domingo, 6 de setembro de 2009

Menos, please

Não faz muito tempo liberaram o resultado de uma pesquisa curiosa: ela comprovava que, a despeito de todas as troças e piadas feitas até então, o carioca trabalhava mais do que o paulista. A reação dominante do povo do Rio de Janeiro (minha inclusive) foi de uma vingança que finalmente veio. "Esse pessoal de São Paulo tira onda que trabalha mais, que o carioca só quer saber de praia e vagabundagem...". Foi tudo por pesquisa abaixo.

Hoje eu me pergunto: por que me orgulhei tanto de trabalhar mais do que os outros? Se a gente reclama muitas vezes que trabalha demais, e em determinadas épocas fica contando os dias para as férias?

Resgatei uma questão levantada por Domenico de Masi no livro O ócio criativo. Embora ele tenha sido detonado por seus apontamentos futuristas (que as tecnologias nos fariam, gradativamente, ter mais tempo para as coisas, por exemplo), a obra de De Masi me marcou por ter criticado o valor do trabalho em si, abordando a historicidade do fato.

Não conseguirei reproduzir aqui tudo o que o sociólogo italiano falou, e nem vou tentar. No entanto foi dele que me lembrei quando comecei a me perguntar por que gostei tanto de ser mais trabalhador do que os outros.

Gosto do que faço, estou na minha área, com um ótimo clima na equipe. Na contemporaneidade, é inevitável trabalhar, de algum modo. Mesmo o cineasta que vive de seus filmes tem alguma rotina laborativa. Mas por que nos orgulharmos tanto disso, em relação às demais coisas?

Se o lazer nos faz tão bem e renova nossas energias, por que demonizá-lo? Se a meditação e o silêncio acalma nossas almas, por que menosprezá-los? Por que ouvir alguém dizer, com certo ar heróico, que trabalha 12 horas por dia, e reagir com um suspiro de admiração? E desde quando o comprometimento é medido pelo volume de trabalho, e não pela atitude demonstrada por seu caráter e pelos objetivos alcançados (após humanamente planejados)?

Na urbanização acelerada que vemos atualmente, faz parte da lógica pensar que deveríamos trabalhar menos: poluiremos menos, seremos menos estressados, traremos menos custos para o sistema de saúde (e até para o policial)... Não serei ingênuo de achar que o capitalismo está fora dessa discussão.

Mas o capitalismo (ou qualquer outro motivo que possamos elencar) não é responsável por decidirmos se engrossamos esse caldo ou não. Ainda que estejamos no meio da engrenagem da supervalorização do trabalho, está ao nosso alcance dizer que, ao menos comigo, não é bem assim. E também não será com os meus filhos - no que depender de mim, e enquanto eles dependerem de mim.

É fácil dizer que não há nada o que fazer e passar a vida murmurando.

É fácil dizer que "o sistema" é perverso (e é) e criar lutas inglórias dia após dia, só pra continuar murmurando.

É difícil tomar a decisão de não pensar como a maioria pensa, e desafiar, ainda que timidamente, o que foi posto como normalidade.

Mas uma vez tomada essa decisão, e reforçando-a no seu cotidiano, olhando antes de tudo para suas próprias escolhas, ela vai ficando mais natural.

E quanto mais natural, menos trabalho dá pra manter-se fiel a ela.

Menos trabalho.

5 comentários:

Cristina disse...

Lessa,

Adorei sua reflexao sobre trabalho. Tambem li O Ocio Criativo e gostei bastante. Eu, sinceramente, desconfio de quem super valoriza o trabalho. Alias, quem se vangloriza em relacao a qualquer coisa na vida. Os que estao bem resolvidos consigo mesmo nao sentem a necessidade de se auto promoverem, concorda?

Abracos,

Cris

Marcos André Lessa disse...

Pois é, Cristina. Não têm necessidade e, se for verdade, os outros é que acabam percebendo...

Dona Lapa disse...

Foi no ócio criativo que eu criei muitas frases e ganhei um carro zero. A solução é alugar o Brasil! rsrsr

Clarissa disse...

Comentário do sociólogo Max Weber sobre o tema, pode enriquecer sua reflexão:

"O oponente mais importante contra o qual o espírito do capitalismo - no sentido de um padrão de vida definido que exige sanções éticas - tem de lutar foi esse tipo de atitude e reação às novas situações, que podemos designar como tradicionalismo.(...) devemos tentar esclarecer o sentido provisório citando alguns casos. Começaremos por baixo, com os trabalhadores.

Um dos meios técnicos usado pelo empregador moderno a fim de assegurar a maior quantidade possível de trabalho por parte de "seus" homens é o salário-tarefa. Na agricultura, por exemplo, a colheita é um caso onde é requerida a maior quantidade possível de trabalho, pois, o tempo estando incerto, a diferença entre os altos lucros e a grande perda pode depender da presteza com que pode ser feito o serviço. Assim, o sistema de salário-tarefa é quase universal neste caso. E, uma vez que o interesse do empregador no apressamento da colheita aumenta com o crescimentos dos resutlados e intensidade do trabalho, tentou-se, repetidas vezes, através da elevação dos salários-tarefa aos trabalhadores, dando-lhes a oportunidade de ganhar salários para eles, muito altos, interessá-los em aumentar a sua prórpia eficiência. Dificuldades peculiares surgiram, porém, com uma frequência surpreendente. A elevação dos salários-tarefa não provocou um aumento, mas um decréscimo da produção no mesmo período. Isto porque o trabalhador reagiu ao aumento pela diminuição de sua produção. Por exemplo, um homem que à razão de um marco por acre, ceifava dois acres e meio por dia, ganhando dois marcos e meio, quando a razão foi aumentada para 1,25 marcos por acre, não ceifou três acres, ganhando 3,75 marcos, mas somente dois acres, continuando deste modo a ganhar os dois marcos e meio a que estava acostumado. A oportunidade de ganhar mais era menos atrativa do que a de trabalhar menos. Ele não perguntava: quanto posso ganhar por dia se trabalhar o quanto puder, mas, quanto devo trabalhar a fim de ganhar o salário, dois marcos e meio, que ganhava anteriormente e que era suficiente para as minhas necessidades? Este é o exemplo do que aqui denominamos "tradicionalismo". O homem não deseja "por natureza" ganhar cada vez mais dinheiro, mas simplesmente viver como estava acostumado e ganhar o necessário para este fim. O capitalismo moderno, onde quer que tenha começado sua ação de incrementar a produtividade do trabalho humano através do incremento de sua intensidade, tem encontrado obstinada resistência deste traço orientador do trablaho pré-capitalista; e, ainda hoje, quanto mais atrasadas estejam (do ponto de vista do capitalismo) as forças de trabalho, tanto mais tem de lidar com ela."

Marcos André Lessa disse...

Putz, faz muito sentido. Muito bom esse texto. É da "Ética Protestante..."?