
sexta-feira, 20 de julho de 2007

quinta-feira, 19 de julho de 2007
sexta-feira, 6 de julho de 2007

domingo, 1 de julho de 2007

Robinho, magrelinho daquele jeito, nem chutar forte ele sabe, jogando sozinho - porque ele jogava bem, ao contrário do resto da seleção - fez o que fez, aos 41 minutos do 2º tempo. Pulmão o garoto tem, de correr aquilo tudo, dar um drible "da vaca" num zagueiro, depois um drible curtinho em outro (o famoso "come" das peladas), sempre correndo, ninguém pega, o chute de perna esquerda (ele é destro) e o golaço, golaço, golaço.
Taí a contribuição do preparo físico: ser suporte do talento. O primeiro qualquer um consegue, o segundo é genético. Mas como tudo na vida, o talento pode ser tolhido pelas instâncias de poder (técnicos), pela força bruta (brucutus que só entram em campo pra fazer falta e bater, bater, bater) e rarear. Isso tem acontecido no Brasil desde cedo, e Robinho é jóia rara por ter vencido tudo isso, desde as divisões de base - porque lá o garoto, nos seus 10, 11 anos, já sabe que tem que ter força física, "matar a jogada", perde o aspecto lúdico do futebol. A diversão que quando bem executada, leva o craque à glória máxima: o gol! E com o gol, a vitória, o resultado.
Futebol bonito pode ser futebol de resultado, nessa ordem. Se você discorda, cale a boca depois do gol de Robinho. Cale a boca, meu camarada, depois de Robinho aparecer nessa insossa seleção brasileira de Dunga (que nunca foi craque, nem técnico - com duplo sentido, por favor). Pois o time não faz nada de bom, e ele teve que resolver sozinho. Opa, sozinho não: com talento que ele tem e não abre mão na hora de jogar profissionalmente.
Talento por si só não leva a lugar nenhum? Pois levou a bola no fundo do gol três vezes hoje, mas na terceira ele humilhou você, meu camarada, que acha que jogar sério é destruir jogada, bloquear ataque, vencer por 1x0 ou nos pênaltis e achar que teve um "orgasmo futebolístico". Você não teve nada, meu caro, principalmente porque pensando assim, você nunca fica na expectativa de que Robinho faça o que fez no terceiro gol, e quando acontece, você não sabe desfrutar da delícia que é um golaço, golaço, golaço.
Então façam-me o favor: me esqueçam se forem comentar algo que não seja o terceiro gol de Robinho hoje, ou algo similar. Porque o que é raro porém resistente deve ser celebrado continuamente, em lugar de intermináveis mesas-redondas sobre "nó tático", defesa fechada, recuar pra jogar no contra-ataque. Olha o nome: CONTRA-ataque!!! A gente tem que falar do terceiro gol de Robinho, dos dribles de Robinho, dos golaços de Robinho, do talento puro e simples, genial, diante do deserto de criatividade que se instalou atualmente na seleção brasileira - e até em outras seleções, como se viu na Copa de 2006. Ah, e Robinho ficou no banco nessa Copa. Tá explicado.
Calem a boca.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Em resposta ao post anterior (Começando pelo motorista), meu amigo André Aureliano respondeu com um texto jocoso, mencionando até o filho Samuel, recém-nascido. Apreciem:
"Saudoso amigo Marcos. Venho por meio deste emeio para:
1. Comentar o seu blog;
2. Só isso.
Pois bem. Ao receber tão inusitado emeio convidando-me a visitar seu blog, de pronto cliquei no link indicado. Ato contínuo abriu-se magicamente uma outra janela onde pude ler: lessa27. (A propósito, um nome mais simples, apropriado e adequado do que o antigo Lessog. Era interessante, mas esquisito. Prefiro Lessa27. Parabéns pela escolha.) Se fosse escrever uma redação do tipo "minhas férias", eu apontaria como tema principal o fragmento de teu texto que refere-se ao sinal feito com o polegar em riste clamando ao motorista para que lhe permitisse a entrada pronunciando a mui jocosa expressão: "Na moral". Sou grato por me fazer sorrir imaginando a impagável cena. Muito divertida por sinal. O restante do texto foi também muito interessante, mas nada se comparou ao na moral.
Teu texto foi um texto na moral.
P.S. O Samuel vai bem, cresce e mama na moral.
Amplexos constrictos do teu irmão.
André"
OBS: Ao lado, André ninando Samuel... na moral.
terça-feira, 12 de junho de 2007

(OBS: A charge acima é do gênio Henfil.)
quarta-feira, 6 de junho de 2007
sexta-feira, 1 de junho de 2007
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?
(Renato Russo)
sexta-feira, 25 de maio de 2007
A Câmara Municipal aprovou na terça-feira (22/05) requerimento, apresentado por Eliomar e assinado por mais 16 vereadores, de instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar indícios de irregularidades nas obras, nos equipamentos e nos contratos firmados pela prefeitura do Rio para os Jogos Pan-Americanos.
Há fatos preocupantes, divulgados pela imprensa e relatados pelo acórdão 282 do Tribunal de Contas da União, que exigem uma investigação: a construção do Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, prevista inicialmente em R$ 166 milhões, já consumiu cerca de R$ 400 milhões, teve mais de 20 aditamentos ao contrato, e ainda não está finalizada; em função do atraso das obras, alguns serviços acabam sendo feitos sem licitação e, portanto, sem um procedimento administrativo adequado que garanta a lisura das operações.
Além disso, as metas estabelecidas na Agenda Social do Pan não foram cumpridas. Por tudo isso, é preciso investigar se houve má administração dos recursos públicos por parte da prefeitura. Caso isso tenha ocorrido, o processo será enviado ao Ministério Público para que sejam tomadas as providências cabíveis. A CPI deverá ser instalada na próxima semana e terá 120 dias para apresentar seu relatório final.
(da newsletter do Mandato Chico Alencar - www.chicoalencar.com.br)
Este blog está acompanhando criticamente o Pan 2007. Vide post anterior.
quinta-feira, 24 de maio de 2007
Os médicos também são capitalistas. De que adianta "sair voado" do trabalho, mais cedo que o normal, se ao chegar ao consultório na hora marcada há cinco pessoas na minha frente, devido ao atraso de consultas anteriores? Acontece que sempre que vou lá é assim, o que me permite a suspeita: quanto mais consultas, melhor. Qualquer atraso, o paciente espera! Absurdo, como muitas das buscas pelo lucro máximo.
Pois eu é que não fico lá esperando. Daqui a uma hora eu volto, e me mando pra Cobal do Humaitá em busca de um crepe e um mate limão.
E vem a cena.
60 e mais anos, camisa pra dentro da calça, barriguinha "aerodinâmica" dos chopinhos em vida. De cabeça erguida, olhos fechados (só se abriram para fixar algum ponto específico, lá no alto), braços abertos como se recebesse uma bênção divina. Ao redor, o estacionamento da Cobal, as pessoas passando e ele, concentrado.
Não demorou e veio o sinal-da-cruz, três vezes, todos terminando com 3 beijos nos dedos que vão à mão, após o Amém.
Então percebi: o ponto específico, lá no alto, era o Cristo Redentor.
Porém, mais do que entender, vi a fé. Se ela pudesse se materializar, seria naquela cena. Cadê o templo? Não havia. E o constrangimento por tal postura em público? Também não existia. Afinal, por que se envergonhar de sua fé?
Ele também não estava ali para dar espetáculo. Terminou seu momento de fé (após uma última e igualmente feliz contemplação do Cristo, ainda com os braços abertos, "em bênção"), e seguiu Cobal adentro.
Do jeito que foi a cena, não arrisco dizer que logo após ele "voltou à vida", como se antes estivesse em transe. Não, ele seguiu o curso normal de seu cotidiano, do qual a fé parece fazer parte significativa. A ponto de ser tão natural um momento daquele em público, como andar devagar ou usar camisa pra dentro da calça.
Vi a fé, pois ela não precisa de um aparato específico para ser exercida, simplesmente é espontânea e sincera. Como naquela cena. Acontece.
Vi a fé, graças ao capitalismo.
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Câmara aprova aumento dos salários na surdina

Tá na cara... de pau.
Na foto, Inocêncio (?????????????) Oliveira, deputado DEMoníaco de Pernambuco
quarta-feira, 9 de maio de 2007
Parece que é sério. Está em curso uma reforma da língua portuguesa que traria mudanças, a fim de unificar o idioma nos países lusófonos em todo o mundo. Com todas as vantagens que isso pode acarretar (dicionário único, economia devido a uma ortografia apenas), vai soar estranho. Acentos como o circunflexo, o popular "chapeuzinho", podem ser extintos. Palavras como "vôo" virariam "voo", por exemplo. Credo!
Mas nada é mais trágico do que a extinção do trema. Tão simpático, por que ser extinto? Há quem não sinta a menor afeição por ele, e dá graças pela reforma. Mas tem o seu charme. Finalizamos a palavra com todo esforço e pingamos dois pontos flutuantes em cima do U, e c'est fini, feito uma cereja no bolo recém-confeitado. Esteticamente, cumpre o seu papel com fineza.
O trema não faz mal a ninguém. Sua regra não é confusa, e não disputa lugar com outros acentos. É só no U, e acabou. É discreto, simples, fácil de grafar e administrar. Por que a implicância com ele? Pois devia ser aplicado em Portugal, Angola, Macau e demais plagas de lusa fala. Seria uma demonstração diplomática de boa vizinhança. E sem grandes custos: apenas um pouquinho de tinta espetada no papel. Ou melhor, dois pouquinhos.
Não vou mais comer cachorro-quente com lingüiça, escrever com freqüência, ver a seqüência de vitórias do Mengão, ou ler tranqüilamente. Conseqüentemente à reforma, não haverá mais conseqüencias.
segunda-feira, 7 de maio de 2007
quarta-feira, 2 de maio de 2007
Essa é pra quem é maluco por futebol ou simplesmente quer acompanhar as campanhas de times que dificilmente estarão na mídia comum. O Tribuna da Bola vai te informar sobre o cotidiano de clubes obscuros ou ex-famosos que sim, existem, e fazem a alegria de alguns poucos torcedores. Criado pelo Claudio Burger e pelo Stefano Salles, que já estão sendo reconhecidos profissionalmente pelo trabalho.
Não é nada, não é nada, mas você pode acompanhar como anda o time do seu bairro que há tempos não desponta no cenário nacional. Pode-se saber, por exemplo, que o Rubro, de Araruama, não vai nada bem, ou que o São Cristóvão perdeu para o Profute (isso mesmo, Profute), mas segue vice-líder. Até o CFZ, time de Zico, aparece na cobertura. Trabalho de primeira sobre a segundona e a terceirona cariocas.
segunda-feira, 30 de abril de 2007

A matéria fala do Pedro II, do Colégio de Aplicação da UFRJ e do CEFET como modelos de ensino, aprendizado e valorização do professor, em todo o país. Mais até do que escolas particulares que cobram alto da classe média que desistiu de lutar por um bom ensino público (tinham como pagar, né? Dane-se quem não pode...). Pois vejam: ambas instituições federais, com espírito de serviço público, plano de carreira, boa remuneração, universalidade.
A crítica às políticas públicas de educação de nosso Brasilzim também é feita: os colégios são "ilhas" de excelência, pois não existe além deles uma rede de ensino público com a mesma qualidade.
Portanto, governantes, monetaristas e povinho classe média: é possível fazer ensino público de qualidade, se bem planejado e administrado. O que me dá mais raiva nos neo-liberais não é que eu pense diferente deles - é importante aprendermos a conviver com os contrapontos. Mas é por pensarem que o "mercado" ou "as empresas" sempre são o perfeito caminho para se cuidar de direitos básicos (e que nem sempre significam lucro, ou prejuízo): saúde, educação, moradia, cultura, alimentação... E que o Estado, por si só, é uma "fonte do mal" que deve ser extirpada o mais rápido possível. Isso é um discurso construído desde o começo da década de 90, para as privatizações descerem redondo na goela da nação.
Não vou negar os problemas que um funcionário público acomodado pode causar para o país (é por aí que se bate no Estado também). Mas daí a generalizar e chegar a uma conclusão que se pretende soberana e inquestionável - "vende/terceiriza que é melhor" - é uma grande distância.
Pior do que nos eleitos, é perceber nos eleitores que o espírito público não existe mais, apenas o darwinismo sócio-econômico onde o mais forte (no bolso) sobrevive. "Eu exijo meus direitos, pois pago meus impostos", é o que mais se ouve hoje em dia. Esqueceram, por completo, que direitos humanos básicos precisam ser garantidos ou mediados pelos representantes do povo, que ocupam... o Estado. Voltando ao exemplo dos colégios: o que tem de gente querendo que os filhos voltem pra escola pública, pois tá brabo pagar mensalidade... E vão reclamar com quem, agora? Com o dono da escola, que criou um negócio da educação? Ele tem mais é que praticar o seu capitalismo pra sobreviver.
Um último aspecto que queria ressaltar, existente no bom ensino público - que aprendi ao vivo e a cores, no Colégio Pedro II - é a universalidade. Lá, os alunos usam uniformes e têm contato com pessoas de todas as classes sociais. Também no Globo, também num domingo, um educador francês confirmou o óbvio: se as crianças já crescem em ambientes desiguais (escola particular x escola pública), tal experiência e mentalidade produzida vai se propagar quando crescerem e estiverem em suas respectivas "trincheiras" em meio ao cada vez mais agudo abismo social.
(*) Essa é para alunos e ex-alunos... Pra quem não conhece, vai a cola abaixo (pede pra alguém do CPII entoar o grito de guerra):
Pedro II, tudo ou nada?
TUDO!
Então como é que é?
TABUADA!
3x9, 27! 3x7, 21!
Menos 12, ficam 9
Menos 8, ficam 1
Zumzumzum, paratibum

Em 27 de abril, Juliana Pereira da Silva, universitária, foi atingida por uma bala perdida e morreu no referido hospital, por falta de recursos.
E aí? Onde está o plano da Secretaria Estadual de Saúde de Sergio Cabral? 4 meses depois, nada parece ter mudado.
Quer cobrar do Cabral? Então lá vai:
Secretaria Estadual de Saúde: clique no envelopinho do cabeçalho (Atendimento ao Cidadão) e mande um e-mail. Ou ligue para o Gabinete do Governador, nos telefones 2553-1030 ou 2553-4573.
sexta-feira, 27 de abril de 2007
No que uma comissão do Senado aprova a redução da maioridade penal, o pai de uma menina assassinada por um menor discorda. E mais: admite que era a favor da redução só no período após o choque da morte.
Ainda que o texto termine com uma reação diferente por parte do pai, é interessante uma vítima assumir que, no calor do momento, tomaria uma decisão precipitada sobre a redução da maioridade penal.
Ouvi, "Sivucas" de plantão...
PS: aqui você confere um ótimo estudo de caso da cobertura do Globo e a pena de morte, analisando as matérias sobre o assassinato de Liana. Atemporal e universal.
Você sabia que existe o Comitê Social do Pan? É um grupo de 17 entidades que busca intervir criticamente na gestão do Pan-Americano do Rio de Janeiro. Um alento, já que a maior parte da mídia saúda o Pan como um carro-chefe de futuros lucros pro Rio, mas não coloca em foco os desperdiçadores do dinheiro público. O Pan aumentou em mais de 10 vezes o seu orçamento inicial (de R$ 800 milhões para R$ 3,5 bilhões), e lá se vai grana do Governo Federal para cobrir incompetências de planejamento dos dirigentes esportivos. Em especial, o senhor Carlos Arthur Nuzman, mais um grande aproveitador do filão do esporte brasileiro, tal e qual Ricardo Teixeira.
Algumas das entidades atuam não apenas no Pan, mas de maneira permanente. E é essencial que sejam conhecidas do público, como o Fórum Popular do Orçamento.
(*) Título de artigo do deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), também sobre o Pan-Americano.
quinta-feira, 26 de abril de 2007
O luto é necessário. A perda traz impacto fulminante, é impossível prosseguir do mesmo jeito no dia seguinte a ela. A imunidade emocional vai lá embaixo, e a metáfora biológica se aplica em todos os aspectos. É preciso convalescência.
Ao mesmo tempo, o luto tem um dado curioso, mesmo em suas expressões mais tradicionais: possui um período. Um dia, mais ou menos de acordo com a dor referente, foram estipulados vários períodos de luto. Luto oficial de três dias, uma semana. Algumas viúvas já ficaram enlutadas por um, três ou sete anos!
Mas é um período determinado. Ou seja, existe a necessidade de se viver o luto, e também a necessidade de que ele termine. E isso algum dia foi programado, pensado, planejado. Precisamos estar cientes, e buscar essa mentalidade: o luto é essencial após as perdas, mas deve terminar. Do contrário, ficamos estagnados. Fim do luto é recomeço da luta.
Não sejamos frios pensando que todo luto tem um período e ponto final. Cada um no seu tempo, mas com a consciência de que ele tem que acabar a tempo da vida seguir.
Pequenos grandes aprendizados do cotidiano.
"A saudade é arrumar o quarto/Do filho que já morreu/
("Pedaço de Mim", Chico Buarque)
Você pode perder um filho sem ter um filho. Não tenho filhos, pretendo ter. Tudo o que sei sobre o assunto vem de leituras, relatos ouvidos ou acompanhamento pessoal de outros pais e seus filhos.
Logo, sei que um filho quase sempre chega na hora certa, mesmo que na hora não pareça. Independente disso, um filho, desde sua concepção, é cercado de expectativas e especulações. Nele os pais projetam muita coisa (isso pode ser ruim, se mal administrado pelos genitores), aguardam e depois observam seu crescimento, desenvolvimento, amadurecimento. Ver um filho formado ou casando não é apenas um sonho classe média. É a coroação viva de uma criação que, com todas as suas limitações, vê naquele garotão ali uma licença para se orgulhar, é o ápice a ser curtido, o fruto depurado e alçando vôo.
Seu filho pode ser um projeto pessoal ou profissional, uma ocasião que conjugaria em suas execuções resultados há muito buscados por você. Que a partir dela você seria potencializado, suas expectativas se renovariam. O "bom" orgulho chegaria te deixando suspirar pelo que você batalhou anteriormente para que aquele momento pudesse ser do jeito sonhado.
Você pode perder um filho numa bala perdida.
Uma bala perdida é tão estúpida quanto os mesquinhos que possuem uma nesga de poder sobre você. E que são extremamente competentes no exercício desse poder e na refinação de sua mesquinharia cruel e míope.
Você pode ser órfão de filho.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
FHC roubado na Espanha
Ele deve estar se roendo de raiva por que não foi num país de terceiro mundo, e porque nem pode culpar o PT...
quinta-feira, 19 de abril de 2007

O carioca é um ser inteligente?
Nasci no Engenho Novo e me criei em São Cristóvão, após passar um breve período no Rocha. Minha noiva, quando começamos a namorar, morava no Rio Comprido. Congrego numa igreja do Centro da cidade (onde também trabalho), e tenho grandes amigos que moram em Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca. Sou carioca, portanto. Não quero sair desta cidade, com todas as facilidades que um centro urbano possui, mesmo com suas desvantagens.
Como qualquer carioca - seja rico, seja pobre - estou indignado com a violência (de novo, meu Deus!) e seriamente preocupado em me acostumar com episódios bárbaros e tiroteios em praça pública. Mas o pior é que a sensação que tenho é que o carioca está embrutecendo e emburrecendo.
Por que alguém acredita que o Exército vai resolver o problema da violência? Por que essa é sempre a solução tratada como ideal após situações de calamidade pública movidas a bala? Por que temos essa ilusão, ainda mais que as Forças Armadas são do país, e não de um estado exclusivo? E sabendo que eles ficarão temporariamente apenas? Eles não são preparados para o policiamento urbano, e isso não é uma ofensa aos soldados, mas uma constatação de função. Dão, no máximo, uma sensação de segurança.
Eu me pergunto por que o carioca só resolve cobrar uma coisa dos governantes: a presença do Exército. Se acontecer, não será a primeira vez. O que adiantou? Será que cada governador, pra não contrariar um pensamento único do público, encampa esse teatro deliberadamente?
Irmãos cariocas, vamos cobrar permanentemente de nossos representantes políticos um ensino público de qualidade que seja universal, atendendo a todas as classes - e não protestar contra o aumento de mensalidades; moradias decentes para todos - e não a remoção de seres indesejáveis; uma polícia ética - e não um zé mané que nos alivie de mão molhada a irregularidade cometida no trânsito. Enfim, vamos nos indignar contra quem é devido, e pelos motivos devidos, com coerência.
Carioca, seja inteligente, em vez de ajudar a cavar a própria cova social e humanitária. Não se acostume a ser cínico só porque você pode pagar por saúde, educação, segurança e dane-se o resto. Pois como vemos em nosso dia-a-dia, tá tudo interligado. E não vai ser o Exército que vai dar um jeitinho.
terça-feira, 17 de abril de 2007
"Esquece tudo. Esquece de tudo. De tudo. Lembra só que eu te amo. Quando eu chegar em casa te ligo, tá? Beijo", disse ele, fechando o flip do celular e se calando, ao meu lado no ônibus. O que aconteceu? Onde? O que se discutiu em relação? Silêncio.
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Minha noiva não pode ter ciúme dela. Ela não me dá um tempo, está sempre me perseguindo, não larga do meu pé. Eu não posso fazer nada, é involuntário, ela é que não me deixa em paz. Nos lugares que vou, com as pessoas que conheço, tudo com o que me relaciono envolve, um dia, a presença dela. Assim que me distraio ela chega sem cerimônia, nem quer saber se está sendo inconveniente. Pode me arrasar em público, ou tão somente me arrancar um sorriso esperto - e essa imprevisibilidade é terrível. As sensações que ela me causa quando chega são inesquecíveis. Sua lealdade é canina (às vezes, cachorra), seu feeling para me abordar indefeso é impressionante, e eu acabo sucumbindo aos seus encantos. Ela está na minha vida faz tempo, e parece que já me acostumei. É isso, gente minha: a IRONIA não me dá sossego.
quinta-feira, 12 de abril de 2007
quarta-feira, 11 de abril de 2007
Não se vende mais picolé no Centro do Rio? Da Cinelândia ao Castelo, nenhum lugar com aquele freezer cheio deles? Que cidade é essa? Sem um Chicabon pra adoçar o bico depois do almoço não há quem güente.
Existem um bilhão de lanchonetes de sucos naturais + salgados anti-naturais, restaurantes chiques e sujões, uma geração inteira de camelôs desafiando a física nas calçadas, mas nada de picolé! Achei até uma baiana vendendo acarajé e uma loja só de Rolex. É possível? Da Bahia a Wall Street, e nada de Chicabon. Andei com calma, olhei pra tudo quanto é rua, direção e calçada. Nada do doce gelado.
sábado, 7 de abril de 2007
Trabalhar no Centro do Rio de Janeiro é sensacional. Além das características clássicas (gente de todo o tipo e parte da cidade, tudo acessível a alguns passos) as cenas que a gente flagra são inesquecíveis.
Na esquina da Av. Almirante Barroso com Av. Rio Branco, tal e qual muitas esquinas do Centro na sexta-feira pós-expediente, estão lá: o churrasquinho perfumador (ah, a fumaça que se insere em nossas roupas...) e as caixas de som ecoando o pagodinho. Seria mais uma sexta e mais uma esquina, se não fosse a existência de um notebook!
Sim, apoiado naquelas históricas mesinhas de bar feitas de metal, um notebook conectado às caixas de som! O sujeito camelô com sua camisetinha surrada, boné de algum candidato da última eleição e a lista de músicas selecionadas no Windows Media Player. Ao léu, num ambiente em que tudo quanto é executivo inventa inúmeros disfarces para proteger seus notebooks do olho grande da ladroagem. Fiquei tão surpreso que comentei com meu colega de trabalho, apontando pro camelô feito criança. A carinha orgulhosa do carinha que administrava o equipamento foi hilária.
Tenho a impressão de que este não será o último post sobre o Centro do Rio...
quinta-feira, 5 de abril de 2007

Melhor que a vitória do Mengão na Libertadores sobre o Maracaibo (falarei adiante), foi a gama de alegria pelo ocorrido em pleno Maracanã. Em busca do gol mil (será o pote de ouro no fim do arco-íris?), Romário permanece em branco e o Vasco está desclassificado da Copa do Brasil... pelo Gama. Com todo o respeito ao Gama, mas Brasília não tem futebol. Atire a primeira pedra o brasiliense que não tenha um segundo time, dos grandes do Brasil! Foi lindo. Lembrando o Pet em 2001, uma falta certeira aos 49 do segundo tempo. Gamei! E chega de trocadilhos.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
Ah, o que é uma nova postagem mesmo? Postagem espontânea, sem a sisudez de um artigo pré-elaborado (que tem todo o meu respeito), postar simplesmente pra exercer o direito de ir e vir na internet via blog. Blog, ô lugarzim bom pra desopilar, desabafar, sentir-se ouvido, pôr a público o que você acha que deve. Blog é legal.
Nostalgia também é legal. Reli o artigo que deu origem à face opinativa do blog, também reli meu primeiro post, vi que o Lessa27 (ex-Lessog) vai pros seus cinco anos em outubro, e espero fazer uma comemoração especial. No começo era o "verbinho": pequenos posts, dicas culturais ou um apontamentozinho sobre um desapontamentozinho. Vez em quando vinha um caminhão bonito de palavras, como a despedida de meu avô Lessa. Mexe com quem lê, mas mexe antes comigo. Se eu releio então...
Com todas as más notícias desse mundo (muitas vezes necessárias, pra denunciar com responsabilidade e conteúdo o que não pode continuar errado), penso que a Internet é uma das ótimas. Calma, amiguinho, não vou abolir as críticas necessárias a ela. Mas é bom. Pra quem tem acesso fácil, é bom demais. O mundo ao seu alcance - ao menos o mundo informativo, que muito me interessa, comunicador que sou. Blog então...
Blog então é meu. Meu espacinho no espação abstrato e virtual da rede, caracterizado pela minha pretensa humanidade da boa colaboração a quem interessar possa. Minhas letras, minhas imagens pesquisadas e postadas, meus links, meus arquivos, meu contador de pageviews (êba!). E fácil de mexer, que mais eu quero?
Mas eu falava de nostalgia blogueira. Lembrei que já escrevi pequenos posts quando dava na telha, mas encaretei um pouco e os abandonei. Tô pensando em voltar. Nosso cotidiano dá tanta pauta, tanta coisa legal, engraçada e recomendável pra dizer... Por que apenas artigos argumentativos, que não nascem aos borbotões? São importantes, fazem parte de meu propósito com o Lessa27, mas não precisam ter dedicação exclusiva. Essa é a conclusão a que cheguei, fruto da nostalgia.
Ironicamente (a ironia é muito leal à minha pessoa), tal conclusão vem na forma de um artigo. Fazer o quê? A gente não escolhe o que vai escrever. O "algo" a ser escrito é que já nos escolheu, e fica à espreita de uma oportunidade emocional pra vir à tona. Nada anormal. É questão de assumir essa relação de co-dependência que temos com esse "algo". Blog é só sala de parto.
Pois é, taí, nova postagem. Bom isso. Preciso praticar mais.
sexta-feira, 30 de março de 2007
It's wonderful to be heresexta-feira, 16 de março de 2007
Caro Senna,
Marcos André Lessa
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Os tablóides pioram a vida do povo. Abusam do sensacionalismo e fazem um discurso cujo tom exacerbado desvia a atenção do que realmente importa: os fatos em si, a reflexão sobre eles, e a devida contextualização. Aliás, o mínimo de contextualização só existe até onde convém. A barbárie cometida por ladrões que arrastaram pelas ruas um menino preso no cinto de segurança serve como exemplo.
Abro o Expresso de hoje (08/02/2007), que fala da prisão dos ladrões. Destaco algumas frases:
"Isso não pode ser gente" (manchete);
"Dois desalmados foram presos...";
"Um deles é maior. Se condenado, sai da cadeia em 5 anos. O outro é menor e não fica mais de 3 anos internado. Isso é justiça, meu Deus?";
Depois de narrar novamente o passo-a-passo do episódio, desde o roubo até deixarem o carro com menino pendurado do lado de fora, segue:
"Mesmo assim, devem ficar pouco tempo na cadeia (...) Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, o menor X. poderá pegar no máximo três anos";
Sendo assim, o que nos resta? Pena de morte, claro. Afinal, não têm alma e não são gente. E, além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente é um atraso de vida para o cidadão injustiçado.
Assim é construído o discurso. O Estatuto só é evocado quando "alivia" a pena de bandidos menores de idade. Quase ninguém lembra que ele traz uma legislação que protege filhos que apanham dos pais ou sofrem qualquer tipo de abuso. E que a ressocialização em instituições - onde o menor X. ficará por três anos - é prevista para todo o tipo de menor, não apenas para os bárbaros (que não existem aos milhares. A intensidade de um ato bárbaro é que é explorada de maneira sensacionalista para dar essa impressão).
NÃO ESTOU DEFENDENDO OS LADRÕES. Defendo um jornalismo responsável que trate assuntos sérios de maneira séria, sem reducionismos e desrespeito para com os envolvidos. A violência no Rio de Janeiro foi banalizada por veículos como Expresso, Extra, Meia Hora e outros pelo Brasil. Mas eles revelam a face mais rasteira de uma mentalidade que permeia entre seus "irmãos maiores": os jornalões de classe média encampam o mesmo discurso simplista, que não aborda o contexto da violência, apenas protestam contra o incômodo em volta de seus castelos usando dos meios de comunicação que dispõem.
Com esse tipo de jornalismo, famílias como a de João Hélio continuarão sendo vilipendiadas: pela violência física e pelos por seus "pseudo-porta-vozes" mercantilistas de pautas.
Marcos André Lessa
Jornalista
domingo, 31 de dezembro de 2006

Eu quero um jornalismo melhor
Cheguei à sala de meu amigo André Mello com a cara de quem acabara de escrever o artigo abaixo ("Eu sou do Rio de Janeiro" - de fato, eu tinha acabado de escrever). Triste por ver o Rio sitiado novamente e um pouco temeroso com minha volta pra casa. Não puxei uma cadeira, explicando que precisava encontrar minha irmã para irmos logo. Sem levantar, ele me pergunta:
- Por causa dos boatos?
Digo que sim, que a estação do metrô da Saens Peña estava fechada, e que eu estava meio nervoso com tudo aquilo. Ele me fala que, quanto às causas dos ataques criminosos à cidade, tudo parece ser reduzido a questões pontuais, como um descontentamento com o fim das regalias nas prisões, ou um alerta ao novo governo do estado.
- Nós sabemos que há algo maior por trás disso. É um discurso do medo construído na mídia que deixa as pessoas nesse estado de pânico.
- Calma aí, André. De ontem para hoje aconteceram ataques simultâneos em todas as partes da cidade.
- Eu andei por toda a cidade hoje e estou aqui.
- Eu também! Concordo que muitas vezes o discurso midiático insufla "ondas de terror" na população, mas agora são fatos: um ônibus foi incendiado na Avenida Brasil, pessoas morreram carbonizadas. Fora o que já te disse, ocorrências em toda a cidade, em vários pontos.
André não altera a entonação da voz e nem se levanta da cadeira. Mas não possui um ar cínico ou indiferente para com a situação, ou com meu relato. Jornalista, antropólogo e pastor presbiteriano, sabe que não pode jogar palavras vazias a seus interlocutores.
- Existem algumas coisas a serem consideradas no contexto do momento. Primeiro, há um vácuo de notícias, é uma semana tradicionalmente fraca pra isso. Depois, estamos no "limbo" entre governos estaduais: o comandante da polícia de agora não continua na segunda-feira, e o que vai assumir ainda não manda nada.
- É verdade. Ainda assim, André, os episódios de violência aconteceram.
- Sim, mas o que precisamos perceber é que a maioria das ocorrências não é inédita. A não ser o ônibus interestadual incendiado. É algo diferente, um ato de terror. Ainda assim, já houve um incêndio antes, só que o ônibus era intermunicipal (ele se refere ao ônibus 350, incendiado em Brás de Pina, em 2005. E outros foram incendiados sem vítimas, em alguns pontos da cidade e da Baixada Fluminense). Os tiros, assaltos, granadas, todos já ocorreram outras vezes na cidade do Rio de Janeiro. Se você pegar o jornal O Povo de manhã verá o que ocorre nas madrugadas toda semana, são episódios como esses.
- Mas a gente não pode banalizar os acontecimentos assim...
- Não é banalizar, não. Mas ninguém fala do pior: que a violência está imiscuída na nossa sociedade, e tão corriqueira que, aí sim, banalizamos ao não destacarmos esse aspecto. Por que surgem essas "ondas de terror" em todos os telejornais, de repente? Olha só...Você já leu esse livro aqui?
André pega de sua estante Cultura do Medo, de Barry Glassner, que fez uma ponta no documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore. Na contracapa, as aspas do autor: "A TV não inventa o que mostra, mas escolhe o que mostrar". Na orelha do livro, outra frase: "A poluição é algo bem mais preocupante e perigoso que todas as outras coisas das quais a mídia insiste que tenhamos medo". É por aí que vai o pensamento de André. Em nenhum momento ele demonstra insensibilidade para com as pessoas que sofreram com os episódios de violência de ontem, pelo contrário: solidariza-se com aqueles que já sofreram antes mas que não ofereciam o Ibope que convinha - como numa última semana do ano, raquítica em notícias.
Imediatamente me lembrei que, em época de Copa do Mundo ou na semana do Carnaval, o Rio de Janeiro é a cidade mais pacífica do planeta. Nenhuma ocorrência violenta é noticiada.
- Precisamos nos preocupar com a situação dos presídios, por exemplo. Quem acha que a solução é lotar as penitenciárias ou reduzir a maioridade penal nunca esteve num presídio. A situação é tão caótica que daqui a um tempo as rebeliões e fugas em massa generalizadas não serão contidas. Aí sim teremos um terror incontrolável nas ruas. Como no exemplo da poluição, estamos muito pouco preocupados com o que realmente importa e pode causar transtornos da ordem social.
As políticas públicas que atendem mais aos sintomas da hora do pânico, em vez de agir na origem do problema: raramente sou "torpedeado" por notícias sobre isso.
A hora passa e eu realmente preciso ir. Levo emprestado o livro, e saio da sala de André mais calmo. Não menos preocupado com a violência urbana da metrópole, mas bem mais imune às "ondas de terror" de fermento midiático. Resolvo desligar a TV até o ano que vem.
quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Eu sou do Rio de Janeiro
Do alto andar aonde trabalho sinto-me Robinson Crusoé. Uma vez cheguei mais tarde e, duas horas antes, quase em frente ao meu prédio, um passante foi baleado por estar perto de um assalto. Da janela deu pra ver o vermelho sangue. Centro do Rio de Janeiro.
Há duas semanas, a duas quadras de onde trabalho, um vigia do banco Itaú atirou numa pessoa que, parada na porta giratória, pareceu-lhe suspeito ladrão. Não era, mas morreu assim mesmo. Hoje, passando em frente à agência aonde aconteceu o episódio, vejo uma manifestação com cartazes dizendo que o tiro foi movido a racismo. E que o assassino está solto.
Ontem minha cidade foi alvo de estratégicos ataques terroristas nada preconceituosos: atingiram moradores da Zona Sul à Zona Norte, do outro lado da ponte Rio-Niterói e também visitantes de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Destes, sete morreram queimados dentro de um ônibus recém-assaltado na Avenida Brasil e em seguida incendiado. Um policial que dava plantão numa cabine na Praia de Botafogo pela primeira vez morreu metralhado, além do ambulante que fazia ponto ao lado. Delegacias também foram atacadas, algumas com granadas.
Tenho um amigo de infância que hoje é policial, noivo de uma amiga que é de Cachoeiro do Itapemirim. Ele está de férias, ela estava em casa, eu estou em paz (agora).
Sinto-me Robinson Crusoé ao não ser atingido (diretamente) por nada disso, porém tudo acontecendo ao meu redor. Já andei muito pela Avenida Brasil, trabalhando ou chegando de viagem; já passei muito por portas giratórias dos bancos, já trabalhei quatro anos num deles; todo dia ando pelas inúmeras ruas do Centro; sempre vou ao Cinemark Botafogo; já peguei carona com meu amigo de infância, voltando do futebol.
Sinto-me Robinson Crusoé ao saber que os chefões do crime têm regalias e que as mesmas, quando ameaçadas, param e matam a cidade. Ou quando o jornal local ofende os moradores ao entrevistar ao vivo o presidente da Riotur, para que o mesmo discorra sobre os prejuízos do episódio para o reveillon e para a chegada de turistas na cidade.
Hoje discordei de uma amiga quando ela disse que o mundo era um lixo, que os seres humanos eram um lixo, e que por isso ela não queria gerar descendência.
Eu, Robinson Crusoé que estou, só queria continuar a discordar.
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
A culpa é de JKQuebremos o mito. Somente os arquitetos devem dar graças pelo governo de Juscelino Kubitschek. Afinal, Brasília é um marco mundial da qualidade dos brasileiros Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Fora isso, a cidade é uma fortaleza que cristalizou no espaço público e geográfico brasileiro a impunidade inconseqüente. É uma ilha em terra firme, cercada de distância do povo, fisicamente mesmo. E isso foi uma tragédia para a democracia.
O aumento de 91% dos salários dos parlamentares do Congresso, dado pelos próprios, é uma prova disso. Renan Calheiros e Aldo Rebelo, respectivamente presidentes do Senado e da Câmara, transparecem na foto acima a cara de quem está fazendo muita caquinha. Mas sabem que o único ônus que vão enfrentar é o mau humor da opinião pública. Nada mais. Nunca a opinião pública foi tão fraca, e Brasília ajuda nesse processo.
"Se essa palhaçada fosse na Cinelândia/Ia ter muita gente pra juntar na saída/Pra fazer justiça, uma vez na vida". Os versos de Herbert Vianna nunca foram tão atuais. Se o Senado e a Câmara continuassem no centro da cidade do Rio de Janeiro, ao lado do povo, cuja maioria circula por ali na busca diária de salários nada astronômicos, duvido que estariam tão tranqüilos em aprovar um aumento desses. Por mais que um exaltado quisesse chegar às mortais vias de fato - que nossa racionalidade condena mas, confessemos, dá vontade - no mínimo teriam que agüentar protestos bem próximos.
Mas eles estão em Brasília. No meio do deserto Planalto Central, numa cidade inventada sem vizinhança. E, na Praça dos Três Poderes, antes de se chegar aos Palácios e Casas Parlamentares, há um lago que anula qualquer tentativa de aproximação não autorizada. JK, com sua idéia incensada até hoje, deixou o povo longe dos políticos, e realizou o sonho obscuro de todo político mal-intencionado: ficar distante do povo enquanto não há novas eleições. Só por essa loucura, JK já pode ser considerado um desastre para o país. Sua cidade inviabilizou ainda mais a democracia.
Quando vier a próxima proposta de Reforma da Previdência (que não duvido que possa ser necessária, haja vista o envelhecimento da população), cobremos dos nossos representantes o exemplo vindo de cima. O corte ou congelamento dos salários deles; o corte nos jetons e auxílios paletó, gasolina, cafézinho; a demissão de metade dos assessores de gabinete; a extinção da indecente aposentadoria vitalícia para ex-presidentes, ex-governadores, ex-senadores e ex-deputados, que conseguem conquistá-la com dois mandatos apenas (no caso do presidente, um mandato). Não se engane com a desculpa de que o Congresso cortou despesas que possibilitaram o aumento. A questão é mais moral do que econômica. Não é justo, uma vez que não pode ser aplicado aos demais cidadãos.
Após a catarse, vamos ao espelho: você, que deve se lembrar em quem votou, pesquise se ele votou a favor desse indecente aumento (a votação foi dos líderes dos partidos, mas ainda assim o candidato, que pertence a um partido, deve uma explicação). Se tiver contato pessoal com ele, pergunte por que votou a favor (ou foi conivente) diante da gritante desigualdade social brasileira, diante da carga tributária avassaladora e do leão morto a cada dia pela maioria dos brasileiros, tão somente para sobreviver com dignidade. Incomode-o, apesar de Brasília. E não vote nele outra vez, pra que todos aprendam. Faça a sua parte. Ou seja omisso e engula caladinho essa nova falta de vergonha. E não venha murmurar perto de mim depois...
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Mrs. Northfleet
Ellen Gracie Northfleet, brasileira. Primeira mulher a presidir o Supremo Tribunal Federal (STF), instância máxima do Poder Judiciário. Devido ao cargo, na ausência do Presidente da República, do Vice, e dos presidentes da Câmara e do Senado, ela pode ser também a primeira mulher a exercer o cargo de mandatária-chefe da nação. Deve ter enfrentado preconceitos e machismos da sociedade para exercer sua vocação. Para chegar ao posto em que está, também deve ter estudado muito as leis do país, principalmente a Constituição Nacional.
Ellen, semanas atrás, propôs que o teto dos salários dos juízes dos Ministérios Públicos Estaduais deveria ser equiparado ao teto dos ministros do STF. Nos valores atuais, o salário passaria de R$ 22.111,00 para R$ 24.500,00. Como se já não bastasse a Câmara e o Senado defenderem o aumento de 91% dos seus vencimentos, recentemente. Se o Executivo passou por escândalos e o Legislativo prosseguiu legislando em causa própria, só faltava o Judiciário se pronunciar. Poderia condenar publicamente a falta de bom senso dos congressistas, mas não. Com a proposta de Ellen, legitimou o descalabro flagrante com o dinheiro público. Também em causa própria.
Gracie não esperava a grita da opinião pública, que rechaçou tal atitude de quem já recebe seus proventos muito acima da média dos brasileiros, sem contar os auxílios congênitos. Averiguou e disse que cerca de 300 juízes já recebiam acima do teto, ilegalmente. Não disse quem ou onde, deixando no ar a imprecisão da informação e a desconfiança de que soltou um oportuno sofisma pra acalmar os ânimos que ela mesma exaltou.
Northfleet, com toda a capacidade intelectual que deve ter para ser ministra do STF, parece não perceber que a desigualdade social agrava a violência. Que poucos com tanto e tantos com tão pouco são um vácuo perfeito para o sentimento de injustiça geral e para alguns que preferem fazer a justiça com as próprias mãos. Inspirados em Robin Hood na prática (mas não no caráter), existem para tomar dos outros o que lhes falta, ou o que cobiçam.
Que os astutos leitores deste blog não percebam nestes parágrafos a complacência com bandidos. Roubou, que seja preso. No entanto, a sensação de "enxugar gelo" é constante, e não seria melhor se, de uma vez por todas, os líderes de nosso país resolvessem caminhar na direção de reduzir a desigualdade? Será que a violência não seria menor um dia? Mas quando menos esperamos, o Executivo desvia fundos, o Legislativo mira o umbigo, e o Judiciário consente e pede o seu "naco".
Ellen Gracie Northfleet veio ao Rio de Janeiro e uma quadrilha a assaltou na Linha Vermelha. Num lugar em que muitos trabalhadores que ganham bem menos que a ministra já foram assaltados. Veria ela alguma relação de sua indecente proposta com o acontecido? "Como você consegue viver nessa cidade?", desabafou Ellen com um amigo carioca, após o assalto. Da mesma maneira que tentamos viver nesse país, Gracie. Da mesma maneira heróica que, dia após dia, teimamos em acreditar que nosso Brasil diminuirá seus atrasos de mentalidade e visão de governo, apesar de seus líderes (em quem votamos, não esqueçamos disso também). Conseguimos viver, Northflleet, com salários básicos, sobreviver com salários mínimos, conviver de perto com a violência e suspirar tristes diante de exemplos como o do Judiciário. Não podemos votar para o STF, infelizmente.
Ellen Gracie Northfleet, brasileira. Exímia conhecedora da Constituição Nacional, que busca promover a igualdade de direitos. Parece desinformada sobre o país que habita e onde rege as leis, e insensível para com os cidadãos que precisam suportá-las na frieza da falta de bom senso. Ellen Gracie Northflleet, brasileira? Nem no nome. Se pensa que vive em outro país - como demonstram suas ações e pronunciamentos - que se desaloje bem rápido do nosso. Com todos os seus pares compadres.
quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Cafuné nevrálgico
- Barra ou ponto?
Nunca tinha pensado seriamente na questão. Barra ou ponto? Alguma diferença iconográfica que refletisse a essência do compromisso? Ah, eu não pensei nisso. Pensei no preço, no melhor momento de comprar e de anunciar a toda a família, nos arranhões, nos cuidados, na sua durabilidade.
- Barra ou ponto?
Olhei para ela, depois olhei para Carolina e perguntei, hesitante:
- Ponto, né? O que você acha...?
- Ponto.
Pronto. Ponto. E ponto.
Seria "Carolina - 26.10.03" na minha e "Marcos - 26.10.03" na dela. Dia do começo do namoro. Agora, barra ou ponto? Isso é pergunta que se faça? Não por ser indiscreta ou algo do tipo, mas eu pensaria se na aliança a data seria 26/10/03 (com barra) ou 26.10.03 (com ponto)?
Não existe assunto tão torpedeado hoje quanto o casamento. No entanto, as pessoas seguem se casando. Seja tradicionalmente, seja "juntando", seja de qualquer outra forma (e agora até de gênero), as pessoas continuam criando a expectativa do casamento, com que cara ele tenha. Permanecem na ansiedade de, um dia, terem alguém por mais tempo ao seu lado, um compromisso. Sim, as pessoas querem compromisso. É só ver que quase ninguém suporta uma traição, apesar do folclore em torno do assunto. Não raro, paga-se uma traição com outra, pra fazer o "canalha" ou a "vaca" sentirem o mesmo (ou, no mínimo, deseja-se isso). Ou seja, nada de sublimação, é vingança com a mesma moeda devastadora de emoções.
Também não colam muito os discursos galináceos de que esse papo de compromisso e ter alguém a seu lado não é comigo, eu quero aproveitar a vida e ser feliz! Sim, vai fazer isso, mas um dia, num muxoxo para si próprio, a fim de não passar vergonha diante dos demais, olhará para o seu dedo e para sua cama de solteiro e reconhecerá que, sim, seria ótimo um cafuné no pescoço. E não qualquer cafuné: aquele de quem sabe o ponto nevrálgico da satisfação que um cafuné pode proporcionar, tão somente porque te conhece do avesso e sabe do que e como você gosta. Fruto de convivência, compromisso, aliança (com barra ou ponto, ou figurativamente).
Os discursos ressaltando que "não nascemos para a monogamia, veja só os animais!" (nossa, hoje nos orgulhamos de ser comparados com animais!) ainda se perpetuarão. Mas como todo bem elaborado discurso, terá a provação da realidade para tentar se sustentar e seguir orientando vidas. Continuará nesse propósito, até encontrar o caminho da humildade e reconhecer: "meu pescoço por um cafuné no próprio".
Há os pesares, as crises que surgem durante os relacionamentos, as complexidades que sabemos que existem e que não merecem ser tratadas superficialmente aqui. Ainda assim, essa raça humana continua querendo casar, ter compromisso. Por que, já que há sempre um "perrengue" de plantão pra azedar o clima e depois ainda ter que dividir o mesmo cobertor à noite? Ora, eu não me dispus a explicar o fenômeno, mas a constatar. Só tenha absoluta certeza de que o cafuné nevrálgico é intraduzível.
Quando você perceber que "barra ou ponto?"- uma pergunta superficial que se refere a uma inscrição literalmente superficial numa jóia - consegue ter a profundidade de te deixar hesitante e gestor de todos esses devaneios, é capaz de você concordar comigo. E potencialmente próximo da satisfação de estar a dois.
quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Não é outro
Você caminha pelo centro da cidade do Rio de Janeiro e olha pra cima. Como em toda grande metrópole, lá estão os altos prédios, na avassaladora maioria locais de trabalho. Você volta o seu olhar para o horizonte e, qualquer que seja a sua altura, ali estão pessoas e mais pessoas indo e vindo, na avassaladora maioria em busca de comida, isto é, almoço (você olha ao meio-dia, ok?).
Você sai mais cedo, às 11:45, também em busca de comida - fresca, quentinha - e de um ambiente necessário para uma paz gastronômica - sem estar abarrotado, para não haver engarrafamento de pratos e Visa Electron no serve-te a ti mesmo (self-service).
Você normalmente andaria rápido, com reflexos acurados para desviar de um possível encontrão ou morte enquanto atravessa a larga rua apinhada. Mas você resolve fazer diferente: já saiu mais cedo mesmo, resolve andar como gente normal (na sua avassaladora maioria, pessoas que trabalham no centro e almoçam todas na mesma hora não parecem normais). Para os demais, você anda devagar e é obstáculo aos esfomeados. Para você, é um rompante da rotina que muitas vezes você teve vontade de viver e, sem saber direito por que cargas culturais d'água, você nunca conseguiu.
Aliás, se assim não fosse, você não olharia como olhou no primeiro parágrafo.
Você come e estranha a calmaria de sua hora de almoço. Você termina, estranha que terminou e que ainda tem meia hora antes de voltar ao seu alto prédio. Você se dá o direito de ter uma sobremesa entre livros na Travessa do Ouvidor, sentir o aroma dos papéis e de um perfume que aquele estabelecimento coloca (talvez numa estratégia de deixar cada visitante à vontade até correr sério risco de virar clientela).
Você olha novamente para cima, para o horizonte, para as pessoas, para o mundo corriqueiro de cada hora de almoço e se espanta. A surpresa vem pelo fato de que, quando você olha pra tudo isso, inevitavelmente você se vê olhando pra si. Olha pra você. Olha pra isso! Olha pra esse, ou pra essa. Pra ti.
Olha como você deixa de ser você se você se enreda pelo ritmo imposto. Pelas imposições que não se justificam e sequer se explicam. Você se olha e não se reconhece. Você precisa parar com isso. Você precisa parar. Você precisa de você de volta.
Você precisa estar novamente - e tão somente - a vossa mercê.
quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Eu gosto de correr.
Então me vi correndo numa pista, dessas que circundam o gramado central dos estádios olímpicos. Não era corrida rasa, eu parecia correr numa velocidade constante e prudente para preservar meu fôlego até o fim. Na verdade, parecia que eu estava num de meus treinos diários, para manter meu condicionamento físico. Não havia mais ninguém no estádio: nem nas arquibancadas, nem na pista. Era apenas eu e um dia ensolarado, correndo e suando, diligentemente.
De repente comecei a reparar num vulto à minha frente, na pista. Minha curiosidade me fez acelerar, deixando um pouco de lado a disciplina do treino. A imagem ficava mais nítida, e eu já podia perceber que era uma pessoa branca, de camiseta e meias idem, e calção preto, correndo. Achei estranho, pois não tinha visto ninguém entrar no estádio ou na pista. Sozinho por ali, seria difícil alguém passar desapercebido por mim.
A silhueta me é familiar, mas de costas você não tem certeza absoluta se conhece ou não qualquer pessoa. Não tinha outra escolha senão correr mais, e eu já percebia que o ritmo daquele desconhecido era mais forte que o meu, e também mais firme e constante. Fui chegando, chegando e de curioso passei a intrigado: eu conheço esse cara. Mas de onde? Por coincidência, sua roupa era exatamente igual à minha. Eu suava bem mais do que quando o avistei, e agora meu objetivo era emparelhar com ele. Objetivo é eufemismo, tinha virado obssessão. Quem é esse cara?
Então eu consegui, fiquei bem ao lado dele, fazendo um esforço extra, concentrado no momento em que ia matar minha curiosidade. Saber quem era aquele estranho, aquele intruso do meu treino, aquele "copião" dos meus trajes, aquele que corria mais rápido (e melhor) do que eu.
Tive que controlar o susto. O corredor era eu. Talvez fosse um clone, um sósia, uma brincadeira de mau gosto. Mas tinha certeza que não. Era eu, de alguma maneira em outra dimensão da vida, em outro momento. Correndo mais e melhor do que eu. Ele (eu?) não se abalava, permanecia na sua velocidade, sequer se virou para me olhar também. Depois de uma súbita parada devido ao susto, fiquei em desvantagem, eu (ele?) já estava de novo lá na frente. Percebi que eu não conseguia mais acompanhá-lo. Por mais forças que empenhasse, ficava entre nós aquela distância na pista. Eu corria mais do que eu mesmo.
A dificuldade de processar as mudanças que acontecem em nossa vida, sejam elas boas ou más, quando ocorridas em curto espaço de tempo. Os sintomas daquela "avalanche" surgindo e a gente sem saber de onde vêm, um descontrole de emoções não-identificáveis na sua totalidade. O medo do novo, do desconhecido. Por incrível que pareça, o medo de ser feliz e "cair dentro" do propósito de felicidade há tempos anunciado e para o qual nos preparávamos. A própria preparação surpreendida pelos fatos que andaram mais rápido que qualquer planejamento sóbrio.
Resta-me voltar à pista e me dar conta de que tenho corrido mais do que eu mesmo. Volto a meu ritmo, sabendo da necessidade do treino e da disciplina. Porém me lembro de algo muito importante. Algo mais importante do que todo o plano de treinamento, o melhor tênis ou as roupas mais leves para melhorar meu desempenho. Mais especial até do que passar pela inesquecível experiência de me ver correndo contra mim numa pista - isso seria um desespero se não tivesse me lembrado do que lembrei então.
Eu lembrei que gosto de correr.
Sem essa constatação, nunca me verei entrelaçando os braços comigo mesmo numa pista, correndo no mesmo ritmo, até me ultrapassar, ganhar confiança e terreno. E olhar pra trás, percebendo que desapareci, que estava sozinho novamente. Mas que não seria pela última vez.



