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terça-feira, 9 de junho de 2015

Cristovam Buarque é o nosso Mujica?

Eu já considerava a hipótese, e um texto recente do senador no Facebook parece ajudar a confirmá-la.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Edukators

O "quixotismo" do senador Cristovam Buarque na sua luta por uma educação pública de qualidade me provoca dois sentimentos: admiração e pena. O primeiro, pela sinceridade e perseverança de Cristovam; o segundo, por sua solidão e por ter que aguentar críticas de quem não dá o devido valor à educação e a vê pelo filtro do pragmatismo econômico de nossos dias. O episódio mostra bem como não honramos figuras históricas do tema (como Darcy Ribeiro e Paulo Freire) e como lidamos com os impostos que pagamos.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

As lições da licença - parte 1

Enfim minha licença médica chegou ao fim! Agora a tarefa é me readaptar ao cotidiano de trabalho e regular o zoneado relógio biológico. Sim, pois o sono resolve dar as caras quando menos espero. Ele estava acostumado a mandar em mim até altas horas da manhã e agora estranha o domesticamento.

Acho que só agora, depois de dois meses de stand-by, consigo encontrar respostas para o que minha mãe me perguntou durante esse período: "Já dá pra tirar um saldo positivo dessa situação?". Se não fosse minha genitora expressando sua preocupação, teria julgado a pergunta um tanto sarcástica. Eu não conseguia, naquele momento, ver propósito nenhum na fratura cacete de um metatarso, que tanta imobilidade me causava.

Hoje percebo quais foram as lições que a licença me deixou. A principal delas foi perceber como nosso mundo não está preparado para inserir os portadores de necessidades especiais. E me remeteu a um projeto de lei de um senador da república.

As calçadas esburacadas passam despercebidas para quem anda em sua plenitude física. Mas são um suplício para quem não pode pensar num mínimo tropeço, sob pena de dar com a cara no chão. A falta de rampas transforma o meio-fio num degrau potencialmente traiçoeiro. Estações de metrô sem escada rolante são um exercício de paciência. Subia muleta por muleta num desenho lógico.

Do alto de meus 29 anos, fiquei imaginando idosos ou demais portadores de necessidades especiais sem força nos braços para vencer essas dificuldades. A disposição necessária para fazer as coisas mais simples do cotidiano, e ainda contar com a compreensão dos demais. Pegar um ônibus, dependendo do motorista, é um esporte radical.

Na minha cabeça, assim como no atendimento ao público, pensava: todo mundo tinha que passar por isso um dia. É uma experiência que cauteriza a sensibilidade para a questão no mais tacanho dos cidadãos. Daí para imaginar que nossos políticos precisavam de um "estágio" assim foi um pulo...

Então lembrei do senador Cristovam Buarque. Obcecado pela educação, o parlamentar do Distrito Federal apresentou no ano passado um projeto de lei que obriga os filhos de autoridades eleitas pelo voto a estudarem em escola pública. O objetivo, claro, é fazer os responsáveis pelo país sentirem na pele a realidade do ensino público brasileiro. Uma vez provado esse gostinho, é possível que cuidem melhor de nossas escolas e professores.

Apliquei o mesmo princípio à minha situação. Nossos representantes deveriam ficar uns dois meses em cadeiras de rodas pra perceber as dificuldades que um portador de necessidade especial encara todo dia. Talvez assim pensassem numa política de acessibilidade total ousada na medida que deve ser. E com a prioridade que os portadores merecem, em vez de ficarem esperando migalhas filantrópicas ou interesseiras.

Pode ser otimismo demais da minha parte esperar que a insensibilidade política seja quebrada assim tão simples. Certo é que um metatarso me ajudou a enxergar melhor a questão, provocando o desejo de ajudar. Já começo por essas linhas, esperando combater a indiferença de quem, como eu, não costuma passar por privação física.

(Foto: Nelson Perez / Divulgação)

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Deixa o homem trabalhar

"Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido."

É o que diz a Constituição, e é o que disse o jurista Sobral Pinto num histórico comício na praça da Candelária, Rio de Janeiro, na campanha pelas eleições diretas para presidente. A frase é simples, categórica e não dá margem para interpretações dúbias. É aquilo ali e ponto final.

Cristovam Buarque sabe muito bem disso. E verbalizou a mesma frase emanada por Sobral Pinto de uma maneira muito mais atual e crítica:

"A reação é tão grande hoje contra o Parlamento, que talvez fosse a hora de fazer um plebiscito para saber se o povo quer ou não que o Parlamento continue aberto."

Os tacanhos de plantão já interpretaram as palavras do senador literalmente. Cristovam teve que passar o dia se explicando, dizendo que não propôs tal questão, mas externou de maneira didática e extrema a relação que o povo brasileiro tem com seus ditos representantes.

Vale lembrar que Cristovam é um membro do Parlamento. Não pode sequer ser acusado de legislar em causa própria. Quem conhece seu histórico político também compreendeu a didática, e sabe que ele não quis abortar a democracia pura e simplesmente. Luis Fernando Verissimo já disse que escrever com ironia é perigoso, e por isso ele hoje precisa dizer quando comete uma ironia, para que as pessoas compreendam as entrelinhas como devem.

É chocante como as palavras de Cristovam chocam mais os seus colegas do que os demais desmandos dos parlamentares. Uma casa com milhares de mordomias e cabides de emprego aprovados descaradamente, que suga o dinheiro público mais do que a crise financeira mundial. E vão se ofender com a opinião corajosa de Cristovam Buarque?

Se todo poder emana do povo e deve ser exercido em seu nome, o que fazer quando flagramos diariamente que isso não tem acontecido? Qual a razão de existir um poder constituído se o povo não faz parte dele nem representado?

Logo, Cristovam não cometeu um ato falho. Mas um ato dos mais verdadeiros que já se viu na atual podridão do Senado Federal. A crítica foi tão contundente que nem o eterno golpista Jair Bolsonaro saiu em apoio ao senador do Distrito Federal.

E olha que Cristovam sugeriu um plebiscito, isto é, um instrumento democrático para ouvir a voz do povo de maneira mais prática. Mas quem exerce seus mandatos públicos sem saquear o povo, como o senador, e sabe "tocar na ferida" para criticar os descaminhos do sistema político merece ser ouvido.