segunda-feira, 28 de junho de 2010

Não nos esqueçamos da desproporção

Além dos jogos e das arbitragens da Copa do Mundo, aqui no Brasil outro assunto habita as rodas de discussão: a relação entre o técnico Dunga e a imprensa. A situação chegou a tal ponto que as discordâncias, regadas a ódio, são publicamente assumidas por ambas as partes. Correndo o risco de terem seus respectivos compromissos profissionais prejudicados por tais atitudes, ainda assim nenhum dos lados "baixa a guarda".

Se o ditado afirma que "dois bicudos não se beijam", ele se aplica perfeitamente a Dunga e à imprensa. Com a diferença que o técnico seria um pequeno beija-flor e a gama de veículos de comunicação cobrindo a Seleção, um tucano misturado com gavião.

Antes de entrar na polêmica atual, uma retrospectiva. Em nosso país, apaixonado por futebol, é comum escolhermos um único culpado pelas derrotas da Seleção em Copas do Mundo. Foi assim com Barbosa em 1950, Cerezo em 1982, Zico em 1986, Roberto Carlos em 2006... Nesse momento, o detalhe que o esporte é coletivo é solenemente deixado de lado.

O fiasco da Copa de 90, na Itália, com o Brasil apresentando uma equipe desunida, em briga com o patrocinador e jogando um futebol feio e nada confiável, foi colocado sobre os ombros de apenas um jogador. Foi a chamada "Era Dunga".

Mas chamada por quem, cara pálida? Se existe na sociedade brasileira um messianismo latente (desde os tempos de Getúlio Vargas), também ocorre a eleição automática do Judas Iscariotes da vez. No entanto o consenso só se solidifica e permanece através dos tempos devido à massificação da imprensa, que é diária, quase onipresente e que raramente admite seus erros e excessos.

Não se sabe quem inventou a expressão "Era Dunga". Mas desde então ela é sintomaticamente repetida pela cobertura esportiva, colaborando mais uma vez para estigmatizar um jogador por toda a vida. Ninguém comenta que Barbosa foi um dos melhores goleiros que o futebol brasileiro já teve, mas todos têm na ponta da língua o discurso para culpá-lo pelo Maracanazzo.

Dunga não foi craque como Barbosa, mas nem ele nem ninguém merece ser marcado por um fracasso que foi, não se esqueçam, coletivo: da presidência da CBF ao terceiro goleiro (Já dá pra imaginar onde nasceu o, digamos, desprezo de Dunga pela imprensa esportiva, certo?).

Eis que Dunga ressurge como capitão do tetra em 94, levanta a taça e, diante de todo o mundo, desabafa contra a imprensa: "Fotografem essa porra! Fotografem essa porra!". Para todos os efeitos, ali estava automaticamente suspensa a Era Dunga - ou, ao menos, ela deveria ser atualizada com o desfecho vitorioso.

Mas Dunga agora reaparece como técnico da Seleção e, além de assumir que busca o futebol de resultados, ganha carta branca da CBF pra trazer de volta a seriedade e o comprometimento dos jogadores com a Seleção. (O fato da imprensa não ter feito críticas às farras da Copa de 2006 e depois espinafrar os jogadores que não classificaram o Brasil é mero detalhe. Ah, e também engrossaram o coro do comprometimento).

E Dunga vai obtendo os seus resultados, encampando a máxima de que os fins justificam os meios. Ganha a Copa América, a Copa das Confederações, vence grandes seleções jogando bem, classifica o Brasil para a Copa do Mundo. Para isso, adota a metodologia do "grupo fechado" e, claro, não dá a mínima para a imprensa.

Pelo contrário, comete até o pecado mortal de cercear liberdades da Rede Globo em suas reportagens exclusivas com os atletas, a despeito da programação da comissão técnica. Aí começam as primeiras ondas de "Fora Dunga", que trouxe episódios ridículos. A CBF, como é de praxe, fez que não era com ela e deixou o esquentado técnico como um ótimo para-raio.

Diante disso, Dunga poderia simplesmente tocar seu trabalho e não se estressar muito com a chiadeira da imprensa. Mas não: passou a ralhar, rebater, xingar, fechar treinos, restringir o acesso. O direito de tocar seu trabalho do jeito que decidir (a despeito de concordarmos ou não) passava a ser questionado em virtude de seu mau humor com os jornalistas.

E assim vai ser até um dos lados ceder ou mudar o disco. Dunga não esquece o que a imprensa fez com ele, e o filme da "Era Dunga" volta a seu cotidiano, renovando o rancor e cegando-o às possíveis críticas que possam ajudá-lo. A imprensa, por sua vez, elege o mau humor do técnico como um grave problema nacional, mas nada faz para trabalhar de outra maneira diante das dificuldades apresentadas, e não reflete se está exagerando ao insistir na chiadeira.

Mas não podemos esquecer a desproporção: Dunga é um só, e é uma pessoa identificável. A imprensa é multifacetada, plural e não se personifica em ninguém. Logo, é muito mais fácil para a torcida saber em quem tacar pedras quando tiver vontade.

Dunga precisa repensar se é a melhor estratégia comprar briga a torto e a direito. E a imprensa não pode se esquecer que sua contribuição para a demonização massificada pode ser determinante para a vida pessoal dos envolvidos. Estão aí os casos da Escola Base, Wilson Simonal e tantos outros para comprovar.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Insensibilidade regular

Ultimamente tenho tentado não ser um cri-cri de plantão. Isto é, aqueles caras que fazem questão de ser críticos e retomam sempre os mesmos temas dos quais adoram falar, e de mau humor. Pessoas assim diminuem o valor da crítica em si, que é necessária para que os mais espertos não se aproveitem da indiferença dos demais.

Por outro lado, confesso que passo por momentos de grande ceticismo, principalmente em relação a nossos representantes políticos. Sinto-me sem opção para escolher alguém digno e que vá tentar dar um jeito no espírito colono que habita nossa gestão pública. Então, acabo por querer ficar quieto, pois qualquer crítica soaria como um cri-cri de plantão.

Mas as chuvas recentes do Rio de Janeiro foram o trampolim para que eu voltasse às figuras de Sergio Cabral e Eduardo Paes, governador e prefeito de onde moro. E é inevitável constatar que, em matéria de insensibilidade, os dois políticos bateram todos os recordes.

Diante do estado de sítio em que o Rio se tornou, o assunto que Cabral e Paes estão abordando a torto e a direito é a tal da ocupação irregular nos morros. Desses lugares estão surgindo a maioria dos mortos, devido a deslizamentos de terra.

Enquanto os cidadãos esperam, no mínimo, que os governantes mostrem o que tem sido feito na infraestrutura do Rio de Janeiro para que as chuvas não causem tantos estragos, os dois governantes condenam com veemência quem mora nos morros e quem ainda permanece neles após a tragédia. E aproveitam pra alfinetar os críticos de suas ideias de remoção/reassentamento de comunidades, acusando-os de demagogia.

Agora à noite uma amiga nos telefonou. Disse que viu um conhecido na TV e resolveu ligar pra ele. Descobriu que o tal conhecido perdeu seus dois filhos pequenos e a cunhada num deslizamento de terra. Ele mora num morro de Niterói.

Pois se já não bastasse a dor em dose tripla, esse cidadão ainda está sendo acusado, por seus próprios governantes, de ser o culpado pela morte dos filhos. Afinal, quem mandou morar numa área de risco? E por que ainda continua lá, por que não saiu de lá?

Eu fico pensando se alguém resolve morar no morro por escolha consciente. Pensa bem: você vai comprar apartamento, ou alugar mesmo, e checa as opções. O morro seria uma delas? Você escolheria morar num lugar onde o Estado não chegou, sabendo que terá que se virar sozinho pra tudo nessa vida? E se algo acontecer, você teria renda suficiente para, de repente, querer morar num lugar melhor e sem risco?

O medalhista olímpico Torben Grael, morador de um luxuoso condomínio em Niterói, também teve sua casa destruída pelo deslizamento. Assim como tantos outros, era morador de uma encosta, de um morro, de uma área de risco - mas devidamente legalizada pelos poderes constituintes. Cabral e Paes condenarão Torben Grael?

E Torben já decidiu que não volta mais pra lá, vai se mudar para outro lugar. Por que o pai que perdeu seus filhos não faz o mesmo?

O aspecto mais frio e cruel dessa história toda é que as palavras de Cabral e Paes parecem ser mais uma agulha no palheiro da insensibilidade que tomou conta de nosso tempo. Declarações como a deles deveriam causar um choque de ordem no status quo de seus mandatos, mas todos parecem estar anestesiados. A imprensa carioca, então, é um cordeirinho diante do governador e do prefeito.

No meio da chuva, me sinto um peixe fora d'água.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Fé e adrenalina

Existe alguma relação entre as duas? Não sei se a ciência, que hoje anda com ares de religião fundamentalista, já se atreveu a dar seus pitacos na questão.

Só sei que, após mais uma boa corrida - daquelas em que a gente se sente melhor depois do esforço feito do que antes - o desejo de exercer a fé por meio da oração veio como bem súbito. Assim como a constatação da perspectiva renovada de crer no impossível aos homens.

Teologicamente posso estar dando asas a uma sutil heresia: se a adrenalina disparada pelo organismo catalisa a fé, então o objeto do que cremos ficaria mais (ou menos) distante a partir de nossa própria biologia. Deus seria menos ou (mais) real de acordo com as reações químicas do corpo humano! Richard Dawkins me daria um beijo na testa depois disso.

Mas minha reflexão não vai por aí, pois não me refiro ao objeto da fé, mas à disposição de exercê-la, de percebê-la viva em nós após uma boa descarga de adrenalina. Inevitável constatar que o hormônio está presente nas marcantes situações da nossa vida. Momentos de emoção, risco, expectativa, ansiedade, nos mais diferentes contextos, são classificados como momentos "de adrenalina."

Imagino o alpinista que, após vencer as alturas e chega ao pico do monte, olha soberano para o mundo abaixo e ao redor, seguro e orgulhoso do feito, e sente-se um pouco à imagem e semelhança de Deus. Assim como o jogador de futebol que dribla o time inteiro e carimba um golaço, sentindo-se, ainda que por um instante, um pouco acima dos mortais colegas de profissão. A fé que alarga os limites e os horizontes, que mostra às testemunhas e aos protagonistas que algo além é possível.

Porém pode ser com coisas mais simples. Me vejo correndo no Aterro do Flamengo por apenas dez minutos num bom ritmo, após uma noite mal dormida e um dia arrastado. E me sinto (verbo arriscado para se usar numa conversa sobre fé...) com maior liberdade de crer - não no sentido sociológico, mas no mais pueril possível. "Apesar dos apesares, creio. Então oro, e renovo a esperança, contra todas as circunstâncias". Volto a querer crer de maneira intensa, e a adrenalina é o resultado laboratorial do exame físico que testou, sem querer, minha fé. E revelou sua ilimitação.

"Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se vêem". A definição bíblica sobre a fé poderia se aplicar, em certa medida, à adrenalina. Ela está em mim, tenho certeza disso após uma bela corrida, convictamente, mesmo sem vê-la. Coerentemente, a experiência é marcante, assim como a possibilidade de crer, sem medo de me extenuar.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A crueldade desconhecida

Sou homem, branco, magro, heterossexual, classe média, carioca, cristão ocidental e ainda não cheguei aos 30. Por outro lado, já trabalhei com atendimento ao público, do mais ralé ao mais ricaço.

(O começo deste artigo é meio doido, mas chega em algum lugar, prometo.)

Descrevi minhas características acima porque me dei conta que faço parte de uma casta rara: os que não sofrem os preconceitos mais frequentes dos tempos atuais. Não conheço, na pele e por conta própria, como é ser segregado publicamente, do humor a todo tipo de violência.

As mulheres penam contra o machismo dominante; os negros continuam em sua luta pelo básico, mostrar que a raça é uma só, humana; os gordos viraram piada pronta; os homossexuais, mesmo com toda capacidade de articulação e acesso à mídia, ainda sofrem violência por sua opção; os pobres, cada vez mais marginalizados.

Também os adeptos de alguma religião diferente da tradicional bradam pela liberdade de expressão; aqueles que não são da terra da Globo têm que aturar novelas e programas apenas com o sotaque chiado; e sou público-alvo de todo o tipo de publicidade, estando longe de ser descartado da vida funcional.

Porém mesmo sem ter a chance de sofrer preconceitos do tipo, posso dizer que sei como é isso. E é o que qualquer um saberia se trabalhasse um mês no atendimento ao público de algum setor. Estar do lado de dentro do balcão (de informações, de venda, de guichês) faz você experimentar, em algum momento, e por alguma razão (por mais louca que seja) como é ser excluído, menosprezado, ignorado.

Você pode se esforçar e ter consciência das limitações que te impedem de dar o seu melhor - e isso pode ser inútil. Algumas pessoas compreendem, mas muitas chegam sem paciência e não enxergam nada além do próprio interesse. Já sabem o que querem ouvir, e ai de você se disser algo diferente!

No atendimento ao público você se sente moído por uma cruel engrenagem: a de enxergar o lado de quem você está atendendo e da instituição que é obrigada a realizar o atendimento. É sua a responsabilidade de conciliar os objetivos de ambos, sejam bem ou mal intencionados. Se em você existe alguma sensibilidade e bom senso, eles serão testados diariamente.

E durante esse processo você se sente um pária. Sente-se sozinho na sua árdua tarefa de querer trabalhar direito. Isolado. Marginalizado. Humilhado. Não é fácil, a não ser que você opte pela indiferença radicalizada, temperada às vezes pelo cinismo. Mas você não estaria sendo você mesmo...

Eu disse que esse artigo chegaria a algum lugar. Ele me levou ao cantinho da solidariedade que alimenta o desejo, quase obsceno para os dias de então, de não julgar para não ser julgado, e amar ao próximo como a mim mesmo. Sem politicamente correto, por favor.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A seca da chuva



Não aguento mais o noticiário sobre as chuvas, e não é de hoje. As mesmas imagens, os mesmos relatos, os mesmos dramas, o mesmo esquecimento assim que a temporada de aguaceiro passa. Quase nenhuma reportagem foge do lugar comum de colocar a natureza como vilã: "Chuvas castigam a região tal...".

Fato é que sempre choveu na face da Terra, e os terráqueos é que se organizaram nela para morar. Só que ficamos "na seca" quando esperamos que a imprensa varie um pouco a lenga-lenga e toque na ferida: afinal, o que o poder público fez (ou não fez) para que hoje situações de calamidade pública se tornassem corriqueiras após as chuvas nas regiões urbanas?

Uma rara exceção é a série de reportagens do Yahoo! Notícias sobre as enchentes em São Paulo (quem disse que na internet não há bom jornalismo?). Ali é mostrado como os governos de São Paulo dos últimos 30 anos não se preocuparam com a ocupação das margens dos rios Tietê e Pinheiros. E isso vale tanto para os moradores de baixa renda quanto para as grandes empresas que ali se instalaram.

O fenômeno da impermeabilização da beira dos rios, que impede o escoamento das águas, é explicado com clareza. As prefeituras e governos estaduais paulistas ficam ainda mais em xeque quando se constata que até uma escola municipal foi construída ao lado do Tietê. Ou quando autorizaram a construção de conjuntos habitacionais em região pantanosa. Mesmo os moradores de baixa renda têm acesso a serviços públicos, ou seja, o poder público sabia o que estava acontecendo. Um curralzinho de votos não faz mal a ninguém, certo?

(E não se enganem: o mesmo fenômeno acontecerá no Rio de Janeiro, em regiões nobres como a Barra da Tijuca, o Recreio dos Bandeirantes e Jacarepaguá, também repletas de terrenos pantanosos igualmente repletos de novos empreendimentos.)

A reportagem ainda mostra que a remoção dos habitantes da região é carregada de insensibilidade na abordagem por parte dos técnicos da prefeitura. E que os moradores dos tais conjuntos habitacionais de classe média sequer serão incomodados, ainda que seus prédios contribuam igualmente para a impermeabilização dos rios.

Para solucionar o problema das enchentes, todo o tipo de obra necessária seria subterrânea. Como no Japão, onde piscinas foram construídas embaixo da terra para escoar as águas. Além da retirada de detridos que aumentam o assoreamento no fundo do rio, facilitando que ele transborde e rompa as barragens."Um rio só se corrige se você parar de agredi-lo", conta um dos integrantes do Comitê Gestor da Área de Proteção Ambiental. Quanto às obras, ainda deixa a pergunta: "qual político no Brasil vai investir numa obra que ninguém vai ver?".

Portanto, senhor Gilberto Kassab e senhor José Serra: o que vocês estão fazendo hoje para que não sejam culpados pelos sucessores?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

UP!

Quando estamos acostumados com animações digitais recheadas de referências e piadas para adultos, surge uma em que o lirismo é a principal característica. UP até possui o humor que já é famoso no gênero, mas em menor medida. O que cativa no filme são aspectos dramáticos em alta qualidade.

Um de seus grandes méritos é conseguir essa empatia a partir de um argumento quase estapafúrdio: um velhinho resolve se embrenhar na Amazônia voando com sua casa sustentada por milhares de balões. Tudo para cumprir uma promessa feita à esposa.

O velhinho terá a companhia forçada de um pequeno escoteiro cuja única medalha de honra que lhe falta é a de ajuda a um idoso. Além de ser a antítese das rabugices do velhinho, o guri é a encarnação da inocência desconcertante em vários momentos da história.

Como em toda boa animação, os dois protagonistas da história apresentam características que rompem com a tradição politicamente correta de Hollywood. O escoteiro é filho de pais divorciados, por exemplo. E o velhinho vira herói sem deixar de ser idoso, ainda que sua agilidade sexagenária possa ser questionável em algumas cenas (mas é um desenho de ficção, ora!).

Porém o melhor de UP são os momentos poéticos que ele apresenta. Seja no voo da casa, na trilha sonora muito bem colocada (Michael Giacchino, de Lost), nas conversas do velhinho com o garoto, nos objetivos que cada um deles (e também o vilão da história) possuem. Em tudo se percebe uma sensibilidade quase em 3D.

O fato do filme se passar quase sempre nos céus também nos deixa em suspenso (principalmente pra quem tem medo de altura, como eu), e é um recurso que se transforma num componente imprescindível ao roteiro. A já citada sensibilidade é tamanha que até mesmo a moral da história é passada de forma sutil.

E essa moral me tocou bastante. A ideia de que altas aventuras podem ser vividas no seu cotidiano, e que elas podem compor um mosaico tão impressionante quanto a biografia dos grandes exploradores universais. É muito difícil olharmos pra nossa vida sob esse viés, mas é exatamente isso que o roteiro fantástico (não como adjetivo, mas como gênero) me provocou.

Fora a reflexão, o filme é bonito. Bonito de ver, de acompanhar, de sentir. Um filmaço. As animações digitais estão cravando seu lugar na história do cinema, tanto nas bilheterias quanto na crítica. E UP mostra como a delicadeza na narrativa consegue desarmar qualquer um.



Trailer aqui.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Lei de Luciano



Decreto de Sergio Cabral favoreceu construções irregulares em Angra dos Reis.

Um dos beneficiados é Luciano Huck, dono de uma casa na Ilha das Palmeiras.

Ambientalistas movem uma ação civil pública contra o apresentador de TV.

O escritório da esposa de Sergio Cabral (já mencionado aqui antes) defende Huck na ação.

Elementar.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Elementar, meu caro Watson...


As coisas são muito mais simples do que pensamos. Enquanto nós, usuários do metrô carioca, somos obrigados a aturar desinformação e péssimos serviços prestados, ainda temos a pergunta que não quer calar: por que nada (absolutamente nada) acontece com a concessionária? Nenhuma multa, nenhuma ameaça de perda da concessão... E ainda temos que ouvir um "Pedimos desculpas pelos transtornos causados" do departamento de marketing da Metrô Rio.

Aí vejo o Globo resolve despertar de sua inoperância na fiscalização do poder público e crava: Escritório de advocacia da primeira-dama do Estado defende a concessionária Metrô Rio, numa ação movida pelo Ministério Público.

(Depois vi que quem deu a notícia foi a Folha de São Paulo. É preciso um jornal de outro estado pra fiscalizar o governador do Rio???)

A matéria está restrita a quem tem cadastro no Globo, mas diz, resumidamente, que a ação diz respeito à obrigatoriedade dos passageiros de utilizar o bilhete de integração apenas nas estações determinadas pela concessionária. Por que não em qualquer estação, de acordo com a necessidade do usuário?

O sócio da primeira-dama não vê problema, já que o escritório é um dos 20 que assessoram a empresa.  Mas vendo a situação do metrô e a pusilanimidade de Cabralzinho (que indica os titulares da Agência Reguladora de Transportes Públicos, responsável por fiscalizar e punir os concessionários quando couber), fico com a sensação de que mais um mistério foi resolvido.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010


A culpa é do Fidel

Os franceses sabem fazer um bom filme (não podia ser diferente, já que o cinema foi inventado pelos irmãos Lumière). Um exemplo é “A culpa é do Fidel”, que consegue arrumar num ritmo ágil e sem correria um roteiro muito legal. As atuações, principalmente das crianças, valem o aluguel do DVD.

A história se passa em 1970 quando Anne-Marie, uma menina de aproximadamente 8 anos, filha de comunistas recém-engajados, percebe a polarização ideológica do mundo de então afetar o seu cotidiano. Não vou contar como isso se dá, pra não estragar as surpresas. Mas o filme nunca se afasta do ponto de vista da criança, e como ela tenta interpretar aquela realidade para sentir-se mais confortável.

O que posso dizer – e é um dos pontos que mais me chamou a atenção – é o modo de ver (e viver) o mundo que os pais de Anne-Marie encarnam. Se você olhar para 1971, em plena Guerra Fria, com os comunistas esperançosos e os capitalistas temerosos e prontos para destruir os inimigos, até se compreende. No entanto, o comportamento em questão perdura até os dias de hoje, inexplicavelmente.

Anne-Marie é repreendida pelo pai ao ser flagrada lendo quadrinhos da Disney. “Já não falei pra você não ler esse Mickey fascista?”. É forçada a participar de uma passeata para entender o que é solidariedade – e em determinado momento, a menina pensa que isso significa sempre ir com a maioria.

Ela também não compreende por que, no momento em que a mãe é solidária publicamente com as mulheres que abortaram contra a lei, o pai a condena por fazer isso em momento nada propício para o “movimento”. “Mas isso não é solidariedade?”, pergunta Anne-Marie, sem obter resposta convincente.

Anne-Marie coloca a mentalidade simplista dos pais sempre em xeque. Eles tentavam fazer uma criança entender realidades tipicamente adultas, sem sucesso. Hoje em dia, há que ainda pense como os pais de Anne-Marie, tentando encaixar numa lógica simplista as complexidades de nosso mundo.

Esses tipos, largamente encontrados em faculdades de ciências humanas, sindicatos e na classe política, enxerga (ou diz que enxerga) o mundo preto-no-branco, ignorando todo e qualquer contraste óbvio que a vida nos apresenta. Escolhem sempre a polarização – qualquer uma –, abdicam de pensar, de ouvir, de rever suas antigas opiniões, por mais desconexas que possam parecer. Nem tentam perceber as nuances do dia a dia, apenas censuram em nome da "causa".

A sorte deles é que não lidam com crianças como Anne-Marie. Ao contrário dela, os adultos não vão perturbar esses tipos com perguntas a torto e a direito, fiéis à demanda infantil dos infindáveis “por quês”. Mas nem por isso eles ficam quietos. Fazem questão de publicizar para o mundo ao redor que são superficialmente radicais e profundamente binários por opção – por mais ignorante que isso possa parecer.

Se em 1970 isso ainda se explicava, em pleno século XXI, com tantas certezas derrubadas por várias razões, esses tipos protagonizam o ridículo no cotidiano. Seus discursos e suas bandeiras parecem tão imbecis quanto ter a expectativa de que uma menina de 8 anos compreenda o que é fascismo.

Não obstante, esses tipos falam com suas audiências (forçadas ou não) como se estas fossem crianças. Constrangendo-as se pensam diferente deles, condenando-as pela ousadia em tomar outros rumos, rotulando-as pelas costas da forma mais covarde que puder. Só falta botar de castigo no cantinho ideológico.

Ver Anne-Marie expondo as incoerências da atitude desses tipos, personificados em seus pais, nos traz duas sensações: uma de vingança, se já fomos vítimas deles; outra, de contentamento, por estarmos cada vez mais certos que as certezas vão muito além da nossa vã racionalidade. E que é necessário a humildade de uma criança para viver sem maiores pesadelos, tampouco cinismo.

A vida de Anne-Marie sofre grandes e pequenas mudanças durante o filme, assim como seu modo de pensar e de se relacionar com quem está a seu alcance. Estranhos tornam-se próximos, raiva se transmuta em afeto, vergonha vira orgulho. E tudo da forma mais sincera e natural.

Certo estava o escritor Fernando Sabino, que escreveu seu epitáfio décadas antes de falecer: “Aqui jaz Fernando Sabino: nasceu homem, morreu menino.” Como a gente demora a perceber a importância desse processo! E enquanto não percebemos, como esses tipos teimam e se aproveitam da gente!

Sorte que os franceses ainda sabem fazer cinema, e me dão a chance de conhecer Anne-Marie.

domingo, 10 de janeiro de 2010

As cinco camisas do time do coração (*)

Simbiose e cumplicidade não são coisas automáticas, que o dinheiro adquira ou se encontre assim, fácil, fácil. Gente com isso, entre si, independente da genética, é coisa rara. Raro é valioso – veja só o ouro e os diamantes. Então, é coisa boa demais, tal e qual o time do coração. Pode ganhar, pode perder, mas time do coração não se move do coração.

Nem avô.

O avô chegou no coração do neto tempos depois de já ter nascido o time do coração. O coração do avô estava distante da mãe, mas o neto inventou de nascer e tudo se ajeitou. O time vivia uma fase de ouro, cansava de cansar de vencer e ser campeoníssimo, e no meio disso tudo chega o neto e cai no colo do coração do avô.

Pois as cores daquele time foram desbaratadas na frente do neto desde que ele começou a virar gente, e ele só se via feito gente se pudesse torcer pro time do coração. Culpa do avô. E como esse avô idolatrava sua própria culpa! Anunciava aos quatro ventos esse “crime” cometido. Mas se ele mesmo era “vítima” do neto...

As cores se repetiam, os títulos também, e a primeira pisada da planta do pé do neto num estádio, quem proporcionou? Quem levou os olhinhos maravilhados do garoto junto a seus ídolos de TV, bem de pertinho, descerrando a beleza do significado da palavra “autógrafo”? Esse avô que vivia no colo do neto não perdia tempo, nem oportunidade, mesmo beirando os setenta.

Avô é bom, mas acaba.

Se o neto vivia imaginando como ia ser esse mundo sem o avô, nunca chegaria ao sentimento acometido em novembro de um ano qualquer. O time do coração seria o mesmo? O futebol seria o mesmo? O neto seria o mesmo, já que agora não podia mais ser assim classificado?

O time do coração já não vivia grandes glórias. O neto vivia grandes saudades. E via na grandeza de sua saudade a certificação – óbvia – de como aquele avô era especial. A felicidade do neto era tamanha só por causa disso, e engoliu a dor de olhar pro lado, durante o jogo do time do coração, e não contemplar cabelos brancos.

Depois do fim, vem o seguro. E ele seguiu pra quem de direito. Não era muito.

O neto ficou com o cheque na mão.

E dali o cheque não saía.

Vontade de rasgar.

Vontade de não existir o sistema financeiro internacional, ou a seguridade social. Sem isso, não receberia aquele benefício. Aquele malefício.

O cheque seguiu pra conta, o valor sumiu com algumas dívidas pendentes, foi-se de vez. Melhor assim.

A camisa do time do coração era bonita – sempre foi. O avô adoraria dar camisas ao neto. Mas as oficiais, bonitonas e históricas, não tinham preços condizentes. O neto guardou com carinho as camisas do time do coração que o avô tinha comprado numa lojinha de esportes do bairro, que não vendia as oficiais, mas as “oficiosas”.

O avô não deu as melhores camisas do time do coração. Ele quis. Não deu.

Neto é bom, mas envelhece. E parece que quanto mais velho, menos neto ele parece ser, ainda mais quando o avô já não pode mais aparecer pra tomar a bênção.

Neto envelhece, amadurece, faz faculdade.

Faz prova pra um milhão de concursos, namora firme, rompe os ligamentos do tornozelo, ajuda nas despesas de casa.

Nesse cotidiano brasileiro junta um décimo-terceiro aqui, parcela um pouquinho acolá, e vai conseguindo as oficiais. Vem edição especial pra colecionador do time do coração e ele cai na armadilha (implicitamente desejada).

O armário vai ficando bonito. São cinco camisas do time do coração, que orgulho.

Orgulho do avô. Cadê o avô pra ver esse armário bonito?

A memória pode ser traiçoeira, mas também é oportunista, graças a Deus.

A memória olha as camisas e lembra do avô.

A memória lembra do avô e lembra do cheque.

A memória lembra do cheque e do seu valor.

A memória recapitula os preços das cinco camisas do time do coração.

A memória faz a graça matemática de somar o que já estava predestinado.

A memória mostra pro neto que o avô não se foi sem fazer o que queria.

(*) Texto escrito faz um tempinho. A foto é de 1984, conforme minha idade na palma da mão.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Tiger e seus arranhões

O mundo ficou chocado com as revelações da vida íntima do superastro do golfe Tiger Woods. Concordo que o planeta poderia estar em choque por coisas muito mais importantes para a humanidade do que isso, mas...

Mas o que reverberou da (ainda suposta) compulsão sexual do atleta foi não só a fuga como a decepção dos seus patrocinadores. Sim, grandes empresas do mundo corporativo como AT&T, Gillete e Nike tiveram seus desapontamentos bem definidos na afirmação da diretora de uma agência de publicidade européia:

"Tiger Woods simplesmente não se comportou como uma marca de US$ 1 bilhão."

Cumequié?

Pessoas que devem se comportar como uma marca. Assim como Michael Jordan, Ronaldo Fofômeno e tantos outros, Woods chegou a esse limiar: deixou de ser gente, virou marca. Associar sua empresa à marca Tiger Woods era lucro certo, por todos os atributos que o golfista apresentava.

Só que não mataram a pessoa... E ela veio à tona quebrando todos os valores que a marca já tinha garantido. Traição, luxúria, destruição da família não estavam nos planos das grandes empresas que surfavam na onda de credibilidade que Woods apresentava. Tão logo essa onda cessou, não houve nenhum constrangimento para encerrarem os patrocínios. Afinal, Tiger "rompeu o contrato": não era isso que ele deveria oferecer a seus "patrões-parceiros" hematófagos.

Até onde a imagem vai ditar o ritmo da realidade?

Até a realidade falar mais alto e calar as pretensões da imagem.

Em marketing aprendemos que "imagem é percepção". Ou seja, é a velha máxima da mulher de César, pela metade: o negócio é parecer honesto. Se por acaso você for, ajuda.

Porém no momento em que um episódio de sua vida privada é amplificado pelas tecnologias de comunicação mundiais... Automaticamente, todo o mundo terá a mesma percepção sobre você, e sua contra-argumentação nunca será na intensidade suficiente para equilibrar as coisas. A imagem de Tiger Woods foi corroída em tempo real.

Se chegamos a um ponto em que devemos nos comportar como uma marca, talvez os grandes patrocinadores esperem que sejamos como a personagem de Laura Linney em "O show de Truman". Ela é a mulher do protagonista e, dentro de casa, está sempre a postos para fazer um merchandising, portando-se artificialmente em sua vida conjugal.

Era isso que esperavam de Tiger Woods? Ou simplesmente que não deixasse seus demônios "vazarem" para o mundo real? De um jeito ou de outro, é hipocrisia legitimada.

No Brasil, Ronaldo. Nos EUA, Tiger Woods. Quantas personalidades-marca terão que se imolar na vida pessoal para destruir a bolha ilusória do marketing? Porque após isso, o que fica é o real, pronto para ser realisticamente avaliado: se o goleador e o golfista têm o talento anunciado. Se têm, continuemos a acompanhá-los, a despeito de serem ou não uma marca.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Marrentinho, ouça a voz da experiência!

Um dos melhores quadros que o Casseta e Planeta já produziu foi o Tabahara Futebol Clube. O grupo de humoristas conseguiu representar bem todos os tipos da cultura do futebol, amador ou profissional. Lá estava tudo o que se via na TV, nos estádios e nas peladas com os amigos.

Eu ria muito quando o personagem Wanthuirson (Beto Silva) dizia para o Marrentinho Carioca (Bussunda): "Marrentinho, ouça a voz da experiência...". Um clássico dos conselhos dos veteranos de futebol. Sem contar que o Marrentinho era claramente inspirado no grande craque - e malandro - Romário.

Semana passada o América-RJ voltou a ser campeão, 27 anos depois. Triunfo construído durante o ano com a liderança de Romário como gestor de futebol do clube. Mas no jogo do título ele decidiu entrar em campo por alguns minutos para homenagear o pai, seu Edevair. Devido à promessa, o jogo até foi transmitido pela TV.

E durante a partida Romário me ensinou muita coisa para a vida, em apenas um lance.

É fato que o Baixinho, sempre avesso a treinos e agora com 43 anos, não tem pique pra correr nem por alguns minutos. Mas além de continuar batendo muito bem na bola, tem ótimo senso de colocação.

Num dos lances em que o América ia ao ataque, ele saiu da grande área (sua especialidade) e ficou livre pra receber a bola, de maneira tão simples e óbvia que o meio-campista não fez outra coisa: passou.

Em nenhum momento do jogo Romário deu vexame ou tentou fazer o que não mais conseguiria. Como no lance acima, se deslocou no ritmo e no momento que pôde, sem forçar a barra. Romário só vai "na boa". E aí veio a epifania.

Principalmente no cotidiano de trabalho, em que interajo com muita gente, muita hierarquia e (como em todo lugar de labuta) com muitas vaidades, saber se deslocar em meio a tudo isso requer destreza. Mas o segredo de Fátima, revelado por Romário, é só ir "na boa".

Ir "na boa" pode significar ficar quieto mesmo que você tenha algo a dizer a todo momento. É se bastar como coadjuvante enquanto os pavões necessitam tanto abrir suas asas. É dar pequenos passos motivados por grandes ambições - que nem todos precisam ficar sabendo quais são.

Assim como Romário, é confiar no seu taco quando você pode jogar sinuca sem susto, não ter marra quando você não se garante. É saber o momento de se recolher e de entrar em campo, de chamar a atenção e de sumir do mapa. É ficar andando boa parte do tempo para dar o pique quando ninguém espera, em direção ao gol, cirurgicamente.

Portanto, é melhor mesmo eu ouvir a voz da experiência ecoada por Romário, exposta num simples deslocamento de área. Até porque, quem sabe eu não sou tantas vezes um Marrentinho? Fala sério...

sábado, 28 de novembro de 2009

United Kingdom of Ipanema

Nunca uma expressão foi tão representativa da cultura de uma cidade - ou das autoridades constituídas perante ela, bem como seus prestadores de serviços. Quando uma grife carioca resolveu estampar "United Kingdom of Ipanema" nas suas peças, foi o ato falho de um certo insconsciente coletivo, que se revelou nos episódios dos "mini-apagões" dessa semana.

Ipanema, Leblon e Copacabana ficaram sem luz durante algumas horas no meio da semana. Nada comparado ao blecaute nacional do dia 10, mas o suficiente para a classe média-alta carioca estrilar. Estão no seu direito já que, proporcionalmente à renda, tiveram prejuízos como qualquer outro morador teria.

Mas eis que a Light resolveu pedir oficialmente desculpas aos moradores desses bairros. Não satisfeita, ainda ofereceu um gerador para 123 clientes da região enquanto a situação não se normalizava. Aí foi se desenhando o ato falho.

O jornal Extra, que é voltado para as classes média e média-baixa das Zonas Norte e Oeste da cidade, começou a estampar em suas capas cobranças explícitas para que a Light se desculpasse e oferecesse geradores para moradores da Tijuca, Engenho de Dentro, Méier, Campo Grande, Santa Cruz... E não faltaram histórias de leitores, devidamente cobertas pelo jornal logo em seguida, para deixar a céu aberto o "apartheid" da prestação de serviços (públicos e privados) para os cariocas.

Por essas e outras, a expressão United Kingdom of Ipanema cai tão bem. Assim como na Grã-Bretanha, um arquipélago formado por Inglaterra, Escócia, Gales e Irlandas, a cidade do Rio tem em Leblon (bairro do governador e dos artistas da Globo), Ipanema, Copacabana, Gávea, São Conrado e Barra da Tijuca (bairro natal do prefeito) seu Reino Unido.

O arquipélago aqui é social e psicológico: tenho certeza que, se fosse feita uma pesquisa a respeito entre os moradores dessas regiões, para eles o Rio de Janeiro não precisaria ir além dos limites do "Reino". Todo o resto poderia ser outra cidade, dando um upgrade no status de capital e cidade-estado que o Rio já teve.

Farei justiça: conheço várias pessoas que moram nesses bairros que não pensam assim (ou deixaram de pensar). Mas não se esqueçam que estamos falando de um universo de cerca de 400 mil moradores.

E a devoção a esse reino é tanta que a postura da Light lembra as cerimônias monárquicas em que os visitantes do castelo ajoelhavam-se diante do rei soberano, em reverência, respeito e temor. Um pouco de república democrática não faria mal a ninguém.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Boicotê ao Metrô Rio no dia 30/11

TODA a população está convocada a protestar de uma forma civilizada contra o péssimo serviço prestado pelo metrô. Sempre com atrasos, vagões sem ar-condicionado, superlotados e até mesmo sem luz. Alguma coisa tem que ser feita, não adianta mais ficarmos apenas reclamando uns com os outros. Temos que agir.

No dia 30 de novembro, ninguém faça uso do metrô. Boicote de passageiros. Vamos dar um prejuízo de milhões e chamarmos atenção de verdade das autoridades e responsáveis pelo caos.

Já nos sacrificamos todos os dias utilizando este transporte, que em troca só nos oferece desrespeito. A greve deve ser mantida, mesmo que, nesse único dia, tenhamos que pegar mais condução ou demoremos um pouco mais a chegar em nosso destino. O fato é que precisamos nos mobilizar.

Avise aos amigos, colegas de trabalho, envie e-mails, mensagem de celular, espalhe cartazes para que o maior número de pessoas venham a aderir a esta mobilização. Juntos podemos mudar o caos e o descaso que reinam no Metrô Rio.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O filho da imprensa

"Lula, o filho do Brasil", filme da família Barreto que teve sua pré-estréia ontem em Brasília, ia mesmo dar o que falar. Mas é uma grande faca de dois gumes para a produção, que não dá ponto sem nó. O problema é a esquizofrenia dos críticos e da imprensa.

Já se sabe que Luis Carlos Barreto é um grande espertalhão do cinema brasileiro. Além do talento como produtor, sabe fazer lobby como ninguém. Conseguiu junto ao Congresso, após a existência da Lei Rouanet (incentivo fiscal para que empresas patrocinassem cultura como um todo), a Lei do Audiovisual, que tem o mesmo objetivo, mas é específica para o cinema.

Quem é do meio especula que, quando um grande edital de cinema prorroga a data de inscrição, é porque figurões como a família Barreto não conseguiram entregar seus projetos a tempo.

Pois é esse pessoal que teve a ideia de fazer um filme sobre Lula. Desde o começo estava claro o objetivo de fazer uma média com o Governo, e deram a sorte de ter um presidente com um roteiro de vida comum à maioria dos brasileiros. E que mantém seus níveis de popularidade altíssimos, muito disso fruto de sua identificação pessoal com o povo.


Bipolaridade

Após o incêndio das obras de Hélio Oiticica, que estavam guardadas num depósito do irmão do artista, o Globo foi entrevistar o ministro da Cultura, Juca Ferreira. Perguntaram se o Estado brasileiro não deveria ter mais iniciativas para preservar o patrimônio cultural.

O ministro tocou na ferida: "Mas vocês da imprensa não podem acender uma vela para Deus e outra para o diabo". Ele explicava que tinha pouca gente pra dar conta do trabalho da Cultura, incluindo fiscalização. Mas se alguma despesa de pessoal é anunciada, Juca reclamava que a imprensa criticava o Governo por aumentar os gastos públicos. Afinal, é pra ter ou não ter a presença do Estado?

A mesma esquizofrenia acontece com o filme sobre Lula. Na primeira página de hoje, o jornal destaca que o filme foi feito apenas com recursos privados, com empresas fazendo doações obscuras, insinuando que querem obter vantagem junto ao Governo. Tenho certeza que, se o filme tivesse utilizado lei de incentivo, iam dizer que os cofres públicos estariam pagando a campanha eleitoral de 2010.

Nem santos, nem cínicos

Ninguém é santo nessa história. Lula, o Governo, as empresas, os produtores: todos saem ganhando com o filme e com a polêmica que o envolve e traz Ibope. Quem precisa dizer a que veio é a imprensa, buscando o bom jornalismo. Que não confunde, mas colabora com o esclarecimento do leitor.

Há algum tempo, quando um carro foi submerso em Copacabana por uma tubulação que estourou, a legenda do Globo dizia: "Carro submerso em tubulação administrada pela Cedae, a única estatal fluminense que ainda não foi privatizada". A mensagem é implícita e ao mesmo tempo claríssma: privatização é sinônimo de competência, Estado não é.

As operadoras de telefonia estão aí pra mostrar que não é bem assim. Do mesmo modo, nem sempre o Estado vai ser o melhor ator para determinado tipo de atividade. Mas essa dinâmica precisa ser assimilada pela imprensa, de uma vez por todas. Os leitores estão de saco cheio de pautas que já saem das redações com uma tese pré-concebida, buscando enquadrar os fatos na versão.

Com a internet, esse tipo de expediente caduca a passos largos, destruindo a credibilidade jornalística. O que se pode pensar do patrocínio cultural, por exemplo? É melhor ser totalmente privado ou possuir Lei de Incentivo? Ou ter dinheiro direto do Estado? Não se amadurece essa discussão.

O filme sobre Lula nunca deveria ser feito, a fim de evitar qualquer tipo de questionamento? Ou deveria ser lançado somente após as eleições - sob o risco de não conseguirem patrocínios suficientes, já que o retorno de público poderia não ser o mesmo de quando Lula ainda estivesse sob os holofotes presidenciais?

Ou a imprensa volta a suas origens, sem brigar com os fatos e buscando o esclarecimento da população, ou perderá cada vez mais o seu valor.

domingo, 4 de outubro de 2009

A favor, sempre a favor. Será que ainda não entenderam?

Vi que o presidente Lula, em coletiva de imprensa, criticou aqueles que sempre torcem contra, diante da vitória do Rio para as Olimpíadas de 2016. Quase me senti lisonjeado. Será que fui mencionado pelo chefe máximo da nação em um de seus pronunciamentos? Nada mais longe da verdade.

Até porque precisamos relativizar o advérbio "sempre". Se tudo leva a crer que a Copa 2014 e a Rio 2016 vão seguir o mesmo descalabro com o dinheiro público que se viu no Pan 2007 e em tantos outros eventos esportivos, sempre torcerei contra. A partir do momento que essa perspectiva mude, sempre torcerei a favor.

Então eu estaria torcendo para que os eventos acima sejam um desastre? Óbvio que não. Minha torcida era contra a escolha. Uma vez sacramentada, meu pragmatismo me impede de ficar chorando o leite derramado.

Qual o próximo passo, então? Detonar o ufanismo galvaobuenista e os bairrismos de ocasião (tem carioca achando que as críticas vêm de São Paulo, e desqualificando-as, vê se pode?) para fiscalizar o que vão fazer com o seu, o meu, o nosso dinheirinho. Aliás, por que os figurões que, ao serem assaltados ou coisa do tipo vociferam "Eu pago meus impostos, não posso aceitar um negócio desses!" ficam quietinhos ou entram no oba-oba em meio aos superfaturamentos incompetentes?

Por que o Governo não elaborou, junto com o projeto para a candidatura, uma Política Nacional para o Esporte, fazendo da Olimpíada o catalisador de um processo planejado? Nada disso. E lá vamos nós para mais um megaevento administrado por mentes pequenas e míopes, com alma de pilhagem.

Posto isso, reproduzo aqui as perguntas formuladas por André Monnerat em seu blog, que devem ser o mantra da imprensa e da população carioca (e brasileira, por que não?):

- Como pretendem dar transparência às contas da Olimpíada? Como será possível para nós, cidadãos, verificarmos quanto de nosso dinheiro está sendo gasto, como e por quem?

- Como pretendem esclarecer a população sobre o uso pós-Olímpico dos equipamentos esportivos que serão construídos?

- Como será a política esportiva do Estado brasileiro daqui pra frente? Seguirão na linha de dar dinheiro público a atletas de ponta, ou finalmente veremos investimento para usar o esporte como ferramenta de educação e saúde, na base, colocando-o no dia-a-dia das crianças na escola?

- E qual será o efetivo legado deixado no Rio de Janeiro?

As Olimpíadas vão ser benéficas para a imagem e o turismo do Rio de Janeiro, não há dúvida. Acredito que o evento será um sucesso, já que durante ele seus protagonistas são os atletas. Mas até lá devemos, com o perdão da expressão, pentelhar os donos do poder e das responsabilidades.

Assista a uma das melhores reportagens investigativas do ano:

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Eu não sou Galvão Bueno

Quero as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro.

Não quero as Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro.

Não sou incoerente, e posso provar. Sou brasileiro e tenho orgulho do meu país. Com todos os problemas que encontramos aqui, não sou daqueles que jogam no lixo tudo o que foi construído no que hoje se chama Brasil. Nem tampouco olho pra fora ansiando por ser igual a outro país, outra cultura - embora não abra mão das críticas internas, como já fiz neste blog.

Acho muito legal que o Brasil seja o país-sede da Copa 2014 - nada mais justo à nossa tradição futebolística. E também apóio a ideia do meu amado Rio de Janeiro sediar o encontro das nações por meio do esporte.

E eu gosto tanto do meu país e da minha cidade que não aceito que eles sirvam de pretexto para meia-dúzia de políticos e cartolas usarem mal e porcamente o dinheiro público. Pois os impostos que deveriam sustentar uma boa administração do cotidiano do país e da ex-capital federal vão-se embora em superfaturamentos e falta de organização e transparência.

Ora, não foi isso que vimos no Pan 2007? Não é isso que vemos, ano após ano, no Campeonato Brasileiro de futebol?

O que me irrita ainda mais é ser contado entre os traidores da pátria simplesmente porque não apóio os traidores da pátria. Porque não aceito sacanearem a boa vontade do povo brasileiro e suas intenções em ver grandes eventos aqui do lado de casa. E hoje isso significa ser contra a realização da Copa e das Olimpíadas, pois estão sendo gestadas da mesma maneira que o esporte é gerido no Brasil: por poucos, para poucos, com o dinheiro de muitos.

Portanto, não me peçam pra torcer pelo Rio no dia 2 de outubro (já que não adianta mais torcer contra o Brasil para a Copa). Ficarei na minha casa esperando, esperançosamente, ver os politicalhas de ocasião fazerem a cara de bunda dos narcisistas derrotados.

Embora reconheça que o Rio tem chances, por nunca ter havido uma Olimpíada na América do Sul e por ser o Rio. Obama estará lá na hora da decisão, mas não dá pra saber a quantas anda o lobby do carismático político, ainda mais na seara esportiva.

domingo, 27 de setembro de 2009

Ator

Fico fascinado com atuações: de cinema, teatro, ou o que seja. Sempre gosto de avaliar não só o papel, mas o artista e como ele desenvolveu seu trabalho. Acho que tenho uma queda para o ofício de diretor, por isso reparo tanto no que muitos não reparam, como a essência de uma atuação. Alguns podem perceber sua qualidade pelo efeito emocional que ela proporciona – o que geralmente acontece com os papéis principais. Mas costumo notar tais detalhes até naqueles chamados papéis secundários.

Escrevi esse primeiro parágrafo apenas para tentar ilustrar o que ocorre comigo muitas vezes. Só que o ator a ser avaliado sou eu mesmo. Não quero generalizar falando de pessoas, dos humanos… Eu mesmo sou assim, ator muitas vezes. Pior: freqüentemente atuo sem querer, no sentido implícito de “contra a minha vontade”.

Não chego ao campo da hipocrisia e suas máscaras enganadoras (e enganadas antes de tudo), mas há diversas situações em que não queremos, digo, não quero revelar o que realmente está acontecendo comigo. Seja por falta de intimidade com os que estiverem à minha volta, ou porque realmente são coisas extremamente especiais e pessoais… O que chamo a atenção hoje é que somos, perdão, é que sou ator sem ser, sem querer ser, sem levar jeito (ou levando pouquíssimo jeito), sem sentir prazer em ser, sem natural liberdade pra ser, mas sendo ator tenho liberdade para me ocultar, me guardar, me esconder.

Quantas vezes o quarto ou qualquer outro cômodo da casa que seja mais reservado não foi o cenário para atuações marcantes nossas, isto é, minhas? Na maioria, claro, dramáticas e chorosas, dignas de um esconderijo inacessível. Mas essas atuações são privadas, o público se resume a nós, quer dizer, a mim. As atuações públicas, quando da boa qualidade citada no primeiro parágrafo, merecem aplausos inflamados, pois conseguem ocultar sentimentos até mais do que inflamados, infeccionados, ainda sem cura.

Esse tipo de atuação conseguimos, digo, consigo repetir dia após dia. Me assusto constantemente com meus sucessos sucessivos. Porque quando o sentimento e seu estado anormal do momento não são notados por ninguém (como acontece comigo, com constância), parabéns pra nós, isto é, pra mim: está alcançado o sucesso e o susto com minha própria competência para o ofício de ator que sei que não levo jeito.

Nessa pequena reflexão através do meio literário da crônica fui tentado, várias vezes, a usar a primeira pessoa do plural. Cabe ao leitor justificar ou não essa minha tentação. Somos mesmo atores desse tipo, em nosso cotidiano? Eu me surpreendo sempre comigo e minha estranha capacidade de atuar escondendo, mesmo após me dar conta de que faço isso com uma facilidade que me impressiona. Será que sentimos necessidade de utilizar esse recurso, pode-se dizer, artístico para conseguir uma certa privacidade? Eu não fico assustado com isso.

Assusta-me o fato de que conseguimos fazer isso, apesar do impacto que lateja em nós, nos inconstantes momentos de nossa vida.

Que crônica filosófica! Não leve muito a sério. Às vezes, deixa de ser crônica para ser o retrato letrado de um momento crônico, apenas isso. Mas se houve algum tipo de identificação da sua parte, já valeu muito mais do que a mera tentativa de desabafar por meio de meu teclado pessoal, nada musical e combustivelmente emocional.

(17 de julho de 2000)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O homem é o mito. E o mito é um homem, sempre

Recomendo a leitura de Roberto Carlos em detalhes, biografia do rei muito fundamentada e bem escrita por Paulo César de Araújo. Talvez não seja fácil achar, já que o cantor entrou com um processo contra o autor, e o covarde acordo da editora Planeta com Roberto resultou no recolhimento dos 11 mil exemplares à venda, além de impedir sua comercialização. Mas procure em sebos ou alguém que tenha adquirido quando ainda não era proibido fum... comprar.

O livro já mereceria atenção por ser a primeira biografia de Roberto Carlos, fruto de uma pesquisa de 15 anos do historiador, jornalista e mestre em memória social Paulo César. Mas o processo judicial e suas desproporções kafkianas despertaram o interesse até de não-fãs (como eu) pra saber que conteúdo explosivo era aquele.

No evento Jornalismo Literário, do Centro Cultural Banco do Brasil, Paulo César contou o que houve na história toda - e que ele vai contar no livro O réu e o rei, a ser lançado: Roberto e seus advogados (ou será o contrário?) acusaram o autor de invasão de privacidade e pediram altas indenizações por danos morais e multas astronômicas por dia em que o livro ainda estivesse sendo vendido. Até a prisão do autor foi solicitada na acusação.

A editora Planeta prometeu total apoio a Paulo César, mas na hora teve postura de cordeirinho diante do poderoso Roberto Carlos. Segundo relato do autor, o juiz do acordo, Tércio Pires, foi tirar fotos com o cantor após a audiência. Músico amador, Tércio entregou seu CD para o rei apreciar as belas canções de Té Lopes, nome artístico do magistrado.

Paulo César ainda falou da sua interpretação para a reação de Roberto: assim como boa parte de seu público, ele possui cultura televisiva, sem o hábito da leitura, e um livro sobre sua vida teria lhe dado um susto. Além de discordar de alguns relatos e sempre anunciar que faria sua própria biografia. Curioso é que Jacqueline Kennedy possui 26 biografias sobre sua vida, feitas por autores diferentes...

E lá fui eu pedir emprestado o livro ao sogrão bibliófilo para conferir.

O mito está lá

Aqui é necessária uma contextualização: nasci em 1980, e quando começava a ficar grandinho conheci Roberto Carlos pelos especiais de final de ano da Globo. Fiquei mais grandinho e vi que era sempre o mesmo especial, e que as entrevistas de Roberto eram sempre as mesmas, e suas músicas novas, um absurdo. Pontos para o politicamente correto e a memória viúva, mas o rei da música brasileira fazendo canções apenas sobre mulheres de óculos e gordinhas, e para a falecida esposa? Não conseguia acreditar.

Esse Roberto Carlos bobalhão da Rede Globo era o único que eu conhecia de perto. Até ler o livro de Paulo César de Araújo.

Diante da pesquisa acurada do autor, tive que rever todos os meus preconceitos (talvez até justificáveis) para descobrir a importância que Roberto Carlos tem para o cenário musical brasileiro. Ali percebi a originalidade de Roberto, o impacto que seu rock causou, sendo embaixador dos Beatles sem deixar de ser autêntico e ainda causando inveja e recalque inimagináveis em baluartes da MPB (aliás, a sigla surgiu pra diferenciar-se do que a Jovem Guarda liderada por Roberto produzia).

Também graças ao livro revisitei canções românticas e simples, mas belas, que ele e Erasmo Carlos produziram, como Se você pensa, Sentado à beira do caminho, Detalhes, As curvas da estrada de Santos... Eu já tinha ouvido essas músicas nos especiais da Globo, mas saber como elas surgiram nos dá a dimensão do mito Roberto Carlos.

E aí está, na minha opinião, o ponto central da discórdia entre o rei e o réu. Paulo César de Araújo faz uma pesquisa tão séria e tão profissional que não esconde o lado humano de Roberto Carlos. Fala de sua única briga com Erasmo (negada ao vivo no Faustão), de suas manias, de suas espertezas para conseguir um lugar ao sol na vida artística. E em nenhum momento o talento e a estrela de Roberto Carlos são menosprezados, muito pelo contrário.

Porém Roberto Carlos não admite essa humanização do mito. Seus especiais na TV, suas aparições em outros programas, suas entrevistas, enfim, o trabalho de sua imagem é voltado para que o rei seja uma unanimidade bondosa e cativante - quase um santo. E nada pode pôr em risco esse processo. O que normalmente as biografias sérias fazem.

O mito é um homem, e nem por isso deixa de ser mito - vá você encontrar uma razão absoluta no imaginário popular. Paulo César também pontua que Roberto é um artista biográfico, divide sua vida com os fãs ao entoar passagens pessoais (com alegrias e dores) através de suas letras. Nada mais irônico do que impedir que uma biografia sua chegue ao público.

O santo, com seus devotos imediatos e interesseiros (assessores e advogados) cultiva a ilusão de que vai controlar o que pensam dele. Com certeza, após a morte, seus herdeiros terão a mesma militância. Mas vai adiantar, em tempos de internet e democracia?

O livro de Paulo César reforça o mito, contudo com mais fundamentos do que os apresentados pelo próprio Roberto ano após ano. A decisão de praticar tamanha violência judicial joga contra sua intenção canonizante. Vocês precisavam ver a cara da minha avó ao ouvir a história do processo, e em seguida dizer "eu não esperava isso de Roberto Carlos...".

Eu também não esperava que o livro fosse tão bom - pra mim e pra Roberto Carlos. Só que ele não quis rever seus conceitos...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Questões existenciais

Um professor do curso de Psicologia de minha esposa levantou uma questão inédita (ou quase): como terá sido a primeira fome de um bebê? O pequeno ser, que sempre viveu em simbiose com a mãe enquanto dentro do ventre, até então nunca tinha passado necessidade para se alimentar. Nem sabia o que era isso. Mas após sair do recanto ideal, vem aquela sensação estranha e desconhecida... Vamos ouvir o relato do sujeitinho:

"Que frio! Esses paninhos aqui nem dão pro gasto. Pra piorar, não consigo abrir o olho direito - nem o esquerdo. Haha, meu primeiro chiste. Quanta luz! Pra que isso tudo, seus gigantes? É isso a vida, a existência cá fora? Aceito devoluções. Como se não bastasse sair todo melecado... Peraí. Queísso, meu Deus? Tá doendo aqui dentro. Não, não é dor. O que que eu tô falando, eu lá sei o que é dor? Bom, dor de frio sim. E eu lá sei o que é frio? Empiricamente, sim. Mas isso de agora é diferente. Eu preciso, preciso... de quê? De alguma coisa! Que eu não sei o quê! Mas eu preciso! Ai, ai, ai, que sensação estranha, diferente de absolutamente tudo que conheço... Me dá alguma coisa pra passar isso que eu não faço a menor ideia do que seja mas que já não aguento em minhas parcas horas de surgimento!! Ser gigante perto de mim, me ajuda! Faz alguma coisa! Estou em suas mãos! Literalmente, o que é pior! Ai... O que é isso? Isso vai durar pra sempre? Quanto é sempre????"

É claro que todo o parágrafo acima foi dito num sonoro e contínuo "unhé". Até que a mãe tira o peito pra fora e vai levando em direção ao bebê:

"Ser gigante, você está me oferecendo um pedaço de você? O que que eu vou fazer com isso? Canibalismo, a essa altura da vida? (peito encaixa na boca. A partir daqui, a narrativa descreve o pensar "bebênico") Hummm... isso é bom. Era disso que eu precisava... Pele e líquido. Já não estou sentindo tanto o que eu sentia antes. O que terá sido? Só sei que está passando... Ô delícia. Quando eu ia imaginar que a protuberância do ser gigante traria o manjar dos deuses? (mãe tira um pouco o peito, achando que já está bom) Ei, aonde vai com isso? Me dá! É minha propriedade! Eu quero! Eu exijo! Eu demando! Freud me explica E me justifica! Volta! A sensação estranha ainda permanece, ainda que menor... Rejeito essa sensação estranha! Ser gigante, não ouse me rejeitar! Plebe!"

Até o peito voltar à boca do bebê, os protestos também foram evocados no idioma "unhé". Após nova investida e aí sim o saciar, o bebê sossega e ouve a mãe dizer:

- Ele estava com fome!

"Estava com fome. Fome. Esse troço estranho chama-se fome? Fome. Nunca mais quero sentir isso na vida. Fome. Fo-me. F-o-m-e. Nascendo e aprendendo. Nada pode ser pior do que sentir fome."

Em seguida, o bebê começou a aprender que não era bem assim. Ele voltaria a sentir fome, e para exterminá-la teria sempre a companhia dos gases (e constrangimentos) de toda sorte.