domingo, 30 de março de 2008

Eu conheci Wilson Simonal

Podemos enumerar a perder de vista as invenções do homem que trouxeram males à sociedade: bomba atômica e armas em geral, guerras, segregação, esquemas corruptos... Mas é preciso saudarmos a invenção que é o documentário.

Deslocado no tempo em relação ao objeto de sua investigação, o documentário tem a capacidade de fazer justiça e complementar o trabalho que o jornalismo diário por si só nunca conseguirá: falar com muitas fontes (a tempo), permanecer para ser visto e revisto, estar fora do calor do momento para analisar melhor o que aconteceu naquele período.

É claro que o documentário também corre o risco de cristalizar injustiças. Porém, na minha opinião, não é esse o caso de Simonal - ninguém sabe o duro que dei. Meus conhecimentos sobre o cantor dos anos 60/70 se resumiam a dois fatos: uma aparição no programa da Hebe e a fama de delator à época da ditadura. Recentemente o Burger, colega de trabalho e conhecedor musical eclético, me apresentou a um CD duplo de Wilson Simonal. Ali comecei a saber que foi excelente cantor, original, inovador, cheio de suingue na voz e no jeito. Gostei do que ouvi.

Mas só posso dizer que conheci Wilson Simonal após ver o referido documentário no festival É tudo verdade (com certeza entrará em cartaz nos cinemas, pois é produzido pela Globo Filmes). Contando com uma boa produção e edição - a parte gráfica é impecável - o filme mostra como surgiu Simonal e sua fenomenal trajetória, seu carisma com as massas de seus shows. Enfim, aonde o talento pôde levá-lo, sem deixar de lado a marra de quem já tinha sofrido na vida e julgava merecer a super volta por cima. E lá em cima ele estava quando surgiu a acusação de delator, após um episódio mal-explicado com o seu contador da época.

O filme mostra como Simonal era um artista impressionante e autêntico, e como um episódio em meio ao contexto extremista da ditadura (no qual muitos parecem estar até hoje) pôde manchar uma carreira. Mais que isso: manchar uma vida, com extrema mágoa. Como disse um dos diretores: "a anistia não veio para o Simonal". É de chorar o fato de que ele se escondia nos shows dos filhos para não prejudicar a carreira dos garotos.

Segundo o que vi no documentário, Simonal foi inocente nessa história. Marrento e meio inculto, mas inocente - ainda mais se levarmos em conta a desproporcional repercussão do episódio, atravessando décadas. Ele foi vítima de um lichamento midiático nada incomum nos dias de hoje (Artur da Távola dá um depoimento brilhante a respeito), um comportamento que os profissionais da imprensa não podem mais se sujeitar a fazer. Nem os espectadores aceitarem ou reiterarem, abusando da intolerância e do preconceito. Exemplar a galera do Pasquim admitindo seu patrulhamento, e suas conseqüências.

Justificando minha ode ao documentário, a partir desse filme está resgatada a história de Wilson Simonal. Eu pude conhecer a genialidade do cantor diante de uma platéia, admirar em tela grande e som digital a voz sem igual, testemunhar seus erros, seus dramas e seu legado. Além de mim, muitos poderão ter essa sensação (mesmo os contemporâneos dos acontecimentos), graças a alguém que teve a idéia de contar isso por meio de um documentário.

A impressão que se tem é que, mesmo depois de morto, Wilson Simonal vestiu o azul do filme, e sua sorte então mudou.



ATUALIZAÇÃO: Como post postado não tem volta, resta-nos atualizar o repensar. Pensando mais friamente, acho que Simonal não foi inocente na história do contador. Porém a atitude de relegar seu talento ao ostracismo foi tão grave quanto a malandrangem do cantor com coisa séria. Tantos outros artistas possuem tantos deslizes fora dos palcos, e nem por isso desprezamos sua arte. Foi desproporcionalmente cruel o que fizeram com Simonal.

5 comentários:

Marcelo Damato disse...

Lessa,
O documentário está errado. Simonal era grande músico, mas também era informante da polícia. A informação não partiu da esquerda, mas da própria polícia.
Em certa ocasião, ele foi investigado pela polícia por supostas atividades subversivas e levou para depor alguns policiais, que disseram, todos, que ele era informante. Uma reportagem sobre isso foi feita no ano 2000, na Folha. E há um texto do ombudsman da Folha neste domingo relembrando o fato.

Marcos André Lessa, cristão, flamenguista, jornalista formado pela UFF-RJ disse...

É, Marcelo, não sabia dessa reportagem não. Vou até correr atrás pra ler. De qq modo, vale assistir ao documentário pra relembrar a arte de Simonal.

marcelo disse...

marcelo, meu xará...primeiro tanto você quanto o ombundsman da folha deveriam ver o filme antes de opinar.

lá é alegado que o simonal sequer conhecia as "testemunhas" que depuseram "a seu favor" no tribunal.

se o simonal tivesse realmente sido informante, não acredito que conseguiria um ofício do ministério da justiça (assinado pelo então secretário de estado de direitos humanos, josé gregori) atestando não haver nenhum indício de que houvesse colaborado com o sni.

além do mais, a folha não é aquele jornal bem povão, que adora cariocas, música popular e "gente de cor"?

braço.

tiago barros silva disse...

Lessa, o marcelo damato está equivocado.
a ocasião em que ele se refere, a investigação feita pela polícia é justamente o caso policial que envolveu
o contador.que está muito bem documentado no filme. o proprio contador afirma que isso (o fato de simonal ser informante do dops)foi uma coisa inventada para poder justificar a surra lá no dops.é claro que simonal não é um santinho.seu envolvimento com estes policias e nesse epsódio é injustificável.mas ele foi punido.o cara foi julgado e condenado pela justiça.foi preso.imagina ,vendo o filme ,aquele figura que ele era ,a humilhação que deve ter sido para ele sua prisão.
ele pagou essa divida com a sociedade.ele pagou por ter agido de uma maneira reprovável.

agora isso nåo justifica a atitude escrota da esquerda.de arruinar a carreira do cara ,fazendo campanha ,dizendo que o cara era dedo duro e que entregava outros artistas.
esse é justamente o problema.mexe com o tabu da ditadura.o fato da ditadura ser truculenta e escrota não quer dizer que a esquerda não possa tambem ter se excedido e sido injusta.
por isso eu achei o filme tão bom, ele faz agente refletir sobre essas coisas

infelizmente o marcelo damato "ouviu o galo cantar e não sabe aonde ele cantou" e com certeza nåo viu o filme tambem.

Meire Bottura disse...

Marcelo Damato

Você está enganado, o documentário está correto sim. Conforme o Tiago Barros esclareceu acima, o depoimento dos oficiais não passou de mentiras para livrar a cara deles mesmos, que, envolvidos na questão do contador, precisavam justificar porque utilizaram as dependências do DOPS.

O inspetor Mário Borges, em sua defesa, alegou em juízo que levou Rafael Viviani para ser "interrogado" porque Simonal era um informante e por isso acreditou que o preso era um terrorista. Entretanto, o superior direto de Mário Borges, inspetor Vasconcelos, DESMENTIU a informação, mas este depoimento, apesar de constar no processo (3450), ESTRANHAMENTE não ganhou as páginas dos jornais. Wilson Simonal cansou de repetir isso, mas, alguém lhe deu ouvidos?

Como disse o Tiago, ninguém aqui está dizendo que Simonal era santo. Ele errou, foi processado, condenado e cumpriu a pena. Acabou. Mas, a coisa não foi assim, ele se meteu numa enrascada com a história do contador, deu a munição necessária para os que queriam vê-lo pelas costas – a mídia e a classe artística. Era tudo o que queriam, um motivo, um deslize, uma pisada em falso.

Não há qualquer verdade em tudo o que foi dito contra ele ao longo de mais de três décadas, toda a história do suposto envolvimento com a repressão já está mais do que esclarecida. Simonal foi desmoralizado porque a mídia promoveu uma campanha sórdida contra ele. O próprio Jaguar já admitiu que "talvez tenha cometido um engano", mas que está muito velho para rever posições: "Foi um impulso meu, ele era tido como dedo-duro".

Você AFIRMA em seu comentário "Simonal era grande músico, mas também era informante da polícia". Pergunto: que fato lhe dá tanta certeza? Tome muito cuidado ao fazer esta afirmação, você está cometendo uma tremenda injustiça, está repetindo o erro que calou a maior voz do Brasil. Repense sua afirmação, busque esclarecimentos antes de manifestar opiniões baseadas apenas em suposições. Faça isso, não apenas pela memória dele, mas principalmente por nós, que perdemos e ainda temos muito a perder se continuarmos a permitir que a mídia nos manipule.

Simonal incomodava muita gente porque se negava a abaixar a cabeça e dizer amém à sociedade racista da época. O Brasil sempre foi um país hipócrita, não se iluda, nada mudou, a diferença daquela época para os dias atuais é que agora, além de ser crime, o racismo também é "politicamente incorreto", o que não o elimina, apenas camufla.

Naquela época, o preconceito era explícito. Quer um exemplo? Lembro-me muito bem que na escola eu não podia ter amiguinhos negros. Eu os tinha, mas, sabia que levaria uma sova se minha avó soubesse. Consegue imaginar o que isso faz com a cabeça de uma criança? Saiba, este tipo de comportamento era normal, o estranho era alguém agir diferente. Agora, imagine um negão boa pinta andando por aí de nariz empinado, todo cheio de si a bordo de carrões e derretendo o coração das "lourinhas de família". Era um sacrilégio, a sociedade não engolia.

Você já deve ter lido ou ouvido dizerem que Simonal era arrogante, metido, o que não destoava em nada de muitos artistas a não ser por uma enorme diferença: ele cometeu o pecado de nascer negro.

Ok, ele era marrudo, metido, e daí, isso é crime? Estava mais do que certo, tinha de se armar contra os que não admitiam que um negro nascido pobre, vindo de uma favela, chegasse lá. E, além do mais, ele podia ser, afinal, não é qualquer um que consegue ser O MAIOR CANTOR de um país tão grande. Ele incomodou sim, arrebatou multidões e alardeou seu talento aos quatro cantos... imperdoável.