasil, Cobras, Dora Avante, Velhinha de Taubaté, Analista de Bagé... Há algum outro personagem a caminho?
Não, mas nunca se sabe.
Quais são suas expectativas políticas para o país? O pragmatismo venceu o idealismo (qualquer um)?
Acho que quando se escrever sobre este tempo no futuro duas coisas vão intrigar os historiadores: o ódio ao Lula e a paixão pelo Lula, as duas coisas desmedidas e um pouco irracionais. Na sucessão do Lula elas vão ser determinantes, não sei para que lado. Me parece que o Lula está fazendo um governo mais pragmático do que ideológico.
Você acha que as ideologias chegaram a um ponto em que ficaram inócuas? Isto é, a ideologia pode ser bonita e inspiradora mas, quando chega ao governo, é incapaz de virar ação de governo, políticas públicas?
Eu acho que o Governo Lula foi uma decepção para a esquerda, por não fazer um governo exatamente de esquerda, e ao mesmo tempo decepcionou para a direita, porque não foi um desastre completo. Na verdade, o poder não muda tanto ao mudar a política, ou o governo. Os donos do poder, como diria Raymundo Faoro, são os mesmos: o poder do dinheiro, do capital financeiro... Essa crise do capitalismo que estamos passando agora, que exageradamente é chamada de terminal, talvez cause algumas mudanças.
Há algum tempo ficou famoso o seminário “O silêncio dos intelectuais”. Diante desse quadro político do qual falamos, você consegue ver um papel diferente dos intelectuais na política e na relação com a sociedade?
Eu acho que o papel do intelectual é ajudar a sociedade a se entender, a se pensar. O papel dele é definir o que está acontecendo, mas não que isso signifique que ele vá ter interferência nos rumos do que vai acontecer. Mas ele é uma maneira da sociedade se compreender.
Como tem sido a experiência de ser avô? Vai desaguar na sua produção literária?
Já escrevi sobre a neta mas não pretendo transformá-la em assunto. São coisas que têm um significado sentimental óbvio para a gente mas não devem interessar muito aos outros.
Você já deu muitas entrevistas. Existe alguma coisa que você gostaria de ter respondido mas não te perguntaram? Se existir, pode responder agora...
Ainda não me perguntaram que tamanho eu calço. E sabe que eu não sei?
Veja também Verissimo falando sobre futebol
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Podia ter saído na Piauí...Escrevi a matéria abaixo e mandei como colaboaração para a seção "Esquinas", da revista Piauí, em agosto de 2007. Infelizmente, não foi publicada. Mas resolvi disponibilizá-la no Lessa27 e, por que não?, colocá-la no hall de entrevistas do blog.
Protestantismo em série
Tarzan e Homer Simpson professam Calvino e processam a FOX
Homer Simpson é protestante. Freqüenta a igreja aos domingos, tem a Bíblia como regra de fé e prática, e orienta-se pela ortodoxia calvinista. Tem noção de quem o ouve e o admira. Tem noção de que, quando fala, possui aprovação quase unânime. Ao ser passado pra trás, fez questão de ser ainda mais protestante. Há alguns meses protesta contra a FOX, a casa que o convidou para entrar há 18 anos. Nada disso foi levado em consideração quando Homer alcançaria o seu momento máximo. Na verdade, para muitos, Homer Simpson ficou mudo. Waldyr Sant’anna, o dublador que melhor encarnava o espírito do personagem do desenho de Matt Groening, usando somente suas cordas vocais, foi tirado da produção do filme e do seriado dos Simpsons, após entrar em litígio com a FOX. Ah, e Waldyr é presbiteriano.
A produtora e distribuidora de filmes norte-americana lançou as temporadas em DVD da série, mas não pagou os devidos direitos a Waldyr. Ele não teve escolha senão entrar na justiça contra a FOX, que por sua vez tirou o dublador do filme, que é considerado um dos arrasa-quarteirões do ano em bilheteria. Waldyr já tinha gravado o trailer e os teasers do filme, disponíveis no YouTube dois meses antes da estréia.
“Os Simpsons – o filme” é um dos poucos lançamentos internacionais que chegam aos cinemas brasileiros com muito mais cópias dubladas do que legendadas. Não apenas por ser desenho animado, mas também porque boa parte dos fãs prefere as vozes em português. E muito desse sucesso deve-se à voz de Homer, isto é, de Waldyr. Por esses acasos que enriquecem reportagens pelo mundo (inclusive esta), um detalhe: Waldyr não era o indicado para o papel. “Quando vieram escolher as vozes brasileiras dos Simpsons eu dirigia filmes para a VTI Network, uma empresa do ramo de dublagem, e uma senhora da FOX americana, após ter percorrido alguns estúdios em São Paulo testando vozes, veio ao Rio, para o mesmo trabalho, chegando até a VTI”, explicou Waldyr em entrevista antiga, disponível na internet. Por determinação da empresa, ele acompanhou a visita da dita senhora, e por falar inglês transmitia aos atores aquilo que ela pretendia extrair deles em termos artísticos, traçando um pouco do perfil de cada personagem. “Num determinado momento um ator que fazia o teste para o Homer não havia acertado a inflexão de voz, e eu fui mostrar a ele a maneira mais adequada ao perfil do Homer, não bastando a voz grave , mas sim falar como se tivesse um ovo na boca”. Ela gostou do som que Waldyr fez, e na mesma hora gritou: “That’s it, you are Homer Simpson! You are perfect! Ok, it’s enough for me, you are the Homer! ( É isso , você é o Homer. É perfeito. Para mim já basta, Você é o Homer)”.
Desde então, Waldyr continuou dublando outros desenhos, mas era só você ouvir o narrador de Sheep na Cidade Grande, parar o trânsito e gritar: “É o Homer!”. Mas Waldyr se mostrou versátil: ele já dublava Eddie Murphy em “Um tira da pesada”, com uma voz bem diferente de Homer, por exemplo. Desde 1958 Waldyr faz dublagens – “fiz os Tarzans todos” – e ele aproveita o assunto do litígio para chamar a atenção para o poder dos telespectadores contra as distribuidoras e suas imposições. “O que a FOX fez não foi apenas uma agressão a mim, mas a toda a classe de dubladores. E quem faz o sucesso de qualquer programa de TV é o seu público, que é um público consumidor daquele produto”. Alguns parecem ter entendido o recado, pois caçaram as cópias legendadas de “Os Simpsons – o filme” só por não ser a voz de Waldyr nas dubladas. Pessoas que ainda nem ouviram a nova voz, ou seja, não chegaram sequer a comparar, pois para eles Homer é Waldyr, Waldyr é Homer. No “Oscar da Dublagem”, realizado anualmente, foi só ele aparecer no palco para a platéia berrar “Homer! Homer! Homer!”. Em retribuição, ele saúda a todos com a voz de...
Waldyr é presbiteriano, uma das denominações mais tradicionais da igreja protestante no mundo. Embora more na Urca, freqüenta a Igreja Presbiteriana da Tijuca. Seu rosto é de uma morenice quase indiana, e o sorriso é aberto com dentes que, de fato, parecem desenhados. Ao atender ao telefone, nunca diz alô, e sim “Diga!”, num timbre de voz que já lembra o de Homer. Ele explica que o fato da família Simpson ser protestante o ajudou a se adaptar ao seriado. Mas e as críticas ácidas à religião? Ele não se incomoda, acha que “eles satirizam situações, sem outra intenção a não ser a de transformá-las meramente em sátiras”. O que pareceu incomodar Waldyr, mesmo, foi o episódio em que os Simpsons vêm ao Rio de Janeiro. Perguntado se ainda dublava Homer na época, ele responde, seco: “Felizmente, não”. A polêmica antes da exibição no Brasil foi tamanha que a FOX, antes de transmitir o fatídico episódio, exibiu outros três em que os Simpsons visitavam África, Austrália e Japão, com sarcasmo afiado. Nos intervalos, um comunicado oficial da FOX dizia que a responsabilidade pelo conteúdo era da turma de Matt Groening, criador da série. No episódio do Brasil, os Simpsons vêm ao Rio e Homer é seqüestrado por um táxi pirata, uma apresentadora de programa infantil é sexy demais para crianças e Bart é engolido por uma cobra numa floresta amazônica ao lado do Pão de Açúcar. “Amazônia no Rio é demais!”, devem ter pensado as autoridades do setor de turismo.
Carlos Alberto, o dublador escolhido para o filme (e para o seriado), parece bom, mas depois de um tempo, o espectador parece cansar da voz, que em alguns momentos esganiça. Com Waldyr não era assim, a piada era metade do roteirista e metade do dublador. A opinião dele sobre o substituto: “excelente pessoa e um bom profissional aprovado e escolhido pela FOX”. E o filme, assistiu? “Não."
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
O escritor que não passou da idade

A entrevista seguiu por e-mail e o escritor de quase 70 anos gravou as respostas num arquivo MP3, já tarde da noite, e as devolveu também por e-mail. João Ubaldo Ribeiro, que recentemente recebeu o prêmio Camões (a maior honraria da literatura de língua portuguesa, recebida por ele sem nenhuma surpresa) concede sua primeira entrevista a um blog e fala sobre a velhice, o contato com a realidade pós-internet e o papel do cronista de jornal hoje. Sem nunca esquecer de ressaltar seu amor pela ilha de Itaparica e também pelo bairro do Leblon, no Rio de Janeiro.
O senhor tem uma obra reconhecida pelo público e pela crítica e acabou de ganhar o prêmio Camões. O senhor já disse que, aos 60 e poucos anos, tem menos ambições na vida. Mas quais seriam elas?
Pra começar, eu não tenho 60 e poucos anos. Tenho 60 e tantos anos, ou 60 e muitos anos (risos). Porque eu estou com 67 e em janeiro faço 68. Nessa idade a gente começa a perceber com maior clareza, não só pelos aspectos orgânico e físico, mas também em pensamento, a finitude da vida. E, o que é lugar comum dizer mas é verdade, a gente percebe com clareza as ilusões que teve e a futilidade de tanta coisa pelo que já lutou nesse mundo, a futilidade de coisas a que outras pessoas dão importância. Enfim, o sujeito vai se sublimando um pouco com a idade, nem sempre dá sorte de não ficar amargurado, não entortar com a idade. O sujeito que envelhece razoavelmente conciliado com a vida fica mais ... Eu não vou dizer mais cínico, mas fica menos apegado a certos valores aparentes, como honrarias assim, e gloríolas passageiras. A gente fica mais filosófico com essas coisas.
Eu acho que fiz uma obra que em certa medida ainda não foi lida como eu acho que ela podia ser lida. É uma obra um pouco injustiçada ainda, acho eu, apesar de ser uma obra de sucesso. Mas acho que ela é vista como muito mais heterogênea do que na realidade é. Minha obra não é tão heterogênea assim. Ela tem uma continuidade, uma linha que um dia espero que vejam.
Eu acredito em Deus, e acho que Deus me deu muito, me dá muito. Tenho uma carreira de êxito, sou capaz de viver do meu trabalho decentemente. Nunca parti pra ficar rico, portanto não posso me queixar de não ser rico. Mas também não passo necessidade alguma, pelo contrario, tenho tudo que quero, sou um sujeito sadio. Então que ambições outras eu teria? Eu tenho vontade de acabar um romance que estou fazendo. E é possível, com as voltas que o mundo dá, que eu venha a querer fazer um outro livro, quem sabe?
O Nobel estaria nos seus planos?
Não, mas se você puder dar um jeito de trazê-lo pra mim eu não recuso não, tudo bem.
O que o senhor gosta de ler atualmente? Que autores? Algum contemporâneo?
Eu sempre gosto de ler, mas agora já estou com catarata, tenho que fazer uma operação, já leio com dificuldade. Como desde jovem tive mania de ler a mesma coisa, estou piorando com a idade e continuo a ler as mesmíssimas coisas sempre. Eu, que já passei tempos em que lia as mesmas páginas dos mesmos livros sempre, gosto de ler poesia. Mas tenho lido pouco. Cada vez gosto menos de ler teoria literária e coisas desse tipo, não suporto. Cada vez gosto mais de poesia, de Shakespeare, de Homero... Enfim, a mesma coisa de sempre.
O senhor já disse que gosta de navegar na internet. O que gosta de acessar?

Ah, eu disse isso? Mas eu não sou muito chegado a ficar navegando não. Eu sou bom de buscar coisas na internet, isso eu sei. Eu acesso de vez em quando os sites de notícias, alguns sites de curiosidades, de música, de literatura. E acesso de vez em quando uns sites de sacanagem pra ver como é, mas geralmente é meio chato e são sites perigosos de acessar. Mas em geral são meio chatos. Eu fiz muito isso quando estava escrevendo a Casa dos Budas Ditosos pra poder não ficar desatualizado (risos), não fazer cenas desatualizadas. Mas confesso pra você que, apesar de uma surpresinha ou outra, aprendi pouco. As coisas têm mudado pouco através dos tempos (risos).
(Acima, Fernanda Torres na montagem teatral de "A Casa...")
O senhor lê blogs? Na sua opinião, um blogueiro pode ser considerado um escritor? Por quê?
Eu leio blog, mas muito eventualmente, não sou freguês de blog nenhum. Eu acho blog ótimo, uma coisa quase revolucionária. Cada um pode publicar, todo mundo vira editor do que quer dizer, e ainda oferece mais possibilidades do que uma editora de antigamente, pois a difusão é instantânea e, digamos, mundial. E o relacionamento com o leitor é facílimo, há interatividade. É ótimo o blog.
O grande problema do blog é a concorrência, tem blog a dar com pau, todo mundo tem um blog. Muita gente tem aqueles famosos “retalhos de mim”, publica, faz uma ou duas edições no blog e desiste. Mas acho que o blogueiro pode ser considerado escritor sim, por que não? O blog é uma nova forma de publicação e oferece várias possibilidades. Agora, acho que ele tem esse problema: o blog enfrenta uma concorrência mortal – como é com os livros, se pensarmos bem. O blog se identifica com o autor.
O senhor gosta de escrever uma crônica periódica em jornal ou só faz isso por necessidade?
Eu gosto de escrever a crônica sim, isso dá disciplina, um senso de compromisso que faz bem, principalmente quando você vai ficando velho, é bom se sentir preso a um compromisso. Agora tem o lado B, que é chato, sempre foi chato ter a obrigação. A obrigatoriedade é fogo, ainda mais eu, que resolvi, desde que fiz minha primeira crônica, que jamais escreveria a famosa crônica sobre a falta de assunto, e jamais escrevi. Mas que é fogo, é, fazer sempre. Mas eu gosto.
Qual o papel que um cronista de jornal possui atualmente?
Isso depende do cronista. Ele pode ser o que chamam de formador de opinião, uma designação que eu não gosto muito. Ou pode ser um crítico de costumes, pode ser um repórter, um observador da cena cotidiana... Enfim, o cronista de jornal seja talvez um jornalista que desfruta de maior liberdade de assunto, de maior campo. E ele pode às vezes se limitar por iniciativa própria: isso acontece, se o sujeito começa a escrever numa “latitude grande” e acaba preso a um território que ele mesmo cria. Cronista tem um papel cada vez maior no jornal. Porque notícia no jornal é um negócio que não pode competir em velocidade com o tempo real, então o jornal tem que ser a reflexão, o pensamento e o entretenimento. Se o jornal não tiver esses elementos... E o cronista é privilegiado nesse negócio quando ele é fornecedor de texto e, espera-se, de um bom texto.

Senhor presidente e Pode ser que ele esteja maluco são dois exemplos de artigos em que os presidentes da República são duramente criticados pelo senhor. Em geral, qual é a expectativa do senhor após escrever artigos como esses, especificamente, que geram reações polarizadas? Já teve retorno de algum presidente após a publicação dos referidos artigos?
Não, não tive retorno de presidente nenhum. Eles nem leram, nem sabem, ninguém nunca me mandou recado nenhum. Eu que sei que provavelmente não sou adorado por esse pessoal que andei criticando. Eu tenho [retorno] dos que são mais realistas que o rei, dos puxa-sacos... E dos lulólatras, dos que transformam essas pessoas em praticamente ídolos, em deuses, e suas crenças numa espécie de religião. Daí surgem os fanáticos. Desses é que eu sofro um pouco, mas não muito. Eu não me sinto coagido nem pressionado nem coisa nenhuma. Também não xingo, eu sou formado em Direito e procuro manter em boa lembrança os crimes contra a honra. Sou muito cuidadoso em não perpetrar pelos jornais injúria, calúnia ou difamação, que são os três crimes contra a honra previstos no código penal. Procuro sempre não me enquadrar em nenhum deles, e procuro dizer as coisas de uma forma tal que não configure um crime. Mesmo porque não quero e não tenho ódio de ninguém, e nem quero tornar isso uma coisa doente ou patologicamente hostil.
Viva o povo brasileiro narra a história de um país que nasceu (e vive) sob o viés exploratório dos mais poderosos, ou de uma elite. Nas suas crônicas são apontados os problemas que o Brasil e suas instituições ainda apresentam. O senhor perdeu a esperança quanto ao futuro do país? O que o povo brasileiro poderia fazer para mudar isso?
Essa é uma pergunta comprida demais pra ser respondida aqui, isso requeriria um seminário. Claro que eu não perdi totalmente a esperança porque do contrário, levado isso ao extremo lógico, se você acha que realmente o futuro é destituído de qualquer esperança, você morreu. Não é à toa que a esperança é uma das virtudes teológicas, é quase pecado não se ter esperança. Então tenho, sim, um pouco de esperança. Agora, como vai se fazer isso, você me desculpe, não vou responder agora. Eu já escrevi alguma coisa sobre isso, já se escreveu muito sobre isso, e se fala muito sobre isso, não dá pra ser respondido com uma palavrinha ou outra.
O senhor se considera um "herdeiro de estilo" de Padre Antonio Vieira e Gregório de Matos (ambos grandes expoentes do estilo barroco na literatura brasileira)?
Meu Deus do céu, se eu fosse herdeiro de Vieira eu seria um abençoado! Vieira era uma imensidão, e Gregório de Matos era um talento magnífico. O Gregório que conhecemos era uma floresta, não era um homem, era uma efervescência de alegria e de sensibilidade poética ao mesmo tempo, a lírica dele é linda...
Eu sou herdeiro num sentido mais genérico, sou herdeiro desses homens todos e particularmente, por ser baiano, tenho certamente alguma afinidade glandular, ou genética, eu sou bastante abarrocado. Eu gosto, sou chegado a um barroco desde pequeno. Tanto assim que era obrigado a copiar os sermões do padre Antonio Vieira nas férias e devia detestá-lo, mas adoro Vieira. E depois de adulto fui obrigado a copiar os textos do padre Manoel Bernardes, reacionário, chatíssimo, mas que escreve divinamente, a mão dele é guiada por Deus.. Aí não só copiei com boa letra mas peguei o livro que o tornou célebre, A nova floresta, que é enorme, e fiz dele uma seletazinha para a [editora] Nova Fronteira, porque até hoje tenho esses padres perto do meu coração.
O senhor foi amigo de Glauber Rocha e teve sua obra adaptada para o cinema e para a TV. O que te agrada assistir no audiovisual hoje?
Bom, na verdade nada, porque eu não tenho assistido coisa nenhuma (risos). Eu estou tentando entender uma série de coisas e vivo muito em cima desse computador aqui lendo outras coisas, e tentando aprender uma convivência com a realidade nova. E tenho pensado muitas coisas importantes, então não tenho tempo pra ver coisa nenhuma, não quero ver nada.
Há alguma relação entre o Leblon e a Ilha de Itaparica?
Há, claro. Você se lembra, inclusive, que o Leblon é uma ilha. Ele tem na frente um mar, dos dois lados um canal e do outro lado a Lagoa. O Leblon é um território que devia ser tornado independente, como Itaparica também deveria. Deviam fazer uma espécie de federação entre os dois, sei que Leblon e Itaparica constituiriam um eixo de felicidade inominável. Mas a geopolítica presente nos criou certas dificuldades nesse sentido.
Quais os próximos projetos do senhor?
Meu projeto continua sendo conseguir terminar o romance que persigo há vários anos. Mas por causa das entrevistas que eu dou nunca consigo tempo pra fazer isso... (risos)
Veja também: João Ubaldo e o prêmio Camões

A entrevista seguiu por e-mail e o escritor de quase 70 anos gravou as respostas num arquivo MP3, já tarde da noite, e as devolveu também por e-mail. João Ubaldo Ribeiro, que recentemente recebeu o prêmio Camões (a maior honraria da literatura de língua portuguesa, recebida por ele sem nenhuma surpresa) concede sua primeira entrevista a um blog e fala sobre a velhice, o contato com a realidade pós-internet e o papel do cronista de jornal hoje. Sem nunca esquecer de ressaltar seu amor pela ilha de Itaparica e também pelo bairro do Leblon, no Rio de Janeiro.
O senhor tem uma obra reconhecida pelo público e pela crítica e acabou de ganhar o prêmio Camões. O senhor já disse que, aos 60 e poucos anos, tem menos ambições na vida. Mas quais seriam elas?
Pra começar, eu não tenho 60 e poucos anos. Tenho 60 e tantos anos, ou 60 e muitos anos (risos). Porque eu estou com 67 e em janeiro faço 68. Nessa idade a gente começa a perceber com maior clareza, não só pelos aspectos orgânico e físico, mas também em pensamento, a finitude da vida. E, o que é lugar comum dizer mas é verdade, a gente percebe com clareza as ilusões que teve e a futilidade de tanta coisa pelo que já lutou nesse mundo, a futilidade de coisas a que outras pessoas dão importância. Enfim, o sujeito vai se sublimando um pouco com a idade, nem sempre dá sorte de não ficar amargurado, não entortar com a idade. O sujeito que envelhece razoavelmente conciliado com a vida fica mais ... Eu não vou dizer mais cínico, mas fica menos apegado a certos valores aparentes, como honrarias assim, e gloríolas passageiras. A gente fica mais filosófico com essas coisas.
Eu acho que fiz uma obra que em certa medida ainda não foi lida como eu acho que ela podia ser lida. É uma obra um pouco injustiçada ainda, acho eu, apesar de ser uma obra de sucesso. Mas acho que ela é vista como muito mais heterogênea do que na realidade é. Minha obra não é tão heterogênea assim. Ela tem uma continuidade, uma linha que um dia espero que vejam.
Eu acredito em Deus, e acho que Deus me deu muito, me dá muito. Tenho uma carreira de êxito, sou capaz de viver do meu trabalho decentemente. Nunca parti pra ficar rico, portanto não posso me queixar de não ser rico. Mas também não passo necessidade alguma, pelo contrario, tenho tudo que quero, sou um sujeito sadio. Então que ambições outras eu teria? Eu tenho vontade de acabar um romance que estou fazendo. E é possível, com as voltas que o mundo dá, que eu venha a querer fazer um outro livro, quem sabe?
O Nobel estaria nos seus planos?
Não, mas se você puder dar um jeito de trazê-lo pra mim eu não recuso não, tudo bem.
O que o senhor gosta de ler atualmente? Que autores? Algum contemporâneo?
Eu sempre gosto de ler, mas agora já estou com catarata, tenho que fazer uma operação, já leio com dificuldade. Como desde jovem tive mania de ler a mesma coisa, estou piorando com a idade e continuo a ler as mesmíssimas coisas sempre. Eu, que já passei tempos em que lia as mesmas páginas dos mesmos livros sempre, gosto de ler poesia. Mas tenho lido pouco. Cada vez gosto menos de ler teoria literária e coisas desse tipo, não suporto. Cada vez gosto mais de poesia, de Shakespeare, de Homero... Enfim, a mesma coisa de sempre.
O senhor já disse que gosta de navegar na internet. O que gosta de acessar?

Ah, eu disse isso? Mas eu não sou muito chegado a ficar navegando não. Eu sou bom de buscar coisas na internet, isso eu sei. Eu acesso de vez em quando os sites de notícias, alguns sites de curiosidades, de música, de literatura. E acesso de vez em quando uns sites de sacanagem pra ver como é, mas geralmente é meio chato e são sites perigosos de acessar. Mas em geral são meio chatos. Eu fiz muito isso quando estava escrevendo a Casa dos Budas Ditosos pra poder não ficar desatualizado (risos), não fazer cenas desatualizadas. Mas confesso pra você que, apesar de uma surpresinha ou outra, aprendi pouco. As coisas têm mudado pouco através dos tempos (risos).
(Acima, Fernanda Torres na montagem teatral de "A Casa...")
O senhor lê blogs? Na sua opinião, um blogueiro pode ser considerado um escritor? Por quê?
Eu leio blog, mas muito eventualmente, não sou freguês de blog nenhum. Eu acho blog ótimo, uma coisa quase revolucionária. Cada um pode publicar, todo mundo vira editor do que quer dizer, e ainda oferece mais possibilidades do que uma editora de antigamente, pois a difusão é instantânea e, digamos, mundial. E o relacionamento com o leitor é facílimo, há interatividade. É ótimo o blog.
O grande problema do blog é a concorrência, tem blog a dar com pau, todo mundo tem um blog. Muita gente tem aqueles famosos “retalhos de mim”, publica, faz uma ou duas edições no blog e desiste. Mas acho que o blogueiro pode ser considerado escritor sim, por que não? O blog é uma nova forma de publicação e oferece várias possibilidades. Agora, acho que ele tem esse problema: o blog enfrenta uma concorrência mortal – como é com os livros, se pensarmos bem. O blog se identifica com o autor.
O senhor gosta de escrever uma crônica periódica em jornal ou só faz isso por necessidade?
Eu gosto de escrever a crônica sim, isso dá disciplina, um senso de compromisso que faz bem, principalmente quando você vai ficando velho, é bom se sentir preso a um compromisso. Agora tem o lado B, que é chato, sempre foi chato ter a obrigação. A obrigatoriedade é fogo, ainda mais eu, que resolvi, desde que fiz minha primeira crônica, que jamais escreveria a famosa crônica sobre a falta de assunto, e jamais escrevi. Mas que é fogo, é, fazer sempre. Mas eu gosto.
Qual o papel que um cronista de jornal possui atualmente?
Isso depende do cronista. Ele pode ser o que chamam de formador de opinião, uma designação que eu não gosto muito. Ou pode ser um crítico de costumes, pode ser um repórter, um observador da cena cotidiana... Enfim, o cronista de jornal seja talvez um jornalista que desfruta de maior liberdade de assunto, de maior campo. E ele pode às vezes se limitar por iniciativa própria: isso acontece, se o sujeito começa a escrever numa “latitude grande” e acaba preso a um território que ele mesmo cria. Cronista tem um papel cada vez maior no jornal. Porque notícia no jornal é um negócio que não pode competir em velocidade com o tempo real, então o jornal tem que ser a reflexão, o pensamento e o entretenimento. Se o jornal não tiver esses elementos... E o cronista é privilegiado nesse negócio quando ele é fornecedor de texto e, espera-se, de um bom texto.

Senhor presidente e Pode ser que ele esteja maluco são dois exemplos de artigos em que os presidentes da República são duramente criticados pelo senhor. Em geral, qual é a expectativa do senhor após escrever artigos como esses, especificamente, que geram reações polarizadas? Já teve retorno de algum presidente após a publicação dos referidos artigos?
Não, não tive retorno de presidente nenhum. Eles nem leram, nem sabem, ninguém nunca me mandou recado nenhum. Eu que sei que provavelmente não sou adorado por esse pessoal que andei criticando. Eu tenho [retorno] dos que são mais realistas que o rei, dos puxa-sacos... E dos lulólatras, dos que transformam essas pessoas em praticamente ídolos, em deuses, e suas crenças numa espécie de religião. Daí surgem os fanáticos. Desses é que eu sofro um pouco, mas não muito. Eu não me sinto coagido nem pressionado nem coisa nenhuma. Também não xingo, eu sou formado em Direito e procuro manter em boa lembrança os crimes contra a honra. Sou muito cuidadoso em não perpetrar pelos jornais injúria, calúnia ou difamação, que são os três crimes contra a honra previstos no código penal. Procuro sempre não me enquadrar em nenhum deles, e procuro dizer as coisas de uma forma tal que não configure um crime. Mesmo porque não quero e não tenho ódio de ninguém, e nem quero tornar isso uma coisa doente ou patologicamente hostil.
Viva o povo brasileiro narra a história de um país que nasceu (e vive) sob o viés exploratório dos mais poderosos, ou de uma elite. Nas suas crônicas são apontados os problemas que o Brasil e suas instituições ainda apresentam. O senhor perdeu a esperança quanto ao futuro do país? O que o povo brasileiro poderia fazer para mudar isso?
Essa é uma pergunta comprida demais pra ser respondida aqui, isso requeriria um seminário. Claro que eu não perdi totalmente a esperança porque do contrário, levado isso ao extremo lógico, se você acha que realmente o futuro é destituído de qualquer esperança, você morreu. Não é à toa que a esperança é uma das virtudes teológicas, é quase pecado não se ter esperança. Então tenho, sim, um pouco de esperança. Agora, como vai se fazer isso, você me desculpe, não vou responder agora. Eu já escrevi alguma coisa sobre isso, já se escreveu muito sobre isso, e se fala muito sobre isso, não dá pra ser respondido com uma palavrinha ou outra.
O senhor se considera um "herdeiro de estilo" de Padre Antonio Vieira e Gregório de Matos (ambos grandes expoentes do estilo barroco na literatura brasileira)?Meu Deus do céu, se eu fosse herdeiro de Vieira eu seria um abençoado! Vieira era uma imensidão, e Gregório de Matos era um talento magnífico. O Gregório que conhecemos era uma floresta, não era um homem, era uma efervescência de alegria e de sensibilidade poética ao mesmo tempo, a lírica dele é linda...
Eu sou herdeiro num sentido mais genérico, sou herdeiro desses homens todos e particularmente, por ser baiano, tenho certamente alguma afinidade glandular, ou genética, eu sou bastante abarrocado. Eu gosto, sou chegado a um barroco desde pequeno. Tanto assim que era obrigado a copiar os sermões do padre Antonio Vieira nas férias e devia detestá-lo, mas adoro Vieira. E depois de adulto fui obrigado a copiar os textos do padre Manoel Bernardes, reacionário, chatíssimo, mas que escreve divinamente, a mão dele é guiada por Deus.. Aí não só copiei com boa letra mas peguei o livro que o tornou célebre, A nova floresta, que é enorme, e fiz dele uma seletazinha para a [editora] Nova Fronteira, porque até hoje tenho esses padres perto do meu coração.
O senhor foi amigo de Glauber Rocha e teve sua obra adaptada para o cinema e para a TV. O que te agrada assistir no audiovisual hoje?
Bom, na verdade nada, porque eu não tenho assistido coisa nenhuma (risos). Eu estou tentando entender uma série de coisas e vivo muito em cima desse computador aqui lendo outras coisas, e tentando aprender uma convivência com a realidade nova. E tenho pensado muitas coisas importantes, então não tenho tempo pra ver coisa nenhuma, não quero ver nada.
Há alguma relação entre o Leblon e a Ilha de Itaparica?
Há, claro. Você se lembra, inclusive, que o Leblon é uma ilha. Ele tem na frente um mar, dos dois lados um canal e do outro lado a Lagoa. O Leblon é um território que devia ser tornado independente, como Itaparica também deveria. Deviam fazer uma espécie de federação entre os dois, sei que Leblon e Itaparica constituiriam um eixo de felicidade inominável. Mas a geopolítica presente nos criou certas dificuldades nesse sentido.
Quais os próximos projetos do senhor?
Meu projeto continua sendo conseguir terminar o romance que persigo há vários anos. Mas por causa das entrevistas que eu dou nunca consigo tempo pra fazer isso... (risos)
Veja também: João Ubaldo e o prêmio Camões
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