segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Gelo

E não era do sorvete que estava acabando.


Estávamos sentados numa das mesas da sorveteria, daquelas que de um lado há uma cadeira e do outro, tipo um sofá com recosto acolchoado. Duas mesas ao lado encontrava-se um homem de óculos, mexendo no celular. Sentado ao "sofá", ele esperava por alguém que estava na fila.

A pessoa da fila o chamou para tirar uma dúvida. No meio tempo em que se levantou, uma senhorinha idosa, cheia de bolsas, entrou na sorveteria e assumiu o lugar recentemente vago (o único ainda com recosto acolchoado). Aliviada, começou a descarregar a bagagem antes mesmo de se sentar.

O homem então voltou rápido e interrompeu a jornada da senhorinha rumo ao "sofá". "Eu estou sentado aí". Havia outras cadeiras comuns nos balcões da sorveteria. A senhorinha, resignada e um tanto decepcionada, pendurou de volta em seus braços e mãos as bolsas de antes, e foi para uma cadeira comum. O homem sentou no "seu" lugar e voltou a mexer no telefone.

Terminamos logo nosso sorvete, levantamos e fomos até a senhorinha indicando que um novo lugar vagou no "sofá". Ela olhou e, triste, nos deu a notícia: "ah, alguém já pegou". Surpresos, olhamos uma mulher (jovem) que já estava acolchoada antes, esperando alguém da fila - só que com a mesa cheia de lixo que alguém não havia jogado fora. Ela tampouco, e parecia feliz por "herdar" da gente uma mesa limpinha. A legenda de sua expressão poderia ser "me dei bem".

Fomos embora. O homem permanecia no telefone. A mulher, no novo lugar acolchoado. O lixo, na mesa. A senhorinha, na cadeira de encosto duro num balcão sem espaço para suas bolsas.

E ainda estranhamos um Renan Calheiros.


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