
Podemos enumerar a perder de vista as invenções do homem que trouxeram males à sociedade: bomba atômica e armas em geral, guerras, segregação, esquemas corruptos... Mas é preciso saudarmos a invenção que é o documentário.
Deslocado no tempo em relação ao objeto de sua investigação, o documentário tem a capacidade de fazer justiça e complementar o trabalho que o jornalismo diário por si só nunca conseguirá: falar com muitas fontes (a tempo), permanecer para ser visto e revisto, estar fora do calor do momento para analisar melhor o que aconteceu naquele período.
É claro que o documentário também corre o risco de cristalizar injustiças. Porém, na minha opinião, não é esse o caso de Simonal - ninguém sabe o duro que dei. Meus conhecimentos sobre o cantor dos anos 60/70 se resumiam a dois fatos: uma aparição no programa da Hebe e a fama de delator à época da ditadura. Recentemente o Burger, colega de trabalho e conhecedor musical eclético, me apresentou a um CD duplo de Wilson Simonal. Ali comecei a saber que foi excelente cantor, original, inovador, cheio de suingue na voz e no jeito. Gostei do que ouvi.
Mas só posso dizer que conheci Wilson Simonal após ver o referido documentário no festival É tudo verdade (com certeza entrará em cartaz nos cinemas, pois é produzido pela Globo Filmes). Contando com uma boa produção e edição - a parte gráfica é impecável - o filme mostra como surgiu Simonal e sua fenomenal trajetória, seu carisma com as massas de seus shows. Enfim, aonde o talento pôde levá-lo, sem deixar de lado a marra de quem já tinha sofrido na vida e julgava merecer a super volta por cima. E lá em cima ele estava quando surgiu a acusação de delator, após um episódio mal-explicado com o seu contador da época.
O filme mostra como Simonal era um artista impressionante e autêntico, e como um episódio em meio ao contexto extremista da ditadura (no qual muitos parecem estar até hoje) pôde manchar uma carreira. Mais que isso: manchar uma vida, com extrema mágoa. Como disse um dos diretores: "a anistia não veio para o Simonal". É de chorar o fato de que ele se escondia nos shows dos filhos para não prejudicar a carreira dos garotos.
Segundo o que vi no documentário, Simonal foi inocente nessa história. Marrento e meio inculto, mas inocente - ainda mais se levarmos em conta a desproporcional repercussão do episódio, atravessando décadas. Ele foi vítima de um lichamento midiático nada incomum nos dias de hoje (Artur da Távola dá um depoimento brilhante a respeito), um comportamento que os profissionais da imprensa não podem mais se sujeitar a fazer. Nem os espectadores aceitarem ou reiterarem, abusando da intolerância e do preconceito. Exemplar a galera do Pasquim admitindo seu patrulhamento, e suas conseqüências.
Justificando minha ode ao documentário, a partir desse filme está resgatada a história de Wilson Simonal. Eu pude conhecer a genialidade do cantor diante de uma platéia, admirar em tela grande e som digital a voz sem igual, testemunhar seus erros, seus dramas e seu legado. Além de mim, muitos poderão ter essa sensação (mesmo os contemporâneos dos acontecimentos), graças a alguém que teve a idéia de contar isso por meio de um documentário.
A impressão que se tem é que, mesmo depois de morto, Wilson Simonal vestiu o azul do filme, e sua sorte então mudou.