sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Incômodo

Quando alguém me aborda na rua pedindo dinheiro para comprar comida, penso em possíveis reações: 1) dizer que não tenho, duvidando que a grana irá para o destino requerido; 2) dar o necessário, abstendo-me da questão de uma possível malandragem; 3) ir lá, comprar a comida e entregar à pessoa. Seja qual a for a minha opção, ao final terei o sentimento de que nada foi o bastante.



O charlatanismo existe desde que o mundo é mundo. Já ouvi casos de gente que conta uma história triste e ali na frente descobrimos que nossa confiança foi traída. Mas colocar tudo que é pedinte nessa seara é pensar de uma maneira fácil e cínica, a fim de dizer um sonoro "não" sem maiores problemas para a noite de sono.

Já neguei várias vezes, e mesmo sabendo que o dinheiro pode ser utilizado para outros fins, sempre me senti um pouco culpado. Seria uma culpa "marxista", daquelas que a gente não se sente bem por uns (como eu) terem o suficiente para uma vida digna e outros, não (independente da índole, nunca está bem de vida quem aborda estranhos na rua pedindo trocados).

Por outro lado, há os que negam sem drama, pois caso ajudem se veem alimentando um vício ou uma prática cômoda. Há histórias de pedintes que faturam uma boa grana se somarem toda a "paga" do mês. Ainda assim, ninguém um dia resolve, baseado nesses exemplos, que vai seguir a carreira de mendigo, ainda que seja só para faturar um e voltar pra sua casa à noite.

Nessas horas surge a discussão de que, em vez de estarem ali, deviam estar trabalhando. O que leva a uma outra questão: há trabalho para todos? Talvez sim, o Brasil está com o menor índice de desemprego da história. Porém é lícito condenar alguém que vai se esfolar na vida ganhando um salário mínimo, talvez menos que a paga de um mendigo "profissional"?

Estou divagando, e me afastei do ponto inicial. Uma ótima esquete da TV Pirata mostrava uma mulher ralhando com um mendigo porque sabia que ele ia usar aquele dinheiro "pra encher a cara de pão". É comum que muitos pedintes juntem moedas e notas pequenas para a bebida, principalmente entre a população de rua. Logo, teriam nos enganado na hora de pedir.

No entanto, poderíamos condená-los? O que resta àquelas pessoas que vão pedir dinheiro na rua? Sobreviver, você diria, e para isso deviam mesmo era comprar comida, conforme o combinado. E depois, resta a vida que restou... Atire o primeiro copo quem nunca bebeu para esquecer seus problemas.

Cá estou eu, falando de meus conflitos internos entre dar ou não dar esmolas, enquanto volto para meu apartamento, meu notebook e minha geladeira cheia. Dependendo da audiência, todo esse papo poderia ser tema da irônica hashstag #classemédiasofre. Mas é tudo verdade. Acabou de acontecer, com requintes de crueldade: vinha do supermercado com carrinho de feira cheio e um saco de pães franceses na mão.

"Com todo o respeito", disse ele tirando o boné, na etiqueta de mostrar respeito. "O senhor não teria  um trocado para eu comprar uma comida ali não?". Pensei no meu desejo de comer pão francês e ofereci algo do carrinho, que ele rejeitou. "Queria arroz com feijão, vende ali por oito e cinquenta". Respondi que então não tinha, julgando que o dinheiro não seria utilizado para os fins declarados. Se está com fome, qualquer coisa serve, certo?

É, mais ou menos... O certo é que eu não quero entrar num "modo de indiferença automático" para não sofrer com aquela mão aguardando retorno ou aquele corpo estendido no chão. Ainda assim, como conviver com a realidade de mendigos, pedintes e moradores de rua, gente como a gente, e não poder fazer nada que altere em definitivo aquela condição?

Pô, um troço desses mexe comigo. Queria fazer algo que não fosse momentâneo, mas será que é possível? Ou apenas o possível já seria muito, para quem pede e para quem ajuda? Ou pensar assim seria apenas um consolo racional para seguir com minha rotina? Ou perguntar demais e fazer de menos, ainda que o mínimo, é outra forma de fugir da situação?

Não sei mesmo. Minha única certeza é que ninguém deve ser, a priori, dado como estatística de desesperança absoluta.

2 comentários:

Romulo Dias disse...

Eu não tenho problema em me sentir traído. Se tenho um trocado, sempre dou. É bem aquilo que você falou, todo mundo hoje em dia vive para consumir. A esmola não deve vir com lição moral inserida nela...

Flávia Jorlane disse...

Excelente reflexão! Aguardo uma sobre como não ofender os atendentes insistentes de telemarketing, uma vez que são seres humanos do outro lado da linha em um trabalho que considero um dos piores.