segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Arestas do referendo

Como você, eu não agüento mais. Não agüento mais os exaltados defensores do NÃO, nem os artistas globais defensores do SIM. Não agüento mais ter que desconfiar de tudo e de todos para tentar perceber o que está por trás do referendo, quais as reais intenções e as possíveis conseqüências de meu voto... Não falo aqui de alienação, mas de uma saturação que não gostaria de estar sentindo, mas sinto.

Os políticos não quiseram assumir esse ônus para seus mandatos e mandaram o povo escolher e também arcar com as conseqüências. Não quiseram esse desgaste das responsabilidades a assumir antes, durante e depois do referendo, e de repente resolveram exaltar a democracia. Nossos impostos públicos também pagam as milhares de vantagens e assessores descabidos, e nem por isso somos levados a decidir diretamente os destinos de tais verbas...

É o que o referendo está mostrando a todos nós, na verdade: a questão central não é o fato de andarem armados ou desarmados, se a violência vai aumentar ou diminuir, quem é conservador ou liberal. O que a experiência do referendo revela, antes mesmo do escrutínio, é a nossa adolescência democrática. Estamos na puberdade cidadã.

Nossa Constituição faz 18 anos, as primeiras eleições diretas, 17. Por mais precoce que um jovem possa ser, ele passa pelas crises de identidade, responsabilidade e maturidade. O fim da infância, embora ainda não tenha chegado à fase adulta. Dificuldade na hora de tomar decisões que trazem frutos para o resto da vida, terror ao começar a se dar conta de que fazer escolhas significa antes de tudo abrir mão de outras. A inabilidade inicial com as ferramentas que dispõe também é característico da idade.

E cá está o referendo, um instrumento de democracia direta (sem mediação de eleitos) em meio à nossa democracia representativa (com mediação de eleitos). Por que não usá-lo mais vezes? Por que tanta divisão - e desinformação muitas vezes - na hora de discutir e decidir? Como um adolescente que ainda não entende como funciona seus hormônios e ali estão eles, fazendo parte de seu corpo, somos nós com nossa democracia recente e exigindo que demos conta dela.

Levando-se em conta a baixa credibilidade de nossos representantes no Congresso e o desgosto de muitos pela política (agravado pela pasteurização moral do único partido que ainda apresentava-se como alternativa), a democracia teria direito de sobrevida? Chegando só agora à maioridade, estaria ela apta para lidar consigo mesma e com as conseqüências de suas ações?

É esse o contexto de nosso referendo. Nas eleições corriqueiras, muitos votam para em seguida esquecer em quem votaram, como se tivessem repassado rápido uma chata responsabilidade para uns poucos em Brasília. Tal e qual um inconstante adolescente, ficamos indignados quando os eleitos são flagrados nos deslizes de ética etc., a despeito de nossa irresponsabilidade ao votar.

Agora, para decidir se o comércio de armas continua ou não, discutimos uns com os outros sem perceber que o referendo é a melhor maneira de muitos políticos lavarem as mãos em público, para o público e fazendo o público sorrir pensando que conseguiram uma grande vitória. Tal e qual um adolescente, após essa empolgação toda podemos nos frustrar como ao levar o "fora" de um grande amor.

Afinal, o artigo divaga sobre democracia e referendo para chegar aonde? Não sei. Não é meu objetivo recomendar o voto no SIM ou no NÃO, embora ache que o leitor tem o direito de saber de onde me dirijo: voto SIM, por várias razões elencadas pela Frente Brasil Sem Armas. Mas a minha maior preocupação é que o referendo se tornou a nossa maior preocupação, e que ano que vem corre-se o risco de não termos a menor preocupação diante dos que não têm a menor preocupação com o sentido e a responsabilidade de um cargo público.

E teremos gastado toda a nossa energia e desejo de qualificar o debate e depurar nossa crítica somente quanto às armas. E seguiremos desarmados politicamente e prorrogando nossa adolescência democrática para que nossos supostos tutores em Brasília nos confundam ainda mais em nossa identidade como nação.

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Severino Cavalcanti, homem do povo

Ah, Severino... Você pensou que o conto de fadas duraria para sempre? Pois é... Imagino que sua cabeça esteja dando voltas, sem entender direito esse episódio de seus 40 anos de vida pública. Como espectador atento tentarei te esclarecer despretensiosamente, apenas pela consideração com o homem público que você (por enquanto) é.

Lembra, Severino, que em governos anteriores você sempre se candidatava à presidência da Câmara dos Deputados? Chegou a ser primeiro-secretário, mas quando a eleição era para o terceiro homem da República você chegava sempre em quarto, quinto lugar. O chamado "baixo clero" sempre te acompanhou, mas não era suficiente. E a imprensa te dava uma linha nas páginas para depois esquecê-lo com gosto (saudade desses tempos, Severino?).

No entanto, em 2005 a coisa mudou: a base aliada ao Governo estava dividida (algum dia esteve coesa?), o mesmo partido lançou dois candidatos à presidência da Câmara, os oportunistas de sempre alojavam-se em quem convinha melhor. O resultado era imprevisível, mas não tanto quanto foi de fato. Na antevéspera da eleição muita gente mudou seu voto pré-declarado e pronto: você, Severino, era o novo presidente, depois da milésima tentativa.

Você não estranhou que a imprensa sequer mencionou seu nome nessa antevéspera derradeira? Que nunca foi cogitada a possibilidade de você emplacar, Severino? Talvez você não estranhasse o silêncio da apuração jornalística quanto à sua candidatura, mas hoje eu estranho... Enfim: você e o baixo clero mal podiam acreditar que estavam no poder, finalmente. Nem vocês nem o resto do Brasil, boquiaberto.

E você foi um político coerente como há muito não víamos: quis colocar em voga tudo o que pregava antes, a começar pelo aumento constante dos vencimentos dos parlamentares. Você não entendia quando muitos dos que te elegeram se mostraram receosos com decisões assim. Mas não foi pra isso que te elegeram? Acho que não, Severino...

Por que tanta perseguição a você agora, Severino? Por que todos de dedo em riste quanto a sua trajetória política, que não mudou após ganhar a eleição? Por que essa indignação tardia? Será que ela sempre existiu de fato, Severino? Respire, reconheço que é difícil de entender.

Fato é, Severino, que você já cumpriu sua missão. E foi descartado no momento que convinha. Para tirar por impeachment quem foi eleito (presidente e vice), ia sobrar pro terceiro homem da República assumir essa joça. Quando viram que essa oportunidade esbarraria em você, Severino, aí eles viram que foram longe demais.

E tome cheque surgindo (logo agora?), denúncia de propina (logo agora?), acusação de corrupção quando você era primeiro-secretário (logo agora?)... E olha que incrível: a imprensa que nunca te deu bola não saía mais do seu pé. Chegaram a anunciar sua renúncia em capas de revista, como que decretando sua decisão posterior. Premonição ou pressão? A primeira é difícil dizer de onde costuma vir, já a segunda...

E você ainda tentou alertá-los, Severino... Aquele umbigo de fora ao comemorar sua eleição já dizia tudo, e eu fiquei fascinado com sua sutil crítica via jogada de marketing. Você dizia a todos que os parlamentares só olhavam para seus próprios umbigos elegendo alguém como você, que o Brasil era pretexto para a farra de Brasília. Ninguém reparou nisso, né, Severino?

Ninguém reparou também que cassar umas dezenas de envolvidos é inútil. Adianta matar o mosquito da dengue e deixar os focos, as possibilidades de novas investidas? Não, qualquer dona de casa sabe que não adianta.

Aqui estamos nós, Severino, você bem pertinho da gente - o que eu achei valoroso de sua parte ao renunciar. Agora você está condenado ao desprezo, esquecido em seus interesses, enganado quanto às promessas a você feitas. Exatamente como os eleitores de nosso país. Isso é que é político com "cheiro de povo".

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

Sandy estava num outdoor

Sandy estava num outdoor, chamando a atenção para uma propaganda, como sua fama a guia. Pulava sobre um automóvel, e eu da janela de meu ônibus (na condição de passageiro e não de proprietário, obviamente) reparei pela primeira vez em seu sorriso. Não vi se era bonito ou sincero, somente reparei. O ônibus fez a curva e meu raciocínio seguiu junto.

Sandy saiu daquele outdoor e foi pra casa. Foi ver TV, ouvir música, ler alguma revista, tirar uma soneca depois do almoço. É uma Sandy diferente da Sandy da propaganda? Vai saber... Mas ela não pode colocar os pés fora de casa. Nada de ataque de fãs, nada disso. Sandy sai de casa, porém condicionada. Sandy é uma máquina.

Sandy não pode acordar de mau-humor e assim sair de casa, ou triste por algum outro motivo pessoal. As capas não dormirão no ponto, e estamparão o diagnóstico: "Sandy em depressão". Sandy não pode brigar com o namorado (não poderia sequer namorar, ao menos como a Sandy de dentro de casa), pois as capas exortarão: "Sandy e Fulano: será o fim?". Sandy não pode falar palavrão, não pode desabafar diante da possibilidade de uma câmera. Sandy precisa sorrir pra pular no automóvel.

Sandy faz shows, sessão de fotos, vai cumprir o contrato global e surgir alguns minutos na telinha, Sandy convocada para a telona, Sandy suspeita de silicone, Sandy Lolita quase nua, Sandy talvez na carreira independente, Sandy címbalo sexual-midiático, Sandy a boa filha, Sandy a inspiração, Sandy e a Melissinha, Sandy e as crianças, os adolescentes, os adultos.

Sandy volta pra casa. Extenuada? Vai saber... Sandy deve adorar colocar os pés em casa e ser a Sandy que sempre sonhou, que ironicamente é a Sandy real, a Sandy que nunca estaria nas capas. Não por ser má pessoa, mas por não ser a máquina que todos precisam e almejam encontrar a cada 15 minutos de fama, renováveis. Sandy olha no espelho e vê espinhas, olheiras e a maquiagem desfeita. Sandy deve sorrir um sorriso diferente do outdoor e deitar na cama que, por enquanto, não possui uma câmera à espreita. Sandy no Big Brother? "Interessante, ainda não havíamos pensado nisso...".

Sandy, a máquina, violenta todo dia a Sandy normal, com o consentimento de seus pais, seu irmão (máquina, idem), sua conta bancária, seus luxos e sua obrigação em se dizer feliz, para alegria do mercado editorial mais rentável. Sandy normal é... normal demais, mito de menos. Sobreviva o mito, tripudiando da humanidade. Sandy humana perde feio, deve doer, mas segura o sorriso até chegar em casa.

Pela primeira vez reparei no sorriso de Sandy. Não julguei nada, sequer sei dizer se era bonito, feio ou oportuno. Mas reparei. Sandy sorrindo é triste, pois não oculta a máquina. Sandy não está sozinha nesse mundo canino que se quer de fadas, o que é um consolo para a Sandy de dentro de casa. Migalha de consolo.

segunda-feira, 4 de julho de 2005

A janela de Roberto Jefferson

Eu tentei fugir, mas ficou extremamente difícil. Cheio de compromissos acadêmicos de fim de curso, deadline para textos em outras publicações, meu blog e meu espaço no site Opinião Pública (link ao lado) relegados a último plano... Mas não teve jeito: contra todas as exortações da prudência e atendendo a anseios que vêm à tona, preciso ser mais um a falar dos (recentes) escândalos de Brasília.

O que mais me chamou a atenção nessa longa jornada em que o Governo atola-se há um mês não foram as denúncias (graves, sem dúvida) nem a decepção com certas práticas que julgava estarem muito distantes do PT, mesmo no poder. A imagem que me saltou aos olhos foi a da janela de Roberto Jefferson.

É incrível como o deputado, acusado de comandar esquemas de propina, recluso com seus advogados e não dando entrevistas, mantinha sua janela aberta ao público. E aos jornalistas, claro: sempre saindo nas primeiras páginas. O dúbio parlamentar fazia questão de manter sua privacidade... com o janelão aberto?

A janela era profética. Nós é que ainda não havíamos entendido.

Desde seu primeiro depoimento na CPI, Jefferson transformou-se na ironia encarnada: convocado como réu, portou-se como promotor de justiça; encaminhado ao curral dos bodes expiatórios, por meio de uma sinceridade profunda e cínica nivelou-se por baixo arrastando todos os seus pares, até então à vontade com as pedras em riste; sem apresentar prova alguma, praticou retórica e balançou a estrutura do poder: já não se conta nos dedos de apenas uma mão quem saiu do Governo ou, no mínimo, foi envolvido nas acusações de Jefferson.

Réu confesso, antes de tudo. No entanto, a amplitude de suas denúncias, o lugar de onde as projetava - o olho do furacão dos governantes da vez, como sempre marchou desde que entrou no Congresso - não deixava dúvidas: enlameado, porém não sozinho. De quem sempre se esperou tais práticas surgem as inesperadas metralhadoras contra aqueles de quem nunca se esperava manchas tão significativas.

A partir daí, roda, roda e avisa: CPI aqui e ali, indignação súbita, moral em alta na baixaria inconsciente etc etc etc. E o que Jefferson ganha com isso tudo? Outra entrevista na Folha de São Paulo; entrevista no Roda Viva; entrevista no Jô Soares. Falamos de Ronaldinho, Roberto Carlos (o cantor), ou de algum outro ícone propício aos palanques acima? De um balcão da Comissão de Ética, passando pela CPI que o acusava (também), Jefferson é convidado a torto e a direito para lugares que emprestam sua credibilidade a um suspeito-mais-que-suspeito.

Os jornais alardeiam: já temos um novo PC, os novos traidores da pátria, mar de lama again. É preciso cobrir tudo isso, claro. Mas os mesmos órgãos de imprensa que nos trazem o Apocalipse atual tentam acalmar: a economia não se abalou, o presidente não está envolvido, o Brasil segue caminhando, apesar de tudo. Agora fiquei na dúvida: é mesmo a maior crise dos últimos tempos? Ou não é? Hein?

Roberto Jefferson colhe, com gosto, o que plantou no seu apartamento: pensávamos que era ele a bola da vez, que ele estava encurralado, vigiado 24 horas por dia pela opinião pública via mídia, mas todos esquecemos do principal: quem abriu a janela foi ele. Jefferson poderia ter fechado a janela, mas não o fez. Ele sabia que ali fora estariam câmeras, fotógrafos e tudo o mais caindo na sua infantil armadilha.

E isso se repetiu depois. Sabe-se lá por que, todo o país e seus porta-vozes entraram pela janela de Roberto Jefferson sempre que ele permitiu. Homeopaticamente, foi lançando suas versões - muitas vezes contraditórias, mas quem lembra desses detalhes no meio do fogo ardente? - ameaçando ter mais munição, espertamente inocentando o mandatário-chefe, porque Jefferson não é bobo. Nem da corte, embora pareça.

Que investigação existe? Que questionamentos aos delatores? O que há é uma janela aberta por alguém, e toda vez que essa janela se fecha, é preciso chamar Vossa Excelência a abrir de novo. Uma janelinha na TV Cultura, outra (repetida) na Folha, mais uma - dessa vez mais informal e divertida - na Globo. Nas sérias CPIs, todos se debruçam na janela retórica de Jefferson, que sai rindo de todas as sessões, sabemos sim porquê. É o gozo da vitória, é o orgasmo de quem tem todo um país na mão.

Foi só abrir a janela.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Agora

Três anos, em março. Uma parte definitiva de vida que operou pelo contraste do que sou e do que estou, do que faço e do que aspiro. Por três anos provações foram minha sobremesa diária após o expediente - ou durante, sendo mais fiel aos fatos reais. O ofício ao mesmo tempo escolhido e descartado: um concurso feito antes do vestibular, a certeza de um dia sair, em busca da vocação encontrada.

Em busca da vocação encontrada. Repito por conseqüência da teimosa revelação que me cercou por três anos, sem trégua ou acomodação. Enquanto as finanças prosperavam e o prestígio/reconhecimento em vida profissional se mantinham na ascendência, o dissabor do sabor interno de realização era amargo. Ali estava, com a certeza tantas vezes confirmada de que não era para ali estar, de que era preciso aspirar sem apenas suspirar. Correr.

E chegaria a estas linhas de outra forma? Sem a provação, como já disse, do praguejar pragmático contra a poesia possível (por que não?), chegaria até a retrospectiva dos três anos com tanta maturidade? Não. Não olharia pra trás com orgulho do aprendizado e das cicatrizes, marcas de expressão pra me relembrar que preciso me expressar. A mim mesmo antes de a qualquer outro, a fim de completar os ciclos, sair do que o concurso me proporcionou, que não era a busca da vocação encontrada.

Encontrada e fiel, não posso agir diferente. A coerência é um chamado, e eu aqui respondo, me publicando contra a minha racionalidade. Se pensasse bem, anotaria num bloquinho pessoal essas conclusões pessoalíssimas sobre profissão e chamado de vida. Mas faço parte do público: estou na primeira fila, aguardando mais do que ninguém o início do espetáculo há tanto anunciado. Ainda que comece timidamente, não remunerado, irregular. Que comece logo a existir, pra que não nasça abortado.

Por soberana ironia, o ofício me levou à enfermidade do tendão, o mal do século eletrônico. E o que já se revelara um obstáculo por meio de suas bondades - sua estabilidade, seu vil metal em boa hora, suas promessas de encarreiramento invejado - ainda atravancava a busca da vocação, agora encontrada. A pseudo-impossibilidade de não teclar, de não expressar, de não vazar, de não parir (abortar?), de não publicar. Rasgava-me sem direção: uma pausa para melhor trabalhar no que não era eu? A cura que nunca vem, maneiremos no uso do PC. Como maneirar o que transborda na gente?

A coerência é um chamado e eu aqui respondo, com umas pontadas acima do punho e no meio do antebraço, prestes a pegar o diploma, na expectativa de largar abismo abaixo o saco de bondades para subir ao cume da vocação encontrada. Três anos se passaram e bem mais que vinte e quatro podem vir, mas hão de vir ao lado da vocação encontrada, que vem na hora boa, a do horizonte permeável à construção do que se quer, do que se almeja, do que se romantiza sem alienação. E que se concretiza, pela graça de Deus.

terça-feira, 8 de março de 2005

Nadar é preciso. Ou precisamente nada?

"Se eu pudesse contar..." é o título de uma música meio antiga, que são minhas palavras hoje. Se eu pudesse contar o que é ter aula de natação após um longo período sedentário, eu contaria. Mas não tenho fôlego, as pernas cansam logo e pior: o molequinho de metade do meu tamanho me vence no crawl.

Já achava péssimo diagnosticar tendinite e escoliose de uma só vez (será que estou em vias de me aposentar, carregando comigo ites e oses?), e configurando-se em cura vem a natação, o pior remédio. É aquele gosto ruim, de uma só talagada, mas sem o qual não melhoro. É só nisso que penso quando paro no meio da piscina, pedindo pelamordedeus que acabe rápido. Professor, que horas são? Na verdade, não tenho coragem de perguntar. Na verdade mesmo, estou cansado demais, e com água no nariz.

Percebi que a aula foi um soco na minha auto-estima. "Você não sabe nadar, não sabe respirar, não se exercita regularmente, agora sofra as conseqüências!". Como muitos relatos dos que escaparam da morte numa fração de segundo, minha vida passa diante de mim e eu me recrimino pelos desprezos atléticos de outrora. Chego à outra margem, olho onde penso que estão os olhos do professor - ele está de óculos de sol - e penso que ele comanda minhas penitências, vestindo a capa de incentivador só pra ser politicamente correto. Neurose minha? Pode ser, entrou muita água no ouvido...

Vamos ouvir o outro lado, como manda o bom jornalismo. O disseminado culto ao corpo nos atrapalha na busca da saúde ideal. Não temos noção se queremos apenas manter um organismo saudável ou ser esbeltos pra não fazer feio - literalmente. Por trás da multiplicação das academias está a tão famosa ditadura da beleza, que desestimula aqueles que sabem que nunca irão consegui-la. Assim sendo, pra que se manter saudável? Pra ter uma aula de natação que me derrube emocionalmente? As batatas fritas, o sofá e a TV me dão mais alegria e (aparente) recompensa.

Quero passar longe do melodrama, mas deixar os leitores próximos de minha tragédia grega nas águas. As "barrigas de tanque" saíram do campo doméstico para a confissão de fé das baladas e "pegações", desnorteando quem tenta sobreviver em meio à lógica do consumo exacerbado - de coisas e pessoas. Estou no meio disso tudo, sem poder fugir da raia. Talvez aquele molequinho me ajude.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

Reencontro outra vez

"Não sou rico, não sei jogar bola, não sou bom de porrada. Estudar é a minha maneira de chamar atenção." (*)

A frase me atingiu como uma flecha impiedosa. Cai na armadilha da identificação, que adora nos surpreender com o que já somos. Das linhas sai o impacto do se ver naquela descrição. Não adiantava olhar pro lado e disfarçar. Era comigo, era interno, restava-me suspirar e admitir que a frase me despiu.

Daquele jeito foi boa parte da minha vida escolar: sem muito luxo, mas com o suficiente para ir à aula em dignidade. Sempre renegado nas peladas do recreio, o menorzinho que olhava o corre-corre dos grandões, craques que nunca se cansavam. Eu corria, mas das brigas antes delas começarem. Tinha noção de minha fragilidade física, não arrumava nenhuma encrenca e por vezes tentando apaziguar algum desacordo para comigo me sentia meio otário. De repente, um soco de repente faria um bem tremendo pra mim! Mas e a advertência, a suspensão, a reputação, o futuro? Pra mim, a ameaça era séria e fazia meu sangue estancar.

Restava-me sentar na frente, copiar do quadro com rapidez, (tentar) ser um dos melhores alunos. O azul do boletim compensava tudo na minha auto-estima. Nunca tive paranóia de notas altas, mas terminar a prova rápido, naturalmente, sem me apressar, e ser o primeiro a sair de sala dava-me um ar de superioridade em relação aos demais, principalmente a todos que me espancavam emocionalmente.

Se queria também chamar a atenção, não sei dizer. Também nunca aspirei a intelectualidade, embora muitos me encarem assim. E o pior é quando encaram uma superioridade que não existe, intimidatória. Não sou mais criança, e não quero a distancia que precisei obter na escola. Ninguém é melhor ou pior por ser estudioso, craque, zelador ou papa de qualquer coisa. Apenas encontrei meu canto, regado ainda na infância: em meio aos livros, quem sabe um dia parindo um deles.

Mais do que estudar, escrever foi o movimento compensatório definitivo, que me encurralou desde a pouca idade. Movido por lembranças e esperanças, a ponta da caneta fica tonta e as linhas me chamam. Sinto-me mais à vontade do que em qualquer ambiente familiar, percebo que fui gerado pra assim ser e agir: escrevendo, Tirem-me isso e estarão me despedaçando. Estarão me seqüestrando de volta aos recreios intermináveis nos quais eu era preterido, às fases de minha infância que tento apagar traçando letras. Ou reescrever, no melhor propósito do verbo, olhando com olhos mais maduros o que aconteceu em minha imaturidade que fornece para meus 24 anos temas-chaves de vivência. Inegáveis.

Tenho cérebro, coração, mão e necessidade. Minha sede enorme riscando papéis com gosto, sem pretensões. Já quis ser escritor-prodigio, produzir textos aos 16 que se universalizassem e me conduzissem a qualquer tipo de ABL, com ego inflacionado. Hoje descubro que isso é babaquice, que a única coisa vital é me expressar sem ressalvas. É vão negociar com o espaço-tempo vigente a prioridade que o ato tradutório de escrever deve significar para mim. É levar flecha e ainda moribundo lançar outras de volta, mirando apenas no espelho, nada mais. É reler e ser flechado de novo.

Que ninguém encare como uma definição que aspira ser definitiva: mas escrever é ser persistente consigo mesmo. E ai de mim se me negar essa chance.

(*) Trecho do livro "Chove sobre minha infância", de Miguel Sanches Neto.

sábado, 27 de novembro de 2004

Nossos rumos em nossas entrelinhas

Pra lá. Pra cá. Upa, quase que ela cai! Sai do balanço, corre pra jogar a bola, o pai sempre perto, pra brincar junto e dar segurança. Riso fácil e farto, naquela espontaneidade de quem acorda e é sempre feriado. Pés descalços, pois ali é lugar santo, fase santa da vida chamada infância. Recompensa da vida chamada paternidade.

Tirai da minha frente os estereótipos míticos desse tema. Quero ter a percepção pura e simples, pro resto da vida, do que é curtir o filho (ou a filha). Estou sentado lendo algo distante de tudo isso, rascunhava outras linhas igualmente remotas, quando fui capturado pela cena. Um balanço, uma bola atirada pra lá e pra cá, nenhuma fala. Apenas satisfação legendada subjetivamente.

Vez por outra eles me olham, e preciso disfarçar. Volto a escrever sobre o que os dois me proporcionam, mas a tinta do coração vai secando e preciso olhar de novo. Paro, olho em volta, ouço o forró da Feira de São Cristóvão, o pagode de turistas gaúchos do outro lado da rua, encaro o dominó de uns caras mal-encarados. E retorno à paternidade expressa em viva vida.

A mãe chega e vira figurante do espetáculo promovido por pai e filha. Quase espectadora, sorri, como eu faço por dentro. Resolve também participar das brincadeiras e aí está, idilicamente, o exemplo de família feliz. Óbvio que não os conheço nem sei seus problemas, particularidades, defeitos, frustrações e demais chamados realísticos. Mas sou grato por me permitirem esses caprichos da imaginação em perspectiva.

Eles vão embora, cansados de tanta plenitude. Aproveitaram o feriado, e eu também. Fui acolhido temporariamente por aquela família, principalmente pela filha e seu pai, que me encorajaram a um dia fazer o mesmo. Nesse 15 de novembro proclamei a República Hereditária em meus sonhos. Pegando em armas genéticas, quimicamente misturadas em amor, projetando meu futuro que já começou naqueles instantes.

quarta-feira, 10 de novembro de 2004

A cruz da questão

- Evangélica, eu? Deus me livre!

O que não faz muito tempo seria uma curiosa contradição, nas palavras da cobradora do ônibus parecia lógico. Ainda mais diante dos exemplos de "gente de Deus" conhecidos publicamente. O evangélico Bush, reeleito para seguir com seus genocídios a bel-prazer. A evangélica família Garotinho, cometendo todos os possíveis e prováveis crimes eleitorais. Os evangélicos bispos-parlamentares envolvidos em corrupções sacrílegas para a nação. A bancada evangélica no Congresso, insípido sal, verdadeira mesma farinha. Desse jeito...

Desse jeito sinto-me deslocado sabendo que estou onde devo estar. Que a despeito dos exemplos na mídia, carregados de má fama, faço parte desse grupo. O IBGE me classifica sem meio-termo: evangélico. Sou e me espanto com o quadro acima, incluindo a ofendida resposta da cobradora. Sinto-me estranho, por perceber que pertenço a um grupo que parece cada vez mais distante de sua origem, o Evangelho. E tremendamente constrangido quando figuras do tipo dizem que falam em meu nome.

Cientistas sociais, antropólogos, teólogos, pesquisadores de religião. Todos eles, vez por outra, surgem para explicar o "fenômeno evangélico brasileiro". Um crescimento populacional que já chega a 30% dos 180 milhões. Estou vendo de perto, estou lá dentro. O assunto não sai da moda, pois viramos nicho de mercado, peso político, massa de manobra.

Mas o incômodo surge porque, de fato, não tenho voz, vez, representação, nada. Nem eu nem boa parte de meus companheiros de jornada, pois fugimos do rótulo de "religiosos" como o diabo da cruz. Muitos de nós (que não aparecem na mídia) não se identificam nem um pouco com esses ditos representantes. Somos críticos, discordamos da práxis e percebemos, melhor do que quaisquer outros, o oportunismo flagrante a respeito de coisas tão sérias e profundas como a palavra de Deus.

Pior: flagra-se a distância de Cristo. Se tento, junto a meus irmãos de caminhada, buscar um compromisso fiel com Aquele que um dia nos alcançou nas entranhas, sem convencimento argumentativo ou propostas de prosperidade, não é nos públicos pseudo-expoentes da fé cristã que encontro exemplos a seguir. É preciso que isso seja dito. Eles estão sozinhos, ainda que com uma cega multidão os elegendo aqui e ali. Estão todos sozinhos, sem perceber. Sem perceber que, quando se fez homem, o próprio Jesus fez diferença (pra melhor), e que nunca coadunou com os poderosos de seu tempo em troca de benesses para sua causa, nunca se alienou de seu contexto social. Nunca.

É esse Jesus que eu e muitos amigos seguimos, e que fique bem claro, bem público, bem conhecido aos que me lêem. Que é o genuíno Jesus, que não negociava valores do reino de Deus por nada desse mundo, que é motivado por amor para transformar os corações, que deixou sua Palavra - a Bíblia - para ser instrumento de cura e não de lei implacável. Que seria crucificado novamente por Bush e cia.

Não serei conivente com esses auto-proclamantes evangélicos. Não dá pra ficar calado, consentindo. E não me orgulho de ser religioso, protestante, evangélico, crente ou qualquer outro carimbo socio-ideológico onde queiram me enquadrar. Sou cidadão do mundo, antenado na vida, pés no chão, olhando para o Alto, procurando compartilhar a todos, por todos os meios possíveis, o que preenche nossa existência com significado pessoal e ad eternum. Sabendo de minhas limitações, mas certo de quem é, de fato, o Todo-Poderoso de Todos os Tempos. E que Ele se achega de maneira mais simples do que podemos imaginar.

domingo, 24 de outubro de 2004

Exílio

Minha casa está em obras, e dela não posso sair. Desejava morar num "abrigo temporário" até que a poeira baixasse de maneira literal, mas não dá. Preciso habitar no canteiro enquanto as metamorfoses do concreto avassalam. Enquanto isso, me teletransporto para depois do AI-5 e sinto todos os paladares do exílio. Em meu próprio quarto.

O quarto foi o primeiro na ordem artificial das coisas. Quebra-quebra, pintura, crescimento demográfico e reorganização social (volto a dividi-lo com minha irmã), novos componentes móveis, novo quarto. Meses se foram e agora me deleito no melhor momento de qualquer obra: quando ela já acabou.

Acontece que obra é coelho insaciável, já procria naturalmente e ainda recebe "Viagra" dos patrocinadores. Findos a sala, o outro quarto e a cozinha, é hora de brotar uma suíte e um escritório, lápides do quarto de empregada (que Deus o tenha, porque empregada mesmo nunca tivemos). Evoque-se Tim Maia, o que eu quero é sossego. Vá embora, não me amola, boa obra. Mas ela não vai. A furadeira na trincheira, o seguidor martelo e barulho, muito barulho. Poeira, muita poeira. Amargor, muito amargor.

Meu quarto é meu refúgio. Quase tudo o que preciso para minha sobrevivência cultural está lá. Tento interagir com a sala e a TV, com sofrer chego ao banheiro e à cozinha. É difícil. Por toda a casa, apenas o idioma da desordem (que precede o tal deleite que já falei, me chantageando sem piedade) e da poeira. Muita poeira.

É demais pra minha alergia. As portas do meu quarto são fechadas com força. À força. Lacro-me de todo o resto da casa e ao trazer o prato do almoço para a escrivaninha dos meus papéis, percebo o óbvio terrível: estou exilado. Em meu próprio quarto, em minha própria casa, em meio a minha família. Exílio irônico, que só podia acontecer comigo, refém predileto da mordaz ironia.

Quase choro de saudades da minha terra, que vai se transformando - e ainda que me permita testemunhar sua mutação, isso não me satisfaz. Estou preso a ela, paradoxalmente quero ir embora e não posso. Meu exílio é tão imóvel quanto minha casa. E tão destruidor quanto os de 40 anos atrás. Quero voltar, mas nem fui! Nesse momento estou numa biblioteca a quilômetros do meu bairro, e me sinto mais à vontade do que em meu quarto.

Quero minha casa - meu campo. Onde eu possa rever a mim mesmo, meus livros, meus discos e tudo o mais. Anistia, ainda que tardia!

domingo, 17 de outubro de 2004

Fernando Sabino, tudo a declarar

"Não se escreve impunemente, seja qual for o assunto, pelo menos quando se trata de escrever sobre o que não sabemos, justamente para ficar sabendo e nos conhecermos melhor, como acontece comigo. (Fernando Sabino, "Com a graça de Deus")

Como acontece comigo.

Recebi a notícia mais triste de 2004 sem saber como recebê-la, o que me causou uma anestesia inicial involuntária. Escrevia uma bem-humorada esquete teatral e me preparava para o feriado de 12 de outubro. Não sabia que seria aniversário de Fernando Sabino. Seria.

Não me choquei, não me entristeci demais, não chorei, não fiquei indiferente. Apenas não sabia como ficar. Não sabia o que sentir. Não estava pronto para não estar pronto. O dia seguinte foi escolhido para devorar os obituários, relembrar tudo o que eu já sabia sobre meu "pai nas letras" e lamentar uma perda irreparável não só para a literatura brasileira como para mim. E vida que segue. Faz parte.

Dia 13 de outubro, caça em sebos. Seis livros clássicos de Sabino numa média de cinco reais cada, ótimo negócio. Não me senti mal por essa gana de completar minha coleção após sua morte. Só não queria correr o risco de perder a oportunidade para demais órfãos em busca do espólio intencionalmente deixado por Sabino. "Se não foi publicado então não presta", dizia ele, ao explicar porque desengavetava tudo quanto é manuscrito até os últimos momentos em vida.

Pensava eu que estava tudo nos conformes. Agora era só gravar a entrevista que ele deu a Roberto d'Ávila há sete anos (e que seria repetida oportunamente nessa semana) e pronto: meu trabalho como fã de carteirinha estava completo. Mas eu era muito mais que isso, e ele era muito mais que um ídolo ou um escritor a se admirar. Só que eu não sabia da profundidade de todas essas coisas até ler o trecho em epígrafe neste artigo.

Em meio à adolescência, ler Fernando Sabino mexia comigo em dois aspectos. O primeiro: com que simplicidade ele escreve sobre coisas simples, sem ser simplista! O segundo, e derradeiro encurralamento vocacional pro resto da vida: será que eu também consigo...? Não foi nenhum espírito pretensioso que se apossou de mim para fazer tal raciocínio. Nunca desejei suplantar Sabino em sua genialidade de cronista. Era apenas uma janela da alma, escancarada, que me permitia avistar a expressão que já vinha. Posso eu, como Sabino, narrar as curiosidades simples de meu cotidiano por meio da crônica, correndo até o risco de ficar bom? Era como se ele respondesse com outra pergunta: "por que você não tenta?".

E assim começava o meu diálogo filial com Sabino, sem nunca termos nos conhecido pessoalmente. Seus porta-vozes eram diretos (as crônicas que tiravam as palavras de minha boca, deixando-me estupefato) e indiretos, principalmente nas aulas de redação. A ponto de, após conseguir o grau máximo numa prova de até 30 linhas, receber ao lado da nota o lembrete: "Não precisa escrever igual a Fernando Sabino!". Era ele me lapidando, dizendo que até então eu não tinha criado nada: o cotidiano simplesmente acontecia e minha narrativa copiava a dele. "Seja escritor, garoto! Ao menos, tente com mais coragem!".

Então surge o luto. Enquanto escrevia sobre Fernando Sabino compreendi melhor o que aconteceu. Aconteceu que ele não está mais vivo, aconteceu que estou órfão, aconteceu que doeu. Como na epígrafe, agora me conheço melhor.

A identificação que havia entre eu e Fernando permite agora que eu o chame pelo primeiro nome. Como eu, parecia não censurar a si mesmo nas crônicas. Ele estava nelas, seja em primeira pessoa ou pessoa escondida, mas era ele. Era tudo dele, tudo ele. Eu também, Fernando. Que negócio é esse que se apodera da gente e não sossega enquanto não transformamos em escrita? Que nos convoca à personificação temperando com emoção vivida as letras frias no papel? Que espírito, que chamado, que coisa!

Mas Fernando, te ler agora é como receber seu seguro de vida. Uma grana que veio em boa hora, mas a que custo? A custo de seu desaparecimento? De seus livros terem agora somente reedições? De não poder mais conversar contigo por meio das suas crônicas e de meus artigos? Seguem em mim, Fernando Sabino, as marcas de seu exemplo, talento, capacidade de se desnudar literariamente a desconhecidos de todo o país, de seu recolhimento para que a obra fale mais alto, e pela gente. Não queremos ter cara, apenas veia aberta no papel.

Fernando, sem você e Drummond, não tenho mais isso. Mas o outro mineiro faleceu quando eu tinha apenas sete anos, bem antes de começar a escrever. E nunca fui muito de poesia, só me arrisquei nas crônicas. Como você. E você, Fernando, me acompanhou desde o início, sem saber. Agora me sinto sozinho, meio desamparado, tendo que seguir sem meu tutor no inescapável caminho das letras. Agora a ficha caiu, cinco dias após sua morte.

Você não está mais aqui, Fernando, então por que me dirijo a você? Talvez porque eu não conheça outra maneira de tornar pública a nossa cumplicidade privada, a não ser por essas palavras dolorosas, francas e desabafantes. Talvez por não ter buscado te dizer isso em vida - meu Deus, que dor.

Nunca houve (nem há) em mim a intenção de ser escritor ou de galgar condecorações humanas. Apenas o transitar da mente para o papel, via coração, vida elaborada, encontrando assim um dos significados de minha existência terrena. E foi Fernando Sabino quem me ensinou. A gratidão é eterna. O luto é denso. A saudade, permanente como uma estátua a homenageá-lo. A motivação para prosseguir escrevendo, tão vigorosa e sincera como minhas lágrimas de agora. A alegria de ser seu filho, renovadora como encontro marcado.

Fernando Sabino, predestinado a me predestinar para a escrita.



quinta-feira, 7 de outubro de 2004

Impopularidade autêntica e assumida

Meu mau humor me encoraja. É ele quem (com o perdão da expressão chula) me dá os "colhões" a mais que me permitem enfrentar com veemência e sem tanta reserva o que me incomoda. Só de ter escrito uma expressão dessas logo na segunda linha demonstra o que quero dizer.

Minha alergia me guia ao mau humor. A paciência se esgota na proporção do nível de poeira, da multiplicidade de espirros (que sugam minha energia) e nas inconvenientes e reincidentes corizas. Nenhum remédio parece fazer efeito, os lenços acabam antes do necessário. Sou tolhido de minhas necessidades básicas e importunado em relação a outras - concentração para ler, disposição para escrever - me levando de maneira inevitável ao mau humor.

De mau humor não admito que me atendam mal na lanchonete, e dou as costas para não pagar por um mau serviço. De mau humor não aceito o santinho de um político crápula, e se ele ali estivesse, diria na sua cara: "clientelista!". De mau humor, estar sozinho é estar mal acompanhado; acompanhado, é pessimamente acompanhado. De mau humor, o murmúrio é o idioma oficial, e reivindico involuntariamente um exílio justificável.

De mau humor não há mascaras, sejam as hipócritas ou as necessárias para um cotidiano bem educado. De mau humor minha cara se auto-define, e passem ao largo os discordantes. Assumir sem rodeios o que está sentindo no momento, numa "autenticidade em neón" com o risco de machucar. Essa é a encarnação da coragem que o mau humor me proporciona. Colhões.

De mau humor enumero meus inimigos mentalmente e da mesma forma realizo crueldades com eles. Normalmente eles merecem, mas meu senso piedoso sempre dá um jeito. A menos que eu esteja de mau humor. Imagino-me humilhando cada um deles com irrefutáveis argumentos, desconstruindo seus defeitos em público, e nem me passa pela cabeça que façam o mesmo comigo. O mau humor é insuportável para seu portador, por isso ele não vê outra escolha senão pseudo-atravancar os que pseudo-atravancam seu caminho. É democraticamente insensato, suicida e psicologicamente demolidor.

De mau humor eu não me agüento, e me agüentaria menos se não escrevesse sobre isso. De mau humor faço um texto mau-humorado como esse, sem me preocupar tanto com possíveis leitores. É preciso dormir e deixar o estopim alérgico arrefecer, para retornar de cara lisa com o diplomático teatro nosso de cada dia.

quinta-feira, 30 de setembro de 2004

Palavra!

"Há coisas que a palavra não alcança". A frase, dita por um professor da faculdade, não trazia uma idéia inédita para mim. Ainda assim, me impactou. Novamente. Ele falava de uma experiência física que viveu (foi lenhador por um dia!) e da dificuldade em traduzi-la para a linguagem, seja verbal ou escrita. Consegui captar o sentido daquela afirmação, e me incomodei.

Alguns amigos mais próximos conhecem minha estreita e intensa relação com as letras. Meus olhos as consomem democraticamente, minha curiosidade voraz suplanta qualquer preconceito. Leio tudo ou, ao menos, começo a ler.

Já minha relação com a escrita se dá de maneira mais sensorial, quase fisiológica. Pode parecer chavão, mas é verdade que nunca planejei escrever. Em certa hora da adolescência, o "hormônio da expressão" emergiu e demandou o compartilhar de meus processos interiores. O que fervilhava em minha mente, coração, enfim, em meu corpo, precisava se tornar público. Está aqui ratificado que o que falei não é chavão. Conheça-me: eu, em minha personalidade reservada e meio tímida, nunca pensaria em publicar algo. Mas foi o preço a ser pago, e até hoje recebo troco...

Tudo isso foi para se ter uma idéia de como a afirmação de meu professor me desconcertou. Se há coisas que a palavra não alcança, por um momento me senti descartável, sem função no mundo. E condenado à "morte". Se é pela escrita que consigo traduzir o que minha vocação pessoal exige, que fim me espera?

Bom, a aula era de Linguagens Não-Verbais, então não era tão catastrófico assim. De qualquer forma, chegaremos a um ponto em que a palavra não alcança? Sim. Em relação ao amor.

Lembro de uma cena do filme "Melhor é impossível" em que o personagem de Jack Nicholson (um escritor) está num fluxo de criação defronte ao computador, com a inspiração sendo cristalizada na tela do Word e um êxtase percorrendo toda a sua magnífica interpretação (não foi à toa que ganhou o Oscar). Ele vai concluir o parágrafo iluminado com a definição do amor: "O amor é..." TOC! TOC! TOC! Ele tenta ignorar as batidas na porta e prosseguir: "O amor é..." TOC! TOC! TOC! TOC! TOC! TOC! Exasperado, ele se levanta e já abre a porta "espinafrando" o personagem que cometera sacrilégio contra o ser escritor, berrando que aquele é o trabalho dele, que ele não pode ser interrompido assim etc e tal. Depois da briga, ele tenta retomar o êxtase, mas é tarde. Coito interrompido, iluminação apagada. Foi-se a definição do amor.

É isso. É impossível definir o amor. Adoramos as letras de Chico Buarque, Vinícius de Moraes e tantos outros poetas, mas o que admiramos mesmo é a maneira genial com que eles falam do amor e do que ele proporciona. Nenhum deles se atreve a dizer "o amor é...". Nem as figurinhas do "Amar é..." se atreviam: davam exemplos práticos da (suposta) expressão do amor. Mas nada que configurasse a definição do amor.

O amor é adjetivado, vivido, comparado em diversas fases dos relacionamentos, mas nunca definido. "Amor é isso, e ponto". Ponto, uma vírgula! Vá você ter a pretensão de definir o amor, pensando engavetá-lo para que lhe seja mais previsível e não saia da sua caixa de Pandora. O amor é. Aí sim, ponto. Ponto inicial. O reconhecimento dessa incapacidade de se definir o amor é o renovo supremo. São menos dores de cabeça, menos ilusões, menos frustrações, mais realidade e gozo.

Há coisas que a palavra não alcança. Lá está o amor, soberano, rindo de maneira nobre dos plebeus que insistem no empacotamento cognitivo/sensorial de sua essência. A própria Escritura diz que "Deus é amor", e não o contrário. O fato é que estamos com o foco errado. Em vez de nos maravilharmos com os imensos limites humanos, singulares toda vida, queremos surrupiar os mistérios eternos. Assim é a dança do amor, na qual pisamos no pé do parceiro freqüentemente. Com masoquismo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

"Você está aqui!"

A opressão do consumo simbolizada pelo shopping me dava boas-vindas, com sorriso irônico. Que os funcionários não fiquem com a consciência pesada, mas é a cultura do lugar. Para que serve um shopping? Para compra e venda, nada além disso. Diversão? As pessoas se divertem comprando, outras ficam felizes vendendo. Cinemas (que vendem ingressos) são secundários, e o pretexto de encontrar amigos também está permeado pelo espírito consumista. Muitas críticas e apologias já foram feitas nesse aspecto, mas o objetivo aqui é constatar.

Ou melhor: contextualizar. Não vou analisar mentalidades, comportamentos, filosofias de vida. Fato é que estava no shopping, como tantas vezes estive (tanto que nem lembro o que eu fui fazer lá dessa vez. Talvez compras!). Precisei achar uma loja que não sabia onde ficava, e apelei para um objeto típico de shopping: o mapa do piso. Aquele em que as lojas viram centenas de quadradinhos coloridos, e que as portas, escadas rolantes, extintores e demais elementos do lugar viram desenhos achatados. Afinal, é um mapa!

Esses mapas são cada vez mais modernos, com animações em flash e design publicitário, pra ficarmos babando. Encarnam a tendência tecnológica de trazer para a ponta de nossos dedos o que era cinema de ficção científica até ano passado. Não sabia se brincava um pouco ou via logo onde era a loja. Lazer ou pragmatismo? Subjetividade ou objetividade? Estavam ali, piscando e languidamente se oferecendo a mim em forma de mapa de piso de shopping, questões com as quais nos deparamos todo dia.

Mas de tanta informação sobre a intimidade do shopping, qual seria a mais importante? Não só para aquele meu momento, mas de maneira atemporal? Nem pensei muito: era aquele pontinho vermelho com a histórica frase "Você está aqui".

É a informação mais importante de nossas vidas. De nada adianta o performático mapa se aquele pontinho vermelho e sua legenda não estiverem destacados. Se eu não sei onde estou, que referências adiantam? Que adianta saber aonde ir, seguir conselhos e direções, ouvir os mais experientes, conhecer os caminhos? Preciso saber onde estou.

E se me arrancam aquele pontinho? Um mapa flutuante judiando de meu desespero "desinformativo". Estou num limbo. Não quero isso, quero sentido (se possível, direção), quero significado ainda que seja impossível de percebê-lo em primeiro plano. Quero saber onde estou, é um direito tão elementar quanto o de ir e vir. Aliás, sem o primeiro não há o último.

Minha digitadora pessoal e secretária quando há negociação (minha irmã) quase capitulou ao perceber que um pontinho de mapa de shopping vira crônica. "Só você mesmo". Só eu mesmo? Só mesmo o pontinho. A exclamação que não me deixa perdido e me metaforiza todo, ela é a culpada. Exclamação universal, desconcertante de leitores-passantes-comprantes. Suprema ironia do shopping: nenhum dinheiro do mundo substitui a informação vital daquele pontinho. Rendamo-nos à simplicidade que ele insiste em nos ensinar.

terça-feira, 24 de agosto de 2004

A contribuição do leitor

Transcrevo aqui, com a devida autorização, os comentários da Louise sobre o artigo "O melhor do Brasil é a propaganda" que você pode ler rolando a tela. Jornalista e leitora assídua desse blog, ela mantém lá em cima o nível da formação de opinião que acontece por aqui. Acompanhe só:

"Sei não... Acho a discussão muito importante sim, porque precisamos sempre levantar questões e debater a realidade. Mas acho que esse ponto que vc pegou não deixa de ser uma crítica fácil. "Fácil" porque é a primeira coisa que nos vem à cabeça, a questão de os dois serem exemplos extra-ordinários. Só que:

1- Existem, sim, outros filmetes com histórias mais próximas do cidadão comum. Vi dois outro dia, em algum programa da Band, e são lindos. Só não sei porque ainda não estão sendo veiculados (aqui no Rio pelo menos);

2- Não vou cair na esparrela de desestimular a luta. A impressão que tive, quando li seu anti-penúltimo parágrafo, é a de que a gente tem mais é que querer que tudo se exploda. Que, porque existe tanta coisa errada à nossa volta, devemos desistir, porque nada vai mudar. Eu te conheço o suficiente para acreditar que não foi isso o que você quis dizer, mas pelo menos foi a sensação que tive quando li as bem-traçadas linhas. Ao mesmo tempo, acredito, profundamente, que sem exemplos ninguém tem estímulo para lutar, para melhorar. Ou será que teríamos tantos jovens revolucionários sem o Che altivo que hoje estampa camisetas? E esse é só um caso entre tantos, para o bem e para o mal (Gandhi, Hitler, John Lennon, Vargas...).

'Ah, mas esses comerciais não dizem nada disso'. Reconheço que os heróis que citei transformaram profundamente a sociedade, e que levaram a uma movimentação popular intensa, cada um a sua maneira. Mas, honestamente, não acho que comerciais se prestem a esse tipo de coisa. Cada veículo, cada mídia, tem o seu apelo e o seu propósito - e o da propaganda, que eu me lembre, é justamente te vender um produto. No caso, a idéia de que vale a pena correr atrás, mesmo quando tudo parece perdido. Nesse aspecto, o anúncio é irretocável. No entanto, esperar que ele abra um espaço para discussão, que estimule as pessoas a fazerem passeatas e piquetes por um salário mais justo... infelizmente não é a função do marketing (tanto quanto não é a função das faculdades ou da TVE estimular a futilidade do Big Brother).

Por isso tudo, concordo que uma parte da batalha diária dos brasileiros foi ignorada em detrimento do drama dos famosos (e nem vou entrar no mérito da discussão de se um famoso tem mais apelo - e impacto - perante à massa do que um desconhecido), mas não dá pra ignorar todo esse contexto na hora de analisar o comercial... E, por favor, tudo o que eu escrevi aqui é na melhor das intenções. Não quero brigar com você não, moço! :)"


Sei que não, Louise. Mas é muito bom alguém discordar com civilidade e na intenção de esclarecer sem interesses espúrios ou ressentimentos. Coisa tão em falta no nosso jornalismo atual.

terça-feira, 17 de agosto de 2004

Do verbete "forçação"

Escrevo esse artigo ao terceiro dia de Olimpíadas, ainda sem saber quando irei publicá-lo. Portanto, até o presente o momento, o Brasil não ganhou nenhuma medalha. Mas o que dizer das manchetes abaixo, todas de primeira página?

"Brasil bate recorde em Atenas - basquete feminino e natação alcançam marcas históricas nos Jogos"

"Brasil é tri na ginástica"

Para três dias de disputa, são feitos e tanto! Ávido pela chamada em letras grandes logo de cara, corro pra ver quantas medalhas nossos atletas já abocanharam. Começo a estranhar. Cada o texto que fala disso? Será que estou no caderno certo? Estou. Zero medalha. Mas do que falavam as manchetes, então?

O recorde do basquete: o maior número de pontos marcado no torneio feminino olímpico (128) e igualando a maior diferença entre duas equipes (o Japão fez apenas 62 pontos). O recorde da natação: Joanna Maranhão conseguiu o quinto lugar nos 400m medley e tornou-se a primeira brasileira a estar entre as oito melhores do mundo desde 1936. O "tri da ginástica" é o mais curioso: na verdade, são três atletas classificadas para a final do solo.

Empolgante...

Que os referidos atletas não me leiam para que não pensem que desqualifico todo o seu esforço. Mas pra que tanto alarde se o mais importante a se conquistar numa olimpíada - as medalhas - não foi alcançado ainda? Por que tanta euforia com tão pouco?

Bom, é preciso que compremos a idéia das Olimpíadas, em todos os sentidos. E como bem apontou Mino Carta na edição nº 303 de Carta Capital, fica bem escondida a humilhante situação brasileira na política esportiva. Um país com riquezas como as nossas e talentos em tudo quanto é modalidade, com mais de 180 milhões de habitantes... conseguir só 12 medalhas nos Jogos de Sidney-2000, por exemplo? Onde está o erro?

Provavelmente nos investimentos aquém do esperado no esporte brasileiro, que além de nos elevar à potência mundial nesse aspecto, ainda ajudariam a reduzir a desigualdade social com a inclusão profissional de milhares de jovens. Nossos atletas são os melhores do mundo, pois mesmo com os obtusos dirigentes e os obstáculos amadores e sócio-econômicos, conseguem levar o combalido Brasil aos lugares mais altos da competição. Não é por sobra de incentivo que isso acontece.

E os leitores são desinformados ao tentarem acompanhar o desempenho de nossa delegação. Afinal, as manchetes de primeira página criam uma grande expectativa, que é frustrada nas primeiras linhas da matéria. As suadas vitórias de nossos atletas começam então a ser banalizadas por menores resultados, eficazes apenas para que a cobertura diária das Olimpíadas pareça mais interessante do que não é.

O pior acontece: a imprensa esportiva do "oba-oba" (como tão bem classificou Fernando Calazans) diz sempre que o Brasil é um grande favorito para os Jogos; e os parcos resultados ao fim dos quinze dias de competição faz com que tenhamos raiva ou, no mínimo, desprezo por nossos atletas.

Vale então a cruel lógica que vigora por aqui: se não é campeão, de nada valeu, não interessa. Ora, quem é uma das maiores responsáveis para que essa lógica se perpetue de quatro em quatro anos? Aquela que a divulga de maneira incorreta, a tal imprensa do "oba-oba". Que obtém maiores sucessos na editoria onde a paixão fala mais alto que a razão, encarnada na universal figura do torcedor.

Esse tipo de cobertura é o que eu chamo de "forçação de barra". Verbete inexistente, contudo mais preciso e fiel que grande parte da cobertura esportiva brasileira.

quinta-feira, 12 de agosto de 2004

O melhor do Brasil é a propaganda

Quando o presidente da república disse que o povo estava carente de heróis, surfando na onda da campanha "O melhor do Brasil é o brasileiro", da Associação Brasileira de Anunciantes, foi aquela grita. Críticas e apologias invadiram os jornais. Cada colunista sentiu-se instigado com vara curta a replicar. Eu idem, mas a enxurrada de opiniões foi tamanha que me deixou inibido. Contudo é indiscutível o talento dos anunciantes tupiniquins: conseguiram que o líder da nação fosse seu garoto-propaganda, e de graça!!

Os colunistas em geral refletiram sobre a necessidade de se ter heróis, até que ponto isso é benéfico para a conscientização do povo, para a cidadania. E que tipo de herói? O assunto rendeu por vários dias. Mas só agora pude assistir na TV os filmes publicitários que narram a vida de Ronaldinho e Herbert Vianna como exemplos de brasileiros que não desistem. Como espectador e já distante da polêmica à época do lançamento da campanha, uma pulga despertou e ainda está lá, no cantinho da minha orelha.

Nos anúncios a trilha "Tente outra vez", de Raul Seixas, encaixa-se perfeitamente com as histórias dos heróis brasileiros. Elas são contadas por meio de manchetes de jornal e pequenos filmes mostrando o calvário do cantor e do jogador, até o fim apoteótico de sua recuperação e conseguinte vitória. Fechando, o slogan: "Eu sou brasileiro e não desisto nunca".

Não quero cair na insensibilidade cretina de relativizar o drama de Ronaldo e Herbert. Eles e suas famílias (muito mais que os fãs, muito mais que a imprensa) é que sabem da dor sofrida. Mas o slogan acaba tornando-se quase ofensivo para a grande massa de brasileiros que pretende alcançar. A questão aqui é a diferença de realidades.

E se Herbert Vianna, após socorrido do acidente, fosse levado a um hospital público? Se pegasse aquela longa fila onde só os baleados pela violência (em geral das áreas mais pobres) têm prioridade? Durante o período de reabilitação, Herbert ficou sem gravar ou fazer shows. Ou seja, parou de trabalhar, ficou desempregado. Ainda bem que tinha família, dinheiro investido, direitos autorais rendendo etc. E, claro, ficou com hospital e fisioterapeuta particulares.

E se Ronaldinho não fosse "o" Ronaldinho? Se ainda estivesse iniciando sua promissora carreira no São Cristóvão ou no Cruzeiro (seus primeiros times) e sofresse a grave contusão no joelho que o deixou dois anos parado? Também temporariamente desempregado. O clube arcaria com tudo? E sua família, que dele também dependia, seria assistida pelos responsáveis cartolas de nosso futebol brasileiro? Será que, após marcar aquela consulta no SUS, daria tempo de Ronaldinho começar a fazer fisioterapia e se recuperar, pro bem da seleção?

Para Ronaldinho e Herbert, com os recursos materiais que possuíam à época de seus terríveis problemas, fica fácil abrir aspas e dizer que é brasileiro e não desiste nunca. Aí está a ofensa: se a grande massa da população não tem como obter os mínimos direitos humanos básicos como saúde, educação e renda digna, a opção mais fácil sempre é desistir. Mesmo assim, ele prossegue. E vem uma campanha dessa e larga a palavra de ordem, quase uma bronca: se você é brasileiro, não desista, nunca. Disso ele já sabe...

Nas entrelinhas: não desista, apesar de seus governantes. Não desista, apesar da corrupção que suga o dinheiro público. Não desista, apesar dos inúmeros recursos que a justiça permite aos "peixões", ao contrário do preto-pobre-miserável-ladrão-tem-mais-é-que-morrer. Não desista, apesar de viver em condições sub-humanas, apesar de seu trabalho escravo, de seu salário-mínimo, de sua absoluta falta de opções para sobreviver a não ser resignar-se em ser explorado.

Uma campanha para levantar a auto-estima do brasileiro? Não da maioria. Da minoria, talvez? Então é um mimo, no final das contas. Um mimo para quem já tem o que precisa, é isso. Que ainda consome bastante, e esse não pode pensar em desistir, em deixar de gastar seu dinheiro em muita coisa vã. Afinal, é uma campanha da Associação Brasileira de Anunciantes!

É uma pena (mais uma!!!) que o presidente que mais conhece a realidade popular tenha protagonizado essa ofensa em cadeia nacional.

terça-feira, 20 de julho de 2004

Copacabana: O que é isso?
 
Eu não me sinto bem em Copacabana. Nossa, um carioca dizendo isso, o que vão pensar? Como não tenho nenhum destaque na cena nacional, fico mais à vontade para desabafar sobre o que o bairro mais famoso do Brasil me proporciona. De ruim.
 
Turistas proliferam-se, e em pouco tempo você ouve uns 3 idiomas que não o português. Natural, sendo o lugar mais propagandeado no mundo, junto a Ipanema e sua garota. Artificiais moradores, uma vez que são temporários, deslocando Copacabana do cenário nacional. Dentro da minha cidade, do meu país, me sinto expulso, quase exilado. Uma saudade de casa estando em casa, é estranho.
 
E há o barulho, muito barulho, como se vive ali? Só nos andares superiores dos prédios, individualizando-se do contato social ao fugir da poluição sonora. Mil ônibus a mil, multidão em eufemismo dominando a calçada. Calçada democrática, que abriga as melhores joalherias, academias e os meninos de rua e suas famílias, mais os doentes cuja única opção é esmolar para brasileiros e gringos. A gente, com pressa, não pode se deter. Não quer se deter, o que é pior. Sinto-me pior constatando isso.
 
Copacabana não tem "cara" de nada, tendo "cara" de tudo. Um prédio comercial e suas heterogêneas salas, as plurais lojas de rua, as mosaicas bancas de jornal com suas carnes lânguidas à mostra no bairro protagonizado por 70% de idosos. Um "mix" em cada esquina, transfigurante, indecifrável por quem passa. Que desconforto ao não encontrar refúgio em nada familiar, simples.
 
O que é, afinal, Copacabana? Não sei, não há como saber ou definir, e talvez seja isso que me incomode. Diante dessa incógnita social-geográfica, a gente não relaxa. Precisa ficar o tempo inteiro decifrando, a distração por aqui não passa, um desejo de estar num cantinho longe dali, com a pessoa amada, emerge.  A impessoalidade de Copa nos isola em conjunto.
 
Desculpem moradores e admiradores. Mas é uma impressão pessoal, produzindo opinião sensível, sincera, sensata. Copacabana hoje é mitologia, aquele lugar de honras a deuses e lendas melhores que a realidade, de passado esfuziante versus presente decepcionante. O lugar dos deuses não é lugar pra nós. Prefiro sumir, e rápido. 
 

quarta-feira, 23 de junho de 2004

A maior responsa!

Tenho 23 anos, mas acho que não é nada cativante a campanha para incentivar o voto aos 16 anos. Aliás, lanço a dúvida: por que podemos votar aos 16 mas não dirigir? Qual é a maior responsabilidade: decidir sobre os rumos de um carro ou de um país? (Lembro também que o voto após 65 anos também não é obrigatório. Porém é mais difícil fazer a cabeça de quem tem uma vida de experiências nas costas, né?)

"Fazer a cabeça" parece ser a expressão cabível. Não se explica a importância de se votar aos 16 anos, apenas larga-se o imperativo: vote aos 16! Começa aí a cultura de que o voto é um instrumento como outro qualquer, quando não é verdade. É único e incomparável, sempre subestimado na medida das conveniências dos que prosseguem em seus coronelismos adaptados Brasil afora.

Apenas vote! Por quê? Por que o voto é um instrumento de cidadania? Não se explica. Nem o fato de que o voto é muito mais uma conseqüência do processo político do que o início dele. O voto materializa nossas concepções e maturidades, é resultante do trato que queremos dar ao futuro da nação. Vote aos 16, dirija aos 18. O voto é o volante.

O arrependimento de cada eleitor é lícito, mas a teimosia alienada - que "esquece" os desvios de conduta dos representantes, que vê a corrupção com certa simpatia pela malandragem brasileira - é imperdoável e inconseqüente. Por isso fica muito fácil falar que são "os políticos", a "elite dominante" que não tira o país das constantes crises de confiança. Ali, em cada parlamento, está representada a sociedade brasileira. Cada comportamento e benefício adiquirido, cada personagem folclórico que abusa dos cofres públicos e arranca, no máximo, um sorriso de desdém irresponsável. Estamos todos ali. Merecemos esse sadomasoquismo.

Ou não? Ou é hora de pensarmos no voto não apenas a caminho da zona eleitoral, mas desde sempre? Deixando de lado os determinismos que enquadram a política no campo do imponderável e do incorrigível, portanto façam o que quiser com ela. Os desvios de dinheiro são dos nossos impostos! Quanto mais desvios, menos dinheiro no caixa, impostos mais altos! Quanto mais condutas folclóricas de terça a quinta na isolada Brasília, é um passo a menos na universidade pública e gratuita, nas tarifas mais baixas. O sistema público de saúde já foi pro espaço e morda-se você com a mordida do plano de saúde.

Ah, nossos 16 anos podem ser bem mais interessantes...

quinta-feira, 3 de junho de 2004

A ambigüidade a ser resolvida

Nesses tempos de grande desenvolvimento das mídias, é preciso saber usá-las. Assim, nesse verbo, é que pensam muitos políticos de hoje, e alguns têm se tornado especialistas no assunto. Retiram-se dos holofotes quando necessário, reaparecem quando convém, e o tal do jornalismo redundantemente investigativo sendo jogado de um lado pra outro, quase cadavérico.

Exemplo: no último domingo o "Canal Livre", programa que encerra a programação
da TV Bandeirantes, é um "Roda Viva" menor, com três jornalistas experientes entrevistando uma personagem política brasileira. Passando os canais vi que o ex-tudo Paulo Maluf era a bola da vez. Não assisti à entrevista, mas ao acessar o Yahoo.com.br no dia seguinte, lá estava a chamada: "Maluf promete acabar com taxas da luz e do lixo".

Bom, e daí? Daí que uma rica palavrinha não pode ser ignorada nunca: contexto.

Maluf passa pela milionésima acusação de desvio de dinheiro público, a despeito de suas incríveis reeleições. Dessa vez, 300 milhões de dólares surgiram na conta que leva sua assinatura nas Ilhas Cayman e, claro, o ex-tudo diz que não é dele. Mais: diz que alguém colocou essa quantia lá para prejudicá-lo. Não deixa de ser engraçado, mas pergunto: quem, só de sacanagem, colocaria tanta grana na conta de alguém só pra "sujar o nome" da pessoa? Nem o partido de Maluf acredita na sua versão, a ponto de o lançamento de sua candidatura a prefeito de São Paulo ser marcada pelo constrangimento geral dos próprios correligionários.

Pois bem, Maluf é candidato em meio ao pior processo acusatório de sua carreira política (pior no sentido de ser mais difícil de sair dessa e sem culpa). Nesse momento, é a principal atração do "Canal Livre", por duas horas, cercado por jornalistas como Carlos Nascimento e Fernando Mitre.
No dia seguinte, o Yahoo destaca duas promessas de campanha que com certeza farão que o ex-tudo ganhe pontos com os adversários de "Martaxa" Suplicy, como foi apelidada.

Logo, o programa jornalístico da Band transformou-se em palanque privilegiado para um réu quase condenado. E um dos sites mais populares da rede destaca suas propostas para a eleição. No caso do Yahoo, acabou seguindo a lógica da internet de criar uma chamada que atraia o leitor para o resto do texto. Mas pinçou da entrevista de Maluf o que ele com certeza gostou de ser pinçado: suas boas notícias.

Será que a Band pensou apenas nos eleitores de Maluf pra garantir a audiência do programa? Porque acabou sujeitando os experientes jornalistas a emprestar sua credibilidade ao candidato mais farto de acusações de corrupção. Maluf "auto-convidou-se"? Não se sabe. Mas saiu ganhando.

A função de fiscalizar o poder está sendo negligenciada por boa parte da imprensa, que tem se entregado cada vez mais a arroubos passionais pra guiar sua cobertura. Algumas doses de álcool ou as besteiradas das colunas de notinhas importam mais que a maior cidade do país ser governada por um campeão da sujeira política? Imparcialidade não existe, mas responsabilidade sim. De qual dos dois está tentando fugir a mídia brasileira? E quem a está botando pra correr?