domingo, 23 de março de 2008

Anarquia!

Outro verão carioca, outra ofensiva contra a dengue (na defensiva, já que o mosquito prolifera-se e é preciso força-tarefa nacional etc). Com uma novidade inusitada: as crianças foram orientadas a não usar bermudas, já que são as mais atacadas e o aedes voa baixo. Sebo nas canelas! Repelente seria melhor.

O fato é: em pleno verão carioca, chegamos ao ponto de orientar que não se use bermuda! Sinto-me pessoalmente atingido com a notícia. Um dos sonhos de minha vida é trabalhar vestindo o tropical traje, o mais adequado para nosso clima. No entanto, sou obrigado a usar calça comprida de segunda a sexta (ao menos enquanto a moda da saia permanece entre as mulheres...). Isso sempre me enervou.

Lembro de alguns episódios em que a lógica atitude de usar bermuda me privou de meus direitos. Pra começar, nenhum prédio público permite a sua entrada "daquele jeito", e descobri isso da pior maneira. Não lembro qual, mas um importante documento que precisava entregar ficou para depois, devidamente acompanhando de mais dois palmos de tecido. Era o Lessa adolescente dando-se conta da crueldade do mundo adulto.

Já na faculdade, minha turma foi visitar a redação e a gráfica do jornal O DIA. Previamente sonhei com a visita, tal e qual uma criança (de bermuda!!) sonha com o passeio da escola ao zoológico (nenhuma alusão aos profissionais da redação, ok?). No calor do momento, lá estava eu de bermuda. Não pude entrar. Não conseguia admitir que um lugar plural como um jornal meio classe média, meio popular fizesse a mesma carrancuda distinção para seus visitantes. A cena de todos os meus colegas adentrando o prédio da redação enquanto eu argumentava com o segurança dói até hoje. Assumo que chorei de raiva, e me restou visitar a gráfica com o sincero desejo de parar as máquinas... com uma bomba atômica.

Há quem diga que o descolado Google não possui uma regra geral da vestimenta no trabalho. No fundo, sabemos que o importante é fazermos o trabalho bem feito. As aparências contam? Contam, mesmo que você não queira ou perceba que não faz sentido um pensamento assim. Contam muito e muita coisa. Só não entendo por que a bermuda virou o vilão universal.

Por motivos de saúde - e descaso das autoridades competentes, como bem aponta o blog amigo Palavras do Exílio - é aconselhável evitar a bermuda. Sorry, mas o comportadinho aqui vai brincar de anarquista, sabendo dos riscos pessoais envolvidos (como os autênticos anarquistas também sabiam). Bermuda é indispensável para a minha sanidade mental, um carioca que não suporta a gota de suor escorrendo pela canela e o "abafa" desnecessário do jeans a toda prova.

Como já dizia uma antiga assinatura de e-mail, "qualidade de vida é prioritária a qualquer tipo de regra". Menos tecido, por favor.

ATUALIZAÇÃO: vale ler o excelente e conciso texto do sociólogo Léo Lince sobre a dengue no Rio.

4 comentários:

Henrique Blecher disse...

A bermuda está para o carioca assim como a pizza estaria para os paulistas, o acarajé para os bahianos, o chimarrão para os gaúchos. O que não está para ninguém é esse mosquito démodé, feio de dar dó e com um potencial de periculosidade considerável. Epa! O problema é que ninguém considera este potencial.E o que me impressiona ainda mais é a tabelinha entre políticos cariocas, jogando essa bola de um lado para o outro sem qualquer culpa. Esses cara estão com as calças arriadas e a vergonha já aparece sem pudores.
Valeu pela referência. Assim que eu aprender a utilizar as ferramentas do meu blog colocarei as suas bermudas (quer dizer, seu blog) em destaque.

Abraço, grande anarquista

Henrique

André Marques disse...

Quantas veses eu também não quis vir para o meu trabalho usando uma bermuda. Especialmente naqueles dias de calor infernal que só quem trabalha no Maracanã conhece. Essa semana um amigo meu disse que está mudando para um emprego melhor. Fiquei com inveja. Não pela oportunidade ou pelo salário que ele teria, mas sim por ele ter dito que no local era permitido ir de bermuda!!!

Mas o problema é que aqui no Brasil a nossa população confunde a liberdade com a libertinagem. Permita a bermuda e logo virão os shorts e outros adereços mais casuais.

Marcos André Lessa, cristão, flamenguista, jornalista formado pela UFF-RJ disse...

André, não tenho dúvida que o pessoal iria aloprar. Mas isso não me consola...

Henrique, não tenha medo da blogosfera!!!

JOICE WORM disse...

Lessa, faz um tempo que não venho ler suas anotações. Já tinha uma grande saudade da sua maneira de escrever. Bem haja!
Quanto ao problema da bermuda em locais públicos, é sem dúvida uma maneira de impor ordem onde não se sabe como atingir e fazer-se notar que ali, quem manda são eles. E como solução para quem não suporta andar de calças, é ter na mochila uma calça descartável, destas que usam os médicos nas cirurgias. Tem um elástico na cintura e cabe em qualquer corpo. Veste por cima da bermuda e entra no local que deseja. Aí já não podem alegar que você está fora de moda e mesmo assim não poderia entrar... Era só o que faltava!
Um beijo grande para ti amigo.