Pluralidade de opiniões
No que uma comissão do Senado aprova a redução da maioridade penal, o pai de uma menina assassinada por um menor discorda. E mais: admite que era a favor da redução só no período após o choque da morte.
Ainda que o texto termine com uma reação diferente por parte do pai, é interessante uma vítima assumir que, no calor do momento, tomaria uma decisão precipitada sobre a redução da maioridade penal.
Ouvi, "Sivucas" de plantão...
PS: aqui você confere um ótimo estudo de caso da cobertura do Globo e a pena de morte, analisando as matérias sobre o assassinato de Liana. Atemporal e universal.
sexta-feira, 27 de abril de 2007
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PAN-DEMÔNIO (*)
Você sabia que existe o Comitê Social do Pan? É um grupo de 17 entidades que busca intervir criticamente na gestão do Pan-Americano do Rio de Janeiro. Um alento, já que a maior parte da mídia saúda o Pan como um carro-chefe de futuros lucros pro Rio, mas não coloca em foco os desperdiçadores do dinheiro público. O Pan aumentou em mais de 10 vezes o seu orçamento inicial (de R$ 800 milhões para R$ 3,5 bilhões), e lá se vai grana do Governo Federal para cobrir incompetências de planejamento dos dirigentes esportivos. Em especial, o senhor Carlos Arthur Nuzman, mais um grande aproveitador do filão do esporte brasileiro, tal e qual Ricardo Teixeira.
Algumas das entidades atuam não apenas no Pan, mas de maneira permanente. E é essencial que sejam conhecidas do público, como o Fórum Popular do Orçamento.
(*) Título de artigo do deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), também sobre o Pan-Americano.
Você sabia que existe o Comitê Social do Pan? É um grupo de 17 entidades que busca intervir criticamente na gestão do Pan-Americano do Rio de Janeiro. Um alento, já que a maior parte da mídia saúda o Pan como um carro-chefe de futuros lucros pro Rio, mas não coloca em foco os desperdiçadores do dinheiro público. O Pan aumentou em mais de 10 vezes o seu orçamento inicial (de R$ 800 milhões para R$ 3,5 bilhões), e lá se vai grana do Governo Federal para cobrir incompetências de planejamento dos dirigentes esportivos. Em especial, o senhor Carlos Arthur Nuzman, mais um grande aproveitador do filão do esporte brasileiro, tal e qual Ricardo Teixeira.
Algumas das entidades atuam não apenas no Pan, mas de maneira permanente. E é essencial que sejam conhecidas do público, como o Fórum Popular do Orçamento.
(*) Título de artigo do deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), também sobre o Pan-Americano.
quinta-feira, 26 de abril de 2007
Luto
O luto é necessário. A perda traz impacto fulminante, é impossível prosseguir do mesmo jeito no dia seguinte a ela. A imunidade emocional vai lá embaixo, e a metáfora biológica se aplica em todos os aspectos. É preciso convalescência.
Ao mesmo tempo, o luto tem um dado curioso, mesmo em suas expressões mais tradicionais: possui um período. Um dia, mais ou menos de acordo com a dor referente, foram estipulados vários períodos de luto. Luto oficial de três dias, uma semana. Algumas viúvas já ficaram enlutadas por um, três ou sete anos!
Mas é um período determinado. Ou seja, existe a necessidade de se viver o luto, e também a necessidade de que ele termine. E isso algum dia foi programado, pensado, planejado. Precisamos estar cientes, e buscar essa mentalidade: o luto é essencial após as perdas, mas deve terminar. Do contrário, ficamos estagnados. Fim do luto é recomeço da luta.
Não sejamos frios pensando que todo luto tem um período e ponto final. Cada um no seu tempo, mas com a consciência de que ele tem que acabar a tempo da vida seguir.
Pequenos grandes aprendizados do cotidiano.
O luto é necessário. A perda traz impacto fulminante, é impossível prosseguir do mesmo jeito no dia seguinte a ela. A imunidade emocional vai lá embaixo, e a metáfora biológica se aplica em todos os aspectos. É preciso convalescência.
Ao mesmo tempo, o luto tem um dado curioso, mesmo em suas expressões mais tradicionais: possui um período. Um dia, mais ou menos de acordo com a dor referente, foram estipulados vários períodos de luto. Luto oficial de três dias, uma semana. Algumas viúvas já ficaram enlutadas por um, três ou sete anos!
Mas é um período determinado. Ou seja, existe a necessidade de se viver o luto, e também a necessidade de que ele termine. E isso algum dia foi programado, pensado, planejado. Precisamos estar cientes, e buscar essa mentalidade: o luto é essencial após as perdas, mas deve terminar. Do contrário, ficamos estagnados. Fim do luto é recomeço da luta.
Não sejamos frios pensando que todo luto tem um período e ponto final. Cada um no seu tempo, mas com a consciência de que ele tem que acabar a tempo da vida seguir.
Pequenos grandes aprendizados do cotidiano.
É o retrato do artista quando mutilado
"A saudade é arrumar o quarto/Do filho que já morreu/
Oh pedaço de mim, oh metade arrancada de mim"
("Pedaço de Mim", Chico Buarque)
Você pode perder um filho sem ter um filho. Não tenho filhos, pretendo ter. Tudo o que sei sobre o assunto vem de leituras, relatos ouvidos ou acompanhamento pessoal de outros pais e seus filhos.
Logo, sei que um filho quase sempre chega na hora certa, mesmo que na hora não pareça. Independente disso, um filho, desde sua concepção, é cercado de expectativas e especulações. Nele os pais projetam muita coisa (isso pode ser ruim, se mal administrado pelos genitores), aguardam e depois observam seu crescimento, desenvolvimento, amadurecimento. Ver um filho formado ou casando não é apenas um sonho classe média. É a coroação viva de uma criação que, com todas as suas limitações, vê naquele garotão ali uma licença para se orgulhar, é o ápice a ser curtido, o fruto depurado e alçando vôo.
Seu filho pode ser um projeto pessoal ou profissional, uma ocasião que conjugaria em suas execuções resultados há muito buscados por você. Que a partir dela você seria potencializado, suas expectativas se renovariam. O "bom" orgulho chegaria te deixando suspirar pelo que você batalhou anteriormente para que aquele momento pudesse ser do jeito sonhado.
Você pode perder um filho numa bala perdida.
Uma bala perdida é tão estúpida quanto os mesquinhos que possuem uma nesga de poder sobre você. E que são extremamente competentes no exercício desse poder e na refinação de sua mesquinharia cruel e míope.
Você pode ser órfão de filho.
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sexta-feira, 20 de abril de 2007
Mais uma rasteira da ironia
FHC roubado na Espanha
Ele deve estar se roendo de raiva por que não foi num país de terceiro mundo, e porque nem pode culpar o PT...
FHC roubado na Espanha
Ele deve estar se roendo de raiva por que não foi num país de terceiro mundo, e porque nem pode culpar o PT...
quinta-feira, 19 de abril de 2007

O carioca é um ser inteligente?
Nasci no Engenho Novo e me criei em São Cristóvão, após passar um breve período no Rocha. Minha noiva, quando começamos a namorar, morava no Rio Comprido. Congrego numa igreja do Centro da cidade (onde também trabalho), e tenho grandes amigos que moram em Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca. Sou carioca, portanto. Não quero sair desta cidade, com todas as facilidades que um centro urbano possui, mesmo com suas desvantagens.
Como qualquer carioca - seja rico, seja pobre - estou indignado com a violência (de novo, meu Deus!) e seriamente preocupado em me acostumar com episódios bárbaros e tiroteios em praça pública. Mas o pior é que a sensação que tenho é que o carioca está embrutecendo e emburrecendo.
Por que alguém acredita que o Exército vai resolver o problema da violência? Por que essa é sempre a solução tratada como ideal após situações de calamidade pública movidas a bala? Por que temos essa ilusão, ainda mais que as Forças Armadas são do país, e não de um estado exclusivo? E sabendo que eles ficarão temporariamente apenas? Eles não são preparados para o policiamento urbano, e isso não é uma ofensa aos soldados, mas uma constatação de função. Dão, no máximo, uma sensação de segurança.
Eu me pergunto por que o carioca só resolve cobrar uma coisa dos governantes: a presença do Exército. Se acontecer, não será a primeira vez. O que adiantou? Será que cada governador, pra não contrariar um pensamento único do público, encampa esse teatro deliberadamente?
Irmãos cariocas, vamos cobrar permanentemente de nossos representantes políticos um ensino público de qualidade que seja universal, atendendo a todas as classes - e não protestar contra o aumento de mensalidades; moradias decentes para todos - e não a remoção de seres indesejáveis; uma polícia ética - e não um zé mané que nos alivie de mão molhada a irregularidade cometida no trânsito. Enfim, vamos nos indignar contra quem é devido, e pelos motivos devidos, com coerência.
Carioca, seja inteligente, em vez de ajudar a cavar a própria cova social e humanitária. Não se acostume a ser cínico só porque você pode pagar por saúde, educação, segurança e dane-se o resto. Pois como vemos em nosso dia-a-dia, tá tudo interligado. E não vai ser o Exército que vai dar um jeitinho.
terça-feira, 17 de abril de 2007
Momento curiosidade extrema!
"Esquece tudo. Esquece de tudo. De tudo. Lembra só que eu te amo. Quando eu chegar em casa te ligo, tá? Beijo", disse ele, fechando o flip do celular e se calando, ao meu lado no ônibus. O que aconteceu? Onde? O que se discutiu em relação? Silêncio.
"Esquece tudo. Esquece de tudo. De tudo. Lembra só que eu te amo. Quando eu chegar em casa te ligo, tá? Beijo", disse ele, fechando o flip do celular e se calando, ao meu lado no ônibus. O que aconteceu? Onde? O que se discutiu em relação? Silêncio.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Capturado
Minha noiva não pode ter ciúme dela. Ela não me dá um tempo, está sempre me perseguindo, não larga do meu pé. Eu não posso fazer nada, é involuntário, ela é que não me deixa em paz. Nos lugares que vou, com as pessoas que conheço, tudo com o que me relaciono envolve, um dia, a presença dela. Assim que me distraio ela chega sem cerimônia, nem quer saber se está sendo inconveniente. Pode me arrasar em público, ou tão somente me arrancar um sorriso esperto - e essa imprevisibilidade é terrível. As sensações que ela me causa quando chega são inesquecíveis. Sua lealdade é canina (às vezes, cachorra), seu feeling para me abordar indefeso é impressionante, e eu acabo sucumbindo aos seus encantos. Ela está na minha vida faz tempo, e parece que já me acostumei. É isso, gente minha: a IRONIA não me dá sossego.
Minha noiva não pode ter ciúme dela. Ela não me dá um tempo, está sempre me perseguindo, não larga do meu pé. Eu não posso fazer nada, é involuntário, ela é que não me deixa em paz. Nos lugares que vou, com as pessoas que conheço, tudo com o que me relaciono envolve, um dia, a presença dela. Assim que me distraio ela chega sem cerimônia, nem quer saber se está sendo inconveniente. Pode me arrasar em público, ou tão somente me arrancar um sorriso esperto - e essa imprevisibilidade é terrível. As sensações que ela me causa quando chega são inesquecíveis. Sua lealdade é canina (às vezes, cachorra), seu feeling para me abordar indefeso é impressionante, e eu acabo sucumbindo aos seus encantos. Ela está na minha vida faz tempo, e parece que já me acostumei. É isso, gente minha: a IRONIA não me dá sossego.
quinta-feira, 12 de abril de 2007
quarta-feira, 11 de abril de 2007
Picolé!
Não se vende mais picolé no Centro do Rio? Da Cinelândia ao Castelo, nenhum lugar com aquele freezer cheio deles? Que cidade é essa? Sem um Chicabon pra adoçar o bico depois do almoço não há quem güente.
Existem um bilhão de lanchonetes de sucos naturais + salgados anti-naturais, restaurantes chiques e sujões, uma geração inteira de camelôs desafiando a física nas calçadas, mas nada de picolé! Achei até uma baiana vendendo acarajé e uma loja só de Rolex. É possível? Da Bahia a Wall Street, e nada de Chicabon. Andei com calma, olhei pra tudo quanto é rua, direção e calçada. Nada do doce gelado.
Não se vende mais picolé no Centro do Rio? Da Cinelândia ao Castelo, nenhum lugar com aquele freezer cheio deles? Que cidade é essa? Sem um Chicabon pra adoçar o bico depois do almoço não há quem güente.
Existem um bilhão de lanchonetes de sucos naturais + salgados anti-naturais, restaurantes chiques e sujões, uma geração inteira de camelôs desafiando a física nas calçadas, mas nada de picolé! Achei até uma baiana vendendo acarajé e uma loja só de Rolex. É possível? Da Bahia a Wall Street, e nada de Chicabon. Andei com calma, olhei pra tudo quanto é rua, direção e calçada. Nada do doce gelado.
Esses executivos do Centro do Rio não sabem mais o que é picolé? As manifestações sindicais, os guardas de trânsito, os jornaleiros... cadê a indignação pela falta de um artigo de primeira necessidade pra Cidade Maravilhosa? Afinal, nossas estações de tempo são quatro: verão, verão, verão e verão. Outros meteorologistas de boteco apontam apenas duas: verão e frente fria (quando dá).
Pois fica aqui a minha chiadeira pela chatice da falta de Chicabon.
sábado, 7 de abril de 2007
Centro do Rio
Trabalhar no Centro do Rio de Janeiro é sensacional. Além das características clássicas (gente de todo o tipo e parte da cidade, tudo acessível a alguns passos) as cenas que a gente flagra são inesquecíveis.
Na esquina da Av. Almirante Barroso com Av. Rio Branco, tal e qual muitas esquinas do Centro na sexta-feira pós-expediente, estão lá: o churrasquinho perfumador (ah, a fumaça que se insere em nossas roupas...) e as caixas de som ecoando o pagodinho. Seria mais uma sexta e mais uma esquina, se não fosse a existência de um notebook!
Sim, apoiado naquelas históricas mesinhas de bar feitas de metal, um notebook conectado às caixas de som! O sujeito camelô com sua camisetinha surrada, boné de algum candidato da última eleição e a lista de músicas selecionadas no Windows Media Player. Ao léu, num ambiente em que tudo quanto é executivo inventa inúmeros disfarces para proteger seus notebooks do olho grande da ladroagem. Fiquei tão surpreso que comentei com meu colega de trabalho, apontando pro camelô feito criança. A carinha orgulhosa do carinha que administrava o equipamento foi hilária.
Tenho a impressão de que este não será o último post sobre o Centro do Rio...
Trabalhar no Centro do Rio de Janeiro é sensacional. Além das características clássicas (gente de todo o tipo e parte da cidade, tudo acessível a alguns passos) as cenas que a gente flagra são inesquecíveis.
Na esquina da Av. Almirante Barroso com Av. Rio Branco, tal e qual muitas esquinas do Centro na sexta-feira pós-expediente, estão lá: o churrasquinho perfumador (ah, a fumaça que se insere em nossas roupas...) e as caixas de som ecoando o pagodinho. Seria mais uma sexta e mais uma esquina, se não fosse a existência de um notebook!
Sim, apoiado naquelas históricas mesinhas de bar feitas de metal, um notebook conectado às caixas de som! O sujeito camelô com sua camisetinha surrada, boné de algum candidato da última eleição e a lista de músicas selecionadas no Windows Media Player. Ao léu, num ambiente em que tudo quanto é executivo inventa inúmeros disfarces para proteger seus notebooks do olho grande da ladroagem. Fiquei tão surpreso que comentei com meu colega de trabalho, apontando pro camelô feito criança. A carinha orgulhosa do carinha que administrava o equipamento foi hilária.
Tenho a impressão de que este não será o último post sobre o Centro do Rio...
quinta-feira, 5 de abril de 2007

Vasco do Gama
Melhor que a vitória do Mengão na Libertadores sobre o Maracaibo (falarei adiante), foi a gama de alegria pelo ocorrido em pleno Maracanã. Em busca do gol mil (será o pote de ouro no fim do arco-íris?), Romário permanece em branco e o Vasco está desclassificado da Copa do Brasil... pelo Gama. Com todo o respeito ao Gama, mas Brasília não tem futebol. Atire a primeira pedra o brasiliense que não tenha um segundo time, dos grandes do Brasil! Foi lindo. Lembrando o Pet em 2001, uma falta certeira aos 49 do segundo tempo. Gamei! E chega de trocadilhos.
Melhor que a vitória do Mengão na Libertadores sobre o Maracaibo (falarei adiante), foi a gama de alegria pelo ocorrido em pleno Maracanã. Em busca do gol mil (será o pote de ouro no fim do arco-íris?), Romário permanece em branco e o Vasco está desclassificado da Copa do Brasil... pelo Gama. Com todo o respeito ao Gama, mas Brasília não tem futebol. Atire a primeira pedra o brasiliense que não tenha um segundo time, dos grandes do Brasil! Foi lindo. Lembrando o Pet em 2001, uma falta certeira aos 49 do segundo tempo. Gamei! E chega de trocadilhos.
Já o Flamengo... Bem, já tô me acostumando com vitórias sofridas, mesmo quando o adversário não justifica isso. Dá raiva de ver a falta de qualidade desse time, e mais raiva ainda o fato de vencerem assim mesmo. Ah, paradoxos do torcedor... E Ney Franco não me convence. É mediano e tratado como herói. Sou um rubro-negro cético, embora fiel.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
(Suspiro)
Ah, o que é uma nova postagem mesmo? Postagem espontânea, sem a sisudez de um artigo pré-elaborado (que tem todo o meu respeito), postar simplesmente pra exercer o direito de ir e vir na internet via blog. Blog, ô lugarzim bom pra desopilar, desabafar, sentir-se ouvido, pôr a público o que você acha que deve. Blog é legal.
Nostalgia também é legal. Reli o artigo que deu origem à face opinativa do blog, também reli meu primeiro post, vi que o Lessa27 (ex-Lessog) vai pros seus cinco anos em outubro, e espero fazer uma comemoração especial. No começo era o "verbinho": pequenos posts, dicas culturais ou um apontamentozinho sobre um desapontamentozinho. Vez em quando vinha um caminhão bonito de palavras, como a despedida de meu avô Lessa. Mexe com quem lê, mas mexe antes comigo. Se eu releio então...
Com todas as más notícias desse mundo (muitas vezes necessárias, pra denunciar com responsabilidade e conteúdo o que não pode continuar errado), penso que a Internet é uma das ótimas. Calma, amiguinho, não vou abolir as críticas necessárias a ela. Mas é bom. Pra quem tem acesso fácil, é bom demais. O mundo ao seu alcance - ao menos o mundo informativo, que muito me interessa, comunicador que sou. Blog então...
Blog então é meu. Meu espacinho no espação abstrato e virtual da rede, caracterizado pela minha pretensa humanidade da boa colaboração a quem interessar possa. Minhas letras, minhas imagens pesquisadas e postadas, meus links, meus arquivos, meu contador de pageviews (êba!). E fácil de mexer, que mais eu quero?
Mas eu falava de nostalgia blogueira. Lembrei que já escrevi pequenos posts quando dava na telha, mas encaretei um pouco e os abandonei. Tô pensando em voltar. Nosso cotidiano dá tanta pauta, tanta coisa legal, engraçada e recomendável pra dizer... Por que apenas artigos argumentativos, que não nascem aos borbotões? São importantes, fazem parte de meu propósito com o Lessa27, mas não precisam ter dedicação exclusiva. Essa é a conclusão a que cheguei, fruto da nostalgia.
Ironicamente (a ironia é muito leal à minha pessoa), tal conclusão vem na forma de um artigo. Fazer o quê? A gente não escolhe o que vai escrever. O "algo" a ser escrito é que já nos escolheu, e fica à espreita de uma oportunidade emocional pra vir à tona. Nada anormal. É questão de assumir essa relação de co-dependência que temos com esse "algo". Blog é só sala de parto.
Pois é, taí, nova postagem. Bom isso. Preciso praticar mais.
Ah, o que é uma nova postagem mesmo? Postagem espontânea, sem a sisudez de um artigo pré-elaborado (que tem todo o meu respeito), postar simplesmente pra exercer o direito de ir e vir na internet via blog. Blog, ô lugarzim bom pra desopilar, desabafar, sentir-se ouvido, pôr a público o que você acha que deve. Blog é legal.
Nostalgia também é legal. Reli o artigo que deu origem à face opinativa do blog, também reli meu primeiro post, vi que o Lessa27 (ex-Lessog) vai pros seus cinco anos em outubro, e espero fazer uma comemoração especial. No começo era o "verbinho": pequenos posts, dicas culturais ou um apontamentozinho sobre um desapontamentozinho. Vez em quando vinha um caminhão bonito de palavras, como a despedida de meu avô Lessa. Mexe com quem lê, mas mexe antes comigo. Se eu releio então...
Com todas as más notícias desse mundo (muitas vezes necessárias, pra denunciar com responsabilidade e conteúdo o que não pode continuar errado), penso que a Internet é uma das ótimas. Calma, amiguinho, não vou abolir as críticas necessárias a ela. Mas é bom. Pra quem tem acesso fácil, é bom demais. O mundo ao seu alcance - ao menos o mundo informativo, que muito me interessa, comunicador que sou. Blog então...
Blog então é meu. Meu espacinho no espação abstrato e virtual da rede, caracterizado pela minha pretensa humanidade da boa colaboração a quem interessar possa. Minhas letras, minhas imagens pesquisadas e postadas, meus links, meus arquivos, meu contador de pageviews (êba!). E fácil de mexer, que mais eu quero?
Mas eu falava de nostalgia blogueira. Lembrei que já escrevi pequenos posts quando dava na telha, mas encaretei um pouco e os abandonei. Tô pensando em voltar. Nosso cotidiano dá tanta pauta, tanta coisa legal, engraçada e recomendável pra dizer... Por que apenas artigos argumentativos, que não nascem aos borbotões? São importantes, fazem parte de meu propósito com o Lessa27, mas não precisam ter dedicação exclusiva. Essa é a conclusão a que cheguei, fruto da nostalgia.
Ironicamente (a ironia é muito leal à minha pessoa), tal conclusão vem na forma de um artigo. Fazer o quê? A gente não escolhe o que vai escrever. O "algo" a ser escrito é que já nos escolheu, e fica à espreita de uma oportunidade emocional pra vir à tona. Nada anormal. É questão de assumir essa relação de co-dependência que temos com esse "algo". Blog é só sala de parto.
Pois é, taí, nova postagem. Bom isso. Preciso praticar mais.
sexta-feira, 30 de março de 2007
It's wonderful to be hereAcabo de ter uma experiência atrasada. Passa da meia-noite, é 2007 e eu ouvi Sgt. Pepper's, um dos mais marcantes discos dos Beatles, de ponta a ponta. Coloquei os fones de ouvido, aumentei o volume e percebi cada nuance, arranjo, ousadia, irreverência, em cada música. Queria não dormir e ficar com o disco ecoando no travesseiro. Recomendo. Sara dores de cabeça, mau-humor e decepção com o que a sociedade de consumo tem oferecido para nosso ouvir.
Digo experiência atrasada porque posso estar falando a quem já fez isso há muito tempo, várias vezes. Eu não: só agora ouvi Sgt. Pepper's decentemente. Sem exageros, só agora ouvi, de fato, o disco.
Por que Sgt. Pepper's é um marco na história do rock, talvez da música?
Porque Sgt. Pepper's é um marco na história do rock, talvez da música.
Há o pioneirismo dos Beatles em incluir nas faixas sons de platéia, animais, instrumentos de orquestra etc e tal. Sem falar na arte da capa. Não sou músico ou estudioso musical para assinalar o quê, exatamente e em detalhes, os Beatles fizeram ao realizar o disco. Falo da minha experiência, aos 26 anos e sem ter visto os Fab Four tocarem juntos, de ser abençoado com qualidade que vai além de gostar ou não. É isso que quero descrever.
Sim, é delicado. Alguns crêem que gosto não se discute (muitas vezes pra justificar um gosto ruim sem dar vergonha de assumi-lo, mas deixa pra lá); outros, pensam que comer o filé mignon depois do patinho só dificulta o retorno ao patinho. Vou pela horrorosa metáfora via açougue. A gente ouve de tudo nessa vida. Mas ouvir Sgt. Pepper's é perceber que você se encontra em outro nível. É dar de cara com a produção de algo que faz diferença na tua vida. É perceber que quatro caras podem modular a voz, chiar com umas cordas e batidas e isso soar como nova Música, com maiúscula.
Você ouve e quer que a Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club band toque no coreto da praça em frente à sua casa. É abrir a janela e ver Lucy in the Sky with Diamonds assim que o sol nasce. É querer reunir todos os seus amigos, em todo planeta e de todas as épocas, e declarar pra eles With a little help from my friends (e a nossa voz tem que sair igual à do Ringo). Saber que existe o disco é ver que as coisas estão Getting Better, qualquer coisa é só ficar Fixing a Hole que tudo se resolve bem.
E pára tudo e chora tudo: She's leaving home. Como os Beatles conseguiram condensar todo o sofrimento humano com a indiferença alheia - e suas conseqüências - em curtos versos? Como encontraram a melodia perfeita, o coro em separado (poesia genuína e vinda "da veia") com a métrica ideal? Gente, é de pasmar. Sentimo-nos culpados por She's leaving home, sentimos pena, torcemos por ela, dizemos "Bem-feito!" para nós mesmos ao final...
Não acabou: Mr. Kite, um engraçadinho que cruza o nosso caminho, e depois imaginamos When I'm 64. Paul já passou da idade, mas pareceu desafiar a física quântica: ele não está fora de nosso tempo, não? Cantar isso bem antes de ter 64. Queremos estar lá também, precisamos dele, ele nos alimenta. Lovely Rita nos dá Good Moorning, Good Morning e que belo começo de dia!
Mas volta a banda. Sgt. Pepper's novamente, em tom de despedida. Cara, o CD está aqui na mão, posso tocar quantas vezes quiser, mas eu me desespero por eles dizerem que vão embora! Que negócio é esse? Mera reprise é que não é. Aliás, Sgt. Pepper's nunca será repetição pura e simples, cada audição é um impacto diferente. Talvez daí venha o desespero. Mas as notícias de A day in the life são o tiro de misericórdia, sem misericórdia. Acabou. Você não é mais o mesmo.
Sgt. Pepper's não é mais um disco, morrem os gostos e toda discussão a respeito, reverências a postos. Ouvir outra coisa? Eu mereço mais que isso.
sexta-feira, 16 de março de 2007
Resposta do jornal Expresso e minha resposta à resposta
(sobre a cobertura do caso João Hélio)
"Olá, meu caro. Antes de tudo um ótimo dia pra você. É o que desejo. Afinal, o meu não foi nada bom. A barbárie cometida por aqueles bandidos, que não podem ser gente, ainda me faz chorar.
Bom, se minha mentalidade menor e simplista me fez entender o que você quis dizer, você acha todos os jornais do Brasil sensacionalistas. Mas vem em tom particularmente visceral para cima dos tablóides (gostaria de lembrar que você incluiu o Extra, mas ele não é tablóide. Tablóide são jornais menores como Expresso e Meia Hora). Gostaria de lembrar ainda que os jornais, tablóides ou não, sensacionalistas ou não, não prendem ninguém. Não têm poder de polícia. Não têm poder de Justiça. Muito menos de decidir pela pena de morte. Também não têm o poder de vilipendiar famílias como a de João Hélio. Quem vilipendiou (desprezou ou repeliu) a família de João Hélio, além da minha e das pessoas de bem, foram os facínoras que não podem ser gente. Os jornais (tablóides ou não, sensacionalistas ou não) apenas tentam retratar os fatos e falar com os seus. Os tablóides não pioram a vida do povo, quem piora a vida do povo são indivíduos como aqueles criminosos.
Os jornais, tablóides ou não, sensacionalistas ou não, não concordam com atitudes como a que matou o menino João. Seja o criminoso maior ou menor. Os mesmos jornais que você acusa de vilipendiar famílias são os que mostram absurdos cometidos por pais que maltratam seus filhos. Graças a Deus, esses menores são vítimas e têm os jornais a seu favor. Mais ainda: eles têm o Estatuto, que é quem tem poder de polícia, poder de Justiça.
Discordo quando você diz que fazemos discurso em tom exacerbado. Exacerbada foi a atitude daqueles que cometeram tal barbárie que chocou toda a população. Acho que vou repetir isso: toda a população. De novo: toda a população brasileira. Assim como deveria ser exacerbado ao máximo o castigo de criminosos deste tipo. Absurdo pra mim, expressamente proibido pra mim, é achar que tal cidadão que comete esse crime deve mesmo sair da cadeia em cinco anos..."
Marcelo Senna
Editor
Caro Senna,
Antes de mais nada, obrigado pela atenção e resposta. Não é todo dia que uma redação publica cartas sobre o fazer da imprensa, tampouco responde diretamente a quem as escreveu.
É preciso ressaltar que todo o sentimento que você e a redação tiveram, eu - e toda a população brasileira - tivemos. Indignação, nojo, revolta, ódio contra os bárbaros, desejo de vingança, perplexidade com a impunidade de nosso país. No entanto, em nenhum momento questionei ou pus em dúvida os sentimentos de vocês.
Confirmo que vim particularmente visceral pra cima dos tablóides. Esses sim, são todos sensacionalistas - e não todos os jornais do Brasil, como vc interpretou minhas palavras. O Extra não seria um tablóide no formato, mas na linha sensacionalista sempre foi, tanto quanto o "The Sun" e tantos outro mundo afora. E nem preciso me prender ao formato: o Linha Direta, os programas do Datena e do Wagner Monte, e tantos de nossa TV,seguem a mesma linha.
Os demais jornais não são sensacionalistas, quem faz esse serviço pra eles são tablóides como os que citei. Não é à toa que o Globo tem o Extra e o Expresso, o Dia tem o Meia Hora etc. Por que a população de baixa renda tem que consumir um tipo de abordagem tão rasa como a que vcs fazem com todos os assuntos? Se não são sensacionalistas - ou seja, apelam para as sensações - por que todo dia é sexo e sangue na capa, independente do episódio do pequeno João?
Portanto, Senna, eu não desqualifico a revolta que tomou conta de vocês diante de tão bárbaro episódio. Questiono é o fazer jornalístico, a construção de um discurso, a maneira de abordar fatos que, por si só, já são impactantes. Quando falo "tom exacerbado" é a dramaticidade de cada enunciado, a maneira de tratar as histórias como folhetins. É o desrespeito para com a família, que terá que agüentar matérias diárias sem nada acrescentar na reflexão sobre o episódio, apenas discorrer sobre como era o pequeno João, suas fotos, seus desenhos, e o rememorar da tragédia sem fazer o leitor pensar sobre a situação. Ah, sim, apenas o pedido de pena máxima sem contextualizar o tema, afinal, haverá espaço (físico) pra isso no Expresso?
"Os mesmos jornais que você acusa de vilipendiar famílias são os que mostram absurdos cometidos por pais que maltratam seus filhos. Graças a Deus, esses menores são vítimas e têm os jornais a seu favor. Mais ainda: eles têm o Estatuto, que é quem tem poder de polícia, poder de Justiça. "
Agora eu fiquei confuso: se o Estatuto tem essa importância, por que é tratado com desprezo na matéria que citei, como se fosse um atravancar da lei?
Mais uma vez: respeito o sentimento de vocês diante de tão horrendo episódio. Mas não devemos nos render a nossas sensações estando em postos da sociedade tão importantes quanto governantes, policiais ou médicos. Somos jornalistas, com alcance e influência em boa parte da população brasileira. Formadores de opinião em potencial, referenciais. Precisamos zelar pela responsabilidade do que publicamos e COMO publicamos.
Um grande abraço,
Marcos André Lessa
Marcos André Lessa
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Carta à redação do jornal Expresso
Os tablóides pioram a vida do povo. Abusam do sensacionalismo e fazem um discurso cujo tom exacerbado desvia a atenção do que realmente importa: os fatos em si, a reflexão sobre eles, e a devida contextualização. Aliás, o mínimo de contextualização só existe até onde convém. A barbárie cometida por ladrões que arrastaram pelas ruas um menino preso no cinto de segurança serve como exemplo.
Abro o Expresso de hoje (08/02/2007), que fala da prisão dos ladrões. Destaco algumas frases:
"Isso não pode ser gente" (manchete);
"Dois desalmados foram presos...";
"Um deles é maior. Se condenado, sai da cadeia em 5 anos. O outro é menor e não fica mais de 3 anos internado. Isso é justiça, meu Deus?";
Depois de narrar novamente o passo-a-passo do episódio, desde o roubo até deixarem o carro com menino pendurado do lado de fora, segue:
"Mesmo assim, devem ficar pouco tempo na cadeia (...) Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, o menor X. poderá pegar no máximo três anos";
Sendo assim, o que nos resta? Pena de morte, claro. Afinal, não têm alma e não são gente. E, além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente é um atraso de vida para o cidadão injustiçado.
Assim é construído o discurso. O Estatuto só é evocado quando "alivia" a pena de bandidos menores de idade. Quase ninguém lembra que ele traz uma legislação que protege filhos que apanham dos pais ou sofrem qualquer tipo de abuso. E que a ressocialização em instituições - onde o menor X. ficará por três anos - é prevista para todo o tipo de menor, não apenas para os bárbaros (que não existem aos milhares. A intensidade de um ato bárbaro é que é explorada de maneira sensacionalista para dar essa impressão).
NÃO ESTOU DEFENDENDO OS LADRÕES. Defendo um jornalismo responsável que trate assuntos sérios de maneira séria, sem reducionismos e desrespeito para com os envolvidos. A violência no Rio de Janeiro foi banalizada por veículos como Expresso, Extra, Meia Hora e outros pelo Brasil. Mas eles revelam a face mais rasteira de uma mentalidade que permeia entre seus "irmãos maiores": os jornalões de classe média encampam o mesmo discurso simplista, que não aborda o contexto da violência, apenas protestam contra o incômodo em volta de seus castelos usando dos meios de comunicação que dispõem.
Com esse tipo de jornalismo, famílias como a de João Hélio continuarão sendo vilipendiadas: pela violência física e pelos por seus "pseudo-porta-vozes" mercantilistas de pautas.
Marcos André Lessa
Jornalista
Os tablóides pioram a vida do povo. Abusam do sensacionalismo e fazem um discurso cujo tom exacerbado desvia a atenção do que realmente importa: os fatos em si, a reflexão sobre eles, e a devida contextualização. Aliás, o mínimo de contextualização só existe até onde convém. A barbárie cometida por ladrões que arrastaram pelas ruas um menino preso no cinto de segurança serve como exemplo.
Abro o Expresso de hoje (08/02/2007), que fala da prisão dos ladrões. Destaco algumas frases:
"Isso não pode ser gente" (manchete);
"Dois desalmados foram presos...";
"Um deles é maior. Se condenado, sai da cadeia em 5 anos. O outro é menor e não fica mais de 3 anos internado. Isso é justiça, meu Deus?";
Depois de narrar novamente o passo-a-passo do episódio, desde o roubo até deixarem o carro com menino pendurado do lado de fora, segue:
"Mesmo assim, devem ficar pouco tempo na cadeia (...) Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, o menor X. poderá pegar no máximo três anos";
Sendo assim, o que nos resta? Pena de morte, claro. Afinal, não têm alma e não são gente. E, além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente é um atraso de vida para o cidadão injustiçado.
Assim é construído o discurso. O Estatuto só é evocado quando "alivia" a pena de bandidos menores de idade. Quase ninguém lembra que ele traz uma legislação que protege filhos que apanham dos pais ou sofrem qualquer tipo de abuso. E que a ressocialização em instituições - onde o menor X. ficará por três anos - é prevista para todo o tipo de menor, não apenas para os bárbaros (que não existem aos milhares. A intensidade de um ato bárbaro é que é explorada de maneira sensacionalista para dar essa impressão).
NÃO ESTOU DEFENDENDO OS LADRÕES. Defendo um jornalismo responsável que trate assuntos sérios de maneira séria, sem reducionismos e desrespeito para com os envolvidos. A violência no Rio de Janeiro foi banalizada por veículos como Expresso, Extra, Meia Hora e outros pelo Brasil. Mas eles revelam a face mais rasteira de uma mentalidade que permeia entre seus "irmãos maiores": os jornalões de classe média encampam o mesmo discurso simplista, que não aborda o contexto da violência, apenas protestam contra o incômodo em volta de seus castelos usando dos meios de comunicação que dispõem.
Com esse tipo de jornalismo, famílias como a de João Hélio continuarão sendo vilipendiadas: pela violência física e pelos por seus "pseudo-porta-vozes" mercantilistas de pautas.
Marcos André Lessa
Jornalista
domingo, 31 de dezembro de 2006

Eu quero um jornalismo melhor
Cheguei à sala de meu amigo André Mello com a cara de quem acabara de escrever o artigo abaixo ("Eu sou do Rio de Janeiro" - de fato, eu tinha acabado de escrever). Triste por ver o Rio sitiado novamente e um pouco temeroso com minha volta pra casa. Não puxei uma cadeira, explicando que precisava encontrar minha irmã para irmos logo. Sem levantar, ele me pergunta:
- Por causa dos boatos?
Digo que sim, que a estação do metrô da Saens Peña estava fechada, e que eu estava meio nervoso com tudo aquilo. Ele me fala que, quanto às causas dos ataques criminosos à cidade, tudo parece ser reduzido a questões pontuais, como um descontentamento com o fim das regalias nas prisões, ou um alerta ao novo governo do estado.
- Nós sabemos que há algo maior por trás disso. É um discurso do medo construído na mídia que deixa as pessoas nesse estado de pânico.
- Calma aí, André. De ontem para hoje aconteceram ataques simultâneos em todas as partes da cidade.
- Eu andei por toda a cidade hoje e estou aqui.
- Eu também! Concordo que muitas vezes o discurso midiático insufla "ondas de terror" na população, mas agora são fatos: um ônibus foi incendiado na Avenida Brasil, pessoas morreram carbonizadas. Fora o que já te disse, ocorrências em toda a cidade, em vários pontos.
André não altera a entonação da voz e nem se levanta da cadeira. Mas não possui um ar cínico ou indiferente para com a situação, ou com meu relato. Jornalista, antropólogo e pastor presbiteriano, sabe que não pode jogar palavras vazias a seus interlocutores.
- Existem algumas coisas a serem consideradas no contexto do momento. Primeiro, há um vácuo de notícias, é uma semana tradicionalmente fraca pra isso. Depois, estamos no "limbo" entre governos estaduais: o comandante da polícia de agora não continua na segunda-feira, e o que vai assumir ainda não manda nada.
- É verdade. Ainda assim, André, os episódios de violência aconteceram.
- Sim, mas o que precisamos perceber é que a maioria das ocorrências não é inédita. A não ser o ônibus interestadual incendiado. É algo diferente, um ato de terror. Ainda assim, já houve um incêndio antes, só que o ônibus era intermunicipal (ele se refere ao ônibus 350, incendiado em Brás de Pina, em 2005. E outros foram incendiados sem vítimas, em alguns pontos da cidade e da Baixada Fluminense). Os tiros, assaltos, granadas, todos já ocorreram outras vezes na cidade do Rio de Janeiro. Se você pegar o jornal O Povo de manhã verá o que ocorre nas madrugadas toda semana, são episódios como esses.
- Mas a gente não pode banalizar os acontecimentos assim...
- Não é banalizar, não. Mas ninguém fala do pior: que a violência está imiscuída na nossa sociedade, e tão corriqueira que, aí sim, banalizamos ao não destacarmos esse aspecto. Por que surgem essas "ondas de terror" em todos os telejornais, de repente? Olha só...Você já leu esse livro aqui?
André pega de sua estante Cultura do Medo, de Barry Glassner, que fez uma ponta no documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore. Na contracapa, as aspas do autor: "A TV não inventa o que mostra, mas escolhe o que mostrar". Na orelha do livro, outra frase: "A poluição é algo bem mais preocupante e perigoso que todas as outras coisas das quais a mídia insiste que tenhamos medo". É por aí que vai o pensamento de André. Em nenhum momento ele demonstra insensibilidade para com as pessoas que sofreram com os episódios de violência de ontem, pelo contrário: solidariza-se com aqueles que já sofreram antes mas que não ofereciam o Ibope que convinha - como numa última semana do ano, raquítica em notícias.
Imediatamente me lembrei que, em época de Copa do Mundo ou na semana do Carnaval, o Rio de Janeiro é a cidade mais pacífica do planeta. Nenhuma ocorrência violenta é noticiada.
- Precisamos nos preocupar com a situação dos presídios, por exemplo. Quem acha que a solução é lotar as penitenciárias ou reduzir a maioridade penal nunca esteve num presídio. A situação é tão caótica que daqui a um tempo as rebeliões e fugas em massa generalizadas não serão contidas. Aí sim teremos um terror incontrolável nas ruas. Como no exemplo da poluição, estamos muito pouco preocupados com o que realmente importa e pode causar transtornos da ordem social.
As políticas públicas que atendem mais aos sintomas da hora do pânico, em vez de agir na origem do problema: raramente sou "torpedeado" por notícias sobre isso.
A hora passa e eu realmente preciso ir. Levo emprestado o livro, e saio da sala de André mais calmo. Não menos preocupado com a violência urbana da metrópole, mas bem mais imune às "ondas de terror" de fermento midiático. Resolvo desligar a TV até o ano que vem.
quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Eu sou do Rio de Janeiro
Do alto andar aonde trabalho sinto-me Robinson Crusoé. Uma vez cheguei mais tarde e, duas horas antes, quase em frente ao meu prédio, um passante foi baleado por estar perto de um assalto. Da janela deu pra ver o vermelho sangue. Centro do Rio de Janeiro.
Há duas semanas, a duas quadras de onde trabalho, um vigia do banco Itaú atirou numa pessoa que, parada na porta giratória, pareceu-lhe suspeito ladrão. Não era, mas morreu assim mesmo. Hoje, passando em frente à agência aonde aconteceu o episódio, vejo uma manifestação com cartazes dizendo que o tiro foi movido a racismo. E que o assassino está solto.
Ontem minha cidade foi alvo de estratégicos ataques terroristas nada preconceituosos: atingiram moradores da Zona Sul à Zona Norte, do outro lado da ponte Rio-Niterói e também visitantes de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Destes, sete morreram queimados dentro de um ônibus recém-assaltado na Avenida Brasil e em seguida incendiado. Um policial que dava plantão numa cabine na Praia de Botafogo pela primeira vez morreu metralhado, além do ambulante que fazia ponto ao lado. Delegacias também foram atacadas, algumas com granadas.
Tenho um amigo de infância que hoje é policial, noivo de uma amiga que é de Cachoeiro do Itapemirim. Ele está de férias, ela estava em casa, eu estou em paz (agora).
Sinto-me Robinson Crusoé ao não ser atingido (diretamente) por nada disso, porém tudo acontecendo ao meu redor. Já andei muito pela Avenida Brasil, trabalhando ou chegando de viagem; já passei muito por portas giratórias dos bancos, já trabalhei quatro anos num deles; todo dia ando pelas inúmeras ruas do Centro; sempre vou ao Cinemark Botafogo; já peguei carona com meu amigo de infância, voltando do futebol.
Sinto-me Robinson Crusoé ao saber que os chefões do crime têm regalias e que as mesmas, quando ameaçadas, param e matam a cidade. Ou quando o jornal local ofende os moradores ao entrevistar ao vivo o presidente da Riotur, para que o mesmo discorra sobre os prejuízos do episódio para o reveillon e para a chegada de turistas na cidade.
Hoje discordei de uma amiga quando ela disse que o mundo era um lixo, que os seres humanos eram um lixo, e que por isso ela não queria gerar descendência.
Eu, Robinson Crusoé que estou, só queria continuar a discordar.
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
A culpa é de JKQuebremos o mito. Somente os arquitetos devem dar graças pelo governo de Juscelino Kubitschek. Afinal, Brasília é um marco mundial da qualidade dos brasileiros Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Fora isso, a cidade é uma fortaleza que cristalizou no espaço público e geográfico brasileiro a impunidade inconseqüente. É uma ilha em terra firme, cercada de distância do povo, fisicamente mesmo. E isso foi uma tragédia para a democracia.
O aumento de 91% dos salários dos parlamentares do Congresso, dado pelos próprios, é uma prova disso. Renan Calheiros e Aldo Rebelo, respectivamente presidentes do Senado e da Câmara, transparecem na foto acima a cara de quem está fazendo muita caquinha. Mas sabem que o único ônus que vão enfrentar é o mau humor da opinião pública. Nada mais. Nunca a opinião pública foi tão fraca, e Brasília ajuda nesse processo.
"Se essa palhaçada fosse na Cinelândia/Ia ter muita gente pra juntar na saída/Pra fazer justiça, uma vez na vida". Os versos de Herbert Vianna nunca foram tão atuais. Se o Senado e a Câmara continuassem no centro da cidade do Rio de Janeiro, ao lado do povo, cuja maioria circula por ali na busca diária de salários nada astronômicos, duvido que estariam tão tranqüilos em aprovar um aumento desses. Por mais que um exaltado quisesse chegar às mortais vias de fato - que nossa racionalidade condena mas, confessemos, dá vontade - no mínimo teriam que agüentar protestos bem próximos.
Mas eles estão em Brasília. No meio do deserto Planalto Central, numa cidade inventada sem vizinhança. E, na Praça dos Três Poderes, antes de se chegar aos Palácios e Casas Parlamentares, há um lago que anula qualquer tentativa de aproximação não autorizada. JK, com sua idéia incensada até hoje, deixou o povo longe dos políticos, e realizou o sonho obscuro de todo político mal-intencionado: ficar distante do povo enquanto não há novas eleições. Só por essa loucura, JK já pode ser considerado um desastre para o país. Sua cidade inviabilizou ainda mais a democracia.
Quando vier a próxima proposta de Reforma da Previdência (que não duvido que possa ser necessária, haja vista o envelhecimento da população), cobremos dos nossos representantes o exemplo vindo de cima. O corte ou congelamento dos salários deles; o corte nos jetons e auxílios paletó, gasolina, cafézinho; a demissão de metade dos assessores de gabinete; a extinção da indecente aposentadoria vitalícia para ex-presidentes, ex-governadores, ex-senadores e ex-deputados, que conseguem conquistá-la com dois mandatos apenas (no caso do presidente, um mandato). Não se engane com a desculpa de que o Congresso cortou despesas que possibilitaram o aumento. A questão é mais moral do que econômica. Não é justo, uma vez que não pode ser aplicado aos demais cidadãos.
Após a catarse, vamos ao espelho: você, que deve se lembrar em quem votou, pesquise se ele votou a favor desse indecente aumento (a votação foi dos líderes dos partidos, mas ainda assim o candidato, que pertence a um partido, deve uma explicação). Se tiver contato pessoal com ele, pergunte por que votou a favor (ou foi conivente) diante da gritante desigualdade social brasileira, diante da carga tributária avassaladora e do leão morto a cada dia pela maioria dos brasileiros, tão somente para sobreviver com dignidade. Incomode-o, apesar de Brasília. E não vote nele outra vez, pra que todos aprendam. Faça a sua parte. Ou seja omisso e engula caladinho essa nova falta de vergonha. E não venha murmurar perto de mim depois...
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Mrs. Northfleet
Ellen Gracie Northfleet, brasileira. Primeira mulher a presidir o Supremo Tribunal Federal (STF), instância máxima do Poder Judiciário. Devido ao cargo, na ausência do Presidente da República, do Vice, e dos presidentes da Câmara e do Senado, ela pode ser também a primeira mulher a exercer o cargo de mandatária-chefe da nação. Deve ter enfrentado preconceitos e machismos da sociedade para exercer sua vocação. Para chegar ao posto em que está, também deve ter estudado muito as leis do país, principalmente a Constituição Nacional.
Ellen, semanas atrás, propôs que o teto dos salários dos juízes dos Ministérios Públicos Estaduais deveria ser equiparado ao teto dos ministros do STF. Nos valores atuais, o salário passaria de R$ 22.111,00 para R$ 24.500,00. Como se já não bastasse a Câmara e o Senado defenderem o aumento de 91% dos seus vencimentos, recentemente. Se o Executivo passou por escândalos e o Legislativo prosseguiu legislando em causa própria, só faltava o Judiciário se pronunciar. Poderia condenar publicamente a falta de bom senso dos congressistas, mas não. Com a proposta de Ellen, legitimou o descalabro flagrante com o dinheiro público. Também em causa própria.
Gracie não esperava a grita da opinião pública, que rechaçou tal atitude de quem já recebe seus proventos muito acima da média dos brasileiros, sem contar os auxílios congênitos. Averiguou e disse que cerca de 300 juízes já recebiam acima do teto, ilegalmente. Não disse quem ou onde, deixando no ar a imprecisão da informação e a desconfiança de que soltou um oportuno sofisma pra acalmar os ânimos que ela mesma exaltou.
Northfleet, com toda a capacidade intelectual que deve ter para ser ministra do STF, parece não perceber que a desigualdade social agrava a violência. Que poucos com tanto e tantos com tão pouco são um vácuo perfeito para o sentimento de injustiça geral e para alguns que preferem fazer a justiça com as próprias mãos. Inspirados em Robin Hood na prática (mas não no caráter), existem para tomar dos outros o que lhes falta, ou o que cobiçam.
Que os astutos leitores deste blog não percebam nestes parágrafos a complacência com bandidos. Roubou, que seja preso. No entanto, a sensação de "enxugar gelo" é constante, e não seria melhor se, de uma vez por todas, os líderes de nosso país resolvessem caminhar na direção de reduzir a desigualdade? Será que a violência não seria menor um dia? Mas quando menos esperamos, o Executivo desvia fundos, o Legislativo mira o umbigo, e o Judiciário consente e pede o seu "naco".
Ellen Gracie Northfleet veio ao Rio de Janeiro e uma quadrilha a assaltou na Linha Vermelha. Num lugar em que muitos trabalhadores que ganham bem menos que a ministra já foram assaltados. Veria ela alguma relação de sua indecente proposta com o acontecido? "Como você consegue viver nessa cidade?", desabafou Ellen com um amigo carioca, após o assalto. Da mesma maneira que tentamos viver nesse país, Gracie. Da mesma maneira heróica que, dia após dia, teimamos em acreditar que nosso Brasil diminuirá seus atrasos de mentalidade e visão de governo, apesar de seus líderes (em quem votamos, não esqueçamos disso também). Conseguimos viver, Northflleet, com salários básicos, sobreviver com salários mínimos, conviver de perto com a violência e suspirar tristes diante de exemplos como o do Judiciário. Não podemos votar para o STF, infelizmente.
Ellen Gracie Northfleet, brasileira. Exímia conhecedora da Constituição Nacional, que busca promover a igualdade de direitos. Parece desinformada sobre o país que habita e onde rege as leis, e insensível para com os cidadãos que precisam suportá-las na frieza da falta de bom senso. Ellen Gracie Northflleet, brasileira? Nem no nome. Se pensa que vive em outro país - como demonstram suas ações e pronunciamentos - que se desaloje bem rápido do nosso. Com todos os seus pares compadres.
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