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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Ao decano, a glória

Morreu um dos maiores cineastas brasileiros. Sim, cineastas, pois Eduardo Coutinho não se considerava um "documentarista". Para ele, o gênero que o consagrou estava no mesmo patamar da ficção audiovisual. Levou o seu trabalho a sério, cujo resultado foi levar cada espectador para dentro de seus filmes, na sala de estar que criava com qualquer entrevistado.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Muito cedo, muito cedo




É preciso coragem para assistir ao documentário "Senna", que estreou nos cinemas sexta-feira passada. O filme mostra o herói sem esconder a faceta humana errática e vulnerável. E não só pelo final que todos nós conhecemos.

A relação de Senna com o Brasil era a de um imaginário que se tornava real a cada domingo, encarnado no cockpit de um carro de Fórmula 1. Em meio à "década perdida" na economia do país, lá estava o Brasil em primeiro lugar, ultrapassando as demais potências sem baixar a cabeça pra ninguém. E sem a arrogância de um Piquet ou um Schumacher, só o carisma com fome de vitória, de não querer ser sacaneado ou ficar pra trás.

O documentário de Asif Kapadia é de excelente qualidade. A narrativa é muito bem conduzida, há inúmeras imagens inéditas de bastidores e papos ao pé no ouvido nos boxes, além de entrevistas a TVs estrangeiras. A rivalidade com Prost e a guerra contra o sistema - encarnado na figura de Jean-Marie Balestre, presidente da Federação Internacional de Automobilismo - traz Senna para a trincheira dos oprimidos. Dos "Davis" contra o Golias de sempre. Tal um Capitão Nascimento, mas real e acompanhado ao vivo.

É claro que, para a bilheteria, o timing do filme é ótimo. Quem nasceu após a morte de Senna já tem idade para acompanhar F-1, e tem a chance de conhecer o que os mais velhos tanto falam desse Ayrton.

Mas para quem acompanhava o esporte e vibrava a cada Grande Prêmio, 16 anos ainda parece cedo demais. Vimos as imagens daquele fatídico fim de semana milhões de vezes. E cada replay, cada cobertura jornalística do acidente e suas consequências, era uma punhalada em nosso coração. A ferida ainda parece aberta no cinema em 2010.

Devido a essa sensação de que foi ontem que tudo aconteceu, fica difícil curtir a rememoração dos feitos de Senna do kart até a McLaren. Isso porque nos sentimos numa contagem regressiva até o inevitável. Todas as falas e pensamentos do tricampeão soam premonitórias demais, quase assustadoras.

Senna mostra que sabia dos seus limites. A evocação constante de Deus em sua carreira, além de uma confissão de fé pública e sincera, parece sublinhar que ele era humano, demasiada e honestamente humano. O permanente semblante compenetrado do piloto parece dizer à audiência o tempo inteiro: "Por que vocês acham que um campeão de F-1, ídolo mundial, estaria acima dos mortais? Ou seria imortal?".

O documentário atinge seu ápice ao mostrar um Ayrton Senna totalmente em conflito consigo mesmo no último final de semana de sua vida. Racionalmente, ele não queria correr. Mas sabia que devia correr, que sua vida não fazia sentido se ele desistisse. É como se estivesse numa missão para a qual foi predestinado, mesmo que isso envolvesse o sacrifício. A mensagem que ele diz ter recebido de Deus ao ler a Bíblia naquele domingo só confirma essa impressão.

Saí do cinema triste, pois é uma linda história com um final muito triste. E o diretor soube captar isso bem demais. No entanto percebo que o incômodo também existe porque, mesmo sem sermos pilotos de F-1, não sabemos nossa hora de partir. Que garantias temos, qual é o nosso "carro infalível"?

Não tenho outra opção a não ser voltar a Senna. A todo momento, ele olha para o Alto, busca e enxerga Deus, agradece a Ele pelas vitórias, reconhece Sua força e sua finitude. Não é piegas (como muitas matérias da TV aberta sobre o assunto fazem parecer). A 300 km/h, a confiança de Ayrton Senna estava nAquele que tudo pode.

Duvido que Senna tenha ficado "chateado" com Deus por encerrar sua vida aos 34 anos. Enquanto esse dia não chegava, ele dava o seu máximo, fazia o seu melhor, cultivava uma sensibilidade social - taí o Instituto Ayrton Senna pra provar - amou e retribuiu o amor de muitos.

É essa a lição que aprendo até o incógnito dia de minha última curva.

"Não que eu o tenha já recebido, ou tenha obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus.

Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam, e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus." (Filipenses, 4:12-14)

"Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível" (I Coríntios 9:25)




terça-feira, 31 de março de 2009

Cidadãos?


Se fosse possível medir um "quociente de ingenuidade", eu gostaria de conhecer o meu. Talvez isso explique por que fiquei tão chocado com algo aparentemente normal. Ou não?

Assisti ao excelente Cidadão Boilesen, no festival de documentários É tudo verdade. O filme resgata a trajetória de Henning Boilesen, dinarmaquês naturalizado brasileiro e ex-presidente da Ultragaz. O empresário, idealizador do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), liderou seus pares no financiamento da ditadura brasileira (cujo golpe fez aniversário ontem, 1o. de abril). Particularmente a Operação Bandeirantes, que caçou subversivos em São Paulo.

Boilesen ficou famoso por seu sadismo ao assistir sessões de tortura e até mesmo trazer aparelhos do exterior para a prática. A "pianola Boilesen", espécie de instrumento com teclado que dá choques intermitentes (e que pôde ser visto no filme Batismo de Sangue) já diz tudo.

O documentário ouve historiadores, militares, ex-militantes, ex-ministros do governo militar, políticos e até mesmo Henning Boilesen Junior. São muitos pontos de vista e farta documentação dos arquivos da CIA (já liberados para consulta, ao contrário dos arquivos da ditadura brasileira) que confirmam a cruel dubiedade de Boilesen.


O empresário foi assassinado (ou justiçado, como dizem os ex-militantes de esquerda) em 1971. Seu carro foi fechado, ele levou um tiro de fuzil, saiu correndo baleado, levou outros cinco tiros pelas costas e caiu com o rosto na sarjeta, ao lado do meio-fio. Tudo isso é narrado pelo filme com fotos e recursos de animação, sem escatologia.

No momento em que o narrador mencionou que "Boilesen, já ao chão, levou 25 tiros na cabeça", duas fileiras do cinema começaram a aplaudir.

Não uma ou duas pessoas, mas quase vinte. Não começaram a aplaudir ao ser anunciada a morte do empresário, mas quando o narrador informava que Boilesen levou 25 tiros na cabeça.

A partir daí, comecei a me perguntar sobre meu "quociente de ingenuidade". Porque o primeiro sentimento, a primeira ideia que me veio foi: "vocês são iguaizinhos a ele".

Depois desse primeiro momento vem a crítica mental/social e tenta justificar/censurar tal sentimento. "O homem foi um sádico, fez coisas tão cruéis ou piores do que 25 tiros na cabeça de alguém. Como é que eu posso igualar um cara desses àqueles que aplaudiram? Será que não sofreram na ditadura, ou perderam alguém? Será que eles devem ser condenados por aplaudirem e se regozijarem com a destruição de um mega-vilão da vida real?".

Antonio Carlos Fom, um dos ex-militantes de esquerda perseguidos, verbaliza sua auto-censura durante seu depoimento para o filme: "É complicado a gente, hoje, dizer que se alegrou com a morte de alguém. Mas naquela época podemos dizer que ficamos felizes com a morte do Boilesen".

Só que as pessoas no cinema não aplaudiram a notícia da morte, mas o requinte dos 25 tiros na cabeça do empresário já moribundo. E aplaudiram em 2009, não em 1971.

Sou ingênuo em ficar chocado com tais aplausos? Ou em igualá-los a Boilesen?

Documentários como Hércules 56 (e outros depoimentos de Cidadão Boilesen) contextualizam a ação da luta armada contra a ditadura. Franklin Martins e Daniel Aarão Reis, hoje, não consideram que foi a melhor opção de militância - e olha que eles seqüestraram o embaixador dos EUA e conseguiram libertar presos políticos. No documentário de ontem, depoimentos de exilados mostram que a democracia no Brasil não existia, e não havia caminho diferente da luta armada para os que ousavam contestar o regime com veemência.

Mas os aplausos me transpuseram aos tempos horrendos. Será que essas pessoas aplaudem tratamento igual aos criminosos de nosso tempo? Se assim for, por que militantes padeceram em nome dos direitos humanos, se quando chega a vez dos "homens de bem" eles tem o mesmo sentimento dos torturadores?

Talvez alguns dos que aplaudiram leiam estas linhas e me acusem de reacionário ou insensível. Corro esse risco, mas hipócrita não serei. Confesso qual foi meu primeiro sentimento arrepiante ao presenciar os aplausos a 25 tiros na cabeça de um quase-morto, seja quem for. É tudo verdade.

Solidarizar-se com as vítimas da violência não é ter orgasmos com violência igual. É aproveitar a oportunidade para promover a paz, o entendimento e a superação de estigmas. O que é muito superior ao olho por olho, dente por dente.

ATUALIZAÇÃO EM 10/04/09: o filme venceu o prêmio de melhor documentário brasileiro.

domingo, 30 de março de 2008

Eu conheci Wilson Simonal

Podemos enumerar a perder de vista as invenções do homem que trouxeram males à sociedade: bomba atômica e armas em geral, guerras, segregação, esquemas corruptos... Mas é preciso saudarmos a invenção que é o documentário.

Deslocado no tempo em relação ao objeto de sua investigação, o documentário tem a capacidade de fazer justiça e complementar o trabalho que o jornalismo diário por si só nunca conseguirá: falar com muitas fontes (a tempo), permanecer para ser visto e revisto, estar fora do calor do momento para analisar melhor o que aconteceu naquele período.

É claro que o documentário também corre o risco de cristalizar injustiças. Porém, na minha opinião, não é esse o caso de Simonal - ninguém sabe o duro que dei. Meus conhecimentos sobre o cantor dos anos 60/70 se resumiam a dois fatos: uma aparição no programa da Hebe e a fama de delator à época da ditadura. Recentemente o Burger, colega de trabalho e conhecedor musical eclético, me apresentou a um CD duplo de Wilson Simonal. Ali comecei a saber que foi excelente cantor, original, inovador, cheio de suingue na voz e no jeito. Gostei do que ouvi.

Mas só posso dizer que conheci Wilson Simonal após ver o referido documentário no festival É tudo verdade (com certeza entrará em cartaz nos cinemas, pois é produzido pela Globo Filmes). Contando com uma boa produção e edição - a parte gráfica é impecável - o filme mostra como surgiu Simonal e sua fenomenal trajetória, seu carisma com as massas de seus shows. Enfim, aonde o talento pôde levá-lo, sem deixar de lado a marra de quem já tinha sofrido na vida e julgava merecer a super volta por cima. E lá em cima ele estava quando surgiu a acusação de delator, após um episódio mal-explicado com o seu contador da época.

O filme mostra como Simonal era um artista impressionante e autêntico, e como um episódio em meio ao contexto extremista da ditadura (no qual muitos parecem estar até hoje) pôde manchar uma carreira. Mais que isso: manchar uma vida, com extrema mágoa. Como disse um dos diretores: "a anistia não veio para o Simonal". É de chorar o fato de que ele se escondia nos shows dos filhos para não prejudicar a carreira dos garotos.

Segundo o que vi no documentário, Simonal foi inocente nessa história. Marrento e meio inculto, mas inocente - ainda mais se levarmos em conta a desproporcional repercussão do episódio, atravessando décadas. Ele foi vítima de um lichamento midiático nada incomum nos dias de hoje (Artur da Távola dá um depoimento brilhante a respeito), um comportamento que os profissionais da imprensa não podem mais se sujeitar a fazer. Nem os espectadores aceitarem ou reiterarem, abusando da intolerância e do preconceito. Exemplar a galera do Pasquim admitindo seu patrulhamento, e suas conseqüências.

Justificando minha ode ao documentário, a partir desse filme está resgatada a história de Wilson Simonal. Eu pude conhecer a genialidade do cantor diante de uma platéia, admirar em tela grande e som digital a voz sem igual, testemunhar seus erros, seus dramas e seu legado. Além de mim, muitos poderão ter essa sensação (mesmo os contemporâneos dos acontecimentos), graças a alguém que teve a idéia de contar isso por meio de um documentário.

A impressão que se tem é que, mesmo depois de morto, Wilson Simonal vestiu o azul do filme, e sua sorte então mudou.



ATUALIZAÇÃO: Como post postado não tem volta, resta-nos atualizar o repensar. Pensando mais friamente, acho que Simonal não foi inocente na história do contador. Porém a atitude de relegar seu talento ao ostracismo foi tão grave quanto a malandrangem do cantor com coisa séria. Tantos outros artistas possuem tantos deslizes fora dos palcos, e nem por isso desprezamos sua arte. Foi desproporcionalmente cruel o que fizeram com Simonal.