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segunda-feira, 1 de junho de 2009

Estamos cercados!

No meio da entrevista ao Esporte Espetacular, o jogador Adriano diz à repórter: "Dinheiro não traz felicidade, mas ajuda a trazer". O atacante, que acaba de voltar ao Flamengo após oito anos na Itália, parece saber do que está falando. Ele saiu da favela de Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão (Rio de Janeiro) para ganhar o apelido de Imperador graças a seu futebol pelo mundo.

Sergio Cabral e Eduardo Paes, com a conivência de boa parte da imprensa carioca e atendendo aos principais anseios da classe média da cidade do Rio, começam a erguer os muros em volta das favelas. A justificativa para a ação, condenada por organismos respeitáveis como a Anistia Internacional, é para conter a devastação ambiental. Uma balela, já que os principais devastadores não são os moradores das comunidades.

Na entrevista, Adriano afirmou que ficou deprimido após a morte do pai e desgostoso pelo futebol. Abandonou seu clube na Itália e sumiu no Brasil por alguns dias. Foi à favela de Vila Cruzeiro, reencontrar família e amigos. A despeito de se acreditar nos motivos que o levaram lá, o atacante não esconde que é na favela onde ele se sente bem e à vontade, a despeito de todo o dinheiro que ganhou na vida.

Sergio Cabral e Eduardo Paes, "somando forças", dão vida a choques de ordem e ocupações de morros pela polícia, para trazer a paz (para o morro ou para a Zona Sul vizinha?). Conseguem emplacar na mídia suas justificativas fascistas, o que se percebe pelo vocabulário das matérias: "comunidades" voltaram a ser "favelas"; "moradores de rua" são de novo "mendigos", e por aí vai. A classe média que já esperava por isso se sacia, a que até então poderia estar indiferente começa a tomar partido do governo.

A provocação das torcidas rivais à torcida flamenguista quando o time rubro-negro leva um gol: "Silêncio na favela", surfando na onda pejorativa. Adriano reestreiou ontem pelo Flamengo, marcando um gol e o Maracanã lotado gritava "Festa na favela", matando na ironia a provocação mordaz.

Sergio Cabral e Eduardo Paes não devem gostar muito da exaltação à favela que Adriano faz (também ressaltada na entrevista ao programa esportivo). Mas deixa estar: é futebol, numa torcida de massa, não vai além disso. Nada que atrapalhe seus planos de "arianizar" a sociedade carioca trajando um impecável cinismo.

Mas o atacante rubro-negro, nas limitações que possui e até onde o espectro esportivo permite, contribui para que o discurso do carioca não ignore o óbvio: a favela não é um antro de marginais que merece ser extirpada (removida?) do mapa. Se outros brasileiros de renome e voz - como os jogadores de futebol, ou digníssimos formadores de opinião - mantivessem essa postura, talvez governantes como Sergio Cabral e Eduardo Paes se constrangessem um pouco antes de proferir seus planos cara-de-pau.

Só que a cooptação pelo discurso dos magnânimos líderes eleitos encontra eco e nenhuma oposição. Ou nenhuma oposição que tenha espaço e voz. Que vergonha de morar no Rio.

VEJA TAMBÉM: Protestos contra os muros

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Em cima do muro

O Secretário de Ordem Pública, Rodrigo Maria Zilda Bethlem, defendeu em artigo no Globo a construção de muros em volta de comunidades pobres a fim de reduzir a favelização e a consequente devastação ambiental do Rio de Janeiro. Até aí, nada de novo: nem na solução, nem na motivação excludente da proposta.

Curioso foi o argumento utilizado por Bethlem para defender a ideia (ou minimizar o buburinho?): acusa os críticos de hipocrisia, pois não consideram os muros de um condomínio de classe média como segregação, e sim proteção. Por que não veem os muros em volta das favelas da mesma forma?

Se alguém não vê os muros de condomínios como segregação é porque tem uma mentalidade muito estreita. Pergunte a um jovem de 18 anos, nascido e criado em condomínio, se ele conhece a cidade do Rio. Se sabe como se deslocar pra encontrar outros cidadãos de mesma naturalidade que ele. O condomínio, uma mini-cidade quase autônoma, não se integra com o resto da metrópole.

A grande diferença que Bethlem não vê (ou ignora) é que a decisão dos condomínios terem muros é tomada... pelos moradores! Que nunca tiveram problemas de serem donos de suas moradias, ou de pagar por elas e por seus respectivos terrenos. Vai igualar essa situação a dos favelados?

E outra: se o objetivo do muro em volta das comunidades é impedir a devastação ambiental, por que não se faz o mesmo na outra ponta? Todo mundo sabe que os novos condomínios da Barra da Tijuca, Recreio e Jacarepaguá estão destruindo áreas de preservação (já garantidas por lei!), e que todo o terreno é movediço. A Vila do Pan está afundando desde a época dos jogos!

Não quero tratar de maneira simplista o problema da moradia ou das favelas cariocas. Mas Rodrigo Betlhem e seu chefinho Duda Paes querem. E o fazem para atender a uma expectativa de boa parte da classe média e da especulação imobiliária. E porque não tem competência ou vontade política para pensar em algo diferente.

O artigo de Bethlem foi publicado na véspera da Páscoa. Prefiro acreditar no coelhinho do que nas boas intenções do ordeiro público.