Da decepção
Déjà vu surge a torto e a direito, a ponto de já presenciarmos o déjà vu do déjà vu. Com a política brasileira, tal fenômeno voltou a voltar a ocorrer nas últimas semanas. A tal "pureza ética" do PT, por mais que essa expressão soe idílica demais, era uma impressão real. Ou não daria tanto barulho ao ser arranhada. Mesmo contrariados, opositores eram obrigados a aceitar isso, tendo em vista a escassez de estatísticas de corrupção nos quadros do Partido dos Trabalhadores.
Todavia, não é que eles também tinham o seu PC?
Se Dirceu estava envolvido ou não, se sabia ou não, se o Governo foi conivente ou não... Tudo isso se resume às disputas de cargos em Brasília, essa ilha em alta terra, tão distante da população quanto à época da Independência. O turbilhão no centro do poder, usando uma expressão de Aristides Lobo, está sendo assistido por um povo "bestializado", meramente espectador dos acontecimentos. Ou não?
Por isso, transponho as notícias do Planalto a uma realidade superior aos joguinhos de poder tão comuns ao ser humano. Como fica nossa cidadania perante tudo isso?
Uma vez que o PT representava, no imaginário coletivo, o último "bastião ético da política" (bonito esse jargão, né? Mais uma pérola da repetitiva imprensa brasileira), que motivação para seguir acreditando? Que estímulo, que incentivo à participação política por meio do voto, uma vez que a corrupção parece ser o grande proprietário dos destinos da nação, desde 1500?
Só essa questão me interessa. O resto é em Brasília, esse distante país, essa tragédia que JK ajudou a construir. Ah, como diz Herbert Vianna, se essa palhaçada fosse na Cinelândia, ia ter muita gente pra juntar na saída, pra fazer justiça uma vez na vida.
Brasília é a concretização de um sonho comum aos íntegros e aos corruptos. A materialização da plenitude da arquitetura e do ideal de progresso; a marcação cerrada de uma distância do povo, esse ser amorfo e invocado a cada 4 anos ou a pretexto demagógico. Mas que, tendo oportunidade, faz valer o seu direito.
É fazendo parte desse ser amorfo que prossigo querendo fazer valer o meu direito. E o meu dever. O meu direito de votar e o meu dever de acompanhar; o meu direito de escolher e o meu dever de reprovar, deixando de votar em quem esqueceu que foi votado um dia. Defendo meu direito de saber do que acontece com meu dinheiro tornado público, e meu dever de prestar minhas contas sem sonegação. Afinal, boa parte dos escândalos que nos enojam nada mais são que pequenos escandalozinhos do cotidiano em escala maior.
A corrupção endêmica brasileira é o pretenso cidadão pego em flagra na sua hipocrisia. É nessas horas que confirmamos nosso sistema político: democrático REPRESENTATIVO, do bom e do pior. A coerência começa em nós, em nossos círculos pessoais, em nossos alcances devidos. Não precisamos de partidos para projetar o que deveríamos ser e não temos coragem.
Diante disso, repensemos o nosso conceito de decepção perante a canalhice da vez.
domingo, 29 de fevereiro de 2004
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004
Prazer, obrigação, suspiros
Ao passar no vestibular, nos idos de 2000, ouvi a sapiência de um amigo entrado em dias: "Na faculdade temos duas grandes alegrias: quando passamos e quando nos formamos". Preciosas e proféticas palavras. Em meu período pré-calourano, tal afirmação me escandalizava! Hoje, constato ser verdade. Mas por que isso se dá?
Não é apenas pelo fato de estarmos terminando uma etapa de nossa vida. É preciso falar de uma realidade que qualquer graduando com real interesse na qualidade de sua formação se depara: o que poderia ser um aprendizado prazeiroso, muitas vezes transmuta-se em penosas obrigações.
De novo: por que isso se dá? Pode ser pelo professor, pela expectativa que colocamos em determinadas matérias, pelos mitos da profissão que vão caindo pelo caminho... Mas, tratando-se de ensino e de sua apreensão, perdoem-me os docentes, o mestre tem uma extrema dose de responsabilidade quanto ao resultado em forma de decepção.
Como em qualquer ambiente educacional, os alunos estão subjugados ao professor, desde o conteúdo a ser transmitido até as práticas de aula. E não são poucos os casos em que esperamos muito de uma matéria ao ver sua ementa e o dia-a-dia de seu desenvolvimento ser um desejo de que tudo acabe o mais rápido possível. 8 ou 80: se um extremo compõe-se de professores desleixados que adoram uma única avaliação final pra ninguém ser reprovado e ele dar a aula que quiser; outro é a existência de mestres que fazem da aula uma seqüência de pontos a bater, a cada semana um seminário complexo a ser apresentado, um denso trabalho de grupo, testes que parecem querer provar que você nunca saberá nada do que pensa estar aprendendo.
Caros leitores, nào prego aqui a vagabundagem sem peso na consciência. Mas chamo a atenção para o potencial que o professor tem de destruir a sede de saber que necessitamos até o fim dos dias. E logo no pior ambiente para isso: a escola ou a universidade. Se ainda fosse em seu exemplo de vida, isso seria uma questão mais complexa e fora do âmbito da aula. Mas se no ofício para o qual se preparou para exercer ele extermina o foco da sua profissão, ficamos desolados.
A outra face é verdadeira: professores que marcaram nossa vida (positivamente) foram os que encarnaram o bom senso em sua multiplicidade: amizade, cobranças, notas justas e aulas idem, desejo de promoção social discente - não de terrorismo com o mínimo de autoridade. Ou de ofensiva indiferença perante os que dele dependem para aprender.
Portanto, façam valer o 15 de outubro. Não negligenciem a a árdua mas recompensadora tarefa - para uma geração inteira - à qual foram predestinados. Sei que haverá motivos que desmotivam no decorrer da carreira. Porém, outros de igual forma buscam atenuar a contrapartida dos alunos. Estamos no mesmo barco e acreditem, todos queremos ser bem-sucedidos como Noé.
Ao passar no vestibular, nos idos de 2000, ouvi a sapiência de um amigo entrado em dias: "Na faculdade temos duas grandes alegrias: quando passamos e quando nos formamos". Preciosas e proféticas palavras. Em meu período pré-calourano, tal afirmação me escandalizava! Hoje, constato ser verdade. Mas por que isso se dá?
Não é apenas pelo fato de estarmos terminando uma etapa de nossa vida. É preciso falar de uma realidade que qualquer graduando com real interesse na qualidade de sua formação se depara: o que poderia ser um aprendizado prazeiroso, muitas vezes transmuta-se em penosas obrigações.
De novo: por que isso se dá? Pode ser pelo professor, pela expectativa que colocamos em determinadas matérias, pelos mitos da profissão que vão caindo pelo caminho... Mas, tratando-se de ensino e de sua apreensão, perdoem-me os docentes, o mestre tem uma extrema dose de responsabilidade quanto ao resultado em forma de decepção.
Como em qualquer ambiente educacional, os alunos estão subjugados ao professor, desde o conteúdo a ser transmitido até as práticas de aula. E não são poucos os casos em que esperamos muito de uma matéria ao ver sua ementa e o dia-a-dia de seu desenvolvimento ser um desejo de que tudo acabe o mais rápido possível. 8 ou 80: se um extremo compõe-se de professores desleixados que adoram uma única avaliação final pra ninguém ser reprovado e ele dar a aula que quiser; outro é a existência de mestres que fazem da aula uma seqüência de pontos a bater, a cada semana um seminário complexo a ser apresentado, um denso trabalho de grupo, testes que parecem querer provar que você nunca saberá nada do que pensa estar aprendendo.
Caros leitores, nào prego aqui a vagabundagem sem peso na consciência. Mas chamo a atenção para o potencial que o professor tem de destruir a sede de saber que necessitamos até o fim dos dias. E logo no pior ambiente para isso: a escola ou a universidade. Se ainda fosse em seu exemplo de vida, isso seria uma questão mais complexa e fora do âmbito da aula. Mas se no ofício para o qual se preparou para exercer ele extermina o foco da sua profissão, ficamos desolados.
A outra face é verdadeira: professores que marcaram nossa vida (positivamente) foram os que encarnaram o bom senso em sua multiplicidade: amizade, cobranças, notas justas e aulas idem, desejo de promoção social discente - não de terrorismo com o mínimo de autoridade. Ou de ofensiva indiferença perante os que dele dependem para aprender.
Portanto, façam valer o 15 de outubro. Não negligenciem a a árdua mas recompensadora tarefa - para uma geração inteira - à qual foram predestinados. Sei que haverá motivos que desmotivam no decorrer da carreira. Porém, outros de igual forma buscam atenuar a contrapartida dos alunos. Estamos no mesmo barco e acreditem, todos queremos ser bem-sucedidos como Noé.
domingo, 8 de fevereiro de 2004
Voltei, voltei...
As desculpas não eram muitas, sequer inventadas. Mas, de fato, faz tempo que não escrevo por aqui. Porém acabei me inspirando em meu último post pra tornar esse blog atualizado de maneira mais constante.
Como assim?, você pergunta. Ninguém sabe, mas escrevi o poeminha abaixo no meu trabalho. Sou bancário - ou melhor, ESTOU bancário - e de 8 às 10 da manhã dou meu plantãozinho no hall com máquinas de saque. É isso mesmo, ajudando milhões de velhinhos diariamente, traduzindo para a língua terráquea o que diz ali no extrato... E num dia de pouco movimento, rabisquei num canto da prancheta o meu Anseio. Referia-se a minha situação profissional atual.
Mas por que ele me inspirou?, você pergunta de novo. Porque não fiquei esperando a melhor situação pra escrevê-lo, pra desabafar nas letras, pra desenvolver meu talentozinho. E o Lessog estava sofrendo disso: procrastinação. Em português javélico, empurrar com a barriga. Tive suspeita de tendinite, a tão conhecida falta de tempo, o fantasma do ter-que-estudar. E nada de blog atualizado.
Também havia meu pensamento metido a organizadinho que havia baixado uma lei invisível no Lessog: apenas artigos opinativos sobre fatos conhecidos, divulgados na mídia em geral. Tom pessoal? Nããão! Isso todo blog tem. Aqui é o lugar pra originalidade! (Não sei se um blog desatualizado é tão original assim...)
Posto isso, saibam meus queridos leitores (sim, existem, a caixa de comentários é a certidão de nascimento deles!) que escreverei aqui quando der na telha. Dizem que se você não bota pra fora sua raiva pode vir a ter câncer. Se eu não escrever quando a inspiração me seqüestrar, ficarei claustrofóbico no cativeiro. Logo, os temas vão variar mais. Hoje, por exemplo, escrevo sobre voltar a escrever. Uma metalinguagem não faz mal a ninguém...
Mas estou de volta! O tom pessoal, o quase-diário vem dividir espaço com minha verve jornalística e opinativa sobre tudo e todos. Peço que o habitante por trás das janelas de sua alma se aprochegue e não se apoquente. Não haverá arrependimento por tascar as pupilas no Lessog. E fique atento, porque daqui a um tempinho (sem força de expressão) tem post novo. E tenho escrito.
As desculpas não eram muitas, sequer inventadas. Mas, de fato, faz tempo que não escrevo por aqui. Porém acabei me inspirando em meu último post pra tornar esse blog atualizado de maneira mais constante.
Como assim?, você pergunta. Ninguém sabe, mas escrevi o poeminha abaixo no meu trabalho. Sou bancário - ou melhor, ESTOU bancário - e de 8 às 10 da manhã dou meu plantãozinho no hall com máquinas de saque. É isso mesmo, ajudando milhões de velhinhos diariamente, traduzindo para a língua terráquea o que diz ali no extrato... E num dia de pouco movimento, rabisquei num canto da prancheta o meu Anseio. Referia-se a minha situação profissional atual.
Mas por que ele me inspirou?, você pergunta de novo. Porque não fiquei esperando a melhor situação pra escrevê-lo, pra desabafar nas letras, pra desenvolver meu talentozinho. E o Lessog estava sofrendo disso: procrastinação. Em português javélico, empurrar com a barriga. Tive suspeita de tendinite, a tão conhecida falta de tempo, o fantasma do ter-que-estudar. E nada de blog atualizado.
Também havia meu pensamento metido a organizadinho que havia baixado uma lei invisível no Lessog: apenas artigos opinativos sobre fatos conhecidos, divulgados na mídia em geral. Tom pessoal? Nããão! Isso todo blog tem. Aqui é o lugar pra originalidade! (Não sei se um blog desatualizado é tão original assim...)
Posto isso, saibam meus queridos leitores (sim, existem, a caixa de comentários é a certidão de nascimento deles!) que escreverei aqui quando der na telha. Dizem que se você não bota pra fora sua raiva pode vir a ter câncer. Se eu não escrever quando a inspiração me seqüestrar, ficarei claustrofóbico no cativeiro. Logo, os temas vão variar mais. Hoje, por exemplo, escrevo sobre voltar a escrever. Uma metalinguagem não faz mal a ninguém...
Mas estou de volta! O tom pessoal, o quase-diário vem dividir espaço com minha verve jornalística e opinativa sobre tudo e todos. Peço que o habitante por trás das janelas de sua alma se aprochegue e não se apoquente. Não haverá arrependimento por tascar as pupilas no Lessog. E fique atento, porque daqui a um tempinho (sem força de expressão) tem post novo. E tenho escrito.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2004
ANSEIO
É preciso ser o cara certo
(Com capacidade)
No lugar certo
Fazendo o que gosta
Para que sinta o realizar-se.
A conjugação com o sustento
É vital, porém
Aprisionadora de sonhos
Acorrentadora da fé
Destruidora de buscas.
Por vezes desejo uma crise
Que abale tudo, mude as circunstâncias
Para que o movimento de transformação seja inevitável,
Indispensável, imprescindível!
Antes, impossível;
Agora, obrigação da natureza.
É preciso ser o cara certo
(Com capacidade)
No lugar certo
Fazendo o que gosta
Para que sinta o realizar-se.
A conjugação com o sustento
É vital, porém
Aprisionadora de sonhos
Acorrentadora da fé
Destruidora de buscas.
Por vezes desejo uma crise
Que abale tudo, mude as circunstâncias
Para que o movimento de transformação seja inevitável,
Indispensável, imprescindível!
Antes, impossível;
Agora, obrigação da natureza.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2003
ABL: Academia Brasileira de Lamentações
Em um futuro próximo alguém irá abordar em sua tese de doutorado a influência da revista CARAS no Brasil da virada de século. Sério! São tantas as áreas de nossa sociedade e suas representações que olhamos e logo vaticinamos: "Putz, isso é muito revista CARAS!". Hoje vou falar de uma dessas situações pitorescas, como a que vem acontecendo com a Academia Brasileira de Letras faz tempo.
É doloroso, para isso, ter que lembrar como surgiu a Academia. Ela foi idealizada por ninguém menos que o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis. Observem suas palavras em 7 de dezembro de 1897:
"A Academia, trabalhando pelo conhecimento [...], buscará ser, com o tempo, a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não venha das fontes legítimas, - o povo e os escritores, - não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica. Guardar não é impor; nenhum de vós tem para si que a Academia decrete fórmulas. E depois, para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a composição e a conservação de obras clássicas."
E a tradição da ABL começou assim, com os escritores que hoje estudamos (ainda que apenas em época de Vestibular) tendo conquistado seu espaço atendendo ao objetivo firmado por Machado de Assis e seus contemporâneos. Diante disso, é impossível olhar a Academia atual e achar que ela continua na missão dada por seus fundadores. É só pensar um pouquinho sobre os recém-eleitos (e até mesmo alguns antigos) pra chegar a essa conclusão.
Marco Maciel: ex-vice-presidente por 2 vezes consecutivas, político experiente de Pernambuco, ocupa hoje a vaga que foi de Roberto Marinho. Que livros Maciel escreveu? Que dedicação ele teve para a guarda da nossa língua, defendendo-a do que não vem de fontes legítimas? Se assim aconteceu, o foi de forma bem discreta e sem alcance nacional. Então, por que ser um imortal da Academia BRASILEIRA de Letras?
O mesmo para Ivo Pitanguy. O que um cirurgião plástico, ainda que de renome internacional, faz na Academia Brasileira... de LETRAS? Em seu currículo no site da ABL, são citadas mais de 800 obras especializadas na área médica, traduzidas para vários países... E pela nossa língua? O que ele fez? Alguém aí sabe?
O caso de Paulo Coelho também destaca-se. É o escritor da moda, não há dúvida. São milhões de livros vendidos no mundo inteiro, o "Alquimista" já está virando filme de Hollywood, o outrora bruxo hoje é grande escritor competindo em cifras com o aprendiz Harry Potter. Ironicamente, muitos que abraçaram a leitura desde criança (que são em número bem menor que os aficcionados pela onda do momento) não gostam das letras de Paulo Coelho. E Machado dizia: a Academia deve defender a língua "não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica". E lá está Paulo Coelho, imortalíssimo.
Ao contrário dos imortais acima, os demais não são tão conhecidos. Ao menos, nunca apareceram em qualquer revista CARAS. Por que será? Sem contar que as eleições para a ABL, de uns tempos pra cá, viraram show, coisa de palpiteiro e de gente se auto-candidatando sem a menor vergonha na cara. Jô Soares foi um deles, lembra? E olha que ele fez isso entrevistando a então presidente da ABL, Nélida Piñon! Isso é muito revista CARAS...
Infelizmente, não é apenas isso que me entristece ao ver a situação atual da ABL. Recentemente, no seminário "Jornalismo e Literatura", não foram poucos os lamentos sobre a situação educacional do Brasil. Que ainda há muitos analfabetos, que não há tantos leitores na mesma proporção da venda de livros, que os Governos estão deixando a desejar nessa prioridade. Só não dá pra pensar que a ABL nada tem a ver com isso. Em vez de aproveitarem o exemplo dado na ditadura pela Ordem dos Advogados do Brasil e pela Associação Brasileira de Imprensa - que eram a consciência crítica da sociedade, atuantes nacionalmente a respeito das questões de suas respectivas áreas - a Academia Brasleira de Letras prefere lamentar. Ou pior, prefere aparecer nos jornais e para o contexto social ao qual pertence como uma fogueira das vaidades cada vez mais pitoresca.
É uma escolha que os acadêmicos atuais estão fazendo. Ainda que não votem em nomes que nada tem a ver com o ideal de Machado, não têm se pronunciado como devido para impedir o pior: a descaracterização da Academia. Não se sabe mais que Letras querem defender, afinal.
Em um futuro próximo alguém irá abordar em sua tese de doutorado a influência da revista CARAS no Brasil da virada de século. Sério! São tantas as áreas de nossa sociedade e suas representações que olhamos e logo vaticinamos: "Putz, isso é muito revista CARAS!". Hoje vou falar de uma dessas situações pitorescas, como a que vem acontecendo com a Academia Brasileira de Letras faz tempo.
É doloroso, para isso, ter que lembrar como surgiu a Academia. Ela foi idealizada por ninguém menos que o maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis. Observem suas palavras em 7 de dezembro de 1897:
"A Academia, trabalhando pelo conhecimento [...], buscará ser, com o tempo, a guarda da nossa língua. Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não venha das fontes legítimas, - o povo e os escritores, - não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica. Guardar não é impor; nenhum de vós tem para si que a Academia decrete fórmulas. E depois, para guardar uma língua, é preciso que ela se guarde também a si mesma, e o melhor dos processos é ainda a composição e a conservação de obras clássicas."
E a tradição da ABL começou assim, com os escritores que hoje estudamos (ainda que apenas em época de Vestibular) tendo conquistado seu espaço atendendo ao objetivo firmado por Machado de Assis e seus contemporâneos. Diante disso, é impossível olhar a Academia atual e achar que ela continua na missão dada por seus fundadores. É só pensar um pouquinho sobre os recém-eleitos (e até mesmo alguns antigos) pra chegar a essa conclusão.
Marco Maciel: ex-vice-presidente por 2 vezes consecutivas, político experiente de Pernambuco, ocupa hoje a vaga que foi de Roberto Marinho. Que livros Maciel escreveu? Que dedicação ele teve para a guarda da nossa língua, defendendo-a do que não vem de fontes legítimas? Se assim aconteceu, o foi de forma bem discreta e sem alcance nacional. Então, por que ser um imortal da Academia BRASILEIRA de Letras?
O mesmo para Ivo Pitanguy. O que um cirurgião plástico, ainda que de renome internacional, faz na Academia Brasileira... de LETRAS? Em seu currículo no site da ABL, são citadas mais de 800 obras especializadas na área médica, traduzidas para vários países... E pela nossa língua? O que ele fez? Alguém aí sabe?
O caso de Paulo Coelho também destaca-se. É o escritor da moda, não há dúvida. São milhões de livros vendidos no mundo inteiro, o "Alquimista" já está virando filme de Hollywood, o outrora bruxo hoje é grande escritor competindo em cifras com o aprendiz Harry Potter. Ironicamente, muitos que abraçaram a leitura desde criança (que são em número bem menor que os aficcionados pela onda do momento) não gostam das letras de Paulo Coelho. E Machado dizia: a Academia deve defender a língua "não confundindo a moda, que perece, com o moderno, que vivifica". E lá está Paulo Coelho, imortalíssimo.
Ao contrário dos imortais acima, os demais não são tão conhecidos. Ao menos, nunca apareceram em qualquer revista CARAS. Por que será? Sem contar que as eleições para a ABL, de uns tempos pra cá, viraram show, coisa de palpiteiro e de gente se auto-candidatando sem a menor vergonha na cara. Jô Soares foi um deles, lembra? E olha que ele fez isso entrevistando a então presidente da ABL, Nélida Piñon! Isso é muito revista CARAS...
Infelizmente, não é apenas isso que me entristece ao ver a situação atual da ABL. Recentemente, no seminário "Jornalismo e Literatura", não foram poucos os lamentos sobre a situação educacional do Brasil. Que ainda há muitos analfabetos, que não há tantos leitores na mesma proporção da venda de livros, que os Governos estão deixando a desejar nessa prioridade. Só não dá pra pensar que a ABL nada tem a ver com isso. Em vez de aproveitarem o exemplo dado na ditadura pela Ordem dos Advogados do Brasil e pela Associação Brasileira de Imprensa - que eram a consciência crítica da sociedade, atuantes nacionalmente a respeito das questões de suas respectivas áreas - a Academia Brasleira de Letras prefere lamentar. Ou pior, prefere aparecer nos jornais e para o contexto social ao qual pertence como uma fogueira das vaidades cada vez mais pitoresca.
É uma escolha que os acadêmicos atuais estão fazendo. Ainda que não votem em nomes que nada tem a ver com o ideal de Machado, não têm se pronunciado como devido para impedir o pior: a descaracterização da Academia. Não se sabe mais que Letras querem defender, afinal.
sábado, 29 de novembro de 2003
Meu avô e Ary Barroso
Quem teve a oportunidade de estudar História da Comunicação teve conhecimento das sociedades pré-escrita, ou sociedades orais. É tão difícil para nós hoje pensarmos que existiu uma sociedade assim, não é? Sem leitura ou anotações em papéis, coisa tão vital pra gente. Fiquei mais "encucado" foi com a questão da memória histórica. Se não havia registro, como os mais novos saberiam de suas origens, de seus ancestrais? E se assim era, como hoje sabemos que as sociedades orais existiram?
Os anciãos das tribos eram os responsáveis pela manutenção dessa memória. Por haverem presenciado os eventos - ou, ainda jovens, ouvido de outros anciãos da época - repetiam diariamente, várias vezes, a trajetória de seu clã para os mais novos. E isso era tão forte que em pleno começo de século XX tais sociedades ainda existiam, bem como sua prática. Assim, os antropólogos de nosso tempo tiveram contato com os pré-escrita e, em tempos de escrita consolidada, nos transmitiram o conhecimento que hoje acessamos em História da Comunicação.
Tudo isso me veio à mente ao ouvir um programa em homenagem ao centenário de Ary Barroso, no dia 7 desse mês. (Não é muito difícil concluirmos que o rádio, hoje, é o meio de comunicação mais próximo da prática de memória das sociedades orais). E naquele programa o jornalista Luiz Mendes (um ancião repórter de rádio) narrou vários episódios da vida do amigo e colega de trabalho Ary Barroso.
Falou que Ary era flamenguista doente, e não escondia isso nas narrações dos jogos; que, por não possuir voz potente como os demais radialistas, na hora do gol tocava uma gaita em vez de gritar; que, mesmo sendo mineiro de Ubá, foi o maior propagandista da Bahia e do carnaval brasileiro no mundo - vide "Aquarela do Brasil". E outras histórias.
Acontece que tudo o que Luiz Mendes disse, eu em meus singelos 23 anos já sabia. Isso porque meu avô, desde minha adolescência, encarregou-se de me contar, repetindo diariamente e várias vezes, as histórias de Ary Barroso. Ele fazia isso com diversos assuntos, desde que lesse ou visse algo que o lembraria de determinado episódio que viveu ou testemunhou. Sim, meu avô era a sociedade oral encarnada. Ali, do meu lado, estava parte da História da Comunicação resumida em 82 anos.
Os motivos pelos quais ele tanto me contava e recontava as histórias são vários. É certo que, em determinada idade e dependendo do temperamento da pessoa, ela vai falar apenas de fatos passados, pois a expectativa de realizar coisas novas é remota. Se viveu eventos além do normal, mais ainda. E meu avô, marinheiro sobrevivente de um incêndio em um navio e ex-combatente da 2ª Guerra Mundial, dentre outras coisas, ficava à vontade para falar de seu tempo. Diante de um ouvido atento e amoroso como o meu, imaginem.
Deixei para escrever este artigo hoje, dia 29, por fazer um ano que meu avô nos deixou. Mas se sua presença física já não é possível, o adjetivo inesquecível cabe aqui. Não só pela afeição saudosa como pelas narrações pessoais que perpassam o tempo. Como os guardiães da memória nas sociedades orais. Ironicamente, eu, leitor voraz e tentando realizar minha vocação para a escrita, agradeço a Deus por ter "viajado no tempo" e conhecido melhor do que ninguém as origens da comunicação entrecruzando-se com minhas próprias origens.
Por meio de meu avô sinto saudade de um tempo que, mesmo não tendo vivido, vivi. Uma "saudade misturada", sentindo falta de um ente querido e de um passado distante. Subitamente, as letras não fazem mais sentido. E nem me importo.
Quem teve a oportunidade de estudar História da Comunicação teve conhecimento das sociedades pré-escrita, ou sociedades orais. É tão difícil para nós hoje pensarmos que existiu uma sociedade assim, não é? Sem leitura ou anotações em papéis, coisa tão vital pra gente. Fiquei mais "encucado" foi com a questão da memória histórica. Se não havia registro, como os mais novos saberiam de suas origens, de seus ancestrais? E se assim era, como hoje sabemos que as sociedades orais existiram?
Os anciãos das tribos eram os responsáveis pela manutenção dessa memória. Por haverem presenciado os eventos - ou, ainda jovens, ouvido de outros anciãos da época - repetiam diariamente, várias vezes, a trajetória de seu clã para os mais novos. E isso era tão forte que em pleno começo de século XX tais sociedades ainda existiam, bem como sua prática. Assim, os antropólogos de nosso tempo tiveram contato com os pré-escrita e, em tempos de escrita consolidada, nos transmitiram o conhecimento que hoje acessamos em História da Comunicação.
Tudo isso me veio à mente ao ouvir um programa em homenagem ao centenário de Ary Barroso, no dia 7 desse mês. (Não é muito difícil concluirmos que o rádio, hoje, é o meio de comunicação mais próximo da prática de memória das sociedades orais). E naquele programa o jornalista Luiz Mendes (um ancião repórter de rádio) narrou vários episódios da vida do amigo e colega de trabalho Ary Barroso.
Falou que Ary era flamenguista doente, e não escondia isso nas narrações dos jogos; que, por não possuir voz potente como os demais radialistas, na hora do gol tocava uma gaita em vez de gritar; que, mesmo sendo mineiro de Ubá, foi o maior propagandista da Bahia e do carnaval brasileiro no mundo - vide "Aquarela do Brasil". E outras histórias.
Acontece que tudo o que Luiz Mendes disse, eu em meus singelos 23 anos já sabia. Isso porque meu avô, desde minha adolescência, encarregou-se de me contar, repetindo diariamente e várias vezes, as histórias de Ary Barroso. Ele fazia isso com diversos assuntos, desde que lesse ou visse algo que o lembraria de determinado episódio que viveu ou testemunhou. Sim, meu avô era a sociedade oral encarnada. Ali, do meu lado, estava parte da História da Comunicação resumida em 82 anos.
Os motivos pelos quais ele tanto me contava e recontava as histórias são vários. É certo que, em determinada idade e dependendo do temperamento da pessoa, ela vai falar apenas de fatos passados, pois a expectativa de realizar coisas novas é remota. Se viveu eventos além do normal, mais ainda. E meu avô, marinheiro sobrevivente de um incêndio em um navio e ex-combatente da 2ª Guerra Mundial, dentre outras coisas, ficava à vontade para falar de seu tempo. Diante de um ouvido atento e amoroso como o meu, imaginem.
Deixei para escrever este artigo hoje, dia 29, por fazer um ano que meu avô nos deixou. Mas se sua presença física já não é possível, o adjetivo inesquecível cabe aqui. Não só pela afeição saudosa como pelas narrações pessoais que perpassam o tempo. Como os guardiães da memória nas sociedades orais. Ironicamente, eu, leitor voraz e tentando realizar minha vocação para a escrita, agradeço a Deus por ter "viajado no tempo" e conhecido melhor do que ninguém as origens da comunicação entrecruzando-se com minhas próprias origens.
Por meio de meu avô sinto saudade de um tempo que, mesmo não tendo vivido, vivi. Uma "saudade misturada", sentindo falta de um ente querido e de um passado distante. Subitamente, as letras não fazem mais sentido. E nem me importo.
quinta-feira, 27 de novembro de 2003
O tumulto é do cinismo
A grita foi geral, e dessa vez não apenas na mídia. Tudo começou (de novo) numa batalha campal entre Guarda Municipal (GM) e camelôs no abarrotado Centro do Rio de Janeiro. A construção do discurso emburrecedor tem como agentes a cobertura jornalística e seu público-alvo (ativamente, incentivando e produzindo as reportagens) e as autoridades responsáveis - de forma omissa, coniventes e fomentando a discussão de acordo com suas conveniências.
Ok, dessa vez os camelôs é que se prepararam pra briga, e a começaram ao atacar um carro da fiscalização da Prefeitura (aquele flamejante embaixo do termômetro a 130 graus). O resto foi a reação da GM com todo o seu aparato de guerra - e finalmente ela chegou, não era pra isso que servia? Os camelôs com seus morteiros, côcos e cadeiras; a Guarda com capacetes, escudos de choque, cacetetes e bombas de gás lacrimogêneo. Dá pra imaginar que fim levou, né?
Só que o RJTV da noite inaugurou o discurso que iria predominar na mídia. Anunciando a guerra ocorrida no Centro, mostra as imagens dos guardas sendo atingidos pelos côcos; as cadeiras espalhadas em meio à Av. Pres. Vargas ao meio-dia, "trazendo transtornos". A imagem de um guarda com a mão à boca e o âncora narrando que "um guarda ficou ferido". Ao fim da matéria, um pronunciamento oficial de César Maia dizendo que o Estado é que não enviou reforços da PM ao local; outro de Garotinho, rebatendo as críticas do prefeito, dizendo que a truculência não deveria ser usada, mas sim responsabilidade no tratar com os camelôs.
As perguntas vão surgindo: quem envia a Guarda Municipal para "combater" os camelôs em pleno Centro da cidade durante o dia, com milhares de transeuntes pra lá e pra cá? A Prefeitura. Quem não envia a Guarda Municipal às 6 da manhã para impedir que os camelôs montem suas barracas (já que é essa a questão legal)? A Prefeitura. Quem é um dos principais responsáveis pela porradaria no Centro do Rio, independentemente da situação ilegal dos camelôs? A Prefeitura. Fato. E ainda queria o reforço da PM!
Questiona-se esse lado da questão nos jornais? Não.
Os camelôs sempre foram "soldados de guerra" com estratégias, como ontem? Não. Como todo mundo sabe, violência chama violência. E sua escalada no confronto GM x ambulantes foi gradativa - sendo que bate mais forte (e primeiro) quem está mais preparado pra isso. Quem trabalha no Centro acompanhou essa gradação de perto, desde o início.
Questiona-se esse histórico da questão nos jornais? Não.
O governador do Estado adverte que deve ser usada de responsabilidade para tratar da questão dos camelôs, mas sem truculência. Irônico, vindo de quem vem. Até parece que a carreira político-administrativa de Garotinho foi construída assim, com serenidade e pensando nas conseqüências de seus atos e palavras no calor da hora. Se fosse prefeito, nada leva a crer que Garotinho agiria diferente.
E as primeiras páginas de hoje mostram os prejuízos do comércio e da Prefeitura, exibe fotos dos Guardas Municipais com as "armas" dos camelôs (talvez um côco seja mais destruidor que uma bomba de gás lacrimogêneo, quem sabe?). O dia finda com a sensação que os camelôs merecem mesmo é a pena de morte por não nos deixar em paz, atrapalhar-nos na calçada e irritar as autoridades responsáveis.
Questiona-se o que está sendo feito para resolver a situação dos camelôs? Não. O porque de tantos permanecerem ilegais? Não. Além de fiscalizar e descer o cacete, o que mais a Prefeitura tem feito para RESOLVER essa situação e aí sim servir à população? Não sei, não se fala disso. Quem vai incomodar o nosso herói do Pan 2007 e das quase Olimpíadas-2012?
É muito cinismo de uma vez só. Da mídia, dos governantes, da classe média conivente com a violência na medida que lhe convém (no caso, expulsar camelôs mas sem maiores drasticidades). E é daí que surge o tumultuado desmando da segurança no Rio. Tratando a população como idiota.
A grita foi geral, e dessa vez não apenas na mídia. Tudo começou (de novo) numa batalha campal entre Guarda Municipal (GM) e camelôs no abarrotado Centro do Rio de Janeiro. A construção do discurso emburrecedor tem como agentes a cobertura jornalística e seu público-alvo (ativamente, incentivando e produzindo as reportagens) e as autoridades responsáveis - de forma omissa, coniventes e fomentando a discussão de acordo com suas conveniências.
Ok, dessa vez os camelôs é que se prepararam pra briga, e a começaram ao atacar um carro da fiscalização da Prefeitura (aquele flamejante embaixo do termômetro a 130 graus). O resto foi a reação da GM com todo o seu aparato de guerra - e finalmente ela chegou, não era pra isso que servia? Os camelôs com seus morteiros, côcos e cadeiras; a Guarda com capacetes, escudos de choque, cacetetes e bombas de gás lacrimogêneo. Dá pra imaginar que fim levou, né?
Só que o RJTV da noite inaugurou o discurso que iria predominar na mídia. Anunciando a guerra ocorrida no Centro, mostra as imagens dos guardas sendo atingidos pelos côcos; as cadeiras espalhadas em meio à Av. Pres. Vargas ao meio-dia, "trazendo transtornos". A imagem de um guarda com a mão à boca e o âncora narrando que "um guarda ficou ferido". Ao fim da matéria, um pronunciamento oficial de César Maia dizendo que o Estado é que não enviou reforços da PM ao local; outro de Garotinho, rebatendo as críticas do prefeito, dizendo que a truculência não deveria ser usada, mas sim responsabilidade no tratar com os camelôs.
As perguntas vão surgindo: quem envia a Guarda Municipal para "combater" os camelôs em pleno Centro da cidade durante o dia, com milhares de transeuntes pra lá e pra cá? A Prefeitura. Quem não envia a Guarda Municipal às 6 da manhã para impedir que os camelôs montem suas barracas (já que é essa a questão legal)? A Prefeitura. Quem é um dos principais responsáveis pela porradaria no Centro do Rio, independentemente da situação ilegal dos camelôs? A Prefeitura. Fato. E ainda queria o reforço da PM!
Questiona-se esse lado da questão nos jornais? Não.
Os camelôs sempre foram "soldados de guerra" com estratégias, como ontem? Não. Como todo mundo sabe, violência chama violência. E sua escalada no confronto GM x ambulantes foi gradativa - sendo que bate mais forte (e primeiro) quem está mais preparado pra isso. Quem trabalha no Centro acompanhou essa gradação de perto, desde o início.
Questiona-se esse histórico da questão nos jornais? Não.
O governador do Estado adverte que deve ser usada de responsabilidade para tratar da questão dos camelôs, mas sem truculência. Irônico, vindo de quem vem. Até parece que a carreira político-administrativa de Garotinho foi construída assim, com serenidade e pensando nas conseqüências de seus atos e palavras no calor da hora. Se fosse prefeito, nada leva a crer que Garotinho agiria diferente.
E as primeiras páginas de hoje mostram os prejuízos do comércio e da Prefeitura, exibe fotos dos Guardas Municipais com as "armas" dos camelôs (talvez um côco seja mais destruidor que uma bomba de gás lacrimogêneo, quem sabe?). O dia finda com a sensação que os camelôs merecem mesmo é a pena de morte por não nos deixar em paz, atrapalhar-nos na calçada e irritar as autoridades responsáveis.
Questiona-se o que está sendo feito para resolver a situação dos camelôs? Não. O porque de tantos permanecerem ilegais? Não. Além de fiscalizar e descer o cacete, o que mais a Prefeitura tem feito para RESOLVER essa situação e aí sim servir à população? Não sei, não se fala disso. Quem vai incomodar o nosso herói do Pan 2007 e das quase Olimpíadas-2012?
É muito cinismo de uma vez só. Da mídia, dos governantes, da classe média conivente com a violência na medida que lhe convém (no caso, expulsar camelôs mas sem maiores drasticidades). E é daí que surge o tumultuado desmando da segurança no Rio. Tratando a população como idiota.
quarta-feira, 15 de outubro de 2003
VEJA: a irônica revolução da linguagem
É mais forte do que eu: mais uma vez a banca de jornal me chamava a atenção por alguma matéria de capa, mais uma vez a VEJA. Um cartum em que uma gigantesca águia era "peitada" por um pintinho marrento verde e amarelo. A chamada: "Brasil peita os EUA na ALCA - CORAGEM OU ESTUPIDEZ?". Precisa dizer o quê?
Que a revista está se especializando em tratar os leitores de forma infantilóide já se sabe há muito. Não satisfeita em reportar os fatos com ótica visivelmente tendenciosa, a redação de VEJA sempre termina suas matérias ratificando uma solução única e derradeira para a questão abordada. Nunca permite que o leitor forme sua opinião por si só após avaliar o conteúdo da revista. E isso é um tique nervoso que vai desde a capa até as matérias mais banais, como se fosse uma regra de prática jornalística.
Mas a capa dessa semana, além de continuar seguindo à risca o acima citado, provoca uma revolução na linguagem (sem querer, e vocês já vão entender por que). Uma imagem valer mais que mil palavras é exagero - "diz isso sem palavras!", lembra Millôr. Mas a capacidade do cartum ou da charge em sintetizar idéias não deve ser subestimada. Muito menos seu potencial informativo. E de forma completa, já que por ele percebe-se o que querem dizer e com que intenções querem dizer. Nesse ponto as palavras podem confundir, prostituindo a retórica.
E a VEJA jogou pro alto a sutileza e a dissimulação: acrescenta logo a seguir que a situação ridícula do Brasil "peitar" os EUA na ALCA - afinal, o pintinho marrento pra cima da enfezada águia é uma cena ridícula, da qual já se sabe o desfecho - seria enquadrada em um dos extremos: CORAGEM ou ESTUPIDEZ. (Aliás, esse é o maior vício da mídia hoje: tudo é bem x mal, fulano vence x fulano perde etc. Não há análise complexa como são as situações reportadas. Simplifica-se o difícil pela lógica emburrecedora, não pelo pragmatismo).
Assim, percebe-se uma revolução da linguagem protagonizada pela revista, só que de forma irônica. Diante da capa, eu pergunto: preciso ler a matéria? Mesmo que eu concorde com a opinião da revista, por que me dar ao trabalho de comprar e folhear suas páginas para me explicar o que já está resumido e finalizado na capa? Até com o suspense marqueteiro a VEJA acabou. É o cúmulo da síntese! Não é necessário me aprofundar na reportagem para melhor compreender. Está dito, ponto final. Ironicamente, mesmo eu estando na banca, não preciso comprar a revista - e normalmente as capas colaboram para o contrário...
Logo, tal revolução é sem querer, visto que a revista não iria criar um "auto-boicote". Mas se os leitores notarem essa nova fase, será um castigo merecido para o mau jornalismo que a vedete da editora Abril comete faz tempo.
É mais forte do que eu: mais uma vez a banca de jornal me chamava a atenção por alguma matéria de capa, mais uma vez a VEJA. Um cartum em que uma gigantesca águia era "peitada" por um pintinho marrento verde e amarelo. A chamada: "Brasil peita os EUA na ALCA - CORAGEM OU ESTUPIDEZ?". Precisa dizer o quê?
Que a revista está se especializando em tratar os leitores de forma infantilóide já se sabe há muito. Não satisfeita em reportar os fatos com ótica visivelmente tendenciosa, a redação de VEJA sempre termina suas matérias ratificando uma solução única e derradeira para a questão abordada. Nunca permite que o leitor forme sua opinião por si só após avaliar o conteúdo da revista. E isso é um tique nervoso que vai desde a capa até as matérias mais banais, como se fosse uma regra de prática jornalística.
Mas a capa dessa semana, além de continuar seguindo à risca o acima citado, provoca uma revolução na linguagem (sem querer, e vocês já vão entender por que). Uma imagem valer mais que mil palavras é exagero - "diz isso sem palavras!", lembra Millôr. Mas a capacidade do cartum ou da charge em sintetizar idéias não deve ser subestimada. Muito menos seu potencial informativo. E de forma completa, já que por ele percebe-se o que querem dizer e com que intenções querem dizer. Nesse ponto as palavras podem confundir, prostituindo a retórica.
E a VEJA jogou pro alto a sutileza e a dissimulação: acrescenta logo a seguir que a situação ridícula do Brasil "peitar" os EUA na ALCA - afinal, o pintinho marrento pra cima da enfezada águia é uma cena ridícula, da qual já se sabe o desfecho - seria enquadrada em um dos extremos: CORAGEM ou ESTUPIDEZ. (Aliás, esse é o maior vício da mídia hoje: tudo é bem x mal, fulano vence x fulano perde etc. Não há análise complexa como são as situações reportadas. Simplifica-se o difícil pela lógica emburrecedora, não pelo pragmatismo).
Assim, percebe-se uma revolução da linguagem protagonizada pela revista, só que de forma irônica. Diante da capa, eu pergunto: preciso ler a matéria? Mesmo que eu concorde com a opinião da revista, por que me dar ao trabalho de comprar e folhear suas páginas para me explicar o que já está resumido e finalizado na capa? Até com o suspense marqueteiro a VEJA acabou. É o cúmulo da síntese! Não é necessário me aprofundar na reportagem para melhor compreender. Está dito, ponto final. Ironicamente, mesmo eu estando na banca, não preciso comprar a revista - e normalmente as capas colaboram para o contrário...
Logo, tal revolução é sem querer, visto que a revista não iria criar um "auto-boicote". Mas se os leitores notarem essa nova fase, será um castigo merecido para o mau jornalismo que a vedete da editora Abril comete faz tempo.
segunda-feira, 6 de outubro de 2003
Sabemos aonde estamos indo... como continuamos indo?
A ISTOÉ da semana passada (edição 1774) é digna de ser elogiada e criticada, levando-se em conta assunto, qualidade jornalística e tratamento de matéria. Com o título "Inimigo Oculto", a revista mostrou uma terrível realidade do nosso país: mais de 400 mil brasileiros são portadores do vírus HIV e não sabem.
Elogio a equipe de redação por fazer um trabalho digno da vocação jornalística de prestar serviço público informando com responsabilidade. A matéria traz dados oficiais da Organização Mundial de Saúde, mostrando que o Brasil é exemplar no tratamento da AIDS. Também colhe depoimentos de pessoas que se mostraram surpresas ao saber que eram soropositivas - até porque não levavam a "vida suja" geralmente correlacionada aos contaminados. Informa sobre a campanha "Fique Sabendo", que estimula os que transaram sem camisinha a fazer o exame e derruba crendices a respeito do contágio no contato social com aidéticos.
Minhas críticas à revista dizem respeito ao tratamento da matéria. Não foi de capa, o que permitiria um alcance maior de pessoas - e a importante urgência do assunto merecia esse destaque. Também acho válido que sejam enfatizadas vidas que convivem normalmente com o fato de serem soropositivas, o que foi feito por meio de depoimentos transcritos e fotos sorridentes. Mas o lado mais sombrio da doença também precisava estar ali, para não se correr o risco da banalização de um dos piores males da humanidade.
Aí é que está o principal. Aí é que desandei a chorar.
Porque a matéria mais importante do ano vai passar despercebida. Vai ser mais uma matéria de saúde pública sexual a ser engolida pela sociedade do consumo, do espetáculo, sem afeto, sensacionalista (idólatra das sensações), supérflua, hipócrita etc etc etc etc.
Haverá reflexão para os hábitos sexuais de hoje? Um dos depoimentos da matéria é de uma mulher com 4 filhos que nunca teve "aventuras" que dessem margem à suspeita da AIDS. Mas o marido a contaminou, fruto de infidelidade conjugal. E quer coisa mais folclórica hoje do que o "corno", o "triângulo amoroso", o "pular a cerca"? Fala-se disso como se o ato não produzisse conseqüências emocionais - e agora, físicas - desse romper de compromisso.
Os que preferem guardar-se pro casamento e levar a sério a fidelidade - sem impor essa decisão a nenhuma massa, é apenas uma decisão individual como tantas outras - são ridicularizados sem piedade. (Irônica sociedade em que tantos reivindicam o direito de assumir o que escolheram pra vida enquanto enquadram outros que possuem o mesmo objetivo).
Quem se importa com pessoas contaminadas com AIDS hoje? A indústria do sexo, ramificada desde as mais vulgares pornografias até as sutis/escancaradas propagações de valores questionáveis em horário nobre? Os orgulhosos conservadores certos de que sua lei e moral bastam para dominar facilmente os instintos humanos (que não precisam de muito pra perder as rédeas)? Os políticos que não sobrevivem sem o cabresto da ignorância, custe o que custar para os analfabetos de cidadania, sem educação básica - aquela que permite amadurecer para avaliar o melhor, e não ser engabelado pelos malandros oficiais (como dizia Chico Buarque)?
E agora é hora de me expor. Corro o risco de levar um implacável rótulo ao manifestar minha opinião, mas dane-se. Além de ser o meu blog, são minhas sinceras inquietações sobre os destinos do ser humano. A situação narrada pela revista é mais uma prova de que vivemos, como nunca, uma crise de valores. Quanto mais nossa vida se afasta do caráter de Deus, mais perdidos ficamos, menos sentido encontramos. Enquanto nos preocuparmos em buscá-lO apenas na hora da morte ou do sofrer, assim será nossa existência: sepulcral e masoquista, travestindo-se de hedonismo, esperteza egoísta, cinismo de idéias e insensibilidade contagiosa. Sem nunca nos preencher, e nos enganando com tanta perfeição até alcançar o alvo máximo: uma desconfiança geral em relação ao óbvio que salva.
Deus tá vendo. E chora.
A ISTOÉ da semana passada (edição 1774) é digna de ser elogiada e criticada, levando-se em conta assunto, qualidade jornalística e tratamento de matéria. Com o título "Inimigo Oculto", a revista mostrou uma terrível realidade do nosso país: mais de 400 mil brasileiros são portadores do vírus HIV e não sabem.
Elogio a equipe de redação por fazer um trabalho digno da vocação jornalística de prestar serviço público informando com responsabilidade. A matéria traz dados oficiais da Organização Mundial de Saúde, mostrando que o Brasil é exemplar no tratamento da AIDS. Também colhe depoimentos de pessoas que se mostraram surpresas ao saber que eram soropositivas - até porque não levavam a "vida suja" geralmente correlacionada aos contaminados. Informa sobre a campanha "Fique Sabendo", que estimula os que transaram sem camisinha a fazer o exame e derruba crendices a respeito do contágio no contato social com aidéticos.
Minhas críticas à revista dizem respeito ao tratamento da matéria. Não foi de capa, o que permitiria um alcance maior de pessoas - e a importante urgência do assunto merecia esse destaque. Também acho válido que sejam enfatizadas vidas que convivem normalmente com o fato de serem soropositivas, o que foi feito por meio de depoimentos transcritos e fotos sorridentes. Mas o lado mais sombrio da doença também precisava estar ali, para não se correr o risco da banalização de um dos piores males da humanidade.
Aí é que está o principal. Aí é que desandei a chorar.
Porque a matéria mais importante do ano vai passar despercebida. Vai ser mais uma matéria de saúde pública sexual a ser engolida pela sociedade do consumo, do espetáculo, sem afeto, sensacionalista (idólatra das sensações), supérflua, hipócrita etc etc etc etc.
Haverá reflexão para os hábitos sexuais de hoje? Um dos depoimentos da matéria é de uma mulher com 4 filhos que nunca teve "aventuras" que dessem margem à suspeita da AIDS. Mas o marido a contaminou, fruto de infidelidade conjugal. E quer coisa mais folclórica hoje do que o "corno", o "triângulo amoroso", o "pular a cerca"? Fala-se disso como se o ato não produzisse conseqüências emocionais - e agora, físicas - desse romper de compromisso.
Os que preferem guardar-se pro casamento e levar a sério a fidelidade - sem impor essa decisão a nenhuma massa, é apenas uma decisão individual como tantas outras - são ridicularizados sem piedade. (Irônica sociedade em que tantos reivindicam o direito de assumir o que escolheram pra vida enquanto enquadram outros que possuem o mesmo objetivo).
Quem se importa com pessoas contaminadas com AIDS hoje? A indústria do sexo, ramificada desde as mais vulgares pornografias até as sutis/escancaradas propagações de valores questionáveis em horário nobre? Os orgulhosos conservadores certos de que sua lei e moral bastam para dominar facilmente os instintos humanos (que não precisam de muito pra perder as rédeas)? Os políticos que não sobrevivem sem o cabresto da ignorância, custe o que custar para os analfabetos de cidadania, sem educação básica - aquela que permite amadurecer para avaliar o melhor, e não ser engabelado pelos malandros oficiais (como dizia Chico Buarque)?
E agora é hora de me expor. Corro o risco de levar um implacável rótulo ao manifestar minha opinião, mas dane-se. Além de ser o meu blog, são minhas sinceras inquietações sobre os destinos do ser humano. A situação narrada pela revista é mais uma prova de que vivemos, como nunca, uma crise de valores. Quanto mais nossa vida se afasta do caráter de Deus, mais perdidos ficamos, menos sentido encontramos. Enquanto nos preocuparmos em buscá-lO apenas na hora da morte ou do sofrer, assim será nossa existência: sepulcral e masoquista, travestindo-se de hedonismo, esperteza egoísta, cinismo de idéias e insensibilidade contagiosa. Sem nunca nos preencher, e nos enganando com tanta perfeição até alcançar o alvo máximo: uma desconfiança geral em relação ao óbvio que salva.
Deus tá vendo. E chora.
terça-feira, 16 de setembro de 2003
LESSA 23!
Woody Allen dirige, escreve e atua em seus filmes. resultado: já beijou mulheres lindas em muitos deles... São as benesses do controle do meio de comunicação! De igual forma, hoje usufruo desse blog para publicar minha lista de presentes de aniversário!!! De repente você tá sem idéia...
Será dia 27 de setembro - e para os engraçadinhos de plantão: nao gosto de doce de Cosme e Damião!!!!! Heheheh...
Se você hesitar pensando que outra pessoa pode dar o mesmo presente, uma dica: é só comprar em lojas que dão aquela etiqueta, que permite trocar em até 15 dias... Pretensioso eu, né?
CDs:
- Trilha sonora do filme "Alta Fidelidade"
- "Bloco do Eu Sozinho" e "Ventura", do Los Hermanos
- "Abbey Road" e "Let it be", dos Beatles
- Qualquer um do songbook de Chico Buarque
- Qualquer um do songbook de Tom Jobim
LIVROS:
- "Budapeste" - Chico Buarque
- "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa
- "Brejo das Almas", "Claro Enigma", "Caminhos de João Brandão", de Carlos Drummond de Andrade
- "Como ser legal", de Nick Hornby
- "eu@teamo.com.br", de Letícia Wierzchowski
- "Maravilhosa Graça", de Philip Yancey
- "Cristianismo e política", de Robinson Cavalcanti
- "Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal", de Milton Santos
- "Cartas na mesa", "Cartas a um jovem escritor" - Fernando Sabino
ROUPAS: apenas informo que camisa é tamanho P ou M; calça, 40; sapatos, 42/43.
Ou me surpreenda!!!
Woody Allen dirige, escreve e atua em seus filmes. resultado: já beijou mulheres lindas em muitos deles... São as benesses do controle do meio de comunicação! De igual forma, hoje usufruo desse blog para publicar minha lista de presentes de aniversário!!! De repente você tá sem idéia...
Será dia 27 de setembro - e para os engraçadinhos de plantão: nao gosto de doce de Cosme e Damião!!!!! Heheheh...
Se você hesitar pensando que outra pessoa pode dar o mesmo presente, uma dica: é só comprar em lojas que dão aquela etiqueta, que permite trocar em até 15 dias... Pretensioso eu, né?
CDs:
- Trilha sonora do filme "Alta Fidelidade"
- "Bloco do Eu Sozinho" e "Ventura", do Los Hermanos
- "Abbey Road" e "Let it be", dos Beatles
- Qualquer um do songbook de Chico Buarque
- Qualquer um do songbook de Tom Jobim
LIVROS:
- "Budapeste" - Chico Buarque
- "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa
- "Brejo das Almas", "Claro Enigma", "Caminhos de João Brandão", de Carlos Drummond de Andrade
- "Como ser legal", de Nick Hornby
- "eu@teamo.com.br", de Letícia Wierzchowski
- "Maravilhosa Graça", de Philip Yancey
- "Cristianismo e política", de Robinson Cavalcanti
- "Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal", de Milton Santos
- "Cartas na mesa", "Cartas a um jovem escritor" - Fernando Sabino
ROUPAS: apenas informo que camisa é tamanho P ou M; calça, 40; sapatos, 42/43.
Ou me surpreenda!!!
sábado, 13 de setembro de 2003
E agora, José do Patrocínio?
Depois de um longo tempo, vi algo de bom na primeira página do GLOBO: Conar proíbe jovens e cenas eróticas em anúncios de bebida. Essa medida pode trazer conseqüências mais inesperadas do que pensamos... Além disso, as reações dos publicitários a ela revela intenções e problemas que são sempre mascarados pela beleza dos anúncios. Quer ver só?
Primeiro, que uma classe social sui generis vai ser muito prejudicada: é a tal da "modelatriz". Você sabe, elas não são modelos nem atrizes, mas um mix dos dois sem desempenhar nenhuma das funções direito. Mão-de-obra principal dos anúncios de cerveja - são jovens e eróticas - como começarão a carreira tão sonhada? Como evoluir para a capa da Playboy e para o tórrido romance ovulatório com jogadores de futebol e demais celebridades, agora? Mostrar (ao lado do álcool que deixa os homens com aquela barriga sexy) suas carnes glúteas era o pontapé inicial. Curioso: a única carreira em que "pé na bunda" pode significar emprego...
A indústria da bebida também deve ter ficado surpresa com tal medida, que começa a vigorar no verão! Todo o estratagema montado por anos e anos (sem trocadilho, por favor) para as vendas subirem na sudorípara estação vai por Conar abaixo... A decisão também proíbe o uso de animais humanizados, bonecos ou animações, para que as crianças não sejam despertadas pro álcool (e o mercado futuro? O mercado futuro!). Só que pra fechar a conta desse possível prejuízo eles vão empurrar a responsabilidade para os... publicitários!
Aí é que a cobra fuma, a porca torce o rabo, a onça bebe água e demais slogans populares.
O discurso oficial da P&P é que "as agências terão que usar ainda mais de criatividade e vão conseguir". Hilário... AINDA MAIS? Acho que agora é que vão ter que provar que sabem criar. Atiçar o público-alvo em seus básicos instintos é muito mais fácil que convencê-lo a fazer uma escolha consciente e tomar decisão idem.
VÃO CONSEGUIR? Quem disse a frase acima é o sócio-diretor da Agência Total, responsável pela campanha da Schin (que por sinal, é um primor de criatividade: "Experimenta" até encher o saco!). Esse "vão conseguir" pode muito bem ser traduzido por "pelamordedeus, é a nossa única chance" ou "consigam ou muitos de nós estarão na rua em breve". A decisão do Conar pode ser o primeiro grande desafio para uma indústria publicitária acomodada na fórmula bunda-futebol pra vender outro prazer cheio de riscos pessoais e sociais.
A matéria informa que a decisão do Conar antecipa-se a uma possível legislação do Congresso, que prometia ainda mais rigor com as propagandas. Ou seja, dos males o menor. Mas, dependendo de como se virarem, esse menor torna-se relativo. Longe de mim duvidar do talento dos publicitários brasileiros, mas o Conar prestou um serviço público imenso - talvez sem querer. Nem a grande imprensa teve peito pra questionar essas campanhas que tratam o homem como bicho, nem os publicitários ousaram mudar a fórmula pensando no bem ou mal-estar que faziam ao público com suas campanhas. Na marra, o Conar obrigou a imprensa a se auto-flagrar e as agências a produzirem algo de menos inutilidade pública.
Agora eu quero ver a paixão nacional experimentar o argumento redondo dentro da lei, refrescando principalmente os pensamentos. Ah, mas com moderação e pegando táxi depois, porque também faz mal à saúde.
Depois de um longo tempo, vi algo de bom na primeira página do GLOBO: Conar proíbe jovens e cenas eróticas em anúncios de bebida. Essa medida pode trazer conseqüências mais inesperadas do que pensamos... Além disso, as reações dos publicitários a ela revela intenções e problemas que são sempre mascarados pela beleza dos anúncios. Quer ver só?
Primeiro, que uma classe social sui generis vai ser muito prejudicada: é a tal da "modelatriz". Você sabe, elas não são modelos nem atrizes, mas um mix dos dois sem desempenhar nenhuma das funções direito. Mão-de-obra principal dos anúncios de cerveja - são jovens e eróticas - como começarão a carreira tão sonhada? Como evoluir para a capa da Playboy e para o tórrido romance ovulatório com jogadores de futebol e demais celebridades, agora? Mostrar (ao lado do álcool que deixa os homens com aquela barriga sexy) suas carnes glúteas era o pontapé inicial. Curioso: a única carreira em que "pé na bunda" pode significar emprego...
A indústria da bebida também deve ter ficado surpresa com tal medida, que começa a vigorar no verão! Todo o estratagema montado por anos e anos (sem trocadilho, por favor) para as vendas subirem na sudorípara estação vai por Conar abaixo... A decisão também proíbe o uso de animais humanizados, bonecos ou animações, para que as crianças não sejam despertadas pro álcool (e o mercado futuro? O mercado futuro!). Só que pra fechar a conta desse possível prejuízo eles vão empurrar a responsabilidade para os... publicitários!
Aí é que a cobra fuma, a porca torce o rabo, a onça bebe água e demais slogans populares.
O discurso oficial da P&P é que "as agências terão que usar ainda mais de criatividade e vão conseguir". Hilário... AINDA MAIS? Acho que agora é que vão ter que provar que sabem criar. Atiçar o público-alvo em seus básicos instintos é muito mais fácil que convencê-lo a fazer uma escolha consciente e tomar decisão idem.
VÃO CONSEGUIR? Quem disse a frase acima é o sócio-diretor da Agência Total, responsável pela campanha da Schin (que por sinal, é um primor de criatividade: "Experimenta" até encher o saco!). Esse "vão conseguir" pode muito bem ser traduzido por "pelamordedeus, é a nossa única chance" ou "consigam ou muitos de nós estarão na rua em breve". A decisão do Conar pode ser o primeiro grande desafio para uma indústria publicitária acomodada na fórmula bunda-futebol pra vender outro prazer cheio de riscos pessoais e sociais.
A matéria informa que a decisão do Conar antecipa-se a uma possível legislação do Congresso, que prometia ainda mais rigor com as propagandas. Ou seja, dos males o menor. Mas, dependendo de como se virarem, esse menor torna-se relativo. Longe de mim duvidar do talento dos publicitários brasileiros, mas o Conar prestou um serviço público imenso - talvez sem querer. Nem a grande imprensa teve peito pra questionar essas campanhas que tratam o homem como bicho, nem os publicitários ousaram mudar a fórmula pensando no bem ou mal-estar que faziam ao público com suas campanhas. Na marra, o Conar obrigou a imprensa a se auto-flagrar e as agências a produzirem algo de menos inutilidade pública.
Agora eu quero ver a paixão nacional experimentar o argumento redondo dentro da lei, refrescando principalmente os pensamentos. Ah, mas com moderação e pegando táxi depois, porque também faz mal à saúde.
domingo, 7 de setembro de 2003
O cinema de Guel é a maior diversão
Como falei no último post, aqui vai uma crítica mais apurada do novo filme de Guel Arraes, Lisbela e o prisioneiro. Quem gostou do "Auto da Compadecida" e de "Caramuru" não vai se decepcionar com este. Direção, roteiro, produção, interpretações, figurinos, trilha - tá tudo bom demais. Com certeza verei pela quarta vez (no cinema).
Osman Lins é um autor pernambucano desconhecido, de onde Guel Arraes tirou a história do filme para primeiro transformá-la em peça. Foi um laboratório de sucesso para saberem o que fazer na tela grande. Alguns atores que estavam na peça estão no filme, ainda que em papéis trocados.
De fato, as interpretações de cada um já valem o ingresso, com sobras. Selton Mello vai se transformando no maior ator de sua geração, tamanha é a sua versatilidade. Além dos citados filmes de Guel, Selton também protagonizou com maestria o pesado "Lavoura Arcaica", além da peça "Zastrozzi". É impressionante sua capacidade de ser completamente diferente em cada papel que atua - coisa que o parceiro do "Auto", Matheus Natchergale, já tinha alcançado.
Marco Nanini, como o vilão, é algo de outro mundo. Sua experiência teatral e televisiva está dando conta da carreira cinematográfica, permitindo-lhe o bom senso de nunca parecer exagerado nos personagens que encarna. Sabe dosar o humor, a seriedade, o drama e o que vier na medida ideal. Suas caras, bocas e entonações chegam ao limite da perfeição nesse filme.
Débora Falabella surpreende como Lisbela, embora cresça somente durante o desenrolar do filme. O mesmo se diz de Bruno Garcia como o noivo carioca (que no teatro fez o papel do prisioneiro, que aqui é de Selton Mello). Tanto ele como Virgínia Cavendish - mulher do vilão - são dois atores não muito conhecidos do grande público que possuem talento fenomenal, acredite. Tadeu Mello é o cabo Citonho, num personagem para o qual parece ter nascido. Assim como André Marques, que conseguiu a proeza de sair da Escolinha do Professor Raimundo ("Meu querido!!!") e do papel de D.João VI para ser muito requisitado como ator, e com justiça.
O roteiro e seus argumentos são sensacionais. Destaque para o dinâmico jogo de palavras entre os personagens, já característico dos filmes de Guel. Em meio à comédia sem descanso, também há cenas de drama que provocam sinceras lágrimas na platéia. E principalmente para o enredo, que trata os clichês de Hollywood exatamente como são: clichês que não se comparam a um filme do nível de Lisbela e o prisioneiro. Fica aí o recado para que prestemos mais atenção à qualidade da produção nacional, em vez de apenas encher os cofres dos ianques sem imaginação.
A trilha sonora também é notável. Pela sua diversidade e bom gosto: depois de "Sozinho", Caetano Veloso transforma outra música considerada brega ("Você não me ensinou a te esquecer", de Fernando Mendes) em momento mágico da MPB; Elza Soares manda bem no tema do vilão (e olha que eu a odeio!), Los Hermanos mostram que sabem de forró; e uma inusitada parceria produz inimaginável entrosamento: Zé Ramalho e Sepultura. Fora a qualidade musical, cada letra e melodia encaixa-se nas cenas com perfeição - méritos para a produção.
Claudio Assis, diretor de "Amarelo Manga", trouxe ácida opinião sobre o tal "cinema social" do país: "O Brasil está fazendo um cinema com culpa (...) são burgueses filhos de sei lá quem, que têm peso na consciência por herdar riqueza e que querem se limpar fazendo um cinema com culpa. Daí dizem que pobre é bonzinho..." Certo ou errado, aproveito o depoimento de Claudio para inocentar Guel Arraes. Seu cinema não é com culpa, é com orgulho do país, com a pretensão de conscientizar no sentido da auto-estima cultural. Sabemos fazer bom cinema, e nossa terra e nossa miscigenação geral são matéria-prima suficiente para ótimos roteiros. Além disso, faço coro com o personagem de Selton Mello: "cinema nacional é bom porque o beijo já vem traduzido...".
Como falei no último post, aqui vai uma crítica mais apurada do novo filme de Guel Arraes, Lisbela e o prisioneiro. Quem gostou do "Auto da Compadecida" e de "Caramuru" não vai se decepcionar com este. Direção, roteiro, produção, interpretações, figurinos, trilha - tá tudo bom demais. Com certeza verei pela quarta vez (no cinema).
Osman Lins é um autor pernambucano desconhecido, de onde Guel Arraes tirou a história do filme para primeiro transformá-la em peça. Foi um laboratório de sucesso para saberem o que fazer na tela grande. Alguns atores que estavam na peça estão no filme, ainda que em papéis trocados.
De fato, as interpretações de cada um já valem o ingresso, com sobras. Selton Mello vai se transformando no maior ator de sua geração, tamanha é a sua versatilidade. Além dos citados filmes de Guel, Selton também protagonizou com maestria o pesado "Lavoura Arcaica", além da peça "Zastrozzi". É impressionante sua capacidade de ser completamente diferente em cada papel que atua - coisa que o parceiro do "Auto", Matheus Natchergale, já tinha alcançado.
Marco Nanini, como o vilão, é algo de outro mundo. Sua experiência teatral e televisiva está dando conta da carreira cinematográfica, permitindo-lhe o bom senso de nunca parecer exagerado nos personagens que encarna. Sabe dosar o humor, a seriedade, o drama e o que vier na medida ideal. Suas caras, bocas e entonações chegam ao limite da perfeição nesse filme.
Débora Falabella surpreende como Lisbela, embora cresça somente durante o desenrolar do filme. O mesmo se diz de Bruno Garcia como o noivo carioca (que no teatro fez o papel do prisioneiro, que aqui é de Selton Mello). Tanto ele como Virgínia Cavendish - mulher do vilão - são dois atores não muito conhecidos do grande público que possuem talento fenomenal, acredite. Tadeu Mello é o cabo Citonho, num personagem para o qual parece ter nascido. Assim como André Marques, que conseguiu a proeza de sair da Escolinha do Professor Raimundo ("Meu querido!!!") e do papel de D.João VI para ser muito requisitado como ator, e com justiça.
O roteiro e seus argumentos são sensacionais. Destaque para o dinâmico jogo de palavras entre os personagens, já característico dos filmes de Guel. Em meio à comédia sem descanso, também há cenas de drama que provocam sinceras lágrimas na platéia. E principalmente para o enredo, que trata os clichês de Hollywood exatamente como são: clichês que não se comparam a um filme do nível de Lisbela e o prisioneiro. Fica aí o recado para que prestemos mais atenção à qualidade da produção nacional, em vez de apenas encher os cofres dos ianques sem imaginação.
A trilha sonora também é notável. Pela sua diversidade e bom gosto: depois de "Sozinho", Caetano Veloso transforma outra música considerada brega ("Você não me ensinou a te esquecer", de Fernando Mendes) em momento mágico da MPB; Elza Soares manda bem no tema do vilão (e olha que eu a odeio!), Los Hermanos mostram que sabem de forró; e uma inusitada parceria produz inimaginável entrosamento: Zé Ramalho e Sepultura. Fora a qualidade musical, cada letra e melodia encaixa-se nas cenas com perfeição - méritos para a produção.
Claudio Assis, diretor de "Amarelo Manga", trouxe ácida opinião sobre o tal "cinema social" do país: "O Brasil está fazendo um cinema com culpa (...) são burgueses filhos de sei lá quem, que têm peso na consciência por herdar riqueza e que querem se limpar fazendo um cinema com culpa. Daí dizem que pobre é bonzinho..." Certo ou errado, aproveito o depoimento de Claudio para inocentar Guel Arraes. Seu cinema não é com culpa, é com orgulho do país, com a pretensão de conscientizar no sentido da auto-estima cultural. Sabemos fazer bom cinema, e nossa terra e nossa miscigenação geral são matéria-prima suficiente para ótimos roteiros. Além disso, faço coro com o personagem de Selton Mello: "cinema nacional é bom porque o beijo já vem traduzido...".
quarta-feira, 3 de setembro de 2003
Êxtase cultural: a Disney morreu, ao contrário do bom cinema nacional
A gente reclama de gastos extensos com nossas necessidades básicas, mas há momentos em que o dinheiro é muito bem gasto. Não apenas pra manter a saúde, a boa alimentação ou o sustento educacional como também o consumo, em doses cavalares, de alto nível cultural. "Procurando Nemo" e "Lisbela e o prisioneiro" estão nos meus receituários.
A história do peixinho Nemo é mais um sucesso da Pixar, a empresa responsável pela revolução gráfica nos desenhos animados do cinema. Desde "Toy Story" eles exploram a metáfora do mundo adulto por meio de outros universos conhecidos – como brinquedos, formigas etc. Embora as crianças sejam o público-alvo, a linguagem utilizada alcança qualquer idade. E não só a linguagem, como bons roteiros e cada personagem, dos divertidos aos mais tocantes.
A fórmula agora é a seguinte: a Pixar é mão-de-obra dos desenhos, enquanto a Disney fica com o marketing e a distribuição. Ou seja: mérito todinho pra Pixar, melhor ainda por suplantar qualquer filme anterior da Disney. Seja em originalidade, criatividade ou até mesmo bom senso. Claro que cada filme a seu tempo, mas compare os antigos essencialmente produzidos e feitos pela Disney com os de hoje, nos quais ela apenas paga pra botar a marca. É covardia.
Um trailer de 1989 feito pela Pixar coloca o "Rei Leão" no chinelo. Cada vez menos clichês e cada vez mais valorização da inteligência da criança. Afinal, elas entendem (e riem de) todas as referências contemporâneas, como não? Ao contrário dos contos de fada politicamente corretos ao extremo, usam o mundo real para exercer suas qualidades gráfico-narrativas.
"Lisbela e o prisioneiro" é mais uma pérola de Guel Arraes, que tem no currículo "O Auto da Compadecida" e "Caramuru", além dos conceituados "Comédias da Vida Privada" e "TV Pirata". Dessa vez a mulher do Caetano bancou a produção e quis fazer um blockbuster brasileiro. Em entrevista, Paula Lavigne diz ficar feliz se conseguir "pelo menos dois milhões de espectadores"...
Ao contrário do que parece, isso não atrapalhou em nada a qualidade do filme. Os atores estão excepcionais, todos eles. Os argumentos, a uma velocidade já característica dos filmes de Guel. Figurinos e trilha sonora feitos sob medida completam a obra-prima. Já vi 3 vezes! (O próximo post será exclusivo sobre Lisbela, quando me alongarei mais sobre o filme)
Logo, é ótimo perceber que o bom cinema nacional ressurgiu de vez, e sem precisar apelar. É disso que o povo gosta, e não das baixarias justificadas por argumento semelhante no horário nobre. O mesmo vale pra Pixar, a verdadeira rainha dos baixinhos. Dêem-nos opções e saberemos escolher a boa parte. Quem tem medo (no caso, de perder audiência) é quem não se garante – e olha que isso a gente aprende no primário...
A gente reclama de gastos extensos com nossas necessidades básicas, mas há momentos em que o dinheiro é muito bem gasto. Não apenas pra manter a saúde, a boa alimentação ou o sustento educacional como também o consumo, em doses cavalares, de alto nível cultural. "Procurando Nemo" e "Lisbela e o prisioneiro" estão nos meus receituários.
A história do peixinho Nemo é mais um sucesso da Pixar, a empresa responsável pela revolução gráfica nos desenhos animados do cinema. Desde "Toy Story" eles exploram a metáfora do mundo adulto por meio de outros universos conhecidos – como brinquedos, formigas etc. Embora as crianças sejam o público-alvo, a linguagem utilizada alcança qualquer idade. E não só a linguagem, como bons roteiros e cada personagem, dos divertidos aos mais tocantes.
A fórmula agora é a seguinte: a Pixar é mão-de-obra dos desenhos, enquanto a Disney fica com o marketing e a distribuição. Ou seja: mérito todinho pra Pixar, melhor ainda por suplantar qualquer filme anterior da Disney. Seja em originalidade, criatividade ou até mesmo bom senso. Claro que cada filme a seu tempo, mas compare os antigos essencialmente produzidos e feitos pela Disney com os de hoje, nos quais ela apenas paga pra botar a marca. É covardia.
Um trailer de 1989 feito pela Pixar coloca o "Rei Leão" no chinelo. Cada vez menos clichês e cada vez mais valorização da inteligência da criança. Afinal, elas entendem (e riem de) todas as referências contemporâneas, como não? Ao contrário dos contos de fada politicamente corretos ao extremo, usam o mundo real para exercer suas qualidades gráfico-narrativas.
"Lisbela e o prisioneiro" é mais uma pérola de Guel Arraes, que tem no currículo "O Auto da Compadecida" e "Caramuru", além dos conceituados "Comédias da Vida Privada" e "TV Pirata". Dessa vez a mulher do Caetano bancou a produção e quis fazer um blockbuster brasileiro. Em entrevista, Paula Lavigne diz ficar feliz se conseguir "pelo menos dois milhões de espectadores"...
Ao contrário do que parece, isso não atrapalhou em nada a qualidade do filme. Os atores estão excepcionais, todos eles. Os argumentos, a uma velocidade já característica dos filmes de Guel. Figurinos e trilha sonora feitos sob medida completam a obra-prima. Já vi 3 vezes! (O próximo post será exclusivo sobre Lisbela, quando me alongarei mais sobre o filme)
Logo, é ótimo perceber que o bom cinema nacional ressurgiu de vez, e sem precisar apelar. É disso que o povo gosta, e não das baixarias justificadas por argumento semelhante no horário nobre. O mesmo vale pra Pixar, a verdadeira rainha dos baixinhos. Dêem-nos opções e saberemos escolher a boa parte. Quem tem medo (no caso, de perder audiência) é quem não se garante – e olha que isso a gente aprende no primário...
domingo, 31 de agosto de 2003
Banalizaram o beijo na boca
E o Caetano é um dos culpados. Quando o Tropicalismo já tinha passado do ponto no quesito escândalo, ele e Gil começaram com os hoje famosos "selinhos". Daí não pararam mais, e a especialidade que esse gesto representava esvai-se a cada dia. O interessante é notar que isso é o sintoma de algo mais profundo.
Britney Spears e Madonna são as protagonistas de agora do beijo na boca em público, buscando chocar - mas principalmente buscando manter-se em evidência e produzir factóides que o povo do Rio já conhece muito bem, escolados por Cesar Maia e Garotinho. Não que as ícones pop stars precisem de audiência para além do que fazem na música, mas elas colaboraram para a banalização do beijo na boca da qual estou falando.
Fora a polêmica (premeditada, é óbvio, sabendo que seria extenuamente coberta pela mídia), o que significa aquele beijo das duas? Há pouco Madonna havia esculachado Britney quando esta queria ser uma Madonna um dia. As duas não têm um relacionamento afetivo, não são militantes de nada... Pra que aquele beijo senão pra reafirmar a sociedade do espetáculo na qual estamos inseridos, onde qualquer babaquice produzida por famosos merece divulgação como se fosse utilidade pública?
E banalizam um gesto que - ao menos em nossa cultura ocidental - representa o enlace de amor, a ratificação de que o que existe ali é um namoro e não só amizade. Hoje vivemos assim: o que era especial e reservado para um momento certo é antecipado, banalizado, explorado e, se possível, descartado após o cansaço da ultra-exposição. O beijo na boca é uma das metáforas de nosso contexto. Os sentimentos só ganham valor se a eles forem agregados alguma utilidade ou vantagem a se adquirir.
E assim temos a "indústria romântica", que segue transformando as nobrezas do interior do nosso coração em linha de montagem estúpida. Filmes, literatura, modos de pensar, opiniões formadas... todo o senso comum envolto nessa nova situação.
Contra a banalização do único. Contra o usufruto indevido de gestos significativos demais para serem usados pelos arautos da superficialidade. Chegou a hora de chocar com a simplicidade.
E o Caetano é um dos culpados. Quando o Tropicalismo já tinha passado do ponto no quesito escândalo, ele e Gil começaram com os hoje famosos "selinhos". Daí não pararam mais, e a especialidade que esse gesto representava esvai-se a cada dia. O interessante é notar que isso é o sintoma de algo mais profundo.
Britney Spears e Madonna são as protagonistas de agora do beijo na boca em público, buscando chocar - mas principalmente buscando manter-se em evidência e produzir factóides que o povo do Rio já conhece muito bem, escolados por Cesar Maia e Garotinho. Não que as ícones pop stars precisem de audiência para além do que fazem na música, mas elas colaboraram para a banalização do beijo na boca da qual estou falando.
Fora a polêmica (premeditada, é óbvio, sabendo que seria extenuamente coberta pela mídia), o que significa aquele beijo das duas? Há pouco Madonna havia esculachado Britney quando esta queria ser uma Madonna um dia. As duas não têm um relacionamento afetivo, não são militantes de nada... Pra que aquele beijo senão pra reafirmar a sociedade do espetáculo na qual estamos inseridos, onde qualquer babaquice produzida por famosos merece divulgação como se fosse utilidade pública?
E banalizam um gesto que - ao menos em nossa cultura ocidental - representa o enlace de amor, a ratificação de que o que existe ali é um namoro e não só amizade. Hoje vivemos assim: o que era especial e reservado para um momento certo é antecipado, banalizado, explorado e, se possível, descartado após o cansaço da ultra-exposição. O beijo na boca é uma das metáforas de nosso contexto. Os sentimentos só ganham valor se a eles forem agregados alguma utilidade ou vantagem a se adquirir.
E assim temos a "indústria romântica", que segue transformando as nobrezas do interior do nosso coração em linha de montagem estúpida. Filmes, literatura, modos de pensar, opiniões formadas... todo o senso comum envolto nessa nova situação.
Contra a banalização do único. Contra o usufruto indevido de gestos significativos demais para serem usados pelos arautos da superficialidade. Chegou a hora de chocar com a simplicidade.
sábado, 23 de agosto de 2003
Mídia pubiana
PRIMEIRO PERDÃO: queridos leitores, peço que me desculpem se por vezes este blog possui acidez com freqüência - uma constante raiva expressa por meio do desabafo. Creio que posso parecer um "chato de plantão" se falar sempre no mesmo tom. Peço que compreendam que quase sempre o objetivo destes artigos é que sejam atuais e anti-alienantes. Isso exige que se fale do que está em notícia e que se tente "sacudir" a acomodação que sempre nos ronda. Logo, o contexto é que às vezes não ajuda... Além disso, quando o "sangue sobe" creio que a escrita sai mais fiel.
SEGUNDO PERDÃO: gostaria de falar de algo de mais alto nível, mas a mídia brasileira não me deixa em paz! Clique no GLOBO de hoje: A depilação 'brasileira' que foi parar na Oxford. Como a versão on line não traz a mesma disposição gráfica da impressa, descrevo: mais de 2/4 da página falavam dessa matéria, com uma foto de Gwyneth Paltrow ao centro (vestida, claro!), mais dois boxes (um maior, outro menor) com depoimentos.
Quase como rodapé da página, uma coluninha em que D. Mauro Morelli (recuperando-se de um grave acidente) alerta para a responsabilidade de cada um sobre a fome. Ao lado, em uma coluna menor, a informação sobre o reforço de 5 bi no orçamento da saúde. Mais adiante, em coluna do mesmo tamanho, cinco vereadores de Porto Ferreira (SP), acusados de corrupção, licenciaram-se a fim de não haver quórum para serem cassados.
Como eu posso ficar quieto no meu canto ao me deparar com um crime desses? A mídia, essa empresa privada que presta serviço público (e nos trata como consumidores), investiga mais sobre os pêlos pubianos femininos do que sobre a miséria social e política do Brasil!
Fala-se na "matéria púbica" que o dicionário Oxford classificou um certo tipo de depilação como tipicamente brasileira ("Brazilian wax"). E as partes são ouvidas: uma editora da BBC Brasil, um mestre em lingüística da UFRJ, uma passista, as depiladoras brasileiras de NY, uma escritora norte-americana. Com detalhes físicos e culturais, vão destrinchando (ôpa!) o assunto e informando leitores e leitoras.
Agora, por que um enorme destaque a essa notícia no primeiro caderno, na seção nacional "País"? E por que os demais temas (fome, saúde, corrupção) ficaram subordinados aos diálogos da vagina? E isso no órgão (ôpa!) de informação do Dr. Roberto, o graaaaaaaande jornalista recém-empacotado.
Mais um retrato de a quantas anda a nossa mídia. O pior é que os jornalistas acabam entrando nessas furadas por não terem escolha. São mão-de-obra apenas. Quem decide a ênfase, a tônica, a maneira de abordar, diagramar e publicar são os editores, e daí pra cima.
É essa mídia que tem a oportunidade de mostrar ao brasileiro a realidade social da fome, e ressaltar a luta de um de seus principais combatentes - D. Mauro Morelli, cujo grave acidente não foi capaz de amainar sua mobilização. Mas em uma coluninha?
É essa mídia que tem a oportunidade de esclarecer ao brasileiro se a prioridade a um direito básico - a Saúde - está sendo cumprida pelo Governo. Mas em uma coluninha?
É essa mídia que tem a oportunidade de despertar o brasileiro do "coma político" em que ele adentra depois das eleições, para não dar descanso à classe política no cumprir de seu serviço público. Mas em uma coluninha?
Porém as cercanias do ponto G merecem quase página inteira. E não é na Playboy, e sim num dos maiores jornais do Brasil!
Nunca foi tão ruim ser estudante de jornalismo.
PRIMEIRO PERDÃO: queridos leitores, peço que me desculpem se por vezes este blog possui acidez com freqüência - uma constante raiva expressa por meio do desabafo. Creio que posso parecer um "chato de plantão" se falar sempre no mesmo tom. Peço que compreendam que quase sempre o objetivo destes artigos é que sejam atuais e anti-alienantes. Isso exige que se fale do que está em notícia e que se tente "sacudir" a acomodação que sempre nos ronda. Logo, o contexto é que às vezes não ajuda... Além disso, quando o "sangue sobe" creio que a escrita sai mais fiel.
SEGUNDO PERDÃO: gostaria de falar de algo de mais alto nível, mas a mídia brasileira não me deixa em paz! Clique no GLOBO de hoje: A depilação 'brasileira' que foi parar na Oxford. Como a versão on line não traz a mesma disposição gráfica da impressa, descrevo: mais de 2/4 da página falavam dessa matéria, com uma foto de Gwyneth Paltrow ao centro (vestida, claro!), mais dois boxes (um maior, outro menor) com depoimentos.
Quase como rodapé da página, uma coluninha em que D. Mauro Morelli (recuperando-se de um grave acidente) alerta para a responsabilidade de cada um sobre a fome. Ao lado, em uma coluna menor, a informação sobre o reforço de 5 bi no orçamento da saúde. Mais adiante, em coluna do mesmo tamanho, cinco vereadores de Porto Ferreira (SP), acusados de corrupção, licenciaram-se a fim de não haver quórum para serem cassados.
Como eu posso ficar quieto no meu canto ao me deparar com um crime desses? A mídia, essa empresa privada que presta serviço público (e nos trata como consumidores), investiga mais sobre os pêlos pubianos femininos do que sobre a miséria social e política do Brasil!
Fala-se na "matéria púbica" que o dicionário Oxford classificou um certo tipo de depilação como tipicamente brasileira ("Brazilian wax"). E as partes são ouvidas: uma editora da BBC Brasil, um mestre em lingüística da UFRJ, uma passista, as depiladoras brasileiras de NY, uma escritora norte-americana. Com detalhes físicos e culturais, vão destrinchando (ôpa!) o assunto e informando leitores e leitoras.
Agora, por que um enorme destaque a essa notícia no primeiro caderno, na seção nacional "País"? E por que os demais temas (fome, saúde, corrupção) ficaram subordinados aos diálogos da vagina? E isso no órgão (ôpa!) de informação do Dr. Roberto, o graaaaaaaande jornalista recém-empacotado.
Mais um retrato de a quantas anda a nossa mídia. O pior é que os jornalistas acabam entrando nessas furadas por não terem escolha. São mão-de-obra apenas. Quem decide a ênfase, a tônica, a maneira de abordar, diagramar e publicar são os editores, e daí pra cima.
É essa mídia que tem a oportunidade de mostrar ao brasileiro a realidade social da fome, e ressaltar a luta de um de seus principais combatentes - D. Mauro Morelli, cujo grave acidente não foi capaz de amainar sua mobilização. Mas em uma coluninha?
É essa mídia que tem a oportunidade de esclarecer ao brasileiro se a prioridade a um direito básico - a Saúde - está sendo cumprida pelo Governo. Mas em uma coluninha?
É essa mídia que tem a oportunidade de despertar o brasileiro do "coma político" em que ele adentra depois das eleições, para não dar descanso à classe política no cumprir de seu serviço público. Mas em uma coluninha?
Porém as cercanias do ponto G merecem quase página inteira. E não é na Playboy, e sim num dos maiores jornais do Brasil!
Nunca foi tão ruim ser estudante de jornalismo.
sexta-feira, 22 de agosto de 2003
Preguiça de pensar: o suicídio da democracia
Acompanho a trajetória política do deputado Chico Alencar desde sua gestão à frente da Secretaria Municipal de Educação, no Rio. De lá pra cá, todos os seus mandatos - como vereador, deputado estadual, e agora federal - caracterizaram-se por algo raro na política brasileira: a constante prestação de contas. Malas diretas, informativos, reuniões semanais, encontros em praça pública... Chico Alencar sempre esteve perto de quem o elegeu, sendo inquirido e cobrado, explicando passo a passo seus atos políticos em nome do povo. Sempre, e não apenas em vésperas de eleição.
Há uma semana, Chico foi hostilizado por "manifestantes dos trabalhadores" no Largo de São José, onde presta contas de seu mandato federal. Não teve sequer a chance de discursar, embora tenha feito questão de que os que protestavam falassem. Eles xingaram, gritaram chavões de ordem dignos do século XV. Conversar, discutir idéias? Nada disso. Foram premeditados e decididos à bagunça anti-cidadã. Exerceram a sua "ditadura pessoal" em cima de quem era o menos indicado para ser alvo disso.
(Aliás, parece que a ditadura deixou saudades mesmo. Adoramos um autoritarismo, é venerável puxar saco de algum chefe, buscar "salvadores da pátria" pra nação e assim ter um "homem-forte" pra responder por nós e a quem culpar, pro individual desencargo de consciência. Já dizia Bussunda em 94: "Nesta eleição, os brasileiros vão eleger aquele de quem vão falar mal nos próximos 4 anos!". A ladoreira de Brasília virou folclore, rimos do que nos violenta, num estranho sadomasoquismo autista.)
Chico Alencar está longe disso. Sempre se esforçou, na sua vocação de professor, em ensinar aos eleitores brasileiros o exercício pleno da cidadania por vias democráticas, o voto consciente, a fiscalização dos eleitos. Exige coerência dos eleitores. Exige que lhe exijam coerência, no que faz com prazer e transparência.
Enquanto isso, os verdadeiros obstáculos da democracia riem, sabendo que eles não são incomodados. Afinal, gasta-se energia jogando pedra em vidraças erradas. E os estilhaços vão atingir cada analfabeto político, cada idiota que não se importa com o destino de seu voto ou com o que os eleitos estão fazendo com o dinheiro público, com os destinos do país. Atingirá cada imbecil que pensa que a política é um joguinho de equações reduzidas, e não o lidar com a miscigenada cultura brasileira.
Abaixo, o texto de Chico Alencar sobre o infeliz episódio:
INTOLERÂNCIA DEZ
Nossa prestação de contas semanal no Buraco do Lume - que será feita até o fim do Mandato - ganhou um tom diferente na última sexta feira (15/08). Dirigentes de sindicatos de servidores e militantes do PSTU fizeram lá um protesto contra as mudanças na Previdência. Até aí tudo bem: sempre fomos muito críticos em relação a essa "Reforma" e, por isso, estamos arcando com as conseqüências políticas e disciplinares da nossa posição. Chico e mais dez deputados petistas não deram seu voto ao projeto do nosso Governo - três NÃO, oito ABSTENÇÕES -, descumprindo decisão partidária (o que é sempre sofrido para nós, do PT).
O que causou espanto e alguma indignação foi a forma agressiva como os manifestantes agiram. Muitos não queriam ouvir, e sim gritar e xingar. Revelando desconhecimento do Regimento da Câmara, insistiam em dizer que o voto de Abstenção é o mesmo que Sim, fingindo ignorar que, em Emenda Constitucional, o que conta são 308 votos favoráveis (3/5 do total), sendo qualquer outra atitude contrária à proposta, como destacou o Presidente Genoíno, tentando nos enquadrar no SIM.
Imaginem se no Lume estivesse, por exemplo, o grande Luís Fernando Veríssimo, que em sua coluna do O GLOBO (17/08) disse que a Reforma da Previdência tem "erros e acertos". Provavelmente seria linchado! Quem não distingue os verdadeiros adversários parece querer fazer disputa política menor: faturar com as reais contradições do PT e desgastar a esquerda partidária, "para tomar suas bases". É inadmissível que pessoas da trajetória de um Milton Temer sejam ofendidas. "Botar no poste os traidores", que são todos os que não votaram exatamente do jeito que alguns determinaram, alardeado como o único correto, no velho estilo do dogmatismo medieval ou do stalinismo, só serve para quem é sectário. Enquanto isso o PFL aplaude, a direita sorri. Tomara que os sindicatos não entrem nessa rota estreita e infantil.
Acompanho a trajetória política do deputado Chico Alencar desde sua gestão à frente da Secretaria Municipal de Educação, no Rio. De lá pra cá, todos os seus mandatos - como vereador, deputado estadual, e agora federal - caracterizaram-se por algo raro na política brasileira: a constante prestação de contas. Malas diretas, informativos, reuniões semanais, encontros em praça pública... Chico Alencar sempre esteve perto de quem o elegeu, sendo inquirido e cobrado, explicando passo a passo seus atos políticos em nome do povo. Sempre, e não apenas em vésperas de eleição.
Há uma semana, Chico foi hostilizado por "manifestantes dos trabalhadores" no Largo de São José, onde presta contas de seu mandato federal. Não teve sequer a chance de discursar, embora tenha feito questão de que os que protestavam falassem. Eles xingaram, gritaram chavões de ordem dignos do século XV. Conversar, discutir idéias? Nada disso. Foram premeditados e decididos à bagunça anti-cidadã. Exerceram a sua "ditadura pessoal" em cima de quem era o menos indicado para ser alvo disso.
(Aliás, parece que a ditadura deixou saudades mesmo. Adoramos um autoritarismo, é venerável puxar saco de algum chefe, buscar "salvadores da pátria" pra nação e assim ter um "homem-forte" pra responder por nós e a quem culpar, pro individual desencargo de consciência. Já dizia Bussunda em 94: "Nesta eleição, os brasileiros vão eleger aquele de quem vão falar mal nos próximos 4 anos!". A ladoreira de Brasília virou folclore, rimos do que nos violenta, num estranho sadomasoquismo autista.)
Chico Alencar está longe disso. Sempre se esforçou, na sua vocação de professor, em ensinar aos eleitores brasileiros o exercício pleno da cidadania por vias democráticas, o voto consciente, a fiscalização dos eleitos. Exige coerência dos eleitores. Exige que lhe exijam coerência, no que faz com prazer e transparência.
Enquanto isso, os verdadeiros obstáculos da democracia riem, sabendo que eles não são incomodados. Afinal, gasta-se energia jogando pedra em vidraças erradas. E os estilhaços vão atingir cada analfabeto político, cada idiota que não se importa com o destino de seu voto ou com o que os eleitos estão fazendo com o dinheiro público, com os destinos do país. Atingirá cada imbecil que pensa que a política é um joguinho de equações reduzidas, e não o lidar com a miscigenada cultura brasileira.
Abaixo, o texto de Chico Alencar sobre o infeliz episódio:
INTOLERÂNCIA DEZ
Nossa prestação de contas semanal no Buraco do Lume - que será feita até o fim do Mandato - ganhou um tom diferente na última sexta feira (15/08). Dirigentes de sindicatos de servidores e militantes do PSTU fizeram lá um protesto contra as mudanças na Previdência. Até aí tudo bem: sempre fomos muito críticos em relação a essa "Reforma" e, por isso, estamos arcando com as conseqüências políticas e disciplinares da nossa posição. Chico e mais dez deputados petistas não deram seu voto ao projeto do nosso Governo - três NÃO, oito ABSTENÇÕES -, descumprindo decisão partidária (o que é sempre sofrido para nós, do PT).
O que causou espanto e alguma indignação foi a forma agressiva como os manifestantes agiram. Muitos não queriam ouvir, e sim gritar e xingar. Revelando desconhecimento do Regimento da Câmara, insistiam em dizer que o voto de Abstenção é o mesmo que Sim, fingindo ignorar que, em Emenda Constitucional, o que conta são 308 votos favoráveis (3/5 do total), sendo qualquer outra atitude contrária à proposta, como destacou o Presidente Genoíno, tentando nos enquadrar no SIM.
Imaginem se no Lume estivesse, por exemplo, o grande Luís Fernando Veríssimo, que em sua coluna do O GLOBO (17/08) disse que a Reforma da Previdência tem "erros e acertos". Provavelmente seria linchado! Quem não distingue os verdadeiros adversários parece querer fazer disputa política menor: faturar com as reais contradições do PT e desgastar a esquerda partidária, "para tomar suas bases". É inadmissível que pessoas da trajetória de um Milton Temer sejam ofendidas. "Botar no poste os traidores", que são todos os que não votaram exatamente do jeito que alguns determinaram, alardeado como o único correto, no velho estilo do dogmatismo medieval ou do stalinismo, só serve para quem é sectário. Enquanto isso o PFL aplaude, a direita sorri. Tomara que os sindicatos não entrem nessa rota estreita e infantil.
sábado, 16 de agosto de 2003
Assim eles vivem
Na última quinta-feira pude conferir outra ótima mostra de cinema no CCBB. Era o festival alemão "Assim Vivemos", uma série de documentários, animações e até filmes de ficção sobre o mundo dos portadores de deficiência. Para minha alegria, só documentários foram exibidos nesse dia. Quem assistiu às três produções da tarde saiu de lá enriquecido humanamente.
Criaturas que nascem em segredo é um filme brasileiro sobre nanismo, com vários depoimentos. Um casal de anões no qual a esposa nunca quis namorar um deles, até conhecer o marido - com o qual vive até hoje e teve duas filhas sem a disfunção. Suas falas são hilárias, como a do pai agradecendo a Deus pelas meninas nunca pedirem colo; ou ambos explicando que as filhas, ao crescerem, usavam os móveis e apetrechos dos pais para brincar de casinha. Outros anões contam sua experiência de vida, relatando problemas e preconceitos a serem vencidos até hoje, como: rejeição ou vergonha dos pais (a ponto de, quando crianças, não poderem sair de casa); gozações diárias, a dificuldade em serem aceitos pelo sexo oposto ou no mercado de trabalho. O filme ainda informa que, antigamente, não restava aos anões opções senão o circo ou uma assumida condição de exclusão pública, social, emocional, familiar. Apenas porque nasceram menores que a média.
Minha solidão, sua solidão mostra um dia na vida de um polonês que provavelmente tem paralisia cerebral (isso não é explicado, mas o cara parece o personagem do filme "Meu Pé Esquerdo", com Daniel Day-Lewis). Sempre na cadeira de rodas, membros atrofiados e dificuldade para falar, ele se desloca para o trabalho e demais atividades externas com determinação. Só aceita ajuda em situações que não lhe deixam opção, como ser colocado na cadeira ou vestir-se. No mais, o cara é um jornalista que entrevista as pessoas sabe como? Leva o gravador no colo e uma lista de perguntas para a pessoa. Depois, ouve pausadamente as partes da entrevista e as digita... com o nariz! (Estou digitando essa frase com o meu só pra sentir como é.) E são artigos imensos, a ponto dos editores pedirem para que ele seja mais breve. Ainda são mostradas, quase sem cortes, cenas de suas conversas com uma amiga, sua alimentação e a hora de ir dormir. Um ritmo lento que faz com que nós, espectadores, nos cansemos. Até lembrarmos que o cara enfrenta isso 24 horas por dia...
Minha mãe é uma rainha, graças a Deus, é um documentário. Se fosse ficção, dúvidas iriam pairar sobre sua veracidade, ainda que cravassem o bordão "baseado em fatos reais". Talvez até forjasse maldosas opiniões sobre os escrúpulos do roteirista. É a história de um casal onde a mulher é deficiente física. No que pude perceber, não possui movimentos da cintura pra baixo e tem as mãos atrofiadas. Pois um homem sem nenhum tipo de deficiência se apaixonou por ela, no que foi correspondido. Os dois "abrem o jogo", falando até dos assuntos mais íntimos do casal, como sexo e perguntas sobre a origem dos sentimentos de um pelo outro. Eles têm uma filha, e a mãe deficiente faz desenhos artísticos a lápis... com a boca, que são vendidos para ajudar na renda familiar.
Creio que um dos objetivos de tais filmes é demonstrar que qualquer deficiente, por mais difícil que seja seu problema, pode levar uma vida "normal" (usar essa definição até perde o sentido). É claro que todos eles (à exceção dos anões) possuíam apoio de entidades e condições financeiras para seus equipamentos e estilos de vida. Ainda assim, é deslumbrante acompanhar seus relatos, perceber que eles se aceitam como são. E uma questão à qual estou sendo levado mais uma vez: como preconceitos podem ser tão subjetivos em nós, a ponto de não percebermos que temos opinião formada e tendência comportamental em relação a pessoas que já sofrem por ser diferentes. Isso é cruel.
Ao mesmo tempo, é inevitável sentir-se bem por não ser deficiente. Mas ainda assim, questionar por que somos tão insatisfeitos com o que somos, às vezes inquiridores demais da Providência Divina com os rumos de nossa vida. Ou com a qualidade de nossos contornos em um mundo consumista e descartável, publicista da vaidade como virtude inquestionável, formando adoradores do corpo perfeito nunca atingível, criadores de culpas e terrores emocionais. Assim vivemos.
Na última quinta-feira pude conferir outra ótima mostra de cinema no CCBB. Era o festival alemão "Assim Vivemos", uma série de documentários, animações e até filmes de ficção sobre o mundo dos portadores de deficiência. Para minha alegria, só documentários foram exibidos nesse dia. Quem assistiu às três produções da tarde saiu de lá enriquecido humanamente.
Criaturas que nascem em segredo é um filme brasileiro sobre nanismo, com vários depoimentos. Um casal de anões no qual a esposa nunca quis namorar um deles, até conhecer o marido - com o qual vive até hoje e teve duas filhas sem a disfunção. Suas falas são hilárias, como a do pai agradecendo a Deus pelas meninas nunca pedirem colo; ou ambos explicando que as filhas, ao crescerem, usavam os móveis e apetrechos dos pais para brincar de casinha. Outros anões contam sua experiência de vida, relatando problemas e preconceitos a serem vencidos até hoje, como: rejeição ou vergonha dos pais (a ponto de, quando crianças, não poderem sair de casa); gozações diárias, a dificuldade em serem aceitos pelo sexo oposto ou no mercado de trabalho. O filme ainda informa que, antigamente, não restava aos anões opções senão o circo ou uma assumida condição de exclusão pública, social, emocional, familiar. Apenas porque nasceram menores que a média.
Minha solidão, sua solidão mostra um dia na vida de um polonês que provavelmente tem paralisia cerebral (isso não é explicado, mas o cara parece o personagem do filme "Meu Pé Esquerdo", com Daniel Day-Lewis). Sempre na cadeira de rodas, membros atrofiados e dificuldade para falar, ele se desloca para o trabalho e demais atividades externas com determinação. Só aceita ajuda em situações que não lhe deixam opção, como ser colocado na cadeira ou vestir-se. No mais, o cara é um jornalista que entrevista as pessoas sabe como? Leva o gravador no colo e uma lista de perguntas para a pessoa. Depois, ouve pausadamente as partes da entrevista e as digita... com o nariz! (Estou digitando essa frase com o meu só pra sentir como é.) E são artigos imensos, a ponto dos editores pedirem para que ele seja mais breve. Ainda são mostradas, quase sem cortes, cenas de suas conversas com uma amiga, sua alimentação e a hora de ir dormir. Um ritmo lento que faz com que nós, espectadores, nos cansemos. Até lembrarmos que o cara enfrenta isso 24 horas por dia...
Minha mãe é uma rainha, graças a Deus, é um documentário. Se fosse ficção, dúvidas iriam pairar sobre sua veracidade, ainda que cravassem o bordão "baseado em fatos reais". Talvez até forjasse maldosas opiniões sobre os escrúpulos do roteirista. É a história de um casal onde a mulher é deficiente física. No que pude perceber, não possui movimentos da cintura pra baixo e tem as mãos atrofiadas. Pois um homem sem nenhum tipo de deficiência se apaixonou por ela, no que foi correspondido. Os dois "abrem o jogo", falando até dos assuntos mais íntimos do casal, como sexo e perguntas sobre a origem dos sentimentos de um pelo outro. Eles têm uma filha, e a mãe deficiente faz desenhos artísticos a lápis... com a boca, que são vendidos para ajudar na renda familiar.
Creio que um dos objetivos de tais filmes é demonstrar que qualquer deficiente, por mais difícil que seja seu problema, pode levar uma vida "normal" (usar essa definição até perde o sentido). É claro que todos eles (à exceção dos anões) possuíam apoio de entidades e condições financeiras para seus equipamentos e estilos de vida. Ainda assim, é deslumbrante acompanhar seus relatos, perceber que eles se aceitam como são. E uma questão à qual estou sendo levado mais uma vez: como preconceitos podem ser tão subjetivos em nós, a ponto de não percebermos que temos opinião formada e tendência comportamental em relação a pessoas que já sofrem por ser diferentes. Isso é cruel.
Ao mesmo tempo, é inevitável sentir-se bem por não ser deficiente. Mas ainda assim, questionar por que somos tão insatisfeitos com o que somos, às vezes inquiridores demais da Providência Divina com os rumos de nossa vida. Ou com a qualidade de nossos contornos em um mundo consumista e descartável, publicista da vaidade como virtude inquestionável, formando adoradores do corpo perfeito nunca atingível, criadores de culpas e terrores emocionais. Assim vivemos.
terça-feira, 12 de agosto de 2003
Não sabe brincar... não brinca?
Mais um acontecimento ridículo a ganhar primeira página, manchete garrafal e ampla cobertura de nossa mídia: Estudante joga galinha preta em Marta Suplicy. Ela discursava no Centro Acadêmico XI de agosto, na faculdade de direito da USP - um santuário das manifestações democráticas estudantis desde o Estado Novo. Em meio ao discurso, a fêmea galinácea foi aos pés da mãe do Supla.
A prefeita permitiu que o "atirador" fizesse seu protesto ali do palanque, como que dizendo que democracia era o que ela fazia, não ele. Uma moça (provavelmente sua assessora) arrancou o microfone do rapaz depois de algumas palavras e virou-se com ar sério para Marta, como se dissesse: "Assim já e demais, né, chefe?". Os detalhes da cena eu não li, assisti no Jornal da Band.
Mais um acontecimento ridículo que traz sérias observações sobre nossa democracia e senso de cidadania.
Tanto da parte do jovem como da experiente política Marta Suplicy foi demonstrado que nós, brasileiros (e os políticos que elegemos), ainda não sabemos lidar com preciosidades como democracia e liberdade de expressão. E por não sabermos lidar, não temos paciência pra aprender. Acabamos achando que o erro está nas preciosidades, não nos seus manuseadores pseudo-garimpeiros.
Não sei qual era a real intenção do rapaz, mas quem iria levar a sério aquele protesto? Quando que atirar uma galinha contra a prefeita pode ser encarado como "oposição construtiva"? O que ele quis dizer, afinal? O próprio fez questão de nos esclarecer: "A Marta é um caso que se resolve só com despacho". Puxa, que resposta original! Que sacada genial! Além disso, que mais? Mais nada. Só um "faz-me rir" pro pão e circo cotidiano-midiático.
E Marta Suplicy? Que necessidade havia de dar voz, audiência e visibilidade a um protesto digno do Programa do Ratinho? E ainda ficar ali do lado, agüentando (e fazendo os demais presentes agüentarem junto) as "propostas" do atirador de aves? A ponto de uma assessora ter que cortar o clima constrangedor e, pelo que a TV mostrou, passar um pito na prefeita.
A liberdade de expressão é uma faca de dois gumes que requer técnica apurada para utilizá-la, se quisermos utilizá-la de maneira a contribuir para a democracia. O jovem desperdiçou a oportunidade do protesto, tacou a galinha e ficou surpreso ao ser recompensado por isso. Marta desperdiçou a oportunidade de valorizar protestos legítimos e feitos por gente que leva esse direito a sério - que não era o caso do jovem.
E a mídia dá destaque, a gente acha ridículo (com razão, embora mais ridículo seja o destaque da mídia) e acha que política é isso aí: um bando de malucos tentando sempre garantir o seu, com o bom senso mandando lembrança. Eu vou lá me importar com isso? Eu vou lá me importar com voto, eleição, fiscalização dos eleitos? Pra ver prefeita x galinha? E tem mais: pra mim, liberdade de expressão, só pra ver mulher pelada na telinha!
E aí não nos preocupamos com a qualidade da cobertura dos jornais, com a responsabilidade dos políticos, com as sutis manipulações da opinião pública. Ou pior: chegamos a nos preocupar, mas não estamos nem aí pra mudar a situação, pra perceber no que somos responsáveis (a começar pelo voto). Deixa rolar, não é comigo mesmo. Ô individualismo anestésico e suicida...
Se não tivermos disposição em nos aperfeiçoarmos no exercício democrático e no devido uso da liberdade de expressão - sendo críticos na avaliação dos meios de comunicação e da classe política - vale o ditado: não sabe brincar, não brinca. Mas e se brincarem pela gente?
Mais um acontecimento ridículo a ganhar primeira página, manchete garrafal e ampla cobertura de nossa mídia: Estudante joga galinha preta em Marta Suplicy. Ela discursava no Centro Acadêmico XI de agosto, na faculdade de direito da USP - um santuário das manifestações democráticas estudantis desde o Estado Novo. Em meio ao discurso, a fêmea galinácea foi aos pés da mãe do Supla.
A prefeita permitiu que o "atirador" fizesse seu protesto ali do palanque, como que dizendo que democracia era o que ela fazia, não ele. Uma moça (provavelmente sua assessora) arrancou o microfone do rapaz depois de algumas palavras e virou-se com ar sério para Marta, como se dissesse: "Assim já e demais, né, chefe?". Os detalhes da cena eu não li, assisti no Jornal da Band.
Mais um acontecimento ridículo que traz sérias observações sobre nossa democracia e senso de cidadania.
Tanto da parte do jovem como da experiente política Marta Suplicy foi demonstrado que nós, brasileiros (e os políticos que elegemos), ainda não sabemos lidar com preciosidades como democracia e liberdade de expressão. E por não sabermos lidar, não temos paciência pra aprender. Acabamos achando que o erro está nas preciosidades, não nos seus manuseadores pseudo-garimpeiros.
Não sei qual era a real intenção do rapaz, mas quem iria levar a sério aquele protesto? Quando que atirar uma galinha contra a prefeita pode ser encarado como "oposição construtiva"? O que ele quis dizer, afinal? O próprio fez questão de nos esclarecer: "A Marta é um caso que se resolve só com despacho". Puxa, que resposta original! Que sacada genial! Além disso, que mais? Mais nada. Só um "faz-me rir" pro pão e circo cotidiano-midiático.
E Marta Suplicy? Que necessidade havia de dar voz, audiência e visibilidade a um protesto digno do Programa do Ratinho? E ainda ficar ali do lado, agüentando (e fazendo os demais presentes agüentarem junto) as "propostas" do atirador de aves? A ponto de uma assessora ter que cortar o clima constrangedor e, pelo que a TV mostrou, passar um pito na prefeita.
A liberdade de expressão é uma faca de dois gumes que requer técnica apurada para utilizá-la, se quisermos utilizá-la de maneira a contribuir para a democracia. O jovem desperdiçou a oportunidade do protesto, tacou a galinha e ficou surpreso ao ser recompensado por isso. Marta desperdiçou a oportunidade de valorizar protestos legítimos e feitos por gente que leva esse direito a sério - que não era o caso do jovem.
E a mídia dá destaque, a gente acha ridículo (com razão, embora mais ridículo seja o destaque da mídia) e acha que política é isso aí: um bando de malucos tentando sempre garantir o seu, com o bom senso mandando lembrança. Eu vou lá me importar com isso? Eu vou lá me importar com voto, eleição, fiscalização dos eleitos? Pra ver prefeita x galinha? E tem mais: pra mim, liberdade de expressão, só pra ver mulher pelada na telinha!
E aí não nos preocupamos com a qualidade da cobertura dos jornais, com a responsabilidade dos políticos, com as sutis manipulações da opinião pública. Ou pior: chegamos a nos preocupar, mas não estamos nem aí pra mudar a situação, pra perceber no que somos responsáveis (a começar pelo voto). Deixa rolar, não é comigo mesmo. Ô individualismo anestésico e suicida...
Se não tivermos disposição em nos aperfeiçoarmos no exercício democrático e no devido uso da liberdade de expressão - sendo críticos na avaliação dos meios de comunicação e da classe política - vale o ditado: não sabe brincar, não brinca. Mas e se brincarem pela gente?
domingo, 10 de agosto de 2003
A morte absolve
Vão me chamar de insensível ou de politicamente incorreto por abordar este assunto logo após a morte de Roberto Marinho. Mas como este blog será um dos poucos (senão o único) veículos de comunicação a falar disso, vou em frente. Impressiona a capacidade da morte em absolver as pessoas, ou ao menos atenuar seu histórico.
O patriarca das Organizações Globo é tratado como jornalista, não empresário; como alguém que apostou no Brasil, que amou o país; alguém que sempre valorizou a cultura; que achava que o jornal deveria tomar posições políticas; etc e tal. E isso não apenas nas palavras de seu conglomerado, mas de concorrentes históricos e até mesmo de desafetos correntes (Brizola chamando Marinho de "adversário cortês" é um insulto a minha inteligência).
As homenagens a Roberto Marinho são capitalizadas ao extremo pela Globo (talvez saia do ameaçador abismo do "vermelho" em suas contas por um tempo). E, com a competência de sempre, inculcam nas mentes de milhões de brasileiros a magnânima figura do patriarca. Parece um herói que conta apenas com virtudes, que colaborou apenas para o bom serviço do país.
Será apagada da nossa memória a conivência da Globo com a ditadura; a teimosia em não cobrir o movimento "Diretas Já", até o povo gritar nas imagens de outros canais "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo". Também esqueceremos da edição do debate final entre Collor e Lula, decisivo para as urnas (mais a edição que o debate) para isso, aceitaremos a desculpa de Dr. Roberto, dizendo que "se equivocou" ao apoiar Jânio e Collor. Pequenos equívocos daquele que pouco poder possuía, do tipo que recebia candidatos a presidência em época de eleições para "conversas amenas".
Esqueceremos do monopólio da Rede Globo (99% do território nacional em transmissão), suprimindo as produções regionais e praticando "canibalismo" com os demais canais, tirando seus expoentes para "domesticá-los" no Jardim Botânico. Esqueceremos da censura ao documentário Muito Além do Cidadão Kane, da BBC de Londres, que tratava dos escândalos escondidos da Globo, bem como seus prejuízos para a sociedade. Um vídeo que contribuiria para o esclarecimento dos cidadãos, um princípio sempre apregoado pela ilibada carreira do Dr. Roberto.
O que vai ficar é o lema da Fundação Roberto Marinho: Educação é tudo. A mesma fonte que professa tal lema é a que nos traz loiras alienantes de crianças; que produz o raso e sempre tendencioso jornalismo na hora do jantar; que pela teledramaturgia explorou a situação difícil em que artistas perseguidos pela ditadura se encontravam na década de 70 (sem emprego) para dali sedimentar sua ideologia, sutilmente manipuladora de consciências. (Boni diz que a TV não tem a capacidade de mudar comportamentos. Outro insulto a minha inteligência)
A história, em nossa "Idade Mídia", como diz Ramonet, será contada com a cômoda comoção que a morte proporciona para tal objetivo. É preciso respeito ao luto, à família, ao protocolo, à memória. Agora não é hora para questionamentos sobre o legado. Nunca vai ser a hora para pensar se Dr. Roberto apostou tanto ou amou tanto o país como se diz. Se não amou mais seu poder consolidado em influenciar os destinos desse país em questão.
O luto oficial é de três dias. O luto de se enxergar os meios de comunicação como espaços democráticos e transparentes, esse, paradoxalmente, está mais vivo do que nunca. Parabéns, Dr. Roberto.
Vão me chamar de insensível ou de politicamente incorreto por abordar este assunto logo após a morte de Roberto Marinho. Mas como este blog será um dos poucos (senão o único) veículos de comunicação a falar disso, vou em frente. Impressiona a capacidade da morte em absolver as pessoas, ou ao menos atenuar seu histórico.
O patriarca das Organizações Globo é tratado como jornalista, não empresário; como alguém que apostou no Brasil, que amou o país; alguém que sempre valorizou a cultura; que achava que o jornal deveria tomar posições políticas; etc e tal. E isso não apenas nas palavras de seu conglomerado, mas de concorrentes históricos e até mesmo de desafetos correntes (Brizola chamando Marinho de "adversário cortês" é um insulto a minha inteligência).
As homenagens a Roberto Marinho são capitalizadas ao extremo pela Globo (talvez saia do ameaçador abismo do "vermelho" em suas contas por um tempo). E, com a competência de sempre, inculcam nas mentes de milhões de brasileiros a magnânima figura do patriarca. Parece um herói que conta apenas com virtudes, que colaborou apenas para o bom serviço do país.
Será apagada da nossa memória a conivência da Globo com a ditadura; a teimosia em não cobrir o movimento "Diretas Já", até o povo gritar nas imagens de outros canais "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo". Também esqueceremos da edição do debate final entre Collor e Lula, decisivo para as urnas (mais a edição que o debate) para isso, aceitaremos a desculpa de Dr. Roberto, dizendo que "se equivocou" ao apoiar Jânio e Collor. Pequenos equívocos daquele que pouco poder possuía, do tipo que recebia candidatos a presidência em época de eleições para "conversas amenas".
Esqueceremos do monopólio da Rede Globo (99% do território nacional em transmissão), suprimindo as produções regionais e praticando "canibalismo" com os demais canais, tirando seus expoentes para "domesticá-los" no Jardim Botânico. Esqueceremos da censura ao documentário Muito Além do Cidadão Kane, da BBC de Londres, que tratava dos escândalos escondidos da Globo, bem como seus prejuízos para a sociedade. Um vídeo que contribuiria para o esclarecimento dos cidadãos, um princípio sempre apregoado pela ilibada carreira do Dr. Roberto.
O que vai ficar é o lema da Fundação Roberto Marinho: Educação é tudo. A mesma fonte que professa tal lema é a que nos traz loiras alienantes de crianças; que produz o raso e sempre tendencioso jornalismo na hora do jantar; que pela teledramaturgia explorou a situação difícil em que artistas perseguidos pela ditadura se encontravam na década de 70 (sem emprego) para dali sedimentar sua ideologia, sutilmente manipuladora de consciências. (Boni diz que a TV não tem a capacidade de mudar comportamentos. Outro insulto a minha inteligência)
A história, em nossa "Idade Mídia", como diz Ramonet, será contada com a cômoda comoção que a morte proporciona para tal objetivo. É preciso respeito ao luto, à família, ao protocolo, à memória. Agora não é hora para questionamentos sobre o legado. Nunca vai ser a hora para pensar se Dr. Roberto apostou tanto ou amou tanto o país como se diz. Se não amou mais seu poder consolidado em influenciar os destinos desse país em questão.
O luto oficial é de três dias. O luto de se enxergar os meios de comunicação como espaços democráticos e transparentes, esse, paradoxalmente, está mais vivo do que nunca. Parabéns, Dr. Roberto.
quinta-feira, 7 de agosto de 2003
Um justo reconhecimento
É hora de falar de alguns links que coloquei aí do lado... A começar pelos mais importantes: MEUS AMIGOS BLOGUEIROS. Se você nunca se aventurou pelo mundo deles, talvez mude de idéia depois das opiniões abaixo:
INFINITAMENTE MAIOR QUE EU é o blog da minha queridíssima amiga Isabelle, futura formanda de jornalismo e cinema na UFF. A PoetIsa é escritora por vocação e sempre publica ali seus poemas e/ou crônicas. Mas o que gosto mesmo é a capacidade da autora em descrever seu dia e demais situações vividas em textos que não se enquadram em nenhum estilo literário - saindo-se originais - e cheios de sensibilidade, metáforas sobre a vida e o sinuoso caminho do escritor. Em breve, Isa vai publicar trechos de seu romance no blog. É isso mesmo: ela já escreveu um romance! Além de tudo, é precoce.
LANCHES é um blog que já agrada pelo diferente nome e pelo visual: uma clássica toalha de mesa quadriculada (como nas cantinas italianas, ou: a que parece a camisa da seleção da Croácia), um cardápio com demais opções blogueiras logo ao lado e criatividade nos posts e demais gráficos. Feito por Ivan Franklin e Adriano, que é meu colega de UFF e filho do Robertinho do Recife! O cara tem cultura no sangue. Pode estar certo que assuntos do dia ou da semana serão "cozinhados" por eles. E você pode "cozinhar" também!
ACROSS MY UNIVERSE é feito por uma boa parcela da inteligência brasileira: Louise Araújo. Eclética e polivalente, ela aborda com ótimas sacadas todo tipo de assunto, sempre linkando seus posts para que a fonte das discussões seja consultada. (Exemplo: se vai falar a partir de uma matéria ou notícia, no próprio post podemos ler a tal matéria ou notícia) Acho ótimo, é formadora de opinião que ajuda a formar formadores de opinião. Mérito da beatlemaníaca!
(IN)TENSO é o blog de um marcante amigo, Henrique Blecher. Outro escritor por vocação, que só agora descobriu que o blog é um "jardim" ideal para desabafar, publicar e compartilhar seu talento literário e suas idéias e ideais. Sente-se à vontade na poesia, deixando os leitores com a mesma sensação. E ainda comenta o que vem lendo e assistindo, o cinéfilo. Externamente e internamente, só alta qualidade produzida diariamente. Imperdível!
Que qui tu tá esperando?????
É hora de falar de alguns links que coloquei aí do lado... A começar pelos mais importantes: MEUS AMIGOS BLOGUEIROS. Se você nunca se aventurou pelo mundo deles, talvez mude de idéia depois das opiniões abaixo:
INFINITAMENTE MAIOR QUE EU é o blog da minha queridíssima amiga Isabelle, futura formanda de jornalismo e cinema na UFF. A PoetIsa é escritora por vocação e sempre publica ali seus poemas e/ou crônicas. Mas o que gosto mesmo é a capacidade da autora em descrever seu dia e demais situações vividas em textos que não se enquadram em nenhum estilo literário - saindo-se originais - e cheios de sensibilidade, metáforas sobre a vida e o sinuoso caminho do escritor. Em breve, Isa vai publicar trechos de seu romance no blog. É isso mesmo: ela já escreveu um romance! Além de tudo, é precoce.
LANCHES é um blog que já agrada pelo diferente nome e pelo visual: uma clássica toalha de mesa quadriculada (como nas cantinas italianas, ou: a que parece a camisa da seleção da Croácia), um cardápio com demais opções blogueiras logo ao lado e criatividade nos posts e demais gráficos. Feito por Ivan Franklin e Adriano, que é meu colega de UFF e filho do Robertinho do Recife! O cara tem cultura no sangue. Pode estar certo que assuntos do dia ou da semana serão "cozinhados" por eles. E você pode "cozinhar" também!
ACROSS MY UNIVERSE é feito por uma boa parcela da inteligência brasileira: Louise Araújo. Eclética e polivalente, ela aborda com ótimas sacadas todo tipo de assunto, sempre linkando seus posts para que a fonte das discussões seja consultada. (Exemplo: se vai falar a partir de uma matéria ou notícia, no próprio post podemos ler a tal matéria ou notícia) Acho ótimo, é formadora de opinião que ajuda a formar formadores de opinião. Mérito da beatlemaníaca!
(IN)TENSO é o blog de um marcante amigo, Henrique Blecher. Outro escritor por vocação, que só agora descobriu que o blog é um "jardim" ideal para desabafar, publicar e compartilhar seu talento literário e suas idéias e ideais. Sente-se à vontade na poesia, deixando os leitores com a mesma sensação. E ainda comenta o que vem lendo e assistindo, o cinéfilo. Externamente e internamente, só alta qualidade produzida diariamente. Imperdível!
Que qui tu tá esperando?????
Assinar:
Postagens (Atom)